2026-10-06

Por um Quixote para a eternidade

Estou  a começar a escrever estas palavras a ouvir "You'll never walk alone",  na versão dos Gerry & The Pacemakers, que foi a canção que se pegou à  pele da claque do Liverpool e que acabou por se tornar hino. Apesar da  forma como a imprensa espanhola tratou o Barcelona - derrotado por 4-0  em Anfiled Road- , o que se viu naquele final de jogo foi bem mais  importante para o desporto e para o mundo do que mais uma derrota de  Messi. Eu, como português e portista, é que me apropriei daquela glória  por cinco minutos, numa lógica de "lá roubaram-nos 2 penáltis e cá demos  uma lição de futebol sublime nos primeiros 30 minutos como ninguém  nunca a esta incrível equipa do Liverpool", mas fomos perder 4-1,  vergados à evidência da beleza daquele futebol que é superior: o FCP já  teve equipas superiores a todo o mundo, como o Benfica e outros, e haja  coração de, ganhando ou perdendo, cantarmos sempre o "You'll never walk  alone" como aquele e muitos outros estádios. E logo a seguir veio o  Tottenham fazer outro milagre perante os miúdos brilhantes do Ajax. E eu  podia fazer aqui uma colagem de milhares de momentos destes que  acontecem na vida, dentro ou fora do desporto:
Aqueles em que a  superação é tal que pensamos logo que aquela personagem que  um tal de  Cervantes sonhou e concretizou para ele e para nós, o cavaleiro da  triste figura, mais conhecido por Dom Quixote, nos salva todos os dias.
E salva.
O que faria eu sem o Dom Quixote?
Pois venho falar-vos do cumprimento de um sonho:
calcar  os passos e o pó do criador e da criatura e da minha própria alma e  fazer o percurso do Quixote e do Cervantes na Espanha onde nasceram.  Quem se aproximou deste lugar que é o Quixote, desta forma de ser e  viver, sabe que há poucas certezas sobre a extraordinária vida de criador e criado - e isso tem como consequência que todos os lugares se  reclamem como lugares do Quixote.
Se eu condeno isto? Não. Não só não  condeno como acho maravilhoso esta alienação pela literatura. Este  arrebatamento geográfico que tem trazido tanta gente e alimentado tantas  aldeias e vecinos por um ideal de ideal, que é a definição do Quixote.
E portanto útlil a todos e aos dias de todos, sejam de luzes, sombras ou ambos.
Foi  importante percorrer toda a Mancha, até porque eu já conhecia a Castela  mais nortenha, que amo como se parte dela fosse minha, e é: nós,  portugueses, como parte do complexo fraticida, temos a mania de que Espanha não se cheira, mas, na verdade, Castela faz mais parte da  nossa identidade do que qualquer outro lugar do mundo fora de Portugal.  Castela como centro, Castela como reino. Deixemos a Extremadura para os  raianos, que a Andaluzia vi eu que não é o Alentejo e a Galiza e o espírito celta nem sequer se distinguem de mim e do meu Norte.
Do que  está ao alcance do braço, Castela é irmã. Lá em cima, quando se conjuga  com León e as Astúrias, é como se fosse o mar interior, o olhar espraiado das nossas  serras e das searas deles. Cá em baixo, quando se conjuga com a Mancha,  são os nossos sonhos todos misturados com pó, silêncio e Quixote.
Os  moinhos de Campo de Criptana impressionam porque não estão lá longe,  não são remotos: são a própria vila. Quixote não estava iludido. São  mesmo gigantes. É preciso estar atento, porque de vez em quando temos de  os combater, embora passem séculos adormecidos, quase como músculo da  alma ibérica.
Mas  o que mais me impressionou e o lugar onde eu econtrei a parte de mim  que achava perdida na adolescência foi Argamassilla de Alba, o lugar onde Cervantes foi  preso por cobrar impostos ilegais, dentro do qual está a cova onde começou a escrever o Quixote. Reparem, nesse dia estava tudo fechado,  excepto praças e ruas, mas sentia-se no ar o peso da expectativa de  centenas de anos de delírios quixotescos, de homens e mulheres em busca  da sua própria essência, até porque, não podemos esquecer, o Quixote e o  seu criador foram famosos no seu próprio tempo. Famosos e polémicos.
 E é  mais ou menos consensual que o Quixote pode muito bem ser o melhor  romance alguma vez escrito: é imenso e belo e desequilibrado e  imperfeito e simbólico e paradigmático e modelar e tem cumes e vales e  colinas e alçapões para onde e de onde escapar. E eu encostei-me à porta  e aos muros do lugar da cova e da prisão e da primeira pena a clamar o  Quixote, hoje Museu Casa de Medrano, e aquilo vibrava, morno dos corpos  de séculos - corpos que deixaram entrar em si o Quixote, como este meu pobre receptáculo.
Experiência quase religiosa?  Não. Nada disso. Tirem-lhe o quase. Quixote está para mim e para muitos  milhares, ao longo de centenas de anos, como Cristo estará para outros  tantos e por diferentes razões, embora humanamente iguais e nem a ficção  ou a realidade os distingam de sobremaneira. Tal como o cântico da claque do Liverpool.  Religião, sim. Congregação num corpo colectivo da expectativa e do sonho.
A Quixote dei o primeiro papel no meu livro  Saramaguíada: conduzir Saramago à sua própria parábola. Saramago elevado  ao estatuto de mito e também às estrelas, às quais Saramago dizia não  poder ser elevado, porque à terra pertencia. Mas Saramago estava  enganado e eu provei-o: nem Quixote nem ele nem nenhum honesto prosador  estão mortos ou algum dia estarão e, por uma razão prática, não os  podemos avistar fora de nós na terra, ao nível do nosso olhar.
Temos de olhar para as estrelas, onde se tornam todos constelações.
E, apesar da incrível confusão, que é própria do arrebatamento e desta fusão de alma e corpo, com o Quixote nunca caminharemos sozinhos. Pela eternidade.
Walk on trough the wind
Walk on trough the rain
Though your dreams be tossed
and blown
Walk on
Walk on
With hope
in your heart
And you'll never walk alone
You'll never walk alone
PG-M 2019

