2020-10-20

Os maus ainda estão aqui e são tão bons como nós

Quando o fotografei em Agosto, em Birkenau eram quase quatro da tarde e ele olhava zangado para a principal câmara de gás de execução do campo, onde muitas vezes metiam mais de três mil pessoas. Estava sozinho a olhar para o fosso. A cara de zangado ficou na fotografia, que não foi retocada. Ele estava à sombra e ficou à sombra. Pensei que os pais que levam um menino desta idade a um lugar destes não lhe vão mentir, mesmo piedosamente. Fazem bem. Via-se bem que ele estava zangado com o que lhe tinham contado. Ao contrário do que tinham dito, para quem investigou este lugar antes de lá ir, não foi tudo escondido pelos agressores. A câmara oblonga, gigante, está lá. E sabemos que lá estão milhões de nós, também. O meu filho não estava tão zangado como este menino, mas deixou-se ficar tanto tempo perante os lugares que escolheu para prestar a homenagem dele, a homenagem íntima, que eu sei que o meu dever está feito e a memória transmitida. Aliás, foi ele que me pediu isto. Em vez de eu ir embebedar-me para Espanha, consegues levar-me à Polónia com o mesmo orçamento - que era curto - ? Consegui.

 Esta foi a última fotografia que tirei em Buchenwald. Não leiam mais, se vos parecer insuportável. Dei a volta ao contrário, comecei no deserto de cascalho do lugar onde outrora funcionavam os barracões-dormitórios-cantina-enfermaria-lazareto e já não há barracões mas conseguimos vê-los e senti-los todos, um a um, as sombras, o frio, a espera, o medo, desespero, a mancha humana. Há pedras que foram postas por mãos em homenagens e nós sentimos o movimento sofrido da mão a depô-la. Depois damos a volta pelas florestas da infâmia, pelo lugar dos moribundos mais moribundos e das crianças, passamos a exposição da casa grande e terminamos no crematório. Aquelas chaminés ao alto, mesmo sem fumo ou cheiro, sempre me quebraram. Regresso ao berço, fico frágil como se ainda não falasse ou andasse, estou de volta à mãe, ao útero. Devem ter sido assim, estas mortes. O regresso ao útero num pânico gelado. Entramos pelas bancadas de matadouro forradas a azulejo branco onde os corpos eram desmembrados para caberem nos fornos e, precisamente à entrada da sala dos fornos, uma fotografia em tamanho natural da pilha de corpos que os americanos encontraram quando foram libertar o campo, no mesmo lugar em que os corpos estavam, dá-nos um murro. Vários murros. Entre os visitantes, uns abrandam, outros param, a maioria chora, não há olhos secos. Embora fotografar seja importante, muito importante, por agora chega. Não vou sequer falar da descida à cave onde guardavam os cadáveres. Saímos do campo de concentração e durante muito tempo não conseguimos lá voltar. Até estes dias, lentamente, pedra a pedra. A ferida ainda está aberta, ficará sempre uma fenda que sangrará nos dias bons, para me lembrar. Encontro num mercado de livros em segunda mão de Santo Tirso o livro "16 meses em Buchenwald e Dora", do padre Birkin. Está a dois euros e meio e nem sequer hesito. Leio, voraz, porque estes lugares se tornam nossos como aqueles em que nascemos e crescemos, percebo que não é só mais um livro sobre o holocausto e eu já li milhares de páginas de todas as perspectivas, romances, ensaios, testemunhos, as 10 horas do Shoah como se fosse um filme de suspense, e ali está o que ainda me faz parar e apelar à demência, aliviem por favor esta parte de mim que se importa com tudo e todos que passaram. O padre Birkin pede desculpa por contar o que vai contar, mas tem de contar porque viu com os seus olhos. Tem toda a lógica, claro, a frio. Vejo os homens nus por castigo a correr na neve, são poucos mais do que conjuntos de ossos, e o padre Birkin diz. Os mais desesperados iam aos restos de cadáveres que ficavam nos fornos para matar a fome. Em algum ponto da vida choraremos outra vez. Porque somos Homens. #Buchenwald #pgm


  O Guilherme enfrentando os seus irmãos

 
 Entre milhares e milhares de objectos, ao fixar um, apenas um, sente-se a presença de alguém num instante comum e, por momentos, em pleno campo de concentração de Auschwitz, fazemos uma pausa e aliviamo-nos de buscas infinitas dentro de nós próprios. Mesmo que seja ilusão, corpo e alma precisam disto.

 Durante muito tempo esta foto foi apenas uma espécie de sala onde eu me isolava a pensar até onde nós, homens e mulheres, podemos ir. Ou o que conseguimos suportar. Este verão estive com os pés em lugares inenarráveis que precisava de visitar antes de eu próprio sucumbir. Muitos lugares. Este foi o único lugar onde me correram pela cara lágrimas que eram pesadas e secas e duras como pedra e ao mesmo tempo afiadas como punhais. Não chamo a isso chorar. Não sei o que lhe chamo, mas não é chorar. Não quebramos nem soluçamos. Ficamos até mais fortes e disponíveis para o combate. Mas o meu testemunho é que estar aqui, só estar aqui, foi avassalador, mais até do que em qualquer recanto de Auschwitz, onde a solenidade dos lugares já se confunde com a ansiedade das massas que vão espreitar o lugar onde batemos todos no fundo. E eu senti que o meu torso passou a ter mais peso do que o meu corpo inteiro antes sequer de saber ou ler onde estava. Não foi pelo pensamento, pois, mas pelo sofrimento que ainda exala do chão, daquelas ervas que aqui vemos em segundo plano, porque o lugar era este mesmo. A foto na foto foi tirada no dia de libertação de Buchenwald. Este era o barracão da quarentena, mas no fim foi apenas o lugar dos restos, onde não havia latrinas nem espaço para dormir - sequer morrer - em paz. Não distinto este do peso que os lugares onde os nossos compatriotas têm morrido queimados passarão a ter. Há muito tempo que não distinto tipos de amor nem tipos de horror. Porque sei que o que nos eleva ou nos enterra é igual em todos. Em todos os indivíduos. Em todos os lugares. Em todos os tempos. Sei.
#Buchenwald
#pgm


2018-12-17

10 pessoas a evitar no meio literário português

 
A questão não é criar polémica do vazio, mas mapear a perfídia - vá, vamos ser simplórios, dizer quem são os maus - para  que os bem intencionados prossigam pela arte sem interferências.

