2017-09-30

nos próximos minutos ou então a vida inteira


nos próximos minutos (ou então a vida inteira), haverá apenas dois guilhermes no mundo, um pai e um filho, tão diferentes um do outro como as copas e os troncos das árvores, como os sorrisos duros e os olhares doces, tão diferentes um do outro que os respectivos corações são poços sem fundo e quem para eles espreita dos rebordos de granito entre os meses só vê preto,

só que a entrada para o meu é pelo topo e a entrada para o teu pela base e como não têm fim nem a manipulação formal de equações, operações matemáticas, polinómios e estruturas algébricas resolve o problema a quem nos estranha:

onde fica o verdadeiro acesso?
já quem nos ama chega ao centro de olhos fechados, comigo pela pele e pelo cheiro, contigo pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

ambos comemos ética e liberdade, só que eu já engordei e tu ainda não,
pelo que comigo a ética e a liberdade funcionam como as lutas de homens e touros mais ou menos como as caracterizou um dos maiores matemáticos do nosso tempo, Hemingway, estou quase nos cinquenta e ainda não sei viver com economia física e acho que a beleza de um gajo do porto está no desbraganço e no calão e na forma vigorosa de destruir as espaldas dos amigos
(não vou agora recordar-te, com o risco de uma lamechice mortal, que a minha solução não foi opção porque era espancado em criança e um dia me levantei e comecei eu a espancar: isso seria estúpido e pouco literário; na verdade sou assim porque acredito nisto)

e tu, que só muito recentemente te tornaste homem,
comes ética e liberdade com economia

como o garcía martín lá em oviedo, a forma como um homem não se vende nem se cala - nem aos amigos, nem aos inimigos, nem aos inofensivos nem aos mais perigosos - priva-o imediatamente da unanimidade, e, como a unanimidade é perigosa, torna-o seguro

mas, na verdade, ninguém sabe que esse homem é seguro, porque o homem livre parece sempre um cabrão e um cabrão parece sempre um simpático homem livre

a diferença é que eu agora passo a vida a dizê-lo e tu não

os teus amigos percebem-te em silêncio e sem proximidade
curiosamente, no fim de contas, os meus também

posso dizer-te, meu filho, que é provável que possamos obter algum reconhecimento à morte ou na extrema velhice, nunca antes

não esperes palavras justas ou reconhecimento quando partes de um lugar ou de uma casa
não esperes agradecimentos públicos
não esperes cartazes pendurados em murais

afinal, esta filosófica busca da autenticidade - e não da verdade, que é mais falível e impura do que a matemática - traz apenas isso, autenticidade

mas, repara, não leves a mal a ninguém o silêncio perante homens com qualidades
quem pode viver sem um abraço e um elogio público?
ou ao ouvido, baixinho, para que ninguém ouça, "mano, sabes que nunca me vou esquecer de ti"?
quem pode viver sem uma noite de embriaguez e a negação da dolorosa ciência dos dias, sem os metais da vitória e do sucesso, a carne das taças e o brilho da geometria, a arrumação iconográfica do ecrã do telemóvel ou a selfie que te ilude a sentença suicida:

mas a vida é só isto? esta merda?

afinal, meu filho, a única coisa que tu fazes é voar

e ser digno


e sim, a vida é só isto, é lama e cinzento, são corpos cansados e as curvas das mulheres misturadas com as curvas dos ossos, mas, tu que és de cá,

um dia vais fazer o que eu fiz: vais levar o sobrinho do Pessoa,
que nasceu da névoa em Canidelo, naquele percurso da luz:
pelas onze da manhã, estacionas o carro na afurada, debaixo da ponte da arrábida, e diriges-te a pé rio acima e, depois da primeira curva à direita, vais apontar (eu sei que não gostas, mas, por favor, aponta) para o primeiro vislumbre da ponte de ferro e mostrar o jorro da luz da manhã a varrer o rasto dos barcos em direcção a ti e ao céptico que te acompanhar e dizer

a vida são aquelas lágrimas de há pouco, sim,
mas também isto

e lá está o meu defeito, é sempre a mesma merda:

eu só escrevi isto para te dar os parabéns como todos os pais têm dado aos filhos que entraram na universidade este ano, e mesmo aos que não conseguiram mas lutaram e vão continuar a lutar

é, pois, um texto profundamente banal e nepotista

é até bem triste que um pai se sirva do seu próprio filho como exemplo nas escolas que visita como escritor, como se não tivesse vida própria além desse filho, e é por isso que eu gostaria de esclarecer publicamente, para que fique claro, agora e sempre:

é verdade, eu não tenho vida própria além deste filho; mais precisamente: a minha vida própria é este filho e tudo o resto uma grande consequência de não haver nada mais importante

vai continuar a ser assim até descobrirem o fundo aos poços dos nossos corações, lamento

nas escolas eu digo que andavas com umas notas pouco recomendáveis no décimo ano quando viste a luz da engenharia mecânica, soubeste que estava na moda e que o lamentável crivo se aproximava de um dezoito e tu estava longe de ser um dezoito e disseste

eu quero isto


e acabaste perto do dezanove; desligaste a playstation durante um ano, perdias cinco horas por dia a treinar com a tua selecção nacional de voleibol e a combater as leis medíocres deste portugal que há muitos anos não ajuda os seus atletas e prefere fazer leis parvas que as escolas e as universidades e as federações não combatem a sério, foste dando sempre passos seguros atrás quando te queriam empurrar para a frente, mudaste de clube, foste feliz e respeitado e nunca deixaste de voar, mas os critérios de topologia, geometria, até a teoria dos números para te descrever, tudo

tudo em ti é imperceptível e infungível

e no entanto és feliz

baixas o corpo quando o distribuidor te aponta a bola, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado

sabes o teu lugar, se to tiram combates por ele e bates palmas aos adversários
e quando abraças um amigo é para sempre,
mesmo que ele não abrace de volta

mas receber o teu abraço custa uma vida
e quem te estranha, pergunta: onde fica o verdadeiro acesso?
já quem te ama chega ao centro de olhos fechados, pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

entraste

vais lutar pelo máximo, sempre

e, naquele desporto que toda a vida foi nosso, estás parado no ar,
no teu deserto privado
e sem ninguém

mesmo perto do brilho, com o corpo pronto para lutar pelo impossível,
lanças tu a bola ao ar,
baixas o corpo, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado,
na falível percepção da felicidade
mas com memória do mundo


parabéns, meu filho



PG-M 2017
foto do próprio






2017-08-05

Entrevistas 2017 - a primeira

A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança e trabalho’

