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2025-01-02

A Latina fecha depois de amanhã e ninguém quer verdadeiramente saber

 


Faltam 2 escassos dias para o insensato e insultuoso encerramento de uma das livrarias históricas do coração do Porto, a Latina: imaginem que salvavam alguém de se afogar e depois a empurravam para a morte. Foi o que aconteceu. Escrevo porque sou livre, tenho conhecimento de causa e posso dizer algumas coisas que não vi ditas: sou livre e não tenho amigos com o poder de desfazer isto. Entre várias estupidezes inexplicáveis da decisão do grupo Leya, grupo que me publica desde 2011 ‒ e eu tenho muita honra de ser um autor Dom Quixote, mas sempre exercerei a minha liberdade e expressarei o meu desacordo, primeiro em privado, mas sempre em público quando os lesados forem as pessoas e o interesse público e os responsáveis surdos à sensatez ‒ , lamento a morte trágica do Pedro Sobral e preferia tê-lo em cena para lhe explicar como é prejudical à imagem do grupo Leya o encerramento de uma livraria que é símbolo de um charme que um grupo financeiro não compra nem alcança por si e que de momento era superavitária e a crescer exponencialmente, o que para um gestor devia ser óbvio com o encerramento da Fnac de Santa Catarina, a vinte metros da Latina. Fiz o mesmo com o Paulo Cunha e Silva quando, depois da luta dos escritores do Porto contra a inenarrável decisão da APEL (a que ironicamente o Pedro presidia, instituição que precisa de corrigir a mão em tantas coisas, sendo uma delas uma gestão transparente do Fundo da Cópia Privada, onde os autores e os livreiros e editoras mais pequeninos estão esquecidos e continuarão a estar enquanto os grandes, por indicação “legal” pouco clara, continuam a repartir entre si o bolo anual de milhões) de acabar liminarmente com 83 anos de Feira do Livro do Porto, a libertamos para ser feita directamente pelo município e até hoje nunca o Porto ter verdadeiramente feito uma feira do livro de tripeiros por tripeiros: devia entregá-la aos livreiros da cidade, como acontece em Madrid: na altura, 2013, foi fácil perceber a perfídia de algumas instituições e seus dirigentes. Depois de os escritores terem reunido apoios várias vezes superiores aos 80.000 Euros exigidos pela APEL para “barracas”, esta recusou a nossa ajuda em telefonema, dizendo que agora era uma questão política. Pois era. Entretanto víamos Rui Rio, por mais que tenha anunciado boas intenções, a abrir garrafas de champanhe dentro de um barco Rabelo a meio do Douro enquanto caíam as torres do Aleixo, casas de tantas famílias e que certamente podiam ser musicadas com a marcha fúnebre do Mozart, mas nunca com champanhe e sorrisos.
Em 2013 o Paulo Cunha e Silva mostrou-se sensível aos argumentos e disse que ia corrigir a mão em próximas edições. Apresentou-se na primeira edição da feira a cumprimentar os promotores (que não estiveram na feira por convite, esse um dos erros do Paulo, mas de forma rebelde ‒ mesmo contra grupos como o Leya, que não queriam estar na feira livre do Porto nem que os seus escritores fossem ‒ , levando livros debaixo do braço e mesas e cadeiras de piquenique para as sessões de autógrafos) do que pode ter sido o único protesto de rua de escritores da História de Portugal, uma quase anedota que conto sempre e pode bem ser verdadeira, porque os escritores não costumam protestar na rua e nós fizemos isso: sem autorização oficial, tomámos a praça da Liberdade, no Porto, enchemo-la de livreiros e de citações, poemas e outros textos de escritores nas árvores. Paulo Cunha e Silva tinha essa capacidade e qualidade de reconhecer o erro. Mas também morreu logo a seguir. Agora temos a Casa onde nasceu o Garrett a cair (e já tinha caído se não tivesse lá o “brasão” de homenagem: ou seja, havia Porto em 1864) e a ser hotelizada sem condições de lá garantir a memória do Liberalismo e do seu maior símbolo. E temos outra vez pouco Porto nisto, em vez de Moreiras temos renascidas Luisinhas Midosis.
Deixem-me atalhar desde já a ignorância do que vi escrito desde que foi anunciado o encerramento da Latina (sobre já não ser a livraria que era): a Latina tinha hoje, obviamente, uma frente de loja dedicada aos que gastam dinheiro em capas e aos turistas. Mas tinha muito mais do que isso: tinha o que muitos não conheciam e que esta excelente foto do André Rolo (JN) retrata bem: mais três ou quatro andares de livros por ali acima e um auditório que só não era usado porque a Leya, verdadeiramente, não queria nem nunca estimulou, ao contrário do que tem feito na Buchholz desde que foi refrescada. Por isso dizia o falecido Pedro Sobral ao Nit no dia de Outubro de 2024:
“A Buchholz não irá, então, fechar portas, visto que não é apenas uma livraria. Por ali, também há apresentações de autores, clubes de leitura e várias outras ações ao longo do ano.”
Um perfeito disparate, insultuoso para quem vive no Porto e gosta verdadeiramente de livros. Não havia porque a patroa já não tinha esse plano para aqui. Espaço e vontade e história e memória havia. Era só querer. E a Leya não queria.
O argumento, também inenarrável, de que esse “não era o negócio da Leya” cai pela base com a metáfora exposta no início deste texto de defesa da dignidade e da decência das pessoas, das instituições e das cidades e sua memória:
Foi a Leya que salvou a Latina. Como autor Leya, orgulhava-me disso. O Pedro também disse que herdou o negócio de livrarias da Oficina do Livro. Não era o caso. Esta livraria estava insolvente e a Leya salvou-a. E bem. Quem mata o que salva?
Termino com aquilo que a Leya deveria ter realmente feito, num dia em que se decidisse comportar como pessoa de bem, que é muitas vezes (não sempre) e o deve a notáveis equipas que nela dão o litro, não a gestão e decisões sem alma e sem respeito pelas pessoas, pelas instituições, pela memória e pelas cidades:
Ter procurado um parceiro no sector, mesmo concorrente, que estivesse interessado em tomar de trespasse, mesmo com novas rendas, um projecto que, sempre o senti, podia ter um crescimento exponencial como teve a Lello, se devidamente feita e “vendida” a sua história e sua beleza, que também é flagrante.
E faço o meu Mea (e nossa) Culpa:
em primeiro lugar, não houve um verdadeiro movimento de fundo para salvar a Latina. A maior parte de nós não quis verdadeiramente saber e assim fica fácil para as gestões sem alma vingarem: percebi isso em cada contacto que fiz. As compras de Natal eram mais importantes.
E Mea Culpa porque vezes sem conta disse aos meus livreiros favoritos, o experiente Joaquim, a querida Isabel (que um dia teve a coragem de me fazer assinar todos os exemplares em loja do “Livro sem ninguém”, que eram uns 8, e acabou por ser premiada pelo risco, porque os vendeu a todos em pouco tempo quando vendia 1 a 2 por mês), o grande Paulo, que tínhamos de trabalhar a história da Latina e começar a programar clubes de leitura e eventos para lá, mas não fomos a tempo nem a patroa estava interessada.
A Latina é morta pela sua salvadora.
Em qualquer latitude isso é profundamente pérfido e triste.
Retiro-me a sonhar com alguém que ainda responda a um das minhas centenas de mails, sendo que um salvamento por grupo de cidadãos (como já foi feito noutras partes do mundo e até em algumas livrarias do país) exigia sempre uma rectaguarda financeira sólida, que não encontrei e não tenho, e, em vez de vertermos lágrimas quando passarmos e percebermos que já não estão lá as estantes e os livros, só tenha mudado a marca e se tenham salvo alguns dos empregos, porque, sou sincero, o abraço de despedida da Isabel doeu mais do que confortou.
Viva a Latina. Viva o Porto.
2 de Janeiro de 2025
Pedro Guilherme-Moreira
Foto de André Rolo (JN)

