"Cê pode ler textos meus com o seu sotaque maravilhoso?", "Claro que sim." E, digo eu, maravilhosos eram os textos da Carol. "Ai, que maravilha!" (dizia ela, ouvindo o meu sotaque, que não a minha leitura, porque nem sequer leio ou digo bem). "Eu sei a Tabacaria!", "Sabe? Que parte?", "Eu acho que toda", "Toda?", "Sim.", "Seria capaz de a dizer agora, sem preparação, e autoriza que eu filme?", "Claro." Armei o telemóvel, o mesmo que filmara o "Happy" de Minas por esses dias, e filmei seguido, e à primeira. Cada vez que sou notificado de um comentário, venho rever. É maravilhoso. Mais até do que a interpretação, o facto. A quem já ocorreu uma Tabacaria espontânea? A oito mil quilómetros de casa, eu lembro-me de que só queria chegar e chutar isto para a rede. No avião de regresso, mostrei o vídeo ao sobrinho do próprio autor. Ele espantou-se, como todos. Esta menina, a Carol, a quem chamámos Silvia Plath, e a Lívia, que assiste primorosamente, a quem chamámos actriz, já entraram na universidade. Ainda a quiseram trazer cá, e deviam, mas na verdade ninguém trouxe. Quase a celebrar as dez mil visualizações.
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2017-03-18
2014-05-13
Braszil
Esperei. Esperei uma semana e fiquei à espera de que o Brasil me saísse do corpo.
Os cheiros, os sabores, os fusos, os medos, as expectativas. Queria escrever em estado de consciência, e, em certa medida, o animal de alma cheia é um animal inconsciente, ou pelo menos subconsciente. Cedo percebi que nada mudava. A única diferença do terreno que deixara no fim de Abril fora o medo e o respeito pelo gigantismo e pelo perigo de São Paulo, onde, apesar de tudo, não passei da porta - a nobre Avenida Paulista em dia de Parada Gay. Porque em Minas Gerais a sensação mais estranha e inesperada de todas foi sentir que estava perto de casa. Não sei se a arquitectura, se o perfil das ruas, a cor das casas, o peso do ar, o sol - por ser inverno e estarmos a mil e duzentos metros de altitude o tropicalismo esbate-se -, mas a verdade é que só o imenso oceano agride esta certeza de sermos um só povo, uma só cultura, uma só pátria.
O Brasil é longe por causa do mar.
É mais longe de Portugal do que o pólo norte.
De avião, é tão longe de Portugal como Tóquio de Frankfurt.
Não se tem essa noção até se ter passado dez horas num avião, dois terços delas apenas sobre o mar. E isso é injusto e violento, para o tanto que podíamos fazer lado a lado, e que, por obra e graça de músicos, pintores, escritores, vamos fazendo, não por esforço de governos ou editoras, tampouco da CPLP ou de acordos ortográficos anquilosados, essa raça de gente que continua a brincar às uniões e às irmandades mas não é capaz de fazer uma coisa tão simples como permitir uma ponte de livros duty free com portes subsidiados entre os dois países, pelo menos para intercâmbio entre eventos culturais. Não. É quase impossível e incomportável enviar livros para o Brasil. Já pessoas não.
E nós fomos.
E nós fomos.
Deixem-me também dizer-vos, para afastar isto do sistema, já que, sinceramente, as saudades do grupo e da sua dinâmica são mais que muitas: para o Brasil partiram cinco indivíduos que escrevem, regressaram seis irmãos. Pode parecer "cheesy" dizê-lo assim, mas houve um trabalho activo de adaptação de cada um aos outros, foi encontrado um ponto médio onde o grupo funcionava perfeitamente, foi deixado o espaço individual - mais do que isso, respeitado e protegido o espaço e as opções de cada um -, encontradas também as caricaturas, o momento em que cada um era o artista e os outros ouviam, e, nas palestras, todos estiveram presentes para todos.
