2015-07-29

(Volume 3) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle italiane



III    (volume anterior aqui)

O avião deu várias voltas a Roma. Disse-me o Dez-cartas, entretanto esperto, que o piloto aguardava autorização da torre de controlo para aterrar. Os atletas nacionais foram levantando a cabeça à medida que o movimento da nave se tornava menos coerente. A cada volta o avião assumia uma grande inclinação e os "olha o Coliseu", "olha o Vaticano" do Dez-cartas irritavam-me a mim e excitavam os miúdos, que olhavam de forma oblíqua para trás a ver se ele estava a brincar e depois procuravam nos terraços de Roma, pelas janelitas do avião, a solução. Os nervos fizeram-me recapitular a meia-final do mundial de voleibol de 90 entre o Brasil e a Itália e o Dez-cartas pareceu genuinamente interessado, até porque quis saber onde era a zona um, eu disse que era logo a do serviço e que as zonas, no court de voleibol, se contavam ao contrário da rotação, que por sua vez se fazia no sentido dos ponteiros do relógio. Portanto, a rotação, em voleibol, é a favor do tempo, mas conta-se contra ele. Então, deixa-me ver, o Lucchetta, para bater a bola ao centro da rede para uma zona entre a um e a dois...hum....deve ter sido muito bonito. E quando dizes segunda linha, queres dizer o quê? Há uma linha riscada a três metros da divisória dos campos que define o ataque e a defesa. Atacas à frente dela, defendes atrás dela. O ataque tem uma área que é metade da defesa. Quando atacas atrás da linha dos três metros, atacas de segunda linha. E o cubano Despaigne atacava assim? O Despaigne era solicitado em quase todos os pontos do campo. E era eficaz? Muito. Saltava atrás dos três metros, batia em voo na projecção do metro e meio, de cima para baixo, com muita violência, muitas vezes a quatro metros de altura. Os miúdos olhavam de lado. Os parolos falam de voleibol? Olha o Coliseu, olha o Vaticano, ai que estamos a descer, é como se o avião fosse pisando o degrau inferior, os flaps das asas cada vez mais abertos, travão a fundo, palmas, estamos no chão. Abraço o Dez-cartas comovido. Estavas com medo? Sim, isso e nem acredito que estou na Itália com que sonhei toda a minha vida. Começámos a odisseia aeroportuária para ir buscar o carro alugado. Os balcões romanos de aluguer pareciam a fila da sopa, com a agravante de que não se pode reclamar qualquer dignidade para a necessidade de um carro, muito menos compará-la com a fome, disse, e com toda a razão, o Dez-cartas. Mas isto é triste. E a ansiedade na cara das pessoas, certas de terem sido apanhadas numa espécie de armadilha? E as surpresas, e os sobre-custos? Chegou a minha vez e comecei a aprender. Perguntaram-me se aceitava um Panda automático. Nunca conduzi um carro automático. A minha interlocutora na alugadora disse que também não, que me tentaria arranjar um carro melhor, porque os Pandas manuais estavam todos ocupados - melhor, deixe-me ser sincera, disse ela, não mandamos carros menos seguros para o sul de Itália -, mas que, além disso, havia um problema. Nunca tinha usado o cartão de crédito que o banco teimara em dar-me. Mas a Nádia da agência de viagens pediu-me tantas vezes um cartão de crédito que eu cedi o meu e dei-lho. E assim reservou ela tudo, avião, carro, dormida. Os valores só seriam descontados no final, mas disseram-me no balcão da sopa que o meu cartão não estava autorizado. O Dez-cartas tinha um, mas não conduzia, não pode ser. Ofereceram-me o telefone para ligar à Nádia, mas a Nádia disse que não podia fazer nada, que provavelmente tinha um plafond. Mas se eu ainda não gastei tostão e eles todos aceitaram as reservas e tenho para aí dez mil euros à ordem? Tentei que me aceitassem a garantia em dinheiro, mas nada. São regras. O Dez-cartas via-me nervoso e pedia, ao longe, que me acalmasse. Estava de guarda às malas. À volta dele a diáspora. Pelas minhas contas, eram pelo menos sete horas de viagem para o sul de Itália e os meninos desfilavam nas ruas de Cinquefrondi às oito da noite. Era quase uma da tarde. Comecei a choramingar. A minha interlocutora na alugadora chamava-se Cristina Ribaldo, era muito magrinha e tentou acalmar-me dizendo que conhecia muito bem um escritor português. Como se chama, perguntei eu. O livro era "Sostiene Pereira" ou algo assim. Ah, mas esse não é português, é italiano, chama-se Tabuchi. Mas agora isso não interessa. Sostiene Bernardi que a aventura italiana não pode acabar entre as