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2017-09-30

nos próximos minutos ou então a vida inteira


nos próximos minutos (ou então a vida inteira), haverá apenas dois guilhermes no mundo, um pai e um filho, tão diferentes um do outro como as copas e os troncos das árvores, como os sorrisos duros e os olhares doces, tão diferentes um do outro que os respectivos corações são poços sem fundo e quem para eles espreita dos rebordos de granito entre os meses só vê preto,

só que a entrada para o meu é pelo topo e a entrada para o teu pela base e como não têm fim nem a manipulação formal de equações, operações matemáticas, polinómios e estruturas algébricas resolve o problema a quem nos estranha:

onde fica o verdadeiro acesso?
já quem nos ama chega ao centro de olhos fechados, comigo pela pele e pelo cheiro, contigo pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

ambos comemos ética e liberdade, só que eu já engordei e tu ainda não,
pelo que comigo a ética e a liberdade funcionam como as lutas de homens e touros mais ou menos como as caracterizou um dos maiores matemáticos do nosso tempo, Hemingway, estou quase nos cinquenta e ainda não sei viver com economia física e acho que a beleza de um gajo do porto está no desbraganço e no calão e na forma vigorosa de destruir as espaldas dos amigos
(não vou agora recordar-te, com o risco de uma lamechice mortal, que a minha solução não foi opção porque era espancado em criança e um dia me levantei e comecei eu a espancar: isso seria estúpido e pouco literário; na verdade sou assim porque acredito nisto)

e tu, que só muito recentemente te tornaste homem,
comes ética e liberdade com economia

como o garcía martín lá em oviedo, a forma como um homem não se vende nem se cala - nem aos amigos, nem aos inimigos, nem aos inofensivos nem aos mais perigosos - priva-o imediatamente da unanimidade, e, como a unanimidade é perigosa, torna-o seguro

mas, na verdade, ninguém sabe que esse homem é seguro, porque o homem livre parece sempre um cabrão e um cabrão parece sempre um simpático homem livre

a diferença é que eu agora passo a vida a dizê-lo e tu não

os teus amigos percebem-te em silêncio e sem proximidade
curiosamente, no fim de contas, os meus também

posso dizer-te, meu filho, que é provável que possamos obter algum reconhecimento à morte ou na extrema velhice, nunca antes

não esperes palavras justas ou reconhecimento quando partes de um lugar ou de uma casa
não esperes agradecimentos públicos
não esperes cartazes pendurados em murais

afinal, esta filosófica busca da autenticidade - e não da verdade, que é mais falível e impura do que a matemática - traz apenas isso, autenticidade

mas, repara, não leves a mal a ninguém o silêncio perante homens com qualidades
quem pode viver sem um abraço e um elogio público?
ou ao ouvido, baixinho, para que ninguém ouça, "mano, sabes que nunca me vou esquecer de ti"?
quem pode viver sem uma noite de embriaguez e a negação da dolorosa ciência dos dias, sem os metais da vitória e do sucesso, a carne das taças e o brilho da geometria, a arrumação iconográfica do ecrã do telemóvel ou a selfie que te ilude a sentença suicida:

mas a vida é só isto? esta merda?

afinal, meu filho, a única coisa que tu fazes é voar

e ser digno


e sim, a vida é só isto, é lama e cinzento, são corpos cansados e as curvas das mulheres misturadas com as curvas dos ossos, mas, tu que és de cá,

um dia vais fazer o que eu fiz: vais levar o sobrinho do Pessoa,
que nasceu da névoa em Canidelo, naquele percurso da luz:
pelas onze da manhã, estacionas o carro na afurada, debaixo da ponte da arrábida, e diriges-te a pé rio acima e, depois da primeira curva à direita, vais apontar (eu sei que não gostas, mas, por favor, aponta) para o primeiro vislumbre da ponte de ferro e mostrar o jorro da luz da manhã a varrer o rasto dos barcos em direcção a ti e ao céptico que te acompanhar e dizer

a vida são aquelas lágrimas de há pouco, sim,
mas também isto

e lá está o meu defeito, é sempre a mesma merda:

eu só escrevi isto para te dar os parabéns como todos os pais têm dado aos filhos que entraram na universidade este ano, e mesmo aos que não conseguiram mas lutaram e vão continuar a lutar

é, pois, um texto profundamente banal e nepotista

é até bem triste que um pai se sirva do seu próprio filho como exemplo nas escolas que visita como escritor, como se não tivesse vida própria além desse filho, e é por isso que eu gostaria de esclarecer publicamente, para que fique claro, agora e sempre:

é verdade, eu não tenho vida própria além deste filho; mais precisamente: a minha vida própria é este filho e tudo o resto uma grande consequência de não haver nada mais importante

vai continuar a ser assim até descobrirem o fundo aos poços dos nossos corações, lamento

nas escolas eu digo que andavas com umas notas pouco recomendáveis no décimo ano quando viste a luz da engenharia mecânica, soubeste que estava na moda e que o lamentável crivo se aproximava de um dezoito e tu estava longe de ser um dezoito e disseste

eu quero isto


e acabaste perto do dezanove; desligaste a playstation durante um ano, perdias cinco horas por dia a treinar com a tua selecção nacional de voleibol e a combater as leis medíocres deste portugal que há muitos anos não ajuda os seus atletas e prefere fazer leis parvas que as escolas e as universidades e as federações não combatem a sério, foste dando sempre passos seguros atrás quando te queriam empurrar para a frente, mudaste de clube, foste feliz e respeitado e nunca deixaste de voar, mas os critérios de topologia, geometria, até a teoria dos números para te descrever, tudo

