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2017-12-09

A (eterna) professora e o (eterno) aluno

Porque me honra profundamente, vindo da cátedra como veio, e porque me comove, por momentos e razões que não quero aqui escalpelizar, porque já passou a quinzena deste JL nas bancas (esta semana está a Ana Margarida de Carvalho na capa), publico hoje a recensão completa da Professora Agripina Vieira ao Saramaguíada. Obrigado aos que entendem que este ofício exige o máximo esforço e o máximo respeito. Como se pode ler na epígrafe de Maria Victoria Atencia no início do livro, "Porque duele, el alma duele (...). (clicando na foto, conseguem ler - ou então em texto,a seguir)

"NAS MARGENS DO TEXTO, Jornal de Letras, Novembro de 2017
Agripina Carriço Vieira - “Como uma claraboia para dentro do mundo”


            Se fosse possível, numa palavra, caracterizar o último romance de Pedro Guilherme-Moreira a escolhida seria o adjectivo avassalador. O seu Saramaguíada, publicado no passado mês de Setembro pela Poética Edições, faz parte daquele grupo (pequeno) de textos de que falava Proust. Dizia o autor francês que, de quando em vez, surge um escritor original que alicerça o seu texto numa rede de relações significantes novas e inovadoras que interpela os leitores. A leitura destes textos não se compadece com imediatismos e linearidades, e se esse facto pode desanimar é apenas porque sentimos “que le nouvel écrivain est plus agile que nous”.

A afirmação proferida em meados do século passado aplica-se na perfeição ao novo romance de Pedro Guilherme-Moreira. Saramaguíada é uma preciosidade para os amantes da literatura, que nos desafia a entrar num universo mágico, situado fora de um tempo cronológico, fora de um espaço geográfico, todo ele feito de palavras e pensamentos em diálogo, dando amplo e total sentido às reflexões de Pilar que “sabe que cada palavra é como um lago profundo que contém todo o mistério, todo o encanto e toda a explicação das coisas, mesmos das inexplicáveis” (p. 43).

O título antecipa a centralidade temática da efabulação, enunciando desde logo uma clara e inequívoca referência a um dos nomes maiores da literatura universal, ao único escritor nacional galardoado com o Nobel, José Saramago, indiciando igualmente que outros o acompanham nessa jornada. A magnífica ilustração da capa, da autoria de Vasco Gargalo, confirma-nos a interpretação, ao representar uma imensa estrada povoada por personalidades maiores do mundo da cultura e da literatura que começa em Saramago e termina na angolana Alda Lara, tendo como ponto de destino final Paris, metonimicamente representada pela Tour Eiffel. No entanto, e como adverte o autor num curioso texto intitulado Ordem das coisas que antecede o corpo do texto, neste livro celebra-se “a literatura e as ideias, que são das pessoas, mas não as pessoas em si” (p. 15). Estamos, pois, no mundo do pensamento, “ali todos eram ideias, sonhos ou pensamentos materializados” (p. 65), por isso o herói da narrativa é Esse, a materialização do pensamento de Saramago. É um universo sem fronteiras de tempo ou de lugar, onde as criaturas (ficcionais) dialogam com os seus criadores, onde Esse e O’Neil viajam para Lisboa numa barca conduzido por Confúcio, onde Eça e Esse, em Tormes, acompanhados por Charles Robert Anon (heterónimo infantil de Fernando Pessoa e representado figurativamente por um desenho que reproduz uma fotografia do poeta aos dez anos) discutem o papel social da literatura. Desta breve apresentação, surge como evidência que qualquer apaixonado pelos livros e pela literatura se sente, diante deste romance, como uma criança numa loja de brinquedos, levado num turbilhão de sensações feitas da alegria da descoberta e do entusiasmo da indagação.

Vários elementos concorrem para a originalidade do romance, que nasce antes de mais da incorporação e discussão de obras da literatura universal, pertença de todos nós, que aqui ganham novos significados, abrindo-se a novas perspectivas. No entanto, o exercício de reescrita empreendido não é apenas e só uma apropriação de textos da plêiade de escritores, pensadores, filósofos, poetas, dos mais variados países e de vários tempos, convocada pela efabulação. Com efeito, o leitor é surpreendido pela afirmação da paternidade dos excertos textuais citados (Dom Quixote, de quem Esse recebe uma missão secreta, refere-se ao seu criador como “o pai Cervantes” p. 68), que surgem em discurso directo, pela voz dos seus autores que assumem, por essa via, a condição de personagens ficcionais. Por outro lado, constitui ainda marca de originalidade a série de elementos paratextuais que ladeiam o corpo do texto, com particular destaque para a “Tábua de Personagens e Lugares”, em que ao traço da palavra escrita, desafiante e penteada por um humor fino e desconcertante se alia o traço elegante e bem-humorado das ilustrações de Vasco Gargalo.

