(foi mesmo agora)
mais difícil do que o pânico do comboio ou do jantar ou do evento ou do passeio ou de um mero balcão de uma repartição ou de um café ou de uma loja, o que se instala depois da empatia com alguém com quem repartimos o espaço, o tempo e o olhar,
mais difícil do que isso tudo
é a tristeza dos outros.
eu ainda tinha no corpo as marcas do Joker do Joaquin Phoenix, que, para os que assistiram ao filme como um bailado cuja música foi dançada, composta e tocada por génios, é uma actuação que nos vai assombrar para todo o sempre, que vai aparecer ao voltar da esquina ou nas sombras ou até no excesso de luz,
que é como quem diz: nas pontas, nos extremos,
tinha o actor na pele, mas estava equilibrado e feliz e pela casa entrava o sol de outono das três da tarde, que, apesar do verão de são martinho que se avizinha, já vem inclinado.
O almoço tinha acabado e havia ali um silêncio raro que não era paz, era húmus, uma tristeza a flutuar no ar com os pêlos e os gomos de luz e a avançar pelos espaços abertos da cozinha e do salão de festas, que ficou sem a lareira porque saiu de moda.
era a dor da mãe
a mãe está tão cansada de sofrer que se deitou sem perceber
eu gosto que a mãe não faça tudo e perceba que podemos levantar a mesa e lavar a loiça
mas à mãe já dói tanto que ela nem percebe que pára e se cala
já não se queixa
já não diz filho deixa estar, eu faço isso
já nem sequer se dá por cansada
ou geme
apaga-se baixinho e então vem a tristeza como uma descarga de alcatrão negro
quando eu era pequenino, mesmo depois de ter crescido, estes silêncios longos depois do almoço eram apenas o tempo que se toma para descer do monte e esperar no vale verde com uma mão afagar o braço quente e um sorriso que se pode suspender com a respiração antes de morder a maçã e os olhos quase fechados com o sol a pingar das pestanas
ou seja, a felicidade
eu vinha de regresso no carro, já depois do almoço, e os lábios estavam dormentes por saberem que, de tanto a beijar, já não lhe abrandam o sofrimento
e eu pensei que, mal despachasse um mail urgente, tinha de vos escrever isto para que a tristeza dela, mais do que a dor, não nos derrube e nós nos mantenhamos de pé a lavar a loiça, mesmo que alguns misturem as lágrimas com o detergente
gosto de vos ter aí
e sei que muitos de vocês reconhecem esta canção
que, na versão do Sinatra, não pergunta where are the clowns,
diz para os fazer entrar
Precisamos deste equilíbrio entre a tristeza e o sorriso dos palhaços.
Obrigado.
PG-M 2019
Foto de quadro inacabado que a mãe está a pintar e que acho tremendamente
mais difícil do que o pânico do comboio ou do jantar ou do evento ou do passeio ou de um mero balcão de uma repartição ou de um café ou de uma loja, o que se instala depois da empatia com alguém com quem repartimos o espaço, o tempo e o olhar,
mais difícil do que isso tudo
é a tristeza dos outros.
eu ainda tinha no corpo as marcas do Joker do Joaquin Phoenix, que, para os que assistiram ao filme como um bailado cuja música foi dançada, composta e tocada por génios, é uma actuação que nos vai assombrar para todo o sempre, que vai aparecer ao voltar da esquina ou nas sombras ou até no excesso de luz,
que é como quem diz: nas pontas, nos extremos,
tinha o actor na pele, mas estava equilibrado e feliz e pela casa entrava o sol de outono das três da tarde, que, apesar do verão de são martinho que se avizinha, já vem inclinado.
O almoço tinha acabado e havia ali um silêncio raro que não era paz, era húmus, uma tristeza a flutuar no ar com os pêlos e os gomos de luz e a avançar pelos espaços abertos da cozinha e do salão de festas, que ficou sem a lareira porque saiu de moda.
era a dor da mãe
a mãe está tão cansada de sofrer que se deitou sem perceber
eu gosto que a mãe não faça tudo e perceba que podemos levantar a mesa e lavar a loiça
mas à mãe já dói tanto que ela nem percebe que pára e se cala
já não se queixa
já não diz filho deixa estar, eu faço isso
já nem sequer se dá por cansada
ou geme
apaga-se baixinho e então vem a tristeza como uma descarga de alcatrão negro
quando eu era pequenino, mesmo depois de ter crescido, estes silêncios longos depois do almoço eram apenas o tempo que se toma para descer do monte e esperar no vale verde com uma mão afagar o braço quente e um sorriso que se pode suspender com a respiração antes de morder a maçã e os olhos quase fechados com o sol a pingar das pestanas
ou seja, a felicidade
eu vinha de regresso no carro, já depois do almoço, e os lábios estavam dormentes por saberem que, de tanto a beijar, já não lhe abrandam o sofrimento
e eu pensei que, mal despachasse um mail urgente, tinha de vos escrever isto para que a tristeza dela, mais do que a dor, não nos derrube e nós nos mantenhamos de pé a lavar a loiça, mesmo que alguns misturem as lágrimas com o detergente
gosto de vos ter aí
e sei que muitos de vocês reconhecem esta canção
que, na versão do Sinatra, não pergunta where are the clowns,
diz para os fazer entrar
Isn't it rich?
Are we a pair?
Me here at last on the ground,
You in mid-air,
Send in the clowns
Are we a pair?
Me here at last on the ground,
You in mid-air,
Send in the clowns
Precisamos deste equilíbrio entre a tristeza e o sorriso dos palhaços.
Obrigado.
PG-M 2019
Foto de quadro inacabado que a mãe está a pintar e que acho tremendamente
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