Por outro lado, uma boa polémica nunca fez mal a ninguém e  hoje faltam polemistas com cultura literária e sabedoria. Aflige-me esse medo do novo puritanismo e dos novos puritanos, do politicamente correcto. Dói? Que doa. A literatura não se fez nem faz para meninos, apesar de serem meninos os que se acotovelam em bicos de pés para serem vistos.
Literatura nem sequer é contemporaneidade, o tempo está-se marimbando para os que querem muito: curiosamente, os polemistas tendem a ficar na história. Ora cá estamos.

Mas não vamos dispersar. Serei objectivo quanto aos 10 nomes cuja perfídia e mediocridade (presentes aos saltinhos nos media e alguns com prestígio - vazio, como verão, e que provarei pontual e factualmente) não me oferecem quaisquer dúvidas, depois de quase 9 anos de observação cuidada a partir de dentro.

Passo então à lista, sem mais delongas. As explicações seguem-se à dita.

1.

(continua no Patreon. Ver explicação abaixo)

 (texto completo na plataforma Patreon. A partir de 1 Eur/mês tem acesso a todos os posts. Ao apoiar os criativos, e por muito pouco, está a permitir que os seus músicos, pintores, escritores, radialistas, humoristas favoritos lhe possam dar mais e melhor e não dependam do poder mediático ou fáctico. Espreite o Patreon e o projecto. Vai gostar. Pode clicar abaixo em "Become a Patron" - torne-se um Patrono e orgulhe-se disso)

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PG-M 2018

2018-12-10

Começar do Zero no novo mundo

Aqui por baixo desapareceram 15 anos de blogue e vamos começar do Zero.

http://www.patreon.com/more3

Finalmente chegou o dia.
Dizem  que a cultura  devolve em triplo tudo o que nela é investido. Há  cerca de 20 anos que percorro as escolas.Tive de recusar algumas cujo custo de deslocação não podia suportar e isso ainda hoje me dói. O meu blogue faz 15 anos e lancei milhares de crónicas. Alguns de vocês gostaram. Há miúdos brilhantes e empenhados que me pedem ajuda, às vezes apenas tempo, e eu não posso porque tenho o meu tempo ocupado com uma profissão,  advogado, que nem sempre sinto como útil ou social. Aliás, ao
contrário da cultura, sinto muitas vezes que estou a perder tempo e a gastar recursos para nada ou até para as contas do Estado ficarem no negativo e não pagarem às pessoas (advogados oficiosos, magistrados, funcionários) o que é devido e no tempo que é devido. Quero reduzir o meu advogar ao que é útil social, cultural e desportivamente. E ainda tenho oslivros que vou lançando e as crónicas que suspendi para repensar tudo. Há investigações dispendiosas, como a que faço há 20 anos em Paris para o livro do meu bisavô escultor. Sou mau a fazer fortunas, mas gosto de pessoas. Há 3 meses saí das redes sociais para me olhar de fora, e percebi que não preciso de alimentar o ego ou sequer de ter uma plateia. Já pessoas que se querem contaminar umas às outras culturalmente, isso quero. Comoquero continuar a ter comigo aqueles que acreditam no mesmo e desafiá-los a serem patronos - porque isto acabará por inspirar outros. Das 5.000 pessoas
que me seguem entre facebook, Instagram e blogue, o objectivo é chegar aos 500 patronos até ao final de 2019 e aí lançar o projecto More 3, que apoiará a excelência dos jovens e a cruzará com a excelência social dos carenciados. Até lá, é para amealhar. Os Patronos podem cancelar, aumentar, diminuir a sua contribuição a qualquer momento e podem interagir dentro da comunidade, o que será muito bem-vindo (sugestões, pedidos, etc). Conto dar aos patronos muito mais do que até aqui. Além da crónica, fotos e da revisitação histórica dos melhores momentos, conto dar sugestões gastronómicas e de viagens e alguns vídeos e áudios,  alguns directos de eventos e grandes competições, live chat e coments, coisa que nunca ou raramente dei. Senti falta de muitos de vocês, mesmo os mais caladinhos, e a minha ideia é ter essa comunidade mais estreita comigo, por um euro que seja. Quero agradecer ao Unas a inspiração do projecto dele, o MalucoBeleza, e espero-vos, ainda hoje, no barco. Ou então reflictam e pensem que o vosso Euro pode gerar coisas boas. E se multiplica por 3. More 3. Por isso, querendo e acreditando, partilhem, pf. Obrigado!! 

Por favor, espreitem em

Pedro Guilherme-Moreira
10 de Dezembro de 2018

2018-10-03

Fernando Rocha e o princípio e o fim do mundo (exclusivo patronos)


Jim Carrey, Fernando Rocha, Lobo Antunes, Rodrigo Amarante, Eduardo Lourenço, George Steiner, Shakespeare, Cervantes, Saramago, Robin Williams, vida e morte, panteão, palhaços, gritaria em rede social, depressão, suicídio, grande e pequena arte, existência ou inexistência da literatura, limites do humor, Irene, milagre seria não ver no amor essa flor perene.
Tenho o privilégio de ser chamado a escolas e a comunidades de leitores para justificar o meu direito a abrir a boca na contemporaneidade, onde só uma ficção benevolente pode atribuir-nos mérito e demérito artístico. Na verdade, nenhum artista - está visto que eu vejo os escritores como artistas - ou julgador de artistas pode realmente saber se é importante ou não. Nem para o seu tempo, nem para o fim ou princípio dos tempos. Todos, claro, aspiram a isso.