sopas de um aeroporto. Fui tomar um café e pensar numa solução. A cafetaria era sporca, o empregado da cafetaria sporco era e ainda por cima esperto, fartava-se de mandar bocas na fímbria dos lábios que nem os italianos percebiam. Pedi um Spresso Lungo, veio um curto. Ouça lá, eu disse lungo. E ele, com uma unha de tocar guitarra ostentando uma linha preta de quase meio centímetro de sujidade, meteu a ponta do dedo dentro da pequena chávena e perguntou: e isto não é lungo? Não. E ele, contrariado e ruminando as piadas para trás, meteu-lhe mais uma gota em cima. Eu disse que não queria saber. Telefonei para o meu balcão, cujo demorou mais de uma hora a atender, e falei com a Sílvia, que, para sorte minha, era gerente e me resolveu a questão noutra hora. A magra da Cristina Ribaldo levantou-se para pedir autorização do upgrade de carro ao gerente e, realmente, a minha avaliação sobre a sua magreza fora espúria: era cintadinha e vivamente bem feita. Vai levar aqui uma bomba, um Clio ou assim, e eu até entendo que ela pensasse que eu achava o Clio uma bomba, porque eu tinha pedido um Panda. Regressei para junto do Dez-cartas, que me exigiu o sorriso que eu não tinha. Já não vou ver os miúdos. Deixa lá, pá. Mais tarde saberíamos que os ragazzi seriam atropelados por discursos oficiais durante três horas para dez minutos de desfile nas ruas, e só agora estava a começar o maravilhoso mundo da Cantábria, que, como verão, não tem méritos na organização, mas no lascia-andare, e aí reside um pouco do seu encanto e lição ao mundo. A Calábria é Legendriana. Tem o fervoroso coração italiano de tronco nu. Mas já lá vamos. Agora estou a insultar, a meias, o Dez-cartas e a GPS. "A" porque personalizei a menina que fala nos mapas do meu telemóvel e lhe chamo Gabriela Pereira de Sousa. Ora, o Dez-cartas deu a ideia: já que não conseguimos chegar a tempo da apresentação, porque é que não vamos almoçar a Pompeia e ver os corpos suplicantes? Era suposto a Gabriela tirar-nos de Roma, mas ela, em vez de nos levar para Pompeia, levou-nos para Pomeza, na zona industrial de Roma - confesso que aquilo era assustador. No rádio já tocava aquela que viria a ser a canção desta viagem, e que na altura me fez gritar com o Dez-cartas para que desligasse aquilo: "Sigarette", a nova do Neffa (eu nem sei quem é o Neffa, foi o Shazam que me disse). Sigarette la mattina la-la-lalla-la-la-la / sotto questa pioggia fina la-la-lalla-la-la-la. A Gabriela mandava-nos virar para becos sem saída, perdemos mais uma hora e acabámos a almoçar num McDonalds na orla de Roma, a tentar sentir-nos felizes. Quando regressámos à estrada, já ninguém queria ver ou visitar nada, só fazer quilómetros. E assim foi. Velocidade lenta na aproximação a Salerno, experimentação das inacreditáveis áreas de serviço da A3 com 35 graus cá fora, saída para a montanha em fila indiana por causa dos lavori in corso e a noite a cair: disseram-nos, ao longo desta semana, que toda a Itália são lavori in corso, sempre. Muitas horas depois, na aproximação a Vibo Valentia, já dentro da Calábria, finalmente, pudemos pressentir a beleza das vistas que levavam o nosso olhar até Reggio e à Sicília, em frente, mas era só um pressentimento que nos era dado pelo prateado da lua no mar ou pela linha de luzes na costa, ao longe, porque a noite se fechara sobre os montes. O trilho final foi feito por pequenas estradas comunais sem iluminação, e aí a Gabriela, que enlouquecera às portas de Roma, disse presente. E chegámos à nossa aldeia, Nicotera, um povoado antiquíssimo sobre o Mediterrâneo, por quelhas medievais remendadas, com os músculos da cara retesados e alma meia encomendada à providência. Estacionei junto a uma igreja e liguei ao anfitrião, Giovanni, que não falava inglês e tentou explicar onde ficava a que seria a nossa casa num labirinto onde não havia nomes nas ruas. Nessa altura já nem me lembrava que tinha vindo pelo Voleibol. O Giovanni teve de descer a aldeia toda com o seu Panda para nos dizer onde era a casa. Abriu a porta e estava quente, muito quente. Eu e o Dez-cartas começámos a pingar, o Govanni sequinho. Explicou-nos o básico e disse: prima colazzione são duzentos metros a subir até aos Terraços de não sei quê. No dia seguinte saberíamos o que são duzentos metros a subir: nem o Elevador da Glória. O Dez-cartas lá tomou banho num chuveiro que molhava a sanita toda e eu, na janela sobre o Mediterrâneo que só me devolvia prata, chorava a rir.