tudo em ti é imperceptível e infungível

e no entanto és feliz

baixas o corpo quando o distribuidor te aponta a bola, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado

sabes o teu lugar, se to tiram combates por ele e bates palmas aos adversários
e quando abraças um amigo é para sempre,
mesmo que ele não abrace de volta

mas receber o teu abraço custa uma vida
e quem te estranha, pergunta: onde fica o verdadeiro acesso?
já quem te ama chega ao centro de olhos fechados, pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

entraste

vais lutar pelo máximo, sempre

e, naquele desporto que toda a vida foi nosso, estás parado no ar,
no teu deserto privado
e sem ninguém

mesmo perto do brilho, com o corpo pronto para lutar pelo impossível,
lanças tu a bola ao ar,
baixas o corpo, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado,
na falível percepção da felicidade
mas com memória do mundo


parabéns, meu filho



PG-M 2017
foto do próprio






2017-05-13

Já ganhámos

 Nota prévia: este artigo foi escrito na manhã da vitória, mas, sinceramente, não era difícil prevê-la. O mundo inteiro apontava para ela. Junto no final o vídeo da semi-final do Eurofestival, com aquela que, das seis interpretações oficiais (3 domésticas e 3 Eurovisão, incluindo as da vitória) foi a minha preferida;

Sabem o que se usa nas redes sociais? Escrever assim amanhã, quando o Salvador encher as capas de todas as revistas e jornais, não por ser um doente cardíaco bissexual*, mas por ter ganho o Festival da Eurovisão 2017, em Kiev, "eu, no dia da semi-final doméstica, disse logo que este rapaz e esta música eram do outro mundo". Ou seja, é por minha causa que ele vai ganhar. Não é. Mas vai ganhar. Na verdade, já ganhou. E é curioso que a minha admiração tenha deixado de se dirigir ao compatriota e à bandeira portuguesa, que certamente serão uma parte do gozo, da emoção e do orgulho. A minha admiração dirige-se à universalidade e beleza da canção e à universalidade e singularidade (parece contradição, mas não é) do próprio Salvador. Creio, como se rezasse uma prece, no que vou dizer: a Luísa Sobral escreveu uma das melhores canções dos últimos séculos, não da década, não deste século, não deste e do anterior, mas de sempre. Tenho dito que é uma espécie de "Yesterday", mas é muito mais bonita. Não está em causa o mérito da Luísa, mas calhou. A conjugação das estrelas, do tempo, do momento, das redes sociais e a singularidade do intérprete fazem o resto. Também não acho que se devam preocupar com o legítimo direito ao cinismo e à fuga à unanimidade. Deixem-nos, coitados, porque já lhes basta sentirem-se sempre infelizes e não serem capazes de tomar o imenso banho de luz que esta canção dá cada vez que é cantada e não só pelo Salvador - eu já vi todas as sensibilidades rendidas, desde o bêbado de tasco até aos domésticos, dos agricultores às sopranos, mesmo os que, a princípio, aderiram a outras músicas e estranhavam o histrionismo ou a expressividade ou a singularidade do Salvador. Na verdade, essa "diferença" é só a marca do inérprete, é um factor mais na parte menor: a liderança de casas de apostas e a vitória num festival. Mas a canção está acima do Salvador e da Luísa, está já pelo mundo inteiro. A letra, em toda a sua simplicidade, agrega milhares de páginas de filósofos. Esta coisa de o amor ser tão elevado e intenso que chega para os dois e dispensar um deles de o sentir é, afinal, a história de séculos de mulheres, principalmente de mulheres, esses seres superiores. Não admira que tenha sido escrito por uma. Depois da semi-final doméstica, a canção já era trauteada nos carros a caminho do trabalho. Depois de ter ganho o Festival da Canção e ser o legítimo representante de Portugal na Eurovisão, começou a ser cantada, imitada, mimetizada, pela Europa toda, com Espanha
como a principal entusiasta, porque, afinal, com a excepção de "devagarinho" e "pelo", as palavras são quase iguais em castelhano. A orquestração é magnífica e fixa logo dois terços dos ouvintes na abertura. Depois de ter actuado na semi-final da Eurovisão, então, não há limites. A canção é pedida na abertura de bailes de casamento em todo o mundo, é cantada pelos ucranianos em
português - sim, pelos vistos quase todos a querem cantar no original, e, aqui sim, é um serviço maior à nossa língua -, há já várias covers de altíssima qualidade, da Austrália ao Japão, do Japão aos EUA, que mostram que o mérito é da própria canção, e eu tenho a certeza de que a Luísa fez um clássico de todas as eras, que será interpretado por todos os estilos musicais. O próprio Salvador se encarregou de gravar para um amigo uma versão em flamenco. Vi a irmã e o Salvador nos ensaios gerais e há duas coisas curiosas: o Salvador é melhor intérprete do que a irmã para esta versão - esta é a primeira. A segunda é que, mesmo que o Salvador nunca se repita, fruto da sua alma jazzística, a canção sai sempre bem. Portanto, a Luísa fez uma canção à prova de bala. Durante anos queixámo-nos de que nunca ganharíamos isto porque o sistema estava "feito" para ganharem os países com maior emigração - a nossa não é baixa, mas não é a maior. Na verdade, se essa perversão tem alguma verdade, é o único factor que nos pode tirar a vitória hoje. Mas eu creio que ganharemos e que já ganhámos.
Na verdade, é todo o mundo que ganha, porque é uma das melhores canções de sempre que ganha. Encerro com um pequeno apontamento: bonitos os portugueses, aí sim. Em quase todos os comentários que li no youtube às várias covers e produções caseiras estrangeiras deste "Amar pelos dois", há sempre palavras de gratidão de portugueses.
É aí que somos grandes: chamamos os outros para a nossa celebração. E muitos vêm. Mas, na verdade, o que Portugal hoje leva ao palco é o universo. Esta canção já é do universo. Era bonito que trouxesse o troféu que já ganhou e que será falado pelos séculos adeante.

