2015-10-22

os já-mitos, enquanto ainda-vivos


Os já-mitos, enquanto ainda-vivos, hão-de postar-se ao teu lado quase invisíveis, hão-de negar honrarias ou pelo menos combatê-las com olhares humildes e palavras simples, e essa humildade, essa simplicidade, nos já-mitos, enquanto ainda-vivos, será exponenciada pelos teus sorrisos de gratidão e frases de espanto perante a sabedoria dos já-mitos, enquanto ainda-vivos, olha-a-grandeza-dele-como-é-simples. Ao invés, se os já-mitos, enquanto ainda-vivos, te olharem de soslaio ou te ignorarem, te pisarem por seres pequeno ou desimportante, verão a sua grandeza agravada e, aos teus olhos simples e humildes, não mais serão respeitados.

Dos primeiros, hoje, quase nada reza; e oramos nós, à míngua de sábios e de firmamento; já dos segundos, caindo um após o outro, está o inferno cheio.

Valha-lhes ao menos a morte, que inclui sempre o perdão universal, e permite que a alguns seja devolvida a primordial ilusão de grandeza.


PG-M 2015
fonte da foto

2015-10-16

Os anjos da Asprela em verso

Os anjos que eu conheço fumam,
almoçam em tascas, bebem vinho, ouvem música alto e
cheiram, têm sexo, às vezes connosco, e até são maus
em partes desimportantes do dia
Mas quando toca a estarem presentes
porque se te vai a vida - estão
Nos escassos momentos em que vivem as próprias
existências, podem ser copy-paste,
mirrar para dentro de ecrãs e estar desatentos,
dizer iá e tipo, até fumar umas ganzas
e beber umas minis,
mas quando toca a estarem presentes
porque se te vai a vida - não só estão
como transcendem o que lhes pedes
É até comum que, quando se lhes pergunta se viram
uma ou outra coisa ou se sabem isto e aquilo,
possam ser ignorantes como nós, mas tenho para mim
que tal acontece porque nunca estão em si,
mas em ti e nos outros como tu, porque quando
se nos vai a vida não há tempo, ou, se há,
as horas tomam desoras e é preciso
quem ande lá por cima
 
É preciso quem voe

Hoje sabes muito bem. Sabes que são mais importantes
os que te seguram a mão e ouvem - e, verdade seja dita,
se os anjos da asprela fossem, além de bons, cultos,
- ou os que o são - e tu os conhecesses,

morrerias de enlevo,

e não do que eras para ter morrido, e eles,
com o seu sopro, cuidaram que se extinguisse,
como a chama das velas que agora espalhas pela casa
em nome deles. Sabes que eu não gosto
nada disso.

Já bastam anjos que fumam.

PG-M 2012

2015-10-10

Saudemos esta pausa antes de a tempestade se abater sobre nós

Por momentos, breves momentos, tudo se detém, mesmo os actos formadores das tempestades.
É quando o mundo ganha fôlego para deflagrar sobre si mesmo.
A onda do tsunami.
O abalo maior do terramoto.
O desabamento da montanha.
A erupção do vulcão.

O grito da mãe. 


PG-M 2013
fonte da foto

2015-10-05

O vídeo, João de Melo e outros viajantes do olimpo


Ovar, o FLO, o Festival Literário de Ovar, o primeiro, este de 2015, foi um momento singular em que me deixei estar naturalmente entre os grandes, mas quase não quero falar aqui de competências literárias, embora queira falar de memória e de presente. Gostava de falar da doçura e do respeito de senhores como Jaime Rocha, sublime poeta e marido da Hélia Correia, que eu idolatro e faço questão de idolatrar, entre outros, como o Miguel Real e o João de Melo, mas não só. Neste último caso, vi-me, nesse memorável jantar ovarense de escritores, noite alta, a ouvir a lucidez do João de Melo sobre a memória. Eu e ele, num troço da longa mesa e já na fase das migalhas, mas para mim no prato principal. Depois disso, sei que pediu os meus livros e os leu. Tive a honra de ouvir/ ler dele palavras que levarei para a sepultura (talvez até as grave na pedra tumular). Depois houve o dia em que ele me mencionou por escrito e publicamente, e isso para mim não passa. Tive esse dia cheio de comoção e "louvo-me" por ter podido conhecer e ser alvo das palavras do grande João de Melo, que se "louvou", e passo a citar, "por ter descoberto em Pedro Guilherme-Moreira o autor fulgurante de "A Manhã do Mundo" (sobre o quotidiano nova-iorquino dos mortos que nos saudaram no 11 de Setembro de 2001) e de "Livro sem Ninguém"; e esta menção vale quantos prémios vocês quiserem. Não o partilho porque me ache nada de especial. Partilho pela raridade e pela beleza do acto num dos grandes. Este homem, este meu ídolo, foi, por exemplo, o editor de Memória de Elefante e de Os cus de Judas, de um tal de Lobo Antunes, e também do Mário de Carvalho, entre outros. O que me comove é ter passado no crivo de quem já viu muito. E é tão bom que tenha voltado e continue a ver. (junto um printscreen parcial, porque a partilha não ficava visível para todos). Abaixo podem também ver o vídeo que substitui a minha intervenção principal em Ovar e que nos deixou a todos plenos, porque todos, quase todos, acreditam que a literatura (também) é isto:
PG-M 2015

2015-10-03

poema de uma só linha sobre um dos aspectos do silêncio



hoje é dia de dar as palavras às vezes em que as perdi


veio daqui: "escrevo muito pouco olhando o passado ou a experiência. Escrevo muito projectando-me no que leio nos olhos ou na postura dos outros. E às vezes manipulo o meu próprio sentimento: hoje é dia dar as palavras às vezes em que as perdi"
(música de Arvo Pärt - Spiegel im spiegel;
 letra de mim)

 

 PG-M 2013