Depois foram as rotinas, que se podem ver no vídeo que resume a nossa presença no Brasil para quem nos recebeu e para quem nos viu partir: o nosso "Ponto" (onde tomávamos o primeiro café da manhã, um "expresso puro"), na esquina das ruas Minas Gerais e Rio de Janeiro, servido sempre com um "copito de três" de águas gaseificadas e, quase sempre, pão de queijo; o caminho para o Teatro da Urca, onde decorre o FLIPoços, passando pelo magnífico jardim do Parque José Afonso Junqueira, projectado pelo arquitecto Eduardo Pederneiras em 1928, e que conta hoje com 1123 espécies de árvores, rodeadas de belíssimos jardins ornamentais, onde dancei com a Lívia e com a Sylvia Plath (Caroline Nunes) e esta disse a "Tabacaria" de um fôlego, para a Lívia ouvir com uma candura e atenção que nunca se viram no público de um poema :). Pela metade, as bebidas no charme do Palace de Poços. No final desse percurso, já em frente ao teatro, a nossa passadeira "Abby Road", atravessando a Avenida João Pinheiro. Depois ruas de esquadria com comércio autêntico, uma perdição porta sim-porta sim, porque Poços de Caldas protege-o: nas feiras de artesanato, por exemplo, só são permitidos artesãos locais.
Para bem comer, o Bepi, cujo dono aparece no vídeo a dançar a chula, e pela noite o Boteco Dom Pedro, onde fomos recebidos como reis por uma portuguesa, aliás tripeira, a Dulce - era consensual que se tinha comido aqui uma picanha uruguaia suprema, acompanhada de cerveja Brama ou Skol.
Pelas ruas da cidade, dia e noite, falou-se de tudo, desde o dia contra-tudo-e-contra-todos ao dia de sermos-positivos, ao dia filosófico-religoso, ao dia politicamente centrado, ao dia da literatura e da edição e dos livreiros, uma comunicação total que transvazou nas palestras, que as meninas mais atentas e críticas disseram terem sido as melhores, individualmente e em grupo, do festival nos últimos três anos.
E tudo culmina nesse espírito omnipresente a que chamámos Serápio, e que o Luís Miguel Rocha descreveu, à chegada, melhor do que ninguém:
"Há uma personagem que sobressai na aventura brasileira: o seu nome é Serápio. Inventado pelos seis na manhã do primeiro dia, tornou-se omnipresente em todas as conversas. A sua omnipotência demonstrava-se através de palavras curtas em frases longas e toques no ombro a que se seguia a evocação dos nossos nomes próprios e uma pausa de alguns segundos como se não se lembrasse por que nos tocara. O Serápio não existe, a não ser nas mentes conturbadas de seis escritores, mas foi o nosso companheiro de viagem, sempre leal, sem nunca faltar, até à nossa extenuação. Um grande abraço, Serápio. Onde quer que estejas, deixa-te estar."
Fomos bem reais, contudo, na consideração, na estima uns pelos outros. Claro que a classe do Miguel Roza (uma surpresa absoluta, a caminho dos 84 anos) e a experiência e génio do Eric Frattini se destacaram, mas soubemos escutá-los, soubemos aprender, quisemos activamente aprender, e pode ser que, um dia, fiquemos parecidos com eles. Do Eric trouxe uma quantidade deliciosa de expressões ibéricas, sendo que a que mais se destacou foi "acojonante", já alvo de uma inesquecível tese de doutoramento de Arturo Pérez-Reverte sobre "cojones". Do Roza o símbolo, pela música, dos serões pessoanos, em "Un soir a Lima".
E reais foram a segurança Milene, a directora Gisele, o médico Rodrigo Falconi, as leitoras e actrizes e diseuses Caroline Nunes e Lívia d'Ângelo, Aidê, a livreira Cristina, a Dulce, a empregada do "Ponto" e tantos outros que não esqueceremos.
E uma instituição: o abraço brasileiro. Uma brasileira - pelo menos uma mineira -, ao cumprimentar-nos, dá um beijo na cara e depois abre os braços e cinge-nos o corpo num abraço forte e prolongado. Este abracinho é tanto mais notável quanto é a moeda de troca mais escassa no mundo civilizado: não sei se aplaca a solidão, mas ajuda muito. O corpo ressente-se quando está longe de casa e não os tem. Mas em Minas deram-nos a toda a hora. E como foi bom.
O vídeo, no final, foi comunicação pura, sem poluição de tiques ou certezas.
É, não parecendo, literatura em estado puro.
O Joel Neto disse às meninas, com assinalável dureza e realismo, que é irrepetível - não voltes ao lugar onde foste feliz :) - mas, como ficou dito acima (agora com toda a certeza) o animal de alma cheia é sempre inconsciente. Sempre.
Obrigado, Brasil. Ou Brazil. Ou, afinal de contas, nosso
Braszil.