* dado o elevado número de leitores deste post, o que eu já previa em caso de vitória, voltei a experimentar daquelas reacções azedas dos que tresleram o que aqui foi escrito. Eu abro este post a apontar o dedo àqueles para quem este nosso músico, que ficará na história por todo o sempre, foi apenas vida privada. A esses e aos tiques das redes sociais. Não estou a expressar uma opinião ou a estipular um facto. É evidente que não a tendência sexual do Salvador e a vida privada são apenas fait-divers para vender.  Não dele. Não da essência deste momento notável. Muito menos meus.

Nota póstuma: no dia da nossa primeira vitória na Eurovisão o Benfica foi tetracampeão pela primeira vez e o Papa Francisco I visitou Portugal para o centenário das aparições em Fátima. A cobertura televisiva de Fátima foi de grande qualidade. Quanto ao resto, isto foi o que eu escrevi uma hora depois da vitória: "Tenho pena que o Salvador não tenha ganho num ano em que o FCP fosse campeão, para eu mandar à merda certas televisões que anunciam em rodapé, sem tirar as imagens dos Aliados (seriam os Aliados) do ecrã, uma vitória histórica e emocionante de pelo menos três gerações de portugueses que viveram isto ano a ano e fracasso a fracasso, com músicos tão bons ou melhores, e não pensarem que era decesso de poder de encaixe. Não aceito um certo jornalismo e uma certa falta de visão. Eu estava num shopping com as televisões todas a dar a vitória no futebol e nenhuma sintonizada na RTP1, mas quando foi certa a nossa primeira vitória na Eurovisão foi um bruá belíssimo pelos pisos todos. Graças aos telemóveis e às apps que tanto criticamos. Eu sei que este país vai saber celebrar isto, mas tenho pena que não haja coragem nas televisões que não transmitiram o festival para afrontar esta miséria da cultura futebolística por um momento tão belo. Subitamente, como ele próprio disse, ganha o que importa, ganha o que é, não o que parece. Se o FCP tivesse sido campeão, eu queria lá saber. E que diferença faria uma noite de glória da música portuguesa em três semanas de festejos ciclicamente repetidos? Ah, eu sei. É o dinheiro dos anunciantes, os que pagam tudo, mesmo os empregos. Vendamos tudo ao desbarato, pois."

 

PG-M 2017
fontes das fotos 1 2 3

2017-01-20

Z4


quandos irrompes
para a pipe
o teu corpo está deitado no cosmos
na posição das galáxias
ao longe
percutem supernovas
e silêncio


PG-M 2017
foto de José Rodrigues

2015-07-31

(Volume 5) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle italiane

V    (volume anterior aqui)

Nota prévia: Dez-cartas, tens um papel para eu alinhar os versos? Começou a tocar "A Portuguesa", ali, all'estremo sud, tão longe de casa, e eu não contive as lágrimas que me queimaram o poema; os nossos heróis de mão sobre o coração e o poema deles a arder assim:
afonso está parado no ar com os braços desdobrados
e as mãos ilegíveis
ilude o palácio na curta para o central
david salta na vertical
a bola voa de costas para a zona dois
guilherme levanta voo da um
roda a roleta e bate
à frente dos três
capum
diagonal limpa a cair
na um do opositor
que devolve
kiko desenha uma prancha
a bola na pinta álvaro
empurra para o ponta
andré sobe e varre
a linha
marco de chaimite
dispara os directos
o terceiro fica
em jogo, diogo a.
faz de muro com
paulinho

a bola ressalta
a bola sobe

diogo o. bate seco
na longa oblíqua
max joga o pensamento no
bloco sobra
o triângulo curto
com sinfrónio
capum
zona um

foram vistos em bando
nas montanhas
de aspromonte
são aves de alma austral
planando por portugal

Bernardi 2015,
nas bancadas do Palazetto Sport de Cinquefrondi

PS: entreguei o papel ao Dez-cartas, que se iluminou de patriotismo e chorou

(continua no volume 6)

também pode ler Volume 1, Volume 2, Volume 3 e Volume 4
 

2015-07-30

(Volume 4) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle Italiane


IV     (volume anterior aqui)


