2026-10-06

Por um Quixote para a eternidade

Estou  a começar a escrever estas palavras a ouvir "You'll never walk alone",  na versão dos Gerry & The Pacemakers, que foi a canção que se pegou à  pele da claque do Liverpool e que acabou por se tornar hino. Apesar da  forma como a imprensa espanhola tratou o Barcelona - derrotado por 4-0  em Anfiled Road- , o que se viu naquele final de jogo foi bem mais  importante para o desporto e para o mundo do que mais uma derrota de  Messi. Eu, como português e portista, é que me apropriei daquela glória  por cinco minutos, numa lógica de "lá roubaram-nos 2 penáltis e cá demos  uma lição de futebol sublime nos primeiros 30 minutos como ninguém  nunca a esta incrível equipa do Liverpool", mas fomos perder 4-1,  vergados à evidência da beleza daquele futebol que é superior: o FCP já  teve equipas superiores a todo o mundo, como o Benfica e outros, e haja  coração de, ganhando ou perdendo, cantarmos sempre o "You'll never walk  alone" como aquele e muitos outros estádios. E logo a seguir veio o  Tottenham fazer outro milagre perante os miúdos brilhantes do Ajax. E eu  podia fazer aqui uma colagem de milhares de momentos destes que  acontecem na vida, dentro ou fora do desporto:
Aqueles em que a  superação é tal que pensamos logo que aquela personagem que  um tal de  Cervantes sonhou e concretizou para ele e para nós, o cavaleiro da  triste figura, mais conhecido por Dom Quixote, nos salva todos os dias.
E salva.
O que faria eu sem o Dom Quixote?
Pois venho falar-vos do cumprimento de um sonho:
calcar  os passos e o pó do criador e da criatura e da minha própria alma e  fazer o percurso do Quixote e do Cervantes na Espanha onde nasceram.  Quem se aproximou deste lugar que é o Quixote, desta forma de ser e  viver, sabe que há poucas certezas sobre a extraordinária vida de criador e criado - e isso tem como consequência que todos os lugares se  reclamem como lugares do Quixote.
Se eu condeno isto? Não. Não só não  condeno como acho maravilhoso esta alienação pela literatura. Este  arrebatamento geográfico que tem trazido tanta gente e alimentado tantas  aldeias e vecinos por um ideal de ideal, que é a definição do Quixote.
E portanto útlil a todos e aos dias de todos, sejam de luzes, sombras ou ambos.
Foi  importante percorrer toda a Mancha, até porque eu já conhecia a Castela  mais nortenha, que amo como se parte dela fosse minha, e é: nós,  portugueses, como parte do complexo fraticida, temos a mania de que Espanha não se cheira, mas, na verdade, Castela faz mais parte da  nossa identidade do que qualquer outro lugar do mundo fora de Portugal.  Castela como centro, Castela como reino. Deixemos a Extremadura para os  raianos, que a Andaluzia vi eu que não é o Alentejo e a Galiza e o espírito celta nem sequer se distinguem de mim e do meu Norte.
Do que  está ao alcance do braço, Castela é irmã. Lá em cima, quando se conjuga  com León e as Astúrias, é como se fosse o mar interior, o olhar espraiado das nossas  serras e das searas deles. Cá em baixo, quando se conjuga com a Mancha,  são os nossos sonhos todos misturados com pó, silêncio e Quixote.
Os  moinhos de Campo de Criptana impressionam porque não estão lá longe,  não são remotos: são a própria vila. Quixote não estava iludido. São  mesmo gigantes. É preciso estar atento, porque de vez em quando temos de  os combater, embora passem séculos adormecidos, quase como músculo da  alma ibérica.
Mas  o que mais me impressionou e o lugar onde eu econtrei a parte de mim  que achava perdida na adolescência foi Argamassilla de Alba, o lugar onde Cervantes foi  preso por cobrar impostos ilegais, dentro do qual está a cova onde começou a escrever o Quixote. Reparem, nesse dia estava tudo fechado,  excepto praças e ruas, mas sentia-se no ar o peso da expectativa de  centenas de anos de delírios quixotescos, de homens e mulheres em busca  da sua própria essência, até porque, não podemos esquecer, o Quixote e o  seu criador foram famosos no seu próprio tempo. Famosos e polémicos.
 E é  mais ou menos consensual que o Quixote pode muito bem ser o melhor  romance alguma vez escrito: é imenso e belo e desequilibrado e  imperfeito e simbólico e paradigmático e modelar e tem cumes e vales e  colinas e alçapões para onde e de onde escapar. E eu encostei-me à porta  e aos muros do lugar da cova e da prisão e da primeira pena a clamar o  Quixote, hoje Museu Casa de Medrano, e aquilo vibrava, morno dos corpos  de séculos - corpos que deixaram entrar em si o Quixote, como este meu pobre receptáculo.
Experiência quase religiosa?  Não. Nada disso. Tirem-lhe o quase. Quixote está para mim e para muitos  milhares, ao longo de centenas de anos, como Cristo estará para outros  tantos e por diferentes razões, embora humanamente iguais e nem a ficção  ou a realidade os distingam de sobremaneira. Tal como o cântico da claque do Liverpool.  Religião, sim. Congregação num corpo colectivo da expectativa e do sonho.
A Quixote dei o primeiro papel no meu livro  Saramaguíada: conduzir Saramago à sua própria parábola. Saramago elevado  ao estatuto de mito e também às estrelas, às quais Saramago dizia não  poder ser elevado, porque à terra pertencia. Mas Saramago estava  enganado e eu provei-o: nem Quixote nem ele nem nenhum honesto prosador  estão mortos ou algum dia estarão e, por uma razão prática, não os  podemos avistar fora de nós na terra, ao nível do nosso olhar.
Temos de olhar para as estrelas, onde se tornam todos constelações.
E, apesar da incrível confusão, que é própria do arrebatamento e desta fusão de alma e corpo, com o Quixote nunca caminharemos sozinhos. Pela eternidade.
Walk on trough the wind
Walk on trough the rain
Though your dreams be tossed
and blown
Walk on
Walk on
With hope
in your heart
And you'll never walk alone
You'll never walk alone
PG-M 2019

