2018-04-10

Oh, desventura (3.0) !!!

Uma destas noites estava eu reclinado no sofá grande a ler, como estou tantas vezes. Contrafeito, como estou tantas vezes. O meu corpo é pesado. Dez minutos depois de cada posição, dói-me a parte que suporta mais peso (não sejam malandros com a palavra "posição": dez minutos no sexo já é um poema épico). Nunca dei a mim próprio um cadeirão decente, que me proteja e onde possa adormecer sem estar contrafeito. Mesmo no Ikea são caros. Mas também nunca procurei, rendendo-me à evidência: leio há quarenta anos e quero ler até morrer. Não quero sofrer tanto. E ainda vejo bem ao perto. Tinha tirado o som á televisão. Não gosto de ver televisão, mas gosto de me desligar dela com ela ligada, seja para ler, seja para adormecer, e principalmente para adormecer a ler. Alguém lá em casa tinha deixado no canal de um reality show e parece que ao sábado à noite é dia de eles verem um filme na sala da casa onde são metidos como ratos - há dezoito anos, quando estes programas começaram, nenhum concorrente ou espectador podia, verdadeiramente, medir as consequências de uma experiência destas. Hoje, os ratos têm consciência de que são ratos. Onde talvez falhe a consciência, neles, nos espectadores fiéis e nos detractores, é que nós, membros desta magnífica e venturosa raça, qualquer que seja o nosso nível cultural ou intelectual, seremos sempre previsíveis na ratoeira e na rodinha infinita. Já não é tempo de discutir se devemos, ostentanto a nossa superioridade intelectual, apoucar quem participa e quem vê, quem tem contas em redes sociais e quem não tem, quem consome futebol e apostas e não lê nem vai ao cinema, mas conduz a nossa economia e, consequentemente, o nosso mundo.

O mundo está sempre a mudar, mas esse mundo, o previsível mundo dos tipos sociais virtuais e/ou televisivos de massas, está mesmo a mudar. As redes sociais estão a chegar aos mais baixos estratos sociais e intelectuais, pressionados por nós, os mais altos. Mas o mundo já sabe que as pessoas não se escalonam em altos e baixos estratos sociais e intelectuais. Já sabe que a violência doméstica chega primeiro onde chegou o pedestal: a mulher feita deusa cairá dele perante o violentador, claro, porque o que fundamenta a sua violência é o seu próprio ego desequilibrado. Os mais doentes, social e mentalmente, são tão mais violentos quanto mais conhecimento têm. Não é a formação que gera a violência, mas a incapacidade de se comandar a si próprio quando ninguém vigia, quando a porta da célula familiar se fecha e ninguém pode avaliar as nossas atitudes. Quando voltamos a ser, simplesmente, animais no nosso limitado ecossistema. Ratos. Ratinhos. E, espanto, às vezes somos assim atrás de uma porta fechada, mesmo que estejamos a ser filmados por trinta câmaras e transmitidos em directo para o mundo inteiro.

Num curto espaço de dias, ouvi dois génios dizer exactamente a mesma coisa. O maior, Miguel Esteves Cardoso, no notável "Fugiram de Casa dos seus Pais", e o Ricky Gervvais, no seu novo espectáculo de stand-up, Humanity. Já devem saber que ando a vigiar o stand-up tanto quanto leio livros. Depois explico - noutro fórum, talvez, ou procurem aqui o que escrevi sobre o terceiro génio, que é o primeiro, Jim Carrey. Pois disseram eles algo como isto: inaugurado o poder popular de fazer e divulgar opinião de forma livre e com grande divulgação e de forma quase totalmente democrática (não soubéssemos já todos - mais ou menos - como funcionam os algoritmos das redes sociais), todos estão sempre a dar opinião e a protestar. Este é o nosso tempo. Um tipo chega a uma praça de uma grande cidade e põe-se a gritar com os placards publicitários, como se os placards publicitários quisessem saber. Somos assim nas redes sociais. E não é este tempo que eu digo que está a mudar. Este ainda vai durar mais uns anos, porque os mais megalómanos - e são muitos - não vão escolher abdicar desse poder nem perceber que, as mais das vezes, são usados pelo algoritmo,  e não o contrário.

O que está a mudar é a consciência.
A consciência que temos, dos dez ou onze anos aos cento e tais, de que somos usados, de que o nosso tempo é usado, de que perdemos o controlo sobre isso mais vezes do que gostaríamos, e que, quase sempre, não somos capazes de combater pelo mundo que sonhamos (o que é diferente de combater pelos nossos sonhos individuais - o mundo nunca esteve tão apto a cumprir sonhos individuais).

Na verdade, nos tantos eventos públicos em que estou presente, todos ou quase todos concordam com o essencial: é preciso mais atenção, concentração, colo, dedicação - uns aos outros e quaisquer que sejam as idades e os temas. Mas poucos lutam por isso.

Eu luto, e deixem-me que vos diga: tem sido tão amargo quanto sublime.
Como não é o indivíduo signatário que ando a cultivar, o risco e o eclipse do indivíduo que sou, de quando em vez, não me tira o sono. Incomoda muito, é  verdade, e às vezes incomoda muito tempo, mas durmo sempre bem e para o melhor lado. O combate não é pela aparência, mas pela essência. E nada pode ser deixado de fora. Sexo, literatura, arte, Direito, amor, ventura, desventura, oh, desventura (3.0) !!!!

Conservo, pois, a capacidade de levantar os olhos do livro para um reality show sem som e sentir algum espanto pela forma como as pessoas vêem um filme, seja na sala de casa, seja na sala escura do cinema. E somos todos iguais. Espanto pela imobilidade, pela passividade aparente, espanto por um momento de beleza, espanto por um sorriso, espanto pela serenidade, espanto pelos lábios, espanto pelo cheiro que se sente ou adivinha.

Oh, desventura (3.0) !!!!

@pguilhermemoreira 2018
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O princípio do Mundo em Sacavém e o Biblio-meretrício

Primeiro vem o meu prazer de forasteiro. Lisboetas casmurros para quem Sacavém é e será sempre subúrbio em contraste com sacavenenses orgulhosos e um engano: o gps (ou deveria armar-me em europeísta e passar a dizer galileu? ok, o galileu) enganou-se pela centésima vez e fez-me circular pela Sacavém velha. Eu já estava atrasado para a sessão matinal do 2º Encontro Nacional de Comunidades de Leitores (vou aqui omitir "associados a Bibliotecas Públicas", porque quero ir mais além nestas palavras). Na verdade, eu acabaria por conhecer a Sacavém velha a caminho do restaurante do historiador e investigador sacavenense Paulo Condesso, mas é curioso o olhar do Estrangeiro, e não é só desde Camus. Afinal, Sacavém é bonita. E para teimosos mostre-se a magnífica travessa da Oliveirinha, a primeira rua de Sacavém, diz-se.

Um encontro nacional de comunidades de leitores já era um sonho quando o Jorge Silva, Presidente da ímpar Comunidade de Leitores da Maia (onde decorreu, com retumbante sucesso, o 1º Encontro Nacional), me convidou para o 2º Encontro Nacional, apoiado pela Câmara de Loures, entre outras entidades. E eu já tinha decidido que o circuito de lançamentos do meu terceiro livro, saído em Setembro ("Saramaguíada", Poética, 2017) seria feito quase exclusivamente em comunidades de leitores e escolas. Tem sido assim, ainda sem excepções, que obviamente admito, aqui e ali, embora já esteja cansado do modelo - que considero esgotado - do lançamento em que se sentam três a uma mesa, publicador, apresentador e escritor, e falam do livro. Como escritores não nos contrataram para palhaços, mas, já que andamos por aí, como o Santana Lopes, porque não dar o corpo ao manifesto, descentrando-o do ego?

