2016-01-03

ManelAAzevedo

Não há nada de deslocado no tempo, sequer o próprio tempo, quando o que o move é o corpo, nem há nada de deslocado no pensamento, sequer o próprio pensamento, quando o que o move é o mesmo corpo, muito menos há o que quer que seja de desconexo no corpo quando ele se move apesar do tempo e do pensamento.

A culpa é da vontade.


Uma ideia me ocorreu quando o corpo fervia de pulsão para passar ao ecrã pelas teclas o que, provavelmente, reside nas profundezas da alma de quase todos os seres humanos menos dos escritores, que dificilmente são humanos e provavelmente não são seres, talvez sejam entidades diabólicas amaldiçoadas pela inquietação de nomear o que pertence ao domínio do silêncio, e talvez a mais sublime literatura seja aquela que diz tão pouco que o não desaquieta, ao silêncio, pelo menos a literatura que usa um braço para entrar nas cabeças, nos corpos e no intermúndio, ou seja, os corpos e o espaço entre eles.

A ideia ocorreu-me nesta semana de intenso convívio familiar em que estamos bem simplesmente calados ou no conforto de família e amigos, olhando em volta sem grande agitação cerebral: eu gostava de vos dizer, irmãos, primos, filhos, pais, mães, tios, o tanto que quero escrever sobre tantas coisas e pessoas, mas o mais certo é vocês estarem-se marimbando

(na minha mente nortenha estava outra expressão, mas uma cura intensa de "Dowton Abbey" fez-me ver que o tempero quente do nortenho pode ser servido com certa elegância, e que uma coisa é ter orgulho no verbos largos, que são do bem, não do mal, outra é vulgarizá-los, pelo que evitei usar a expressão "estarem-se a cagar" ou o "vão-se foder", que mais à frente também omitirei )

o mais certo é vocês estarem-se marimbando para tudo o que eu queira dizer sobre o que quero escrever. E tenho aquela ideia de que os que me estão mais próximos só me descobrirão morto. Talvez seja por isso que tantos escritores se matam: quando têm produção suficiente para a poder mostrar à família, têm de se matar para serem lidos em profundidade dentro de casa. Para a família, o gajo que escreve é apenas mais um. Se já não é normal ouvirmo-nos, realmente,  em família, e daí o espaço para os amigos e para as redes sociais, menos normal é apreciarmos os ofícios uns dos outros, a não ser quando coincide com o nosso ou nos interessa por qualquer razão operacional. É normal que eles já se estejam todos marimbando para o que eu escrevo. Que fará para o que eu quero escrever.

E foi assim, com este pensamento suicida, que me encontrei no canto mais remoto da sala grande de ano novo, empenhado em não ler e em parar de consultar as redes sociais e disponibilizar-me para alguma actividade colectiva como ver um mau filme na televisão, que é uma saudável tradição. Como o comando da televisão estava em mãos epilépticas e não havia maneira de a proposta televisiva estabilizar, tomei nas mãos uma "shotgun" Nerf  que estava em cima do aparador e experimentei alguns disparos, primeiro com alter-alvos humanos, que não acharam grande piada, depois apontando-a ao céu da boca e à própria têmpora direita. Se aquilo magoa moderadamente à distância, é uma descarga de adrenalina sobre o próprio corpo. E aí surgiu o pensamento. Vocês não querem saber dos meus projectos de escrita e têm a razão toda.

A culpa não é do vento
se a minha voz se calar

Então, num acesso de tédio que é raro, mas saboroso, quando ocorre comigo, tomei outra coisa nas mãos, que também estava pelo aparador, pousada ao acaso: a edição dos espectáculos ao vivo dos "Humanos", um grupo formado em meados da primeira década deste terceiro milénio para celebrar o génio do António Variações. Eu tinha sido comprador do cd de estúdio de 2004 e estive no concerto ao vivo no Coliseu do Porto do dia 4 de Julho de 2005, que foi um de três concertos únicos desta superbanda. Aquilo interessava-me. Interessava-me voltar a ouvir versões que me haviam arrebatado ao vivo e que eu nunca mais voltara a ouvir. Na altura, arranjei apenas dois bilhetes para a plateia, mas, como o meu filho, prestes a fazer apenas 6 anos, era o fã número um da banda, deixei-o ir com a mãe. Mais tarde, consegui um bilhete para os galinheiros, e estive nessa estranha posição de observar, quase na vertical, "os meus", e eles a ter de olhar para o "céu" para ver o pai, prenúncio destas ideias suicidas. Isso também me permitiu ver o concerto à minha maneira, ou seja, de uma forma profundamente intimista. E, embora os cds e os dvds sejam, cada vez mais, retro, encontrei um computador para os ver e ouvir (é um cd áudio e dois dvd - dos concertos nos Coliseus e do concerto no festival do sudoeste, além de um documentário onde descobri algo de notável, que já vos conto).

