Faz 19 anos em Março de 2019 que vi o rei actuar a menos de cinco metros e morri por ele, como ele morria por nós todas as vezes que pisava o palco, ou ia para lá de todos os limites como se morresse, o corpo suado quase tombado no palco, a cabeça de lado como se caísse para o céu - que o blues, todos contam, vem do inferno - as mãos em carícia sobre a Lucille enquanto cantavam juntos sem abrir a boca. Blues Boy King, B.B. King, nascido Riley King em Itta Bena, Mississipi. Este homem chegou a actuar todos os dias de um ano, 365, e esteve sempre entre os que ultrapassavam as 300 actuações por ano, com a excepção destes anos dez, já com mais de 85 anos, em que, por regra, actuava três semanas e parava outras três. Acabou por morrer por complicações provocadas por diabetes, como a sua mãe, quando uma vida dura dos campos de algodão, na infância e adolescência, em que chegava a fazer a pé 50km por dia para cima e para baixo no campo, não o derrubara. Foram 50km por dia, 6 dias por semana durante 18 anos, até abandonar essa vida pela música. As primeiras actuações eram feitas ao arrepio da vida de cantor colectivo nas celebrações evangélicas - até porque o Blues, como acima ficou dito - era coisa do diabo.
Mas nesse dia de Março de 1990 o meu ídolo era outro: chamava-se e chama-se Rui Veloso. O Rui também toca com alma e com esgar e ainda hoje todos que o adoram e cultivam esperam o álbum só de blues, embora já seja possível montar esse álbum com uma dúzia das músicas que o Rui nos deu ao longo dos anos, entre elas o próprio Everyday I have the Blues com que King abre o álbum que a maioria dos seus fãs considera perfeito, Live at the Reagal, de 1964. Lembro-me de que nessa altura me quis convencer de que o Rui estava à altura do B.B. King. Na verdade esteve, mas nada se compara ao Blues Boy King. Não houve, não há nem haverá ninguém que tire da guitarra - e todas se chamaram Lucille a partir do célebre episódio em que dois tipos morreram queimados num bar de twist onde King tocava, no Arkansas, porque lutavam por uma mulher chamada Lucille e deitaram o barril de querosene usado para aquecer o bar ao chão, acabando por icendiar tudo e morrer lá. King fugiu a tempo, mas entrou para salvar a guitarra, que, a partir desse dia, se passou a chamar Lucille - o som que King tirava delas, e, espantem-se, ele queria tirar da guitarra o som mais metalizado que conseguisse, mas esse esforço redundou naquele vibrato inconfundível que faz com que os fãs digam que lhes basta uma nota para reconhecer o rei. Este homem manteve-se humilde até morrer, aos 89, em 2015, sempre reconhecendo que os jovens blues-men tocavam todos melhor do que ele; na verdade, ele tentou tocar guitarra acústica duas vezes na vida: a primeira foi "arrasado" (disse o próprio) pelo seu modelo nesse tipo de guitarra, Alexis Korker, no seu Alexis Booggie; a segunda - já depois de Alexis morrer, e King tinha prometido que nunca mais tocava um acústica - foi "arrasado" (voltou a dizer o próprio) por Eric Clapton no mais recente ábum "Riding With The King". A Bono, no começo da digressão que fez com os U2 e em que partilhava o palco em "When love comes to town", disse "I don't do chords" (não faço acordes). Na verdade, só fazia cantar a guitarra. Lucille.
Lembro-me que a entrada do Coliseu do Porto foi muito parecida com a entrada desse mítico concerto no Reagal. Lembro-me do baixista a abanar as bochechas e a curtir o virtuosismo da própria banda. E procurei as lágrimas do B.B. King que, dizem, ele enxaguava com o anel de diamantes. A primeira vez que elas caíram nesse anel, o que era raro num homem duro feito pelo tempo duro da infância e da adolescência, foi no primeiro concerto que deu para brancos, apresentado por Bill Graham. Quando chegou ao Caroussel Ball, Filmore West, lá por 1969, B.B. King pensava estar enganado, mas Bill veio cá fora dizer que não. Viu então que a plateia branca se vergava reverencialmente a ele, mestre, e acompanhava de forma entusiástica todas as suas canções, que B.B. King devolveu a vénia à plateia e chorou essas lágrimas sobre o diamante.
Nesse dia eu morri por ele. E sempre quis deixar, como ele, a alma no meio da multidão. E, como ele, gostar de pessoas. E, como ele, dizer que todas as mulheres são perfeitas e que ainda não tinha conhecido uma de que não gostasse. E não são só os dedos dele na Lucille. Nem a voz que se projectava e sumia e a que ninguém conseguia chegar. Nem o sentido de humor. Nem as vísceras. Nem os campos de algodão. Nem as lágrimas sobre o diamante. Nem o homem de trabalho, que se dedicou ao que amava porque não conseguia deixar de fazer aqueles quilómetros por dia e queria que todo o mundo o ouvisse. Morri por ele porque, perante ele, todos somem. E ainda hoje, 19 anos depois, ainda me custa a acreditar que o vi ali, a menos de cinco metros, com o meu ídolo a tocar com ele.
PG-M 2018
PG-M 2018