Disse em Sacavém e repito-o aqui: pode haver egos entre os leitores das comunidades, pode haver "personalidades" e pode haver "protagonistas". Pode haver. Mas eu é que não encontrei nenhum. Como raramente os encontro nas escolas. Já em festivais literários chovem egos. E são os mesmo trinta, sempre, com honrosas excepções. Como o meio literário português são umas vinte pessoas, nesses trinta dez convidados. Temos, neste momento, uma situação de monopólio no agenciamento, fruto do abnegado trabalho dos criadores da Booktailors, o que, como amantes de livros que são - e eu tenho muita consideração por alguns deles e, se tenho menos por outros, admiro a cultura literária de muitos - , que portanto estão a colher o frutos do seu trabalho, mas o tempo do monopólio dá-lhes uma especial responsabilidade de montar festivais com uma quota de não agenciados, responsabilidade social e literária essa que nem sempre é cumprida.

O que, para mim, é menos compreensível, é que a maior parte das publicadoras e dos escritores andem alheados da importância dos leitores e das comunidades de leitores. A maioria de nós valoriza as bibliotecas públicas (não sei é se pratica actos em função dessa valorização), mas não valoriza, como devia, os leitores e as comunidades de leitores, a quem devemos, praticamente, tudo.

Esse sábado, 24 de Março, entre o magnífico Museu de Cerâmica de Sacavém (de manhã) e a Biblioteca Municipal de Sacavém (pela tarde), as conversas foram materiais, tiveram substância. Não houve dispersão. Houve propostas concretas e comunicação, ainda que pudessem, e devessem, estar representadas muitas mais comunidades e bibliotecas (é preciso muita humildade e trabalho na comunicação prévia, é preciso ir ter com as pessoas de todas as formas e convencê-las; a ideia de que só vai quem quer e de que já se mandou mails para todo o lado, se fez cartazes e banners, etc, etc, e "agora seja o que deus quiser" é, a meu ver, errada; temos de estar perto dos leitores, temos de lhes dar atenção e de os mimar, temos de pensar mais neles e menos em nós, escritores, críticos e publicadoras) mas isso torna 
manifesta a falta de uma rede efectiva de comunidades de leitores e bibliotecas (com expressão no espaço
virtual ou rede global) onde seja fácil trocar experiências entre actuais e futuros leitores, entre leitores e escritores, entre leitores e publicadoras (porque não? esteve por lá a Porto Editora), haver transferência de títulos entre bibliotecas e fazer rolar a bola de neve da leitura, que não, não está a regredir, embora todos andemos a tentar perceber o modelo que se irá impor neste século XXI - podendo fazer reflexões e preparar terreno para o Livro no Século XXII. E tudo isto pode e deve ter apoio do Orçamento, assim haja propostas para o Participativo.

Deixo para o fim a comoção.
É violento, para mim, o contacto com esas entidades superiores que são os leitores que só pensam nos livros.
É verdade que qualquer bom escritor tem de ser um bom leitor, mas dificilmente o escritor deixa de ler por oficina e com a pureza e a liberdade de um leitor que não está preocupado em criar. Pode tentar, mas ficará para sempre poluído do momento em que leu por oficina pela primeira vez. Ora, as pessoas que cultivam os livros pelos livros, com aquele espanto e maravilhamento primordial, devem ser preservadas como espécie em extinção. E temos de arranjar um modelo para estes leitores em extinção frutificarem, terem crias, contaminarem outros.

Obrigado Jorge, Carlos, Maria, Rita, Anabela, Vera, Paulo, David, Sandra, Maria Helena, Paula, Luísa, companheiros João Tordo e Isabel (e marido), e muitos mais. Obrigado a todos.

Eu, que respeito a elegância e a classe, mas fui nado e criado no Porto, onde vivo, gostaria de cultivar aqui essa complexa deselegância tripeira, essa forma de ser broeiro, que reclama o direito ao calão e à ausência de filtros, dizendo sempre, e digo-o comovido e penhorado, a escolas e a comunidades de leitores, que sou um verdadeiro prostituto literário. 


Por isso, usem-me.
E usem os escritores todos que conseguirem.
Frutifiquem.

Prometo que aqui darei notícia, pelos anos fora, dessa "dura" vida de biblio-meretrício.

@pguilhermemoreira 2018

2018-03-09

Oscar - decadência certa e impossível

Nota prévia: como estes textos se referem aos óscares, prémios da Academia Americana de Artes e Espectáculos concedidos anualmente desde 1927/28, embora eles próprios considerem que a primeira cerimónia oficial foi a de 1929 (razão pela qual só este ano celebram os 90 anos), usarei sempre a forma inglesa do singular e plural nos títulos ou tags: oscar e oscars.

Esta não pode ser uma crónica anual de um fenómeno vivo porque eu declarei os óscares, como os conhecemos, mortos. Portanto, das duas uma, ou esta é uma crónica de um cadáver ou de um novo ser, recém-nascido, com outra forma (ok, ok, lá vem a piadinha deste ano: a forma da água).

Na verdade, noto desde o ano passado algo que me incomoda. Ainda assim, deixem-me ser claro logo a abrir: é impossível que os óscares morram. Estão decadentes, é certo, mas nunca morrerão. Têm é de mudar todos os anos de forma, ou tornam-se rapidamente um prémio sem prestígio e respeito. É que, mesmo que os cinéfilos digam todos os anos que o óscar é um prémio que cumpre uma determinada função de promoção e não premeia estritamente o mérito, na verdade ganhar um óscar ainda é uma coisa transcendente. Imaginem o que seria um português ganhar um óscar ou ser simplesmente nomeado. Mais: se tivessem feito justiça ao Manoel de Oliveira e o tivessem incluído no habitual In Memoriam, quando morreu, em 2015, teria sido notícia em todo o país. Não foi. A Academia apenas lhe fez uma menção online. Agora veja-se: se nem um cineasta europeu de 107 anos, profundamente respeitado pelos seus pares, e que até dava uma boa história à Academia, tem direito a um segundo numa cerimónia de quatro horas, quanto vale um óscar para qualquer vencedor e até para os países a que pertencem? Este ano, por exemplo, a Academia quis deixar claro que está ao lado do México e afrontou o muro do Senhor Trump consagrando um filme menor de Guillermo del Toro, a animação e a música de Coco, entre muitas outras subtilezas que fizeram deste o ano da "latinoamerica" em Hollywood.

Mas não é bem este descambar da arte para a política que me aborrece mais. Eu escrevi acima que estava incomodado desde o ano passado. Estou, é verdade. Devo dizer-vos que sou tão doente por óscares que, muito antes do advento da internet, e à falta de uma obra que condensasse todos os dados importantes da história dos óscares, eu ia para as bibliotecas reconstituir os nomeados e os vencedores através dos jornais antigos. Estamos a falar de um puto de 16 ou 17 anos. Portanto, doente. Olhei e li para trás, para o que não testemunhei directamente. Ou seja, tenho noção da história dos prémios da Academia. Aliás, quando os comecei a acompanhar, em 1985, não tinham passado muitos anos de óscares como espectáculo de entretenimento global. Passariam ainda outros tantos sem que as televisões e as rádios, com a excepção da TSF, no final dos anos 80, princípio dos 90, se interessassem em transmitir a cerimónia em directo. E para bons artigos de follow up, talvez só o Público e o Diário de Notícias e as magníficas edições vespertinas d' A Capital com as imagens dos vestidos na passadeira vermelha. Depois vieram os anos de transmissões em directo com comentadores ansiosos por se mostrarem, atropelando o espectáculo e abafando as piadas superiores do Billy Cristal, e, finalmente, as transmissões a cru, com nenhuma ou escassa intervenção de comentadores, de que este ano a Sic foi um mau exemplo, ao poluir a imagem de rodapés e ao interromper o Jimmy Kimmel aqui e ali. Mas a transmissão em si teve uma melhoria interessante (mas não o espectáculo): bastava qualquer premiado mencionar o mais anónimo familiar, a que agradecia, que, se ele estivesse no Kodak Theatre, aparecia na imagem. Isto exige muitos recuros e planeamento.