Depois foram as rotinas, que se podem ver no vídeo que resume a nossa presença no Brasil para quem nos recebeu e para quem nos viu partir: o nosso "Ponto" (onde tomávamos o primeiro café da manhã, um "expresso puro"), na esquina das ruas Minas Gerais e Rio de Janeiro, servido sempre com um "copito de três" de águas gaseificadas e, quase sempre, pão de queijo; o caminho para o Teatro da Urca, onde decorre o FLIPoços, passando pelo magnífico jardim do Parque José Afonso Junqueira, projectado pelo arquitecto Eduardo Pederneiras em 1928, e que conta hoje com 1123 espécies de árvores, rodeadas de belíssimos jardins ornamentais, onde dancei com a Lívia e com a Sylvia Plath (Caroline Nunes) e esta disse a "Tabacaria" de um fôlego, para a Lívia ouvir com uma candura e atenção que nunca se viram no público de um poema :). Pela metade, as bebidas no charme do Palace de Poços. No final desse percurso, já em frente ao teatro, a nossa passadeira "Abby Road", atravessando a Avenida João Pinheiro. Depois ruas de esquadria com comércio autêntico, uma perdição porta sim-porta sim, porque Poços de Caldas protege-o: nas feiras de artesanato, por exemplo, só são permitidos artesãos locais.
Para bem comer, o Bepi, cujo dono aparece no vídeo a dançar a chula, e pela noite o Boteco Dom Pedro, onde fomos recebidos como reis por uma portuguesa, aliás tripeira, a Dulce - era consensual que se tinha comido aqui uma picanha uruguaia suprema, acompanhada de cerveja Brama ou Skol.
Pelas ruas da cidade, dia e noite, falou-se de tudo, desde o dia contra-tudo-e-contra-todos ao dia de sermos-positivos, ao dia filosófico-religoso, ao dia politicamente centrado, ao dia da literatura e da edição e dos livreiros, uma comunicação total que transvazou nas palestras, que as meninas mais atentas e críticas disseram terem sido as melhores, individualmente e em grupo, do festival nos últimos três anos.
E tudo culmina nesse espírito omnipresente a que chamámos Serápio, e que o Luís Miguel Rocha descreveu, à chegada, melhor do que ninguém:
"Há uma personagem que sobressai na aventura brasileira: o seu nome é Serápio. Inventado pelos seis na manhã do primeiro dia, tornou-se omnipresente em todas as conversas. A sua omnipotência demonstrava-se através de palavras curtas em frases longas e toques no ombro a que se seguia a evocação dos nossos nomes próprios e uma pausa de alguns segundos como se não se lembrasse por que nos tocara. O Serápio não existe, a não ser nas mentes conturbadas de seis escritores, mas foi o nosso companheiro de viagem, sempre leal, sem nunca faltar, até à nossa extenuação. Um grande abraço, Serápio. Onde quer que estejas, deixa-te estar."
Fomos bem reais, contudo, na consideração, na estima uns pelos outros. Claro que a classe do Miguel Roza (uma surpresa absoluta, a caminho dos 84 anos) e a experiência e génio do Eric Frattini se destacaram, mas soubemos escutá-los, soubemos aprender, quisemos activamente aprender, e pode ser que, um dia, fiquemos parecidos com eles. Do Eric trouxe uma quantidade deliciosa de expressões ibéricas, sendo que a que mais se destacou foi "acojonante", já alvo de uma inesquecível tese de doutoramento de Arturo Pérez-Reverte sobre "cojones". Do Roza o símbolo, pela música, dos serões pessoanos, em "Un soir a Lima".
E reais foram a segurança Milene, a directora Gisele, o médico Rodrigo Falconi, as leitoras e actrizes e diseuses Caroline Nunes e Lívia d'Ângelo, Aidê, a livreira Cristina, a Dulce, a empregada do "Ponto" e tantos outros que não esqueceremos.
E uma instituição: o abraço brasileiro. Uma brasileira - pelo menos uma mineira -, ao cumprimentar-nos, dá um beijo na cara e depois abre os braços e cinge-nos o corpo num abraço forte e prolongado. Este abracinho é tanto mais notável quanto é a moeda de troca mais escassa no mundo civilizado: não sei se aplaca a solidão, mas ajuda muito. O corpo ressente-se quando está longe de casa e não os tem. Mas em Minas deram-nos a toda a hora. E como foi bom.