2024-07-18

Belén Caccia

Belén Caccia. Quem é? Esta é uma crónica sobre espanto em tempo de desencanto, sobre elevação no centro do abuso de aspecto triste e pequenino, mas que mói tanto como o que parece grade e arrasador. Quem é? Estes são os tempos em que fazemos sempre esta pergunta e queremos responder sem ajuda e sem critério. E a maior parte de nós não quer realmente saber a resposta: não quer saber quem é a pessoa, apenas de que forma pode servir os seus próprios interesses ou ser tolerável no momento em que se cruzar com ela. Assume que é o capuchinho vermelho e só se quer certificar que do outro lado não está o lobo mau pronto a roubar-nos o almoço e a comer-nos a avó. Não conheço muita gente que faça uma utilização cívica e social da informação que obtém. Já conheço muita gente que pura e simplesmente não quer saber. Em eventos públicos como festivais literários isso é flagrante e agora sim, vou armar-me em carapau: eu nunca fui a um evento em que tivesse um ou mais interlocutores ou companheiros de mesa sem saber o possível quem eram e o que pensavam e, sendo artistas, o que faziam ou tinham escrito (lendo) ou pintado ou cantado ou tocado. Muitas vezes cheguei às mesas a saber mais deles do que de mim. E tive sempre o cuidado de lhes dar o protagonismo, subtraindo ao meu. A verdade: fi-lo nos primeiros tempos (na literatura) porque não sabia tê-lo (ao protagonismo) e nos seguintes porque realmente me interessa sair de um lugar diferente do que nele entrei e a diferença não sou eu, são os outros, os que conheço de novo.

Quando fui a Madrid no fim de Maio - nos próximos dias levantarei o véu sobre este dois dias e meio magníficos - sabia que a minha anfitriã seria Belén Caccia. E obviamente a pergunta foi:

Quem é Belén Caccia?

Quem está a ler isto vai querer saber e a primeira via é o Google, por estes dias, como noutros foram as páginas amarelas. Normalmente inconsequente ou incompleta (se me pesquisarem, por exemplo, não há forma de aquele “advogado” se me descolar do corpo porque o Google não quer, mesmo que eu preferisse ser só escritor quando fosse pesquisado, ainda que um dia, em São Pedro do Corval, Alentejo, dito o maior centro oleiro do país, depois de ter dito ao rapaz que nos serviu a refeição de um restaurante local que era escritor - decidi nesse dia que me intitularia isso antes de qualquer outra coisa, que no fundo é o que sinto - e ele ter respondido “está bem”e ter voltado um minuto depois e perguntado: “Agora a sério, o que é que faz mesmo?”).