com 1 comentário
Entrevistas > Pedro Guilherme-Moreira em Escritores online

Pedro, quando é que surgiu a tua vontade de escrever ficção e de publicar?
A resposta a esta vai logo na badana do primeiro livro, “A manhã do mundo”. A professora da 2ª classe pediu-nos para escrever uma fábula e eu transformei-a numa formiga. Era o que me apetecia fazer, mas pensava que estava a ter um atrevimento que seria severamente punido. Eu era bem comportado. Tinha tido dificuldades na primeira classe por excesso de medo. A professora Laura tirou-me o medo todo quando me ensinou a fazer contas de dividir, no primeiro dia, e me deu a nota máxima e elogios por ter feito a loucura de a transformar em formiga. A partir desse dia, achei que tudo era possível. A literatura faz isso. Transforma-nos em gajos perigosos. Mais valia ser medricas.
Onde é que, por norma, encontras a inspiração para escrever as tuas obras?
Temos de distinguir a poesia da prosa e do teatro, para falar só em três géneros. A poesia já lá está, é nossa responsabilidade reduzirmo-nos à mesma formiga da fábula para transportar a poesia e a mostrar ao mundo. Nem sempre o fazemos bem. Quando nos apagamos completamente, mesmo que sejamos o objecto do poema, um ou dois de nós chega lá, de vez em quando – a poesia é talvez o processo biológico mais próximo da inspiração. A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança, trabalho – eu quase só vejo inspiração no primeiro acto, aquele que nos obriga a parar tudo para registarmos a possibilidade de um novo livro. Finalmente, o teatro: nunca tive tanto prazer como quando escrevi para teatro. Estava lá, no palco, e tudo aconteceu ao mesmo tempo nas teclas e no papel. Uma sensação maravilhosa e terrível, ao mesmo tempo. Mas neste gajo perigoso há um denominador comum, seja na literatura, seja num jogo de voleibol: vísceras.
Quais as temáticas mais presentes na tua escrita?
Estava preparado para ser evasivo, como nos ensinou Bukowski, mas na verdade tenho-as: levar-nos para as margens da natureza e da condição humana. Tenho quase um desespero de nos observar lá, onde nenhuma minudência pode importar, de perceber o que realmente importa. Como fiz nas torres gémeas. Descrevi os suicidas e depois tirei-lhes a carne e vesti-me neles, para que sentíssemos o mesmo que todos os três mil mortos. Eu e todos os leitores. No Livro sem ninguém tirei-nos do mundo e li-nos lá. Um livro sem personagens grita gente por todos os lados. Noutros, inéditos, reverti as metamorfoses. No novo, “Saramaguíada (a invenção de Pilar)”, obriguei a ideia de Saramago a fazer as vezes de Quixote e levei-o de barca aos limites da literatura e do próprio amor, que são coisas diferentes, embora aquela contenha este e este não contenha aquela.
Que aspetos destacarias relativamente ao livro que publicas este ano, o terceiro, “Saramaguíada”?
A Pilar chega a Lisboa para conhecer fisicamente o Saramago a 14 de Junho de 1986, estávamos nós a aturar Saltillo e o México 86. É o Diassaramago, que se celebrou ontem. Nesse dia, levámos no corpo de Marrocos, 3-1, um golo do Diamantino. E nós, eu e vocês, não vamos dar descanso à ideia de Saramago, que renasce para isto, como renasce a cada leitura dos seus próprios livros. Mostro a Pilar pré-1986. Achei que devia. A Pilar faz parte da nossa literatura, é uma realidade, não podemos fingir que não, não devemos fingir que não. Não mostro a vida comum deles. Mostro-os depois da morte dele. Cruzo o mundo ideal com o mundo real de uma forma muito prosaica e simples, desde que ninguém se agarre ao tempo. O tempo, sendo tudo, importa pouco para as ideias, que, como sabemos, vão, voltam, são recicladas desde as cavernas – às vezes são relativamente novas, mas nunca são novas, ao contrário dos livros – claro que ainda não se escreveu tudo e os livros são mesmo novos, quando são. As ideias sobrevivem no tempo, mas também apesar do tempo. Assim, levo o Saramago a conhecer o Eça e a Maria Amália Vaz de Carvalho por motivos frívolos, que é o que tantas vezes fazemos no “meio”. Dou-lhe uma missão banal. Obrigo-o a aturar o jovem Pessoa e o seu cão Shadow e a levá-los nessa missão. O jovem Pessoa apaixona-se pela Annabel, do Lolita, do Nabokov, o que se torna um problema, porque Nabokov determinou que Annabel morresse de Tifo em Corfu. O jovem Pessoa sabe disso e quer evitá-lo a todo o custo. Em Corfu, ou numa espécie de Corfu, chamada Ilha dos Jornalistas sem Cabeça (onde reflicto sobre jornalismo e sigo os últimos passos do jornalista mártir brasileiro Vladmir Herzog) Saramago é julgado em público e defendido pelo Padre António Vieira. Encontra-se com O’Neill em Lisboa e com Virginia e Leonard Woolf numa ilha parecida com Amalfi, assim como com muitos outros escritores brasileiros, portugueses, espanhóis. Levo-o à Tormes de Eça comer o célebre arroz de favas. Encontra-se com Voltaire em Paris e com a mãe de Pessoa em Davos, numa volta de Montanha Mágica. E com vários vultos nas barcaças que o levam para aqui e para ali. Enfim, o livro nem é grande (cerca de 320 páginas), mas para mim tem um certo infinito, como aquelas pistas de aeroporto infinitas que querem agora construir, porque são circulares. Ah, e temos uma personagem arrepiante (temos várias, mas esta é principal): a própria Leni Riefenstahl, a cineasta do Hitler.
Quais os momentos mais marcantes no teu percurso enquanto escritor?
Encontrar os editores e os leitores de todas as idades. A emoção de ver um editor de grande qualidade mostrar-nos que a grande merda que fizemos, quando pensávamos (não pensamos todos) em obras maestras, como dizem os espanhóis. A Pedreira, que me deu a mão para lá deste muro alto da edição, apesar de termos feitios e ideias muito diferentes (creio que nos estimamos e respeitamos muitíssimo). A Virgínia do Carmo, pela humildade e pela coragem. E tantos leitores, dos 11 aos 97. As visitas às escolas são um profundo privilégio, apesar de precisarem de uma afinação de egos e métodos pedagógicos. Todo o ensino do português precisa. Não se ensina a ler nem a escrever, que é o fundamental. Exagera-se em grelhas numa “ciência” de máxima subjectividade. Só os grandes professores de português nos salvam.
O que é, para ti, um bom livro? 
Não me meto na definição universal do bom livro, que não existe. Para mim é fácil ver um mau livro, mas aprendi que quem os escreve, se tiver a humildade de os destruir e avançar, pode vir a escrever bem. Quase sempre, os livros mal escritos são escritos por maus leitores. Mas há bons leitores que não conseguem encontrar a voz e a técnica. A pressa em publicar não serve de nada. Mais vale ser injustamente recusado do que auto-publicar sem crivo e a ciência do editor. Isto era um mau livro. Um bom livro, para mim, só para mim, é um livro que me pendura pelos cueiros, que me faz praguejar do quão bom é, que me faz desesperar por não conseguir “resolver” aquela voz, que quero sempre desesperadamente plagiar para aprender a fazer parecido. É, cada vez mais, o livro que me mostra oficina. Ouvi dizer, um destes dias, já não sei quem nem sobre quem, que o bom livro e o bom escritor deixam as costuras à vista. Nem que tenham de as esconder no processo.
E o que faz de um escritor um bom escritor?
Ser simples, não emitir opiniões como sentenças erga omnes e deixar-se de merdas. Lutar pelos livros todos, não só pelos seus. Ser humilde perante o leitor e o editor. Colocar o leitor no topo da pirâmide. Saber parar e questionar. Não atacar publicamente os pares, mas criticá-los e pensá-los muito em privado e olhos nos olhos ou até nas costas, se ele não estiver por ali, desde que tenha a decência de, na primeira oportunidade, dizer na frente o que pensa. Não ser subserviente ao statu quo vazio, mas respeitar os decanos, a sabedoria e a erudição, lutando por uma nova. E, se, no final de tudo, for uma reles pessoa, que se meta em casa ou no escritório e se dedique obcecadamente à literatura, para não magoar mais ninguém e fazer o bem aos vindouros, poupando os contemporâneos. Se for uma reles pessoa, por favor não escreva no facebook.
Para terminar, gostaríamos que nos indicasses os teus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.
Gosto muito de muitos portugueses, mas vou optar por não indicar nenhum. Porque os clássicos não precisam e porque não é por mim que os novos terão mais leitores. Tenho, no entanto, de dizer duas coisas: o Pessoa é omnívoro e deve ser consumido com tento. Contra mim falo, porque o tenho em todo o (novo) livro, embora jovem, criança. E deixem de opinar sobre o feitio da Ana Teresa Pereira como se fosse um ser humano, porque ela também já é um mito. O maior mito britânico português. Portanto, quanto ao restante, Proust – Recherche, tem de ser. Bukowski também, qualquer um. Bachelard e Platão (e este inclui Sócrates, como sabemos, porque Sócrates não escreveu uma linha), idem. Colette, que não é só para gajas (essa era um das parvoíces), Chéri. Qualquer poetisa que não chame a si própria poeta vale a pena, só por isso, embora não deva ser excluída das escolhas só porque usa um adjectivo de género masculino sobre si própria. Os sábios de rua de todas as aldeias do mundo, e que cada vez escutamos menos, com a excepção do Fernando Alves. Insisto na Bíblia, no Dom Quixote, na Karen (os meus são íntimos, digo depois). La arte de quedarse solo, de García Martín. Se isto é um homem, Primo Levi. Já chega. Obrigado!