O dia em que eu morri pelo B.B. King

Faz 19 anos em Março de 2019 que vi o rei actuar a menos de cinco metros e morri por ele, como ele morria por nós todas as vezes que pisava o palco, ou ia para lá de todos os limites como se morresse, o corpo suado quase tombado no palco, a cabeça de lado como se caísse para o céu - que o blues, todos contam, vem do inferno - as mãos em carícia sobre a Lucille enquanto cantavam juntos sem abrir a boca. Blues Boy King, B.B. King, nascido Riley King em Itta Bena, Mississipi. Este homem chegou a actuar todos os dias de um ano, 365, e esteve sempre entre os que ultrapassavam as 300 actuações por ano, com a excepção destes anos dez, já com mais de 85 anos, em que, por regra, actuava três semanas e parava outras três. Acabou por morrer por complicações provocadas por diabetes, como a sua mãe, quando uma vida dura dos campos de algodão, na infância e adolescência, em que chegava a fazer a pé 50km por dia para cima e para baixo no campo, não o derrubara. Foram 50km por dia, 6 dias por semana durante 18 anos, até abandonar essa vida pela música. As primeiras actuações eram feitas ao arrepio da vida de cantor colectivo nas celebrações evangélicas - até porque o Blues, como acima ficou dito - era coisa do diabo.
Mas nesse dia de Março de 1990 o meu ídolo era outro: chamava-se e chama-se Rui Veloso. O Rui também toca com alma e com esgar e ainda hoje todos que o adoram e cultivam esperam o álbum só de blues, embora já seja possível montar esse álbum com uma dúzia das músicas que o Rui nos deu ao longo dos anos, entre elas o próprio Everyday I have the Blues com que King abre o álbum que a maioria dos seus fãs considera perfeito, Live at the Reagal, de 1964. Lembro-me de que nessa altura me quis convencer de que o Rui estava à altura do B.B. King. Na verdade esteve, mas nada se compara ao Blues Boy King. Não houve, não há nem haverá ninguém que tire da guitarra - e todas se chamaram Lucille a partir do célebre episódio em que dois tipos morreram queimados num bar de twist onde King tocava, no Arkansas, porque lutavam por uma mulher chamada Lucille e deitaram o barril de querosene usado para aquecer o bar ao chão, acabando por icendiar tudo e morrer lá. King fugiu a tempo, mas entrou para salvar a guitarra, que, a partir desse dia, se passou a chamar Lucille - o som que King tirava delas, e, espantem-se, ele queria tirar da guitarra o som mais metalizado que conseguisse, mas esse esforço redundou naquele vibrato inconfundível que faz com que os fãs digam que lhes basta uma nota para reconhecer o rei. Este homem manteve-se humilde até morrer, aos 89, em 2015, sempre reconhecendo que os jovens blues-men tocavam todos melhor do que ele; na verdade, ele tentou tocar guitarra acústica duas vezes na vida: a primeira foi "arrasado" (disse o próprio) pelo seu modelo nesse tipo de guitarra, Alexis Korker, no seu Alexis Booggie; a segunda - já depois de Alexis morrer, e King tinha prometido que nunca mais tocava um acústica - foi "arrasado" (voltou a dizer o próprio) por Eric Clapton no mais recente ábum "Riding With The King". A Bono, no começo da digressão que fez com os U2 e em que partilhava o palco em "When love comes to town", disse "I don't do chords" (não faço acordes). Na verdade, só fazia cantar a guitarra. Lucille.
Lembro-me que a entrada do Coliseu do Porto foi muito parecida com a entrada desse mítico concerto no Reagal. Lembro-me do baixista a abanar as bochechas e a curtir o virtuosismo da própria banda. E procurei as lágrimas do B.B. King que, dizem, ele enxaguava com o anel de diamantes. A primeira vez que elas caíram nesse anel, o que era raro num homem duro feito pelo tempo duro da infância e da adolescência, foi no primeiro concerto que deu para brancos, apresentado por Bill Graham. Quando chegou ao Caroussel Ball, Filmore West, lá por 1969, B.B. King pensava estar enganado, mas Bill veio cá fora dizer que não. Viu então que a plateia branca se vergava reverencialmente a ele, mestre, e acompanhava de forma entusiástica todas as suas canções, que B.B. King devolveu a vénia à plateia e chorou essas lágrimas sobre o diamante.
Nesse dia eu morri por ele. E sempre quis deixar, como ele, a alma no meio da multidão. E, como ele, gostar de pessoas. E, como ele, dizer que todas as mulheres são perfeitas e que ainda não tinha conhecido uma de que não gostasse. E não são só os dedos dele na Lucille. Nem a voz que se projectava e sumia e a que ninguém conseguia chegar. Nem o sentido de humor. Nem as vísceras. Nem os campos de algodão. Nem as lágrimas sobre o diamante. Nem o homem de trabalho, que se dedicou ao que amava porque não conseguia deixar de fazer aqueles quilómetros por dia e queria que todo o mundo o ouvisse. Morri por ele porque, perante ele, todos somem. E ainda hoje, 19 anos depois, ainda me custa a acreditar que o vi ali, a menos de cinco metros, com o meu ídolo a tocar com ele.

PG-M 2018

Send in the Clowns (da Tristeza dos outros))

(foi mesmo agora)
mais difícil do que o pânico do comboio ou do jantar ou do evento ou do passeio ou de um mero balcão de uma repartição ou de um café ou de uma loja, o que se instala depois da empatia com alguém com quem repartimos o espaço, o tempo e o olhar,

mais difícil do que isso tudo
é a tristeza dos outros.

eu ainda tinha no corpo as marcas do Joker do Joaquin Phoenix, que, para os que assistiram ao filme como um bailado cuja música foi dançada, composta e tocada por génios, é uma actuação que nos vai assombrar para todo o sempre, que vai aparecer ao voltar da esquina ou nas sombras ou até no excesso de luz,

que é como quem diz: nas pontas, nos extremos,

tinha o actor na pele, mas estava equilibrado e feliz e pela casa entrava o sol de outono das três da tarde, que, apesar do verão de são martinho que se avizinha, já vem inclinado.

O almoço tinha acabado e havia ali um silêncio raro que não era paz, era húmus, uma tristeza a flutuar no ar com os pêlos e os gomos de luz e a avançar pelos espaços abertos da cozinha e do salão de festas, que ficou sem a lareira porque saiu de moda.

era a dor da mãe
a mãe está tão cansada de sofrer que se deitou sem perceber
eu gosto que a mãe não faça tudo e perceba que podemos levantar a mesa e lavar a loiça
mas à mãe já dói tanto que ela nem percebe que pára e se cala
já não se queixa
já não diz filho deixa estar, eu faço isso
já nem sequer se dá por cansada
ou geme

apaga-se baixinho e então vem a tristeza como uma descarga de alcatrão negro

quando eu era pequenino, mesmo depois de ter crescido, estes silêncios longos depois do almoço eram apenas o tempo que se toma para descer do monte e esperar no vale verde com uma mão afagar o braço quente e um sorriso que se pode suspender com a respiração antes de morder a maçã e os olhos quase fechados com o sol a pingar das pestanas

ou seja, a felicidade

eu vinha de regresso no carro, já depois do almoço, e os lábios estavam dormentes por saberem que, de tanto a beijar, já não lhe abrandam o sofrimento

e eu pensei que, mal despachasse um mail urgente, tinha de vos escrever isto para que a tristeza dela, mais do que a dor, não nos derrube e nós nos mantenhamos de pé a lavar a loiça, mesmo que alguns misturem as lágrimas com o detergente

gosto de vos ter aí

e sei que muitos de vocês reconhecem esta canção

que, na versão do Sinatra, não pergunta where are the clowns,
diz para os fazer entrar


Isn't it rich?
Are we a pair?
Me here at last on the ground,
You in mid-air,
Send in the clowns


Precisamos deste equilíbrio entre a tristeza e o sorriso dos palhaços.

Obrigado.

PG-M 2019
Foto de quadro inacabado que a mãe está a pintar e que acho tremendamente 

O fim da formação: pensar um futuro para o voleibol português

Tal como no post que publiquei há anos a partir de uma fase final de infantis, parto para uma curta reflexão a partir das duas fases finais nacionais de juvenis - masculinos e femininos, e antes que uma nova semana comece e nós, os que amamos o voleibol e o desporto que ama (ou amador), mas não fazemos dele profissão, tenhamos que pensar noutros ofícios.

É um momento incrivelmente importante, este, e de que nem todos tiveram, provavelmente, consciência: os nados e nadas em 1999 acabaram precisamente hoje, com o apuramento dos campeões femininos e masculinos, os escalões de formação.

No voleibol, aos juniores chama-se escalão de aperfeiçoamento. Além disso, sendo um escalão com dois anos e em que se estreia a figura do líbero, permite outro tipo de variações, uma orquestra mais rica e novas caras.