O vídeo, no final, foi comunicação pura, sem poluição de tiques ou certezas.
É, não parecendo, literatura em estado puro.
O Joel Neto disse às meninas, com assinalável dureza e realismo, que é irrepetível - não voltes ao lugar onde foste feliz :) - mas, como ficou dito acima (agora com toda a certeza) o animal de alma cheia é sempre inconsciente. Sempre.
Obrigado, Brasil. Ou Brazil. Ou, afinal de contas, nosso
Braszil.
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São Paulo
2014-05-01
Discurso brasileiro
Nota:
ainda antes de publicar uma crónica sobre a semana no Brasil, que termina a 3 de Maio, partilho convosco o discurso de ontem na grande e comovente noite que o grupo de portugueses aqui viveu. Eles e o espanhol Eric Fratini, um gran tío: tenho uma aposta com ele, e até gostava que, para lá dos comentários, cronometrassem ao minuto o tempo que levam a ler o texto, e depois me dissessem, vale? :)
"O Zezé, d”O meu pé de
laranja lima” sabia que só podia chegar a poeta se usasse gravata
de laço. Portanto, se eu hoje quisesse ser poeta, já não podia,
porque esqueci a gravata de laço. Então, mesmo sem gravata de laço,
vou tentar ter um comportamento decente, porque eu tenho a certeza de
que não pareço um escritor. Hoje estive uma hora ao espelho para
poder afirmar isto a vocês com toda a verdade. Há alguma coisa na
parte da frente do meu cabelo, pelo menos, que não me deixa parecer
escritor, e tenho um pescoço muito alto para gravata de laço. De
facto, o meu próprio pé de laranja lima foi o livro do Mauro e o
meu tronco era o Zezé, que me fazia companhia nos corredores escuros
da escola. Escuros porque a escola não previa que os meninos
quisessem ler na hora do recreio e apagava as luzes. E eu não
reclamava, porque tinha vergonha de pedir luz, e também porque assim
estava mais escondido. E são milhões os que lêem às escuras, por
pobreza ou vergonha, ou então por pobreza com vergonha, porque havia
eu de ser diferente? Na verdade, eu não era assim tão pobre. Pelo
menos o meu pai tinha um carro lindo como o português do livro, o
Manuel Valadares, que se chamava Valadares como a terra de onde
venho, uma praia perto do Porto, no norte de Portugal, chamada
Valadares. Isto anda tudo ligado, já dizia o outro.
Mal cheguei a Poços,
pedi para falar com o velho mais sábio, o sábio mais velho, o jovem
mais avisado e o avisado mais jovem. Como o tempo era curto, tive de
inventar, e fiquei pelos velhos que hoje aqui vos vou contar: peguei
no primeiro dentista de Poços e na minha avó de olho azul.
O primeiro é o velho
preto Defonso, senhor Ildefonso de Souza, primeiro dentista de Poços
de Caldas, nascido escravo e falecido há 82 anos, o que não é nada
para uma história como esta. O Senhor Defonso foi carpinteiro e
marceneiro até depois dos 40 anos, idade em que iniciou a instrução
primária. Conseguiu a alforria, sua e da dona Zeza, a mulher e
também escrava, e conseguiu-o pelos próprios meios.
Apenas doze anos depois
das primeira letras, já com prática como protético e dentista, e
para calar a boca dos críticos, prestou exame na Faculdade de
Odontologia de São Paulo. Era o 16 de Abril de 1902. Passou com
distinção e tornou-se dentista até à morte, procurado por gente
famosa, e diz a História que foi pai de dois dentistas também
brilhantes que, chegados aos Estados Unidos para se especializarem,
foram mandados embora por saberem mais do que os mestres.
Claro que, se eu já me
sentia pequenino quando cheguei, mais pequenino fiquei quando conheci
o velho Defonso, porque esta história de vida esmaga qualquer pessoa
que não usa gravata de laço, e algumas outras que usam. E foi com o
velho preto Defonso que eu ontem passeei pela tarde e pelas praças
de Poços.
Ele pediu para folhear
os meus livros, eu dei-lhos, ele tomou o seu tempo e depois
perguntou-me:
“Mas porque é que
nunca desistiu de ser escritor?”
Reparem que pergunta
mais bela. Não perguntou porque é que eu sou escritor.
Perguntou como é que eu
aguento ser escritor.