2017-07-10

Tudo

Foi hoje, sim. Eram umas nove e tal da noite. E não peço mais nada. Não pedi isto hoje, logo hoje, não contava, não esperava, não sabia, mas ele veio ter com o pai. Subitamente percebi que era tudo para mim. Eu tinha pedido uma vitória sobre a Espanha, mas perdemos (nem sei bem se perdemos, se ganhámos uma equipa), mas afinal era isto. E isto é tudo. Não posso pedir mais. Ele já está no trilho de afastamento, e no entanto parece mais próximo do que nunca. É um puto duro, nada mimalho, com um coração profundo. Perceberam que isto é sobre mim? É. Está tudo aqui. Não preciso de mais nada. Foram dos melhores segundos e das melhores prendas da minha vida. Longe, em Bad Blankenburg, na antiga Alemanha de Leste. Eu, que me chega vê-lo de longe, das bancadas, a rebentar de orgulho, esteja ele no banco ou no campo. Não o publico para exibir perfeição ou felicidade. Publico porque é o que quero para mim hoje e acho que mereço.

#myboy
#myday
#volleyball

2017-06-14

14 de Junho, Diassaramago

Hoje, 14 de Junho, é Diassaramago. Faz 31 anos que Saramago e Pilar se encontraram fisicamente pela primeira vez no Hotel Mundial, em Lisboa, por volta das quatro da tarde. E este é o dia em que, logo a seguir ao almoço, será dada a notícia de um novo livro. Este grande Esse tem mais ou menos visíveis as personagens principais (ficarão quase todas claras por volta das duas da tarde, para que ideia assente até às quatro) - que são as personagens principais de muitas literaturas - e estará deformado e borratado até depois do almoço. Mas este Esse não é apenas sobre Saramago e Pilar. Parte deles para toda a literatura portuguesa e de toda a literatura portuguesa para a literatura universal. É ambicioso, mas não é pedante. Descarna a ignorância universal destes tempos (nenhum de nós pode saber tudo e muitos de nós ainda acham que só temos de saber até ao século XX, enquanto a maioria age como se só tivesse de conhecer o XXI ou, pior, apenas própria década) e responsabiliza-nos a todos por uma nova erudição. Há que respeitar profundamente os poucos que ainda a têm, mas não podemos continuar a facilitar, mesmo não a tendo, ou tendo-a poucos. Até lá, bom dia. E obrigado por iniciarem comigo esta terceira aventura literária.

2017-06-12

Somos todos (“verdadeiramente”) Bukowski ou como ser cínico e amar

 Eu não podia estar aqui. Não devia estar aqui agora, na "suite presidencial" de um hotel de asco pegado a um mall gigantesco nos arredores de Nova Iorque. Não, não, já perdi a frase. O Bukowski teria dito o lugar exacto, a rua, o beco, e não ia escolher um hampton qualquer, nem pensar em escolher o fio de baba tóxico de um hampton qualquer, ia para o outro lado, para sul, para o meio do barulho e da fealdade, das sobras da américa, onde dissecaria de forma meticulosa o ciclo de vida das lagartas nojentas que penetram a grande maçã até à inconsciência. Aqui, nesta merda de lugar, ainda se fuma e eu estipulo que sou advogado num escritório de advogados em Manhattan que ocupa dois edifícios e tem mais população do que esta parvónia de onde eu não consigo sair desde puto sob o estiolado pretexto das raízes, mais uma mentira urbana que me levará depressa à morte. Estou farto de gastar dinheiro, mas ainda não estou suficientemente farto de o ganhar para os mandar a todos à merda, o que eu já deveria ter feito. Era o meu máximo objectivo ao dobrar os cinquenta – ainda vivo aqui para os mandar a todos à merda antes de me afeiçoar à lapidação da ilha mais desejada e sobrevalorizada do mundo.


