2021-05-21

Fernando Rocha e o Princípio e o fim do mundo


Jim Carrey, Fernando Rocha, Lobo Antunes, Rodrigo Amarante, Eduardo Lourenço, George Steiner, Shakespeare, Cervantes, Saramago, Robin Williams, vida e morte, panteão, palhaços, gritaria em rede social, depressão, suicídio, grande e pequena arte, existência ou inexistência da literatura, limites do humor, Irene, milagre seria não ver no amor essa flor perene.
Tenho o privilégio de ser chamado a escolas e a comunidades de leitores para justificar o meu direito a abrir a boca na contemporaneidade, onde só uma ficção benevolente pode atribuir-nos mérito e demérito artístico. Na verdade, nenhum artista - está visto que eu vejo os escritores como artistas - ou julgador de artistas pode realmente saber se é importante ou não. Nem para o seu tempo, nem para o fim ou princípio dos tempos. Todos, claro, aspiram a isso.

 Não o Rocha.
O Rocha trabalha, é um homem bom que até estima e promove quem não o estima a ele, é um dos pioneiros da moda do stand up muito antes de ser moda e arrasa plateias desde o tempo em que os senhores importantes do humor eram os meninos. Na verdade, à beira do Rocha serão sempre uns meninos.

Confessso que andava há anos para escrever isto, mas não lhe encontrava o ângulo certo. Até perceber que o ângulo certo era homenagear e reconhecer este grande humorista que é o Fernando Rocha sem relativizar o que quer que fosse. Eu não sou humorista. Se fosse, gostava de ser o que ele é. Abri este post como abri o post do meu ídolo Jim Carrey. Isso diz tudo. Mas eu vou dizer um pouco mais:

Há muitos pontos de contacto entre o Jim Carrey e o Fernando Rocha, mas, no final, o nosso tuga está mais próximo de nós, mesmo que seja uma estrela mais planetária do que as pessoas pensam. Ambos foram, durante muitos anos, olhados de lado pelos seus pares, mas sempre foi para o lado em que dormiram melhor. Ambos, ainda hoje, são colados a uma imagem frívola e simplificada: a do Jim é a do cómico de filmes light, o que é perfeitamente disparatado e ignorante, a do Fernando Rocha é a do broeiro brejeiro do Porto que só lá chega à custa de muitas caralhadas, o que é perfeitamente disparatado e ignorante.

Eu até admito que alguém que não tenha alma nortenha tenha dificuldade em perceber a pureza dos tipos retratados pelo Fernando. Não tem é o direito de o julgar  por isso. O Fernando foi suporte e chão de muitos humoristas e muitos programas que não tinham onde assentar e se socorreram dele. O Fernando é seguro e sólido, mas, ao mesmo tempo, é genial e trabalhador. Observa, reflecte e adapta o seu material e é, juntamente com o Herman José e o Ricardo Araújo Pereira, um dos grandes do nosso tempo - tomara o Herman conseguir ter a elevação, a humildade e a cultura que o Fernando Rocha tem. Tem-nas, mas nunca antes de si mesmo. Talvez o Ricardo Araújo Pereira seja genuinamente um tipo simples como o Fernando. Não na sua persona pública, isso ele não consegue senão pela celebrada técnica da auto-depreciação e do apoucamento, mas pela forma como busca, estuda e trabalha o conhecimento sobre humor e o partilha connosco. E o faz, claro. O Herman nunca teve esta capacidade: é actual, observador e tem história, mas não necessariamente humilde, até porque acha que já não tem de o ser. Já o Fernando agrega tudo o que ambos têm de bom. Claro que, em alguns círculos, qualquer elogio ao Fernando será sempre um exagero. Mas o Fernando aguenta-se na excelência perante qualquer microfone e qualquer entrevistador ou anfitrião que se ache muito inteligente e sofisticado. O bom do Unas, que é outro puro mas não consegue esconder a sua quequice, caiu de quatro várias vezes quando o entrevistou para o Maluco Beleza. O que distingue o Fernando é que entra sempre, em qualquer lado, da mesma forma que entrou no primeiro minuto da sua carreira. E isso é raro e ímpar

As elites podem não perdoar ao electricista de Gondomar o facto de ele ser melhor do que elas, mas, na verdade, ele é melhor do que elas.

No final, o Fernando comove-me com o seu sotaque largo e a sua forma tripeira de ser. É tão nosso em cada detalhe, na postura, nos tempos, na forma como mexe a boca, nos silêncios. Espero que o Porto não tarde em prestar-lhe a homenagem devida, mesmo que o país se esteja nas tintas, hoje e, provavelmente, sempre. Não devia, mas está. Mas o Fernando Rocha não é menor porque nasceu num país pequeno.

Eu venho desse lugar bafiento que se chama intelectualidade e, se há pessoa que me inspira a ter sempre os pés assentes no chão e o espírito elevado, é o nosso Fernando Rocha. E como é bom, nestas mesas sofisticadas onde põem os escritores, ter a largueza de alma para se ser broeiro, brejeiro e tripeiro e eternizar muitos sorrisos em muitas caras. Mesmo não sendo humorista, mas bebendo dos maiores como o Fernando, que são feitos da mesma massa.

Esse maior é o Fernando Rocha, feito desta massa dos deuses que, no fim de contas, é ser do Porto. E ser o melhor possível do Porto e do Mundo.

Obrigado, Fernando.

@pedroguilhermemoreira 2018


2020-10-20

Os maus ainda estão aqui e são tão bons como nós

Quando o fotografei em Agosto, em Birkenau eram quase quatro da tarde e ele olhava zangado para a principal câmara de gás de execução do campo, onde muitas vezes metiam mais de três mil pessoas. Estava sozinho a olhar para o fosso. A cara de zangado ficou na fotografia, que não foi retocada. Ele estava à sombra e ficou à sombra. Pensei que os pais que levam um menino desta idade a um lugar destes não lhe vão mentir, mesmo piedosamente. Fazem bem. Via-se bem que ele estava zangado com o que lhe tinham contado. Ao contrário do que tinham dito, para quem investigou este lugar antes de lá ir, não foi tudo escondido pelos agressores. A câmara oblonga, gigante, está lá. E sabemos que lá estão milhões de nós, também. O meu filho não estava tão zangado como este menino, mas deixou-se ficar tanto tempo perante os lugares que escolheu para prestar a homenagem dele, a homenagem íntima, que eu sei que o meu dever está feito e a memória transmitida. Aliás, foi ele que me pediu isto. Em vez de eu ir embebedar-me para Espanha, consegues levar-me à Polónia com o mesmo orçamento - que era curto - ? Consegui.

