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2018-07-01

Como nunca perder (e perder como nunca)


Vou só dizer isto e calo-me. A glória neste jogo que mobiliza malucos e lúcidos, burros e espertos, pacíficos e violentos, voltará às quinas, sim, mais uma ou duas vezes neste século. Se gostassem mesmo de futebol, não escreviam nem falavam tanto do que não o é. Mas a verdadeira glória, deixem que vos diga, está e estará sempre nas ligas e nos desportos dos úlltimos. Ou na incrível entrevista de hoje do Souto Moura à E e em todo aquele deslumbramento literário. E, por falar em arquitectura, a verdadeira glória está num filmezinho que anda aí chamado Columbus, em que alguém questiona se o défice de atenção não estará no pai literato que se maça a ver o filho a jogar passado 5 minutos, e não no filho a jogar que (ainda) lê pouco. Sabem o que diz o mundo, a esta hora? Simplifica. Diz que o Cavani afastou o Ronaldo e mais nada. Como tinha dito Ronaldo 3 Espanha 3. Isto não é o meu país, ou pelo menos não é tão pouco nem tão simples.
Está bem, a glória facilita e anestesia algumas dores e deixa a memória e a nostalgia como drogas de resgate de alguns desesperos e desventuras. Mas o que resolve é a atenção. Saber escutar o mundo e o outro. Saber observar. Deste grandíssimo evento - como o são todos os mundiais - fica-me aquele estrondoso jogo com a Espanha e a superação desse atleta excepcional. Mas comovi-me mais com a festa do Panamá no golo de resposta aos 6 de Inglaterra. Agora, como todos, quero sarar. E, como a maioria, espero outras coisas. Bem maior do que esse Espanha Portugal foi a promoção desse outro Portugal, o que joga voleibol, à elite mundial. Lá também temos este Ronaldo da foto, que se chama Alexandre Ferreira. Ganha pouco dinheiro e joga longe de casa, na Coreia. Para o ano, pode até acontecer que Portugal perca todos os jogos na elite. Não serão menos do que os que hoje perderam em Sochi. A adormecer, aqui no quarto ao lado, tenho o meu herói máximo, um que fiz e que agora voa sozinho. Trabalha todos os dias muitas horas, ele e mais uma dúzia, para honrar as quinas num Europeu inédito que se joga a partir de 14 de Julho. Ainda estudam, todos estes heróis estudam, sem qualquer apoio.
Não ganham nada a representar o país, a não ser honra e ventura. Às vezes glória. A tal que voltará às quinas mais uma ou duas vezes neste século e não é grave que não tenha sido hoje. E todos vocês terão o vosso verão e as vossas glórias mais íntimas, uma doença superada, uma notícia boa. Isso sim, é importante. Isso e este abraço que vos deixo. Ser português é maravilhoso.


@pedroguilhermemoreira 2018

Adenda: recordo também o texto com que abri a reflexão sobre estas quase três semanas de Mundial da Rússia 2018, depois daquele estrondoso Espanha 3 Portugal 3:

New York Times. Para ler. Eu não sou o mais entendido dos adeptos e o meu desporto é o voleibol, mas ontem, à medida que as horas passavam, eu (e creio que todos) percebi que tinha acabado de assistir a um momento que ficará na eternidade, mesmo que Portugal não vá longe no Mundial da Rússia. E não é só por Cristiano, que conseguiu pôr um jornal argentino (argentino, cuidem bem) a escrever "a única dúvida é se ele é o melhor de sempre". A nível caseiro já não pode haver essa dúvida. Quanto ao jogo de ontem, eu tive a sorte de não deixar escapar aquele que, para mim, é o artigo perfeito sobre um momento de excepção, a prosa sublime e a atenção ao detalhe de Rory Smith para o New York Times, que escreve também um artigo para a eternidade. Ele diz que a FIFA, se não corresse o risco de perder muito dinheiro, devia fechar já o Mundial e eleger este Portugal 3 Espanha 3 como a final perfeita. E repartir o título pelos dois, digo eu. Uma final que ainda pode acontecer, e Portugal até pode jogar melhor do que hoje e ser campeão do mundo, mas duvido que o jogo e o espectáculo sejam melhores. E a minha cabecinha de português sofredor até estava satisfeita, mas lembrei os falhanços do Guedes, o quase-golo do Quaresma, com os espanhóis a fazerem o que nós devíamos ter feito ao Diego e ao Nacho, ou seja, a serem o camião à frente da baliza, e teríamos ganho. Mas o Rory Smith, que reparou nesse momento do Quaresma, foi à essência do jogo, qual Ortega y Gasset, que considerava o desporto a forma superior da existência humana (e eu envelheço a concordar, cada vez mais, com ele), mostrando também que fazem falta bons escritores e sensibilidades apuradas e multiculturais no desporto. Não esquecer a piada do The Guardian, que diz que Ronaldo devia doar o cérebro a um Museu da Fifa para se poder observar uma força mental do outro mundo. Mas Rory Smith foi ao detalhe de reparar na inteligência da economia e na arte do astro de 33 anos, o que menos correu na equipa portuguesa a seguir a Fonte. Fala dos adeptos espanhóis que ficaram a aplaudir Ronaldo já depois de a equipa de Espanha ter saído. Fala da beleza única do espectáculo entre equipas que podiam estar fragilizadas, e afinal mostraram brilho, Espanha pela saída de Lopetegui, Portugal pelo acordo fiscal do Ronaldo e pelo drama do Sporting e da usurpação da dignidade e excelência desportivas por um bando de arruaceiros. Rory Smith transforma um mero jogo de futebol naquilo que realmente foi: um momento superior de arte. Que mesmo os comentadores tacanhos sentiram, mas dificilmente nomearão como Rory. E, sem superlativos exagerados, pobres dos que perderam a noite de ontem levando-a à conta de voragem cultural do futebol. Ontem não. Ontem não foi isso. Foi Ortega y Gasset. E ninguém se pode lamentar. Nunca se lamenta o sublime e a beleza. A não ser quando somos egocêntricos feios. Mas isso nós, portugueses e espanhóis, apesar das aparências e dos buços, não somos. Foi uma lição ibérica para a eternidade. E a certeza do melhor de sempre. Kant, disse Adorno, postulou a imortalidade para fugir do desespero. Ortega y Gasset disse melhor ainda: 
"bien sé que a la hora presente me hallo solo entre mis contemporáneos para afirmar que la forma superior de la existencia humana es el deport"