(continua no Volume 4)

também pode ler Volume 1 e Volume 2

PG-M 2015
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2015-07-28

(Volume 2) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália – Novelle Italiane



II   (volume anterior aqui)

Brasil, Maracanãzinho, 27 de Outubro de 1990, cerca de vinte mil brasileiros nas bancadas, algumas centenas de italianos, meia-final do mundial de voleibol, joga pela Itália a chamada geração dos fenómenos, mas a equipa que limpava tudo, com um magnífico Joe Despaigne como estrela, era mesmo Cuba; – expliquei eu ao Dez-cartas, tentando abstrair-me das manobras do avião no aeroporto de Lisboa,  a preparar a descolagem. Pedi ao Dez-cartas para ficar à janela, era a primeira vez que andava de avião, tudo me parecia fora de escala, tudo menos a jovem selecção portuguesa. Tivemos de ir apanhar o voo a Lisboa, a Nádia, da agência de viagens da nossa aldeia, disse que era a melhor alternativa tão em cima do Europeu, protestou por terem marcado a prova para tão longe e o Dez-cartas ofereceu-se para levar o carro dele – que por acaso é um Panda – até Lisboa e, como viemos de madrugada e o voo era logo às seis e tal da manhã, eu sugeri ao Dez-cartas que deixasse o carro mal estacionado num quelha perto do aeroporto que eles chamam de segunda circular, parece que é a viela que define psicologicamente as classes de tiffosi portugueses e os divide entre o verde da esperança e o vermelho da paixão (há uma versão pessimista, diria mesmo arrivista, de que aqui não curaremos), disse o Dez-cartas e eu não tenho culpa, porque eu só abri a boca para lhe explicar que o preço do reboque pelo estacionamento na segunda circular era mais barato do que o estacionamento no aeroporto durante uma semana. O Dez-cartas manobrou o carro numa zona da segunda circular em que não há rails de protecção e deixou-o ali perto da BP, à sombrinha, debaixo de uma árvore de um jardinzinho muito bonito e prático. Tirámos as bagagens de mão e fizemos aquele bocadinho a pé. Como só levávamos bagaglio a mano, a Nádia disse que podia fazer o check-in online e que podíamos ir directamente ao controlo de bagagem. Como não sabíamos bem como fazer isso, perguntámos a um senhor com uma camisa da Ana, não que algum de nós conhecesse a Ana, mas porque nos pareceu o mais prático, mas ele limitou-se a falar para um walkie-talkie e a gemer monossílabos que nenhum de nós entendeu. Eu sorri-lhe, o Dez-cartas sorriu-lhe, mas nada: ficou, não impávido, não sereno, mas teso e com umas gotículas de suor a escorregar-lhe da testa que o Dez-cartas me explicou serem a sublimação da fúria. É nesta altura que vemos os miúdos da selecção nacional que virão a ser os nossos ídolos e o nosso refúgio, não no farwest, mas all’estremo sud. Primeiro salvamento. Eu e Dez-Cartas estamos vestidos de verde e vermelho da cabeça aos pés, com cachecóis alusivos que adquirimos ao merchandising oficial e dizem “Portugal Young Braves”, para serem entendidos pelo mundo inteiro. Consigo um autógrafo do André M e do Diogo O, porque os outros, embora com aquele sorriso lúteo do medo, não se chegaram às fitas exteriores do check-in. Os corredores para controlo de bagagem são em zigue-zague: faz-se um quilómetro para percorrer quinze metros. Tenho uma condição cardíaca e a menina da segurança, que está formatada para intimidar, tem de me abraçar e amparar. Nem assim consigo passar os líquidos, e tenho mesmo de pagar três euros por uma garrafa de água na zona de trânsito. O embarque foi mais calmo e eu até percebo certas pessoas mais experimentadas que querem fingir que viajar de avião é o seu dia a dia. Nunca olham para os quadros de informações ou, uma vez dentro do avião, também não olham pelas janelitas, lêem muito e nunca rebatem a cadeira antes do tempo, como nós, parolos. E, como eu antecipei que a descolagem ia ser um momento definidor no meu espectro gnoseológico, preferi desviar o assunto para a geração-fenómeno italiana nessa meia-final do mundial de voleibol de 1990. A equipa principal costumava ser Lorenzo Bernardi, claro, e Luca Cantagalli como pontas, Zorzi a oposto, Paolo Tofoli distribuidor, e os centrais, dois Andrea: Gardini e Lucchetta. Lembro-me disto, não sei se foi mesmo assim, mas tu percebes, Dez-cartas. Brasil e Itália estão empatados a 12 na negra. O "murazo" italiano opõe-se ao ataque brasileiro. 13-12 para a Itália. Na jogada seguinte, Bernardi recebe como nos livros, Tofoli passa – colocando as mãos de forma a que o central brasileiro sinta que tem de saltar ao bloco para um bola rápida do central italiano, mas Tofoli empurra a bola para a ponta e Cantagalli bate à linha; 14-12;  Brasil faz um ponto, 14-13, e serve, recebe Cantagalli e corre novamente para a ponta, Tofoli coloca outra vez as mãos de forma a não serem lidas e faz o passe curto, em salto, para o central, Lucchetta, que bate limpo para a zona um. Quer dizer, a bola cai ali na zona intermédia entre a um e a dois. A Itália está na final do mundial do Rio de Janeiro. O avião está no ar. Dez-cartas já dorme. Os miúdos da selecção vão sentados a dez metros de mim, mas, apesar dos meus acenos, nem um olha. Que profissionalismo. Penso que, mal Dez-cartas acorde, tenho de lhe explicar que a final do mundial de 1990 vai ser Itália-Cuba, que Cuba ganhou na primeira fase à Itália por 3-0, e que se ergue esse monstro do voleibol mundial que é o Joel Despaigne, que atacava a mais de quatro metros de altura, bloqueava apenas quinze centímetros abaixo e chegou às trezentas e cinquenta internacionalizações por Cuba. Curiosamente, é um ídolo popular, porque os lugares oficiais tendem a ignorar os diamantes do Fidel, o Despaigne e, mais tarde, o Leonel Marshal, que tinham algumas parecenças em estilo de jogo (dizem as lendas que Marshal chegou a saltar 1,70m). Despaigne acabou por vir, claro, para Itália, onde todo um povo, do voleibol e fora dele, o venera e respeita. Treina uma equipa da segunda liga italiana, mas não sei se ainda salta mais de um metro. Aposto que sim. Esperem que o Dez-cartas acorde para eu lhe contar isto. Não falta muito para chegar a Roma.

(continua no Volume 3)
também pode ler o volume 1 aqui
PG-M 2015
fonte da foto (Andrea Lucchetta)