 Esta foi a última fotografia que tirei em Buchenwald. Não leiam mais, se vos parecer insuportável. Dei a volta ao contrário, comecei no deserto de cascalho do lugar onde outrora funcionavam os barracões-dormitórios-cantina-enfermaria-lazareto e já não há barracões mas conseguimos vê-los e senti-los todos, um a um, as sombras, o frio, a espera, o medo, desespero, a mancha humana. Há pedras que foram postas por mãos em homenagens e nós sentimos o movimento sofrido da mão a depô-la. Depois damos a volta pelas florestas da infâmia, pelo lugar dos moribundos mais moribundos e das crianças, passamos a exposição da casa grande e terminamos no crematório. Aquelas chaminés ao alto, mesmo sem fumo ou cheiro, sempre me quebraram. Regresso ao berço, fico frágil como se ainda não falasse ou andasse, estou de volta à mãe, ao útero. Devem ter sido assim, estas mortes. O regresso ao útero num pânico gelado. Entramos pelas bancadas de matadouro forradas a azulejo branco onde os corpos eram desmembrados para caberem nos fornos e, precisamente à entrada da sala dos fornos, uma fotografia em tamanho natural da pilha de corpos que os americanos encontraram quando foram libertar o campo, no mesmo lugar em que os corpos estavam, dá-nos um murro. Vários murros. Entre os visitantes, uns abrandam, outros param, a maioria chora, não há olhos secos. Embora fotografar seja importante, muito importante, por agora chega. Não vou sequer falar da descida à cave onde guardavam os cadáveres. Saímos do campo de concentração e durante muito tempo não conseguimos lá voltar. Até estes dias, lentamente, pedra a pedra. A ferida ainda está aberta, ficará sempre uma fenda que sangrará nos dias bons, para me lembrar. Encontro num mercado de livros em segunda mão de Santo Tirso o livro "16 meses em Buchenwald e Dora", do padre Birkin. Está a dois euros e meio e nem sequer hesito. Leio, voraz, porque estes lugares se tornam nossos como aqueles em que nascemos e crescemos, percebo que não é só mais um livro sobre o holocausto e eu já li milhares de páginas de todas as perspectivas, romances, ensaios, testemunhos, as 10 horas do Shoah como se fosse um filme de suspense, e ali está o que ainda me faz parar e apelar à demência, aliviem por favor esta parte de mim que se importa com tudo e todos que passaram. O padre Birkin pede desculpa por contar o que vai contar, mas tem de contar porque viu com os seus olhos. Tem toda a lógica, claro, a frio. Vejo os homens nus por castigo a correr na neve, são poucos mais do que conjuntos de ossos, e o padre Birkin diz. Os mais desesperados iam aos restos de cadáveres que ficavam nos fornos para matar a fome. Em algum ponto da vida choraremos outra vez. Porque somos Homens. #Buchenwald #pgm


  O Guilherme enfrentando os seus irmãos

 
 Entre milhares e milhares de objectos, ao fixar um, apenas um, sente-se a presença de alguém num instante comum e, por momentos, em pleno campo de concentração de Auschwitz, fazemos uma pausa e aliviamo-nos de buscas infinitas dentro de nós próprios. Mesmo que seja ilusão, corpo e alma precisam disto.

 Durante muito tempo esta foto foi apenas uma espécie de sala onde eu me isolava a pensar até onde nós, homens e mulheres, podemos ir. Ou o que conseguimos suportar. Este verão estive com os pés em lugares inenarráveis que precisava de visitar antes de eu próprio sucumbir. Muitos lugares. Este foi o único lugar onde me correram pela cara lágrimas que eram pesadas e secas e duras como pedra e ao mesmo tempo afiadas como punhais. Não chamo a isso chorar. Não sei o que lhe chamo, mas não é chorar. Não quebramos nem soluçamos. Ficamos até mais fortes e disponíveis para o combate. Mas o meu testemunho é que estar aqui, só estar aqui, foi avassalador, mais até do que em qualquer recanto de Auschwitz, onde a solenidade dos lugares já se confunde com a ansiedade das massas que vão espreitar o lugar onde batemos todos no fundo. E eu senti que o meu torso passou a ter mais peso do que o meu corpo inteiro antes sequer de saber ou ler onde estava. Não foi pelo pensamento, pois, mas pelo sofrimento que ainda exala do chão, daquelas ervas que aqui vemos em segundo plano, porque o lugar era este mesmo. A foto na foto foi tirada no dia de libertação de Buchenwald. Este era o barracão da quarentena, mas no fim foi apenas o lugar dos restos, onde não havia latrinas nem espaço para dormir - sequer morrer - em paz. Não distinto este do peso que os lugares onde os nossos compatriotas têm morrido queimados passarão a ter. Há muito tempo que não distinto tipos de amor nem tipos de horror. Porque sei que o que nos eleva ou nos enterra é igual em todos. Em todos os indivíduos. Em todos os lugares. Em todos os tempos. Sei.
#Buchenwald
#pgm


2018-12-17

10 pessoas a evitar no meio literário português

 
A questão não é criar polémica do vazio, mas mapear a perfídia - vá, vamos ser simplórios, dizer quem são os maus - para  que os bem intencionados prossigam pela arte sem interferências.

Por outro lado, uma boa polémica nunca fez mal a ninguém e  hoje faltam polemistas com cultura literária e sabedoria. Aflige-me esse medo do novo puritanismo e dos novos puritanos, do politicamente correcto. Dói? Que doa. A literatura não se fez nem faz para meninos, apesar de serem meninos os que se acotovelam em bicos de pés para serem vistos.
Literatura nem sequer é contemporaneidade, o tempo está-se marimbando para os que querem muito: curiosamente, os polemistas tendem a ficar na história. Ora cá estamos.

Mas não vamos dispersar. Serei objectivo quanto aos 10 nomes cuja perfídia e mediocridade (presentes aos saltinhos nos media e alguns com prestígio - vazio, como verão, e que provarei pontual e factualmente) não me oferecem quaisquer dúvidas, depois de quase 9 anos de observação cuidada a partir de dentro.

Passo então à lista, sem mais delongas. As explicações seguem-se à dita.

1.

(continua no Patreon. Ver explicação abaixo)

 (texto completo na plataforma Patreon. A partir de 1 Eur/mês tem acesso a todos os posts. Ao apoiar os criativos, e por muito pouco, está a permitir que os seus músicos, pintores, escritores, radialistas, humoristas favoritos lhe possam dar mais e melhor e não dependam do poder mediático ou fáctico. Espreite o Patreon e o projecto. Vai gostar. Pode clicar abaixo em "Become a Patron" - torne-se um Patrono e orgulhe-se disso)

 https://www.patreon.com/posts/23272691
PG-M 2018

2018-12-10

Começar do Zero no novo mundo

Aqui por baixo desapareceram 15 anos de blogue e vamos começar do Zero.