@pedroguilhermemoreira 2018

2018-06-04

Era uma vez a Marta Massada: ícone do tempo absoluto

Começo com uma história da Marta Massada o combate que pretende contribuir para elevar a forma como como o nosso país encara a Alta Competição (que agora se chama Alto Rendimento) e a dupla ou tripla excelência (no desporto e no ensino e até na profissão, como a Marta). E é bom começar por este facto: temos leis piores do que no "tempo" da Marta (o tempo de selecção, porque este ainda é, e será, o tempo da Marta e dos que são como a Marta), quase nunca aplicadas nas universidades, e o país não apoia nem protege os seus melhores atletas e estudantes. O esforço é das federações, dos próprios atletas, dos pais, dos amigos, dos treinadores, dos colegas. Não de Portugal. Mas Portugal pode, se a política mais nobre (onde quer que ela esteja) quiser, mudar isso. Pode estudar modelos de sucesso, como o americano, e importá-los, para que, um dia, ser campeão europeu e mundial não sejam acasos de sorte, nem uma medalha olímpica seja a excepção à regra.

Escolhi a Marta porque ela congrega em si o anti-cliché: é hoje, na prática, uma das ortopedistas desportivas mais conceituadas. Termina conferências citando Mandela sobre a superação e sobre a forma como o desporto nos pode dar um mundo melhor. Fez o curso de medicina em seis anos sem uma média alta, precisamente porque queria o instrumento que o diploma é, não o prestígio académico vazio, mas chegou à excelência com muito trabalho e paixão. Defende que mais valia ter parado o curso e aproveitado oportunidades de se prolongar profissionalmente no voleibol, mas já voltou várias vezes a jogar e não impõe a si própria um prazo de validade. Na sua carreira, foi quase sempre vice-campeã, tendo perdido de forma dura várias finais: no entanto, não é como vice que a vemos, mas como o ícone de uma campeã absoluta. E isto é também um bom motivo de reflexão: o que é um (verdadeiro) campeão. Quer ter voleibol a correr nas veias até morrer. Tem uma carreira internacional a nível de clube e selecção como poucas. É, pois, também, o ícone asoluto da dupla excelência sem clichés: no desporto e na medicina. o ícone do tempo absoluto e não relativizado.

Estou a levantar histórias que relacionem a alta competição e a escola ou universidade. Duvido que conte alguma história que seja um exemplo positivo de como Portugal faz alguma coisa pelos seus atletas, até porque todos eles, habituados à ausência do país na sua excelência, não perguntam o que pode o país fazer por eles, apenas o que podem fazer pelo seu país. Como a Marta, que congrega em si todas as virtudes pessoais e desportivas: paixão, empenho trabalho, dupla e tripla excelência.

Era uma vez, então.

Era uma vez a Marta Massada, estudante de medicina e filha de outra glória do desporto nacional e da medicina, o andebolista Leandro Massada.
Marta está em estágio prolongado pela selecção nacional de voleibol, como ainda hoje acontece (por vezes, dois meses longe de casa e da faculdade e da vida normal, em concentração competitiva absoluta, como tem de ser entre os campeões).
Empenhada levar o curso de Medicina sem atrasos e em não deixar cadeiras para a época especial, pede ao seus seleccionador e treinador da altura uma licença especial para poder ausentar-se o estágio e ir fazer um exame à faculdade. 
Disciplina-se e estuda em pleno estágio, ou seja, o duplo sacrifício, mas que ela, disciplinada, assume.
Chega à faculdade e, ao entrar na sala, o professor, alto e em bom som, à frente de toda a gente, profere a sentença:

"A senhora tem de se decidir: ou o desporto ou a Medicina!"

E fecha-lhe a porta da sala de exame, deixando a Marta de fora e impedindo-a de fazer o exame.

Podemos pensar que é uma excepção no país que temos.
Não é. É a regra. E por isso simbólica.

A Marta é o nosso (primeiro) ícone.

(continua, com mais histórias - até à dupla ou tripla excelência)

PG-M 2018

2017-09-30

nos próximos minutos ou então a vida inteira


nos próximos minutos (ou então a vida inteira), haverá apenas dois guilhermes no mundo, um pai e um filho, tão diferentes um do outro como as copas e os troncos das árvores, como os sorrisos duros e os olhares doces, tão diferentes um do outro que os respectivos corações são poços sem fundo e quem para eles espreita dos rebordos de granito entre os meses só vê preto,

só que a entrada para o meu é pelo topo e a entrada para o teu pela base e como não têm fim nem a manipulação formal de equações, operações matemáticas, polinómios e estruturas algébricas resolve o problema a quem nos estranha:

onde fica o verdadeiro acesso?
já quem nos ama chega ao centro de olhos fechados, comigo pela pele e pelo cheiro, contigo pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

ambos comemos ética e liberdade, só que eu já engordei e tu ainda não,
pelo que comigo a ética e a liberdade funcionam como as lutas de homens e touros mais ou menos como as caracterizou um dos maiores matemáticos do nosso tempo, Hemingway, estou quase nos cinquenta e ainda não sei viver com economia física e acho que a beleza de um gajo do porto está no desbraganço e no calão e na forma vigorosa de destruir as espaldas dos amigos
(não vou agora recordar-te, com o risco de uma lamechice mortal, que a minha solução não foi opção porque era espancado em criança e um dia me levantei e comecei eu a espancar: isso seria estúpido e pouco literário; na verdade sou assim porque acredito nisto)

e tu, que só muito recentemente te tornaste homem,
comes ética e liberdade com economia

como o garcía martín lá em oviedo, a forma como um homem não se vende nem se cala - nem aos amigos, nem aos inimigos, nem aos inofensivos nem aos mais perigosos - priva-o imediatamente da unanimidade, e, como a unanimidade é perigosa, torna-o seguro