 Não o Rocha.
O Rocha trabalha, é um homem bom que até estima e promove quem não o estima a ele, é um dos pioneiros da moda do stand up muito antes de ser moda e arrasa plateias desde o tempo em que os

(continua no Patreon. Ver explicação abaixo) 

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2017-12-09

A (eterna) professora e o (eterno) aluno

Porque me honra profundamente, vindo da cátedra como veio, e porque me comove, por momentos e razões que não quero aqui escalpelizar, porque já passou a quinzena deste JL nas bancas (esta semana está a Ana Margarida de Carvalho na capa), publico hoje a recensão completa da Professora Agripina Vieira ao Saramaguíada. Obrigado aos que entendem que este ofício exige o máximo esforço e o máximo respeito. Como se pode ler na epígrafe de Maria Victoria Atencia no início do livro, "Porque duele, el alma duele (...). (clicando na foto, conseguem ler - ou então em texto,a seguir)

"NAS MARGENS DO TEXTO, Jornal de Letras, Novembro de 2017
Agripina Carriço Vieira - “Como uma claraboia para dentro do mundo”


            Se fosse possível, numa palavra, caracterizar o último romance de Pedro Guilherme-Moreira a escolhida seria o adjectivo avassalador. O seu Saramaguíada, publicado no passado mês de Setembro pela Poética Edições, faz parte daquele grupo (pequeno) de textos de que falava Proust. Dizia o autor francês que, de quando em vez, surge um escritor original que alicerça o seu texto numa rede de relações significantes novas e inovadoras que interpela os leitores. A leitura destes textos não se compadece com imediatismos e linearidades, e se esse facto pode desanimar é apenas porque sentimos “que le nouvel écrivain est plus agile que nous”.

A afirmação proferida em meados do século passado aplica-se na perfeição ao novo romance de Pedro Guilherme-Moreira. Saramaguíada é uma preciosidade para os amantes da literatura, que nos desafia a entrar num universo mágico, situado fora de um tempo cronológico, fora de um espaço geográfico, todo ele feito de palavras e pensamentos em diálogo, dando amplo e total sentido às reflexões de Pilar que “sabe que cada palavra é como um lago profundo que contém todo o mistério, todo o encanto e toda a explicação das coisas, mesmos das inexplicáveis” (p. 43).

O título antecipa a centralidade temática da efabulação, enunciando desde logo uma clara e inequívoca referência a um dos nomes maiores da literatura universal, ao único escritor nacional galardoado com o Nobel, José Saramago, indiciando igualmente que outros o acompanham nessa jornada. A magnífica ilustração da capa, da autoria de Vasco Gargalo, confirma-nos a interpretação, ao representar uma imensa estrada povoada por personalidades maiores do mundo da cultura e da literatura que começa em Saramago e termina na angolana Alda Lara, tendo como ponto de destino final Paris, metonimicamente representada pela Tour Eiffel. No entanto, e como adverte o autor num curioso texto intitulado Ordem das coisas que antecede o corpo do texto, neste livro celebra-se “a literatura e as ideias, que são das pessoas, mas não as pessoas em si” (p. 15). Estamos, pois, no mundo do pensamento, “ali todos eram ideias, sonhos ou pensamentos materializados” (p. 65), por isso o herói da narrativa é Esse, a materialização do pensamento de Saramago. É um universo sem fronteiras de tempo ou de lugar, onde as criaturas (ficcionais) dialogam com os seus criadores, onde Esse e O’Neil viajam para Lisboa numa barca conduzido por Confúcio, onde Eça e Esse, em Tormes, acompanhados por Charles Robert Anon (heterónimo infantil de Fernando Pessoa e representado figurativamente por um desenho que reproduz uma fotografia do poeta aos dez anos) discutem o papel social da literatura. Desta breve apresentação, surge como evidência que qualquer apaixonado pelos livros e pela literatura se sente, diante deste romance, como uma criança numa loja de brinquedos, levado num turbilhão de sensações feitas da alegria da descoberta e do entusiasmo da indagação.

Vários elementos concorrem para a originalidade do romance, que nasce antes de mais da incorporação e discussão de obras da literatura universal, pertença de todos nós, que aqui ganham novos significados, abrindo-se a novas perspectivas. No entanto, o exercício de reescrita empreendido não é apenas e só uma apropriação de textos da plêiade de escritores, pensadores, filósofos, poetas, dos mais variados países e de vários tempos, convocada pela efabulação. Com efeito, o leitor é surpreendido pela afirmação da paternidade dos excertos textuais citados (Dom Quixote, de quem Esse recebe uma missão secreta, refere-se ao seu criador como “o pai Cervantes” p. 68), que surgem em discurso directo, pela voz dos seus autores que assumem, por essa via, a condição de personagens ficcionais. Por outro lado, constitui ainda marca de originalidade a série de elementos paratextuais que ladeiam o corpo do texto, com particular destaque para a “Tábua de Personagens e Lugares”, em que ao traço da palavra escrita, desafiante e penteada por um humor fino e desconcertante se alia o traço elegante e bem-humorado das ilustrações de Vasco Gargalo.

Na viagem por esta saramaguíada, viagem repleta de desafios e estranhezas, somos conduzidos por uma curiosa personagem que assume a condução da narração, mas igualmente a construção da efabulação. Vai inscrevendo no entrecho comentários, explicitações de opções diegéticas, interpelações aos leitores, convocando-os, desse modo, para um surpreendente e desconcertante jogo de interpretação e reconfiguração em busca da intencionalidade dos textos, procurando desvendar aquilo que Ricoeur designou como a “transcendência na imanência, que se alicerça na construção de redes de afinadas textuais, não só com os autores que explicitamente são convocados por Pedro Guilherme-Moreira, mas também com todos aqueles que o leitor vai encontrando nos trilhos significantes de que o texto é feito. A leitura de um livro é por excelência um acto individual, um constructo, para o qual cada leitor leva as memórias de outros textos que com este põe em diálogo. Constituindo-se com espaço de cruzamento de escritas e de leituras anteriores, o texto oferece aos seus leitores uma multiplicidade de relações e significações das quais destacaria duas em particular: Utopia de Thomas More e Huis Clos de Jean Paul Sartre (ficam em aberto a concretização desses diálogos e o prazer da descoberta).

            As grandes obras, aquelas que perdurarão na mente dos leitores, são as que incomodam, porque abalam certezas, desarrumam pensamentos, desconstroem convenções. Tudo isto sucede com a leitura de Saramaguíada de Pedro Guilherme-Moreira, um livro surpreendente e belo, “como uma claraboia para dentro do mundo”.