O quarto era fresco, mas a cama era de casal, o que não seria um problema, não fosse o cochilo algo edipiano do meu amigo filósofo. À décima vez em que ele assumiu a posição fetal trancando a minha perna esquerda entre as dele, resolvi levantar-me. Seriam umas seis da manhã em Itália, portanto cinco no meu relógio interno. Subi e puxei uma cadeira para a janela sobre o Mediterrâneo. Sentei-me com o braço estendido no parapeito. Se eu fosse escritor, teria aqui um problema de cifra. Creio que, para um escritor, todas as emoções intensas serão cifras, aparecem-nos como ovnis no firmamento, a projectar um feixe redondo de luz sobre o bloco do nosso peito e a tentar abduzir os órgãos onde a tradição dá residência aos sentimentos. Felizmente não sou escritor, posso limitar-me a sentir e, se preciso fosse, em vez de escrever chorava o que naquele cenário transcendesse as minhas forças e o corpo em si. As lágrimas viriam quentes, como as águas daquele mar, azuis como o seu reflexo. O tempo passa depressa quando se observa a perfeição: creio que somos narcotizados e cada minuto vira fatias mais grossas da hora. O Dez-cartas apareceu esgrouvinhado pelas oito, perguntou se era verdade, se estávamos mesmo ali, se houvéramos atravessado o Lácio a remoer, se tínhamos atravessado as montanhas mais míticas a olhar para o relógio, se trincáramos sandes de presunto e ricotta em estações de serviço a queixarmo-nos dos lavori in corso. Era isso mesmo. Abracei-o por me dar mais sentido e proporção do que qualquer escritor, mas expliquei-lhe - uma necessidade dos heterossexuais com teias de aranha na cabeça, como eu - que não era gay nem pensava tornar-me um, muito menos em Itália, pedi-lhe que não ficasse magoado comigo por, na próxima noite, eu patrocinar a empreitada de uma muralha de almofadas na linha central da nossa cama de casal. Então começámos a subida para a prima collazione do Giovanni. Não há descrição possível para aquela subida para  o pequeno almoço. Nos dias seguintes o Dez-cartas suplicar-me-á para levar carro, mas eu vou recusar por duas ordens de razão: é perigoso conduzir o carro alugado naquelas quelhas e não temos franquia zero, a primeira; viver a aldeia é vivê-la como a vivem os locais, e os locais não pegam no carro por tudo e por nada, a segunda. Por isso, caluda, o Giovanni só veio de Panda ontem à noite porque tinha um espectáculo a decorrer no seu bar. Pois a subida só se pode fazer com o rabo para trás e o peito quase no chão: de facto, as velhas italianas não sobem assim por velhice, mas por sabedoria. Esqueçam lá o elevador da glória, ou então concedam-lhe ainda mais inclinação e multipliquem a extensão por quatro. Mas talvez seja injusto dizer que qualquer pequeno almoço sabe bem naquelas condições. Os croissants e os brioches são fresquíssimos e, pelo visto, uma tradição italiana que o pão, na prima collazione, não é. O Giovanni trouxe também, à margem, um iogurte gelado de café que nos deixou os olhos cerrados. Os bofes à chegada haviam sido substituídos por gemidos. O Giovanni não pesca uma palavra de inglês, o que, neste contexto, deixou a mesa ainda mais animada e gesticulante. Depois de atravessar a bonita Piazza Garibaldi, de onde este herói italiano lançou a ofensiva para a libertação de Itália da Áustria, tem-se uma maravilhosa vista sobre a marina, que é como em Itália se chama às povoações que servem o mar. O Giovanni aconselhou-nos a ir à praia Groticelle, perto do Capo Vaticano, que ele vendeu como uma das mais belas do mundo. Sem desmerecer, temos umas cinquenta, entre o Algarve e Lisboa, tão ou mais bonitas, mas o que não temos é água do mar a trinta graus. O Dez-cartas parecia um bebé excitado, sempre a chamar-me para a água, mas eu precisava de deixar assentar a existência. Mesmo depois das duas horas matinais de meditação, tinha acabado de conduzir trinta minutos entre Nicotera e Capo Vaticano: recordo, estou em Itália, na Calábria. Sei bem que temos de nos adaptar à condução em todos os países, e, mesmo dentro de Portugal, há alguma diferença entre Lisboa e Porto (pensamos, de parte a parte, que os outros é que são os loucos), mas nunca mais digo mal dos condutores portugueses depois desta meia-hora. Em abono da verdade, os calabreses não são tão agressivos como os nós, ou seja, fazem as asneiras e toleram as asneiras dos outros quase em silêncio, ao contrário de nós, que, ao mínimo comportamento desadequado ou desritmado, perseguimos e insultamos o condutor relapso. Os calabreses não. Passam contínuos de forma descarada, não dão pisca para nada, estacionam de repente na berma, abrem a porta e saem antes de nós, que circulamos imediatamente atrás, passarmos, só buzinam para se cumprimentarem, não para reclamar. A adaptação é no sentido da ocupação do espaço: se nos aproximamos de um cruzamento, não devemos ser cautelosos, ou eles entram mesmo - devemos, sim, acelerar para ocupar o nosso território de forma assertiva. É menos perigoso assim, sendo lavajão como eles. Esta personalidade do lascia-fare acabará por se incorporar em nós na forma de generosidade. Este jeito de se atirarem de cabeça, primeiro, e perguntar depois é, aliás, a autenticidade apaixonada que muitos de nós procuram na própria vida. Pois eu pensava nisto enquanto o outro se atirava de cabeça para a água cristalina e quente do Mediterrâneo. Dividimos um spaguetti pomodoro basílico com os pés na areia, fomos a casa tomar banho e trocar de roupa, estava tanto calor que viemos mais molhados do que chegámos, mas sem sal. Vestimo-nos como tiffosi portugueses e agora só faltava encontrar o pavilhão. Não foi fácil, porque os italianos dão indicações como se todos dominássemos perfeitamente os princípios básicos do vocabulário das indicações em italiano e porque só um em cinquenta fala inglês. Se não sabemos, por exemplo, que "pavilhão" se diz em italiano "palazetto sport", não vamos a lado nenhum. Pois o pavilhão de Cinquefrondi ficava depois de um improvável e estreito túnel que parecia levar ao próprio inferno. Mas não. Em breve estaríamos sentados no paraíso, ou seja, nas bancadas gotejando suor e derramando a honra pátria e a beber o spresso lungo e a comer a maravilhosa macedonia (salada de frutas) do bar do Gianluca e do Nicola. Nada será o mesmo depois de Cinquefrondi. Hoje os rapazes usam o equipamento alternativo, calção azul e camisola branca, os italianos nas bancadas dizem que parece a Itália. Preparo-me então para fazer um poema com a arte dos nossos voleibolistas. Dez-cartas está maravilhado. Olha como eles voam, Bernardi! Olha como eles voam. Quero contar-te a final daquele mundial dos meus ídolos italianos, Dez-cartas, mas primeiro vou fazer um poema sobre estes doze. Do campo começam a vir sorrisos. Ver a bandeira portuguesa no punho de portugueses a três mil quilómetros de distância já não é só o capricho de um parasita que usou os retroactivos de uma pensão social rafada para ajudar à criação de um mito precoce. Em breve se calarão os Sigarette do Neffa e começará a portuguesa do Alfredo Keil, que os nossos meninos não ouvirão apenas em sentido, como dizem as regras de etiqueta, mas sentindo activamente a honra, à americana, com as mãos direitas sobre os respectivos corações.