Nestes quatro anos de formação desta geração 1999, infantis, iniciados, cadetes e juvenis, houve no voleibol masculino, que eu acompanhei de perto, precisamente por ter um filho envolvido, apenas dois treinadores campeões: Durval Pinheiro, com o Ginásio de Santo Tirso, no escalão de infantis (mais dois terceiros lugares), e José Moreira, nos restantes três escalões, um título pela Académica de Espinho, dois pela própria Academia José Moreira: em tempos polémico, estou em crer que vai sendo altura de o voleibol português reconhecer a excelência do trabalho desta outrora glória do voleibol nacional e do FC Porto. O Marco Silva, do Benfica, conseguiu a proeza de ser vice-campeão três vezes consecutivas, e 3º em infantis: mas faz falta competição aos clubes do sul. Hugo Leão foi vice-campeão pelo Clube Atlântico da Madalena, que este ano fez um bom campeonato de juvenis, recuperando algum do protagonismo de outros tempos. Resta, nas menções do pódio, o Leixões, que o conseguiu este ano com grande mérito, sendo uma das equipas em que se notou mais a evolução. Uma palavra também para as grandes escolas de voleibol do Esmoriz e da Académica de Espinho: esta, tendo visto grande parte dos seus jogadores transferidos para a AJM no escalão de cadetes, em 2014/2015, conseguiu reconstruir a equipa com grande qualidade: grande parte dos atletas poderiam jogar pelo escalão abaixo. Última palavra para os que não vieram a fases finais, sendo o caso mais gritante o de outra grande escola de voleibol, Académica de São Mamede, que, tendo dominado algumas fases regionais, acabou por nunca conseguir estar presente numa fase final. Talvez isso não seja determinante no amor pelo voleibol: se afecta, é o amor próprio, mas não devia. Na minha carreira, só fui a uma fase final, pelo Sporting de Espinho, e perdi com o Leixões a final. De resto, era quase sempre 5º classificado no clube onde fui mais feliz: Colégio dos Carvalhos. Foi a jogar no CIC que eu e o meu irmão fomos chamados à selecção que disputaria o Europeu de 1988. Ter títulos é saboroso, vibrante, pode ser crucial numa carreira mais a sério, mas uma das lições que aprendi mais arduamente é que não devemos perder a hipótese de ficar ligados ao desporto que amamos, mesmo que o não pratiquemos ao mais alto nível. Eu afastei-me do voleibol quando fui estudar para Coimbra e só voltei a ele vinte anos depois, quando o corpo já não nos deixa fazer tudo o que queremos. É por isso que o conselho mais vivo que deixo aos voleibolistas que se queixam de falta de oportunidades e de serem preteridos pelos treinadores ou ficam esgotados com o trabalho e com os anos de sacrifícios, é que não sejam "meninos" e se deixem estar apenas pelo amor à arte. Nem todos têm de ser excepcionais.

Claro que alguns são. Habituei-me a admirá-los, quer nos meus colegas de equipa quer, agora, no voleibol que vejo em todos os escalões, nos colegas e nos adversários ou colegas de selecção do meu filho. Há atletas notáveis de todas as idades. Às vezes ao nosso lado. É bom observá-los, admirá-los. Alguns integram desde já projecto de alto rendimento das selecções nacionais. Qualquer país com resultados de topo tem o desporto de alto rendimento intimamente

Finalmente: é hora de ver o voleibol crescer a nível mundial.
Gostava que o voleibol fosse mais bem vendido, que tivesse mais procura e respeito pela sua base de  fãs e praticantes. Afinal, é pouco conhecido o facto de que o voleibol é o quinto desporto, a nível mundial, com maior número de fãs, quase mil milhões.

2025-01-02

A Latina fecha depois de amanhã e ninguém quer verdadeiramente saber

 


Faltam 2 escassos dias para o insensato e insultuoso encerramento de uma das livrarias históricas do coração do Porto, a Latina: imaginem que salvavam alguém de se afogar e depois a empurravam para a morte. Foi o que aconteceu. Escrevo porque sou livre, tenho conhecimento de causa e posso dizer algumas coisas que não vi ditas: sou livre e não tenho amigos com o poder de desfazer isto. Entre várias estupidezes inexplicáveis da decisão do grupo Leya, grupo que me publica desde 2011 ‒ e eu tenho muita honra de ser um autor Dom Quixote, mas sempre exercerei a minha liberdade e expressarei o meu desacordo, primeiro em privado, mas sempre em público quando os lesados forem as pessoas e o interesse público e os responsáveis surdos à sensatez ‒ , lamento a morte trágica do Pedro Sobral e preferia tê-lo em cena para lhe explicar como é prejudical à imagem do grupo Leya o encerramento de uma livraria que é símbolo de um charme que um grupo financeiro não compra nem alcança por si e que de momento era superavitária e a crescer exponencialmente, o que para um gestor devia ser óbvio com o encerramento da Fnac de Santa Catarina, a vinte metros da Latina. Fiz o mesmo com o Paulo Cunha e Silva quando, depois da luta dos escritores do Porto contra a inenarrável decisão da APEL (a que ironicamente o Pedro presidia, instituição que precisa de corrigir a mão em tantas coisas, sendo uma delas uma gestão transparente do Fundo da Cópia Privada, onde os autores e os livreiros e editoras mais pequeninos estão esquecidos e continuarão a estar enquanto os grandes, por indicação “legal” pouco clara, continuam a repartir entre si o bolo anual de milhões) de acabar liminarmente com 83 anos de Feira do Livro do Porto, a libertamos para ser feita directamente pelo município e até hoje nunca o Porto ter verdadeiramente feito uma feira do livro de tripeiros por tripeiros: devia entregá-la aos livreiros da cidade, como acontece em Madrid: na altura, 2013, foi fácil perceber a perfídia de algumas instituições e seus dirigentes. Depois de os escritores terem reunido apoios várias vezes superiores aos 80.000 Euros exigidos pela APEL para “barracas”, esta recusou a nossa ajuda em telefonema, dizendo que agora era uma questão política. Pois era. Entretanto víamos Rui Rio, por mais que tenha anunciado boas intenções, a abrir garrafas de champanhe dentro de um barco Rabelo a meio do Douro enquanto caíam as torres do Aleixo, casas de tantas famílias e que certamente podiam ser musicadas com a marcha fúnebre do Mozart, mas nunca com champanhe e sorrisos.
Em 2013 o Paulo Cunha e Silva mostrou-se sensível aos argumentos e disse que ia corrigir a mão em próximas edições. Apresentou-se na primeira edição da feira a cumprimentar os promotores (que não estiveram na feira por convite, esse um dos erros do Paulo, mas de forma rebelde ‒ mesmo contra grupos como o Leya, que não queriam estar na feira livre do Porto nem que os seus escritores fossem ‒ , levando livros debaixo do braço e mesas e cadeiras de piquenique para as sessões de autógrafos) do que pode ter sido o único protesto de rua de escritores da História de Portugal, uma quase anedota que conto sempre e pode bem ser verdadeira, porque os escritores não costumam protestar na rua e nós fizemos isso: sem autorização oficial, tomámos a praça da Liberdade, no Porto, enchemo-la de livreiros e de citações, poemas e outros textos de escritores nas árvores. Paulo Cunha e Silva tinha essa capacidade e qualidade de reconhecer o erro. Mas também morreu logo a seguir. Agora temos a Casa onde nasceu o Garrett a cair (e já tinha caído se não tivesse lá o “brasão” de homenagem: ou seja, havia Porto em 1864) e a ser hotelizada sem condições de lá garantir a memória do Liberalismo e do seu maior símbolo. E temos outra vez pouco Porto nisto, em vez de Moreiras temos renascidas Luisinhas Midosis.
Deixem-me atalhar desde já a ignorância do que vi escrito desde que foi anunciado o encerramento da Latina (sobre já não ser a livraria que era): a Latina tinha hoje, obviamente, uma frente de loja dedicada aos que gastam dinheiro em capas e aos turistas. Mas tinha muito mais do que isso: tinha o que muitos não conheciam e que esta excelente foto do André Rolo (JN) retrata bem: mais três ou quatro andares de livros por ali acima e um auditório que só não era usado porque a Leya, verdadeiramente, não queria nem nunca estimulou, ao contrário do que tem feito na Buchholz desde que foi refrescada. Por isso dizia o falecido Pedro Sobral ao Nit no dia de Outubro de 2024:
“A Buchholz não irá, então, fechar portas, visto que não é apenas uma livraria. Por ali, também há apresentações de autores, clubes de leitura e várias outras ações ao longo do ano.”
Um perfeito disparate, insultuoso para quem vive no Porto e gosta verdadeiramente de livros. Não havia porque a patroa já não tinha esse plano para aqui. Espaço e vontade e história e memória havia. Era só querer. E a Leya não queria.
O argumento, também inenarrável, de que esse “não era o negócio da Leya” cai pela base com a metáfora exposta no início deste texto de defesa da dignidade e da decência das pessoas, das instituições e das cidades e sua memória:
Foi a Leya que salvou a Latina. Como autor Leya, orgulhava-me disso. O Pedro também disse que herdou o negócio de livrarias da Oficina do Livro. Não era o caso. Esta livraria estava insolvente e a Leya salvou-a. E bem. Quem mata o que salva?
Termino com aquilo que a Leya deveria ter realmente feito, num dia em que se decidisse comportar como pessoa de bem, que é muitas vezes (não sempre) e o deve a notáveis equipas que nela dão o litro, não a gestão e decisões sem alma e sem respeito pelas pessoas, pelas instituições, pela memória e pelas cidades:
Ter procurado um parceiro no sector, mesmo concorrente, que estivesse interessado em tomar de trespasse, mesmo com novas rendas, um projecto que, sempre o senti, podia ter um crescimento exponencial como teve a Lello, se devidamente feita e “vendida” a sua história e sua beleza, que também é flagrante.
E faço o meu Mea (e nossa) Culpa:
em primeiro lugar, não houve um verdadeiro movimento de fundo para salvar a Latina. A maior parte de nós não quis verdadeiramente saber e assim fica fácil para as gestões sem alma vingarem: percebi isso em cada contacto que fiz. As compras de Natal eram mais importantes.
E Mea Culpa porque vezes sem conta disse aos meus livreiros favoritos, o experiente Joaquim, a querida Isabel (que um dia teve a coragem de me fazer assinar todos os exemplares em loja do “Livro sem ninguém”, que eram uns 8, e acabou por ser premiada pelo risco, porque os vendeu a todos em pouco tempo quando vendia 1 a 2 por mês), o grande Paulo, que tínhamos de trabalhar a história da Latina e começar a programar clubes de leitura e eventos para lá, mas não fomos a tempo nem a patroa estava interessada.
A Latina é morta pela sua salvadora.
Em qualquer latitude isso é profundamente pérfido e triste.
Retiro-me a sonhar com alguém que ainda responda a um das minhas centenas de mails, sendo que um salvamento por grupo de cidadãos (como já foi feito noutras partes do mundo e até em algumas livrarias do país) exigia sempre uma rectaguarda financeira sólida, que não encontrei e não tenho, e, em vez de vertermos lágrimas quando passarmos e percebermos que já não estão lá as estantes e os livros, só tenha mudado a marca e se tenham salvo alguns dos empregos, porque, sou sincero, o abraço de despedida da Isabel doeu mais do que confortou.
Viva a Latina. Viva o Porto.
2 de Janeiro de 2025
Pedro Guilherme-Moreira
Foto de André Rolo (JN)