Estou a dispersar. Na verdade, só abri este texto para declarar a minha amizade a duas personagens ficcionais que estou a criar para o meu último livro, aquele que vou deixar inacabado, mas ainda não afinei o cinismo para o dizer de uma forma suportável para mim próprio. Se não é para mim próprio, para eles pode ser fatal. São um homem e uma mulher.


Nunca detestei o homem. Só não gostava da personagem que ele tinha composto em público. E é irónico eu dizer isto, porque, no regresso de carro de um festival literário no México, tínhamos mil quilómetros pela frente e não íamos estar calados como no avião entre Nova Iorque e Los Angeles, ele disse-me que a minha personagem pública era má e que eu tinha de fazer alguma coisa para mudar isso. Hoje eu sei que o que ele queria dizer é que eu não era suficientemente cínico e que um ser humano, qualquer ser humano em qualquer ofício, não pode aparecer aos outros como uma pessoa sensível e virtuosa, rodeada de amigos, principalmente de amigas, portanto um incorrigível onanista. O que aconteceu depois foi assombroso. Embora eu tenha a certeza de que, ainda hoje, ele não gosta verdadeiramente de mim, conseguiu que eu gostasse verdadeiramente dele. Passei a observá-lo com honestidade e lealdade, o que não fazia antes. Nunca lhe fiz mal, nunca disse mal dele a ninguém, excepto à minha mulher – mas isso não conta, como sabemos – , mas não queria saber dele. Quando nos informaram da editora que íamos estar juntos no México, e, pior, íamos juntos num avião e num carro e que, provavelmente, até dormiríamos juntos, por contenção de custos e partilha de quartos em hotéis de asco como aquele onde escrevo isto, creio que o desespero e a ansiedade tomou conta de ambos. Para lá ainda foi. Para cá, ele teve de falar. Reflecti sinceramente no que ele me dissera, disse-lhe que ele não tinha razão, mas tinha. Não a tinha toda, mas tinha metade dela, e ter metade da razão é tê-la toda, por não haver, no nosso século, tempo nem condição para conceitos muito claros, muito menos precisos. Eu, por ser suficientemente burro para me achar inteligente, adequei a minha existência pública a metade dos ditames do rapaz. Portanto, a metade da razão. O que é curioso é que ele próprio se encheu, quase até ao desespero, de ser um cínico urbano e declarou aos seus amigos radicais que ia abandonar a seita. Abandonou a seita e abandonou Nova Iorque e foi viver com a mulher para a ilha onde tinha nascido, uma ilha que ninguém conhece em frente ao farol de Montauk, só visível do céu durante dias límpidos de verão, que em Montauk são dois ou nenhum. Aí, a infinita curiosidade dele, que, quando misturada com cinismo, era insegurança descarnada, perdeu cinismo e ganhou paciência e sabedoria. Então ele começou a crescer. E crescer até um ponto em que, mesmo que seja pequeno, como eu, já me parece maior do que os nossos pares. Reconhecido, nunca deixei de lho dizer, passo a passo, o que ia vendo. Hoje ele até consegue ver em si próprio que a forma bem articulada como leva todas as suas intervenções sobre qualquer assunto é insegurança e timidez. Nas entrevistas, quase não lhe fazem perguntas, ou, as que fazem, já foram antecipadas por ele. A questão é que esse discurso articulado vai melhorando cada ano que passa. Se ele é humilde ao ponto de preparar e pensar aquilo que vai dizer e depois chega lá e diz tudo, ao ponto de não conseguir encaixar o humor e as indirectas como antigamente, na altura em que a vida dele era apenas humor e indirectas, tornou-se talvez o primeiro ser humano em que o decesso de humor, sendo uma limitação, não o tornou pior pessoa, pelo contrário. É simples e humilde, deixa as folhas em branco para nelas escreverem. E eu escrevo hoje essa espécie de declaração de amor para lhe dizer o que, sei hoje, ainda lhe falta. Foi claro na última intervenção pública que eu lhe ouvi: falta-lhe voltar a ser ilhéu. No conteúdo, no que mostra vindo de dentro, todo ele é genuíno, ainda que pensado e preparado, mas ainda fala como um novaiorquino afectado de Manhattan. Manhattan perdeu a condição de ilha, porque é a praça do centro do mundo, o mais ligado de todos os territórios. Mas ele é ilhéu. Nasceu e vive numa ilha cuja identidade hoje assume e promove. Perderá, um dia, o tom afectado de Manhattan. Nesse dia, será o mais perfeito de todos os imperfeitos pares. E eu torço por ele. Do fundo do coração onde o deixei chegar, ainda que eu não esteja no dele. Não faz mal. Nós, os falsos cínicos, os que precisam da voz de Bukowski para dizerem as coisas mais bonitas
– como as cidades as comem –, sempre quisemos o bem dos outros mais do que o nosso.


Já para ela, escrevo porque ela falou da intimidade literária numa entrevista e há no presente – e do presente ninguém fala – ilusões de aproximação e regressão, decisões de erradicação e dispensa de pessoas e grupos e mesmo de vidas inteiras. Escrevo para todas elas, as mulheres da minha vida, e há-as a chegar todos os dias, embora cada vez menos, mas para isso decidi reescrever à luz de Bukowski o meu único livro que é verdadeiramente auto-biográfico – antes disso, vou alinhar em grupos de sevícia a autores ou artistas que voltem a dizer publicamente que todos os livros são auto-biográficos, podemos arrancar-lhes os pêlos do cu a frio, por exemplo, a eles e a todos os assassinos da palavra poetisa: ainda tolerava que chamassem poetas às poetisas nos cem anos que se seguiram às poetisas menores, às meninas dos prostíbulos e dos versinhos, mas nenhuma mulher que escreve poemas decentes precisa já do desplante de lhe negarem – ou de negar a si própria – a palavra feminina para o que ela faz ou diz: apenas poemas. Ainda que um poema lhe possa conceder a vida eterna, não, nunca uma mulher de corpo inteiro será poeta. Para tal, passo a oferecer o rascunho de um poema definitivo que pode substituir a sevícia dos pêlos arrancados a frio. Mais tarde o arrumarei por versinhos:

poeta, assassina, poetisa, e também temos sem vírgulas

não existe uma só poeta mas existe uma só Sophia as poetas (que não existem) chamam-se a si próprias isso (porque a Sophia quis ser poeta e elas querem ser Sophias – mas não são) (ou então querem professar Sophia e ela não quer ser professada) (ou então querem divinizá-la e ela nunca o consentiria) mas não há poeta nenhuma depois de Sophia não há poeta nenhuma depois de Sophia não há poeta nenhuma depois de Sophia e como é óbvio poeta assassina poetisa e também temos com vírgulas os tempos mudaram não sejam ridículas em meio século nem a puta do verbete com dois géneros conseguiram só mania só manias só tiques (poeta nenhuma)