(continua no Volume 5)
também pode ler Volume 1, Volume 2 e Volume 3

PG-M 2015

2015-07-29

(Volume 3) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle italiane



III    (volume anterior aqui)

O avião deu várias voltas a Roma. Disse-me o Dez-cartas, entretanto esperto, que o piloto aguardava autorização da torre de controlo para aterrar. Os atletas nacionais foram levantando a cabeça à medida que o movimento da nave se tornava menos coerente. A cada volta o avião assumia uma grande inclinação e os "olha o Coliseu", "olha o Vaticano" do Dez-cartas irritavam-me a mim e excitavam os miúdos, que olhavam de forma oblíqua para trás a ver se ele estava a brincar e depois procuravam nos terraços de Roma, pelas janelitas do avião, a solução. Os nervos fizeram-me recapitular a meia-final do mundial de voleibol de 90 entre o Brasil e a Itália e o Dez-cartas pareceu genuinamente interessado, até porque quis saber onde era a zona um, eu disse que era logo a do serviço e que as zonas, no court de voleibol, se contavam ao contrário da rotação, que por sua vez se fazia no sentido dos ponteiros do relógio. Portanto, a rotação, em voleibol, é a favor do tempo, mas conta-se contra ele. Então, deixa-me ver, o Lucchetta, para bater a bola ao centro da rede para uma zona entre a um e a dois...hum....deve ter sido muito bonito. E quando dizes segunda linha, queres dizer o quê? Há uma linha riscada a três metros da divisória dos campos que define o ataque e a defesa. Atacas à frente dela, defendes atrás dela. O ataque tem uma área que é metade da defesa. Quando atacas atrás da linha dos três metros, atacas de segunda linha. E o cubano Despaigne atacava assim? O Despaigne era solicitado em quase todos os pontos do campo. E era eficaz? Muito. Saltava atrás dos três metros, batia em voo na projecção do metro e meio, de cima para baixo, com muita violência, muitas vezes a quatro metros de altura. Os miúdos olhavam de lado. Os parolos falam de voleibol? Olha o Coliseu, olha o Vaticano, ai que estamos a descer, é como se o avião fosse pisando o degrau inferior, os flaps das asas cada vez mais abertos, travão a fundo, palmas, estamos no chão. Abraço o Dez-cartas comovido. Estavas com medo? Sim, isso e nem acredito que estou na Itália com que sonhei toda a minha vida. Começámos a odisseia aeroportuária para ir buscar o carro alugado. Os balcões romanos de aluguer pareciam a fila da sopa, com a agravante de que não se pode reclamar qualquer dignidade para a necessidade de um carro, muito menos compará-la com a fome, disse, e com toda a razão, o Dez-cartas. Mas isto é triste. E a ansiedade na cara das pessoas, certas de terem sido apanhadas numa espécie de armadilha? E as surpresas, e os sobre-custos? Chegou a minha vez e comecei a aprender. Perguntaram-me se aceitava um Panda automático. Nunca conduzi um carro automático. A minha interlocutora na alugadora disse que também não, que me tentaria arranjar um carro melhor, porque os Pandas manuais estavam todos ocupados - melhor, deixe-me ser sincera, disse ela, não mandamos carros menos seguros para o sul de Itália -, mas que, além disso, havia um problema. Nunca tinha usado o cartão de crédito que o banco teimara em dar-me. Mas a Nádia da agência de viagens pediu-me tantas vezes um cartão de crédito que eu cedi o meu e dei-lho. E assim reservou ela tudo, avião, carro, dormida. Os valores só seriam descontados no final, mas disseram-me no balcão da sopa que o meu cartão não estava autorizado. O Dez-cartas tinha um, mas não conduzia, não pode ser. Ofereceram-me o telefone para ligar à Nádia, mas a Nádia disse que não podia fazer nada, que provavelmente tinha um plafond. Mas se eu ainda não gastei tostão e eles todos aceitaram as reservas e tenho para aí dez mil euros à ordem? Tentei que me aceitassem a garantia em dinheiro, mas nada. São regras. O Dez-cartas via-me nervoso e pedia, ao longe, que me acalmasse. Estava de guarda às malas. À volta dele a diáspora. Pelas minhas contas, eram pelo menos sete horas de viagem para o sul de Itália e os meninos desfilavam nas ruas de Cinquefrondi às oito da noite. Era quase uma da tarde. Comecei a choramingar. A minha interlocutora na alugadora chamava-se Cristina Ribaldo, era muito magrinha e tentou acalmar-me dizendo que conhecia muito bem um escritor português. Como se chama, perguntei eu. O livro era "Sostiene Pereira" ou algo assim. Ah, mas esse não é português, é italiano, chama-se Tabuchi. Mas agora isso não interessa. Sostiene Bernardi que a