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2017-07-10

Tudo

Foi hoje, sim. Eram umas nove e tal da noite. E não peço mais nada. Não pedi isto hoje, logo hoje, não contava, não esperava, não sabia, mas ele veio ter com o pai. Subitamente percebi que era tudo para mim. Eu tinha pedido uma vitória sobre a Espanha, mas perdemos (nem sei bem se perdemos, se ganhámos uma equipa), mas afinal era isto. E isto é tudo. Não posso pedir mais. Ele já está no trilho de afastamento, e no entanto parece mais próximo do que nunca. É um puto duro, nada mimalho, com um coração profundo. Perceberam que isto é sobre mim? É. Está tudo aqui. Não preciso de mais nada. Foram dos melhores segundos e das melhores prendas da minha vida. Longe, em Bad Blankenburg, na antiga Alemanha de Leste. Eu, que me chega vê-lo de longe, das bancadas, a rebentar de orgulho, esteja ele no banco ou no campo. Não o publico para exibir perfeição ou felicidade. Publico porque é o que quero para mim hoje e acho que mereço.

#myboy
#myday
#volleyball

2016-07-05

Falta-me o ar (Filho)

Filho, acho que é a primeira vez que fazes anos, 17, e não te tenho comigo. Escrevo-te em público porque eu podia ser reduzido a nada e existiria em ti. O meu mundo és tu, esgota-se em ti, não é nada sem ti, é tudo contigo. Deixa-me ser assim mais uns anos, até deixares a nossa casa e seres a tua. A tua mãe, ao meu lado, sente o mesmo. O resto vem a seguir, mas com o resto podemos morrer. Espero morrer com o resto e tu ficares para sempre e então todo eu ficar. A vida voltou a ser dura nos últimos dias, mas perante a notícia de ti nada dói. É a primeira vez que passo a meia-noite do teu dia e tu não estás aqui, é a primeira vez que nasce o teu dia e tu não estás aqui. É uma preparação para o futuro. Por isso é que eu já sei o que quero de prenda de anos, eu que os faço dentro de poucos dias. Se não te for insuportável, quando voltares a fazer anos, sempre que voltares a fazer anos, dá-me um abraço às primeiras horas do dia. Estou em crer que cura tudo. Assim talvez não sinta este embargo no peito nem abismos nos passos, como se o corpo evoluísse sem membros ou não evoluísse de todo. É uma sensação de afogamento. Falta-me o ar. Por isso esse abraço, para ficar à tona. Para respirar e seguir em frente. É tudo o que te peço, se estiveres perto. Podes até dizer à menina, ou então não digas, à meia noite de cada 5 de Julho, olha, vou ali à porta abraçar o meu pai; mas ele ligou-te?; não, mas vou ali à porta abraçar o meu pai, demora só uns segundos, ele está velho e chato, mas nestes dias fica em silêncio, dá-me o abraço e vai-se embora e depois é um dia normal e começa tudo de novo. Se puder ser, meu filho. Se puder ser. É uma sensação de afogamento, este amor. O amor que sempre foi maior do que os homens onde mora.

PG-M 2016
Foto de Paulo Almeida

2012-07-16

Dias 8 e 9 - Olimpo e planeta de volta


Dia 8 - Ao oitavo dia o filho fala do olimpo, o deus todo perante a metade dos pais. 


Dia 9 -  (hoje, finalmente, pai e filho): Ao reencontro já sabíamos que, mais importante do que o próprio abraço, é a perspectiva de nos podermos abraçar a cada véspera. 


PG-M 2012
fonte da foto

2012-07-12

Dia 7 - De dentro (que é ao lado)



Dia 7: Ao sétimo dia a clareza de uma das inconciliáveis certezas da vida: o que de nós saiu nunca esfria fisicamente no lugar de onde veio. Nós. Podemos convencer-nos de que os filhos se afastam -e devem afastar - desde o nascimento, mas o nosso metabolismo terá sempre essa carência no espaço: a de que voltem para dentro.


PG-M 2012
fonte da foto

Dia 4, Dia 5, Dia 6 - Cheiro, memória, almas que dobram


Dia 4 - Ao quarto dia vai-se em busca do cheiro que passava por nós todos os dias e que agora só resta nas arestas de certos objectos e numa camisola vermelha. Na presença, o cheiro passa. Na distância, o cheiro entra. Na presença mal se dá por ele. Na distância fere.

Dia 5 - Ao quinto dia tem-se noção de uma profunda inimizade com a saudade. De manhã discute-se com a memória. À tarde despreza-se a tipa. À noite ignora-se. Ou não se dorme. Amanhã é outro dia. Com memória:).

Dia 6 - Ao sexto dia o corpo continua sem se conformar. A alma, contudo, dobra.