PG-M 2017
foto de uma recensão da Professora Universitária Agripina Vieira no Jornal de Letras de Novembro de 2017

2017-11-13

Jim Carrey e o princípio e o fim do mundo

Jim Carrey, Lobo Antunes, Rodrigo Amarante, Eduardo Lourenço, George Steiner, Shakespeare, Cervantes, Saramago, Robin Williams, vida e morte, panteão, palhaços, gritaria em rede social, depressão, suicídio, grande e pequena arte, existência ou inexistência da literatura, Irene, milagre seria não ver no amor essa flor perene.
Tenho o privilégio de ser chamado a escolas e a comunidades de leitores para justificar o meu direito a abrir a boca na contemporaneidade, onde só uma ficção benevolente pode atribuir-nos mérito e demérito artístico. Na verdade, nenhum artista - está visto que eu vejo os escritores como artistas - ou julgador de artistas pode realmente saber se é importante ou não. Nem para o seu tempo, nem para o fim ou princípio dos tempos. Todos, claro, aspiram a isso.
Um das coisas notáveis que Jim Carrey disse ao programa 60 Minutes foi: "Eu quero ser o melhor actor que alguma vez existiu, mas não tenho de ser."
Porque é que eu sigo Jim Carrey, apesar de o resumo contemporâneo deste génio ser o estigma americano dos processos interpostos pela família e pelo último marido da namorada de Jim que suicidou? Forneceu-lhe drogas que a levaram ao suicídio e transmitiu-lhe três doenças venéreas? É isto que agora o define para o mundo frívolo.

Porque o Jim Carrey disse uma vez, e tem-no repetido pelos tempos, "descobri que a minha missão no mundo era inspirar os outros, ajudá-los a descobrir o melhor de si mesmos".
Para mim, o ano sempre começou em Setembro, e cada Setembro repenso a minha relevância no mundo, e a dúvida anda entre regressar à caverna ou exibir-me com as vestes sociais que me podem tornar suportável.

Até aqui, o meu único foco de intervenção pública foi provar que são os outros, não eu, que importam. Que o escritor não existe por si, mas pelo leitor. Que, mesmo que não seja lido, todo o livro é um compromisso entre os algoritmos indecifráveis da arte literária antes de serem sintetizados e passados ao papel e o que fica disso para poder ser lido. Um livro não tem de ser fácil, mas tem de ter em si, pelo menos, a possibilidade de ser lido. A comoção de ter pela frente pessoas que, com mais ou menos vontade, estão ali para me escutar, é sempre enorme. Sinto uma reverência que, se não for domada e convertida, pode até ser inibitória. Em momento algum me sinto importante. Gosto até de brincar com a aparência de importância que os escritores precisam de ter para se distinguir da massa informe ou disforme dada ao prelo pelas empresas de venda de sonhos ou projectos dos que sonham ser escritores. Todas as artes, hoje, são susceptíveis de serem imitadas e de terem edições que o público não consegue, imediatamente, distinguir se é autêntico ou fruto do ego de pseudo-artistas que pagaram para ser vistos, não para ver. Pseudo-artistas que nunca ficam à escuta, única forma de apanhar a matéria suprema da arte algures no universo e, podendo ou sabendo, dar-lhe uma forma, boa ou má, de bom ou mau gosto, desta ou daquela corrente, feia ou bonita, não importa. Importa apenas que seja genuína criação, ainda que falhada.

Também aprendi com o Jim Carrey que devemos falhar bem e controladamente. Que o momento incompreensível em que eu decido cantar o Lilac Wine na apresentação de um livro e as lágrimas na garganta me darem cabo da pouca voz que ainda estava disponível não foi um fracasso total. Afinal, eu estava a chorar por dentro por uma leitora tetraplégica cujo exemplo sempre me emocionou. Se eu fosse perfeito em tudo, nunca conseguiria criar empatia com os leitores, só fãs loucos e irracionais.

O desfile de nomes ao princípio é só um exemplo dos que tenho ouvido de forma crua e acrítica, primeiro, para poder formar uma opinião ou me tornar melhor artista. Não pessoa, artista.

Esta moda no "#notme" não me comove. Sabem porquê? Porque eu sempre estive na primeira linha de protecção dos fracos ou enfraquecidos temporariamente, por condição social, religião, idade ou género. Aliás, cometo reiteradamente o erro de me aproximar dos fracos e de lhes dar protecção, mesmo sem que isso me seja pedido. Conheço bem a linha fina entre assédio e sedução. Não existe, na condição humana, um único movimento de sedução de qualidade que não pise linhas. Escrevi várias vezes sobre isso. Testei limites em ambas as profissões que tenho exercido, advogado e escritor. Percebi a hipocrisia e o poder do sexo. O poder destrutivo do egocentrismo e do egoísmo, mas também de quem o usa para prejudicar ou mesmo destruir terceiros em situações de fronteira. Hoje em dia é muito fácil e hipócrita confundir saúde com doença, no que ao sexo diz respeito. Mas, na verdade, uma pessoa de princípios nunca cede e, se acaso comete um erro, sabe imediatamente reconhecê-lo. Há puritanismos (muito) mais perigosos do que libertinagens.

Chegados aqui, nunca retirarão a Cervantes o ceptro de autor da maior obra de todos os tempos (por subjectivo que seja, já houve várias eleições nesse sentido de pares com autoridade), mesmo que ele fosse o maior criminoso de todos os tempos. Aliás, o que o tempo faz aos maiores criminosos de todos os tempos é dar-lhes um sentido e um significado histórico que serve aos vindouros para se protegerem. E como nunca retirarão o ceptro a Cervantes, também não retirarão os prémios e o brilhantismo ao Kevin Spacey nem o génio ao Salinger, apesar do pobre comportamento perante a Joyce Maynard.

Da mesma forma, transcende a minha opinião ou sentimento pessoal o jantar do Panteão. A única coisa que isso me serviu foi para perceber que prefiro uma boa dúzia de génios que jantou no Panteão há dias e que tocará este mundo realmente para a frente do que os medíocres dos políticos que responderam presente à gritaria das redes sociais. E vocês, com quem é que contam para o futuro? Com o Paddy Cosgrave ou com o António Costa, que até já lá tinha feito as suas jantas?