Finalmente, a ela, não à Sophia, mas à mulher a quem hoje dirijo uma espécie de declaração de amor, se a amizade for isso, digo-lhe o seguinte:
Muito antes de teres a coragem de fugir para Paris, muito antes de seres despedida de forma crua em Nova Iorque, onde dois anos antes te tinham dito que serias a obreira de um suplemento literário que seria mítico pelos anos vindouros, eu ouvi-te. Ouvi-te sem programa e sem futuro. Ouvi-te no presente. Nunca te penalizei com o corpo. Nunca te exigi nada, muito menos tu a mim. E sabia que, para um mero café, terias de ter muita coragem. Neste presente não é fácil deixar o conforto das teclas, que podem bastar para se dizerem coisas substanciais, para o desconforto de um espaço com pó e máquinas de moer grão e cheiros, os nossos cheiros, a preocupação de tomar pastilhas para o hálito ou escolher o perfume certo, a esperança de que os nossos defeitos não esmaguem a primeira impressão, sei isso tudo. Mas entre nós aconteceu tudo ao contrário: não houve qualquer intimidade ou ilusão literária. Eu limitei-me ser ostensivo quando assumi que “escritor” era um adjectivo meu desde sempre, que não precisava de autorização dos que se prostituem, verdadeiramente, há décadas, para terem algum domínio sobre o meio literário autista e minúsculo, um meio feito de elementos, que, apanhados a sós e sem lhes ser exigido que vomitem sentenças, até são suportáveis, até escrevem, mas, apanhados em pequenos grupos e previamente amarrados em conjunto como vitelos para Rodeos em que eles pensam que são os cowboys, e não os vitelos, coitados, são insuportáveis e abjetos. E, quando fui ostensivo, ouvi. Ouvi os abismos, as ânsias, pressenti a pessoa valorosa que és e que estava, não perante mim, mas do outro lado da linha, a tentar ser o mais verdadeira que conseguia apenas com teclas, e eu, apesar de acreditar cada vez menos nas teclas, sabia que as tuas teclas eras tu. Cada vez que vejo o teu trabalho, cada vez que te ouço, sinto um orgulho quase paternal, e este orgulho paternal não tem nada de paternalismo, pelo contrário, é uma das virtudes humanas, que há quem chame mais genericamente de empatia, mas é mais do que isso, vai mais longe, é verdadeiramente isento de corpo e, no entanto, embora não haja cobranças entre amigos, pode haver dívidas incobráveis, e a tua única dívida perante mim é física, é um café em que deixamos que o silêncio se habitue à nossa presença, em que tentamos perceber se é possível estarmos calados ao lado um do outro sem dizer absolutamente nada e mesmo assim sermos importantes um para o outro e ser importante continuarmos ali, calados. Pelos anos fora, tomei várias decisões, sendo uma delas deixar que a ilusão da amizade me tomasse e deixar que o seu contrário, exactamente o seu contrário, a ilusão da estranheza, vencesse. O tempo, sempre o tempo, diz-me que venceu a ilusão da amizade, ao ponto de ter passado a ser real. Esse café? Não importa, pode ser às portas da morte de um de nós. Convém apenas que aconteça para que a falta dele não passe a desventura. E tu saibas que, quando penso ou digo que gosto muito de ti, não estou a usar a leveza e a facilidade das teclas e das existências virtuais.

Obrigado, poeta. Obrigada, poetisa. Que provavelmente não são poeta nem poetisa. Mas serão amigos no México, em Nova Iorque, em Paris. Poeta, poeta, é Sophia, e não há poeta nenhuma depois de Sophia.

PG-M 2017

2017-05-13

Já ganhámos

 Nota prévia: este artigo foi escrito na manhã da vitória, mas, sinceramente, não era difícil prevê-la. O mundo inteiro apontava para ela. Junto no final o vídeo da semi-final do Eurofestival, com aquela que, das seis interpretações oficiais (3 domésticas e 3 Eurovisão, incluindo as da vitória) foi a minha preferida;