PG-M 2012

2012-06-25

A manhã do mundo dele


O pai aprendera a conquistar a calma e a serenidade apesar dos prazos da advocacia, mas quando viu o primeiro livro publicado uma especial azáfama contendeu com a brisa que dirigia os ramos do imponente diospireiro, o diospireiro que inaugura o pomar caseiro onde, entre a laranjeira, a tangerineira, a macieira e o limoeiro, o pai quis que se plantasse uma pequena magnólia. Porque o pai é o pai. O filho ouviu o pai na rádio, viu o pai e o livro do pai, "A manhã do mundo", em dezenas de jornais e revistas e até nas televisões, mas nada mudou, nem sequer lhe pareceu uma pessoa especial, o pai continuava a ser o pai, um homem grande e forte a quem se podia atirar vezes sem conta sem um ai, o colo largo e insistente, o equilíbrio dos beijos chatos, ora os dele ao pai, ora os do pai a ele, os indispensáveis beijos chatos. O livro, numa primeira fase, andava em todas as livrarias, ele ainda o tentou ler porque quis, um dia chegou e disse a si próprio "vou ler um livro" e pegou no do pai como podia ter pegado noutro qualquer. E leu-o. Leu-o quase todo. O pai nunca lhe perguntou o que achava. Ele nunca achou que lho devia. Passaram-se assim os meses e as coisas voltaram à normalidade sem que, entre ele e o pai, alguma coisa tivesse mudado. O diospireiro ainda balouçava, a magnólia sobrevivia no centro do pomar, e assim os frutos. O pai dizia muitas vezes, na brincadeira, que era graças ao desprezo caseiro que se mantinha focado. O pai continuou a engordar. O filho a crescer. A mãe a ficar mais bonita. No princípio do ano lectivo ele tinha dito aos pais, sem detalhar o quê e o porquê, que tinha tirado uma nota alta na disciplina artística lá da escola. Era a primeira vez. Os pais perguntaram "ai sim?" e o jantar prosseguiu. No fim do primeiro trimestre ele trouxe uma nota mais alta do que o habitual. Os pais pensaram que devia ser mesmo uma obra singular, mas tornaram à vida, habituados ao filho que, como é costume em casas regulares, se ama para lá de todas as forças e no qual se encontra sempre o génio. Os pais sabiam que isso era o equívoco normal do amor. E em conversas evitariam falar tanto dos dotes, como dos defeitos do rapaz, até porque longe viria o tempo em que o seu menino pudesse ser comparado aos monstros sem pescoço de Tenesse Williams *, os putos do Gooper, como ele pai e a mãe não podiam ser comparados aos próprios Gooper e Mae, até porque o seu menino estava crescido, tinha pescoço, era bonito. Mas eis que ele traz a obra para casa no final do ano lectivo. A obra era a capa decorada da própria disciplina. Mostrou-a ao pai, que, perdido noutros afazeres, disse que estava bem sem ver. Por isso se colocou o miúdo entre o pai e o afazer com um sorriso cúmplice e o pai reparou de raspão no tema. É sobre o 11 de Setembro, que engraçado, disse o pai. Mas continuou a não ver. A vida seguiu e a capa ficou em cima do aparador. Um dia à noite o pai olhou com outras armas para a obra e resplandeceu. Viu naquela colagem - logo o pai, que nunca gostara de colagens - uma espécie de verso daquele dilacerante final d"O Túmulo dos Pirilampos", de Isao Takahata, em que se vê os pedaços de solidão da menina, o pai viu a vida que o filho vivia apesar dele, o pai viu que estava todo dentro dela. Aquela colagem não era uma lembrança do 11 de Setembro. Aquela era a lembrança que o filho tinha do pai e que brilhava tanto que não se continha em casa, onde a vida era temporal e os ritmos os de sempre. Mas o pai não quis mostrar a "obra" por causa dessa comoção. O pai quis mostrar a obra por ser mesmo boa e por poder, como não pode - ou não quer - mostrar a um meio de que desconfia a sua maior obra, o próprio filho, agora maior do que a mãe. O pai queria mostrar a fotografia que lhe tirou este fim-de-semana e em que reparou que ele está mesmo um homem. Um homem bonito. Um homem que lhe vai tomar o lugar como os pais bons sonham que os filhos bons tomam - não a mesma profissão, não a mesma arte, mas as coisas boas só dele. O momento em que um pai olha para um filho e vê, não a cria, não a entidade frágil que tem de proteger a todo o custo, mas o homem que fez com os braços. Com apoio das mãos. Com choro, com raiva. É um rapaz bonito. A alma parece descansar, o corpo serena, não é bem já não precisar de cuidar de si: o pai percebe apenas que a velhice pode avançar com justeza, pode fazer o seu percurso, porque aí está a obra. A manhã do mundo dele.

* da peça "Gata em telhado de zinco quente"

PG-M 2012
foto do autor

2012-05-17

Vou buscar pão


Eu limpava o pó a uma certeza com um trapo
excisado de glorioso pano
da louça
e veio à estrema
o álbum da prateleira
do meio
que eu abri para aliviar
o mesmo dia de maio
e então vi-o, ao filho que  não via
há precisamente quatro
horas
de beijo a fugir e olhar dentro
do celular
está maior do que a mãe
o corpo aos primeiros meses
a adentrar, primordial,
e tive a saudade que fez do peito
ónus
e enquanto sacudia na ombreira
o pano vi no relógio
ele a voltar
quando voltou
abracei um proto-adolescente com os braços inertes e a mochila nas costas
olá filho, obrigado
pelos dias desiguais
pelo amor sem condição
e a cara dele torcida,
a libertar-se dos beijos,
por me pores no lugar certo
da nossa casa pequena,
que nojo pai,
larga-me,
vi há pouco aquela foto em que a mãe está a ler uma revista no carro
e tu ao vidro com essa cara de malandro
depois vi mais dez, vinte, e sempre tu
como metrónomo
como piano
como sal
e tentando libertar-se o filho perguntou,
percebendo as lágrimas mas velando as emoções,
o que tens tu, pai?
o existencialismo
te pegou?
eu respondi não, rapaz,
foi a celeste do facebook
vou buscar pão
e à noite os Creedence nos bares
da Cândido
dos Reis.


PG-M 2012