2015-07-21

(Volume I) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle Italiane

 I
Não me chamo Bernardi. No entanto, metade da vila piscatória onde ora resido chama-me Bernardi. Não sabem de onde cheguei, um dia, de repente, nos idos de dois mil e tal, com uma obsessão pela geração de ouro do voleibol italiano e clamando, num sotaque trentino, que Lorenzo Bernardi era o melhor jogador de voleibol de sempre. Que finalmente a FIVB o tinha reconhecido como tal - com efeito, ser o melhor do século XX é ser o melhor de sempre. No dia em que cheguei envergava a camisola número 15 do USA Volleyball Team com Kiraly a encimar o dorsal. Ninguém no Café Central contrapôs que Kiraly tinha ganho a distinção ex-aequo com Bernardi, nem podia saber que, verdadeiramente, eu não gostava de Kiraly. Ninguém no Café Central podia ou queria saber.
A metade da vila que me chama Bernardi considera-me meio louco. A outra metade não  me chama nada nem tem opinião formada. Não é rigoroso dizer, contudo que, estatisticamente, toda a vila me atestou, perante a autoridade sanitária central, como vinte e cinco por centro louco. Não obstante, foi isso que atestou o Doutor Remédios que, como é consabido, conseguiu concluir o curso de Medicina sem nunca ter feito Matemática: conclui ele e atestou que, como metade da vila considerava o indivíduo Barnardi meio louco e a outra metade não tinha opinião formada, conclui-se e atesta-se que tal indivíduo tem vinte e cinco por centro de incapacidade para o trabalho, devendo por isso ser colmatada a falta pela sociedade e ter o indivíduo direito a uma pensão que se fixa em (preencher) Euros. Estive um ano para que o bom do Doutor Remédios preenchesse o valor que me devia ser pago. Entretanto, vivi a esmola. Ontem foram-me pagos os retroactivos. A primeira coisa que o Dez-Cartas, o filósofo do Café Central, me disse depois de lhe mostrar o envelope com o dinheiro e a factura à sociedade, sabendo da minha obsessão por voleibol, é que o filho do advogado que me tratou do caso pro bono parte para Itália amanhã para jogar pela selecção nacional sub-17 de Portugal. Se guardas isso, a senhoria, que é uma ladra, vai roubar-te tudo, nomeadamente exigindo as rendas atrasadas e reparação dos buracos dos parafusos para afixação de posters emoldurados de voleibol. Depositas o valor legal na Caixa e vais ver a selecção a Itália. Foi pelo Dez-Cartas que soube que o  Doutor Remédios tinha sido remetido administrativamente para a glória de licenciado na confusão dos saneamentos da liberdade - era, pois, um lutador e um indivíduo credível. Adoptei o alvitre como brilhante: o que podia ser melhor para o desfrute da pureza do voleibol do que ir apoiar uma equipa sem adeptos que era o embrião do futuro? Um dia, disse o Dez-Cartas, arrecadarás comenda pelo estatuto de cordão umbilical destes miúdos voadores e o país, não apenas a aldeia, se encurvará deante de ti - e disse-o assim mesmo, não perante, mas deante, com pedante arcaísmo. Fomos ambos à agência de viagens do povo, cuja abriu só para nós -  a agência de viagens tinha a vidraça mais marcada pelas nossas testas do que pelo limpa-vidros, porque lá passávamos horas a estudar folhetos desbotados de viagens impossíveis.

(continua no volume II)

PG-M 2015
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2015-06-06

És tu, mulher lisboeta

hei-de escrever-te um épico sobre os jardins suspensos de Lisboa
e os maravilhosos subterrâneos do metro onde encontro sempre
as mais bonitas de todas as mulheres do mundo
e as pessoas apinhadas têm uma sonoridade especial ou então as multidões
que esperam no cais quando a composição se demora
do outro lado
casos há em que uma tristeza elíptica se torna redonda e
por vezes
perpendicular à tua
casos esses em que pode ser tudo
mas já não é tristeza
entretanto
voltarei aos jardins suspensos para te escrever
será sobre a beleza nunca vista
que retirarei do metro ou de uma repartição pública

És tu, mulher lisboeta


PG-M 2015
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2015-06-01

Bárbara ao mundo

Há um cometa na Madalena que tem a qualidade de estar sempre visível e de ter um brilho constante. Esse brilho constante, dizem, é dos planetas. Também se aceita: afinal a Bárbara é tudo isso: cometa, planeta, universo.

No desporto tendemos a glorificar o sucesso, os títulos, a técnica, as estrelas, mas sabemos, quando estamos sentados nas bancadas de um pavilhão, que o nosso amor, a nossa admiração, nem sempre incide sobre os fortes - as mais das vezes torcemos pelos mais fracos ou pelos mais marcantes. Quando se assiste a um jogo ao vivo, olhamos e lemos o que bem entendemos no espectro do jogo: podemos seguir um só detalhe, um só jogador, um só fiscal de linha, durante o tempo todo. A verdade é que são todos os pormenores, juntos, que dão corpo ao jogo, não apenas os elementos centrais.
Hoje venho falar-vos da excelência que também se lê dessa forma. O nome deste tipo de excelência é conhecido: chama-se humanidade. Há muitos virtuosos que guardam a virtude só para si: a Bárbara estende-a pelo mundo. E destaco-a de um fim-de-semana onde houve vários campeões. Ontem, ao assistir, na nave de Esmoriz, a um jogo de voleibol da fase final de cadetes femininos onde se discutia o quinto lugar, entre a AA São Mamede e o C Atlântico da Madalena, os nossos olhos, num misto de ternura e admiração, seguiram sempre aquela menina número 17, do Atlântico da Madalena, do princípio ao fim do jogo, e estas linhas são uma crónica de celebração dela.
Bárbara ao mundo.
Porque a Bárbara, que fez dezasseis anitos o mês passado, merece um prémio qualquer, que não de latão, e já se faz tarde. Uma homenagem preliminar, se quiserem, antes do tempo todo passar sobre ela. Não será a única. Mas é única. Vemo-la e ouvimo-la desde pequenina progredir naqueles courts de voleibol, nos corredores, nas bancadas, sabemos que é impossível estarmos tristes à beira dela, passam os anos e ela não esmorece. Com o cabelo frisado preso num rabo de cavalo e um sorriso rasgado que leva ao limite em todos os jogos, tão ao limite que por vezes chora de intensidade, a Bárbara, capitã na derrota ou na vitória, corre os pavilhões deste país a abraços. Literalmente a abraços. Colegas de equipa, público, árbitros, adversários, todos já levaram o seu abraço doce que redime. Afinal, esteja em nós a tristeza da derrota ou o entusiasmo da vitória, o abraço da Bárbara é como um nível. Um nível é um instrumento que marca a horizontalidade de uma linha ou superfície, fundando-se na diferente densidade do ar e da água. Quando a bolha está quase a rebentar, o abraço da Bárbara apazigua. Ela toma as dores dos outros, muitas vezes à custa de si própria. E, se o comportamento dela fora do campo é por todos conhecido e apreciado - ainda ontem, sendo uma fase final, pudemos ver a Bárbara correr todas as equipas que estavam no pavilhão, depois de uma derrota, a abraços, alguns bem longos; a Bárbara comove porque nos mostra, afinal, onde está a substância do desporto -, o comportamento dentro do campo não é muito diferente da menina que corre os pavilhões há uns bons anos, com a voz rouca que protesta ou estimula, e é capaz de atravessar várias vezes o court todo a dar ânimo às companheiras, como, em jogo, numa mesma jogada, chega a servir, a ir ao chão salvar bolas perdidas e a atacar com eficácia.
Lembro-me de estar na bancada e, observando a Bárbara, comentar com o meu filho, que tem a honra de jogar no mesmo clube, que era há muito o fã número um daquela menina, daquela força da natureza. Depois do festival que ela nos proporcionou ontem, impus-me tirar-lhe esta fotografia escrita e deixá-la exposta aos anos. A Bárbara nunca vai envelhecer porque tem em si uma certa eternidade. A Bárbara é uma festa.
E corporiza muitos dos sentimentos que a timidez, a reserva, o pudor, não deixam outros tantos demonstrar: a Bárbara é afecto puro, o nosso e o dela. A Bárbara é ímpar.