Na viagem por esta saramaguíada, viagem repleta de desafios e estranhezas, somos conduzidos por uma curiosa personagem que assume a condução da narração, mas igualmente a construção da efabulação. Vai inscrevendo no entrecho comentários, explicitações de opções diegéticas, interpelações aos leitores, convocando-os, desse modo, para um surpreendente e desconcertante jogo de interpretação e reconfiguração em busca da intencionalidade dos textos, procurando desvendar aquilo que Ricoeur designou como a “transcendência na imanência, que se alicerça na construção de redes de afinadas textuais, não só com os autores que explicitamente são convocados por Pedro Guilherme-Moreira, mas também com todos aqueles que o leitor vai encontrando nos trilhos significantes de que o texto é feito. A leitura de um livro é por excelência um acto individual, um constructo, para o qual cada leitor leva as memórias de outros textos que com este põe em diálogo. Constituindo-se com espaço de cruzamento de escritas e de leituras anteriores, o texto oferece aos seus leitores uma multiplicidade de relações e significações das quais destacaria duas em particular: Utopia de Thomas More e Huis Clos de Jean Paul Sartre (ficam em aberto a concretização desses diálogos e o prazer da descoberta).

            As grandes obras, aquelas que perdurarão na mente dos leitores, são as que incomodam, porque abalam certezas, desarrumam pensamentos, desconstroem convenções. Tudo isto sucede com a leitura de Saramaguíada de Pedro Guilherme-Moreira, um livro surpreendente e belo, “como uma claraboia para dentro do mundo”.


PG-M 2017
foto de uma recensão da Professora Universitária Agripina Vieira no Jornal de Letras de Novembro de 2017

2013-11-17

nobel de latão



 já é de tarde e é cedo.
teatro de sol de domingo e no banco de jardim do parque infantil da praia de salgueiros estão sentados, lado a lado, o emplastro da madalena, que é filho do pinto da costa, e uma rapariga que foi famosa num big brother ou numa casa dos segredos, já não sei bem, estão ambos com o olhar vazio, ele com uma saco de plástico, ela com uma garrafa de vodka, ele não está muito limpo, ela também não, nota-se principalmente pelos cabelos, e de forma alguma estão juntos.

no banco em frente está um poeta de rua que escreve com uma letra miudinha nuns papéis muito pequenos, de vez em quando para, olha para tudo, portanto para nada, morde a barba comprida por baixo do lábio inferior, e ao lado dele um acordeonista que trabalha de segunda a sábado na rua de santa catarina mas hoje está a descansar ao teatro de sol de um banco de jardim em frente ao mar.
eu estou a tomar café num bar em frente, protegido deles por um vidro, a pensar na literatura e na vida e na ciência e no corpo, portanto a fazer filosofia sem querer, depois de ter lido uma entrevista demasiado profunda do eme tavares. estou perturbado, fico sempre perturbado quando não resolvo um escritor, isto é uma doença que só me dá com os melhores. penso que não retive o nome da jornalista que lhe fez perguntas de uma forma rara, como se soubesse mesmo o que estava a fazer e tivesse pensado sobre a causa, e não sobre a consequência, e se tivesse concentrado na fonte e não no resultado.
entretanto acabei por decidir que, realmente, o próximo nobel português vai para o eme tavares e por ter uma consciência clara de que já não consigo competir com ele pelas coisas mais bonitas e só tenho uma vantagem, sou mais velho, chego mais cedo à idade da aparência do abandono, a ironia era que eu queria ganhar o nobel porque aquilo é muito dinheiro e dava para alimentar a família para sempre, mas não posso tentar porque tenho de trabalhar para dar de comer à família ainda este ano.

o emplastro abriu um saco de milho e está a atirá-lo às pombas e a partilhá-lo com a miúda do big brother, mas por causa do vento não há pombas na praia, e nem as gaivotas querem o milho nem vem o O'Neill, porque o médico lhe disse que, por causa da condição cardíaca, não devia caminhar contra o vento.

li num livro do eme tavares que os homens, nos jardins de domingo, procuram diamantes e que as mulheres os procuram a eles. disse isto à minha mulher e ela perguntou, a eles aos homens, ou a eles aos diamantes? e eu respondi, acho que é aos homens, mas estás a ver, de qualquer modo, se for aos homens porque eles procuram diamantes também é muito bonito. não estou sequer certo de ser isso o que estava lá escrito. espera. não foi num livro. foi no artigo de hoje da notícias magazine. não tenho gostado muito dos textos do eme na notícias magazine - talvez porque são superiores e eu não lhes consigo chegar -, mas hoje gostei, acho que era o senhor voltaire a falar e o senhor focault a ouvir. de vez em quando o senhor voltaire levantava-se para olhar para um quadrado negro desenhado no chão ou sorrir com a parte lateral do lábio e que isso era sarcasmo, ou as duas coisas, não sei.
não tenho tempo para investigar as frases e ouvi dizer que o eme tavares faz isso e isola-se com tempo no templo como os artistas mais antigos, e também ouvi dizer que tem de ser assim para nos chegar a arte ou as palavras que podem ser arte.