http://www.patreon.com/more3

Finalmente chegou o dia.
Dizem  que a cultura  devolve em triplo tudo o que nela é investido. Há  cerca de 20 anos que percorro as escolas.Tive de recusar algumas cujo custo de deslocação não podia suportar e isso ainda hoje me dói. O meu blogue faz 15 anos e lancei milhares de crónicas. Alguns de vocês gostaram. Há miúdos brilhantes e empenhados que me pedem ajuda, às vezes apenas tempo, e eu não posso porque tenho o meu tempo ocupado com uma profissão,  advogado, que nem sempre sinto como útil ou social. Aliás, ao
contrário da cultura, sinto muitas vezes que estou a perder tempo e a gastar recursos para nada ou até para as contas do Estado ficarem no negativo e não pagarem às pessoas (advogados oficiosos, magistrados, funcionários) o que é devido e no tempo que é devido. Quero reduzir o meu advogar ao que é útil social, cultural e desportivamente. E ainda tenho oslivros que vou lançando e as crónicas que suspendi para repensar tudo. Há investigações dispendiosas, como a que faço há 20 anos em Paris para o livro do meu bisavô escultor. Sou mau a fazer fortunas, mas gosto de pessoas. Há 3 meses saí das redes sociais para me olhar de fora, e percebi que não preciso de alimentar o ego ou sequer de ter uma plateia. Já pessoas que se querem contaminar umas às outras culturalmente, isso quero. Comoquero continuar a ter comigo aqueles que acreditam no mesmo e desafiá-los a serem patronos - porque isto acabará por inspirar outros. Das 5.000 pessoas
que me seguem entre facebook, Instagram e blogue, o objectivo é chegar aos 500 patronos até ao final de 2019 e aí lançar o projecto More 3, que apoiará a excelência dos jovens e a cruzará com a excelência social dos carenciados. Até lá, é para amealhar. Os Patronos podem cancelar, aumentar, diminuir a sua contribuição a qualquer momento e podem interagir dentro da comunidade, o que será muito bem-vindo (sugestões, pedidos, etc). Conto dar aos patronos muito mais do que até aqui. Além da crónica, fotos e da revisitação histórica dos melhores momentos, conto dar sugestões gastronómicas e de viagens e alguns vídeos e áudios,  alguns directos de eventos e grandes competições, live chat e coments, coisa que nunca ou raramente dei. Senti falta de muitos de vocês, mesmo os mais caladinhos, e a minha ideia é ter essa comunidade mais estreita comigo, por um euro que seja. Quero agradecer ao Unas a inspiração do projecto dele, o MalucoBeleza, e espero-vos, ainda hoje, no barco. Ou então reflictam e pensem que o vosso Euro pode gerar coisas boas. E se multiplica por 3. More 3. Por isso, querendo e acreditando, partilhem, pf. Obrigado!! 

Por favor, espreitem em

Pedro Guilherme-Moreira
10 de Dezembro de 2018

2017-12-09

A (eterna) professora e o (eterno) aluno

Porque me honra profundamente, vindo da cátedra como veio, e porque me comove, por momentos e razões que não quero aqui escalpelizar, porque já passou a quinzena deste JL nas bancas (esta semana está a Ana Margarida de Carvalho na capa), publico hoje a recensão completa da Professora Agripina Vieira ao Saramaguíada. Obrigado aos que entendem que este ofício exige o máximo esforço e o máximo respeito. Como se pode ler na epígrafe de Maria Victoria Atencia no início do livro, "Porque duele, el alma duele (...). (clicando na foto, conseguem ler - ou então em texto,a seguir)

"NAS MARGENS DO TEXTO, Jornal de Letras, Novembro de 2017
Agripina Carriço Vieira - “Como uma claraboia para dentro do mundo”


            Se fosse possível, numa palavra, caracterizar o último romance de Pedro Guilherme-Moreira a escolhida seria o adjectivo avassalador. O seu Saramaguíada, publicado no passado mês de Setembro pela Poética Edições, faz parte daquele grupo (pequeno) de textos de que falava Proust. Dizia o autor francês que, de quando em vez, surge um escritor original que alicerça o seu texto numa rede de relações significantes novas e inovadoras que interpela os leitores. A leitura destes textos não se compadece com imediatismos e linearidades, e se esse facto pode desanimar é apenas porque sentimos “que le nouvel écrivain est plus agile que nous”.

A afirmação proferida em meados do século passado aplica-se na perfeição ao novo romance de Pedro Guilherme-Moreira. Saramaguíada é uma preciosidade para os amantes da literatura, que nos desafia a entrar num universo mágico, situado fora de um tempo cronológico, fora de um espaço geográfico, todo ele feito de palavras e pensamentos em diálogo, dando amplo e total sentido às reflexões de Pilar que “sabe que cada palavra é como um lago profundo que contém todo o mistério, todo o encanto e toda a explicação das coisas, mesmos das inexplicáveis” (p. 43).

O título antecipa a centralidade temática da efabulação, enunciando desde logo uma clara e inequívoca referência a um dos nomes maiores da literatura universal, ao único escritor nacional galardoado com o Nobel, José Saramago, indiciando igualmente que outros o acompanham nessa jornada. A magnífica ilustração da capa, da autoria de Vasco Gargalo, confirma-nos a interpretação, ao representar uma imensa estrada povoada por personalidades maiores do mundo da cultura e da literatura que começa em Saramago e termina na angolana Alda Lara, tendo como ponto de destino final Paris, metonimicamente representada pela Tour Eiffel. No entanto, e como adverte o autor num curioso texto intitulado Ordem das coisas que antecede o corpo do texto, neste livro celebra-se “a literatura e as ideias, que são das pessoas, mas não as pessoas em si” (p. 15). Estamos, pois, no mundo do pensamento, “ali todos eram ideias, sonhos ou pensamentos materializados” (p. 65), por isso o herói da narrativa é Esse, a materialização do pensamento de Saramago. É um universo sem fronteiras de tempo ou de lugar, onde as criaturas (ficcionais) dialogam com os seus criadores, onde Esse e O’Neil viajam para Lisboa numa barca conduzido por Confúcio, onde Eça e Esse, em Tormes, acompanhados por Charles Robert Anon (heterónimo infantil de Fernando Pessoa e representado figurativamente por um desenho que reproduz uma fotografia do poeta aos dez anos) discutem o papel social da literatura. Desta breve apresentação, surge como evidência que qualquer apaixonado pelos livros e pela literatura se sente, diante deste romance, como uma criança numa loja de brinquedos, levado num turbilhão de sensações feitas da alegria da descoberta e do entusiasmo da indagação.

Vários elementos concorrem para a originalidade do romance, que nasce antes de mais da incorporação e discussão de obras da literatura universal, pertença de todos nós, que aqui ganham novos significados, abrindo-se a novas perspectivas. No entanto, o exercício de reescrita empreendido não é apenas e só uma apropriação de textos da plêiade de escritores, pensadores, filósofos, poetas, dos mais variados países e de vários tempos, convocada pela efabulação. Com efeito, o leitor é surpreendido pela afirmação da paternidade dos excertos textuais citados (Dom Quixote, de quem Esse recebe uma missão secreta, refere-se ao seu criador como “o pai Cervantes” p. 68), que surgem em discurso directo, pela voz dos seus autores que assumem, por essa via, a condição de personagens ficcionais. Por outro lado, constitui ainda marca de originalidade a série de elementos paratextuais que ladeiam o corpo do texto, com particular destaque para a “Tábua de Personagens e Lugares”, em que ao traço da palavra escrita, desafiante e penteada por um humor fino e desconcertante se alia o traço elegante e bem-humorado das ilustrações de Vasco Gargalo.