Quando pesquisei Belén Caccia os resultados do google foram avassaladores.

Aliás, basta consultar o curriculum da Belén  no seu pórpio sítio para ficar de queixo caído. E eu que pensava que ia ser recebido por uma anfitriã institucional simpática e cordata, percebo que quem me espera é um par das Artes e mais, é alguém com um vasto curriculum que merece atenção, que merece que me importe com ela: precisamente o que eu sinto não acontecer em meios que deviam ter sempre o propósito colectivo acima de qualquer propósito individual.

Tão vasto que decido suspender as leituras e as séries e os filmes durante pelo menos dois dias para absorver tudo o que me fosse possível de uma mulher com mais de trinta anos de carreira sempre ao mais alto nível e que é dramaturga, actriz e encenadora (de Shakespeare, entre muitos outros) e professora de teatro. Ou seja, esperava-me uma pessoa valorosa. Fiquei feliz e fiz uma vénia ao destino antes de a fazer à Belén. A carreira brilhante da Belén precede-a e está espelhada no seu portal profissional. Ainda que impressione, o que mais me impressionou foram outra coisas e delas quero dar testemunho.

A Belén tem um “problema”. É uma mulher deslumbrante, “ainda que” (o sublinhado não é inocente) esteja já perto dos cinquenta. Foi mãe aos 40 e disso fez gala, com grande coragem. Foi uma grávida belíssima. Tem um filho mágico (por mérito próprio) chamado Oliver. E ela própria disse em entrevistas que sabe tirar melhor partido do corpo na idade actual do que quando era mais nova.

Do vasto material que fui absorvendo durante esses dois dias fechado a tudo o resto, vi sempre talento, mesmo no papel mais difícil, que tem dominado muito os dias de Belén Caccia desde que veio do seu país natal, Argentina, onde fez praticamente toda a sua carreira, para Madrid, onde começou do zero (quanta coragem!): stand up comedian.

Ri-me muito, mas também fiquei em sentido. Na verdade fiquei deslumbrado.

Deixem-me acelerar o relato até ao ponto em que também fiquei envergonhado, embora não me espante no mundo de hoje e principalmente no mundo dos homens de hoje que não se sabem conter no seu pequeno poder digital e preferem o ridículo, que nos envergonha a todos:

No seu instagram a Belém tem uma secção chamada “bloqueaditos”. Quase todos homens, pois claro, como também  são quase todos homens os violadores e os abusadores. E estes não contribuem para uma pacificação para que seja possível voltar a dar colo às crianças e haja espaço para os homens bons. Porque o erotismo e a sexualidade são coisas que exigem lucidez, despoluição mental, classe, tento e respeito, não diabolização. Foi confrangedor ver como se comportam os homens só porque a mulher é bonita: não lhes importa se é valorosa. O ridículo em que tantas vezes caímos sem termos noção. Confrangedor e enriquecedor.

Não foi surpresa para mim que a maioria dos trogloditas achem que uma mulher bonita que se mostra deslumbrante não pode valer muito. E não valendo muito eles sintam que lhe têm acesso fácil só porque está ali no instagram e podem dizer a primeira coisa que lhes vem à cabeça. E ainda achem que ela lhes vai cair nos braços.

Repetem-se quase como se fossem invariáveis e invevitáveis  os clichês do “princesa”, “rainha”, “deusa”, os convites ostensivos para sair ou para serem recebidos por ela em casa. Às vezes são explícitos e deram-me a verdadeira medida do atraso masculino quie ainda persiste e que ainda é do tamanho de Júpiter.

A Belén enfrenta tudo com coragem e determinação. E classe e beleza. E inteligência. E humor. É um grande exemplo de força para qualquer pessoa, mais ainda do que para qualquer mulher. 

Veio de um continente e de um país, o seu, onde era sobejamente conhecida e figura pública para um meio e um país, o do nascimento da sua língua, quase sem rede. É o verdadeiro esplendor, mas pouco conhecida à escala espanhola e obviamente ainda menos portuguesa e europeia. E depois? precisamos que seja “conhecida” e “socialite” falada em todos os meios de comunicação para lhe darmos valor? Esse é o ponto. O combate de décadas pela dignidade e superioridade da mulher nunca esmoreceu, fosse ou não reconhecido pelos poderes e pela imprensa. 

E o que faz a maioria das pessoas (homens acima de tudo e infelizmente)? Pergunta quem é e que projecção tem. Responde de forma frívola e simplista logo a seguir. Muitas vezes com menoscabo. 

Pois eu, quando tive a mínima noção da pessoa que ia conhecer, fiz traduzir e ajudei o mais que pude a Cristina Vicente a rever a tradução da única peça que escrevi, “Ekaterina com as mulheres sobre tudo”, até hoje só representada parcialmente, levei-a pronta e dediquei-lha dizendo, como só direi a alguém que respeite muito: “Gostava que fosses a primeira pessoa em Espanha a encenar a minha peça”. 

Não farei muito mais para vos convencer que ao acompanhar a Belén Caccia estamos garantidamente a acompanhar uma grande e, seguramente, uma das maiores.