Jim Carrey é - por razão nenhuma quanto a ele próprio - a partir desta semana, não apenas mais um ídolo ou mais um génio que cultivo, até porque, como ele explicou na célebre entrevista em que descompõe uma repórter de passadeira vermelha na Fashion Week (repórter a quem ganhei respeito, porque se aguenta brilhantemente perante um destruidor - mas sempre genial - Jim Carrey), mais vale cultivar personalidades e conteúdos do que ícones, mas o maior génio das artes que exerce.

Vi horas a fio de performances, entrevistas, bem mais do que filmes (porque ele é bem mais genial quando é ele próprio), e regresso sempre ao Commencement Speech que vos deixo no final deste.

Se, entretando, a ligação do vídeo expirar, voltem por favor a procura-lo no youtube e, como tudo o que é muito importante, vejam-no com vagar.

No final, parecer-vos-á claro o mistério do princípio e do fim do mundo.

E restar-vos-á toda a coragem para  o que fica entre os dois.

Tenham uma boa vida.

PG-M 2017
origem da foto

2017-03-26

Sónia Braga é nossa

Declaração de amor e de interesses: escrevo sobre a Sónia Braga que foi doada a Portugal pelo foral da Gabriela. Escrevo, pois, em interesse próprio. Ainda que Sónia Braga seja respeitada dos dois lados do Atlântico, só em Portugal é venerada. Se forem pelas ruas de qualquer cidade ou aldeia portuguesa e baterem às portas das casas perguntando aos homens se deixariam tudo para beijar chão que ela pisasse, não há um único português que diga que não, a não ser que ainda seja tuga. Sim, porque o português deixou ser tuga, esse diminutivo inventado no Brasil e usado, ao longo dos tempos, e simultaneamente, com as propriedades do amor e do carinho, mas também da sobranceria e da ignorância, pois, entre outras razões, o português deixou de ser tuga quando a Gabriela nos entrou nas casas. A Gabriela garantiu-nos, finalmente, a liberdade conquistada em Abril e reforçada e temperada em Novembro. Só nesse dia o português ficou livre, deixou de ver apenas rectas e ângulos rectos e passou a ver morenas açucaradas. Era uma segunda-feira, 16 de Maio de 1977, três escassos dias depois do 13 de Maio, em Fátima, três escassos anos depois da revolução. E, apesar da curva e do corpo da morena, do cheiro tropical das imagens e da pouca roupa da Gabriela, foram os avôs e avós de Portugal os primeiros a levantar a mão para que se fizesse silêncio e nada fosse perdido, passando pelos deputados que não deliberavam ou votavam durante a novela, até ao épico último episódio, numa quarta-feira, 16 de Novembro de 1977, que deixou Portugal de ressaca. O Brasil tinha uma história antes de Gabriela. O Portugal moderno não. Daí que Sónia Braga seja nossa e não se fale mais no assunto. 
Vem isto a propósito da Sónia Braga a beirar os 70 anos que protagoniza o pujante filme Aquarius, de 2016,  e que é um justa consagração. Quando ela amarra o cabelo e deixa ver a parte de trás do pescoço, é ainda a menina de há quarenta anos. Aliás, ela é a menina de há quarenta anos em tudo, não só na parte de trás do pescoço, e não se fala mais nisso. A forma como se move, a forma como nos olha naquele olhar castanho-nogal que o sol do Recife inflama. Não há um único pormenor em Sónia Braga que denote que o tempo passou, e seria pérfido quem viesse lembrar algum detalhe irrelevante. Quando ela pega nos mesmo vinis - dos Queen, do Roberto Carlos, do John Lenon, do Gilberto Gil - que nós cutivámos, sabemos que este é o culto perfeito e definitivo. Por mim, deixo a passageira afirmação de que aqui está a eternidade dela, isso e o remate de um mito, que Portugal bem merecia - finalmente houve um realizador à altura para nos dar isto, que devia ser obrigatório para a nossa geração e para a anterior, a passageira afirmação de que "Aquarius" é um grandíssimo e imprescindível filme que nos vinga a alma no tempo do passado recente e no presente, glorificando Sónia Braga pela eternidade como a cena de abertura do filme da Gabriela, com que encerro este, e depois da qual nos poderíamos encomendar ao criador. E a menos passageira afirmação de que a nudez da Gabriela não é menor do que a de Clara, à porta dos setenta, e nós desejamos sem culpa a mulher que nos fez homens da mesma forma que há quarenta anos, e todos nós beijaríamos hoje e para todo o sempre o chão que Sónia Braga pisa. Amém.

PG-M 2017

2015-02-25

O doloroso sorriso de Matilde

Como era doloroso o sorriso de Matilde. Estávamos no auditório do Colégio da Bonança, em Gaia, e eu explicava ao Bruno a sobre-humanidade do amor. Havia um sorriso a pontuar as minhas intervenções que se sobrepunha a tudo o resto - um sorriso que abria o riso em momentos diferentes das aberturas do resto da sala. Depois falei ao Bruno do amor paternal e da forma como magoa, como transcende as forças e é assombrado pelo medo da perda. Como é doloroso o sorriso de Matilde. Há nela uma transparência, uma luz, um peso específico que é peso nenhum. Leveza. Fomos ainda às paixões, ao banal como segredo de uma certa felicidade, aos romances, à minha actividade de arrumador de carros na Praça dos Poveiros. Como era doloroso o sorriso de Matilde. E tudo começara na implicação da assistência. O João espirrou e as amigas riram-se. Pedi-lhe para descer da plateia até à mesa. Sentou-se ao meu lado. Ele garante que não, mas sempre achei que o espirro do João era ficção. O João tem olhos claros e francos e veio a jogo. Leu o primeiro parágrafo da intervenção, que já anunciava mais ficções, as supergémeas Patrícia e Catarina e o Pedro, filho de uma Estrela. E Matilde rutilante, sobre tudo, sobre todos.
Eu tinha planeado uma conspiração.
Os alunos todos no centro, como heróis da história, eu na plateia. Eles seriam contos, eu leitor. Queria ter inventado, mas não inventei, duas colegas para eles. Tinham de ser gémeas. Punha-as em turmas diferentes.
Ou então inventava um Pedro como eu,
mas filho de uma Estrela. Impossível. As gémeas, por exemplo, seriam as novas supermulheres, uma conduzida pelo olhar, outra pelo sorriso. Uma seria uma espécie de sancho pança da tia Agatha Christie. Teria o nome de Katniss Marques. E salvaria um tal de Roger Ackroyd. A outra seria uma feiticeira em cidades de papel. Ambas augustas, como o seu herói.
E mais uma coisita: a ajudante de uma delas tinha de se chamar irmã Lurdinhas.
A outra inventaria para si um clube azul e branco para reinar sobre o mundo.
Por fim, o Pedro teria uma Estrela de carne e osso.
Mas eles não existem.
Elas e ele tinham todos de existir para eu escrever a partir dos respectivos corpos. 