2024-08-15

Eilish: grandeza e a sabedoria onde os que se têm por tal nada vêem

Vai na sombra da noite para que Billie Eilish não faça tanto barulho nem brilhe tanto. Na noite em que choramos mortos ou exaltamos vivos. Olho sempre para cima, para os sábios. Procuro-os, nem sempre os encontro. Há cada vez menos, em absoluto e por cada cabeça vazia. Lembro-me, assim de repente, de Vitorino Nemésio ou Agostinho da Silva, entre os que ainda ouvi e pude admirar vivos. Tenho a certeza de que qualquer um deles, se lhe falassem de Billie Eilish, uma rapariga nascida no mesmo ano, mas já depois, da queda das torres gémeas em Nova Iorque, ouviria e tentaria perceber o que motiva esta crónica: porque é que eu acho genial o que ela nos apresenta que, no meu entender, não se compreende sem o génio musical do irmão Finneas, mas que passa, acima de tudo, pela verdade e pelo carácter de Eilish. O nome, forma gaélica do hebraico Isabel ou Elisabete, é logo uma espécie de testemunho dos pais ao seu deus. Eilish tem as afecções e tiques próprios da idade e do síndrome de Tourette que lhe foi diagnosticado aos 11 anos e com o qual ela vive com grande lucidez, provavelmente o que fez com que muita gente, eu incluído, formasse uma ideia preliminar dela sem tomar as coisas com mais profundidade. Eu não me tinha aproximado o suficiente para perceber que o que estava em causa era algo de extraordinário. Eilish trouxe, como nunca, a compreensão quase absoluta da sua geração. A todos, sem excepção. E de uma forma simples. Perante tal clarividência, se estivermos atentos e ouvirmos e observarmos a proposta, independentemente de nos tornarmos consumidores ou fãs da sua música (eu, na verdade, era fã do irmão Finneas, produtor e músico de excepção, não dela), acabamos por nos render. E, independentemente da desvalorização dos grandes prémios americanos, uma equipa que ganha, só desde 2020, 30 grammys e 2 óscares, tem de ser pelo menos observada e escutada. Não vou detalhar a mensagem, as letras, a música, a forma como foi educada em casa, sem escola, até porque tudo isso podia ter corrido mal. De algum modo, Eilish sempre teve na rectaguarda pessoas decentes, começando por pai e mãe actores e com experiência de ligação ao meio artístico, mas ainda assim podia ter corrido mal. O que mais me impressionou quando aprofundei o conhecimento sobre a Billie Eilish foi perceber imediatamente o temperamento artístico e aquilo a que eu costumo chamar “não dito”: não importa a idade, de onde vem e para onde vai: tudo aquilo sai das profundezas e soa a verdade e eu acho que é. Essa autenticidade e verdade são música para os meus ouvidos antes de Eilish tocar um só acorde. E eu próprio me reconheço mais depressa nela do que em muitos pares que pululam no éter cheios de certezas e criando artifícios para se venderem. Não foi há muito tempo que li dois escritores a definirem o que é a escrita para eles quase da mesma forma: a oportunidade de criar novos mundos. Não é mentira, mas é uma consequência. A consequência de não se poder ser e fazer outra coisa, como disse Rilke a um jovem poeta quando ele se quis definir. Ela sem a música dela, eu sem a ponta dos meus dedos e a seiva dentro do tronco do meu pensamento literário, morreríamos. E se não morrêssemos definhávamos. Daí que haja sempre negrume na arte: há uma cena do documentário que a honra (o magnífico “Billie Eilish: The World's a Little Blurry”) em que a mãe lhe diz, por causa de uma música que Eilish está a ultimar: “Não achas que dizeres que a vida só faz sentido se te atirares do telhado é negativo?”, e Eilish responde: “Fazer uma música em que me atiro do telhado é a forma de não me atirar”. Vitorino Nemésio e Agostinho da Silva não teriam sido mais brilhantes. Mas teriam entendido. Milhões de pessoas que a seguem também. Pais que não entendiam os seus filhos, rapazes e raparigas, homens e mulheres que a ouvem e choram desalmadamente e depois está tudo bem. A vida não é fácil, não. Mas com génios como Eilish, mesmo génios negros e aparentemente sombrios (oh, é tão melhor o agridoce de Eilish do que a lamechice enjoativa e fraca da curta de animação que ganhou o óscar ao nosso João Gonzalez: apesar dos magníficos desenhos do Menino, da Toupeira, da Raposa e do Cavalo, da mensagem supostamente positiva, o texto é das coisinhas mais mentecaptas que já li e ainda foi ganhar a um brilhante Ice Merchants cujo argumento se desenvolve bem melhor e, curiosamente, sem palavras) tudo se torna leve, mesmo que pareça um contra-senso: a maior dor é não nos conseguirmos expressar e com Eilish todos nos expressamos, mesmo contra ela, como acontece normalmente com os sucessos planetários que, por excesso de escala, acossam toda a humanidade do ídolo. Não é fácil, Eilish, aguenta-te aí. Para vires de génio a sábia e não seguires o caminho de outros génios na música. E em todas as artes. Por favor. Ser poeta é mesmo ser mais alto e isso é uma merda.