Ontem, em Esmoriz, se a Bárbara olhasse do campo para a bancada, veria vários rostos comovidos com a sua beleza, que é toda e que é a todo o tempo. O prémio não é de latão, é de ouro: e a metáfora estafada serve-nos para o troféu. Bárbara de ouro.
O nosso troféu é ela própria.
Campeã absoluta em todas as modalidades e de qualquer forma que olhemos para ela.
As nossas lágrimas e os nossos sorrisos foram sempre acolhidos por ela.
Doravante as lágrimas ou o sorriso dela serão sempre acolhidos por nós.
Eis o pedestal que ela merece.
Eis Bárbara ao mundo.


PG-M 2015
foto propriedade de Esmoriz Ginásio Clube

2015-05-10

Atlântico campeão nacional de voleibol

 E aí está. Há três anos campeão da 3ª, há dois campeão da 2ª, há poucas horas o nosso Atlântico da Madalena sagrou-se campeão nacional da 1ª divisão. Só com portugueses. Num jogo épico, em que esteve a ganhar por 2-0 e teve oito match points no terceiro set, permitindo a redução do outro grande finalista, o Castêlo da Maia, com um 35-33 (!!!) - grande jogo do Castêlo - e depois de se deixar empatar a 2, o Atlântico venceu a negra por 15-13, levando o pavilhão do Castêlo (repleto de gaienses) ao rubro. 
Parabéns também ao Benfica, que venceu nos Açores e inaugurou um novo título máximo, campeão de elite. É uma página histórica para Gaia. Ficam abaixo, em vídeo, os momentos finais do jogo do título.

2015-05-04

as mãos


olha as mãos distintas da mãe
segurando a travessa a caminho
da mesa
olha a tristeza

subindo pelos fumos do jantar
olha as minhas próprias mãos roçando a toalha de linho
junto ao joelho da prima e olha para ti depois de tudo
fraco para evitar que da revoada ou da bruma
volte a descer o desgosto
o pai tinha uma mãos bonitas que nas costas e nas falanges
tinham pelinhos curtos que à morte foram brancos
e ainda cingimos quentes porque nós,

já velhos, esperámos no quarto o fim
como em meninos a alvorada

um de cada lado do pai de mão dada pela alameda dos plátanos
que no verão era a infinita lonjura
da ventura
e na primavera o trilho infausto dos amores
no outono as folhas de pontas caídas
no inverno as próprias mãos do pai
mais do que os casacos e os chapéus
e os galhos suplicantes
até nos encostarmos à cerca de cimento caiada a branco
da estação
e quando os comboios passavam
o pai nos puxar para ele e as mãos
nos guardarem


perpetuamente


como matéria negra onde
explodem supernovas
e bailam trajes de luzes
pelas eras

terás mornas as mãos dos que amaste
entre as tuas e os laços dos dedos

atados para sempre
olha as mãos dela apertando os livros
ao peito e a travessia

contigo, olha as mãos
a velar o sorriso, olha
a estrela polar na galáxia
proximal e as mãos enfim
entre as tuas ou em concha
sob os frutos
olha as mãos dele sem saber onde ficar
na vertigem do cruzamento
com ela, olha as mãos

nas algibeiras, olha
a estrela polar na galáxia
proximal e os nós
sobre os teus no curso
dos afluentes

olha as mãos dos bebés a dar-te
virtude
olha as mãos das crianças a dar-te
guarida
olha as mãos dos amigos e
os braços que em partes
da vida são inteiros

amparos

olha a piedade
das mãos dos maestros
em todos os aplausos
que abriste
olha as mãos dos médicos
a erguerem tabiques

entre os medos

olha as mãos dos professores
no giz que alumia
o quadro negro
olha as mãos que pungem

as teclas e erguem as forcas
dos números, de como é devassa
a hierarquia
olha as mãos no gatilho
das pistolas com os canos apontados
às bocas
olha as mãos nos microfones
dos que falam sem voz
de como é deus