Como era doloroso, doloroso, doloroso, o sorriso de Matilde.

A professora Luísa estava de castigo. Não cumprira as regras militares mínimas para que a conspiração funcionasse. No Colégio dos Carvalhos, havia um professor que nos punha de joelhos no estrado, de costas para a turma, com as mãos debaixo dos joelhos. Dispensámos a professora das mãos e dos joelhos. Sentou-se entre os alunos, debateu comigo a gramática estruturalista, o complemento oblíquo. Como eu desejo a perversão deste ensino e a inversão desta pirâmide. Comecemos pelos livros, só os livros, os bons livros, contaminemos estes nossos parceiros de mundo com os melhores livros.

Como era doloroso, Matilde, o teu sorriso - pelas mais belas razões, como te vou explicar.

A Mariana apresentou-me e contou-me. Contou-me bem. Não por dentro, como Abigail, mas fez-me a casa de escrita pelos anos todos. Deixou que eu contasse o meu Torga. E os meus filhos. A Mariana tinha uma responsabidade. Mas quando for por ti, Mariana, só por ti, como vai ser a tua literatura, a tal que entra pelas veias e sai pelas teclas? Fala-me disso. Não demores, não demores, porque eu estou quase a explicar as boas dores.

Depois os Ruis, o filho do João Paulo (desculpa não te tratar pelo nome, mas há um arrepio do tempo inexorável quando, em vez do teu amigo, encontras o filho com a idade que te lembras de ter quando o pai fumava contigo nos intervalos), e um rapaz de que não me lembro o nome, tinha óculos e estava presente no fim. Dinis, és tu? Não  me lembro do nome, mas não me esqueço dele. Também não me lembro do nome das professoras de História, Filosofia e Economia, mas não me esqueço delas. Vou descrevê-las: uma tinha cabelo bordô, outra azul marinho, outra laranja - creio que ainda fui apresentado a uma azul celeste, à saída. Devia haver índigos e vermelhas, verdes e e lilases, pelos corredores, não sei, não sei. Todos, mesmo sem nome, têm uma refracção de luz própria e estão aqui.

Mas devo a explicação à Matilde.

Tinha-me esquecido apenas do Daniel Defoe, o do Robinson Crusoe, que escreveu a mais estranha teoria económica, mas, pensando alto, já estávamos no fim e no fim das escolas fico sempre em carne viva. Talvez não sobrevivesse todos os dias perante esta nitidez. O coração explode. Sai-se fragilizado dos circuitos essenciais da condição humana: todas as escolas têm esta substância. E, quando ela nos transcende, é duro.

Tão duro como o sorriso de Matilde.

No fim, a Inês passou ao largo sem assinaturas, sem palavras, só a empatia vista do lado dela, a representar todas as empatias que se perdem como velas a apagar, primeiro no espaço, depois no tempo, e o combate de saber delas, empatias, simpatias, e as recuperar a todo o custo, porque a carência urbana é sempre de afecto, não de alimento, ou de afecto como alimento.

As supergémeas estavam como se já me conhecessem há muito - há um novo elemento na família. É bom que falte o ar no fim das sessões das escolas, que nos sintamos todos no corpo uns dos outros. Como a Matilde, que me comoveu as horas todas. Há uma altura em que pergunto ao João, o meu assistente, como era possivel aquele sorriso, aquele riso, aquele espanto. No fim, a Matilde responde com um abraço, encaixa-se no meu torso e deixa-se ficar.

Doce, nívea, límpida, diáfana.

Podia ter ficado a tarde inteira.
Ali, debaixo de mim, dos meus dois metros por dois, o abraço de Matilde sente-se e não se sente, porque não há uma clivagem física, uma estranheza, é como se ela já fizesse parte de nós, é uma espécie de fé.

O sorriso de Matilde dói como o sorriso de um filho para um pai na cidade dos homens:

o amor é sobre-urbano
o amor é sobre-humano

O sorriso de Matilde dói porque não tem fim - e nós temos.
O sorriso de Matilde dói por causa da nossa imperfeição.
O sorriso de Matilde, que lhe encontra o rosto todo, que lhe luciluz nos olhos até deflagrar no mundo,

é perfeito. 


PG-M 2015
foto da Matilde com publicação devidamente autorizada



2015-02-04

Já são nove da noite


já são nove da noite
a orquestra nunca tocou no botequim
a cientista fuma um cigarro
entre contagens
olha o relógio

no pulso nu deste
século

está frio no tronco proibido
do jardim
ele dentro da boca
dele

lama nas pautas da
serenata

perderam o último autocarro
nos fumos da treva
e os cafés vazios
cheios dos tristes
da madrugada

o restaurante quente e alaranjado
o portão automático a abrir
o comando na mão

o vulto fluorescente da cozinha
ele vai beijá-la uma só vez
hoje

o abraço fica até
se encher de
filhos

ou nada

estão a chorar
o cemitério já fechou
e as campas quietas
tenho tantas saudades
diz a velha já deitada
tantas saudades

as auto-estradas vão ficando
foscas
as casas claras
as pontes menores
os montes maiores
os mares iguais
aos céus

a sala de cinema enche
e há vidas que sim
e há vidas que não

que já passa
das nove
da noite



PG-M 2015
fonte da foto

2014-05-01

Discurso brasileiro


Nota:
ainda antes de publicar uma crónica sobre a semana no Brasil, que termina a 3 de Maio, partilho convosco o discurso de ontem na grande e comovente noite que o grupo de portugueses aqui viveu. Eles e o espanhol Eric Fratini, um gran tío: tenho uma aposta com ele, e até gostava que, para lá dos comentários, cronometrassem ao minuto o tempo que levam a ler o texto, e depois me dissessem, vale? :)