O dia em que eu morri pelo B.B. King

Faz 19 anos em Março de 2019 que vi o rei actuar a menos de cinco metros e morri por ele, como ele morria por nós todas as vezes que pisava o palco, ou ia para lá de todos os limites como se morresse, o corpo suado quase tombado no palco, a cabeça de lado como se caísse para o céu - que o blues, todos contam, vem do inferno - as mãos em carícia sobre a Lucille enquanto cantavam juntos sem abrir a boca. Blues Boy King, B.B. King, nascido Riley King em Itta Bena, Mississipi. Este homem chegou a actuar todos os dias de um ano, 365, e esteve sempre entre os que ultrapassavam as 300 actuações por ano, com a excepção destes anos dez, já com mais de 85 anos, em que, por regra, actuava três semanas e parava outras três. Acabou por morrer por complicações provocadas por diabetes, como a sua mãe, quando uma vida dura dos campos de algodão, na infância e adolescência, em que chegava a fazer a pé 50km por dia para cima e para baixo no campo, não o derrubara. Foram 50km por dia, 6 dias por semana durante 18 anos, até abandonar essa vida pela música. As primeiras actuações eram feitas ao arrepio da vida de cantor colectivo nas celebrações evangélicas - até porque o Blues, como acima ficou dito - era coisa do diabo.
Mas nesse dia de Março de 1990 o meu ídolo era outro: chamava-se e chama-se Rui Veloso. O Rui também toca com alma e com esgar e ainda hoje todos que o adoram e cultivam esperam o álbum só de blues, embora já seja possível montar esse álbum com uma dúzia das músicas que o Rui nos deu ao longo dos anos, entre elas o próprio Everyday I have the Blues com que King abre o álbum que a maioria dos seus fãs considera perfeito, Live at the Reagal, de 1964. Lembro-me de que nessa altura me quis convencer de que o Rui estava à altura do B.B. King. Na verdade esteve, mas nada se compara ao Blues Boy King. Não houve, não há nem haverá ninguém que tire da guitarra - e todas se chamaram Lucille a partir do célebre episódio em que dois tipos morreram queimados num bar de twist onde King tocava, no Arkansas, porque lutavam por uma mulher chamada Lucille e deitaram o barril de querosene usado para aquecer o bar ao chão, acabando por icendiar tudo e morrer lá. King fugiu a tempo, mas entrou para salvar a guitarra, que, a partir desse dia, se passou a chamar Lucille - o som que King tirava delas, e, espantem-se, ele queria tirar da guitarra o som mais metalizado que conseguisse, mas esse esforço redundou naquele vibrato inconfundível que faz com que os fãs digam que lhes basta uma nota para reconhecer o rei. Este homem manteve-se humilde até morrer, aos 89, em 2015, sempre reconhecendo que os jovens blues-men tocavam todos melhor do que ele; na verdade, ele tentou tocar guitarra acústica duas vezes na vida: a primeira foi "arrasado" (disse o próprio) pelo seu modelo nesse tipo de guitarra, Alexis Korker, no seu Alexis Booggie; a segunda - já depois de Alexis morrer, e King tinha prometido que nunca mais tocava um acústica - foi "arrasado" (voltou a dizer o próprio) por Eric Clapton no mais recente ábum "Riding With The King". A Bono, no começo da digressão que fez com os U2 e em que partilhava o palco em "When love comes to town", disse "I don't do chords" (não faço acordes). Na verdade, só fazia cantar a guitarra. Lucille.
Lembro-me que a entrada do Coliseu do Porto foi muito parecida com a entrada desse mítico concerto no Reagal. Lembro-me do baixista a abanar as bochechas e a curtir o virtuosismo da própria banda. E procurei as lágrimas do B.B. King que, dizem, ele enxaguava com o anel de diamantes. A primeira vez que elas caíram nesse anel, o que era raro num homem duro feito pelo tempo duro da infância e da adolescência, foi no primeiro concerto que deu para brancos, apresentado por Bill Graham. Quando chegou ao Caroussel Ball, Filmore West, lá por 1969, B.B. King pensava estar enganado, mas Bill veio cá fora dizer que não. Viu então que a plateia branca se vergava reverencialmente a ele, mestre, e acompanhava de forma entusiástica todas as suas canções, que B.B. King devolveu a vénia à plateia e chorou essas lágrimas sobre o diamante.
Nesse dia eu morri por ele. E sempre quis deixar, como ele, a alma no meio da multidão. E, como ele, gostar de pessoas. E, como ele, dizer que todas as mulheres são perfeitas e que ainda não tinha conhecido uma de que não gostasse. E não são só os dedos dele na Lucille. Nem a voz que se projectava e sumia e a que ninguém conseguia chegar. Nem o sentido de humor. Nem as vísceras. Nem os campos de algodão. Nem as lágrimas sobre o diamante. Nem o homem de trabalho, que se dedicou ao que amava porque não conseguia deixar de fazer aqueles quilómetros por dia e queria que todo o mundo o ouvisse. Morri por ele porque, perante ele, todos somem. E ainda hoje, 19 anos depois, ainda me custa a acreditar que o vi ali, a menos de cinco metros, com o meu ídolo a tocar com ele.