o nada

olha as mãos dos músicos a pedir
esmola

olhas as mãos dos escritores
na ocultação exacta
do inútil
olhas as mãos dos pintores
no cosmos do traço
exordial
olha as mãos dos escultores
na evidência da
amputação


olha as mãos que formaram violinos
do arame farpado e descansam
com perdão e lágrimas
nos dedos
desfeitos os punhos que combatem a memória olha as mãos
sinaleiras sobre as mãos sinaleiras


olha outra vez a piedade
das mãos sobre o teu rosto
olha as mãos dos padeiros sobre a fome


olha as mãos de tribunos sobre o

brio, olha a espada nas mãos
de magistrados e padres
nas mãos de profetas
olha filósofos em silêncio e mãos
no ar e o riso troante
nos campos finitos e no mar
olha as mãos dos pescadores
olha as mãos dos poetas a chorar
olha as mãos de polícias

a abjugar e a arder
como as mãos de bombeiros
olha as mãos dos carpinteiros na

saciedade e as de troia
em todos, todos!, os cavalos
olha as mãos dos sapateiros
nos caminhos por fazer
olha as mãos na água por beber
olha as mãos na terra por comer
olha as mãos da avó
a pelar as castanhas cozidas
e as mãos do avô nas malgas
de vinho e nas conchas
de sopa

olha os abraços à porta das aldeias
olha a piedade do vento

nas mãos da turba e a solidão
das mãos do mundo inteiro
nas mais longas auroras e agora
olha as mãos da mãe a ceder ao inverno, lassas
da forma que deram aos colos, doridas
da leveza que ofereceram às
almas
e aos solos
olha as mãos do pai
como galhos suplicantes
o pai na alameda dos plátanos de chapéu e
casaco, por fim



PG-M 2015
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2015-05-01

Ana de Amsterdam e Thomas Bernhard

 Outro dia, em plena leitura cúmplice, ia escrever "como é bonita Ana de Amsterdam".
E depois de Thomas Bernhard senti-me enganado.

Aqui por casa todos se riam quando eu dizia que nunca tinha lido ninguém tão inconveviente, bruto e insensível para a sensibilidade média das cidades e do mundo como o Thomas, e no entanto algo de luminoso sai de cada linha, a textura das frases é fresca e redentora, e não é exactamente o que vi dito dele na imprensa, com os graus superlativos e comparativos do costume, como se o tempo já tivesse acabado ("Herberto cortou o século XX em dois", vejam bem, e nem sequer foi incluído nos quinze anos que adentrou o XXI). Do Bernhard há passagens perfeitamente loucas, que foram apenas o exercício desse direito, de ser louco. Ana tem um timbre quente, às vezes fervente, mesmo quando diz que está triste. Se Thomas tivesse dito mal do Porto como, por exemplo, de Salzburgo, eu ia sorrir e aproveitar a oportunidade para evoluir. Mas Thomas está morto e esse diálogo faz-se de outra forma - quando vivo, poucos entre os visados aproveitaram a oportunidade para evoluir, pelo contrário, cerraram as fileiras da mediocridade. Já Ana está viva, bem viva, e é desconcertante e estimulante. É um teste de hipocrisia que se podia comprar nas farmácias como os testes de gravidez. E uma verdadeira páscoa. 

PG-M 2015

2015-04-08

sempre foste a mais bela da rua


Sempre foste a mais bela da rua
mas antes do medo, meu amor,
eu exaltava o teu cabelo
e as minhas mãos nele
agora não tens cabelo e

usas na cabeça um lenço com motivos indistintos

tens chorado ao espelho
preferes que não te toque
achas-te feia e fechas as
portas

já não há pretextos, meu amor,
ainda que os teus olhos tenham
uma tristeza comprida dentro 
e ela escorra nas paredes e
faça ruído na escuridão 

já não há pretextos 
e está tudo igual,
excepto a beleza

que antes tinha detalhe
e o volume dos cabelos 
e o engano da textura
e a ilusão do perfume
e agora é apenas

absoluta



PG-M
fonte da foto

2015-02-25

O doloroso sorriso de Matilde

Como era doloroso o sorriso de Matilde. Estávamos no auditório do Colégio da Bonança, em Gaia, e eu explicava ao Bruno a sobre-humanidade do amor. Havia um sorriso a pontuar as minhas intervenções que se sobrepunha a tudo o resto - um sorriso que abria o riso em momentos diferentes das aberturas do resto da sala. Depois falei ao Bruno do amor paternal e da forma como magoa, como transcende as forças e é assombrado pelo medo da perda. Como é doloroso o sorriso de Matilde. Há nela uma transparência, uma luz, um peso específico que é peso nenhum. Leveza. Fomos ainda às paixões, ao banal como segredo de uma certa felicidade, aos romances, à minha actividade de arrumador de carros na Praça dos Poveiros. Como era doloroso o sorriso de Matilde. E tudo começara na implicação da assistência. O João espirrou e as amigas riram-se. Pedi-lhe para descer da plateia até à mesa. Sentou-se ao meu lado. Ele garante que não, mas sempre achei que o espirro do João era ficção. O João tem olhos claros e francos e veio a jogo. Leu o primeiro parágrafo da intervenção, que já anunciava mais ficções, as supergémeas Patrícia e Catarina e o Pedro, filho de uma Estrela. E Matilde rutilante, sobre tudo, sobre todos.
Eu tinha planeado uma conspiração.
Os alunos todos no centro, como heróis da história, eu na plateia. Eles seriam contos, eu leitor. Queria ter inventado, mas não inventei, duas colegas para eles. Tinham de ser gémeas. Punha-as em turmas diferentes.
Ou então inventava um Pedro como eu,
mas filho de uma Estrela. Impossível. As gémeas, por exemplo, seriam as novas supermulheres, uma conduzida pelo olhar, outra pelo sorriso. Uma seria uma espécie de sancho pança da tia Agatha Christie. Teria o nome de Katniss Marques. E salvaria um tal de Roger Ackroyd. A outra seria uma feiticeira em cidades de papel. Ambas augustas, como o seu herói.
E mais uma coisita: a ajudante de uma delas tinha de se chamar irmã Lurdinhas.
A outra inventaria para si um clube azul e branco para reinar sobre o mundo.
Por fim, o Pedro teria uma Estrela de carne e osso.
Mas eles não existem.
Elas e ele tinham todos de existir para eu escrever a partir dos respectivos corpos. 

