O Lobo Antunes voltou a dar uma entrevista em que repete o número em que
finge não conhecer os que estão a chegar à literatura, ou por cá andam
há pouco. É bem feito. O velho Lobo não está louco, e comporta-se de uma
forma que exige músculo e vista larga aos visados. O velho Lobo não
está a desprezá-los. Se os receber individualmente, conversará com eles,
ouvi-los-á. Com bom ou mau feitio, é um monstro no melhor dos sentidos
e, nesta altura, merece ser respeitado por isso. A mim diverte-me ver
tudo aos saltos e à estalada. Sou finalista do Leya e não sacralizo o
prémio - é um investimento de um grande grupo, não importa se bom ou
mau, os meus princípios não me permitem essa pronúncia, e o que tiver a
dizer, digo em privado. O "Livro sem ninguém" beneficiou muito do selo
de finalista - que eu fiz questão de pedir, porque, no que toca a
vendas, me estou lixando para o significado do livro ou a quantidade de
literatura inserta. Quero é vender: fazer o break-even para não dar
prejuízo à editora, e tudo o resto é ganho, sendo que só a partir das
dezenas de milhares de exemplares o escritor ganha algum poder. Eu não
tenho nenhum. Mas quero vender, quero chegar ao máximo de leitores
possível. No resto da vida, preocupo-me com a literatura, e não é bem
com os vaidosões éditos como eu, mas com tudo o que de bom me chega,
mesmo inédito. Quando lanço, ai lanço a sério e lanço longe . É óbvio
que dava um jeitaço deitar a mão aos 100.000 menos impostos. Eu e mais
cinco ou seis que em 2012 ficaram à bica são os que podem morder o lábio
inferior com mais força. Vai uma esmolinha para os finalistas? Mas a
verdade é que continuei sempre a acarinhar os vencedores, e todos os
outros. Escrevi a todos os finalistas do meu ano, faço por escrever a
todos os que chegam de novo à minha editora. Escrevo também a muitos
literatos, mas talvez deixe de o fazer. Não creio que valha a pena. A
postura de humildação praticamente desapareceu das chamadas "novas
gerações" - a maioria está muito focada em si e olha de lado os próprios
pares. E agora querem reclamá-la do velho Lobo? Mas não é evidente que
ele faz um número que pretende isso mesmo, pôr à prova as fragilidades
dos que se acotovelam e até dos que não se acotovelam por aí? Ao
permanecer no meio, a única via a seguir é a do espelho. É útil observar
os outros a verem-se ao espelho, como é útil observarmo-nos a nós
próprios a vermo-nos ao espelho (é preciso um segundo espelho: enquanto a
nossa figura nos aparecer feia, menor, e a dos outros maior do que nós,
está tudo bem. Quando a nossa figura nos começar a parecer sempre
esbelta, gira, impecável, e a dos outros sempre ridícula, que soem os
alarmes). Como já escrevi, divertem-me e estimulam-me intelectualmente
as entrevistas do velho Lobo. Devo-lhe a ele e a Saramago e à Rosário
Pedreira estar édito. Posso brincar literariamente com o nosso meio, já o
fiz, posso queixar-me da falta de lealdade e humildade em privado,
realmente gostava de conhecer mais gente como o Afonso Cruz e o Rocha e o
Miguel Roza e o Rebocho e a Mar e a Lacerda e a Cristina (e mais
alguns), mas creio que os simples e claros serão sempre poucos, não
adianta chorar, e o recém-chegado, também Afonso, é um menino cheio de
pureza e potencial, não o cerquem, não lhe encham os ouvidos, digam só
que não ligue, que "o meu irmão" é o velho Lobo, que o velho Lobo está a meter-se com ele e com todos os
outros, como o Guerreiro e assim, que até confundiu teológico com
gnóstico, mas isso sou eu a ser pedante, porque o Guerreiro é um tipo
que também já cá anda há muito e temos é de o aturar. A verdade é que a
maioria, entre os recenseadores e os autores, não sabe ouvir, dedica o
tempo a destruir tudo em volta, mas, quando lhe apontam um erro, uma
incorrecção de verbo ou postura, cala-se bem caladinha. Então, porquê
perder tempo quando temos o velho Lobo a encher-nos a alma e até nos
podemos rir com isso?
PG-M 2014