aventura italiana não pode acabar entre as sopas de um aeroporto. Fui tomar um café e pensar numa solução. A cafetaria era sporca, o empregado da cafetaria sporco era e ainda por cima esperto, fartava-se de mandar bocas na fímbria dos lábios que nem os italianos percebiam. Pedi um Spresso Lungo, veio um curto. Ouça lá, eu disse lungo. E ele, com uma unha de tocar guitarra ostentando uma linha preta de quase meio centímetro de sujidade, meteu a ponta do dedo dentro da pequena chávena e perguntou: e isto não é lungo? Não. E ele, contrariado e ruminando as piadas para trás, meteu-lhe mais uma gota em cima. Eu disse que não queria saber. Telefonei para o meu balcão, cujo demorou mais de uma hora a atender, e falei com a Sílvia, que, para sorte minha, era gerente e me resolveu a questão noutra hora. A magra da Cristina Ribaldo levantou-se para pedir autorização do upgrade de carro ao gerente e, realmente, a minha avaliação sobre a sua magreza fora espúria: era cintadinha e vivamente bem feita. Vai levar aqui uma bomba, um Clio ou assim, e eu até entendo que ela pensasse que eu achava o Clio uma bomba, porque eu tinha pedido um Panda. Regressei para junto do Dez-cartas, que me exigiu o sorriso que eu não tinha. Já não vou ver os miúdos. Deixa lá, pá. Mais tarde saberíamos que os ragazzi seriam atropelados por discursos oficiais durante três horas para dez minutos de desfile nas ruas, e só agora estava a começar o maravilhoso mundo da Cantábria, que, como verão, não tem méritos na organização, mas no lascia-andare, e aí reside um pouco do seu encanto e lição ao mundo. A Calábria é Legendriana. Tem o fervoroso coração italiano de tronco nu. Mas já lá vamos. Agora estou a insultar, a meias, o Dez-cartas e a GPS. "A" porque personalizei a menina que fala nos mapas do meu telemóvel e lhe chamo Gabriela Pereira de Sousa. Ora, o Dez-cartas deu a ideia: já que não conseguimos chegar a tempo da apresentação, porque é que não vamos almoçar a Pompeia e ver os corpos suplicantes? Era suposto a Gabriela tirar-nos de Roma, mas ela, em vez de nos levar para Pompeia, levou-nos para Pomeza, na zona industrial de Roma - confesso que aquilo era assustador. No rádio já tocava aquela que viria a ser a canção desta viagem, e que na altura me fez gritar com o Dez-cartas para que desligasse aquilo: "Sigarette", a nova do Neffa (eu nem sei quem é o Neffa, foi o Shazam que me disse). Sigarette la mattina la-la-lalla-la-la-la / sotto questa pioggia fina la-la-lalla-la-la-la. A Gabriela mandava-nos virar para becos sem saída, perdemos mais uma hora e acabámos a almoçar num McDonalds na orla de Roma, a tentar sentir-nos felizes. Quando regressámos à estrada, já ninguém queria ver ou visitar nada, só fazer quilómetros. E assim foi. Velocidade lenta na aproximação a Salerno, experimentação das inacreditáveis áreas de serviço da A3 com 35 graus cá fora, saída para a montanha em fila indiana por causa dos lavori in corso e a noite a cair: disseram-nos, ao longo desta semana, que toda a Itália são lavori in corso, sempre. Muitas horas depois, na aproximação a Vibo Valentia, já dentro da Calábria, finalmente, pudemos pressentir a beleza das vistas que levavam o nosso olhar até Reggio e à Sicília, em frente, mas era só um pressentimento que nos era dado pelo prateado da lua no mar ou pela linha de luzes na costa, ao longe, porque a noite se fechara sobre os montes. O trilho final foi feito por pequenas estradas comunais sem iluminação, e aí a Gabriela, que enlouquecera às portas de Roma, disse presente. E chegámos à nossa aldeia, Nicotera, um povoado antiquíssimo sobre o Mediterrâneo, por quelhas medievais remendadas, com os músculos da cara retesados e alma meia encomendada à providência. Estacionei junto a uma igreja e liguei ao anfitrião, Giovanni, que não falava inglês e tentou explicar onde ficava a que seria a nossa casa num labirinto onde não havia nomes nas ruas. Nessa altura já nem me lembrava que tinha vindo pelo Voleibol. O Giovanni teve de descer a aldeia toda com o seu Panda para nos dizer onde era a casa. Abriu a porta e estava quente, muito quente. Eu e o Dez-cartas começámos a pingar, o Govanni sequinho. Explicou-nos o básico e disse: prima colazzione são duzentos metros a subir até aos Terraços de não sei quê. No dia seguinte saberíamos o que são duzentos metros a subir: nem o Elevador da Glória. O Dez-cartas lá tomou banho num chuveiro que molhava a sanita toda e eu, na janela sobre o Mediterrâneo que só me devolvia prata, chorava a rir.