Sabem o que se usa nas redes sociais? Escrever assim amanhã, quando o Salvador encher as capas de todas as revistas e jornais, não por ser um doente cardíaco bissexual*, mas por ter ganho o Festival da Eurovisão 2017, em Kiev, "eu, no dia da semi-final doméstica, disse logo que este rapaz e esta música eram do outro mundo". Ou seja, é por minha causa que ele vai ganhar. Não é. Mas vai ganhar. Na verdade, já ganhou. E é curioso que a minha admiração tenha deixado de se dirigir ao compatriota e à bandeira portuguesa, que certamente serão uma parte do gozo, da emoção e do orgulho. A minha admiração dirige-se à universalidade e beleza da canção e à universalidade e singularidade (parece contradição, mas não é) do próprio Salvador. Creio, como se rezasse uma prece, no que vou dizer: a Luísa Sobral escreveu uma das melhores canções dos últimos séculos, não da década, não deste século, não deste e do anterior, mas de sempre. Tenho dito que é uma espécie de "Yesterday", mas é muito mais bonita. Não está em causa o mérito da Luísa, mas calhou. A conjugação das estrelas, do tempo, do momento, das redes sociais e a singularidade do intérprete fazem o resto. Também não acho que se devam preocupar com o legítimo direito ao cinismo e à fuga à unanimidade. Deixem-nos, coitados, porque já lhes basta sentirem-se sempre infelizes e não serem capazes de tomar o imenso banho de luz que esta canção dá cada vez que é cantada e não só pelo Salvador - eu já vi todas as sensibilidades rendidas, desde o bêbado de tasco até aos domésticos, dos agricultores às sopranos, mesmo os que, a princípio, aderiram a outras músicas e estranhavam o histrionismo ou a expressividade ou a singularidade do Salvador. Na verdade, essa "diferença" é só a marca do inérprete, é um factor mais na parte menor: a liderança de casas de apostas e a vitória num festival. Mas a canção está acima do Salvador e da Luísa, está já pelo mundo inteiro. A letra, em toda a sua simplicidade, agrega milhares de páginas de filósofos. Esta coisa de o amor ser tão elevado e intenso que chega para os dois e dispensar um deles de o sentir é, afinal, a história de séculos de mulheres, principalmente de mulheres, esses seres superiores. Não admira que tenha sido escrito por uma. Depois da semi-final doméstica, a canção já era trauteada nos carros a caminho do trabalho. Depois de ter ganho o Festival da Canção e ser o legítimo representante de Portugal na Eurovisão, começou a ser cantada, imitada, mimetizada, pela Europa toda, com Espanha
como a principal entusiasta, porque, afinal, com a excepção de "devagarinho" e "pelo", as palavras são quase iguais em castelhano. A orquestração é magnífica e fixa logo dois terços dos ouvintes na abertura. Depois de ter actuado na semi-final da Eurovisão, então, não há limites. A canção é pedida na abertura de bailes de casamento em todo o mundo, é cantada pelos ucranianos em
português - sim, pelos vistos quase todos a querem cantar no original, e, aqui sim, é um serviço maior à nossa língua -, há já várias covers de altíssima qualidade, da Austrália ao Japão, do Japão aos EUA, que mostram que o mérito é da própria canção, e eu tenho a certeza de que a Luísa fez um clássico de todas as eras, que será interpretado por todos os estilos musicais. O próprio Salvador se encarregou de gravar para um amigo uma versão em flamenco. Vi a irmã e o Salvador nos ensaios gerais e há duas coisas curiosas: o Salvador é melhor intérprete do que a irmã para esta versão - esta é a primeira. A segunda é que, mesmo que o Salvador nunca se repita, fruto da sua alma jazzística, a canção sai sempre bem. Portanto, a Luísa fez uma canção à prova de bala. Durante anos queixámo-nos de que nunca ganharíamos isto porque o sistema estava "feito" para ganharem os países com maior emigração - a nossa não é baixa, mas não é a maior. Na verdade, se essa perversão tem alguma verdade, é o único factor que nos pode tirar a vitória hoje. Mas eu creio que ganharemos e que já ganhámos.
Na verdade, é todo o mundo que ganha, porque é uma das melhores canções de sempre que ganha. Encerro com um pequeno apontamento: bonitos os portugueses, aí sim. Em quase todos os comentários que li no youtube às várias covers e produções caseiras estrangeiras deste "Amar pelos dois", há sempre palavras de gratidão de portugueses.
É aí que somos grandes: chamamos os outros para a nossa celebração. E muitos vêm. Mas, na verdade, o que Portugal hoje leva ao palco é o universo. Esta canção já é do universo. Era bonito que trouxesse o troféu que já ganhou e que será falado pelos séculos adeante.

* dado o elevado número de leitores deste post, o que eu já previa em caso de vitória, voltei a experimentar daquelas reacções azedas dos que tresleram o que aqui foi escrito. Eu abro este post a apontar o dedo àqueles para quem este nosso músico, que ficará na história por todo o sempre, foi apenas vida privada. A esses e aos tiques das redes sociais. Não estou a expressar uma opinião ou a estipular um facto. É evidente que não a tendência sexual do Salvador e a vida privada são apenas fait-divers para vender.  Não dele. Não da essência deste momento notável. Muito menos meus.

Nota póstuma: no dia da nossa primeira vitória na Eurovisão o Benfica foi tetracampeão pela primeira vez e o Papa Francisco I visitou Portugal para o centenário das aparições em Fátima. A cobertura televisiva de Fátima foi de grande qualidade. Quanto ao resto, isto foi o que eu escrevi uma hora depois da vitória: "Tenho pena que o Salvador não tenha ganho num ano em que o FCP fosse campeão, para eu mandar à merda certas televisões que anunciam em rodapé, sem tirar as imagens dos Aliados (seriam os Aliados) do ecrã, uma vitória histórica e emocionante de pelo menos três gerações de portugueses que viveram isto ano a ano e fracasso a fracasso, com músicos tão bons ou melhores, e não pensarem que era decesso de poder de encaixe. Não aceito um certo jornalismo e uma certa falta de visão. Eu estava num shopping com as televisões todas a dar a vitória no futebol e nenhuma sintonizada na RTP1, mas quando foi certa a nossa primeira vitória na Eurovisão foi um bruá belíssimo pelos pisos todos. Graças aos telemóveis e às apps que tanto criticamos. Eu sei que este país vai saber celebrar isto, mas tenho pena que não haja coragem nas televisões que não transmitiram o festival para afrontar esta miséria da cultura futebolística por um momento tão belo. Subitamente, como ele próprio disse, ganha o que importa, ganha o que é, não o que parece. Se o FCP tivesse sido campeão, eu queria lá saber. E que diferença faria uma noite de glória da música portuguesa em três semanas de festejos ciclicamente repetidos? Ah, eu sei. É o dinheiro dos anunciantes, os que pagam tudo, mesmo os empregos. Vendamos tudo ao desbarato, pois."

 