Então o que me incomoda?
Tudo para dizer que tenho noção da história dos óscares e não sou elitista ou alternativo (gosto muito do bom e velho filme americano e não rejeito um blockbuster) para dizer o que vos vou dizer:

que apenas o ano passado e este ano entraram nos nomeados obras e protagonistas sem merecimento.
O evento LaLaLand, no ano passado, foi inenarrável. Mas este ano voltamos a ter filmes fraquinhos, como The Post, nomeações imerecidas como a que deram a Meryl Streep, filmes falhados como o, afinal, grande vencedor, A Forma da Água, consagrações de filmes estrangeiros medianos (quando antes só víamos obras primas nos cinco nomeados) como o chileno que venceu, Uma Mulher Fantástica, com uma tentativa de promover uma actriz transexual que não pode ser colocada sequer a meio da tabela, Daniela Vega, só porque sim - e aqui foi o lobby que funcionou, porque a rapariga andava há semanas a passear-se nas festas de Hollywood, numa atitude profundamente contraditória com a propalada dignidade e igualdade de género.

E foram esquecidos filmes maiores, como Mudbound ou, no meu entender, The Florida Project, secundarizadas obras como The Square, Loveless e, principalmente, o húngaro On Body And Soul e a sua brilhante protagonista Alexandra Borbély.

Não entro sequer - ou entro pouco - na questão da insistência na Frances McDormand, mais do que consagrada e premiada naquele registo (ainda que seja uma excelente actriz) e a forma como se passa ao lado de uma actriz monstruosa (no melhor dos sentidos) como Margot Robbie - e não é de agora, ela anda por ali a dar respostas de excepção há anos. E a quem me fala da juventude da dita, eu aceno com o verdadeiro "crime" cometido em 2013 pela Academia ao atribuir um óscar de melhor actriz a uma miúda que nem é grande coisa e tem muito que aprender, a Jennifer Lawrence, e negá-lo à grande actriz francesa com um desempenho perfeito em Amour, Emmanuelle Riva, e que viria a morrer pouco tempo depois. Aliás, nunca poderia a miúda Jennifer ganhar pelo fraquito (mais um, o começo da tendência) Silver Linings Playbook. Eu até admitia o óscar por Joy ou American Hustle, mas ainda acho um exagero uma miúda a precisar de humildade  e cultivo de talento ter já 4 nomeações e um óscar (imerecido).

Portanto, está mal e está no caminho errado.
E não percebo, finalmente, a falta de imaginação para fazer uma cerimónia com rasgo. Ninguém imagina, ninguém escreve, ninguém planeia, ou é assim porque querem que seja e vamos-lá-despachar-isto e ter salários exponenciados a partir de segunda-feira.

Termino com uma colecção de textos sobre alguns filmes nomeados e não nomeados este ano, já que tenho escrito tão pouco no blogue. Até para o ano!

MARGOT ROBBIE
"Margot Robbie. Não sei, sinceramente não sei, como se pode comparar este desempenho ímpar com o desempenho par da provável vencedora do óscar, Frances McDormand. Actrizes excepcionais há algumas. Frances é uma, mas já foi premiada por este registo, em Fargo. Daí o par. Margot é outra e este devia ser o ano ímpar da Margot, miúda com dois palminhos de cara que nunca (ou ainda não) se deixou deslumbrar. É simplesmente incrível. Quanto ao filme, é muito, muito bom. Em tudo. E, a acreditar na tese do filme, e eu acredito, Tonya Harding é uma das maiores desportistas de sempre e, claramente, das mais injustiçadas. Uma palavra especial para um desempenho que nem sequer tem sido destacado e é assombroso. Quando forem ver o filme, reparem no gordinho que faz de Shawn, Paul Walter Hauser, e depois digam-me qualquer coisa. Margot, se ganhares, a gente, cá em casa, apanha uma piela. Depois de Halle Berry e Charlize Theron (por quem ninguém dava nada, ao tempo do óscar), é na Margot que ponho as minhas fichas há algum tempo. Mas eles acham que a Jennifer Lawrence, a medianinha, é que é. Pfff. Ah, óscar que não têm discussão é o de secundária, para Allison Janey. Oh ye."


 THE FLORIDA PROJECT
"Este filme vai directamente para o número 1 do meu top pessoal, porque é simplesmente assombroso por tantas razões que não cabem num post. Começo pela Bria Vinaite, a mãe, que nem actriz era e, provavelmente, faz o melhor papel do ano, a par da sua "filha" Moonie, a jovem actriz Brooklyn Prince, que tinha 5 anos quando foi escolhida, e que é simplesmente inacreditável. Curiosamente, Bria não era actriz, mas a jovem Brooklyn já tinha feito pequenos papéis. Com este ganhou o Critic's Choice Award, que não é para qualquer um. Portanto, os dois melhores papéis do ano no mesmo filme chegam para não o perder, não concordam? Mas há "pior" (melhor). A forma como Sean Baker filma não profissionais é uma lição. Curiosamente, vê-lo a seguir a 15:17 Comboio para Paris torna mais claro o disparate de Clint Eastwood e o génio de Sean Baker. E olhem que o colapso emocional da jovem Brooklyn não estava no argumento. O Sean até teve de gritar "corta" mais cedo e não fazer mais nenhum take, por se ter afligido com a forma como a menina incorporou a emoção. Se forem ver o filme, vão perceber de que cena falo. É uma experiência inesquecível, obviamente esquecida pela Academia, que apenas nomeia o (excelente) gerente de motel, Willem Dafoe, porque não podia premiar o amadorismo genial de Bria, que contudo revistas e jornais de referência já escolheram para capa. O corporativismo não chega para ensombrar ou assombrar este filme genial. Sean disse ao produtor, vendo o Instagram da desconhecida Bria, "não há Brias em Hollywood?". E se lhe escrevêssemos? Bria pensou que era brincadeira até ver que lhe pagaram o bilhete para a Florida e que Sean era um realizador a sério. Agora ninguém a vai largar. Espero que também vocês. Já a jovem Brooklyn Prince, sou sincero: ouvi e vi várias entrevistas da miúda. Não é por acaso que, não sendo sequer uma menina de anúncio ou a mais bonita de todas, ela domina todos os espaços em que aparece, mesmo perante adultos. É brilhante. Por doloroso que seja aceitar que isto é possível numa miúda de 7 anos, vão ver e percebem.
#thefloridaproject #briavinaite #brooklynprince #seanbaker #willemdafoe"

15:17h DESTINO PARIS
"Não fiquem desconsolados se estavam com a ideia de ir ver este filme porque gostaram do trailer, querem saber o que se passou e a ideia de ver protagonistas reais vos deixou curioso. Mas isso não é um filme. É, mais do que uma palhaçada que nem telefilme chega a ser, um crime. Um não, vários. Um crime da argumentista, por estragar uma boa história. Um crime para a credibilidade de um cineasta como Clint Eastwood, que certamente perdeu a lucidez, e, pior, um crime contra o mito dos heróis e a ilusão do cinema, porque saímos do filme a pensar que estes heróis foram apenas uns bananas sortudos. Eu puxo pela cabeça e pergunto porquê. Como é isto possível? Não, desta vez não o comparo com o LaLaLand que, sendo um filme inane, tinha ao menos aparência de filme. Isto não. Isto é uma coisa disforme que nos faz pensar como pessoas acima de todas as suspeitas fazem esta maldade aos seus fãs. Nepotismo? Senilidade? Só pode. Mas não fiquem desconsolados. Vão ver. Só vendo se acredita. É que até um mau filme é melhor do que esta coisa. E olhem que não há aqui nenhuma subjectividade na apreciação. Vão por mim, ahah."