#pedroguilhermemoreira

#eilish #billieeilish #finneas

foto de Jamie Luca

2024-07-23

Biblioteca Saramago de Madrid e Livrarias Sin Tarima e Pequeños Seres

Consta que é a primeira vez em Espanha. Que uma biblioteca espanhola se especializa em livros em português. Os livros não chegam lá por apoio público, é importante os autores portugueses passarem pela Biblioteca Saramago de Madrid: fica a dica. Que se ajude quem merece e trata de nós, escritores, como ninguém.

A mim honraram-me recebendo-me de forma magnífica e dando um grande destaque aos meus três éditos, sendo que o terceiro entre eles é precisamente o livro que faz de Saramago o Quixote que sobe às estrelas (mesmo que não quisesse, em princípio, disse-lho e provei-lho em todo um livro que os seus leitores precisavam que integrasse a colectividade das estrelas que brilham sobre eles, assim como lhe dei - com a Pilar - os quinze dias em Paris que se haviam prometido e não tido. Pois que os tiveram no Saramaguíada).


Mais importante seria promover encontros com leitores madrilenos (de qualquer nacionalidade, mas que tenham curiosidade no português, até para lhes dizer que já há uma biblioteca espanhola com o nosso perfume) à margem de um evento como o Readmagine e aproveitando a oportunidade de lá estar uns dias, com a Feira do livro de Madrid a borbulhar bem perto.


E foi possível fazer de tudo um pouco, desde as “citas” espontâneas na Sin Tarima, graças à abnegação e paixão por livros de uma livreira bem portuguesa em Madrid, a inspiradora Sofia de Castro Pereira, que cuida dos leitores da Sin Tarima e que bonito foi passar um fim de tarde com leitores madrilenos a sair e a entrar e perceber que o português “está de moda”, vê-los levar os meus livros para casa e até debater longamente o Ulysses do Joyce com um galego chamado José Pedreira, aficcionado do livro, e ficar até ao fecho, a que eu desajudei (derrubando alguns livros) mais do que ajudei, e ficar de balanço a copas.


Na magnífica Pequeños Seres a hora era de apoiar o livreiro Leo, que estava a montar a sua casa na Feira do Livro de Madrid. Na livraria ficou o Fran, que me ajudou a perceber em que livros a Pequeños Seres tinha margem maior e a adquirir-lhe esses.



A noite da véspera da partida foi a mais íntima: com uma anfitriã magnífica (remeto para o texto “Belén Caccia”) e sendo um especial adepto e já relativamente conhecedor de Madrid, foi com um livro de uma escritora intrigante e grande conhecedora de livros chamada Beatriz Alvarez que percorri as ruas de Madrid parando para a ler em dezenas de cantos, entre cafés e claritas e charlas. Lavapiés, Tirso Molina, Sol, Plaza Santana para o encontro habitual com o Lorca.


Não poderia deixar Madrid sem visitar o Quixote original na Biblioteca Nacional de Espanha, que tem uma pequena, gratuita mas muito relevante exposição permanente que percorre várias cronologias ligadas aos livros.


Já porque é que um escritor português sozinho à solta em Madrid pode trazer-nos lições de sapiossexualidade fica para outras calendas, ou, como diz o gentil Joel Cleto, outros caminhos da História 🙂.


Obrigado, Madrid!


#pedroguilhermemoreira #sofiacastropereira

#sintarima #pequeñosseres #madrid

#libros #livros #literatura #beatriz

#autoresportugueses #Saramago

#literaturaportuguesa #portugal

#culturaportugal #escritores


2024-07-22

Readmagine: visão, cálculo, humanidade, criatividade

 Este é um artigo de fundo, por isso detenha-se já se não gosta de perder o pé 🙂.

Porque é que eu estive em Madrid no final de Maio de 2024 e porque é que o Readmagine se revelou um momento notável. Vou ser-vos sincero: ando triste como o estado da nação literária.

E novidades, há?

Quando falo do Quixote (para lá da editora que me publica), recomendo sempre o prefácio escrito pelo punho do próprio Cervantes. Não destoaria hoje. As queixas são muito parecidas.

Mas há um probleminha: todos os prefácios escritos até ao ano 2.000 (embora a tecnologia tivesse aparecido no início dos anos 70 do século XX) eram-no tendo em conta o mesmo modelo que herdámos do Pentateuco do algarvio Samuel Gacon, em 1487, e que foi pouco depois sistematizado e profissionalizado por Gutenberg. O papel, a tinta, o prelo. Um pouco antes da viragem para o terceiro milénio generalizou-se o ebook e rapidamente o (já) rei da distribuição tentou aprisioná-lo no Kindle para não serem esmagadas as suas margens na distribuição física, o que conseguiria durante mais três décadas, como ainda podemos ver e sentir.

O formato digital ficaria, pois, estagnado por razões de rentabilidade económica de alguns, o que não é assim tão diferente de algumas revoluções tecnológicas do passado que pareceram montanhas a parir ratos e muito menos diferente é dos tempos de hoje: cada livro precisa de chegar a todos em todos os formatos disponíveis, mas é muito mais rentável vendê-los em separado e é por isso que as grandes cadeias mundiais pouco têm feito para os agregar.

Ao olhar para os números é também surpreendente ver como as livrarias e o papel ainda têm uma fatia de leão na venda de livros, o livro digital tem uma quota ainda relativamente baixa e estabilizada e o áudio, apesar de representar uma percentagem mundial entre um e dois por cento, tem tido um crescimento exponencial, com tendência a acelerar, sendo obviamente o formato que mais vai crescer nos próximos anos. Portugal é, contudo, dos países mais atrasados neste domínio, como é perceptível para quem vive nele, no meio literário, ou para quem o tenta usar para ganhar a vida.


Recentemente um quadro de topo da casa mãe da Penguin Random House, Madeline McIntosh, despediu-se e criou a sua própria editora, Authors Equity, que promete pagar ao autor percentagens de venda do seu próprio livro que mais do que quadruplicam (serão 40 a 60%) a actual prática do mercado, que é pagar ao autor uma vergonhosa percentagem das vendas que anda entre os 8 e os 10% (ou nada. Na verdade há quem obrigue o autor a pagar), sendo que muitos não sabem que, no silêncio do contrato, a lei portuguesa obriga a que ao autor seja paga uma percentagem de 25% das vendas, o que seria mais consonante com o facto de não existir obra sem ele. Foi isso que a americana explicou na conferência que abriu o Readmagine 2024, e eu, enquanto a ouvia, comecei imediatamente a redigir uma pergunta que faria no final, mas não houve período para perguntas nessa primeira conferência, ainda que perpassasse por toda a conferência a ideia de que o autor devia voltar a ser o centro do mundo editorial (o novo “Writer-centric-mode”, como referia a Madeline): que boa ideia! Só que. A pergunta, que se queria bem humorada, ainda que assertiva, seria mais ou menos esta:

“Perdoem-me se eu, como autor, não me sinto o centro do mundo editorial. Geralmente sinto-me mais um chato ou aquela coisa a que chamam “de nicho”, e não vos vou insultar falando de toda a grande arte que não vendemos nas nossas vidas “de nicho”, a bem dizer isto já vem de Camões e Van Gogh e assim por diante. A questão é que precisamos de comer e alimentar as nossas famílias. E pensamos sempre que a culpa é nossa por não o conseguirmos fazer. Não quero ser dramático nem insensível e vou perguntar isto com algum humor.