PG-M 2018

Send in the Clowns (da Tristeza dos outros))

(foi mesmo agora)
mais difícil do que o pânico do comboio ou do jantar ou do evento ou do passeio ou de um mero balcão de uma repartição ou de um café ou de uma loja, o que se instala depois da empatia com alguém com quem repartimos o espaço, o tempo e o olhar,

mais difícil do que isso tudo
é a tristeza dos outros.

eu ainda tinha no corpo as marcas do Joker do Joaquin Phoenix, que, para os que assistiram ao filme como um bailado cuja música foi dançada, composta e tocada por génios, é uma actuação que nos vai assombrar para todo o sempre, que vai aparecer ao voltar da esquina ou nas sombras ou até no excesso de luz,

que é como quem diz: nas pontas, nos extremos,

tinha o actor na pele, mas estava equilibrado e feliz e pela casa entrava o sol de outono das três da tarde, que, apesar do verão de são martinho que se avizinha, já vem inclinado.

O almoço tinha acabado e havia ali um silêncio raro que não era paz, era húmus, uma tristeza a flutuar no ar com os pêlos e os gomos de luz e a avançar pelos espaços abertos da cozinha e do salão de festas, que ficou sem a lareira porque saiu de moda.

era a dor da mãe
a mãe está tão cansada de sofrer que se deitou sem perceber
eu gosto que a mãe não faça tudo e perceba que podemos levantar a mesa e lavar a loiça
mas à mãe já dói tanto que ela nem percebe que pára e se cala
já não se queixa
já não diz filho deixa estar, eu faço isso
já nem sequer se dá por cansada
ou geme

apaga-se baixinho e então vem a tristeza como uma descarga de alcatrão negro

quando eu era pequenino, mesmo depois de ter crescido, estes silêncios longos depois do almoço eram apenas o tempo que se toma para descer do monte e esperar no vale verde com uma mão afagar o braço quente e um sorriso que se pode suspender com a respiração antes de morder a maçã e os olhos quase fechados com o sol a pingar das pestanas

ou seja, a felicidade

eu vinha de regresso no carro, já depois do almoço, e os lábios estavam dormentes por saberem que, de tanto a beijar, já não lhe abrandam o sofrimento

e eu pensei que, mal despachasse um mail urgente, tinha de vos escrever isto para que a tristeza dela, mais do que a dor, não nos derrube e nós nos mantenhamos de pé a lavar a loiça, mesmo que alguns misturem as lágrimas com o detergente

gosto de vos ter aí

e sei que muitos de vocês reconhecem esta canção

que, na versão do Sinatra, não pergunta where are the clowns,
diz para os fazer entrar


Isn't it rich?
Are we a pair?
Me here at last on the ground,
You in mid-air,
Send in the clowns


Precisamos deste equilíbrio entre a tristeza e o sorriso dos palhaços.