VISAGES, VILLAGES
"Agnés Varda. Faz 90 anos em Maio. Dá-nos, com o fotógrafo JR, um filme tão belo, tão belo, que eu já nem sei o que vos diga. Fora os logros do costume, que grande ano de cinema. 90 anos, hein? É a emoção na cara das pessoas. Visages Villages está nomeado para o óscar do melhor documentário. Devia ganhar. Era tão bonito que ganhasse. E fez-me decidir que tenho uma urgência. Ir para perto das pessoas que habitam uma região onde tenho parte das minhas raízes, a Normandia. Agnés, mulher de Jacques Demy e amiga chegada de Gordard, que ela vai visitar neste filme (sim, Godard ainda é vivo) é aquela cineasta brilhante com olhos e curiosidade de menina que já tem um lugar enorme na história do cinema. Estou com muita vontade de a ver na passadeira vermelha de Los Angeles no dia 4 de Março. Espero que possa ir. E,se subisse ao palco do Kodak Theatre, então é que era. Não percam, por favor."

ON BODY AND SOUL
"Depois de, finalmente, ter visto Corpo e Alma, Urso de Ouro em Berlim, filme húngaro candidato a melhor filme estrangeiro, que devia e podia estar candiato ao óscar absoluto; depois de me ter rendido a Alexandra Borbély, que devia e podia ser candidata ao óscar de melhor actriz, por ser um papel que ficará nas nossas almas e na história do cinema, tenho de afirmar peremptoriamente que Corpo e Alma pode ser o mais incontornável filme, não só de 2017, mas da década, até ver. No entanto, vou escalonar o meu pódio pessoal de 2017 da seguinte forma: 3. As estrelas de Hollywood não morrem em Liverpool 2. Corpo e Alma 1. Mudbound. E há dois LaLaLand em 2017 nomeados para melhor filme: o fraquinho The Post e o sobrevalorizado The shape of Water. Este é o tempo dos logros absolutos nos óscares. Não foi sempre assim. Mas enquanto houver Mudbound e Corpo e Alma estamos salvos."


AS ESTRELAS NÃO MORREM EM LIVERPOOL
"Anette Bening no papel da sua vida, esquecida por quase todos e agora o desabafo. Só me falta ver a (minha favorita) Margot Robbie no I, Tonya. Mas já posso dizer que, para mim, não faz sentido premiar a Frances McDormand por mais do mesmo. Ela é uma actriz genial, já sabemos. Premeiem-na num ano em que não haja tantas a merecerem mais, mesmo as esquecidas. Este "As estrelas não morrem em Liverpool" tem um ou dois momentos para os anais. É um filme belíssimo e verdadeiro. E a Anette Bening, actriz que nunca teve os meus favores, está finalmente magistral. A diva Gloria Grahame, que ela representa, bem o merecia. Que bonita vida madura ela teve. E a Margot Robbie vai arrasar onde a Frances cumpre. Este filme da Anette quase beija os pés do Mudbound, mas ainda assim é muito melhor do que os "Três cartazes...", que já é muito bom. Escrever um livro destes e fazer um filme destes é de uma grande coragem. E, não fosse a minha relação séria com a "rainha" Claire Foy (pelo desempenho numa série que nem sigo linearmente), ponderava o meu primeiro casamento com a Anette. Mas, vá, beijemos-lhe os pés de dupla diva, respeitemos a vez na lista da Margot Robbie (em espera há muito, eheh, tem é de voltar a engordar) e rezemos (eu vou rezar) para que a Academia ganhe juízo. Ps: Já agora, este é o primeiro ano em que a Meryll Streep não merece mesmo."

KEDI
"Eu acho - mas isso sou eu - que o filme dos gatos em Istambul é uma obra-prima. Eu, que nem simpatizava muito com uma ou com os outros, fiquei fascinado com aquela e reverencial para com estes. Gosto muito do som da língua turca há muito. De algum modo, além da sabedoria daquele povo (onde a única nota negativa - visível no filme, quando a jovem pintora diz que os turcos usam os gatos como o feminino e esquecem e não o permitem à própria mulher - talvez seja a menoridade das mulheres, mesmo das maiores), o filme mudou a minha perspectiva de vida, e isso é muito importante. Ainda hoje, quando um gato tomou a decisão de atravessar a estrada no momento do encandeamento pelas luzes do meu carro, eu pensei naquela frase magnífica: "Os gatos têm a percepção de deus, os cães acham que nós somos deus". Este gato conseguiu refrear os instintos e adiar a decisão e, portanto, não ser atropelado. Pela primeira vez fiquei a olhar para ele e achei o bicho lúcido :) - Grande obra de Ceyda Torun, que filma os gatos de uma forma perfeita - com muito cinema dentro. Kedi."

MUDBOUND
"Surpresa, surpresa, esse enooooooorme filme que é Mudbound. O melhor do ano, sem qualquer dúvida. Inesperado, porque ninguém fala dele. Quando o vi, foi quase por favor. Que texto, que imagem, que música, que actos. E só nomearam a Mary J Blige, mas podiam dar-lhe o óscar, em nome de todos. Não vão dar, mas que safanão. Que narrações sublimes. Que cadência. Oh, deixem-me chegar a este tempo e a esta escrita. Uf."

LOVELESS
"Volto a Mudbound, para mim o melhor filme de 2017. Quando escrevi esta sentença, não usei o "para mim". Parece-me óbvio, contudo, que o indivíduo apaixonado que usa amiúde superlativos sobre objectos artísticos ou literários, o faz sempre para si e para os que confiam nos seus pontos de vista e sentimentos. A minha amiga Raquel Pinheiro, que vê quase todos os filmes em pequeno formato, apressou-se a replicar que o melhor filme do ano era Loveless. Eu esperei para o ver, e vi-o no grande ecrã. Para mim, lá está, são objectos cinematográficos incomparáveis. Loveless é essencialmente cinema e fotografia. Excelente cinema e excelente fotografia. Não temos actores nem texto acima da média. Não temos narração. Mas é um retrato incrível dos nossos tempos, afinal tão longe e tão perto. Imperdível, claro. Mas quem me conhece sabe que não resisto - e me arrebato facilmente- a filmes que, além de tudo o que Loveless tem de excelente, também têm literatura, narração e actores ou desempenhos de mão cheia. E é isso que Mudbound tem que Loveless não tem. E ainda tem silêncio, como Loveless. E sombra, como Loveless, ou o mundo em castanho, como Loveless o tem em azul-noite-neve ou cinzento. Ambos nos deixam sair do cinema em apneia, mas a apneia de Loveless é respirável e a de Mudbound não. Gostava era de vos ver no cinema, o quanto antes, porque, ainda que ambas as formas de apreender a sétima arte sejam legítimas, a Raquel em pequeno formato e a minha em grande, eu acho que é apenas bom senso ser contemporâneo destas obras e vê-las no grande formato enquanto estão no nosso tempo, pois no pequeno poderão ser vistas em qualquer altura. Ver o desempenho da Mary J. Blige em pequeno formato é não ser cercado por ela. Portanto, sejam cercados pelo Mudbound e pelo Loveless no grande ecrã e digam qual é melhor. Eu não tenho dúvidas. Para mim, Mudbound é cinema e ainda tem um livro e várias peças dentro, e Loveless é cinema, sim, não o resto. E Mudbound é o melhor filme de 2017 de longe. Inesperadamente, como vos disse."