Eu respondi que era culpa de um engano do meu pai, claro. Ou das malvadas das lágrimas. Nunca contei esta história em público. Mas agora, que atravessei o oceano e vocês estão aqui de propósito, vou contar.
Eu era pequenino e
andava com “O meu pé de laranja lima” na mala da escola. Foi o
meu primeiro livro a sério, de tirar o ar. Até aí eu lia “Os
cinco famosos” com os olhos fechados só para ver o que ia
acontecer, só para dobrar as esquinas. A partir do Mauro eu comecei
a ler com os olhos abertos e às vezes molhados. Na verdade eu não
choro na vida quando não vale a pena. Mas choro quase em todos os
filmes, mesmo os maus, e nos livros bons, já cheguei a chorar quando
os olhos azuis da minha avó Glória estavam perdidos do mundo, mas
isso eu já explico. Na verdade eu nunca fui pequenino. Nem costumo
ir a festivais literários e eu acho que é por ser grande e gordo e
não caber nas cadeiras. O primeiro festival literário para que fui
convidado em Portugal era de literatura fantástica e eu pensei:
claro, é sobre monstros. Já nasci com quase sessenta centímetros e
as pessoas a comentarem “olha o grande”. Sei bem que há maiores
do que eu, salvo seja, mas a verdade é que toda a minha vida eu ouvi
coisas como “não páras de crescer”, “tens tanto de grande
como de burro”, “és grande, mas não és grande coisa” e
aquela coisa que os malvados fazem com as mãos por causa do tamanho
do sexo, que para o pequeno dotado era o indicador mas para mim era
sempre polegar.
Portanto, eu nunca fui o
pequenino que gostava de ter sido. Andava com O meu pé de laranja
lima debaixo do braço quando o meu pai me fez ter a certeza de que
eu seria escritor. Eu queria entrar num concurso literário do
colégio, mas eles exigiam originais batidos à máquina. Na altura
não havia computadores. Eu escrevi um texto lindo-lindo-lindo sobre
o amor de um filho pelo pai, comparava o pai a um rio e o filho a uma
folha que o rio levava ao mar, tinha doze anos e estava com alguma
esperança porque o professor de português tirou o lenço do bolso
depois de ler. Outra vez as lágrimas, pai enganado, lágrimas
malvadas. Então perguntei ao meu pai se podia levar o texto para a
empresa e pedir à secretária para bater à máquina. Ele pediu-me o texto para ler. Eu
passei por baixo da porta e fiquei ansioso à espera. Tinha doze
anos, lembram? Tinha medo que ele respondesse como o pai da Pamela
Travers, a autora da Mary Poppins, quando ela lhe deu o primeiro
poema a ler: “Hum, não é propriamente Yeats.” Era um medo
injustificado, porque a resposta do meu pai foi apenas "isto está uma merda, não vale a pena passar à máquina". Recebi o texto de volta,
por baixo da porta, e fiquei calado. Nos dias seguintes li uma, duas,
cem vezes. E terminava sempre feliz depois de ler. Eu era o rio, o
meu pai era a foz. No dia em que acabava o prazo da entrega eu já
não li “O meu pé de laranja lima” no intervalo do almoço lá
no colégio. Coloquei-o ao lado do meu texto sobre um banco de
cimento, arranjei uma folha branca e uma régua. Pus-me de joelhos no
chão empedrado e escrevi uma carta breve a explicar aos jurados o
que tinha acontecido, que não tinha sido possível bater o texto à
máquina por pobreza, apesar do carro lindo. Então comecei a copiar
o meu texto para a folha branca tentando imitar a letra da máquina
de escrever, direitinho, sobre a régua. As minhas lágrimas corriam
pela cara enquanto copiava. Outra vez as lágrimas malvadas. Eu nunca
quebrei nem tive pena de mim. Mas a alma chorou para fora e eu não
pude fazer nada. Foi a primeira vez na minha vida que chorei sem ser
por birra de menino, joelho esfolado ou briga de irmãos. Nesse ano
eles não fizeram escalões, meninos de dez anos e de dezassete
concorriam ao mesmo prémio. O Mauro, o Zezé e o Tio Edmundo
ampararam-me desde o pé de laranja lima: “Chora, rapaz, chora que
esse choro é justo.” Disseram que não era choro de menino, mas
direito fundamental. No final, eu quase tinha perdido a esperança,
porque aos doze anos um menino ainda ama o pai. Mas não tinha
perdido a honra nem a vontade de lutar. Depois do final, afinal,
deram-me o primeiro lugar e eu achei que se tinham enganado. Como eu?