E que não importa que isso tenha apoio em currículos vazios e produzidos para o efeito. Não. É mais justo vê-la, acompanhá-la, rimo-nos com ela.

Dos projectos correntes, além de podcasts e entrevistas, e ela nunca pára, todos tive pena de não ter visto senão extractos, como MILF (“Mujer inteligente, libre y felíz”), que está a ser um grande sucesso sempre que tem uma representação, qualquer encenação do Shakespeare, mas também qualquer noite de Belén ao vivo como stand up comedian, sendo certo que, como ela própria diz e é inteligente e sábio, ainda não se mete em política espanhola, como fazia na Argentina.

É uma mulher que trabalha tanto e pega de frente todos os problemas e não há um minuto perdido em todos os que lhe dediquei e dedico. E é linda e isso não pode ser um problema.

Quem é Belén Caccia?

É simplesmente uma artista maior.

Maior ainda do que isso.

O que percebi é que, além da sorte (minha) de a ter como anfitriã, o espírito de combate da Belén é tal, a tarimba para a luta e os projectos múltiplos, que ela própria não pára um segundo para ouvir elogios e em princípio não acredita mesmo que é já uma das maiores do seu tempo. Não é na Argentina. É em todo lado.

E eu com isso. E nós com isso.

Os sábios são sempre assim: por mais brilhantes ou belos,

têm sempre o pescoço curvado em vénia.

Em princípio não nos deve interessar quem não se apresentar em vénia. Ela faz isso. E temo-la aqui, do outro lado do ecrã.

Aproveitemos a excelência enquanto aí está.

Obrigado, Belén!

#Belencaccia #madrid #argentina

#pedroguilhermemoreira

PS: não consegui descobrir quem creditar a belíssima composição fotográfica. Quando souber, prometo que o faço.


2022-01-30

Open letter to His Excellency the Great Bryan Adams

 

Dear Bryan,




Thank you for coming back and bringing Heaven with you.




We hadn't spoken since the summer of '85. The last time we were together you couldn't see me and I could only imagine you. Heaven didn't talk to me and I din’t talk to Heaven. Because days before, I had found myself distressed in Armação's east room, my room, while I was trying to crush an insolent and rebellious tear on my cheekbone and the sun was burning on my face, on the Galé side, and I told everyone that I would never leave the room, that I would stay in that room forever. At least as long as my face and chest didn't dry out. I never explained the impossible to you, nor to you nor to anyone else. At the time I turned my back on Heaven, I incomprehensibly chose Blue Eyes to become a man again. I achieved it. I pretended that love was a whim and after all, you and I know that, it's the most violent of superhuman truths. Nothing cheesy, nothing sensitive, life has beacons, death and birth, the rest is love. As if love was part of an american sandwich stuffing and she wasn't American. And she was anything but American. And when love is captured in the palms of the hand with the right refraction of light, it overcomes all. It seems to overcome life itself, death itself, as if it happened on a plane of existence that we do not have access to if we are not attentive or the day is not clear. Better than clear: transparent. Because when light penetrates refracting media, its speed decreases and everything becomes more noticeable.




So thank you, Bryan.




Thank you for making me overcome death again. The road, which had narrowed, widened again with you. Thank you for bringing back those times when we saw tanned brunettes passing to the beach and we only knew how to smile in the distance, or smell coconut oil close by, nothing more, we fled the salon at the first chords of Heaven so we wouldn't be invited to dance and stayed watching the aftermath behind thick black velvet curtains that grandma had bought by the meter at the fabric house so that our private party could look like a nightclub . All our parties were spectacular. All. But this time we were so scared to go to your concert 22, thirty-six and a half years after that summer when I isolated myself in the east room. There are those who are only prepared to die: for these we are all old and there is nothing to do, you don't sing, you explore, we only know how to spend money in concert tickets to validate our little life. Even in a mask. I put two. We expected chaos and knew we were really going to die of sadness there, poor 50s gray-haired defying the pandemic for music out of time. Wow. The pessimists may be right: endless lines! Are we really all old?, are you too?, are we just going to be poor gray-haired fifty-somethings playing sad figures? But after all, our children are here. Almost our grandchildren. What's up, Bryan? Is it Spotify? Are you still playing in clubs or was it the Spirit soundtrack that kids saw crying on Saturday mornings, when, for a long time, we, their age, only had the tv technical screen? The stupid ones served beer in the back of the pavilion. The stupid squares brought about two glasses of beer in each hand to the middle of the pavilion and had to take off their mask to drink. Seriously sick people with pre-pandemic festival syndrome. You didn't know this, did you? In fact, as soon as you took the stage we were all hypnotized and the beers stopped and whoever dared to go get more or take off their mask had threats of beating while you started with Run to you. 




“She says her love for me could never die




But that'd change if she ever found out about you and I”




When you love someone. Straight from the heart. Do I have to say the words?




Half-light. Slow pace. The velvet curtains closed. Pairs are formed. She lifts her arms around my neck. The synthetic keyboard begins Heaven. The guitar chords.




“Oh, thinking about our younger years.




There was only you and me, We were young and wild and free…”




Her head is tilted slightly, her breath and lips very close.




What do I do?