@pguilhermemoreira
2018

2018-03-08

A menina, hoje mulher, disse (e esse é o nosso sonho literário):


Quando a menina esteve na sessão escolar, uma das pimeiras das 117 que fiz como escritor nos últimos 7 anos, ainda andava no 9º ano. Hoje é já uma mulher e está prestes a licenciar-se e a seguir com a sua vida. Hoje escreveu-me assim, e eu percebi, no momento, que estava a ler palavras mais importantes do que qualquer uma que me saia da boca ou da pena.

Então decidi que as penduraria em todo o lado:

Foi bastante marcante, lembro-me perfeitamente de não ser adepta da leitura. Até a professora me transmitir que íamos receber um escritor e que era eu que tinha de o apresentar. Como não queria ficar mal, li o livro 😂. Bom para mim, adorei!! E, de certa forma, cativou-me para continuar a ler e hoje em dia sinto que tenho sempre de ler algo. Foi mesmo incrível

Disse-lhe que, talvez sem se aperceber, estava a dar forma a um dos meus sonhos e sentido a quase todas as minhas lutas.

Então vale ou não vale a pena?

@pedroguilhermemoreira (instagram)
@pguilhermemoreira (restante)
2018

2018-03-05

o atraso da primavera

2018. Final de Fevereiro. As magnólias estão atrasadas. Tenho tanta pena quando tenho de dar esta notícia. De que, como as magnólias, a primavera, a que elas pertencem já despidas, também se vai atrasar. Gosto quando leio a primavera logo no início de Fevereiro, pelas árvores de inverno, pelos cheiros a forçar a nota, pela inquietude dos pássaros, pelo mar no leve desespero de serenar. Nada disso se passa este ano. Só no final de Abril teremos essa libertação dos corpos, antes das chuvas mornas, que este ano virão em Maio. Mas tenham alento. O Verão voltará a encostar ao Natal, e pode ser que este ano a providência nos poupe. As Magnólias já estão abertas nos lugares luminosos, mas as de sombra só agora começam, timidamente, o seu caminho de flor de inverno, que tantas vezes já está nas nossas mãos em Dezembro. Até algumas roseiras de todos os meses estão desfasadas e se demoram. Mas eu gosto é de Magnólias, desta coragem pré-histórica de não mostrar nada quando os corpos ainda estão quentes e secos e cheios de luz, e de só aparecerem para nos confortar quando estamos fartos de chuva e cinza.

@pguilhermemoreira 2018

Federer


Publicado a 16-02-2018:
Aí está. Federer voltará a ser número 1 na próxima segunda-feira. É algo de notável, e não é por ele fazer 37 anos em 2018. É pela descrença e pela superação. Há dois anos, Federer já estava sentado no Olimpo e os especialistas toleravam o atrevimento do velhote entre courts e lesões. Tinha secado os majors, era só uma questão de tempo até ser apenas história. Exaltavam quase todos os dias o ensaio de David Foster Wallace. Ou seja, Federer era literatura, era mito, era o melhor de sempre, não era preciso mais nada. O ano passado ganhou a Austrália e Wimbledon. Este ano voltou a ganhar a Austrália e chorou. Ser o melhor de sempre e quererem que saias e encostes as botas depressinha também deve ser duro. E agora aí está, o melhor de sempre de volta ao número 1. E o brilhante e imperdível ensaio que David Foster Wallace (DFW) publicou em 2006 no New York Times, dois anos antes de se enforcar, sob o título "Roger Federer as religious experience" está aí para ser lido, em tradução do Vasco Teles de Menezes - ensaio com título alterado para "Federer: carne e não só" -, entre as páginas 409 e 435 do volume de ensaios de DFW que a Quetzal publicou em 2013 sob o título "uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer". E Federer é, simultaneamente, o melhor tenista e um dos melhores desportistas de sempre, um deus no Olimpo E o número 1. E diz que só pára quando a mulher lhe disser que chega.

@pguilhermemoreira 2018

2017-12-09

A (eterna) professora e o (eterno) aluno

Porque me honra profundamente, vindo da cátedra como veio, e porque me comove, por momentos e razões que não quero aqui escalpelizar, porque já passou a quinzena deste JL nas bancas (esta semana está a Ana Margarida de Carvalho na capa), publico hoje a recensão completa da Professora Agripina Vieira ao Saramaguíada. Obrigado aos que entendem que este ofício exige o máximo esforço e o máximo respeito. Como se pode ler na epígrafe de Maria Victoria Atencia no início do livro, "Porque duele, el alma duele (...). (clicando na foto, conseguem ler - ou então em texto,a seguir)

"NAS MARGENS DO TEXTO, Jornal de Letras, Novembro de 2017
Agripina Carriço Vieira - “Como uma claraboia para dentro do mundo”


            Se fosse possível, numa palavra, caracterizar o último romance de Pedro Guilherme-Moreira a escolhida seria o adjectivo avassalador. O seu Saramaguíada, publicado no passado mês de Setembro pela Poética Edições, faz parte daquele grupo (pequeno) de textos de que falava Proust. Dizia o autor francês que, de quando em vez, surge um escritor original que alicerça o seu texto numa rede de relações significantes novas e inovadoras que interpela os leitores. A leitura destes textos não se compadece com imediatismos e linearidades, e se esse facto pode desanimar é apenas porque sentimos “que le nouvel écrivain est plus agile que nous”.

A afirmação proferida em meados do século passado aplica-se na perfeição ao novo romance de Pedro Guilherme-Moreira. Saramaguíada é uma preciosidade para os amantes da literatura, que nos desafia a entrar num universo mágico, situado fora de um tempo cronológico, fora de um espaço geográfico, todo ele feito de palavras e pensamentos em diálogo, dando amplo e total sentido às reflexões de Pilar que “sabe que cada palavra é como um lago profundo que contém todo o mistério, todo o encanto e toda a explicação das coisas, mesmos das inexplicáveis” (p. 43).

O título antecipa a centralidade temática da efabulação, enunciando desde logo uma clara e inequívoca referência a um dos nomes maiores da literatura universal, ao único escritor nacional galardoado com o Nobel, José Saramago, indiciando igualmente que outros o acompanham nessa jornada. A magnífica ilustração da capa, da autoria de Vasco Gargalo, confirma-nos a interpretação, ao representar uma imensa estrada povoada por personalidades maiores do mundo da cultura e da literatura que começa em Saramago e termina na angolana Alda Lara, tendo como ponto de destino final Paris, metonimicamente representada pela Tour Eiffel. No entanto, e como adverte o autor num curioso texto intitulado Ordem das coisas que antecede o corpo do texto, neste livro celebra-se “a literatura e as ideias, que são das pessoas, mas não as pessoas em si” (p. 15). Estamos, pois, no mundo do pensamento, “ali todos eram ideias, sonhos ou pensamentos materializados” (p. 65), por isso o herói da narrativa é Esse, a materialização do pensamento de Saramago. É um universo sem fronteiras de tempo ou de lugar, onde as criaturas (ficcionais) dialogam com os seus criadores, onde Esse e O’Neil viajam para Lisboa numa barca conduzido por Confúcio, onde Eça e Esse, em Tormes, acompanhados por Charles Robert Anon (heterónimo infantil de Fernando Pessoa e representado figurativamente por um desenho que reproduz uma fotografia do poeta aos dez anos) discutem o papel social da literatura. Desta breve apresentação, surge como evidência que qualquer apaixonado pelos livros e pela literatura se sente, diante deste romance, como uma criança numa loja de brinquedos, levado num turbilhão de sensações feitas da alegria da descoberta e do entusiasmo da indagação.