A questão é simples:

e se não houver lucro? Morremos todos? 🙃"

Mas tudo isso se deveu, do meu lado, a um rapaz desafiante, humilde e de olhos brilhantes, dos poucos escritores, como eu, presentes no Readmagine, o neerlandês CEO da Immer (que pensa a forma de nos fazer ler com mais conforto nos telemóveis e está a fazer sucesso na ligação aos clubes de leitura, escolas e bibliotecas neerlandesas) Niels T’Hooft, que, conhecedor da minha abordagem crítica ao desinteresse pelo leitor e pelo escritor das empresas municiadoras dos grande conglomerados editoriais, me desafiou a partir pedra e a reflectir em Madrid e foi o que fizemos, percorrendo Madrid a pé enquanto tomávamos ideias no ar e no balão de cada um e as trazíamos para reflexão entre copas, claritas, cañas e cafés solos.

O Readmagine é, há quase vinte anos (!!! E não o conhecia, pois não?), a Semana de Inovação Digital em Leitura, Livros e Bibliotecas, organizada pela Fundação Germán Sánchez Ruipérez (FGSR) na sua sede de Madrid: Casa del Lector, o antigo Matadouro, hoje com deslumbrantes instalações. São conversas, workshops, conferências, encontros e outros formatos para a troca de ideias em torno do processo de transformação da leitura e dos livros.

Tem a (humilde. Repito: humilde) participação de profissionais dos cinco continentes e reúne o segmento mais inovador do mundo dos livros e da leitura. A cada ano, o Readmagine é organizado com um foco especial em torno de alguma questão, tendência ou desafio, e esse tema influencia a maioria dos diálogos e apresentações.

Tem como caras visíveis dois homens que aprendi a respeitar, dada a impressionante simplicidade, Luis González (Director at FGSR) e José Manuel Anta (Director at FANDE/IPDA).

Mas quem também lá estava e me espantou, já que a Feira do Livro de Madrid abria no dia seguinte, era a Eva Orúe (directora executiva da Feira), que foi explicando o que, de algum modo, foi surpreendente, e que acabou por acontecer no Porto por absoluta incompetência histórica da APEL e do Rui Rio na simples capacidade de entendimento, é que Madrid ainda é uma feira de livreiros locais, que, como ela diz, são os seus patrões e os donos da feira. Mas pediu para não dizer a ninguém.

Protagonistas por razões diferentes foram Searsha e Richard, uma pela inovação no modelo publicitário dos livros pela via da Inteligência Artificial, a britânica vestida de verde-esperança, da Shimmr, Searsha Sadek, outro pela sabedoria, Richard Charkin (fundador da Mensch Publishing).

Estando lado a lado durante com estes dois no cocktail dado durante as pausas para almoço, disse ao Richard “obrigado por ser tão sábio” e à Searsha “obrigado por ser tão inspiradora”. Com uma gargalhada, o Richard disse que ele tinha de ser, claro, despachado como o sábio, não como o inspirador, porque não tinha a beleza da Searsha. Respondi de imediato: “Obrigado por ser tão sábia” para ela e “obrigado por ser tão inspirador” para ele.

Rimo-nos e afastei-me, deixando claro, como o Romeiro do Frei Luís de Sousa de Garrett: “Eu não sou ninguém, sou apenas um escritor português”.

E o que é isso, “um escritor português”? É uma coisa “game changer”? Devia, mas não é.

A pergunta chegou mais tarde de outros quadrantes. Dois oradores aproximaram-se de mim e disseram e perguntaram: “Nós vamos a quatro ou cinco eventos anuais em todo o mundo que pensam o futuro da leitura. Porque é que nunca vemos portugueses nestes eventos?”

A minha resposta foi rápida, embora eu saiba que pelo menos os bibliotecários itinerantes já terão passado por um dos Readmagines do passado, mas isso não altera o facto de termos tido quase vinte edições e de os portugueses estarem essencialmente ausentes destes momentos a nível europeu e mundial. E a minha resposta foi, sem hesitar:

“Falta de humildade e complexo imperialista”

Acredito mesmo nisto.

Tem sido flagrante com a recente lista dos cem livros do século XXI (so far) para o New York Times. Tudo o que eu leio são opiniões - mesmo as mais respeitáveis de pessoas muito respeitáveis - que transmitem desprezo e a ideia de que nós é que sabemos.

Mas nós não sabemos nada. 

Somos um mercado anémico e não sabemos nada.

E a única solução para isso é pensarmos em conjunto.

Não vamos lá pela mini mini mini masturbação colectiva nem lembrando que outrora fomos os donos do mundo e por isso sabemos tudo. E que de repente fazemos Expos 98 ou Europeus ou Mundiais. Porque esse é o problema: as mini masturbação e o joelho: assim de repente e em cima do joelho a gente vai lá. Mas não comandamos antes ou depois. Nada. Só lá vamos com Quixotes que de vez em quando, normalmente por mor do esforço pessoal, não do país, emergem.

E como eu gostava de ter companheiros e companheiras neste caminho, que decididamente farei até ao meu último suspiro: remar (ou velejar) em prol de uma grande causa colectiva que devolva a leitura ao seu esplendor.

(também a literatura, mas aqui o caminho é mais simples: os logros - quase todos - e o ruído são muito fáceis de identificar e ainda temos os grandes que vêm de há muitos séculos até ao dia de hoje para nos dar guarida; o grande problema é que alguns desses grandes misturam-se hoje com os medíocres - que ocupam todo o espaço - por conveniência económica ou influência ou, mais raro, mera inocência, que no leitor não informado é quase generalizada; o que fazer? O mundo não se muda só por denúncia nas redes sociais: é aí que aposto nos cavalos de tróia como o Festival Literário de Ovar, entre outros não indentificados, que espero se repliquem pelas próximas décadas até a qualidade voltar, a matéria, a essência, voltarem a ser dominantes: e que as gerações seguinte tomem as rédeas destes ataques que implodirão toda a mediocridade, hoje líder mundial)

Pensando e questionando sempre as minhas convicções.

Porque amo os livros até à exaustão.

Tenho dito. Readmaginado.

#pedroguilhermemoreira

#readmagine

#madrid #livros #futuro

#literatura



2024-07-18

Belén Caccia

Belén Caccia. Quem é? Esta é uma crónica sobre espanto em tempo de desencanto, sobre elevação no centro do abuso de aspecto triste e pequenino, mas que mói tanto como o que parece grade e arrasador. Quem é? Estes são os tempos em que fazemos sempre esta pergunta e queremos responder sem ajuda e sem critério. E a maior parte de nós não quer realmente saber a resposta: não quer saber quem é a pessoa, apenas de que forma pode servir os seus próprios interesses ou ser tolerável no momento em que se cruzar com ela. Assume que é o capuchinho vermelho e só se quer certificar que do outro lado não está o lobo mau pronto a roubar-nos o almoço e a comer-nos a avó. Não conheço muita gente que faça uma utilização cívica e social da informação que obtém. Já conheço muita gente que pura e simplesmente não quer saber. Em eventos públicos como festivais literários isso é flagrante e agora sim, vou armar-me em carapau: eu nunca fui a um evento em que tivesse um ou mais interlocutores ou companheiros de mesa sem saber o possível quem eram e o que pensavam e, sendo artistas, o que faziam ou tinham escrito (lendo) ou pintado ou cantado ou tocado. Muitas vezes cheguei às mesas a saber mais deles do que de mim. E tive sempre o cuidado de lhes dar o protagonismo, subtraindo ao meu. A verdade: fi-lo nos primeiros tempos (na literatura) porque não sabia tê-lo (ao protagonismo) e nos seguintes porque realmente me interessa sair de um lugar diferente do que nele entrei e a diferença não sou eu, são os outros, os que conheço de novo.