Obrigado.

PG-M 2019
Foto de quadro inacabado que a mãe está a pintar e que acho tremendamente 

O fim da formação: pensar um futuro para o voleibol português

Tal como no post que publiquei há anos a partir de uma fase final de infantis, parto para uma curta reflexão a partir das duas fases finais nacionais de juvenis - masculinos e femininos, e antes que uma nova semana comece e nós, os que amamos o voleibol e o desporto que ama (ou amador), mas não fazemos dele profissão, tenhamos que pensar noutros ofícios.

É um momento incrivelmente importante, este, e de que nem todos tiveram, provavelmente, consciência: os nados e nadas em 1999 acabaram precisamente hoje, com o apuramento dos campeões femininos e masculinos, os escalões de formação.

No voleibol, aos juniores chama-se escalão de aperfeiçoamento. Além disso, sendo um escalão com dois anos e em que se estreia a figura do líbero, permite outro tipo de variações, uma orquestra mais rica e novas caras.

Nestes quatro anos de formação desta geração 1999, infantis, iniciados, cadetes e juvenis, houve no voleibol masculino, que eu acompanhei de perto, precisamente por ter um filho envolvido, apenas dois treinadores campeões: Durval Pinheiro, com o Ginásio de Santo Tirso, no escalão de infantis (mais dois terceiros lugares), e José Moreira, nos restantes três escalões, um título pela Académica de Espinho, dois pela própria Academia José Moreira: em tempos polémico, estou em crer que vai sendo altura de o voleibol português reconhecer a excelência do trabalho desta outrora glória do voleibol nacional e do FC Porto. O Marco Silva, do Benfica, conseguiu a proeza de ser vice-campeão três vezes consecutivas, e 3º em infantis: mas faz falta competição aos clubes do sul. Hugo Leão foi vice-campeão pelo Clube Atlântico da Madalena, que este ano fez um bom campeonato de juvenis, recuperando algum do protagonismo de outros tempos. Resta, nas menções do pódio, o Leixões, que o conseguiu este ano com grande mérito, sendo uma das equipas em que se notou mais a evolução. Uma palavra também para as grandes escolas de voleibol do Esmoriz e da Académica de Espinho: esta, tendo visto grande parte dos seus jogadores transferidos para a AJM no escalão de cadetes, em 2014/2015, conseguiu reconstruir a equipa com grande qualidade: grande parte dos atletas poderiam jogar pelo escalão abaixo. Última palavra para os que não vieram a fases finais, sendo o caso mais gritante o de outra grande escola de voleibol, Académica de São Mamede, que, tendo dominado algumas fases regionais, acabou por nunca conseguir estar presente numa fase final. Talvez isso não seja determinante no amor pelo voleibol: se afecta, é o amor próprio, mas não devia. Na minha carreira, só fui a uma fase final, pelo Sporting de Espinho, e perdi com o Leixões a final. De resto, era quase sempre 5º classificado no clube onde fui mais feliz: Colégio dos Carvalhos. Foi a jogar no CIC que eu e o meu irmão fomos chamados à selecção que disputaria o Europeu de 1988. Ter títulos é saboroso, vibrante, pode ser crucial numa carreira mais a sério, mas uma das lições que aprendi mais arduamente é que não devemos perder a hipótese de ficar ligados ao desporto que amamos, mesmo que o não pratiquemos ao mais alto nível. Eu afastei-me do voleibol quando fui estudar para Coimbra e só voltei a ele vinte anos depois, quando o corpo já não nos deixa fazer tudo o que queremos. É por isso que o conselho mais vivo que deixo aos voleibolistas que se queixam de falta de oportunidades e de serem preteridos pelos treinadores ou ficam esgotados com o trabalho e com os anos de sacrifícios, é que não sejam "meninos" e se deixem estar apenas pelo amor à arte. Nem todos têm de ser excepcionais.

Claro que alguns são. Habituei-me a admirá-los, quer nos meus colegas de equipa quer, agora, no voleibol que vejo em todos os escalões, nos colegas e nos adversários ou colegas de selecção do meu filho. Há atletas notáveis de todas as idades. Às vezes ao nosso lado. É bom observá-los, admirá-los. Alguns integram desde já projecto de alto rendimento das selecções nacionais. Qualquer país com resultados de topo tem o desporto de alto rendimento intimamente

Finalmente: é hora de ver o voleibol crescer a nível mundial.
Gostava que o voleibol fosse mais bem vendido, que tivesse mais procura e respeito pela sua base de  fãs e praticantes. Afinal, é pouco conhecido o facto de que o voleibol é o quinto desporto, a nível mundial, com maior número de fãs, quase mil milhões.