Na viagem por esta saramaguíada, viagem repleta de desafios e estranhezas, somos conduzidos por uma curiosa personagem que assume a condução da narração, mas igualmente a construção da efabulação. Vai inscrevendo no entrecho comentários, explicitações de opções diegéticas, interpelações aos leitores, convocando-os, desse modo, para um surpreendente e desconcertante jogo de interpretação e reconfiguração em busca da intencionalidade dos textos, procurando desvendar aquilo que Ricoeur designou como a “transcendência na imanência, que se alicerça na construção de redes de afinadas textuais, não só com os autores que explicitamente são convocados por Pedro Guilherme-Moreira, mas também com todos aqueles que o leitor vai encontrando nos trilhos significantes de que o texto é feito. A leitura de um livro é por excelência um acto individual, um constructo, para o qual cada leitor leva as memórias de outros textos que com este põe em diálogo. Constituindo-se com espaço de cruzamento de escritas e de leituras anteriores, o texto oferece aos seus leitores uma multiplicidade de relações e significações das quais destacaria duas em particular: Utopia de Thomas More e Huis Clos de Jean Paul Sartre (ficam em aberto a concretização desses diálogos e o prazer da descoberta).

            As grandes obras, aquelas que perdurarão na mente dos leitores, são as que incomodam, porque abalam certezas, desarrumam pensamentos, desconstroem convenções. Tudo isto sucede com a leitura de Saramaguíada de Pedro Guilherme-Moreira, um livro surpreendente e belo, “como uma claraboia para dentro do mundo”.


PG-M 2017
foto de uma recensão da Professora Universitária Agripina Vieira no Jornal de Letras de Novembro de 2017

2017-11-13

Jim Carrey e o princípio e o fim do mundo

Jim Carrey, Lobo Antunes, Rodrigo Amarante, Eduardo Lourenço, George Steiner, Shakespeare, Cervantes, Saramago, Robin Williams, vida e morte, panteão, palhaços, gritaria em rede social, depressão, suicídio, grande e pequena arte, existência ou inexistência da literatura, Irene, milagre seria não ver no amor essa flor perene.
Tenho o privilégio de ser chamado a escolas e a comunidades de leitores para justificar o meu direito a abrir a boca na contemporaneidade, onde só uma ficção benevolente pode atribuir-nos mérito e demérito artístico. Na verdade, nenhum artista - está visto que eu vejo os escritores como artistas - ou julgador de artistas pode realmente saber se é importante ou não. Nem para o seu tempo, nem para o fim ou princípio dos tempos. Todos, claro, aspiram a isso.
Um das coisas notáveis que Jim Carrey disse ao programa 60 Minutes foi: "Eu quero ser o melhor actor que alguma vez existiu, mas não tenho de ser."
Porque é que eu sigo Jim Carrey, apesar de o resumo contemporâneo deste génio ser o estigma americano dos processos interpostos pela família e pelo último marido da namorada de Jim que suicidou? Forneceu-lhe drogas que a levaram ao suicídio e transmitiu-lhe três doenças venéreas? É isto que agora o define para o mundo frívolo.

Porque o Jim Carrey disse uma vez, e tem-no repetido pelos tempos, "descobri que a minha missão no mundo era inspirar os outros, ajudá-los a descobrir o melhor de si mesmos".
Para mim, o ano sempre começou em Setembro, e cada Setembro repenso a minha relevância no mundo, e a dúvida anda entre regressar à caverna ou exibir-me com as vestes sociais que me podem tornar suportável.

Até aqui, o meu único foco de intervenção pública foi provar que são os outros, não eu, que importam. Que o escritor não existe por si, mas pelo leitor. Que, mesmo que não seja lido, todo o livro é um compromisso entre os algoritmos indecifráveis da arte literária antes de serem sintetizados e passados ao papel e o que fica disso para poder ser lido. Um livro não tem de ser fácil, mas tem de ter em si, pelo menos, a possibilidade de ser lido. A comoção de ter pela frente pessoas que, com mais ou menos vontade, estão ali para me escutar, é sempre enorme. Sinto uma reverência que, se não for domada e convertida, pode até ser inibitória. Em momento algum me sinto importante. Gosto até de brincar com a aparência de importância que os escritores precisam de ter para se distinguir da massa informe ou disforme dada ao prelo pelas empresas de venda de sonhos ou projectos dos que sonham ser escritores. Todas as artes, hoje, são susceptíveis de serem imitadas e de terem edições que o público não consegue, imediatamente, distinguir se é autêntico ou fruto do ego de pseudo-artistas que pagaram para ser vistos, não para ver. Pseudo-artistas que nunca ficam à escuta, única forma de apanhar a matéria suprema da arte algures no universo e, podendo ou sabendo, dar-lhe uma forma, boa ou má, de bom ou mau gosto, desta ou daquela corrente, feia ou bonita, não importa. Importa apenas que seja genuína criação, ainda que falhada.

Também aprendi com o Jim Carrey que devemos falhar bem e controladamente. Que o momento incompreensível em que eu decido cantar o Lilac Wine na apresentação de um livro e as lágrimas na garganta me darem cabo da pouca voz que ainda estava disponível não foi um fracasso total. Afinal, eu estava a chorar por dentro por uma leitora tetraplégica cujo exemplo sempre me emocionou. Se eu fosse perfeito em tudo, nunca conseguiria criar empatia com os leitores, só fãs loucos e irracionais.

O desfile de nomes ao princípio é só um exemplo dos que tenho ouvido de forma crua e acrítica, primeiro, para poder formar uma opinião ou me tornar melhor artista. Não pessoa, artista.

Esta moda no "#notme" não me comove. Sabem porquê? Porque eu sempre estive na primeira linha de protecção dos fracos ou enfraquecidos temporariamente, por condição social, religião, idade ou género. Aliás, cometo reiteradamente o erro de me aproximar dos fracos e de lhes dar protecção, mesmo sem que isso me seja pedido. Conheço bem a linha fina entre assédio e sedução. Não existe, na condição humana, um único movimento de sedução de qualidade que não pise linhas. Escrevi várias vezes sobre isso. Testei limites em ambas as profissões que tenho exercido, advogado e escritor. Percebi a hipocrisia e o poder do sexo. O poder destrutivo do egocentrismo e do egoísmo, mas também de quem o usa para prejudicar ou mesmo destruir terceiros em situações de fronteira. Hoje em dia é muito fácil e hipócrita confundir saúde com doença, no que ao sexo diz respeito. Mas, na verdade, uma pessoa de princípios nunca cede e, se acaso comete um erro, sabe imediatamente reconhecê-lo. Há puritanismos (muito) mais perigosos do que libertinagens.

Chegados aqui, nunca retirarão a Cervantes o ceptro de autor da maior obra de todos os tempos (por subjectivo que seja, já houve várias eleições nesse sentido de pares com autoridade), mesmo que ele fosse o maior criminoso de todos os tempos. Aliás, o que o tempo faz aos maiores criminosos de todos os tempos é dar-lhes um sentido e um significado histórico que serve aos vindouros para se protegerem. E como nunca retirarão o ceptro a Cervantes, também não retirarão os prémios e o brilhantismo ao Kevin Spacey nem o génio ao Salinger, apesar do pobre comportamento perante a Joyce Maynard.

Da mesma forma, transcende a minha opinião ou sentimento pessoal o jantar do Panteão. A única coisa que isso me serviu foi para perceber que prefiro uma boa dúzia de génios que jantou no Panteão há dias e que tocará este mundo realmente para a frente do que os medíocres dos políticos que responderam presente à gritaria das redes sociais. E vocês, com quem é que contam para o futuro? Com o Paddy Cosgrave ou com o António Costa, que até já lá tinha feito as suas jantas?