She advances with her tongue and we both stay there until our lips burn. It was customary, twenty-five-minute kisses. Burnt lips and hickeys like spoils of war.




We don't even notice that the slow musics stop with the chords of the summer I was born.




In your song about the summer I was born there was always something unrestrained, merciless. Summer of 69 is me and nothing before. It's just that singing about the summer that brought me into existence doesn't bring things that are easy to manage without going back to it, to the commotion that crushes the cheekbones and it can happen that I teleport myself to the east room and that's not good. 




“I got my first real six string




Bought it at the five and dime




Played it til my fingers bled




Was the summer of '69”




But live, you right there in the front, real, the words of the song playing on naked bodies behind you and the tattooed “Summer of 69”. That's why I remembered my mother Mena a lot, because that was precisely the summer she became a mother. Thanks to me.




Standing in your mamma's porch




You told me that you'd wait forever.




They are the only possible promises, the ones that are made forever.




A few years later I made it to the girl who is still my wife: if you have any doubts, I can wait forever. It was an Air Supply theme on the Ghostbusters album. My anxiety and my lost gaze was over, the love that was already there and I didn't want to give it to anyone who wanted me just for a night of slow songs and dance. 




The first time I went to her house, she showed me your Reckless vinyl. Then thirty-something years go by again, now this is how we count the memory jumps, and she sees the announcement of your concert in 2022. She receives that as gift on Christmas Eve. We look at the numbers of the pandemic. There is no enthusiasm possible. A lot of people cancel concerts after concerts, I imagine you've thought about that too. The day before we do those antigen tests and they come back negative. It seems like we're going to see Bryan Adams. The scary lines make you think it won't be that night. Then you come to this night that becomes out of this world: you had already disappeared from my playlists, but in the morning after the concert I went to the market to buy the best live versions. Mtv's Unplugged, Australian Tour, Bare bones, which is a great live album. There are already more than twenty songs on the brand new “Bryan Adams” playlist in my phone.




But do you know that in none of these concerts did I hear delirium like yesterday? Is it because it's mine? Is it because it's the night we finally met after the hassle with Heaven?




Extraordinary show, this one in Porto (Gondomar). The cameras around you, all in our eyes. The public seeing itself and maybe you were right and it wasn't just sympathy: we were also good as public and we were the first on your new tour after two years stopped by the pandemic. The lights. You. The sound. After all, there are those concerts that justify every cent of the ticket and have the perfection of professionalism showing the possibility of the failure of all most perfect singer your are. Rock is the fault through which the light enters. And how well you fail!




Thank you, dear Bryan, for eternity. 18 till I die. Mother Mena, even though she died, I felt here today by my side saying "finally, Pedro, you arrived in time to see him". I, who could never buy an LP from you. I wanted to tell her. Without dying first, like her. And Vera next to me, hand in hand, became all the girlfriends, all the kisses, all the slow dances. If we watch carefully, people twist their bodies in a time-regression position. They close their eyes, not out of nostalgia, but because they are boarding the DeLorean back to immortality. Some cry inside. Some cry on the outside.




But it was you, dear Bryan, who lost the right to die. And I of sleeping today. There is rock everywhere, inside and outside of me, and because of me walking around the house only apparently quiet at dawn, inside and outside the thousands who applauded you, inside and outside the world, but no one needs to count sheep to fall asleep. Just remember those smiles back, the smiles os usl around you, your smile and your musicians smile. These, the most beautiful, those of victory over death.




I had already forgotten how When you love someone had declined me and today it breaks me down:




When you love someone




You'll do anything




You'll do all the crazy things that you can't explain




You shoot the moon




Put out the sun




When you love somenone




At the end of the night, we'd like to hug everyone who felt the same, thirty five years ago and tonight, but we're basically alone listening to When you love someone on repeat.




Thank you dear Bryan.






PG-M


Pedro Guilherme-Moreira

2020-10-20

Os maus ainda estão aqui e são tão bons como nós

Quando o fotografei em Agosto, em Birkenau eram quase quatro da tarde e ele olhava zangado para a principal câmara de gás de execução do campo, onde muitas vezes metiam mais de três mil pessoas. Estava sozinho a olhar para o fosso. A cara de zangado ficou na fotografia, que não foi retocada. Ele estava à sombra e ficou à sombra. Pensei que os pais que levam um menino desta idade a um lugar destes não lhe vão mentir, mesmo piedosamente. Fazem bem. Via-se bem que ele estava zangado com o que lhe tinham contado. Ao contrário do que tinham dito, para quem investigou este lugar antes de lá ir, não foi tudo escondido pelos agressores. A câmara oblonga, gigante, está lá. E sabemos que lá estão milhões de nós, também. O meu filho não estava tão zangado como este menino, mas deixou-se ficar tanto tempo perante os lugares que escolheu para prestar a homenagem dele, a homenagem íntima, que eu sei que o meu dever está feito e a memória transmitida. Aliás, foi ele que me pediu isto. Em vez de eu ir embebedar-me para Espanha, consegues levar-me à Polónia com o mesmo orçamento - que era curto - ? Consegui.