Como era doloroso, doloroso, doloroso, o sorriso de Matilde.

A professora Luísa estava de castigo. Não cumprira as regras militares mínimas para que a conspiração funcionasse. No Colégio dos Carvalhos, havia um professor que nos punha de joelhos no estrado, de costas para a turma, com as mãos debaixo dos joelhos. Dispensámos a professora das mãos e dos joelhos. Sentou-se entre os alunos, debateu comigo a gramática estruturalista, o complemento oblíquo. Como eu desejo a perversão deste ensino e a inversão desta pirâmide. Comecemos pelos livros, só os livros, os bons livros, contaminemos estes nossos parceiros de mundo com os melhores livros.

Como era doloroso, Matilde, o teu sorriso - pelas mais belas razões, como te vou explicar.

A Mariana apresentou-me e contou-me. Contou-me bem. Não por dentro, como Abigail, mas fez-me a casa de escrita pelos anos todos. Deixou que eu contasse o meu Torga. E os meus filhos. A Mariana tinha uma responsabidade. Mas quando for por ti, Mariana, só por ti, como vai ser a tua literatura, a tal que entra pelas veias e sai pelas teclas? Fala-me disso. Não demores, não demores, porque eu estou quase a explicar as boas dores.

Depois os Ruis, o filho do João Paulo (desculpa não te tratar pelo nome, mas há um arrepio do tempo inexorável quando, em vez do teu amigo, encontras o filho com a idade que te lembras de ter quando o pai fumava contigo nos intervalos), e um rapaz de que não me lembro o nome, tinha óculos e estava presente no fim. Dinis, és tu? Não  me lembro do nome, mas não me esqueço dele. Também não me lembro do nome das professoras de História, Filosofia e Economia, mas não me esqueço delas. Vou descrevê-las: uma tinha cabelo bordô, outra azul marinho, outra laranja - creio que ainda fui apresentado a uma azul celeste, à saída. Devia haver índigos e vermelhas, verdes e e lilases, pelos corredores, não sei, não sei. Todos, mesmo sem nome, têm uma refracção de luz própria e estão aqui.

Mas devo a explicação à Matilde.

Tinha-me esquecido apenas do Daniel Defoe, o do Robinson Crusoe, que escreveu a mais estranha teoria económica, mas, pensando alto, já estávamos no fim e no fim das escolas fico sempre em carne viva. Talvez não sobrevivesse todos os dias perante esta nitidez. O coração explode. Sai-se fragilizado dos circuitos essenciais da condição humana: todas as escolas têm esta substância. E, quando ela nos transcende, é duro.

Tão duro como o sorriso de Matilde.

No fim, a Inês passou ao largo sem assinaturas, sem palavras, só a empatia vista do lado dela, a representar todas as empatias que se perdem como velas a apagar, primeiro no espaço, depois no tempo, e o combate de saber delas, empatias, simpatias, e as recuperar a todo o custo, porque a carência urbana é sempre de afecto, não de alimento, ou de afecto como alimento.

As supergémeas estavam como se já me conhecessem há muito - há um novo elemento na família. É bom que falte o ar no fim das sessões das escolas, que nos sintamos todos no corpo uns dos outros. Como a Matilde, que me comoveu as horas todas. Há uma altura em que pergunto ao João, o meu assistente, como era possivel aquele sorriso, aquele riso, aquele espanto. No fim, a Matilde responde com um abraço, encaixa-se no meu torso e deixa-se ficar.

Doce, nívea, límpida, diáfana.

Podia ter ficado a tarde inteira.
Ali, debaixo de mim, dos meus dois metros por dois, o abraço de Matilde sente-se e não se sente, porque não há uma clivagem física, uma estranheza, é como se ela já fizesse parte de nós, é uma espécie de fé.

O sorriso de Matilde dói como o sorriso de um filho para um pai na cidade dos homens:

o amor é sobre-urbano
o amor é sobre-humano

O sorriso de Matilde dói porque não tem fim - e nós temos.
O sorriso de Matilde dói por causa da nossa imperfeição.
O sorriso de Matilde, que lhe encontra o rosto todo, que lhe luciluz nos olhos até deflagrar no mundo,

é perfeito. 