mas, na verdade, ninguém sabe que esse homem é seguro, porque o homem livre parece sempre um cabrão e um cabrão parece sempre um simpático homem livre

a diferença é que eu agora passo a vida a dizê-lo e tu não

os teus amigos percebem-te em silêncio e sem proximidade
curiosamente, no fim de contas, os meus também

posso dizer-te, meu filho, que é provável que possamos obter algum reconhecimento à morte ou na extrema velhice, nunca antes

não esperes palavras justas ou reconhecimento quando partes de um lugar ou de uma casa
não esperes agradecimentos públicos
não esperes cartazes pendurados em murais

afinal, esta filosófica busca da autenticidade - e não da verdade, que é mais falível e impura do que a matemática - traz apenas isso, autenticidade

mas, repara, não leves a mal a ninguém o silêncio perante homens com qualidades
quem pode viver sem um abraço e um elogio público?
ou ao ouvido, baixinho, para que ninguém ouça, "mano, sabes que nunca me vou esquecer de ti"?
quem pode viver sem uma noite de embriaguez e a negação da dolorosa ciência dos dias, sem os metais da vitória e do sucesso, a carne das taças e o brilho da geometria, a arrumação iconográfica do ecrã do telemóvel ou a selfie que te ilude a sentença suicida:

mas a vida é só isto? esta merda?

afinal, meu filho, a única coisa que tu fazes é voar

e ser digno


e sim, a vida é só isto, é lama e cinzento, são corpos cansados e as curvas das mulheres misturadas com as curvas dos ossos, mas, tu que és de cá,

um dia vais fazer o que eu fiz: vais levar o sobrinho do Pessoa,
que nasceu da névoa em Canidelo, naquele percurso da luz:
pelas onze da manhã, estacionas o carro na afurada, debaixo da ponte da arrábida, e diriges-te a pé rio acima e, depois da primeira curva à direita, vais apontar (eu sei que não gostas, mas, por favor, aponta) para o primeiro vislumbre da ponte de ferro e mostrar o jorro da luz da manhã a varrer o rasto dos barcos em direcção a ti e ao céptico que te acompanhar e dizer

a vida são aquelas lágrimas de há pouco, sim,
mas também isto

e lá está o meu defeito, é sempre a mesma merda:

eu só escrevi isto para te dar os parabéns como todos os pais têm dado aos filhos que entraram na universidade este ano, e mesmo aos que não conseguiram mas lutaram e vão continuar a lutar

é, pois, um texto profundamente banal e nepotista

é até bem triste que um pai se sirva do seu próprio filho como exemplo nas escolas que visita como escritor, como se não tivesse vida própria além desse filho, e é por isso que eu gostaria de esclarecer publicamente, para que fique claro, agora e sempre:

é verdade, eu não tenho vida própria além deste filho; mais precisamente: a minha vida própria é este filho e tudo o resto uma grande consequência de não haver nada mais importante

vai continuar a ser assim até descobrirem o fundo aos poços dos nossos corações, lamento

nas escolas eu digo que andavas com umas notas pouco recomendáveis no décimo ano quando viste a luz da engenharia mecânica, soubeste que estava na moda e que o lamentável crivo se aproximava de um dezoito e tu estava longe de ser um dezoito e disseste

eu quero isto


e acabaste perto do dezanove; desligaste a playstation durante um ano, perdias cinco horas por dia a treinar com a tua selecção nacional de voleibol e a combater as leis medíocres deste portugal que há muitos anos não ajuda os seus atletas e prefere fazer leis parvas que as escolas e as universidades e as federações não combatem a sério, foste dando sempre passos seguros atrás quando te queriam empurrar para a frente, mudaste de clube, foste feliz e respeitado e nunca deixaste de voar, mas os critérios de topologia, geometria, até a teoria dos números para te descrever, tudo

tudo em ti é imperceptível e infungível

e no entanto és feliz

baixas o corpo quando o distribuidor te aponta a bola, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado

sabes o teu lugar, se to tiram combates por ele e bates palmas aos adversários
e quando abraças um amigo é para sempre,
mesmo que ele não abrace de volta

mas receber o teu abraço custa uma vida
e quem te estranha, pergunta: onde fica o verdadeiro acesso?
já quem te ama chega ao centro de olhos fechados, pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

entraste

vais lutar pelo máximo, sempre

e, naquele desporto que toda a vida foi nosso, estás parado no ar,
no teu deserto privado
e sem ninguém

mesmo perto do brilho, com o corpo pronto para lutar pelo impossível,
lanças tu a bola ao ar,
baixas o corpo, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado,
na falível percepção da felicidade
mas com memória do mundo


parabéns, meu filho



PG-M 2017
foto do próprio






2017-07-10

Tudo

Foi hoje, sim. Eram umas nove e tal da noite. E não peço mais nada. Não pedi isto hoje, logo hoje, não contava, não esperava, não sabia, mas ele veio ter com o pai. Subitamente percebi que era tudo para mim. Eu tinha pedido uma vitória sobre a Espanha, mas perdemos (nem sei bem se perdemos, se ganhámos uma equipa), mas afinal era isto. E isto é tudo. Não posso pedir mais. Ele já está no trilho de afastamento, e no entanto parece mais próximo do que nunca. É um puto duro, nada mimalho, com um coração profundo. Perceberam que isto é sobre mim? É. Está tudo aqui. Não preciso de mais nada. Foram dos melhores segundos e das melhores prendas da minha vida. Longe, em Bad Blankenburg, na antiga Alemanha de Leste. Eu, que me chega vê-lo de longe, das bancadas, a rebentar de orgulho, esteja ele no banco ou no campo. Não o publico para exibir perfeição ou felicidade. Publico porque é o que quero para mim hoje e acho que mereço.