"O Zezé, d”O meu pé de laranja lima” sabia que só podia chegar a poeta se usasse gravata de laço. Portanto, se eu hoje quisesse ser poeta, já não podia, porque esqueci a gravata de laço. Então, mesmo sem gravata de laço, vou tentar ter um comportamento decente, porque eu tenho a certeza de que não pareço um escritor. Hoje estive uma hora ao espelho para poder afirmar isto a vocês com toda a verdade. Há alguma coisa na parte da frente do meu cabelo, pelo menos, que não me deixa parecer escritor, e tenho um pescoço muito alto para gravata de laço. De facto, o meu próprio pé de laranja lima foi o livro do Mauro e o meu tronco era o Zezé, que me fazia companhia nos corredores escuros da escola. Escuros porque a escola não previa que os meninos quisessem ler na hora do recreio e apagava as luzes. E eu não reclamava, porque tinha vergonha de pedir luz, e também porque assim estava mais escondido. E são milhões os que lêem às escuras, por pobreza ou vergonha, ou então por pobreza com vergonha, porque havia eu de ser diferente? Na verdade, eu não era assim tão pobre. Pelo menos o meu pai tinha um carro lindo como o português do livro, o Manuel Valadares, que se chamava Valadares como a terra de onde venho, uma praia perto do Porto, no norte de Portugal, chamada Valadares. Isto anda tudo ligado, já dizia o outro.

Mal cheguei a Poços, pedi para falar com o velho mais sábio, o sábio mais velho, o jovem mais avisado e o avisado mais jovem. Como o tempo era curto, tive de inventar, e fiquei pelos velhos que hoje aqui vos vou contar: peguei no primeiro dentista de Poços e na minha avó de olho azul.

O primeiro é o velho preto Defonso, senhor Ildefonso de Souza, primeiro dentista de Poços de Caldas, nascido escravo e falecido há 82 anos, o que não é nada para uma história como esta. O Senhor Defonso foi carpinteiro e marceneiro até depois dos 40 anos, idade em que iniciou a instrução primária. Conseguiu a alforria, sua e da dona Zeza, a mulher e também escrava, e conseguiu-o pelos próprios meios.
Apenas doze anos depois das primeira letras, já com prática como protético e dentista, e para calar a boca dos críticos, prestou exame na Faculdade de Odontologia de São Paulo. Era o 16 de Abril de 1902. Passou com distinção e tornou-se dentista até à morte, procurado por gente famosa, e diz a História que foi pai de dois dentistas também brilhantes que, chegados aos Estados Unidos para se especializarem, foram mandados embora por saberem mais do que os mestres.

Claro que, se eu já me sentia pequenino quando cheguei, mais pequenino fiquei quando conheci o velho Defonso, porque esta história de vida esmaga qualquer pessoa que não usa gravata de laço, e algumas outras que usam. E foi com o velho preto Defonso que eu ontem passeei pela tarde e pelas praças de Poços.

Ele pediu para folhear os meus livros, eu dei-lhos, ele tomou o seu tempo e depois perguntou-me:
“Mas porque é que nunca desistiu de ser escritor?”
Reparem que pergunta mais bela. Não perguntou porque é que eu sou escritor.
Perguntou como é que eu aguento ser escritor.

Eu respondi que era culpa de um engano do meu pai, claro. Ou das malvadas das lágrimas. Nunca contei esta história em público. Mas agora, que atravessei o oceano e vocês estão aqui de propósito, vou contar.

Eu era pequenino e andava com “O meu pé de laranja lima” na mala da escola. Foi o meu primeiro livro a sério, de tirar o ar. Até aí eu lia “Os cinco famosos” com os olhos fechados só para ver o que ia acontecer, só para dobrar as esquinas. A partir do Mauro eu comecei a ler com os olhos abertos e às vezes molhados. Na verdade eu não choro na vida quando não vale a pena. Mas choro quase em todos os filmes, mesmo os maus, e nos livros bons, já cheguei a chorar quando os olhos azuis da minha avó Glória estavam perdidos do mundo, mas isso eu já explico. Na verdade eu nunca fui pequenino. Nem costumo ir a festivais literários e eu acho que é por ser grande e gordo e não caber nas cadeiras. O primeiro festival literário para que fui convidado em Portugal era de literatura fantástica e eu pensei: claro, é sobre monstros. Já nasci com quase sessenta centímetros e as pessoas a comentarem “olha o grande”. Sei bem que há maiores do que eu, salvo seja, mas a verdade é que toda a minha vida eu ouvi coisas como “não páras de crescer”, “tens tanto de grande como de burro”, “és grande, mas não és grande coisa” e aquela coisa que os malvados fazem com as mãos por causa do tamanho do sexo, que para o pequeno dotado era o indicador mas para mim era sempre polegar.