Claro que o que mais me perturbou e arrebatou foi a senhora que dá título a este post.
A Manela-Azevedo-dos-Clã, como quase toda a gente a trata, foi minha colega no curso de Direito 88-93, na Universidade de Coimbra. Mal me lembro dela, como ela mal se deve lembrar de mim. Sei que era pequenina e discreta, sempre afastada dos olhares primários dos adolescentes tardios que começam um curso universitário. Era, por isso, mais fácil eu não a admirar e anunciar aos amigos, como aliás faço, sempre que posso, que a "Manela-Azevedo 
-dos-Clã" foi minha colega de curso, e aí se esgotaria a "Manela", numa abordagem egocêntrica deste que vos escreve. A "Manela" sou eu, eu é que sou importante.

Acontece que aquela menina discreta dos Gerais da Faculdade de Direito era agora uma mulher brilhante com uma capacidade ímpar, não só de dominar o espaço do palco e a emoção da plateia, mas de se comover com o corpo todo. Não só de dominar o espaço do palco, mas o intermúndio, o espaço entre os corpos. A culpa é da vontade. Que, no caso da Manela, nem com a idade morre. Além de profundamente sensual na reacção à música, quase nos arranca a pele na forma como no-la mostra, como usa a voz toda e a faz sumir e reassomar, como é humilde e, ao mesmo tempo, olímpica e intrépida, insolente e audaciosa. A forma como ela se moveu e interpretou, nessa noite de 4 de Julho de 2005, "A culpa é da vontade", dançando "visceralmente" (não há palavra melhor) no mesmo lugar e afastando e aproximando de si o microfone sem que a base do suporte saísse do lugar, voltando e baixando a cabeça em veneração à música, mas o torso sempre voltado para o público, fez-me perder o ar e pensar que afinal era possível, que a entidade-intérprete era tão ou mais diabólica como ou do que a entidade-escrevente (que, contudo, raramente se exibe fisicamente, embora seja cada vez mais requisitada para tal). O cabelo curto e as linhas gregas da "Manela", a forma como, sendo mãe, move naturalmente e com uma leveza extrema o próprio corpo, faz da experiência de a ver em palco uma experiência religiosa.
Não é quase-religosa. É religiosa mesmo.

A "Manela" é, para mim, a melhor intérprete do Pop-Rock português dos últimos vinte anos. Vê-la deste lugar e ter chegado a este ponto é mais uma lição de vida. É evidente que as coisas são mesmo assim, que nós não iremos hoje a correr para ninguém a quem amanhã, no funeral, pediremos o impossível, ou seja, que não nos morra e que viva mais um dia para que o possamos abraçar ainda quente. A experiência da perda é fundamental, às vezes endógena, à valorização do perdido. Há uma existência vital na morte - como há uma evidência mortal na vida. Mas a culpa aparece quando nos construímos a vísceras, como aquele ou aquela que admiramos e, depois de termos estado tão perto, nos tornamos distantes e pouco acessíveis ou, pior ainda, indiferentes. Fica o lamento pelo que não se conversou, debateu, viveu, bebeu, ouviu. Está bem que os nossos se estejam marimbando para o que fazemos e construimos para nós à margem da vida deles. Já não está bem que nós, os de vísceras, nos percamos constantemente uns dos outros.

E a vida, a estética e até o tempo dão-nos belas lições.
No final do documentário sobre os concertos dos Humanos aparecem imagens do delírio no Coliseu do Porto. A câmara volta-se para o lado direito da plateia, esquerdo de quem olha a partir do palco. No colo de uma bonita rapariga que eu identifico atónito - porque era a minha mulher - está um rapaz de quase seis anitos que eu e ela fizemos na condição de voltarmos ao nada para ele ser tudo. Uma inesperada e intensa viagem no tempo, já nem tanto a nostalgia dos Humanos. Depois de a ManelAAzevedo me ter relembrado a comoção de ver como é genial a "Manela-Azevedo-dos-Clã", ali, em frente à Manela-de-pandeireta-a-bater-ritmadamente-na-anca, o sentido da minha vida. Lembro-me que a Manela interpretou o "Anjo da Guarda", que a minha miúda me disse, no final do concerto, ter de lhe arranjar:

"Tens de me arranjar esta".
Está aqui. Dez anos depois, mais uns trocos.
O rapazito de quase seis anitos, vestido com umas jardineiras vermelhas, é hoje conhecido como o rapaz voador e está do meu tamanho. A minha mulher olha brevemente para os galinheiros. Nunca é tarde para escrever isto, muito menos para exaltar a ManelAAzevedo dos Gerais. Embora o que sempre tenha sentido por todos eles  nunca tenham sido coisas confusas. Nem problemas de expressão.