PG-M 2017
fontes das fotos 1 2 3

2017-03-26

Sónia Braga é nossa

Declaração de amor e de interesses: escrevo sobre a Sónia Braga que foi doada a Portugal pelo foral da Gabriela. Escrevo, pois, em interesse próprio. Ainda que Sónia Braga seja respeitada dos dois lados do Atlântico, só em Portugal é venerada. Se forem pelas ruas de qualquer cidade ou aldeia portuguesa e baterem às portas das casas perguntando aos homens se deixariam tudo para beijar chão que ela pisasse, não há um único português que diga que não, a não ser que ainda seja tuga. Sim, porque o português deixou ser tuga, esse diminutivo inventado no Brasil e usado, ao longo dos tempos, e simultaneamente, com as propriedades do amor e do carinho, mas também da sobranceria e da ignorância, pois, entre outras razões, o português deixou de ser tuga quando a Gabriela nos entrou nas casas. A Gabriela garantiu-nos, finalmente, a liberdade conquistada em Abril e reforçada e temperada em Novembro. Só nesse dia o português ficou livre, deixou de ver apenas rectas e ângulos rectos e passou a ver morenas açucaradas. Era uma segunda-feira, 16 de Maio de 1977, três escassos dias depois do 13 de Maio, em Fátima, três escassos anos depois da revolução. E, apesar da curva e do corpo da morena, do cheiro tropical das imagens e da pouca roupa da Gabriela, foram os avôs e avós de Portugal os primeiros a levantar a mão para que se fizesse silêncio e nada fosse perdido, passando pelos deputados que não deliberavam ou votavam durante a novela, até ao épico último episódio, numa quarta-feira, 16 de Novembro de 1977, que deixou Portugal de ressaca. O Brasil tinha uma história antes de Gabriela. O Portugal moderno não. Daí que Sónia Braga seja nossa e não se fale mais no assunto. 
Vem isto a propósito da Sónia Braga a beirar os 70 anos que protagoniza o pujante filme Aquarius, de 2016,  e que é um justa consagração. Quando ela amarra o cabelo e deixa ver a parte de trás do pescoço, é ainda a menina de há quarenta anos. Aliás, ela é a menina de há quarenta anos em tudo, não só na parte de trás do pescoço, e não se fala mais nisso. A forma como se move, a forma como nos olha naquele olhar castanho-nogal que o sol do Recife inflama. Não há um único pormenor em Sónia Braga que denote que o tempo passou, e seria pérfido quem viesse lembrar algum detalhe irrelevante. Quando ela pega nos mesmo vinis - dos Queen, do Roberto Carlos, do John Lenon, do Gilberto Gil - que nós cutivámos, sabemos que este é o culto perfeito e definitivo. Por mim, deixo a passageira afirmação de que aqui está a eternidade dela, isso e o remate de um mito, que Portugal bem merecia - finalmente houve um realizador à altura para nos dar isto, que devia ser obrigatório para a nossa geração e para a anterior, a passageira afirmação de que "Aquarius" é um grandíssimo e imprescindível filme que nos vinga a alma no tempo do passado recente e no presente, glorificando Sónia Braga pela eternidade como a cena de abertura do filme da Gabriela, com que encerro este, e depois da qual nos poderíamos encomendar ao criador. E a menos passageira afirmação de que a nudez da Gabriela não é menor do que a de Clara, à porta dos setenta, e nós desejamos sem culpa a mulher que nos fez homens da mesma forma que há quarenta anos, e todos nós beijaríamos hoje e para todo o sempre o chão que Sónia Braga pisa. Amém.

PG-M 2017

2017-03-18

Tabacaria espontânea: Carol 10.000

 "Cê pode ler textos meus com o seu sotaque maravilhoso?", "Claro que sim." E, digo eu, maravilhosos eram os textos da Carol. "Ai, que maravilha!" (dizia ela, ouvindo o meu sotaque, que não a minha leitura, porque nem sequer leio ou digo bem). "Eu sei a Tabacaria!", "Sabe? Que parte?", "Eu acho que toda", "Toda?", "Sim.", "Seria capaz de a dizer agora, sem preparação, e autoriza que eu filme?", "Claro." Armei o telemóvel, o mesmo que filmara o "Happy" de Minas por esses dias, e filmei seguido, e à primeira. Cada vez que sou notificado de um comentário, venho rever. É maravilhoso. Mais até do que a interpretação, o facto. A quem já ocorreu uma Tabacaria espontânea? A oito mil quilómetros de casa, eu lembro-me de que só queria chegar e chutar isto para a rede. No avião de regresso, mostrei o vídeo ao sobrinho do próprio autor. Ele espantou-se, como todos. Esta menina, a Carol, a quem chamámos Silvia Plath, e a Lívia, que assiste primorosamente, a quem chamámos actriz, já entraram na universidade. Ainda a quiseram trazer cá, e deviam, mas na verdade ninguém trouxe. Quase a celebrar as dez mil visualizações.


2017-03-03

Marion forever (and ever, and ever, and ever)

Marion perfeita, como nunca. 
Este é um alerta urgente e essencial para cinéfilos, já que de nada vos vale cruzar o imdb com o metacritic, neste caso. Já aqui tenho escrito que eu já era fã da Marion Cotillard antes do merecido óscar por "La Môme" (não foi merecido, foi obrigatório).
Vi-a dispersar-se um bocadinho em Hollywood e em inglês. Mas também a fui vendo reencontrar-se com a grande actriz que é. Bom, não é grande, é maior. Mas nunca tinha visto tudo o que gosto nela, ponto por ponto, luz por luz, sombra por sombra, num só filme. Esse filme é, no original, "Mal de Pierres", que em português ficou com o título lamechas "Um instante de amor", mas é tudo menos isso (não é lamechas, nem o amor, neste filme, pode ser visto como um instante). É um filme completo e até algo inesperado. Acima de tudo, é o Olimpo para Marion, é um festival de Marion, totalmente esquecido pela academia americana, mas amplamente nomeado para os Césares (melhor actriz, claro, mas também a excelente realização de Nicole Garcia, entre outras nomeações), para a Palma d'Ouro, em Cannes, etc, etc.Quando penso que andam aí com La La La para cá, La La La para lá, e filmes como estes se perdem no ruído. Como diria a minha amiga Ana Saramago, com o seu hardcore fofo, La La La o c.! Marion forever, isso pode ser debruado a ouro! Não percam, sim? E depois digam se tenho ou não razão    

Ps: recordo o que escrevi em 2008: 

"Antes que o Óscar te queime a substância querubim de incêndios dourados, Antes que venham os iluminados decidir que a tua excelência não se pode consentir (o que raio é o overacting?), afinal tens toda uma pátria aos pés, e agora o mundo, e eu, este anónimo que teima em ver as estrelas de frente, as do céu não as caídas do cinema, e que desde o minuto um, depois de ter ver possessa de Piaf, aquele minuto em que desembrulhamos o corpo da magia do cinema e nos levantamos do lugar, calcamos as pipocas sobre a alcatifa e declaramos, já com a luz branca do shopping a surgir pela porta

- Magnífico!

Repara que eu nem sequer sabia que tu eras uma menina quando te vi levar "La Môme" até à morte, só podias ser uma actriz francesa consagrada que a selecção de Hollywood não tinha deixado chegar, depois procuro-te e sei que és bonita não complexa como Piaf, és elegante, mesmo olímpica, não mirrada como Piaf, és transparente e não negra como Piaf, vejo o filme de novo e ainda fico pior, mais inquieto, será que o Cinema vai deixar passar este monumento em claro?

Não deixou.

Ganhaste em casa o César, o improvável Bafta na Britânia e agora o universal Óscar, e mais quinze ou dezasseis prémios todos merecidos.