#myboy
#myday
#volleyball

2017-01-20

Z4


quandos irrompes
para a pipe
o teu corpo está deitado no cosmos
na posição das galáxias
ao longe
percutem supernovas
e silêncio


PG-M 2017
foto de José Rodrigues

2016-12-30

Young and noble champions

(in english in the end) Esta história tenho de contar. Álvaro Gímeno e Guilherme Moreira, os melhores pontuadores absolutos do Torneo Navidad de Voleibol 2016, o Álvaro com quase 4 sets só à sua conta, o Gui com quase 3. Para quem gosta de voleibol, voleibol a sério, e sabe que não é sobre vitória e derrota, mas sobre pequenas histórias particulares e grandes duelos públicos, sabe que assistiu a vários na noite do segundo Espanha-Portugal (3-2). Gostava de destacar dois, entre muitos: o surgimento do Manuel Meirinho. Para um miúdo que veio do zero, como voleibolista, há dois anos, foi notável a garra e o esforço de superação neste jogo - na negra, empatou sozinho o jogo a 3-3, depois do 0-3 inicial (alguns "kill blocks" e picos ao metro, além dos gritos "ronaldianos" que mobilizaram toda a equipa - "siiiiiiiiiiim" e "eu estou aqui").
O outro foi este, entre o jogador fantástico que já é o espanhol Álvaro (mortífero no serviço, potente e inteligente no ataque, eficaz no bloco, enfim, tudo, e que se conserve assim :) ) e o craque aspirante a ser tão bom quanto ele, o cavalheiro de honor :), o meu Gui.

O Álvaro ganhou, mas o mais belo foi a luta, particularmente a forma como o Guilherme se foi artilhando para receber aquele serviços mortíferos. No final, a imagem documenta-o. Não é um cumprimento banal à rede: são sorrisos francos, a sapatadinha carinhosa, o respeito, e, estou certo, um princípio de amizade. Não tenho ilusões: sei bem que a maioria das pessoas, mesmo os amigos, lidam mal com a visibilidade ou com o falível conceito de sucesso, um conceito que sempre detestei. As coisas até podem acontecer e ser mostradas lá em cima, no absoluto, mas estes dois rapazes estiveram onde todos estiveram e esteve o Manel há dois anos: no início, no absoluto zero. E trabalharam muito para chegar aqui - e resistem quando estão lá dentro. É onde estão muitos que podem chegar aqui e mais longe. As conquistas desses também podem e devem ser contadas, desde que não percamos a noção do ridículo. O que aqui lêem é só a festa de um pai orgulhoso. Não acho que isto seja o máximo. É só bonito. Como amante do voleibol, agradeço a estes craques o espectáculo que me ofereceram. E ainda nem 18 anos têm. Ps: alguém identifique o Manel Meirinho aqui, que eu não consigo; mas ele merece ler isto. (já consegui, afinal! :) )
 
This story I have to tell. Álvaro Gímeno and Guilherme Moreira, the best absolute scorers of the Torneo Navidad 2016, Álvaro with almost 4 sets only to his account, Gui with almost 3. For those who like volleyball, volleyball seriously, and know that it is not about victory and defeat, but on small private stories and great public duels, know we watched several on the night of the second Spain-Portugal (3-2). I would like to highlight two, among many: the appearance of Manuel Meirinho. For a kid who came from scratch as a volleyball player two years ago, it was remarkable the claw and the effort of overcoming in this game - in the 5th and final set, he drawed the game alone, recovering from 0-3 to 3-3 (some kill blocks and spikes at one meter and those "ronaldian" war cries that mobilized the all team - "siiiiiiiiim" (yes!) and "eu estou aqui!" (I am here!)).. The other was this, between the fantastic player who the spaniard Álvaro already is (deadly in the service, powerful and intelligent in the attack, effective in the block, anyway, everything, and we ask he is kept like this :)) and the aspiring ace to be so good as he, the gentleman of honor :), my Gui. Álvaro won, but the most beautiful was the fight, particularly the way Guilherme was shining to receive those deadly services. At the end, the image documents it. It is not a banal compliment in the net:
the sincere smiles, the affectionate hand shake, the respect, and, I am sure, a principle of friendship. I have no illusions: I know very well that most people, even our friends, do not deal with the visibility or fallible concept of success, a concept I have always hated. Things may even happen and be shown up there, in the absolute, but these two boys were where everyone was and Manel was two years ago: at first, at zero absolute. And they worked hard to get here - and resist inside the court. It is where many who can get here and further are. Their achievements can and should be counted as long as we do not lose the notion of ridicule. What you read here is just the feast of a proud father. I do not think this is the maximum. It's just beautiful. As a volleyball lover, I thank these players for the amazing performance they offered me. And they are not even 18. Ps: Someone identify Manel Meirinho here, which I can not; But he deserves to read this. (I got it, later :) )

Algumas fotos (some photos):




2016-11-23

te echo de menos

 te echo de menos

a expressão espanhola para saudade também é bonita.

fiz-te de menos

ontem lembrei-me de como foste dos primeiros a dar-nos uma nova noção de tempo


era um funeral, e havia alegria no ar, e não era só a alegria do reencontro com os homens e mulheres mais importantes da nossa vida, os professores, nem aquele belíssimo pânico de os ver procurar com a memória que alunos éramos

estão tão mais bonitos, os professores.
quando eram os nossos professores, eram velhos por natureza.
agora somos nós os velhos e eles da nossa idade.
bonitos e cuidados, sábios, serenos, sem poder

só conhecimento

a alegria eras tu e o comprimento da tua obra


comentei com o lima​ que nunca tinha visto um funeral tão feliz
estavas a descer à terra e havia gargalhadas
o coveiro a devolver-te à matéria original, que é a mesma que resulta de ti, e abraços entre campas

eu de pé a tomar café e a falar de como a linguagem e o silêncio e o ouvido e a atenção revolucionam o próprio tempo
tu és um dos grandes culpados de, afinal, isto não ser só isto e de
morrer não ser bem morrer

depois ouvi falar de ti, do teu apagamento físico, por quem em nosso nome cuidou de ti e te mimou até ao último minuto
um apagamento físico irrelevante para o mundo, ou só relevante na medida do teu sofrimento: nada para lá do que te doeu importa
não havia choro ou abandono ou pena, as pessoas que contavam o drama da tua doença sorriam, porque, a par de cada perda, havia sempre a tua resiliência, a tua teimosia