(continua no Volume 4)

também pode ler Volume 1 e Volume 2

PG-M 2015
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2015-07-28

(Volume 2) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália – Novelle Italiane



II   (volume anterior aqui)

Brasil, Maracanãzinho, 27 de Outubro de 1990, cerca de vinte mil brasileiros nas bancadas, algumas centenas de italianos, meia-final do mundial de voleibol, joga pela Itália a chamada geração dos fenómenos, mas a equipa que limpava tudo, com um magnífico Joe Despaigne como estrela, era mesmo Cuba; – expliquei eu ao Dez-cartas, tentando abstrair-me das manobras do avião no aeroporto de Lisboa,  a preparar a descolagem. Pedi ao Dez-cartas para ficar à janela, era a primeira vez que andava de avião, tudo me parecia fora de escala, tudo menos a jovem selecção portuguesa. Tivemos de ir apanhar o voo a Lisboa, a Nádia, da agência de viagens da nossa aldeia, disse que era a melhor alternativa tão em cima do Europeu, protestou por terem marcado a prova para tão longe e o Dez-cartas ofereceu-se para levar o carro dele – que por acaso é um Panda – até Lisboa e, como viemos de madrugada e o voo era logo às seis e tal da manhã, eu sugeri ao Dez-cartas que deixasse o carro mal estacionado num quelha perto do aeroporto que eles chamam de segunda circular, parece que é a viela que define psicologicamente as classes de tiffosi portugueses e os divide entre o verde da esperança e o vermelho da paixão (há uma versão pessimista, diria mesmo arrivista, de que aqui não curaremos), disse o Dez-cartas e eu não tenho culpa, porque eu só abri a boca para lhe explicar que o preço do reboque pelo estacionamento na segunda circular era mais barato do que o estacionamento no aeroporto durante uma semana. O Dez-cartas manobrou o carro numa zona da segunda circular em que não há rails de protecção e deixou-o ali perto da BP, à sombrinha, debaixo de uma árvore de um jardinzinho muito bonito e prático. Tirámos as bagagens de mão e fizemos aquele bocadinho a pé. Como só levávamos bagaglio a mano, a Nádia disse que podia fazer o check-in online e que podíamos ir directamente ao controlo de bagagem. Como não sabíamos bem como fazer isso, perguntámos a um senhor com uma camisa da Ana, não que algum de nós conhecesse a Ana, mas porque nos pareceu o mais prático, mas ele limitou-se a falar para um walkie-talkie e a gemer monossílabos que nenhum de nós entendeu. Eu sorri-lhe, o Dez-cartas sorriu-lhe, mas nada: ficou, não impávido, não sereno, mas teso e com umas gotículas de suor a escorregar-lhe da testa que o Dez-cartas me explicou serem a sublimação da fúria. É nesta altura que vemos os miúdos da selecção nacional que virão a ser os nossos ídolos e o nosso refúgio, não no farwest, mas all’estremo sud. Primeiro salvamento. Eu e Dez-Cartas estamos vestidos de verde e vermelho da cabeça aos pés, com cachecóis alusivos que adquirimos ao merchandising oficial e dizem “Portugal Young Braves”, para serem entendidos pelo mundo inteiro. Consigo um autógrafo do André M e do Diogo O, porque os outros, embora com aquele sorriso lúteo do medo, não se chegaram às fitas exteriores do check-in. Os corredores para controlo de bagagem são em zigue-zague: faz-se um quilómetro para percorrer quinze metros. Tenho uma condição cardíaca e a menina da segurança, que está formatada para intimidar, tem de me abraçar e amparar. Nem assim consigo passar os líquidos, e tenho mesmo de pagar três euros por uma garrafa de água na zona de trânsito. O embarque foi mais calmo e eu até percebo certas pessoas mais experimentadas que querem fingir que viajar de avião é o seu dia a dia. Nunca olham para os quadros de informações ou, uma vez dentro do avião, também não olham pelas janelitas, lêem muito e nunca rebatem a cadeira antes do tempo, como nós, parolos. E, como eu antecipei que a descolagem ia ser um momento definidor no meu espectro gnoseológico, preferi desviar o assunto para a geração-fenómeno italiana nessa meia-final do mundial de voleibol de 1990. A equipa principal costumava ser Lorenzo Bernardi, claro, e Luca Cantagalli como pontas, Zorzi a oposto, Paolo Tofoli distribuidor, e os centrais, dois Andrea: Gardini e Lucchetta. Lembro-me disto, não sei se foi mesmo assim, mas tu percebes, Dez-cartas. Brasil e Itália estão empatados a 12 na negra. O "murazo" italiano opõe-se ao ataque brasileiro. 13-12 para a Itália. Na jogada seguinte, Bernardi recebe como nos livros, Tofoli passa – colocando as mãos de forma a que o central brasileiro sinta que tem de saltar ao bloco para um bola rápida do central italiano, mas Tofoli empurra a bola para a ponta e Cantagalli bate à linha; 14-12;  Brasil faz um ponto, 14-13, e serve, recebe Cantagalli e corre novamente para a ponta, Tofoli coloca outra vez as mãos de forma a não serem lidas e faz o passe curto, em salto, para o central, Lucchetta, que bate limpo para a zona um. Quer dizer, a bola cai ali na zona intermédia entre a um e a dois. A Itália está na final do mundial do Rio de Janeiro. O avião está no ar. Dez-cartas já dorme. Os miúdos da selecção vão sentados a dez metros de mim, mas, apesar dos meus acenos, nem um olha. Que profissionalismo. Penso que, mal Dez-cartas acorde, tenho de lhe explicar que a final do mundial de 1990 vai ser Itália-Cuba, que Cuba ganhou na primeira fase à Itália por 3-0, e que se ergue esse monstro do voleibol mundial que é o Joel Despaigne, que atacava a mais de quatro metros de altura, bloqueava apenas quinze centímetros abaixo e chegou às trezentas e cinquenta internacionalizações por Cuba. Curiosamente, é um ídolo popular, porque os lugares oficiais tendem a ignorar os diamantes do Fidel, o Despaigne e, mais tarde, o Leonel Marshal, que tinham algumas parecenças em estilo de jogo (dizem as lendas que Marshal chegou a saltar 1,70m). Despaigne acabou por vir, claro, para Itália, onde todo um povo, do voleibol e fora dele, o venera e respeita. Treina uma equipa da segunda liga italiana, mas não sei se ainda salta mais de um metro. Aposto que sim. Esperem que o Dez-cartas acorde para eu lhe contar isto. Não falta muito para chegar a Roma.