O que fizeste no "La Môme" ("La vie en Rose" em Portugal) é inefável. Tremendo.Não sei para onde vais, Marion, gostava que não fosses a lado nenhum de especial, mas a verdade é que, do ponto de vista divino, já és deusa, e nunca se é deusa cedo demais.Ficas para sempre, gostava apenas que ficasses mais um pouco e não fosses Monroe, Dean, Phoenix ou Ledger.

Hoje fui buscar a minha bisavó Germaine Lechartier, lá acima às memórias de um impreciso noroeste francês, para dar sentido ao meu sangue que fervilha como se fosses cá de casa."

PG-M 2017

2017-01-20

Z4


quandos irrompes
para a pipe
o teu corpo está deitado no cosmos
na posição das galáxias
ao longe
percutem supernovas
e silêncio


PG-M 2017
foto de José Rodrigues

2017-01-05

Deixa que eu levo os miúdos à escola


Deixa que eu levo
os miúdos à escola
e prometo
combater o vazio
nos olhos deles
a secura nas bocas
dos professores
as lágrimas nos
patamares o frio
no pbx a luz branca
que zumbe no wc


Deixa que eu vou
comprar pão
e prometo
combater o vazio
na boca deles
a secura nos olhos
dos clientes
as lágrimas
na mesa do canto
o frio que sai
do calor da padaria
para o profundo
das casas

Deixa que eu levo
os sorrisos da cidade
à casa dos loucos
que acenam à multidão


Deixa que eu fumo
o teu cigarro
quando for proibido

Deixa que eu faço
amor por ti
direi às mulheres
como estão bonitas
voltarei a casa inteiro
sem poemas
complicados

já te falo do fumo
nas chaminés e
do cheiro a
estrugido
das oito da noite

combaterei a solidão
e as portas fechadas
ninguém faz comida
quando quer morrer

ninguém se faz só

só por fazer


PG-M 2017
fonte da foto

2016-12-30

Young and noble champions

(in english in the end) Esta história tenho de contar. Álvaro Gímeno e Guilherme Moreira, os melhores pontuadores absolutos do Torneo Navidad de Voleibol 2016, o Álvaro com quase 4 sets só à sua conta, o Gui com quase 3. Para quem gosta de voleibol, voleibol a sério, e sabe que não é sobre vitória e derrota, mas sobre pequenas histórias particulares e grandes duelos públicos, sabe que assistiu a vários na noite do segundo Espanha-Portugal (3-2). Gostava de destacar dois, entre muitos: o surgimento do Manuel Meirinho. Para um miúdo que veio do zero, como voleibolista, há dois anos, foi notável a garra e o esforço de superação neste jogo - na negra, empatou sozinho o jogo a 3-3, depois do 0-3 inicial (alguns "kill blocks" e picos ao metro, além dos gritos "ronaldianos" que mobilizaram toda a equipa - "siiiiiiiiiiim" e "eu estou aqui").
O outro foi este, entre o jogador fantástico que já é o espanhol Álvaro (mortífero no serviço, potente e inteligente no ataque, eficaz no bloco, enfim, tudo, e que se conserve assim :) ) e o craque aspirante a ser tão bom quanto ele, o cavalheiro de honor :), o meu Gui.

O Álvaro ganhou, mas o mais belo foi a luta, particularmente a forma como o Guilherme se foi artilhando para receber aquele serviços mortíferos. No final, a imagem documenta-o. Não é um cumprimento banal à rede: são sorrisos francos, a sapatadinha carinhosa, o respeito, e, estou certo, um princípio de amizade. Não tenho ilusões: sei bem que a maioria das pessoas, mesmo os amigos, lidam mal com a visibilidade ou com o falível conceito de sucesso, um conceito que sempre detestei. As coisas até podem acontecer e ser mostradas lá em cima, no absoluto, mas estes dois rapazes estiveram onde todos estiveram e esteve o Manel há dois anos: no início, no absoluto zero. E trabalharam muito para chegar aqui - e resistem quando estão lá dentro. É onde estão muitos que podem chegar aqui e mais longe. As conquistas desses também podem e devem ser contadas, desde que não percamos a noção do ridículo. O que aqui lêem é só a festa de um pai orgulhoso. Não acho que isto seja o máximo. É só bonito. Como amante do voleibol, agradeço a estes craques o espectáculo que me ofereceram. E ainda nem 18 anos têm. Ps: alguém identifique o Manel Meirinho aqui, que eu não consigo; mas ele merece ler isto. (já consegui, afinal! :) )
 
This story I have to tell. Álvaro Gímeno and Guilherme Moreira, the best absolute scorers of the Torneo Navidad 2016, Álvaro with almost 4 sets only to his account, Gui with almost 3. For those who like volleyball, volleyball seriously, and know that it is not about victory and defeat, but on small private stories and great public duels, know we watched several on the night of the second Spain-Portugal (3-2). I would like to highlight two, among many: the appearance of Manuel Meirinho. For a kid who came from scratch as a volleyball player two years ago, it was remarkable the claw and the effort of overcoming in this game - in the 5th and final set, he drawed the game alone, recovering from 0-3 to 3-3 (some kill blocks and spikes at one meter and those "ronaldian" war cries that mobilized the all team - "siiiiiiiiim" (yes!) and "eu estou aqui!" (I am here!)).. The other was this, between the fantastic player who the spaniard Álvaro already is (deadly in the service, powerful and intelligent in the attack, effective in the block, anyway, everything, and we ask he is kept like this :)) and the aspiring ace to be so good as he, the gentleman of honor :), my Gui. Álvaro won, but the most beautiful was the fight, particularly the way Guilherme was shining to receive those deadly services. At the end, the image documents it. It is not a banal compliment in the net:
the sincere smiles, the affectionate hand shake, the respect, and, I am sure, a principle of friendship. I have no illusions: I know very well that most people, even our friends, do not deal with the visibility or fallible concept of success, a concept I have always hated. Things may even happen and be shown up there, in the absolute, but these two boys were where everyone was and Manel was two years ago: at first, at zero absolute. And they worked hard to get here - and resist inside the court. It is where many who can get here and further are. Their achievements can and should be counted as long as we do not lose the notion of ridicule. What you read here is just the feast of a proud father. I do not think this is the maximum. It's just beautiful. As a volleyball lover, I thank these players for the amazing performance they offered me. And they are not even 18. Ps: Someone identify Manel Meirinho here, which I can not; But he deserves to read this. (I got it, later :) )

Algumas fotos (some photos):