talvez seja piedade dizer para não te ir ver, porque estavas pele e osso,
estar deitado dá cabo de nós todos, faz-nos desaparecer fisicamente,
faz-nos assumir a postura da defesa perante a impossibilidade de sermos o que nos ergueu e nos fez evoluir

afinal não parecia ser isso o importante para ti

o alzheimer levou-te as forças, o conhecimento - e é injusto
ter-te cabido uma doença do conhecimento

logo a ti

o alzheimer levou-te tudo, mas não a presença de espírito
nunca desapareceste
foste teimoso até ao fim
ressurgiste muitas vezes
estavas deitado, estavas presente,
não o corpo, já não o corpo,
tu

como agora, afinal

já não o corpo, tu

já não conseguias comer sólidos, mas comias bem
o que podias comer
comeste sempre bem

e continuavas a combater pela tua fleuma, pelos teus hábitos,
ainda lutavas pelos artigos dos jornais que querias ler, pedias  a coluna do rangel e, quando ta davam, sorrias, sentavas-te, punha-la perante ti e não lias

nestes útlimos tempos, já não lias

só replicavas o prazer de ler
o prazer de pensar
replicavas a busca do conhecimento
o arrebatamento do passo em frente
o trabalho
a graça disse que, mesmo agora, no fim, quando regressamos à aparência
da criança que nunca deixámos de ser,
cada vez que ela aparecia ias a despacho

a graça aparecia à porta e tu
puxavas de uma almofada e escrevias com o dedo


assine aqui, senhor padre,
e ali,
e ali,


e tu assinavas

todos pensamos na própria morte perante a morte dos outros

na verdade, não pensei muito na minha, ontem.
pensei mais na eternidade

o teu quarto ficou cheio de livros e papéis
e quem te amou sabe que está aí
a eternidade

não apenas a tua, toda a eternidade

aí e no que levamos de ti connosco
e passaremos aos nossos
e os nossos passarão aos seus
e os deles aos deles
intimamente


infinitamente

dormiste sempre no nosso colégio, morreste onde dormiste

deitado na almofada

já não o corpo, tu

como agora, afinal

já não o corpo, tu



PG-M 2016
foto propriedade do Colégio dos Carvalhos

2016-06-17

(Não é o Voleibol, nem somos nós) São os trapos


No meio da literatura, o que é melhor do que ela: Voleibol, claro. Para uma equipa quase de geração espontânea, chegar ao pódio na Taça Masters AVP não esteve nada mal. Mas, acima de tudo, foi uma experiência incrível de regresso à competição oficial e federada, quando à maioria de nós, eu incluído, isso nunca passaria pela cabeça; creio que nem sempre jogámos voleibol do reumático e houve excelentes jogos(lembro o CAM-Ginásio de Santo Tirso), embora o público não seja o forte neste escalão tardio; é por isso que merece um destaque especial o Desportivo da Aves, que foi a equipa que conseguiu arrastar mais público consigo, quer em casa, quer fora. Quanto ao CAM (Clube Atlântico da Madalena) e aos meus companheiros de aventura, valeu cada ponto. Obrigado pelas várias ressurreições e viva o voleibol! Para o ano há mais, que até aos 90 ainda falta. 

PS: para provar que ainda se fazem coisas inovadoras nos Masters, no primeiro jogo, com o ALA, fiz mais de uma dezena de serviços seguidos (recuperámos dos 13-19 para os 24-19, coisa que nunca houvera feito enquanto mancebo. Ora toma, PG-M, e depois queixa-te da anca! :)Anexa-se prova de avistamento do superman - o número 3, claro :)

2015-11-08

As camélias não têm noite nem domingo

tenho sempre dúvidas sobre a lonjura e a utilidade de um texto
sobre chamar-lhe poema, narrativa ou canivete multifunções,
por exemplo a japoneira ontem à noite à chegada a casa
eu na rampa empedrada a atravessar o jardim do esteves
onde nunca reparo em nada quando é noite
só nos predicados do dia que passou
nos medos pelo dia que há-de vir
e na garagem
habituei-me a estacionar a carrinha de traseira sem pensar
em estacionar a carrinha
ontem vinha de uma derrota de voleibol
a ouvir aquela música da nancy sinatra
sobre sermos pequenos e brincarmos aos tiros
bang bang he shot me down
ban bang I hit the ground
não há derrota no abraço aos vencedores
nem vergonha se no istmo
das fauces encontras
lágrimas

todos sabemos que aquela música nunca foi de brincar

e que todos irão morrer a cada escuta
bang bang my baby shot me down

pois ontem no jardim pela noite
como creio que em todos os jardins de novembro
estavam camélias brancas na japoneira
e mesmo num domingo como hoje
com o sol em sangue e as veias iluminadas
e os corpos hialinos a transitar na areia
e felicidades sombrias sob jornais grossos

toda a camélia branca
é dia e não tem noite
nem domingo

e tu não estás nua
tu és
nua
e o sexo é madrugada
porque sexo com amor é um cliché estafado e purpurino
como um cadáver e é mais que sabido que todo o amor
de uma vida se concentra no leito das pálpebras

não sei que te amo pela intersecção dos ventres
sei que te amo quando,
morta ou viva,
tens os olhos fechados

e é por isso que a fosforescência das camélias
no jardim do esteves
dos telhados derribados da noite
dos torsos prostrados
das pleuras consumidas
por excesso de bondade

é apenas um estado de mundo
ou o inverno em flor


PG-M 2015
fonte da foto

2015-07-31

(Volume 5) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle italiane

V    (volume anterior aqui)