 Esta foi a última fotografia que tirei em Buchenwald. Não leiam mais, se vos parecer insuportável. Dei a volta ao contrário, comecei no deserto de cascalho do lugar onde outrora funcionavam os barracões-dormitórios-cantina-enfermaria-lazareto e já não há barracões mas conseguimos vê-los e senti-los todos, um a um, as sombras, o frio, a espera, o medo, desespero, a mancha humana. Há pedras que foram postas por mãos em homenagens e nós sentimos o movimento sofrido da mão a depô-la. Depois damos a volta pelas florestas da infâmia, pelo lugar dos moribundos mais moribundos e das crianças, passamos a exposição da casa grande e terminamos no crematório. Aquelas chaminés ao alto, mesmo sem fumo ou cheiro, sempre me quebraram. Regresso ao berço, fico frágil como se ainda não falasse ou andasse, estou de volta à mãe, ao útero. Devem ter sido assim, estas mortes. O regresso ao útero num pânico gelado. Entramos pelas bancadas de matadouro forradas a azulejo branco onde os corpos eram desmembrados para caberem nos fornos e, precisamente à entrada da sala dos fornos, uma fotografia em tamanho natural da pilha de corpos que os americanos encontraram quando foram libertar o campo, no mesmo lugar em que os corpos estavam, dá-nos um murro. Vários murros. Entre os visitantes, uns abrandam, outros param, a maioria chora, não há olhos secos. Embora fotografar seja importante, muito importante, por agora chega. Não vou sequer falar da descida à cave onde guardavam os cadáveres. Saímos do campo de concentração e durante muito tempo não conseguimos lá voltar. Até estes dias, lentamente, pedra a pedra. A ferida ainda está aberta, ficará sempre uma fenda que sangrará nos dias bons, para me lembrar. Encontro num mercado de livros em segunda mão de Santo Tirso o livro "16 meses em Buchenwald e Dora", do padre Birkin. Está a dois euros e meio e nem sequer hesito. Leio, voraz, porque estes lugares se tornam nossos como aqueles em que nascemos e crescemos, percebo que não é só mais um livro sobre o holocausto e eu já li milhares de páginas de todas as perspectivas, romances, ensaios, testemunhos, as 10 horas do Shoah como se fosse um filme de suspense, e ali está o que ainda me faz parar e apelar à demência, aliviem por favor esta parte de mim que se importa com tudo e todos que passaram. O padre Birkin pede desculpa por contar o que vai contar, mas tem de contar porque viu com os seus olhos. Tem toda a lógica, claro, a frio. Vejo os homens nus por castigo a correr na neve, são poucos mais do que conjuntos de ossos, e o padre Birkin diz. Os mais desesperados iam aos restos de cadáveres que ficavam nos fornos para matar a fome. Em algum ponto da vida choraremos outra vez. Porque somos Homens. #Buchenwald #pgm


  O Guilherme enfrentando os seus irmãos

 
 Entre milhares e milhares de objectos, ao fixar um, apenas um, sente-se a presença de alguém num instante comum e, por momentos, em pleno campo de concentração de Auschwitz, fazemos uma pausa e aliviamo-nos de buscas infinitas dentro de nós próprios. Mesmo que seja ilusão, corpo e alma precisam disto.

 Durante muito tempo esta foto foi apenas uma espécie de sala onde eu me isolava a pensar até onde nós, homens e mulheres, podemos ir. Ou o que conseguimos suportar. Este verão estive com os pés em lugares inenarráveis que precisava de visitar antes de eu próprio sucumbir. Muitos lugares. Este foi o único lugar onde me correram pela cara lágrimas que eram pesadas e secas e duras como pedra e ao mesmo tempo afiadas como punhais. Não chamo a isso chorar. Não sei o que lhe chamo, mas não é chorar. Não quebramos nem soluçamos. Ficamos até mais fortes e disponíveis para o combate. Mas o meu testemunho é que estar aqui, só estar aqui, foi avassalador, mais até do que em qualquer recanto de Auschwitz, onde a solenidade dos lugares já se confunde com a ansiedade das massas que vão espreitar o lugar onde batemos todos no fundo. E eu senti que o meu torso passou a ter mais peso do que o meu corpo inteiro antes sequer de saber ou ler onde estava. Não foi pelo pensamento, pois, mas pelo sofrimento que ainda exala do chão, daquelas ervas que aqui vemos em segundo plano, porque o lugar era este mesmo. A foto na foto foi tirada no dia de libertação de Buchenwald. Este era o barracão da quarentena, mas no fim foi apenas o lugar dos restos, onde não havia latrinas nem espaço para dormir - sequer morrer - em paz. Não distinto este do peso que os lugares onde os nossos compatriotas têm morrido queimados passarão a ter. Há muito tempo que não distinto tipos de amor nem tipos de horror. Porque sei que o que nos eleva ou nos enterra é igual em todos. Em todos os indivíduos. Em todos os lugares. Em todos os tempos. Sei.
#Buchenwald
#pgm


2018-12-17

10 pessoas a evitar no meio literário português

 
A questão não é criar polémica do vazio, mas mapear a perfídia - vá, vamos ser simplórios, dizer quem são os maus - para  que os bem intencionados prossigam pela arte sem interferências.