em rigor, se querem que vos diga, eu queria ganhar o nobel porque gosto muito daquela parte da cerimónia em que nos põem uma faixa vermelha na diagonal, sobre a barriga e sobre o peito, ou sobre o peito e a barriga, e o rei da suécia nos vem entregar uma pequena caixa com uma medalha do alfred nobel e depois o escritor tem de fazer uma vénia ao rei, depois uma vénia aos convidados mais ilustres, depois uma vénia aos convidados menos ilustres e tocam as cornetas.
penso, sinceramente, que se me fizerem uma cerimónia dessas num aniversário qualquer já ganhei o nobel. o problema é mandar vir o rei da suécia

mas o mais complicado, mesmo, o mais complicado de tudo vai ser chegar a casa e explicar à minha mulher porque é que decidi escrever este texto só com letra pequena, como o valter primitivo.

no banco de jardim de cá o poeta de rua está de pé e com a mão estendida, como se mandasse esperar o mundo. fez um sinal ao acordeonista e ele levanta-se e mexe a cabeça e os braços, como se estivesse mesmo a tocar. tenho de pagar o café para sair e ouvir.
até hoje tinha conseguido resolver o eme tavares em mim, mas desta  vez ele subiu tanto, tanto, que já chegou a uma pureza a que eu nunca chegarei, porque não tenho tempo nem qualidade, poucos têm, talvez só ele

é por isso que a treta da conversa precoce do nobel vai deixar de ser treta, eu já atribuí um a Moçambique, irá para o Mia Couto, vai ser um grande dia para a língua portuguesa e desportuguesa, e alguns anos depois, quando o eme tavares passar os sessenta, outro, finalmente, para portugal. ele vai fazer as três vénias e, provavelmente, pagar-me um café no regresso.

eu, contudo, só terei hipóteses de ganhar se passar dos cento e trinta e um, e mesmo assim tenho de ter o cuidado de não entrar curvado, as três vénias só são mais tarde, tenho de estar lúcido e com capacidade de subir a um palco, como o Manoel de Oliveira, que fez isso há dias na bilbioteca almeida garrett, no porto, e tem centro e cinco e parece que está tudo à espera que ele morra para lhe darem mais.

gostei muito de ouvir o eme tavares dizer que não se podem comparar ou escalonar livros, que é como dizer que um tigre é melhor do que um elefante, espera, o acordeonista estava a tocar a melodia do into my arms, do nick cave, o poeta a ler o "assim como" do alberto caeiro....como é possível?....e o emplastro está a olhar muito espantado para ele, com a boca cheia de pão, e a menina da casa dos segredos a abraçar a garrafa de vodka.

eu estou arrebatado e a ouvir na minha cabeça o ave verum corpus, do mozart, que não está realmente a tocar

nenhum deles sorri, nem o emplastro nem a miúda, porque não há câmaras de televisão por perto.

li hoje um fragmento do primeiro romance do bruno vieira amaral e fiquei comovido, era uma reunião qualquer entre a mãe e umas senhoras, uma em que ele ficou ao largo, estava tão delicado e no entanto cruel como a grande literatura sabe ser, ainda assim mais suave do que o coetzee no coração desta terra, mas um destes dias estava a ver na sic notícias uma reportagem sobre a entrada do público no estádio da luz para o portugal-suécia e lá estava o emplastro, vi a cara de poucos amigos do repórter, vi alguém a bater no emplastro e não gostei, afinal o rapaz é filho do pinto da costa e faz-nos sorrir a todos, está bem, podia estar a aborrecer o repórter há muito tempo, mas não importa, bater no emplastro é um crime de lesa-majestade, e então resolvi descer aos bancos de jardim e dizer-lhe que o rei da suécia o defenderia sempre

mas a expressão dele continuou vazia

o poeta de rua disse para eu deixar estar, que ele sabia o que a fazer, que tinha uma história infantil ou uma grande frase que lhe contava ou dizia sempre, e eu voltei a pensar em literatura e no eme tavares,

será que consigo resolver isto? o emplastro, a miúda do big brother, o poeta de rua, o acordeoonista e o eme tavares? será que consigo tocar ao de leve a literatura para a atirar para dentro do emplastro e da miúda da casa dos segredos, ou é mesmo obrigatório render-me e desistir, aceitar a expressão vazia dos dois e a superioridade das coisas simples e intangíveis do eme tavares ou de todos os génios como a maria filomena molder ou a llansol ou alguns pedaços do camus e do coetzee e daquele americano e do próprio do saramago e até do lobo antunes

ah, o discurso do nobel do saramago, eu acho, how characters became the masters and the author their apprentice, foi muito mais bonito do que o do coetzee, he and his man. mas, como diz o eme tavares, não se pode comparar um elefante com um tigre

no teatro de sol de domingo o poeta de rua leu ao emplastro a frase do novalis
"estamos sós com tudo aquilo que amamos"

e o emplastro começou a chorar com os olhos quietos

o acordeoonista tocou o anda comigo ver os aviões como se fossem lâminas a desentranhar da pele os corações mais frágeis

e a miúda do big brother largou a garrafa de vodka e dançou a valsa com o emplastro

e ambos riram, pela primeira vez, sem câmaras.


(é assim que a literatura chega, baixinho, desde o chão, como as primeiras coisas, bruno, e eu resolvo os meus escritores)

PG-M 2013
(vencedor do nobel de latão da literatura na festa dos seus quinze anos, organizada pela miúda do big brother)