Nota prévia: Dez-cartas, tens um papel para eu alinhar os versos? Começou a tocar "A Portuguesa", ali, all'estremo sud, tão longe de casa, e eu não contive as lágrimas que me queimaram o poema; os nossos heróis de mão sobre o coração e o poema deles a arder assim:
afonso está parado no ar com os braços desdobrados
e as mãos ilegíveis
ilude o palácio na curta para o central
david salta na vertical
a bola voa de costas para a zona dois
guilherme levanta voo da um
roda a roleta e bate
à frente dos três
capum
diagonal limpa a cair
na um do opositor
que devolve
kiko desenha uma prancha
a bola na pinta álvaro
empurra para o ponta
andré sobe e varre
a linha
marco de chaimite
dispara os directos
o terceiro fica
em jogo, diogo a.
faz de muro com
paulinho

a bola ressalta
a bola sobe

diogo o. bate seco
na longa oblíqua
max joga o pensamento no
bloco sobra
o triângulo curto
com sinfrónio
capum
zona um

foram vistos em bando
nas montanhas
de aspromonte
são aves de alma austral
planando por portugal

Bernardi 2015,
nas bancadas do Palazetto Sport de Cinquefrondi

PS: entreguei o papel ao Dez-cartas, que se iluminou de patriotismo e chorou

(continua no volume 6)

também pode ler Volume 1, Volume 2, Volume 3 e Volume 4
 

2015-07-30

(Volume 4) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle Italiane


IV     (volume anterior aqui)


O quarto era fresco, mas a cama era de casal, o que não seria um problema, não fosse o cochilo algo edipiano do meu amigo filósofo. À décima vez em que ele assumiu a posição fetal trancando a minha perna esquerda entre as dele, resolvi levantar-me. Seriam umas seis da manhã em Itália, portanto cinco no meu relógio interno. Subi e puxei uma cadeira para a janela sobre o Mediterrâneo. Sentei-me com o braço estendido no parapeito. Se eu fosse escritor, teria aqui um problema de cifra. Creio que, para um escritor, todas as emoções intensas serão cifras, aparecem-nos como ovnis no firmamento, a projectar um feixe redondo de luz sobre o bloco do nosso peito e a tentar abduzir os órgãos onde a tradição dá residência aos sentimentos. Felizmente não sou escritor, posso limitar-me a sentir e, se preciso fosse, em vez de escrever chorava o que naquele cenário transcendesse as minhas forças e o corpo em si. As lágrimas viriam quentes, como as águas daquele mar, azuis como o seu reflexo. O tempo passa depressa quando se observa a perfeição: creio que somos narcotizados e cada minuto vira fatias mais grossas da hora. O Dez-cartas apareceu esgrouvinhado pelas oito, perguntou se era verdade, se estávamos mesmo ali, se houvéramos atravessado o Lácio a remoer, se tínhamos atravessado as montanhas mais míticas a olhar para o relógio, se trincáramos sandes de presunto e ricotta em estações de serviço a queixarmo-nos dos lavori in corso. Era isso mesmo. Abracei-o por me dar mais sentido e proporção do que qualquer escritor, mas expliquei-lhe - uma necessidade dos heterossexuais com teias de aranha na cabeça, como eu - que não era gay nem pensava tornar-me um, muito menos em Itália, pedi-lhe que não ficasse magoado comigo por, na próxima noite, eu patrocinar a empreitada de uma muralha de almofadas na linha central da nossa cama de casal. Então começámos a subida para a prima collazione do Giovanni. Não há descrição possível para aquela subida para  o pequeno almoço. Nos dias seguintes o Dez-cartas suplicar-me-á para levar carro, mas eu vou recusar por duas ordens de razão: é perigoso conduzir o carro alugado naquelas quelhas e não temos franquia zero, a primeira; viver a aldeia é vivê-la como a vivem os locais, e os locais não pegam no carro por tudo e por nada, a segunda. Por isso, caluda, o Giovanni só veio de Panda ontem à noite porque tinha um espectáculo a decorrer no seu bar. Pois a subida só se pode fazer com o rabo para trás e o peito quase no chão: de facto, as velhas italianas não sobem assim por velhice, mas por sabedoria. Esqueçam lá o elevador da glória, ou então concedam-lhe ainda mais inclinação e multipliquem a extensão por quatro. Mas talvez seja injusto dizer que qualquer pequeno almoço sabe bem naquelas condições. Os croissants e os brioches são fresquíssimos e, pelo visto, uma tradição italiana que o pão, na prima collazione, não é. O Giovanni trouxe também, à margem, um iogurte gelado de café que nos deixou os olhos cerrados. Os bofes à chegada haviam sido substituídos por gemidos. O Giovanni não pesca uma palavra de inglês, o que, neste contexto, deixou a mesa ainda mais animada e gesticulante. Depois de atravessar a bonita Piazza Garibaldi, de onde este herói italiano lançou a ofensiva para a libertação de Itália da Áustria, tem-se uma maravilhosa vista sobre a marina, que é como em Itália se chama às povoações que servem o mar. O Giovanni aconselhou-nos a ir à praia Groticelle, perto do Capo Vaticano, que ele vendeu como uma das mais belas do mundo. Sem desmerecer, temos umas cinquenta, entre o Algarve e Lisboa, tão ou mais bonitas, mas o que não temos é água do mar a trinta graus. O Dez-cartas parecia um bebé excitado, sempre a chamar-me para a água, mas eu precisava de deixar assentar a existência. Mesmo depois das duas horas matinais de meditação, tinha acabado de conduzir trinta minutos entre Nicotera e Capo Vaticano: recordo, estou em Itália, na Calábria. Sei bem que temos de nos adaptar à condução em todos os países, e, mesmo dentro de Portugal, há alguma diferença entre Lisboa e Porto (pensamos, de parte a parte, que os outros é que são os loucos), mas nunca mais digo mal dos condutores portugueses depois desta meia-hora. Em abono da verdade, os calabreses não são tão agressivos como os nós, ou seja, fazem as asneiras e toleram as asneiras dos outros quase em silêncio, ao contrário de nós, que, ao mínimo comportamento desadequado ou desritmado, perseguimos e insultamos o condutor relapso. Os calabreses não. Passam contínuos de forma descarada, não dão pisca para nada, estacionam de repente na berma, abrem a porta e saem antes de nós, que circulamos imediatamente atrás, passarmos, só buzinam para se cumprimentarem, não para reclamar. A adaptação é no sentido da ocupação do espaço: se nos aproximamos de um cruzamento, não devemos ser cautelosos, ou eles entram mesmo - devemos, sim, acelerar para ocupar o nosso território de forma assertiva. É menos perigoso assim, sendo lavajão como eles. Esta personalidade do lascia-fare acabará por se incorporar em nós na forma de generosidade. Este jeito de se atirarem de cabeça, primeiro, e perguntar depois é, aliás, a autenticidade apaixonada que muitos de nós procuram na própria vida. Pois eu pensava nisto enquanto o outro se atirava de cabeça para a água cristalina e quente do Mediterrâneo. Dividimos um spaguetti pomodoro basílico com os pés na areia, fomos a casa tomar banho e trocar de roupa, estava tanto calor que viemos mais molhados do que chegámos, mas sem sal. Vestimo-nos como tiffosi portugueses e agora só faltava encontrar o pavilhão. Não foi fácil, porque os italianos dão indicações como se todos dominássemos perfeitamente os princípios básicos do vocabulário das indicações em italiano e porque só um em cinquenta fala inglês. Se não sabemos, por exemplo, que "pavilhão" se diz em italiano "palazetto sport", não vamos a lado nenhum. Pois o pavilhão de Cinquefrondi ficava depois de um improvável e estreito túnel que parecia levar ao próprio inferno. Mas não. Em breve estaríamos sentados no paraíso, ou seja, nas bancadas gotejando suor e derramando a honra pátria e a beber o spresso lungo e a comer a maravilhosa macedonia (salada de frutas) do bar do Gianluca e do Nicola. Nada será o mesmo depois de Cinquefrondi. Hoje os rapazes usam o equipamento alternativo, calção azul e camisola branca, os italianos nas bancadas dizem que parece a Itália. Preparo-me então para fazer um poema com a arte dos nossos voleibolistas. Dez-cartas está maravilhado. Olha como eles voam, Bernardi! Olha como eles voam. Quero contar-te a final daquele mundial dos meus ídolos italianos, Dez-cartas, mas primeiro vou fazer um poema sobre estes doze. Do campo começam a vir sorrisos. Ver a bandeira portuguesa no punho de portugueses a três mil quilómetros de distância já não é só o capricho de um parasita que usou os retroactivos de uma pensão social rafada para ajudar à criação de um mito precoce. Em breve se calarão os Sigarette do Neffa e começará a portuguesa do Alfredo Keil, que os nossos meninos não ouvirão apenas em sentido, como dizem as regras de etiqueta, mas sentindo activamente a honra, à americana, com as mãos direitas sobre os respectivos corações.