Por outro lado, uma boa polémica nunca fez mal a ninguém e  hoje faltam polemistas com cultura literária e sabedoria. Aflige-me esse medo do novo puritanismo e dos novos puritanos, do politicamente correcto. Dói? Que doa. A literatura não se fez nem faz para meninos, apesar de serem meninos os que se acotovelam em bicos de pés para serem vistos.
Literatura nem sequer é contemporaneidade, o tempo está-se marimbando para os que querem muito: curiosamente, os polemistas tendem a ficar na história. Ora cá estamos.

Mas não vamos dispersar. Serei objectivo quanto aos 10 nomes cuja perfídia e mediocridade (presentes aos saltinhos nos media e alguns com prestígio - vazio, como verão, e que provarei pontual e factualmente) não me oferecem quaisquer dúvidas, depois de quase 9 anos de observação cuidada a partir de dentro.

Passo então à lista, sem mais delongas. As explicações seguem-se à dita.

1.

(continua no Patreon. Ver explicação abaixo)

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PG-M 2018

2018-12-10

Começar do Zero no novo mundo

Aqui por baixo desapareceram 15 anos de blogue e vamos começar do Zero.

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Finalmente chegou o dia.
Dizem  que a cultura  devolve em triplo tudo o que nela é investido. Há  cerca de 20 anos que percorro as escolas.Tive de recusar algumas cujo custo de deslocação não podia suportar e isso ainda hoje me dói. O meu blogue faz 15 anos e lancei milhares de crónicas. Alguns de vocês gostaram. Há miúdos brilhantes e empenhados que me pedem ajuda, às vezes apenas tempo, e eu não posso porque tenho o meu tempo ocupado com uma profissão,  advogado, que nem sempre sinto como útil ou social. Aliás, ao
contrário da cultura, sinto muitas vezes que estou a perder tempo e a gastar recursos para nada ou até para as contas do Estado ficarem no negativo e não pagarem às pessoas (advogados oficiosos, magistrados, funcionários) o que é devido e no tempo que é devido. Quero reduzir o meu advogar ao que é útil social, cultural e desportivamente. E ainda tenho oslivros que vou lançando e as crónicas que suspendi para repensar tudo. Há investigações dispendiosas, como a que faço há 20 anos em Paris para o livro do meu bisavô escultor. Sou mau a fazer fortunas, mas gosto de pessoas. Há 3 meses saí das redes sociais para me olhar de fora, e percebi que não preciso de alimentar o ego ou sequer de ter uma plateia. Já pessoas que se querem contaminar umas às outras culturalmente, isso quero. Comoquero continuar a ter comigo aqueles que acreditam no mesmo e desafiá-los a serem patronos - porque isto acabará por inspirar outros. Das 5.000 pessoas
que me seguem entre facebook, Instagram e blogue, o objectivo é chegar aos 500 patronos até ao final de 2019 e aí lançar o projecto More 3, que apoiará a excelência dos jovens e a cruzará com a excelência social dos carenciados. Até lá, é para amealhar. Os Patronos podem cancelar, aumentar, diminuir a sua contribuição a qualquer momento e podem interagir dentro da comunidade, o que será muito bem-vindo (sugestões, pedidos, etc). Conto dar aos patronos muito mais do que até aqui. Além da crónica, fotos e da revisitação histórica dos melhores momentos, conto dar sugestões gastronómicas e de viagens e alguns vídeos e áudios,  alguns directos de eventos e grandes competições, live chat e coments, coisa que nunca ou raramente dei. Senti falta de muitos de vocês, mesmo os mais caladinhos, e a minha ideia é ter essa comunidade mais estreita comigo, por um euro que seja. Quero agradecer ao Unas a inspiração do projecto dele, o MalucoBeleza, e espero-vos, ainda hoje, no barco. Ou então reflictam e pensem que o vosso Euro pode gerar coisas boas. E se multiplica por 3. More 3. Por isso, querendo e acreditando, partilhem, pf. Obrigado!! 

Por favor, espreitem em

Pedro Guilherme-Moreira
10 de Dezembro de 2018

2018-07-01

Como nunca perder (e perder como nunca)