Eu só tenho doze. O pé
de laranja lima estava lá, na minha mão, quando fui receber o
prémio. O presidente do júri pegou no livro e disse “deixa ver
isso, hum, meu pé de laranja lima, muito bem, foi por isso que você
escreveu.” Foi por isso.
Depois vim vida fora
sempre combatendo a descrença do pai, pior, a certeza do nada, que
gera indiferença. Esse nada faz-me sempre lembrar o último olhar
azul da minha avó Glória e nem deu choro nem literatura, só culpa,
e está aqui porque um escritor tem de lembrar. Mesmo um que não
parece um escritor por causa do cabelo na parte da frente da cabeça
e do pescoço muito alto. Trago comigo a avó do olho azul porque são
tantos os brasileiros que deixaram as suas em Portugal, mandaram o
Mauro para fazer companhia e se há pais sem crença, nunca isso
sucedeu com as avós. Pessoas das nossas vidas que entendam o que é
para mim a literatura, e porque é que sempre me sentirei mais
pequeno do que o leitor e do que todos os sábios ou velhos, porque
toda a pessoa feliz tem estas perdas, toda a felicidade tem aquela
tensão, aquela dor abaixo do ombro esquerdo, um pouco acima do
coração, toda a perfeição tem um pequeno buraco por onde
espreitam os imperfeitos como nós.
E enquanto eu falo, aqui
em cima, a Avó do olho azul está aí em baixo, sentada mesmo ao
lado do velho preto Defonso, que lhe conta que em Poços tem um Rio
das Antas, e ela
“Ai sim? E nós
tínhamos um Estádio das Antas no Porto, que era a casa do nosso
grande, infinito (digo eu!) Futebol Clube do Porto!”
e o Defonso explica,
“ali o seu neto me conheceu através do Luís Nassif, que é primo
do Nacibe da Gabriela, sabia?” e a Avó do olho azul brilha, a
Gabriela é uma novela que faz parte da ideia fundadora do Portugal
moderno, foi o descobrimento de Portugal, mas enquanto o meu avô
materno fazia toda a gente calar só com o olhar para ver a Gabriela
– chegou a despedir uma empregada doméstica só por deixar cair um
talher ao chão durante a novela, mas ela foi logo readmitida na
cozinha pela avó – a avó do olho azul era muito mais doce a ver a
Gabriela.
Via assim:
(fiz a posição de pé,
ela com o braço direito a segurar o cotovelo esquerdo e a mão
esquerda a segurar o queixo)
com o olho azul a
receber de volta o brilho da Sónia Braga, e se alguém falava para
ela, ela só dizia:
“Espera um bocadinho,
miguinho, espera um bocadinho.”
A última coisa que
publiquei em Portugal, chamada “Livro sem ninguém”, foi com essa
culpa no peito e sobre a nossa marca nas coisas, nos objectos, a
atenção aos detalhes do espaço. Que nos permitam levantar os olhos
para os outros.
E com esta vontade de
tocar e porque eu tantas vezes me lembro daquela fila infinita do
Saramago, aqui mesmo no Brasil, e ele a pedir desculpa por não poder
dedicar o livro, mas só assinar, para que os últimos da fila não
esperassem dias para chegar até ele, tive uma ideia que trouxe para
Poços, e que vou tentar aplicar mesmo que eu aqui tenha uma fila de
duas pessoas:
ou um autógrafo ou um
abraço. Eu fico a dever o autógrafo a quem escolher o abraço, e o
abraço a quem escolher o autógrafo, o que significa que tenho de me
encontrar duas vezes, pelo menos, com cada leitor.
Fico grato a todos,
mesmo a todos, mas queria referir aqui quatro que não conheço mas
ouvi dizer que vinham. Quatro rapazes e raparigas estudantes de uma
pós-graduação em literatura na Universidade Federal de Goiás que
conduziriam mais de dez horas desde Goiânia só para me dar um
abraço. Para eles tenho uma oferta especial dois-em-um: se eles
quiserem, levam abraço e autógrafo.
Olha, mudei de ideias,
levam todos!
E vocês, todos vocês,
por favor não me esqueçam nunca, que eu também não, tá?
Obrigado."
PG-M, 30 de Abril de 2014, Brasil (FLIPoços)
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