Quando fui a Madrid no fim de Maio - nos próximos dias levantarei o véu sobre este dois dias e meio magníficos - sabia que a minha anfitriã seria Belén Caccia. E obviamente a pergunta foi:

Quem é Belén Caccia?

Quem está a ler isto vai querer saber e a primeira via é o Google, por estes dias, como noutros foram as páginas amarelas. Normalmente inconsequente ou incompleta (se me pesquisarem, por exemplo, não há forma de aquele “advogado” se me descolar do corpo porque o Google não quer, mesmo que eu preferisse ser só escritor quando fosse pesquisado, ainda que um dia, em São Pedro do Corval, Alentejo, dito o maior centro oleiro do país, depois de ter dito ao rapaz que nos serviu a refeição de um restaurante local que era escritor - decidi nesse dia que me intitularia isso antes de qualquer outra coisa, que no fundo é o que sinto - e ele ter respondido “está bem”e ter voltado um minuto depois e perguntado: “Agora a sério, o que é que faz mesmo?”).

Quando pesquisei Belén Caccia os resultados do google foram avassaladores.

Aliás, basta consultar o curriculum da Belén  no seu pórpio sítio para ficar de queixo caído. E eu que pensava que ia ser recebido por uma anfitriã institucional simpática e cordata, percebo que quem me espera é um par das Artes e mais, é alguém com um vasto curriculum que merece atenção, que merece que me importe com ela: precisamente o que eu sinto não acontecer em meios que deviam ter sempre o propósito colectivo acima de qualquer propósito individual.

Tão vasto que decido suspender as leituras e as séries e os filmes durante pelo menos dois dias para absorver tudo o que me fosse possível de uma mulher com mais de trinta anos de carreira sempre ao mais alto nível e que é dramaturga, actriz e encenadora (de Shakespeare, entre muitos outros) e professora de teatro. Ou seja, esperava-me uma pessoa valorosa. Fiquei feliz e fiz uma vénia ao destino antes de a fazer à Belén. A carreira brilhante da Belén precede-a e está espelhada no seu portal profissional. Ainda que impressione, o que mais me impressionou foram outra coisas e delas quero dar testemunho.

A Belén tem um “problema”. É uma mulher deslumbrante, “ainda que” (o sublinhado não é inocente) esteja já perto dos cinquenta. Foi mãe aos 40 e disso fez gala, com grande coragem. Foi uma grávida belíssima. Tem um filho mágico (por mérito próprio) chamado Oliver. E ela própria disse em entrevistas que sabe tirar melhor partido do corpo na idade actual do que quando era mais nova.

Do vasto material que fui absorvendo durante esses dois dias fechado a tudo o resto, vi sempre talento, mesmo no papel mais difícil, que tem dominado muito os dias de Belén Caccia desde que veio do seu país natal, Argentina, onde fez praticamente toda a sua carreira, para Madrid, onde começou do zero (quanta coragem!): stand up comedian.

Ri-me muito, mas também fiquei em sentido. Na verdade fiquei deslumbrado.

Deixem-me acelerar o relato até ao ponto em que também fiquei envergonhado, embora não me espante no mundo de hoje e principalmente no mundo dos homens de hoje que não se sabem conter no seu pequeno poder digital e preferem o ridículo, que nos envergonha a todos:

No seu instagram a Belém tem uma secção chamada “bloqueaditos”. Quase todos homens, pois claro, como também  são quase todos homens os violadores e os abusadores. E estes não contribuem para uma pacificação para que seja possível voltar a dar colo às crianças e haja espaço para os homens bons. Porque o erotismo e a sexualidade são coisas que exigem lucidez, despoluição mental, classe, tento e respeito, não diabolização. Foi confrangedor ver como se comportam os homens só porque a mulher é bonita: não lhes importa se é valorosa. O ridículo em que tantas vezes caímos sem termos noção. Confrangedor e enriquecedor.

Não foi surpresa para mim que a maioria dos trogloditas achem que uma mulher bonita que se mostra deslumbrante não pode valer muito. E não valendo muito eles sintam que lhe têm acesso fácil só porque está ali no instagram e podem dizer a primeira coisa que lhes vem à cabeça. E ainda achem que ela lhes vai cair nos braços.

Repetem-se quase como se fossem invariáveis e invevitáveis  os clichês do “princesa”, “rainha”, “deusa”, os convites ostensivos para sair ou para serem recebidos por ela em casa. Às vezes são explícitos e deram-me a verdadeira medida do atraso masculino quie ainda persiste e que ainda é do tamanho de Júpiter.

A Belén enfrenta tudo com coragem e determinação. E classe e beleza. E inteligência. E humor. É um grande exemplo de força para qualquer pessoa, mais ainda do que para qualquer mulher. 

Veio de um continente e de um país, o seu, onde era sobejamente conhecida e figura pública para um meio e um país, o do nascimento da sua língua, quase sem rede. É o verdadeiro esplendor, mas pouco conhecida à escala espanhola e obviamente ainda menos portuguesa e europeia. E depois? precisamos que seja “conhecida” e “socialite” falada em todos os meios de comunicação para lhe darmos valor? Esse é o ponto. O combate de décadas pela dignidade e superioridade da mulher nunca esmoreceu, fosse ou não reconhecido pelos poderes e pela imprensa. 

E o que faz a maioria das pessoas (homens acima de tudo e infelizmente)? Pergunta quem é e que projecção tem. Responde de forma frívola e simplista logo a seguir. Muitas vezes com menoscabo. 

Pois eu, quando tive a mínima noção da pessoa que ia conhecer, fiz traduzir e ajudei o mais que pude a Cristina Vicente a rever a tradução da única peça que escrevi, “Ekaterina com as mulheres sobre tudo”, até hoje só representada parcialmente, levei-a pronta e dediquei-lha dizendo, como só direi a alguém que respeite muito: “Gostava que fosses a primeira pessoa em Espanha a encenar a minha peça”. 

Não farei muito mais para vos convencer que ao acompanhar a Belén Caccia estamos garantidamente a acompanhar uma grande e, seguramente, uma das maiores.

E que não importa que isso tenha apoio em currículos vazios e produzidos para o efeito. Não. É mais justo vê-la, acompanhá-la, rimo-nos com ela.

Dos projectos correntes, além de podcasts e entrevistas, e ela nunca pára, todos tive pena de não ter visto senão extractos, como MILF (“Mujer inteligente, libre y felíz”), que está a ser um grande sucesso sempre que tem uma representação, qualquer encenação do Shakespeare, mas também qualquer noite de Belén ao vivo como stand up comedian, sendo certo que, como ela própria diz e é inteligente e sábio, ainda não se mete em política espanhola, como fazia na Argentina.

É uma mulher que trabalha tanto e pega de frente todos os problemas e não há um minuto perdido em todos os que lhe dediquei e dedico. E é linda e isso não pode ser um problema.

Quem é Belén Caccia?

É simplesmente uma artista maior.

Maior ainda do que isso.

O que percebi é que, além da sorte (minha) de a ter como anfitriã, o espírito de combate da Belén é tal, a tarimba para a luta e os projectos múltiplos, que ela própria não pára um segundo para ouvir elogios e em princípio não acredita mesmo que é já uma das maiores do seu tempo. Não é na Argentina. É em todo lado.