(continua no Volume 5)
também pode ler Volume 1, Volume 2 e Volume 3

PG-M 2015

2015-07-29

(Volume 3) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle italiane



III    (volume anterior aqui)

O avião deu várias voltas a Roma. Disse-me o Dez-cartas, entretanto esperto, que o piloto aguardava autorização da torre de controlo para aterrar. Os atletas nacionais foram levantando a cabeça à medida que o movimento da nave se tornava menos coerente. A cada volta o avião assumia uma grande inclinação e os "olha o Coliseu", "olha o Vaticano" do Dez-cartas irritavam-me a mim e excitavam os miúdos, que olhavam de forma oblíqua para trás a ver se ele estava a brincar e depois procuravam nos terraços de Roma, pelas janelitas do avião, a solução. Os nervos fizeram-me recapitular a meia-final do mundial de voleibol de 90 entre o Brasil e a Itália e o Dez-cartas pareceu genuinamente interessado, até porque quis saber onde era a zona um, eu disse que era logo a do serviço e que as zonas, no court de voleibol, se contavam ao contrário da rotação, que por sua vez se fazia no sentido dos ponteiros do relógio. Portanto, a rotação, em voleibol, é a favor do tempo, mas conta-se contra ele. Então, deixa-me ver, o Lucchetta, para bater a bola ao centro da rede para uma zona entre a um e a dois...hum....deve ter sido muito bonito. E quando dizes segunda linha, queres dizer o quê? Há uma linha riscada a três metros da divisória dos campos que define o ataque e a defesa. Atacas à frente dela, defendes atrás dela. O ataque tem uma área que é metade da defesa. Quando atacas atrás da linha dos três metros, atacas de segunda linha. E o cubano Despaigne atacava assim? O Despaigne era solicitado em quase todos os pontos do campo. E era eficaz? Muito. Saltava atrás dos três metros, batia em voo na projecção do metro e meio, de cima para baixo, com muita violência, muitas vezes a quatro metros de altura. Os miúdos olhavam de lado. Os parolos falam de voleibol? Olha o Coliseu, olha o Vaticano, ai que estamos a descer, é como se o avião fosse pisando o degrau inferior, os flaps das asas cada vez mais abertos, travão a fundo, palmas, estamos no chão. Abraço o Dez-cartas comovido. Estavas com medo? Sim, isso e nem acredito que estou na Itália com que sonhei toda a minha vida. Começámos a odisseia aeroportuária para ir buscar o carro alugado. Os balcões romanos de aluguer pareciam a fila da sopa, com a agravante de que não se pode reclamar qualquer dignidade para a necessidade de um carro, muito menos compará-la com a fome, disse, e com toda a razão, o Dez-cartas. Mas isto é triste. E a ansiedade na cara das pessoas, certas de terem sido apanhadas numa espécie de armadilha? E as surpresas, e os sobre-custos? Chegou a minha vez e comecei a aprender. Perguntaram-me se aceitava um Panda automático. Nunca conduzi um carro automático. A minha interlocutora na alugadora disse que também não, que me tentaria arranjar um carro melhor, porque os Pandas manuais estavam todos ocupados - melhor, deixe-me ser sincera, disse ela, não mandamos carros menos seguros para o sul de Itália -, mas que, além disso, havia um problema. Nunca tinha usado o cartão de crédito que o banco teimara em dar-me. Mas a Nádia da agência de viagens pediu-me tantas vezes um cartão de crédito que eu cedi o meu e dei-lho. E assim reservou ela tudo, avião, carro, dormida. Os valores só seriam descontados no final, mas disseram-me no balcão da sopa que o meu cartão não estava autorizado. O Dez-cartas tinha um, mas não conduzia, não pode ser. Ofereceram-me o telefone para ligar à Nádia, mas a Nádia disse que não podia fazer nada, que provavelmente tinha um plafond. Mas se eu ainda não gastei tostão e eles todos aceitaram as reservas e tenho para aí dez mil euros à ordem? Tentei que me aceitassem a garantia em dinheiro, mas nada. São regras. O Dez-cartas via-me nervoso e pedia, ao longe, que me acalmasse. Estava de guarda às malas. À volta dele a diáspora. Pelas minhas contas, eram pelo menos sete horas de viagem para o sul de Itália e os meninos desfilavam nas ruas de Cinquefrondi às oito da noite. Era quase uma da tarde. Comecei a choramingar. A minha interlocutora na alugadora chamava-se Cristina Ribaldo, era muito magrinha e tentou acalmar-me dizendo que conhecia muito bem um escritor português. Como se chama, perguntei eu. O livro era "Sostiene Pereira" ou algo assim. Ah, mas esse não é português, é italiano, chama-se Tabuchi. Mas agora isso não interessa. Sostiene Bernardi que a aventura italiana não pode acabar entre as sopas de um aeroporto. Fui