(continua no Volume 3)
também pode ler o volume 1 aqui
PG-M 2015
fonte da foto (Andrea Lucchetta)

2015-07-21

(Volume I) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle Italiane

 I
Não me chamo Bernardi. No entanto, metade da vila piscatória onde ora resido chama-me Bernardi. Não sabem de onde cheguei, um dia, de repente, nos idos de dois mil e tal, com uma obsessão pela geração de ouro do voleibol italiano e clamando, num sotaque trentino, que Lorenzo Bernardi era o melhor jogador de voleibol de sempre. Que finalmente a FIVB o tinha reconhecido como tal - com efeito, ser o melhor do século XX é ser o melhor de sempre. No dia em que cheguei envergava a camisola número 15 do USA Volleyball Team com Kiraly a encimar o dorsal. Ninguém no Café Central contrapôs que Kiraly tinha ganho a distinção ex-aequo com Bernardi, nem podia saber que, verdadeiramente, eu não gostava de Kiraly. Ninguém no Café Central podia ou queria saber.
A metade da vila que me chama Bernardi considera-me meio louco. A outra metade não  me chama nada nem tem opinião formada. Não é rigoroso dizer, contudo que, estatisticamente, toda a vila me atestou, perante a autoridade sanitária central, como vinte e cinco por centro louco. Não obstante, foi isso que atestou o Doutor Remédios que, como é consabido, conseguiu concluir o curso de Medicina sem nunca ter feito Matemática: conclui ele e atestou que, como metade da vila considerava o indivíduo Barnardi meio louco e a outra metade não tinha opinião formada, conclui-se e atesta-se que tal indivíduo tem vinte e cinco por centro de incapacidade para o trabalho, devendo por isso ser colmatada a falta pela sociedade e ter o indivíduo direito a uma pensão que se fixa em (preencher) Euros. Estive um ano para que o bom do Doutor Remédios preenchesse o valor que me devia ser pago. Entretanto, vivi a esmola. Ontem foram-me pagos os retroactivos. A primeira coisa que o Dez-Cartas, o filósofo do Café Central, me disse depois de lhe mostrar o envelope com o dinheiro e a factura à sociedade, sabendo da minha obsessão por voleibol, é que o filho do advogado que me tratou do caso pro bono parte para Itália amanhã para jogar pela selecção nacional sub-17 de Portugal. Se guardas isso, a senhoria, que é uma ladra, vai roubar-te tudo, nomeadamente exigindo as rendas atrasadas e reparação dos buracos dos parafusos para afixação de posters emoldurados de voleibol. Depositas o valor legal na Caixa e vais ver a selecção a Itália. Foi pelo Dez-Cartas que soube que o  Doutor Remédios tinha sido remetido administrativamente para a glória de licenciado na confusão dos saneamentos da liberdade - era, pois, um lutador e um indivíduo credível. Adoptei o alvitre como brilhante: o que podia ser melhor para o desfrute da pureza do voleibol do que ir apoiar uma equipa sem adeptos que era o embrião do futuro? Um dia, disse o Dez-Cartas, arrecadarás comenda pelo estatuto de cordão umbilical destes miúdos voadores e o país, não apenas a aldeia, se encurvará deante de ti - e disse-o assim mesmo, não perante, mas deante, com pedante arcaísmo. Fomos ambos à agência de viagens do povo, cuja abriu só para nós -  a agência de viagens tinha a vidraça mais marcada pelas nossas testas do que pelo limpa-vidros, porque lá passávamos horas a estudar folhetos desbotados de viagens impossíveis.

(continua no volume II)

PG-M 2015
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2012-06-05

Campeões do mundo


Já me calaram a boca quando, a olhar
para o diploma cravado na parede branca do escritório
devoluto,
senti vergonha
pela primeira vez.

Não calarão mais.

Já me sugaram o sorriso quando, a olhar
para o prato vazio do meu filho na mesa vermelha da cozinha,
senti fome
pela primeira vez.

Não sugarão mais.

Já me prenderam os braços quando, a olhar
para o futuro negro como o mar minimalista do Billy
Bud do Melville
me julguei louco
pela primeira vez.

Não prenderão mais.

Já me forçaram o choro quando, a ouvir
a primavera do Einaudi
não enlevei
pela primeira vez.

Não forçarão mais.

Já me secaram as lágrimas na fila do emprego quando,
a explicar a minha merda de vida à luz do amor
me odiei
pela primeira vez.

Não secarão mais.

Já me enganaram quando, nas audiências políticas
às selecções nacionais me pediram para esquecer
tudo e pendurar bandeiras
no corpo que mirra
e na casa que foge.

Não enganarão mais.

Já me prenderam numa massa de gente em desespero
com a corda demagoga
"eu demagogo, quem, demagogos?"
e me culparam de tudo
de perderem a margem de conforto
o colégio o luxo e a potência
que é cada vez mais difícil
passar por mim
e até por cima
de mim

nós que fuçamos sabemos do que se gasta e desgasta
os parasitas das portas dos cafés votarão sempre
nos parasitas das portas dos palácios

Mas doravante venha
a transparência líquida
para toldar o punho
que nos venda
e diz que o amor
é uma lenda
e a liberdade
mania
e a coragem
a mais pérfida loucura
em pó
e aos dedos que nos culpam
de si próprios
forçaremos a vitória
e contaremos na rua
milhões de vozes
ou um silêncio
fecundo
e final.mente. seremos


campeões do mundo

PG-M 2012
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