Jim Carrey é - por razão nenhuma quanto a ele próprio - a partir desta semana, não apenas mais um ídolo ou mais um génio que cultivo, até porque, como ele explicou na célebre entrevista em que descompõe uma repórter de passadeira vermelha na Fashion Week (repórter a quem ganhei respeito, porque se aguenta brilhantemente perante um destruidor - mas sempre genial - Jim Carrey), mais vale cultivar personalidades e conteúdos do que ícones, mas o maior génio das artes que exerce.

Vi horas a fio de performances, entrevistas, bem mais do que filmes (porque ele é bem mais genial quando é ele próprio), e regresso sempre ao Commencement Speech que vos deixo no final deste.

Se, entretando, a ligação do vídeo expirar, voltem por favor a procura-lo no youtube e, como tudo o que é muito importante, vejam-no com vagar.

No final, parecer-vos-á claro o mistério do princípio e do fim do mundo.

E restar-vos-á toda a coragem para  o que fica entre os dois.

Tenham uma boa vida.

PG-M 2017
origem da foto

2017-08-05

Entrevistas 2017 - a primeira

A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança e trabalho’

com 1 comentário
Entrevistas > Pedro Guilherme-Moreira em Escritores online

Pedro, quando é que surgiu a tua vontade de escrever ficção e de publicar?
A resposta a esta vai logo na badana do primeiro livro, “A manhã do mundo”. A professora da 2ª classe pediu-nos para escrever uma fábula e eu transformei-a numa formiga. Era o que me apetecia fazer, mas pensava que estava a ter um atrevimento que seria severamente punido. Eu era bem comportado. Tinha tido dificuldades na primeira classe por excesso de medo. A professora Laura tirou-me o medo todo quando me ensinou a fazer contas de dividir, no primeiro dia, e me deu a nota máxima e elogios por ter feito a loucura de a transformar em formiga. A partir desse dia, achei que tudo era possível. A literatura faz isso. Transforma-nos em gajos perigosos. Mais valia ser medricas.
Onde é que, por norma, encontras a inspiração para escrever as tuas obras?
Temos de distinguir a poesia da prosa e do teatro, para falar só em três géneros. A poesia já lá está, é nossa responsabilidade reduzirmo-nos à mesma formiga da fábula para transportar a poesia e a mostrar ao mundo. Nem sempre o fazemos bem. Quando nos apagamos completamente, mesmo que sejamos o objecto do poema, um ou dois de nós chega lá, de vez em quando – a poesia é talvez o processo biológico mais próximo da inspiração. A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança, trabalho – eu quase só vejo inspiração no primeiro acto, aquele que nos obriga a parar tudo para registarmos a possibilidade de um novo livro. Finalmente, o teatro: nunca tive tanto prazer como quando escrevi para teatro. Estava lá, no palco, e tudo aconteceu ao mesmo tempo nas teclas e no papel. Uma sensação maravilhosa e terrível, ao mesmo tempo. Mas neste gajo perigoso há um denominador comum, seja na literatura, seja num jogo de voleibol: vísceras.
Quais as temáticas mais presentes na tua escrita?
Estava preparado para ser evasivo, como nos ensinou Bukowski, mas na verdade tenho-as: levar-nos para as margens da natureza e da condição humana. Tenho quase um desespero de nos observar lá, onde nenhuma minudência pode importar, de perceber o que realmente importa. Como fiz nas torres gémeas. Descrevi os suicidas e depois tirei-lhes a carne e vesti-me neles, para que sentíssemos o mesmo que todos os três mil mortos. Eu e todos os leitores. No Livro sem ninguém tirei-nos do mundo e li-nos lá. Um livro sem personagens grita gente por todos os lados. Noutros, inéditos, reverti as metamorfoses. No novo, “Saramaguíada (a invenção de Pilar)”, obriguei a ideia de Saramago a fazer as vezes de Quixote e levei-o de barca aos limites da literatura e do próprio amor, que são coisas diferentes, embora aquela contenha este e este não contenha aquela.
Que aspetos destacarias relativamente ao livro que publicas este ano, o terceiro, “Saramaguíada”?
A Pilar chega a Lisboa para conhecer fisicamente o Saramago a 14 de Junho de 1986, estávamos nós a aturar Saltillo e o México 86. É o Diassaramago, que se celebrou ontem. Nesse dia, levámos no corpo de Marrocos, 3-1, um golo do Diamantino. E nós, eu e vocês, não vamos dar descanso à ideia de Saramago, que renasce para isto, como renasce a cada leitura dos seus próprios livros. Mostro a Pilar pré-1986. Achei que devia. A Pilar faz parte da nossa literatura, é uma realidade, não podemos fingir que não, não devemos fingir que não. Não mostro a vida comum deles. Mostro-os depois da morte dele. Cruzo o mundo ideal com o mundo real de uma forma muito prosaica e simples, desde que ninguém se agarre ao tempo. O tempo, sendo tudo, importa pouco para as ideias, que, como sabemos, vão, voltam, são recicladas desde as cavernas – às vezes são relativamente novas, mas nunca são novas, ao contrário dos livros – claro que ainda não se escreveu tudo e os livros são mesmo novos, quando são. As ideias sobrevivem no tempo, mas também apesar do tempo. Assim, levo o Saramago a conhecer o Eça e a Maria Amália Vaz de Carvalho por motivos frívolos, que é o que tantas vezes fazemos no “meio”. Dou-lhe uma missão banal. Obrigo-o a aturar o jovem Pessoa e o seu cão Shadow e a levá-los nessa missão. O jovem Pessoa apaixona-se pela Annabel, do Lolita, do Nabokov, o que se torna um problema, porque Nabokov determinou que Annabel morresse de Tifo em Corfu. O jovem Pessoa sabe disso e quer evitá-lo a todo o custo. Em Corfu, ou numa espécie de Corfu, chamada Ilha dos Jornalistas sem Cabeça (onde reflicto sobre jornalismo e sigo os últimos passos do jornalista mártir brasileiro Vladmir Herzog) Saramago é julgado em público e defendido pelo Padre António Vieira. Encontra-se com O’Neill em Lisboa e com Virginia e Leonard Woolf numa ilha parecida com Amalfi, assim como com muitos outros escritores brasileiros, portugueses, espanhóis. Levo-o à Tormes de Eça comer o célebre arroz de favas. Encontra-se com Voltaire em Paris e com a mãe de Pessoa em Davos, numa volta de Montanha Mágica. E com vários vultos nas barcaças que o levam para aqui e para ali. Enfim, o livro nem é grande (cerca de 320 páginas), mas para mim tem um certo infinito, como aquelas pistas de aeroporto infinitas que querem agora construir, porque são circulares. Ah, e temos uma personagem arrepiante (temos várias, mas esta é principal): a própria Leni Riefenstahl, a cineasta do Hitler.
Quais os momentos mais marcantes no teu percurso enquanto escritor?
Encontrar os editores e os leitores de todas as idades. A emoção de ver um editor de grande qualidade mostrar-nos que a grande merda que fizemos, quando pensávamos (não pensamos todos) em obras maestras, como dizem os espanhóis. A Pedreira, que me deu a mão para lá deste muro alto da edição, apesar de termos feitios e ideias muito diferentes (creio que nos estimamos e respeitamos muitíssimo). A Virgínia do Carmo, pela humildade e pela coragem. E tantos leitores, dos 11 aos 97. As visitas às escolas são um profundo privilégio, apesar de precisarem de uma afinação de egos e métodos pedagógicos. Todo o ensino do português precisa. Não se ensina a ler nem a escrever, que é o fundamental. Exagera-se em grelhas numa “ciência” de máxima subjectividade. Só os grandes professores de português nos salvam.
O que é, para ti, um bom livro? 
Não me meto na definição universal do bom livro, que não existe. Para mim é fácil ver um mau livro, mas aprendi que quem os escreve, se tiver a humildade de os destruir e avançar, pode vir a escrever bem. Quase sempre, os livros mal escritos são escritos por maus leitores. Mas há bons leitores que não conseguem encontrar a voz e a técnica. A pressa em publicar não serve de nada. Mais vale ser injustamente recusado do que auto-publicar sem crivo e a ciência do editor. Isto era um mau livro. Um bom livro, para mim, só para mim, é um livro que me pendura pelos cueiros, que me faz praguejar do quão bom é, que me faz desesperar por não conseguir “resolver” aquela voz, que quero sempre desesperadamente plagiar para aprender a fazer parecido. É, cada vez mais, o livro que me mostra oficina. Ouvi dizer, um destes dias, já não sei quem nem sobre quem, que o bom livro e o bom escritor deixam as costuras à vista. Nem que tenham de as esconder no processo.
E o que faz de um escritor um bom escritor?
Ser simples, não emitir opiniões como sentenças erga omnes e deixar-se de merdas. Lutar pelos livros todos, não só pelos seus. Ser humilde perante o leitor e o editor. Colocar o leitor no topo da pirâmide. Saber parar e questionar. Não atacar publicamente os pares, mas criticá-los e pensá-los muito em privado e olhos nos olhos ou até nas costas, se ele não estiver por ali, desde que tenha a decência de, na primeira oportunidade, dizer na frente o que pensa. Não ser subserviente ao statu quo vazio, mas respeitar os decanos, a sabedoria e a erudição, lutando por uma nova. E, se, no final de tudo, for uma reles pessoa, que se meta em casa ou no escritório e se dedique obcecadamente à literatura, para não magoar mais ninguém e fazer o bem aos vindouros, poupando os contemporâneos. Se for uma reles pessoa, por favor não escreva no facebook.
Para terminar, gostaríamos que nos indicasses os teus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.
Gosto muito de muitos portugueses, mas vou optar por não indicar nenhum. Porque os clássicos não precisam e porque não é por mim que os novos terão mais leitores. Tenho, no entanto, de dizer duas coisas: o Pessoa é omnívoro e deve ser consumido com tento. Contra mim falo, porque o tenho em todo o (novo) livro, embora jovem, criança. E deixem de opinar sobre o feitio da Ana Teresa Pereira como se fosse um ser humano, porque ela também já é um mito. O maior mito britânico português. Portanto, quanto ao restante, Proust – Recherche, tem de ser. Bukowski também, qualquer um. Bachelard e Platão (e este inclui Sócrates, como sabemos, porque Sócrates não escreveu uma linha), idem. Colette, que não é só para gajas (essa era um das parvoíces), Chéri. Qualquer poetisa que não chame a si própria poeta vale a pena, só por isso, embora não deva ser excluída das escolhas só porque usa um adjectivo de género masculino sobre si própria. Os sábios de rua de todas as aldeias do mundo, e que cada vez escutamos menos, com a excepção do Fernando Alves. Insisto na Bíblia, no Dom Quixote, na Karen (os meus são íntimos, digo depois). La arte de quedarse solo, de García Martín. Se isto é um homem, Primo Levi. Já chega. Obrigado!