E eu com isso. E nós com isso.

Os sábios são sempre assim: por mais brilhantes ou belos,

têm sempre o pescoço curvado em vénia.

Em princípio não nos deve interessar quem não se apresentar em vénia. Ela faz isso. E temo-la aqui, do outro lado do ecrã.

Aproveitemos a excelência enquanto aí está.

Obrigado, Belén!

#Belencaccia #madrid #argentina

#pedroguilhermemoreira

PS: não consegui descobrir quem creditar a belíssima composição fotográfica. Quando souber, prometo que o faço.


2022-01-30

Open letter to His Excellency the Great Bryan Adams

 

Dear Bryan,




Thank you for coming back and bringing Heaven with you.




We hadn't spoken since the summer of '85. The last time we were together you couldn't see me and I could only imagine you. Heaven didn't talk to me and I din’t talk to Heaven. Because days before, I had found myself distressed in Armação's east room, my room, while I was trying to crush an insolent and rebellious tear on my cheekbone and the sun was burning on my face, on the Galé side, and I told everyone that I would never leave the room, that I would stay in that room forever. At least as long as my face and chest didn't dry out. I never explained the impossible to you, nor to you nor to anyone else. At the time I turned my back on Heaven, I incomprehensibly chose Blue Eyes to become a man again. I achieved it. I pretended that love was a whim and after all, you and I know that, it's the most violent of superhuman truths. Nothing cheesy, nothing sensitive, life has beacons, death and birth, the rest is love. As if love was part of an american sandwich stuffing and she wasn't American. And she was anything but American. And when love is captured in the palms of the hand with the right refraction of light, it overcomes all. It seems to overcome life itself, death itself, as if it happened on a plane of existence that we do not have access to if we are not attentive or the day is not clear. Better than clear: transparent. Because when light penetrates refracting media, its speed decreases and everything becomes more noticeable.




So thank you, Bryan.




Thank you for making me overcome death again. The road, which had narrowed, widened again with you. Thank you for bringing back those times when we saw tanned brunettes passing to the beach and we only knew how to smile in the distance, or smell coconut oil close by, nothing more, we fled the salon at the first chords of Heaven so we wouldn't be invited to dance and stayed watching the aftermath behind thick black velvet curtains that grandma had bought by the meter at the fabric house so that our private party could look like a nightclub . All our parties were spectacular. All. But this time we were so scared to go to your concert 22, thirty-six and a half years after that summer when I isolated myself in the east room. There are those who are only prepared to die: for these we are all old and there is nothing to do, you don't sing, you explore, we only know how to spend money in concert tickets to validate our little life. Even in a mask. I put two. We expected chaos and knew we were really going to die of sadness there, poor 50s gray-haired defying the pandemic for music out of time. Wow. The pessimists may be right: endless lines! Are we really all old?, are you too?, are we just going to be poor gray-haired fifty-somethings playing sad figures? But after all, our children are here. Almost our grandchildren. What's up, Bryan? Is it Spotify? Are you still playing in clubs or was it the Spirit soundtrack that kids saw crying on Saturday mornings, when, for a long time, we, their age, only had the tv technical screen? The stupid ones served beer in the back of the pavilion. The stupid squares brought about two glasses of beer in each hand to the middle of the pavilion and had to take off their mask to drink. Seriously sick people with pre-pandemic festival syndrome. You didn't know this, did you? In fact, as soon as you took the stage we were all hypnotized and the beers stopped and whoever dared to go get more or take off their mask had threats of beating while you started with Run to you. 




“She says her love for me could never die




But that'd change if she ever found out about you and I”




When you love someone. Straight from the heart. Do I have to say the words?




Half-light. Slow pace. The velvet curtains closed. Pairs are formed. She lifts her arms around my neck. The synthetic keyboard begins Heaven. The guitar chords.




“Oh, thinking about our younger years.




There was only you and me, We were young and wild and free…”




Her head is tilted slightly, her breath and lips very close.




What do I do?




She advances with her tongue and we both stay there until our lips burn. It was customary, twenty-five-minute kisses. Burnt lips and hickeys like spoils of war.




We don't even notice that the slow musics stop with the chords of the summer I was born.




In your song about the summer I was born there was always something unrestrained, merciless. Summer of 69 is me and nothing before. It's just that singing about the summer that brought me into existence doesn't bring things that are easy to manage without going back to it, to the commotion that crushes the cheekbones and it can happen that I teleport myself to the east room and that's not good. 




“I got my first real six string




Bought it at the five and dime




Played it til my fingers bled




Was the summer of '69”




But live, you right there in the front, real, the words of the song playing on naked bodies behind you and the tattooed “Summer of 69”. That's why I remembered my mother Mena a lot, because that was precisely the summer she became a mother. Thanks to me.




Standing in your mamma's porch




You told me that you'd wait forever.




They are the only possible promises, the ones that are made forever.




A few years later I made it to the girl who is still my wife: if you have any doubts, I can wait forever. It was an Air Supply theme on the Ghostbusters album. My anxiety and my lost gaze was over, the love that was already there and I didn't want to give it to anyone who wanted me just for a night of slow songs and dance. 




The first time I went to her house, she showed me your Reckless vinyl. Then thirty-something years go by again, now this is how we count the memory jumps, and she sees the announcement of your concert in 2022. She receives that as gift on Christmas Eve. We look at the numbers of the pandemic. There is no enthusiasm possible. A lot of people cancel concerts after concerts, I imagine you've thought about that too. The day before we do those antigen tests and they come back negative. It seems like we're going to see Bryan Adams. The scary lines make you think it won't be that night. Then you come to this night that becomes out of this world: you had already disappeared from my playlists, but in the morning after the concert I went to the market to buy the best live versions. Mtv's Unplugged, Australian Tour, Bare bones, which is a great live album. There are already more than twenty songs on the brand new “Bryan Adams” playlist in my phone.




But do you know that in none of these concerts did I hear delirium like yesterday? Is it because it's mine? Is it because it's the night we finally met after the hassle with Heaven?




Extraordinary show, this one in Porto (Gondomar). The cameras around you, all in our eyes. The public seeing itself and maybe you were right and it wasn't just sympathy: we were also good as public and we were the first on your new tour after two years stopped by the pandemic. The lights. You. The sound. After all, there are those concerts that justify every cent of the ticket and have the perfection of professionalism showing the possibility of the failure of all most perfect singer your are. Rock is the fault through which the light enters. And how well you fail!




Thank you, dear Bryan, for eternity. 18 till I die. Mother Mena, even though she died, I felt here today by my side saying "finally, Pedro, you arrived in time to see him". I, who could never buy an LP from you. I wanted to tell her. Without dying first, like her. And Vera next to me, hand in hand, became all the girlfriends, all the kisses, all the slow dances. If we watch carefully, people twist their bodies in a time-regression position. They close their eyes, not out of nostalgia, but because they are boarding the DeLorean back to immortality. Some cry inside. Some cry on the outside.




But it was you, dear Bryan, who lost the right to die. And I of sleeping today. There is rock everywhere, inside and outside of me, and because of me walking around the house only apparently quiet at dawn, inside and outside the thousands who applauded you, inside and outside the world, but no one needs to count sheep to fall asleep. Just remember those smiles back, the smiles os usl around you, your smile and your musicians smile. These, the most beautiful, those of victory over death.




I had already forgotten how When you love someone had declined me and today it breaks me down:




When you love someone




You'll do anything




You'll do all the crazy things that you can't explain




You shoot the moon




Put out the sun




When you love somenone




At the end of the night, we'd like to hug everyone who felt the same, thirty five years ago and tonight, but we're basically alone listening to When you love someone on repeat.




Thank you dear Bryan.






PG-M


Pedro Guilherme-Moreira