Vários elementos concorrem para a originalidade do romance, que nasce antes de mais da incorporação e discussão de obras da literatura universal, pertença de todos nós, que aqui ganham novos significados, abrindo-se a novas perspectivas. No entanto, o exercício de reescrita empreendido não é apenas e só uma apropriação de textos da plêiade de escritores, pensadores, filósofos, poetas, dos mais variados países e de vários tempos, convocada pela efabulação. Com efeito, o leitor é surpreendido pela afirmação da paternidade dos excertos textuais citados (Dom Quixote, de quem Esse recebe uma missão secreta, refere-se ao seu criador como “o pai Cervantes” p. 68), que surgem em discurso directo, pela voz dos seus autores que assumem, por essa via, a condição de personagens ficcionais. Por outro lado, constitui ainda marca de originalidade a série de elementos paratextuais que ladeiam o corpo do texto, com particular destaque para a “Tábua de Personagens e Lugares”, em que ao traço da palavra escrita, desafiante e penteada por um humor fino e desconcertante se alia o traço elegante e bem-humorado das ilustrações de Vasco Gargalo.

Na viagem por esta saramaguíada, viagem repleta de desafios e estranhezas, somos conduzidos por uma curiosa personagem que assume a condução da narração, mas igualmente a construção da efabulação. Vai inscrevendo no entrecho comentários, explicitações de opções diegéticas, interpelações aos leitores, convocando-os, desse modo, para um surpreendente e desconcertante jogo de interpretação e reconfiguração em busca da intencionalidade dos textos, procurando desvendar aquilo que Ricoeur designou como a “transcendência na imanência, que se alicerça na construção de redes de afinadas textuais, não só com os autores que explicitamente são convocados por Pedro Guilherme-Moreira, mas também com todos aqueles que o leitor vai encontrando nos trilhos significantes de que o texto é feito. A leitura de um livro é por excelência um acto individual, um constructo, para o qual cada leitor leva as memórias de outros textos que com este põe em diálogo. Constituindo-se com espaço de cruzamento de escritas e de leituras anteriores, o texto oferece aos seus leitores uma multiplicidade de relações e significações das quais destacaria duas em particular: Utopia de Thomas More e Huis Clos de Jean Paul Sartre (ficam em aberto a concretização desses diálogos e o prazer da descoberta).

            As grandes obras, aquelas que perdurarão na mente dos leitores, são as que incomodam, porque abalam certezas, desarrumam pensamentos, desconstroem convenções. Tudo isto sucede com a leitura de Saramaguíada de Pedro Guilherme-Moreira, um livro surpreendente e belo, “como uma claraboia para dentro do mundo”.


PG-M 2017
foto de uma recensão da Professora Universitária Agripina Vieira no Jornal de Letras de Novembro de 2017

2017-11-13

Jim Carrey e o princípio e o fim do mundo

Jim Carrey, Lobo Antunes, Rodrigo Amarante, Eduardo Lourenço, George Steiner, Shakespeare, Cervantes, Saramago, Robin Williams, vida e morte, panteão, palhaços, gritaria em rede social, depressão, suicídio, grande e pequena arte, existência ou inexistência da literatura, Irene, milagre seria não ver no amor essa flor perene.
Tenho o privilégio de ser chamado a escolas e a comunidades de leitores para justificar o meu direito a abrir a boca na contemporaneidade, onde só uma ficção benevolente pode atribuir-nos mérito e demérito artístico. Na verdade, nenhum artista - está visto que eu vejo os escritores como artistas - ou julgador de artistas pode realmente saber se é importante ou não. Nem para o seu tempo, nem para o fim ou princípio dos tempos. Todos, claro, aspiram a isso.
Um das coisas notáveis que Jim Carrey disse ao programa 60 Minutes foi: "Eu quero ser o melhor actor que alguma vez existiu, mas não tenho de ser."
Porque é que eu sigo Jim Carrey, apesar de o resumo contemporâneo deste génio ser o estigma americano dos processos interpostos pela família e pelo último marido da namorada de Jim que suicidou? Forneceu-lhe drogas que a levaram ao suicídio e transmitiu-lhe três doenças venéreas? É isto que agora o define para o mundo frívolo.

Porque o Jim Carrey disse uma vez, e tem-no repetido pelos tempos, "descobri que a minha missão no mundo era inspirar os outros, ajudá-los a descobrir o melhor de si mesmos".
Para mim, o ano sempre começou em Setembro, e cada Setembro repenso a minha relevância no mundo, e a dúvida anda entre regressar à caverna ou exibir-me com as vestes sociais que me podem tornar suportável.

Até aqui, o meu único foco de intervenção pública foi provar que são os outros, não eu, que importam. Que o escritor não existe por si, mas pelo leitor. Que, mesmo que não seja lido, todo o livro é um compromisso entre os algoritmos indecifráveis da arte literária antes de serem sintetizados e passados ao papel e o que fica disso para poder ser lido. Um livro não tem de ser fácil, mas tem de ter em si, pelo menos, a possibilidade de ser lido. A comoção de ter pela frente pessoas que, com mais ou menos vontade, estão ali para me escutar, é sempre enorme. Sinto uma reverência que, se não for domada e convertida, pode até ser inibitória. Em momento algum me sinto importante. Gosto até de brincar com a aparência de importância que os escritores precisam de ter para se distinguir da massa informe ou disforme dada ao prelo pelas empresas de venda de sonhos ou projectos dos que sonham ser escritores. Todas as artes, hoje, são susceptíveis de serem imitadas e de terem edições que o público não consegue, imediatamente, distinguir se é autêntico ou fruto do ego de pseudo-artistas que pagaram para ser vistos, não para ver. Pseudo-artistas que nunca ficam à escuta, única forma de apanhar a matéria suprema da arte algures no universo e, podendo ou sabendo, dar-lhe uma forma, boa ou má, de bom ou mau gosto, desta ou daquela corrente, feia ou bonita, não importa. Importa apenas que seja genuína criação, ainda que falhada.

Também aprendi com o Jim Carrey que devemos falhar bem e controladamente. Que o momento incompreensível em que eu decido cantar o Lilac Wine na apresentação de um livro e as lágrimas na garganta me darem cabo da pouca voz que ainda estava disponível não foi um fracasso total. Afinal, eu estava a chorar por dentro por uma leitora tetraplégica cujo exemplo sempre me emocionou. Se eu fosse perfeito em tudo, nunca conseguiria criar empatia com os leitores, só fãs loucos e irracionais.

O desfile de nomes ao princípio é só um exemplo dos que tenho ouvido de forma crua e acrítica, primeiro, para poder formar uma opinião ou me tornar melhor artista. Não pessoa, artista.

Esta moda no "#notme" não me comove. Sabem porquê? Porque eu sempre estive na primeira linha de protecção dos fracos ou enfraquecidos temporariamente, por condição social, religião, idade ou género. Aliás, cometo reiteradamente o erro de me aproximar dos fracos e de lhes dar protecção, mesmo sem que isso me seja pedido. Conheço bem a linha fina entre assédio e sedução. Não existe, na condição humana, um único movimento de sedução de qualidade que não pise linhas. Escrevi várias vezes sobre isso. Testei limites em ambas as profissões que tenho exercido, advogado e escritor. Percebi a hipocrisia e o poder do sexo. O poder destrutivo do egocentrismo e do egoísmo, mas também de quem o usa para prejudicar ou mesmo destruir terceiros em situações de fronteira. Hoje em dia é muito fácil e hipócrita confundir saúde com doença, no que ao sexo diz respeito. Mas, na verdade, uma pessoa de princípios nunca cede e, se acaso comete um erro, sabe imediatamente reconhecê-lo. Há puritanismos (muito) mais perigosos do que libertinagens.