2017-05-13

Já ganhámos

 Nota prévia: este artigo foi escrito na manhã da vitória, mas, sinceramente, não era difícil prevê-la. O mundo inteiro apontava para ela. Junto no final o vídeo da semi-final do Eurofestival, com aquela que, das seis interpretações oficiais (3 domésticas e 3 Eurovisão, incluindo as da vitória) foi a minha preferida;

Sabem o que se usa nas redes sociais? Escrever assim amanhã, quando o Salvador encher as capas de todas as revistas e jornais, não por ser um doente cardíaco bissexual*, mas por ter ganho o Festival da Eurovisão 2017, em Kiev, "eu, no dia da semi-final doméstica, disse logo que este rapaz e esta música eram do outro mundo". Ou seja, é por minha causa que ele vai ganhar. Não é. Mas vai ganhar. Na verdade, já ganhou. E é curioso que a minha admiração tenha deixado de se dirigir ao compatriota e à bandeira portuguesa, que certamente serão uma parte do gozo, da emoção e do orgulho. A minha admiração dirige-se à universalidade e beleza da canção e à universalidade e singularidade (parece contradição, mas não é) do próprio Salvador. Creio, como se rezasse uma prece, no que vou dizer: a Luísa Sobral escreveu uma das melhores canções dos últimos séculos, não da década, não deste século, não deste e do anterior, mas de sempre. Tenho dito que é uma espécie de "Yesterday", mas é muito mais bonita. Não está em causa o mérito da Luísa, mas calhou. A conjugação das estrelas, do tempo, do momento, das redes sociais e a singularidade do intérprete fazem o resto. Também não acho que se devam preocupar com o legítimo direito ao cinismo e à fuga à unanimidade. Deixem-nos, coitados, porque já lhes basta sentirem-se sempre infelizes e não serem capazes de tomar o imenso banho de luz que esta canção dá cada vez que é cantada e não só pelo Salvador - eu já vi todas as sensibilidades rendidas, desde o bêbado de tasco até aos domésticos, dos agricultores às sopranos, mesmo os que, a princípio, aderiram a outras músicas e estranhavam o histrionismo ou a expressividade ou a singularidade do Salvador. Na verdade, essa "diferença" é só a marca do inérprete, é um factor mais na parte menor: a liderança de casas de apostas e a vitória num festival. Mas a canção está acima do Salvador e da Luísa, está já pelo mundo inteiro. A letra, em toda a sua simplicidade, agrega milhares de páginas de filósofos. Esta coisa de o amor ser tão elevado e intenso que chega para os dois e dispensar um deles de o sentir é, afinal, a história de séculos de mulheres, principalmente de mulheres, esses seres superiores. Não admira que tenha sido escrito por uma. Depois da semi-final doméstica, a canção já era trauteada nos carros a caminho do trabalho. Depois de ter ganho o Festival da Canção e ser o legítimo representante de Portugal na Eurovisão, começou a ser cantada, imitada, mimetizada, pela Europa toda, com Espanha
como a principal entusiasta, porque, afinal, com a excepção de "devagarinho" e "pelo", as palavras são quase iguais em castelhano. A orquestração é magnífica e fixa logo dois terços dos ouvintes na abertura. Depois de ter actuado na semi-final da Eurovisão, então, não há limites. A canção é pedida na abertura de bailes de casamento em todo o mundo, é cantada pelos ucranianos em
português - sim, pelos vistos quase todos a querem cantar no original, e, aqui sim, é um serviço maior à nossa língua -, há já várias covers de altíssima qualidade, da Austrália ao Japão, do Japão aos EUA, que mostram que o mérito é da própria canção, e eu tenho a certeza de que a Luísa fez um clássico de todas as eras, que será interpretado por todos os estilos musicais. O próprio Salvador se encarregou de gravar para um amigo uma versão em flamenco. Vi a irmã e o Salvador nos ensaios gerais e há duas coisas curiosas: o Salvador é melhor intérprete do que a irmã para esta versão - esta é a primeira. A segunda é que, mesmo que o Salvador nunca se repita, fruto da sua alma jazzística, a canção sai sempre bem. Portanto, a Luísa fez uma canção à prova de bala. Durante anos queixámo-nos de que nunca ganharíamos isto porque o sistema estava "feito" para ganharem os países com maior emigração - a nossa não é baixa, mas não é a maior. Na verdade, se essa perversão tem alguma verdade, é o único factor que nos pode tirar a vitória hoje. Mas eu creio que ganharemos e que já ganhámos.
Na verdade, é todo o mundo que ganha, porque é uma das melhores canções de sempre que ganha. Encerro com um pequeno apontamento: bonitos os portugueses, aí sim. Em quase todos os comentários que li no youtube às várias covers e produções caseiras estrangeiras deste "Amar pelos dois", há sempre palavras de gratidão de portugueses.
É aí que somos grandes: chamamos os outros para a nossa celebração. E muitos vêm. Mas, na verdade, o que Portugal hoje leva ao palco é o universo. Esta canção já é do universo. Era bonito que trouxesse o troféu que já ganhou e que será falado pelos séculos adeante.