tomar um café e pensar numa solução. A cafetaria era sporca, o empregado da cafetaria sporco era e ainda por cima esperto, fartava-se de mandar bocas na fímbria dos lábios que nem os italianos percebiam. Pedi um Spresso Lungo, veio um curto. Ouça lá, eu disse lungo. E ele, com uma unha de tocar guitarra ostentando uma linha preta de quase meio centímetro de sujidade, meteu a ponta do dedo dentro da pequena chávena e perguntou: e isto não é lungo? Não. E ele, contrariado e ruminando as piadas para trás, meteu-lhe mais uma gota em cima. Eu disse que não queria saber. Telefonei para o meu balcão, cujo demorou mais de uma hora a atender, e falei com a Sílvia, que, para sorte minha, era gerente e me resolveu a questão noutra hora. A magra da Cristina Ribaldo levantou-se para pedir autorização do upgrade de carro ao gerente e, realmente, a minha avaliação sobre a sua magreza fora espúria: era cintadinha e vivamente bem feita. Vai levar aqui uma bomba, um Clio ou assim, e eu até entendo que ela pensasse que eu achava o Clio uma bomba, porque eu tinha pedido um Panda. Regressei para junto do Dez-cartas, que me exigiu o sorriso que eu não tinha. Já não vou ver os miúdos. Deixa lá, pá. Mais tarde saberíamos que os ragazzi seriam atropelados por discursos oficiais durante três horas para dez minutos de desfile nas ruas, e só agora estava a começar o maravilhoso mundo da Cantábria, que, como verão, não tem méritos na organização, mas no lascia-andare, e aí reside um pouco do seu encanto e lição ao mundo. A Calábria é Legendriana. Tem o fervoroso coração italiano de tronco nu. Mas já lá vamos. Agora estou a insultar, a meias, o Dez-cartas e a GPS. "A" porque personalizei a menina que fala nos mapas do meu telemóvel e lhe chamo Gabriela Pereira de Sousa. Ora, o Dez-cartas deu a ideia: já que não conseguimos chegar a tempo da apresentação, porque é que não vamos almoçar a Pompeia e ver os corpos suplicantes? Era suposto a Gabriela tirar-nos de Roma, mas ela, em vez de nos levar para Pompeia, levou-nos para Pomeza, na zona industrial de Roma - confesso que aquilo era assustador. No rádio já tocava aquela que viria a ser a canção desta viagem, e que na altura me fez gritar com o Dez-cartas para que desligasse aquilo: "Sigarette", a nova do Neffa (eu nem sei quem é o Neffa, foi o Shazam que me disse). Sigarette la mattina la-la-lalla-la-la-la / sotto questa pioggia fina la-la-lalla-la-la-la. A Gabriela mandava-nos virar para becos sem saída, perdemos mais uma hora e acabámos a almoçar num McDonalds na orla de Roma, a tentar sentir-nos felizes. Quando regressámos à estrada, já ninguém queria ver ou visitar nada, só fazer quilómetros. E assim foi. Velocidade lenta na aproximação a Salerno, experimentação das inacreditáveis áreas de serviço da A3 com 35 graus cá fora, saída para a montanha em fila indiana por causa dos lavori in corso e a noite a cair: disseram-nos, ao longo desta semana, que toda a Itália são lavori in corso, sempre. Muitas horas depois, na aproximação a Vibo Valentia, já dentro da Calábria, finalmente, pudemos pressentir a beleza das vistas que levavam o nosso olhar até Reggio e à Sicília, em frente, mas era só um pressentimento que nos era dado pelo prateado da lua no mar ou pela linha de luzes na costa, ao longe, porque a noite se fechara sobre os montes. O trilho final foi feito por pequenas estradas comunais sem iluminação, e aí a Gabriela, que enlouquecera às portas de Roma, disse presente. E chegámos à nossa aldeia, Nicotera, um povoado antiquíssimo sobre o Mediterrâneo, por quelhas medievais remendadas, com os músculos da cara retesados e alma meia encomendada à providência. Estacionei junto a uma igreja e liguei ao anfitrião, Giovanni, que não falava inglês e tentou explicar onde ficava a que seria a nossa casa num labirinto onde não havia nomes nas ruas. Nessa altura já nem me lembrava que tinha vindo pelo Voleibol. O Giovanni teve de descer a aldeia toda com o seu Panda para nos dizer onde era a casa. Abriu a porta e estava quente, muito quente. Eu e o Dez-cartas começámos a pingar, o Govanni sequinho. Explicou-nos o básico e disse: prima colazzione são duzentos metros a subir até aos Terraços de não sei quê. No dia seguinte saberíamos o que são duzentos metros a subir: nem o Elevador da Glória. O Dez-cartas lá tomou banho num chuveiro que molhava a sanita toda e eu, na janela sobre o Mediterrâneo que só me devolvia prata, chorava a rir.

(continua no Volume 4)

também pode ler Volume 1 e Volume 2

PG-M 2015
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