Chegados aqui, nunca retirarão a Cervantes o ceptro de autor da maior obra de todos os tempos (por subjectivo que seja, já houve várias eleições nesse sentido de pares com autoridade), mesmo que ele fosse o maior criminoso de todos os tempos. Aliás, o que o tempo faz aos maiores criminosos de todos os tempos é dar-lhes um sentido e um significado histórico que serve aos vindouros para se protegerem. E como nunca retirarão o ceptro a Cervantes, também não retirarão os prémios e o brilhantismo ao Kevin Spacey nem o génio ao Salinger, apesar do pobre comportamento perante a Joyce Maynard.

Da mesma forma, transcende a minha opinião ou sentimento pessoal o jantar do Panteão. A única coisa que isso me serviu foi para perceber que prefiro uma boa dúzia de génios que jantou no Panteão há dias e que tocará este mundo realmente para a frente do que os medíocres dos políticos que responderam presente à gritaria das redes sociais. E vocês, com quem é que contam para o futuro? Com o Paddy Cosgrave ou com o António Costa, que até já lá tinha feito as suas jantas?

Jim Carrey é - por razão nenhuma quanto a ele próprio - a partir desta semana, não apenas mais um ídolo ou mais um génio que cultivo, até porque, como ele explicou na célebre entrevista em que descompõe uma repórter de passadeira vermelha na Fashion Week (repórter a quem ganhei respeito, porque se aguenta brilhantemente perante um destruidor - mas sempre genial - Jim Carrey), mais vale cultivar personalidades e conteúdos do que ícones, mas o maior génio das artes que exerce.

Vi horas a fio de performances, entrevistas, bem mais do que filmes (porque ele é bem mais genial quando é ele próprio), e regresso sempre ao Commencement Speech que vos deixo no final deste.

Se, entretando, a ligação do vídeo expirar, voltem por favor a procura-lo no youtube e, como tudo o que é muito importante, vejam-no com vagar.

No final, parecer-vos-á claro o mistério do princípio e do fim do mundo.

E restar-vos-á toda a coragem para  o que fica entre os dois.

Tenham uma boa vida.

PG-M 2017
origem da foto

2017-10-11

Temos fotografias

Eu nunca te mostro ou... nos mostro publicamente para lá do que escrevo, porque o amor, o verdadeiro amor, é ofensivo na face da desventura. Não há, pois, auto-retratos. Mas seria mais ofensivo para todas as mulheres que eu vi e me viram toda a vida dizer que ceguei e não vejo mais ninguém além de ti. Como fazia a mulher do García Márquez, e como fazem todas as grandes mulheres, tu também me chamas quando passam as mulheres que me arrebatam. Eu digo-te quase sempre quem são e nós vamos gerindo o perigo de nos perdermos com mundo, não com utopias. E no quase está a intimidade e o segredo de cada um, que o outro respeita, umas vezes, e outras tolera com mais ou menos sabedoria. As tentações estão dentro da harmonia. Sabemos que o verdadeiro amor só tem dois segredos: é simples e livre. Mas nunca descomprometido ou desleal. Esta mão está fresca sobre ti nos dias quentes e quente nos dias frios. Faz Janeiro trinta e um anos. Sou homem e amante, mas também sou um menino, um infante amedrontado, que já perdeu os mapas dos outros corpos. E se a confissão me faz perder a fama de onde nasce a tensão e a curiosidade dos outros (das outras), o mapa está aqui, sob esta mão, é o teu braço, a tua temperatura, o que eu faço de ti e tu de mim. E eu só saberia amar outra mulher como te amo a ti. E o corpo, oh, o corpo, teria de o aprender como uma criança, por este mapa, por esta mão, por este braço.

PG-M 2017
Foto nossa. Sim, somos mesmo nós, em Outubro de 2017, não há sete ou outo anos. Agora. O maior mérito tem sido velar. Mas desvelar os trapos que afinal não são trapos - uma ou duas vezes numa década - também tem o seu quê de utilitário. Sim, utilitário.

2017-10-03

vida e morte dos gatos

até muito tarde na vida

sempre que passava de carro pelo cadáver de um gato

ficava a pensar na minha morte
e desolado pelo tempo do gato
ali parado e sem amor

e os rodados dos carros sem alívio
zim zim zim zim zim
e o gato ali
parado e sem amor

agora na vida é mais tarde e

sempre que passo de carro pelo cadáver de um gato

não mudo de pensamento
só de atenção e é uma mudança
breve
leve
verifico se é preciso trocar de faixa
se o telemóvel está ligado ao sistema de mãos livres
se aquela morte não me vai atrasar a vida
penso no descuido do felino
mas tudo passa quando
o carro passa e eu passo
com o carro
sem ficar lá

como ficava antes

até muito tarde na vida

o meu filho sentava-se comigo à mesa do café
de camisola de manga curta e miniatura de mustang
e eu de olhar vazio e sorriso vago inclinava a cabeça e dizia

vrummmmmmmm

e ele dava uma gargalhada e eu continuava aflito
não com a vida ou morte dos gatos
agora o meu filho sai às sete e entra no wc do café
sai de camisa e gravata e olhar vazio e sorriso vago
e inclina a cabeça para mim e diz

vrummmmmmmm

e eu como mais uma colher de sopa

até muito tarde na vida
a peixeira parava ao largo e abusava da buzina
e a tia quina saía lampeira a dizer menina
e o toninho movia-se dentro do balcão
com dignidade a tirar cervejas cafés e a dar
raspadinhas e prémios e troco
do benfica em terra de portistas
e como o toninho era puro ficavam
todos a rir

até muito tarde na vida
o poder mal se notava na rua
os ferros e as mãos entravam na terra
as línguas nas bocas e o sal na comida
os corpos encaixavam debaixo dos braços
e não havia distância
nem desterro

até muita tarde na vida
cuidava-se da vida e da morte
dos gatos
o avô entrava no porto pela ponte dom luís
parava no largo 1º de dezembro cortava a travessa
da rua chã rompia o frio das sete para arrumar os
volumes de tabaco e as harmónicas novas iguais
às harmónicas velhas havia um balcão de dois metros
de ancho que eu até me deitava lá ao comprido ainda
eu não era comprido e os gatos viviam e morriam
normalmente

até muito tarde na vida
atirávamos o prego para a terra
o pião para o chão
o iôiô de balancé
para o vazio
trocávamos cromos a chorar
pelos mais raros
e ir ao telefone
era um momento solene
tínhamos cães e gatos como pessoas
e eles não morriam sem
consentimento
a avó dava notas de dez contos
e o jantar tinha uma única hora
em todas as casas

até muito tarde na vida
o natal era secreto entre os ouvidos dos primos
e as famílias compridas de dois metros de ancho
como o balcão da loja e como os jogadores
de basquete do futebol clube do porto
no pavilhão américo de sá e quando a solidão
e quando a solidão nos tocava
havia sempre um vizinho
no ombro

até muito tarde na vida
o mundo era imperfeito
e desarrumado
as bancadas dos estádios frias
e sem cobertura
havia baianas na casa da batalha
e sapatilhas de marca na crocodilo
e nós dançávamos slows
nas festas de garagem
e das paredes nasciam
grupos de rock
e ninguém se rendia
nas caçadinhas só
no jogo do lencinho
com juras de sangue
nos lábios das loiras
para todo o sempre
e os gordos e os
caixas de óculos
eram nossos
e investidos cavaleiros
no brasão do grupo