Vou só dizer isto e calo-me. A glória neste jogo que mobiliza malucos e lúcidos, burros e espertos, pacíficos e violentos, voltará às quinas, sim, mais uma ou duas vezes neste século. Se gostassem mesmo de futebol, não escreviam nem falavam tanto do que não o é. Mas a verdadeira glória, deixem que vos diga, está e estará sempre nas ligas e nos desportos dos úlltimos. Ou na incrível entrevista de hoje do Souto Moura à E e em todo aquele deslumbramento literário. E, por falar em arquitectura, a verdadeira glória está num filmezinho que anda aí chamado Columbus, em que alguém questiona se o défice de atenção não estará no pai literato que se maça a ver o filho a jogar passado 5 minutos, e não no filho a jogar que (ainda) lê pouco. Sabem o que diz o mundo, a esta hora? Simplifica. Diz que o Cavani afastou o Ronaldo e mais nada. Como tinha dito Ronaldo 3 Espanha 3. Isto não é o meu país, ou pelo menos não é tão pouco nem tão simples.
Está bem, a glória facilita e anestesia algumas dores e deixa a memória e a nostalgia como drogas de resgate de alguns desesperos e desventuras. Mas o que resolve é a atenção. Saber escutar o mundo e o outro. Saber observar. Deste grandíssimo evento - como o são todos os mundiais - fica-me aquele estrondoso jogo com a Espanha e a superação desse atleta excepcional. Mas comovi-me mais com a festa do Panamá no golo de resposta aos 6 de Inglaterra. Agora, como todos, quero sarar. E, como a maioria, espero outras coisas. Bem maior do que esse Espanha Portugal foi a promoção desse outro Portugal, o que joga voleibol, à elite mundial. Lá também temos este Ronaldo da foto, que se chama Alexandre Ferreira. Ganha pouco dinheiro e joga longe de casa, na Coreia. Para o ano, pode até acontecer que Portugal perca todos os jogos na elite. Não serão menos do que os que hoje perderam em Sochi. A adormecer, aqui no quarto ao lado, tenho o meu herói máximo, um que fiz e que agora voa sozinho. Trabalha todos os dias muitas horas, ele e mais uma dúzia, para honrar as quinas num Europeu inédito que se joga a partir de 14 de Julho. Ainda estudam, todos estes heróis estudam, sem qualquer apoio.
Não ganham nada a representar o país, a não ser honra e ventura. Às vezes glória. A tal que voltará às quinas mais uma ou duas vezes neste século e não é grave que não tenha sido hoje. E todos vocês terão o vosso verão e as vossas glórias mais íntimas, uma doença superada, uma notícia boa. Isso sim, é importante. Isso e este abraço que vos deixo. Ser português é maravilhoso.


@pedroguilhermemoreira 2018

Adenda: recordo também o texto com que abri a reflexão sobre estas quase três semanas de Mundial da Rússia 2018, depois daquele estrondoso Espanha 3 Portugal 3:

New York Times. Para ler. Eu não sou o mais entendido dos adeptos e o meu desporto é o voleibol, mas ontem, à medida que as horas passavam, eu (e creio que todos) percebi que tinha acabado de assistir a um momento que ficará na eternidade, mesmo que Portugal não vá longe no Mundial da Rússia. E não é só por Cristiano, que conseguiu pôr um jornal argentino (argentino, cuidem bem) a escrever "a única dúvida é se ele é o melhor de sempre". A nível caseiro já não pode haver essa dúvida. Quanto ao jogo de ontem, eu tive a sorte de não deixar escapar aquele que, para mim, é o artigo perfeito sobre um momento de excepção, a prosa sublime e a atenção ao detalhe de Rory Smith para o New York Times, que escreve também um artigo para a eternidade. Ele diz que a FIFA, se não corresse o risco de perder muito dinheiro, devia fechar já o Mundial e eleger este Portugal 3 Espanha 3 como a final perfeita. E repartir o título pelos dois, digo eu. Uma final que ainda pode acontecer, e Portugal até pode jogar melhor do que hoje e ser campeão do mundo, mas duvido que o jogo e o espectáculo sejam melhores. E a minha cabecinha de português sofredor até estava satisfeita, mas lembrei os falhanços do Guedes, o quase-golo do Quaresma, com os espanhóis a fazerem o que nós devíamos ter feito ao Diego e ao Nacho, ou seja, a serem o camião à frente da baliza, e teríamos ganho. Mas o Rory Smith, que reparou nesse momento do Quaresma, foi à essência do jogo, qual Ortega y Gasset, que considerava o desporto a forma superior da existência humana (e eu envelheço a concordar, cada vez mais, com ele), mostrando também que fazem falta bons escritores e sensibilidades apuradas e multiculturais no desporto. Não esquecer a piada do The Guardian, que diz que Ronaldo devia doar o cérebro a um Museu da Fifa para se poder observar uma força mental do outro mundo. Mas Rory Smith foi ao detalhe de reparar na inteligência da economia e na arte do astro de 33 anos, o que menos correu na equipa portuguesa a seguir a Fonte. Fala dos adeptos espanhóis que ficaram a aplaudir Ronaldo já depois de a equipa de Espanha ter saído. Fala da beleza única do espectáculo entre equipas que podiam estar fragilizadas, e afinal mostraram brilho, Espanha pela saída de Lopetegui, Portugal pelo acordo fiscal do Ronaldo e pelo drama do Sporting e da usurpação da dignidade e excelência desportivas por um bando de arruaceiros. Rory Smith transforma um mero jogo de futebol naquilo que realmente foi: um momento superior de arte. Que mesmo os comentadores tacanhos sentiram, mas dificilmente nomearão como Rory. E, sem superlativos exagerados, pobres dos que perderam a noite de ontem levando-a à conta de voragem cultural do futebol. Ontem não. Ontem não foi isso. Foi Ortega y Gasset. E ninguém se pode lamentar. Nunca se lamenta o sublime e a beleza. A não ser quando somos egocêntricos feios. Mas isso nós, portugueses e espanhóis, apesar das aparências e dos buços, não somos. Foi uma lição ibérica para a eternidade. E a certeza do melhor de sempre. Kant, disse Adorno, postulou a imortalidade para fugir do desespero. Ortega y Gasset disse melhor ainda: 
"bien sé que a la hora presente me hallo solo entre mis contemporáneos para afirmar que la forma superior de la existencia humana es el deport"

@pedroguilhermemoreira 2018