Portanto, eu nunca fui o pequenino que gostava de ter sido. Andava com O meu pé de laranja lima debaixo do braço quando o meu pai me fez ter a certeza de que eu seria escritor. Eu queria entrar num concurso literário do colégio, mas eles exigiam originais batidos à máquina. Na altura não havia computadores. Eu escrevi um texto lindo-lindo-lindo sobre o amor de um filho pelo pai, comparava o pai a um rio e o filho a uma folha que o rio levava ao mar, tinha doze anos e estava com alguma esperança porque o professor de português tirou o lenço do bolso depois de ler. Outra vez as lágrimas, pai enganado, lágrimas malvadas. Então perguntei ao meu pai se podia levar o texto para a empresa e pedir à secretária para bater à máquina. Ele pediu-me o texto para ler. Eu passei por baixo da porta e fiquei ansioso à espera. Tinha doze anos, lembram? Tinha medo que ele respondesse como o pai da Pamela Travers, a autora da Mary Poppins, quando ela lhe deu o primeiro poema a ler: “Hum, não é propriamente Yeats.” Era um medo injustificado, porque a resposta do meu pai foi apenas "isto está uma merda, não vale a pena passar à máquina". Recebi o texto de volta, por baixo da porta, e fiquei calado. Nos dias seguintes li uma, duas, cem vezes. E terminava sempre feliz depois de ler. Eu era o rio, o meu pai era a foz. No dia em que acabava o prazo da entrega eu já não li “O meu pé de laranja lima” no intervalo do almoço lá no colégio. Coloquei-o ao lado do meu texto sobre um banco de cimento, arranjei uma folha branca e uma régua. Pus-me de joelhos no chão empedrado e escrevi uma carta breve a explicar aos jurados o que tinha acontecido, que não tinha sido possível bater o texto à máquina por pobreza, apesar do carro lindo. Então comecei a copiar o meu texto para a folha branca tentando imitar a letra da máquina de escrever, direitinho, sobre a régua. As minhas lágrimas corriam pela cara enquanto copiava. Outra vez as lágrimas malvadas. Eu nunca quebrei nem tive pena de mim. Mas a alma chorou para fora e eu não pude fazer nada. Foi a primeira vez na minha vida que chorei sem ser por birra de menino, joelho esfolado ou briga de irmãos. Nesse ano eles não fizeram escalões, meninos de dez anos e de dezassete concorriam ao mesmo prémio. O Mauro, o Zezé e o Tio Edmundo ampararam-me desde o pé de laranja lima: “Chora, rapaz, chora que esse choro é justo.” Disseram que não era choro de menino, mas direito fundamental. No final, eu quase tinha perdido a esperança, porque aos doze anos um menino ainda ama o pai. Mas não tinha perdido a honra nem a vontade de lutar. Depois do final, afinal, deram-me o primeiro lugar e eu achei que se tinham enganado. Como eu? Eu só tenho doze. O pé de laranja lima estava lá, na minha mão, quando fui receber o prémio. O presidente do júri pegou no livro e disse “deixa ver isso, hum, meu pé de laranja lima, muito bem, foi por isso que você escreveu.” Foi por isso.

Depois vim vida fora sempre combatendo a descrença do pai, pior, a certeza do nada, que gera indiferença. Esse nada faz-me sempre lembrar o último olhar azul da minha avó Glória e nem deu choro nem literatura, só culpa, e está aqui porque um escritor tem de lembrar. Mesmo um que não parece um escritor por causa do cabelo na parte da frente da cabeça e do pescoço muito alto. Trago comigo a avó do olho azul porque são tantos os brasileiros que deixaram as suas em Portugal, mandaram o Mauro para fazer companhia e se há pais sem crença, nunca isso sucedeu com as avós. Pessoas das nossas vidas que entendam o que é para mim a literatura, e porque é que sempre me sentirei mais pequeno do que o leitor e do que todos os sábios ou velhos, porque toda a pessoa feliz tem estas perdas, toda a felicidade tem aquela tensão, aquela dor abaixo do ombro esquerdo, um pouco acima do coração, toda a perfeição tem um pequeno buraco por onde espreitam os imperfeitos como nós.

E enquanto eu falo, aqui em cima, a Avó do olho azul está aí em baixo, sentada mesmo ao lado do velho preto Defonso, que lhe conta que em Poços tem um Rio das Antas, e ela
“Ai sim? E nós tínhamos um Estádio das Antas no Porto, que era a casa do nosso grande, infinito (digo eu!) Futebol Clube do Porto!”
e o Defonso explica, “ali o seu neto me conheceu através do Luís Nassif, que é primo do Nacibe da Gabriela, sabia?” e a Avó do olho azul brilha, a Gabriela é uma novela que faz parte da ideia fundadora do Portugal moderno, foi o descobrimento de Portugal, mas enquanto o meu avô materno fazia toda a gente calar só com o olhar para ver a Gabriela – chegou a despedir uma empregada doméstica só por deixar cair um talher ao chão durante a novela, mas ela foi logo readmitida na cozinha pela avó – a avó do olho azul era muito mais doce a ver a Gabriela.
Via assim:

(fiz a posição de pé, ela com o braço direito a segurar o cotovelo esquerdo e a mão esquerda a segurar o queixo)

com o olho azul a receber de volta o brilho da Sónia Braga, e se alguém falava para ela, ela só dizia:
“Espera um bocadinho, miguinho, espera um bocadinho.”

A última coisa que publiquei em Portugal, chamada “Livro sem ninguém”, foi com essa culpa no peito e sobre a nossa marca nas coisas, nos objectos, a atenção aos detalhes do espaço. Que nos permitam levantar os olhos para os outros.

E com esta vontade de tocar e porque eu tantas vezes me lembro daquela fila infinita do Saramago, aqui mesmo no Brasil, e ele a pedir desculpa por não poder dedicar o livro, mas só assinar, para que os últimos da fila não esperassem dias para chegar até ele, tive uma ideia que trouxe para Poços, e que vou tentar aplicar mesmo que eu aqui tenha uma fila de duas pessoas:
ou um autógrafo ou um abraço. Eu fico a dever o autógrafo a quem escolher o abraço, e o abraço a quem escolher o autógrafo, o que significa que tenho de me encontrar duas vezes, pelo menos, com cada leitor.
Fico grato a todos, mesmo a todos, mas queria referir aqui quatro que não conheço mas ouvi dizer que vinham. Quatro rapazes e raparigas estudantes de uma pós-graduação em literatura na Universidade Federal de Goiás que conduziriam mais de dez horas desde Goiânia só para me dar um abraço. Para eles tenho uma oferta especial dois-em-um: se eles quiserem, levam abraço e autógrafo.
Olha, mudei de ideias, levam todos!
E vocês, todos vocês, por favor não me esqueçam nunca, que eu também não, tá?
Obrigado."

PG-M, 30 de Abril de 2014, Brasil (FLIPoços)