* dado o elevado número de leitores deste post, o que eu já previa em caso de vitória, voltei a experimentar daquelas reacções azedas dos que tresleram o que aqui foi escrito. Eu abro este post a apontar o dedo àqueles para quem este nosso músico, que ficará na história por todo o sempre, foi apenas vida privada. A esses e aos tiques das redes sociais. Não estou a expressar uma opinião ou a estipular um facto. É evidente que não a tendência sexual do Salvador e a vida privada são apenas fait-divers para vender.  Não dele. Não da essência deste momento notável. Muito menos meus.

Nota póstuma: no dia da nossa primeira vitória na Eurovisão o Benfica foi tetracampeão pela primeira vez e o Papa Francisco I visitou Portugal para o centenário das aparições em Fátima. A cobertura televisiva de Fátima foi de grande qualidade. Quanto ao resto, isto foi o que eu escrevi uma hora depois da vitória: "Tenho pena que o Salvador não tenha ganho num ano em que o FCP fosse campeão, para eu mandar à merda certas televisões que anunciam em rodapé, sem tirar as imagens dos Aliados (seriam os Aliados) do ecrã, uma vitória histórica e emocionante de pelo menos três gerações de portugueses que viveram isto ano a ano e fracasso a fracasso, com músicos tão bons ou melhores, e não pensarem que era decesso de poder de encaixe. Não aceito um certo jornalismo e uma certa falta de visão. Eu estava num shopping com as televisões todas a dar a vitória no futebol e nenhuma sintonizada na RTP1, mas quando foi certa a nossa primeira vitória na Eurovisão foi um bruá belíssimo pelos pisos todos. Graças aos telemóveis e às apps que tanto criticamos. Eu sei que este país vai saber celebrar isto, mas tenho pena que não haja coragem nas televisões que não transmitiram o festival para afrontar esta miséria da cultura futebolística por um momento tão belo. Subitamente, como ele próprio disse, ganha o que importa, ganha o que é, não o que parece. Se o FCP tivesse sido campeão, eu queria lá saber. E que diferença faria uma noite de glória da música portuguesa em três semanas de festejos ciclicamente repetidos? Ah, eu sei. É o dinheiro dos anunciantes, os que pagam tudo, mesmo os empregos. Vendamos tudo ao desbarato, pois."

 

PG-M 2017
fontes das fotos 1 2 3

2017-03-26

Sónia Braga é nossa

Declaração de amor e de interesses: escrevo sobre a Sónia Braga que foi doada a Portugal pelo foral da Gabriela. Escrevo, pois, em interesse próprio. Ainda que Sónia Braga seja respeitada dos dois lados do Atlântico, só em Portugal é venerada. Se forem pelas ruas de qualquer cidade ou aldeia portuguesa e baterem às portas das casas perguntando aos homens se deixariam tudo para beijar chão que ela pisasse, não há um único português que diga que não, a não ser que ainda seja tuga. Sim, porque o português deixou ser tuga, esse diminutivo inventado no Brasil e usado, ao longo dos tempos, e simultaneamente, com as propriedades do amor e do carinho, mas também da sobranceria e da ignorância, pois, entre outras razões, o português deixou de ser tuga quando a Gabriela nos entrou nas casas. A Gabriela garantiu-nos, finalmente, a liberdade conquistada em Abril e reforçada e temperada em Novembro. Só nesse dia o português ficou livre, deixou de ver apenas rectas e ângulos rectos e passou a ver morenas açucaradas. Era uma segunda-feira, 16 de Maio de 1977, três escassos dias depois do 13 de Maio, em Fátima, três escassos anos depois da revolução. E, apesar da curva e do corpo da morena, do cheiro tropical das imagens e da pouca roupa da Gabriela, foram os avôs e avós de Portugal os primeiros a levantar a mão para que se fizesse silêncio e nada fosse perdido, passando pelos deputados que não deliberavam ou votavam durante a novela, até ao épico último episódio, numa quarta-feira, 16 de Novembro de 1977, que deixou Portugal de ressaca. O Brasil tinha uma história antes de Gabriela. O Portugal moderno não. Daí que Sónia Braga seja nossa e não se fale mais no assunto. 
Vem isto a propósito da Sónia Braga a beirar os 70 anos que protagoniza o pujante filme Aquarius, de 2016,  e que é um justa consagração. Quando ela amarra o cabelo e deixa ver a parte de trás do pescoço, é ainda a menina de há quarenta anos. Aliás, ela é a menina de há quarenta anos em tudo, não só na parte de trás do pescoço, e não se fala mais nisso. A forma como se move, a forma como nos olha naquele olhar castanho-nogal que o sol do Recife inflama. Não há um único pormenor em Sónia Braga que denote que o tempo passou, e seria pérfido quem viesse lembrar algum detalhe irrelevante. Quando ela pega nos mesmo vinis - dos Queen, do Roberto Carlos, do John Lenon, do Gilberto Gil - que nós cutivámos, sabemos que este é o culto perfeito e definitivo. Por mim, deixo a passageira afirmação de que aqui está a eternidade dela, isso e o remate de um mito, que Portugal bem merecia - finalmente houve um realizador à altura para nos dar isto, que devia ser obrigatório para a nossa geração e para a anterior, a passageira afirmação de que "Aquarius" é um grandíssimo e imprescindível filme que nos vinga a alma no tempo do passado recente e no presente, glorificando Sónia Braga pela eternidade como a cena de abertura do filme da Gabriela, com que encerro este, e depois da qual nos poderíamos encomendar ao criador. E a menos passageira afirmação de que a nudez da Gabriela não é menor do que a de Clara, à porta dos setenta, e nós desejamos sem culpa a mulher que nos fez homens da mesma forma que há quarenta anos, e todos nós beijaríamos hoje e para todo o sempre o chão que Sónia Braga pisa. Amém.