PG-M 2015
foto da Matilde com publicação devidamente autorizada



2015-02-14

Uma da manhã


se deixares passar muito tempo,
vais encontrar-me velho
ou ausente
a velhice é perfeita
a ausência não
há horas que são tarde

e cedo
ao mesmo tempo
mas nunca é cedo
para tomar

as mãos
e pode ser tarde se chegares

depois
se fores errante
e a estalagem te aparecer

na minha porta
passa-a
sem esperar
os nossos velórios e

funerais

são sempre cedo demais

se eu cá estiver
mesmo à uma da manhã
terei um abraço quente
e um café estreito 
se não estiver 

virás frio
eu no vaso
o mais certo
é fecharem a capela mortuária
antes da uma
e os mortos esperarem sozinhos

as horas todas



PG-M 2015
fonte da foto

2015-02-04

Já são nove da noite


já são nove da noite
a orquestra nunca tocou no botequim
a cientista fuma um cigarro
entre contagens
olha o relógio

no pulso nu deste
século

está frio no tronco proibido
do jardim
ele dentro da boca
dele

lama nas pautas da
serenata

perderam o último autocarro
nos fumos da treva
e os cafés vazios
cheios dos tristes
da madrugada

o restaurante quente e alaranjado
o portão automático a abrir
o comando na mão

o vulto fluorescente da cozinha
ele vai beijá-la uma só vez
hoje

o abraço fica até
se encher de
filhos

ou nada

estão a chorar
o cemitério já fechou
e as campas quietas
tenho tantas saudades
diz a velha já deitada
tantas saudades

as auto-estradas vão ficando
foscas
as casas claras
as pontes menores
os montes maiores
os mares iguais
aos céus

a sala de cinema enche
e há vidas que sim
e há vidas que não

que já passa
das nove
da noite



PG-M 2015
fonte da foto

2014-11-23

serei a tua Moby Dick, cabra


Já não sei se é a instabilidade do meu corpo, das minhas ideias ou da própria cidade, que começa a ser sentida como um navio prestes a embater num icebergue (podia ter tentado dizer-lhe isto: serei a tua Moby Dick, cabra), mas, enquanto percorro a floresta em direcção à penthouse, cada árvore parece marcada para me deter.


PG-M 2014
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O velho Lobo

 
O Lobo Antunes voltou a dar uma entrevista em que repete o número em que finge não conhecer os que estão a chegar à literatura, ou por cá andam há pouco. É bem feito. O velho Lobo não está louco, e comporta-se de uma forma que exige músculo e vista larga aos visados. O velho Lobo não está a desprezá-los. Se os receber individualmente, conversará com eles, ouvi-los-á. Com bom ou mau feitio, é um monstro no melhor dos sentidos e, nesta altura, merece ser respeitado por isso. A mim diverte-me ver tudo aos saltos e à estalada. Sou finalista do Leya e não sacralizo o prémio - é um investimento de um grande grupo, não importa se bom ou mau, os meus princípios não me permitem essa pronúncia, e o que tiver a dizer, digo em privado. O "Livro sem ninguém" beneficiou muito do selo de finalista - que eu fiz questão de pedir, porque, no que toca a vendas, me estou lixando para o significado do livro ou a quantidade de literatura inserta. Quero é vender: fazer o break-even para não dar prejuízo à editora, e tudo o resto é ganho, sendo que só a partir das dezenas de milhares de exemplares o escritor ganha algum poder. Eu não tenho nenhum. Mas quero vender, quero chegar ao máximo de leitores possível. No resto da vida, preocupo-me com a literatura, e não é bem com os vaidosões éditos como eu, mas com tudo o que de bom me chega, mesmo inédito. Quando lanço, ai lanço a sério e lanço longe . É óbvio que dava um jeitaço deitar a mão aos 100.000 menos impostos. Eu e mais cinco ou seis que em 2012 ficaram à bica são os que podem morder o lábio inferior com mais força. Vai uma esmolinha para os finalistas? Mas a verdade é que continuei sempre a acarinhar os vencedores, e todos os outros. Escrevi a todos os finalistas do meu ano, faço por escrever a todos os que chegam de novo à minha editora. Escrevo também a muitos literatos, mas talvez deixe de o fazer. Não creio que valha a pena. A postura de humildação praticamente desapareceu das chamadas "novas gerações" - a maioria está muito focada em si e olha de lado os próprios pares. E agora querem reclamá-la do velho Lobo? Mas não é evidente que ele faz um número que pretende isso mesmo, pôr à prova as fragilidades dos que se acotovelam e até dos que não se acotovelam por aí? Ao permanecer no meio, a única via a seguir é a do espelho. É útil observar os outros a verem-se ao espelho, como é útil observarmo-nos a nós próprios a vermo-nos ao espelho (é preciso um segundo espelho: enquanto a nossa figura nos aparecer feia, menor, e a dos outros maior do que nós, está tudo bem. Quando a nossa figura nos começar a parecer sempre esbelta, gira, impecável, e a dos outros sempre ridícula, que soem os alarmes). Como já escrevi, divertem-me e estimulam-me intelectualmente as entrevistas do velho Lobo. Devo-lhe a ele e a Saramago e à Rosário Pedreira estar édito. Posso brincar literariamente com o nosso meio, já o fiz, posso queixar-me da falta de lealdade e humildade em privado, realmente gostava de conhecer mais gente como o Afonso Cruz e o Rocha e o Miguel Roza e o Rebocho e a Mar e a Lacerda e a Cristina (e mais alguns), mas creio que os simples e claros serão sempre poucos, não adianta chorar, e o recém-chegado, também Afonso, é um menino cheio de pureza e potencial, não o cerquem, não lhe encham os ouvidos, digam só que não ligue, que "o meu irmão" é o velho Lobo, que o velho Lobo está a meter-se com ele e com todos os outros, como o Guerreiro e assim, que até confundiu teológico com gnóstico, mas isso sou eu a ser pedante, porque o Guerreiro é um tipo que também já cá anda há muito e temos é de o aturar. A verdade é que a maioria, entre os recenseadores e os autores, não sabe ouvir, dedica o tempo a destruir tudo em volta, mas, quando lhe apontam um erro, uma incorrecção de verbo ou postura, cala-se bem caladinha. Então, porquê perder tempo quando temos o velho Lobo a encher-nos a alma e até nos podemos rir com isso?

PG-M 2014