como o Piraña
do Verano Azul

até muito tarde na vida
jogámos futebol na rua
entre a vida dos cães
e dos gatos
com balizas de paralelos
e empates dez a dez
e perdíamos os amigos por
três meses e não pela vida
toda como agora
a morte dos cães
e dos gatos

até muito tarde na vida
fiz poemas muito maus e
mesmo assim os amigos
pediam versos como
Cristiano a Cyrano
para a Roxanne
e vinham de olhos
húmidos acusar-me
de poesia
e hoje
que os meus poemas são melhores
são mortos sem piedade como os
gatos no breu

até muito tarde na vida
os poemas eram finitos
e os gatos infinitos

doravante morrem os gatos
mas os poemas não 

PG-M 2017
(que neste escreverá toda a vida mais e mais versos e estrofes a seguir a "breu" até que o atropelem na estrada sem piedade como os gatos no breu - eis o poema aberto)

fonte da foto


2017-09-30

nos próximos minutos ou então a vida inteira


nos próximos minutos (ou então a vida inteira), haverá apenas dois guilhermes no mundo, um pai e um filho, tão diferentes um do outro como as copas e os troncos das árvores, como os sorrisos duros e os olhares doces, tão diferentes um do outro que os respectivos corações são poços sem fundo e quem para eles espreita dos rebordos de granito entre os meses só vê preto,

só que a entrada para o meu é pelo topo e a entrada para o teu pela base e como não têm fim nem a manipulação formal de equações, operações matemáticas, polinómios e estruturas algébricas resolve o problema a quem nos estranha:

onde fica o verdadeiro acesso?
já quem nos ama chega ao centro de olhos fechados, comigo pela pele e pelo cheiro, contigo pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

ambos comemos ética e liberdade, só que eu já engordei e tu ainda não,
pelo que comigo a ética e a liberdade funcionam como as lutas de homens e touros mais ou menos como as caracterizou um dos maiores matemáticos do nosso tempo, Hemingway, estou quase nos cinquenta e ainda não sei viver com economia física e acho que a beleza de um gajo do porto está no desbraganço e no calão e na forma vigorosa de destruir as espaldas dos amigos
(não vou agora recordar-te, com o risco de uma lamechice mortal, que a minha solução não foi opção porque era espancado em criança e um dia me levantei e comecei eu a espancar: isso seria estúpido e pouco literário; na verdade sou assim porque acredito nisto)

e tu, que só muito recentemente te tornaste homem,
comes ética e liberdade com economia

como o garcía martín lá em oviedo, a forma como um homem não se vende nem se cala - nem aos amigos, nem aos inimigos, nem aos inofensivos nem aos mais perigosos - priva-o imediatamente da unanimidade, e, como a unanimidade é perigosa, torna-o seguro

mas, na verdade, ninguém sabe que esse homem é seguro, porque o homem livre parece sempre um cabrão e um cabrão parece sempre um simpático homem livre

a diferença é que eu agora passo a vida a dizê-lo e tu não

os teus amigos percebem-te em silêncio e sem proximidade
curiosamente, no fim de contas, os meus também

posso dizer-te, meu filho, que é provável que possamos obter algum reconhecimento à morte ou na extrema velhice, nunca antes

não esperes palavras justas ou reconhecimento quando partes de um lugar ou de uma casa
não esperes agradecimentos públicos
não esperes cartazes pendurados em murais

afinal, esta filosófica busca da autenticidade - e não da verdade, que é mais falível e impura do que a matemática - traz apenas isso, autenticidade

mas, repara, não leves a mal a ninguém o silêncio perante homens com qualidades
quem pode viver sem um abraço e um elogio público?
ou ao ouvido, baixinho, para que ninguém ouça, "mano, sabes que nunca me vou esquecer de ti"?
quem pode viver sem uma noite de embriaguez e a negação da dolorosa ciência dos dias, sem os metais da vitória e do sucesso, a carne das taças e o brilho da geometria, a arrumação iconográfica do ecrã do telemóvel ou a selfie que te ilude a sentença suicida:

mas a vida é só isto? esta merda?

afinal, meu filho, a única coisa que tu fazes é voar

e ser digno


e sim, a vida é só isto, é lama e cinzento, são corpos cansados e as curvas das mulheres misturadas com as curvas dos ossos, mas, tu que és de cá,

um dia vais fazer o que eu fiz: vais levar o sobrinho do Pessoa,
que nasceu da névoa em Canidelo, naquele percurso da luz:
pelas onze da manhã, estacionas o carro na afurada, debaixo da ponte da arrábida, e diriges-te a pé rio acima e, depois da primeira curva à direita, vais apontar (eu sei que não gostas, mas, por favor, aponta) para o primeiro vislumbre da ponte de ferro e mostrar o jorro da luz da manhã a varrer o rasto dos barcos em direcção a ti e ao céptico que te acompanhar e dizer

a vida são aquelas lágrimas de há pouco, sim,
mas também isto

e lá está o meu defeito, é sempre a mesma merda:

eu só escrevi isto para te dar os parabéns como todos os pais têm dado aos filhos que entraram na universidade este ano, e mesmo aos que não conseguiram mas lutaram e vão continuar a lutar

é, pois, um texto profundamente banal e nepotista

é até bem triste que um pai se sirva do seu próprio filho como exemplo nas escolas que visita como escritor, como se não tivesse vida própria além desse filho, e é por isso que eu gostaria de esclarecer publicamente, para que fique claro, agora e sempre:

é verdade, eu não tenho vida própria além deste filho; mais precisamente: a minha vida própria é este filho e tudo o resto uma grande consequência de não haver nada mais importante

vai continuar a ser assim até descobrirem o fundo aos poços dos nossos corações, lamento

nas escolas eu digo que andavas com umas notas pouco recomendáveis no décimo ano quando viste a luz da engenharia mecânica, soubeste que estava na moda e que o lamentável crivo se aproximava de um dezoito e tu estava longe de ser um dezoito e disseste

eu quero isto


e acabaste perto do dezanove; desligaste a playstation durante um ano, perdias cinco horas por dia a treinar com a tua selecção nacional de voleibol e a combater as leis medíocres deste portugal que há muitos anos não ajuda os seus atletas e prefere fazer leis parvas que as escolas e as universidades e as federações não combatem a sério, foste dando sempre passos seguros atrás quando te queriam empurrar para a frente, mudaste de clube, foste feliz e respeitado e nunca deixaste de voar, mas os critérios de topologia, geometria, até a teoria dos números para te descrever, tudo

tudo em ti é imperceptível e infungível

e no entanto és feliz

baixas o corpo quando o distribuidor te aponta a bola, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado

sabes o teu lugar, se to tiram combates por ele e bates palmas aos adversários
e quando abraças um amigo é para sempre,
mesmo que ele não abrace de volta

mas receber o teu abraço custa uma vida
e quem te estranha, pergunta: onde fica o verdadeiro acesso?
já quem te ama chega ao centro de olhos fechados, pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

entraste

vais lutar pelo máximo, sempre

e, naquele desporto que toda a vida foi nosso, estás parado no ar,
no teu deserto privado
e sem ninguém

mesmo perto do brilho, com o corpo pronto para lutar pelo impossível,
lanças tu a bola ao ar,
baixas o corpo, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado,
na falível percepção da felicidade
mas com memória do mundo


parabéns, meu filho



PG-M 2017
foto do próprio