PG-M 2017

2017-01-20

Z4


quandos irrompes
para a pipe
o teu corpo está deitado no cosmos
na posição das galáxias
ao longe
percutem supernovas
e silêncio


PG-M 2017
foto de José Rodrigues

2015-02-25

O doloroso sorriso de Matilde

Como era doloroso o sorriso de Matilde. Estávamos no auditório do Colégio da Bonança, em Gaia, e eu explicava ao Bruno a sobre-humanidade do amor. Havia um sorriso a pontuar as minhas intervenções que se sobrepunha a tudo o resto - um sorriso que abria o riso em momentos diferentes das aberturas do resto da sala. Depois falei ao Bruno do amor paternal e da forma como magoa, como transcende as forças e é assombrado pelo medo da perda. Como é doloroso o sorriso de Matilde. Há nela uma transparência, uma luz, um peso específico que é peso nenhum. Leveza. Fomos ainda às paixões, ao banal como segredo de uma certa felicidade, aos romances, à minha actividade de arrumador de carros na Praça dos Poveiros. Como era doloroso o sorriso de Matilde. E tudo começara na implicação da assistência. O João espirrou e as amigas riram-se. Pedi-lhe para descer da plateia até à mesa. Sentou-se ao meu lado. Ele garante que não, mas sempre achei que o espirro do João era ficção. O João tem olhos claros e francos e veio a jogo. Leu o primeiro parágrafo da intervenção, que já anunciava mais ficções, as supergémeas Patrícia e Catarina e o Pedro, filho de uma Estrela. E Matilde rutilante, sobre tudo, sobre todos.
Eu tinha planeado uma conspiração.
Os alunos todos no centro, como heróis da história, eu na plateia. Eles seriam contos, eu leitor. Queria ter inventado, mas não inventei, duas colegas para eles. Tinham de ser gémeas. Punha-as em turmas diferentes.
Ou então inventava um Pedro como eu,
mas filho de uma Estrela. Impossível. As gémeas, por exemplo, seriam as novas supermulheres, uma conduzida pelo olhar, outra pelo sorriso. Uma seria uma espécie de sancho pança da tia Agatha Christie. Teria o nome de Katniss Marques. E salvaria um tal de Roger Ackroyd. A outra seria uma feiticeira em cidades de papel. Ambas augustas, como o seu herói.
E mais uma coisita: a ajudante de uma delas tinha de se chamar irmã Lurdinhas.
A outra inventaria para si um clube azul e branco para reinar sobre o mundo.
Por fim, o Pedro teria uma Estrela de carne e osso.
Mas eles não existem.
Elas e ele tinham todos de existir para eu escrever a partir dos respectivos corpos. 

Como era doloroso, doloroso, doloroso, o sorriso de Matilde.

A professora Luísa estava de castigo. Não cumprira as regras militares mínimas para que a conspiração funcionasse. No Colégio dos Carvalhos, havia um professor que nos punha de joelhos no estrado, de costas para a turma, com as mãos debaixo dos joelhos. Dispensámos a professora das mãos e dos joelhos. Sentou-se entre os alunos, debateu comigo a gramática estruturalista, o complemento oblíquo. Como eu desejo a perversão deste ensino e a inversão desta pirâmide. Comecemos pelos livros, só os livros, os bons livros, contaminemos estes nossos parceiros de mundo com os melhores livros.

Como era doloroso, Matilde, o teu sorriso - pelas mais belas razões, como te vou explicar.

A Mariana apresentou-me e contou-me. Contou-me bem. Não por dentro, como Abigail, mas fez-me a casa de escrita pelos anos todos. Deixou que eu contasse o meu Torga. E os meus filhos. A Mariana tinha uma responsabidade. Mas quando for por ti, Mariana, só por ti, como vai ser a tua literatura, a tal que entra pelas veias e sai pelas teclas? Fala-me disso. Não demores, não demores, porque eu estou quase a explicar as boas dores.

Depois os Ruis, o filho do João Paulo (desculpa não te tratar pelo nome, mas há um arrepio do tempo inexorável quando, em vez do teu amigo, encontras o filho com a idade que te lembras de ter quando o pai fumava contigo nos intervalos), e um rapaz de que não me lembro o nome, tinha óculos e estava presente no fim. Dinis, és tu? Não  me lembro do nome, mas não me esqueço dele. Também não me lembro do nome das professoras de História, Filosofia e Economia, mas não me esqueço delas. Vou descrevê-las: uma tinha cabelo bordô, outra azul marinho, outra laranja - creio que ainda fui apresentado a uma azul celeste, à saída. Devia haver índigos e vermelhas, verdes e e lilases, pelos corredores, não sei, não sei. Todos, mesmo sem nome, têm uma refracção de luz própria e estão aqui.

Mas devo a explicação à Matilde.

Tinha-me esquecido apenas do Daniel Defoe, o do Robinson Crusoe, que escreveu a mais estranha teoria económica, mas, pensando alto, já estávamos no fim e no fim das escolas fico sempre em carne viva. Talvez não sobrevivesse todos os dias perante esta nitidez. O coração explode. Sai-se fragilizado dos circuitos essenciais da condição humana: todas as escolas têm esta substância. E, quando ela nos transcende, é duro.

Tão duro como o sorriso de Matilde.

No fim, a Inês passou ao largo sem assinaturas, sem palavras, só a empatia vista do lado dela, a representar todas as empatias que se perdem como velas a apagar, primeiro no espaço, depois no tempo, e o combate de saber delas, empatias, simpatias, e as recuperar a todo o custo, porque a carência urbana é sempre de afecto, não de alimento, ou de afecto como alimento.

As supergémeas estavam como se já me conhecessem há muito - há um novo elemento na família. É bom que falte o ar no fim das sessões das escolas, que nos sintamos todos no corpo uns dos outros. Como a Matilde, que me comoveu as horas todas. Há uma altura em que pergunto ao João, o meu assistente, como era possivel aquele sorriso, aquele riso, aquele espanto. No fim, a Matilde responde com um abraço, encaixa-se no meu torso e deixa-se ficar.

Doce, nívea, límpida, diáfana.

Podia ter ficado a tarde inteira.
Ali, debaixo de mim, dos meus dois metros por dois, o abraço de Matilde sente-se e não se sente, porque não há uma clivagem física, uma estranheza, é como se ela já fizesse parte de nós, é uma espécie de fé.

O sorriso de Matilde dói como o sorriso de um filho para um pai na cidade dos homens:

o amor é sobre-urbano
o amor é sobre-humano

O sorriso de Matilde dói porque não tem fim - e nós temos.
O sorriso de Matilde dói por causa da nossa imperfeição.
O sorriso de Matilde, que lhe encontra o rosto todo, que lhe luciluz nos olhos até deflagrar no mundo,

é perfeito. 


PG-M 2015
foto da Matilde com publicação devidamente autorizada