Sobre ela, sem mais palavras, eis:


PG-M 2015

2015-12-09

Se me queres ouvir, não me comas à luz artificial

Se me queres ouvir, não me comas sob o novo
mobiliário urbano da vila, comparece contudo
defronte do banco de praça que o paisagista
rasgou oblíquo no mundo

Se me queres ouvir, não me comas nos festivais
onde uma versão temerária de mim e nenhum
pensamento circulará pelo auditório
minimal que o arquitecto municipal
ergueu apesar do mundo

Se me queres ouvir, não me comas na televisão
onde uma versão temerosa de mim e nenhum
olhar cegará os cinescópios datados
que o designer do cerco riscou apesar
do mundo

do mundo
volta atrás sem esperar o anúncio dos nossos
funerais e não me perguntes se vou publicar
e deixa os editores em paz que eles têm a corda
no pescoço por imperativos de mercado não
de literatura e então,

se me quiseres ouvir,
não me comas à luz artificial do novo
mobiliário urbano, chega-te ao banco
defronte do meu e observa as minhas
mãos a olhar para as tuas e os meus
joelhos a mostrar os teus e os meus
olhos a tomar os teus e o silêncio
a dizer o que ambos

queríamos ouvir
a mãe morreu
tem sido um prédio comprido de escalar entre
as costelas
lembras-te da milene? sim, até ficámos
de tomar café mal a vida toda cheia
ficasse vazia, porquê?
porque também morreu

foi quando?
foi ontem
foi ontem
foi ontem

ah, que alívio, então o funeral...
não foi, é amanhã
às três da tarde

quando as casas vazias

que bom, que bom,
vamos juntos
vamos juntos, sim
vai ser bom
vai, vai ser bom
e depois é o nosso
pois é, depois é o nosso 
ao menos
que não seja no mesmo dia

ahahahahahahahahahahahahah (treze sílabas métricas)

uma gargalhada subiu aos postes imaginados
pelo arquitecto paisagista e entrou
nos auditórios minimais
e nos velhos
cinescópios

os amigos continuarão a adiar-se
e a morrer sozinhos

(sem querer)

os escritores a dizer as mesmas coisas, mas felizmente
a escrever outras 

que ao menos não se comam uns aos outros
à luz artificial


PG-M 2015
foto de Jessical Ceballos, por Tyler Curtis: clique aqui para fonte da foto

2015-12-08

Na Galiza, em Dezembro

Deixo aqui a ligação para um entrevista a um órgão de comunicação galego. Gostei muito das perguntas do Ramiro Torres. É só clicar sobre a foto (printscreen do blogue "Palavra Comum").
Deixo também, a seguir, algumas fotografias da sessão de autógrafos da Culturgal no sábado, 5 de Dezembro de 2015, no Pazo da Cultura de Pontevedra, e dos fantásticos dias 23 e 24 de Novembro de 2015 em Santiago de Compostela (charla no dia 23, com a escritora galega Ledicia Costas) e aula na Escola de Idiomas na manhã de 24.
http://palavracomum.com/2015/12/07/entrevista-ao-escritor-portugues-pedro-guilherme-moreira/ 


com Ledicia Costas, 23-11-2015, Santiago de Compostela

Livraria Ciranda, Santiago de Compostela, 23-11-2015,
com Eugénia, da DG Cultura do Norte e Loaira, livreira

Aula na Escola de Idiomas de Santiago de Compostela, 24-11.2015

Cartaz da Culturgal 2015, Pontevedra, 5-12-2015

Com o grande Estraviz e Eliseu, na Culturgal 2015, Pontevedra
 
Sessão de autógrafos, Cuturgal 2015, Pontevedra






2015-11-25

Discurso Galego


Santiago de Compostela, Escola de Idiomas, 23-11-2015, 20h, Nortear, Universo Literário Comum

Quando ouvimos os discursos oficiais, metade do tempo é coloquialismo – ninguém diz nada de importante antes de se dirigir a toda a hierarquia presente. De certa forma, acredito na ordem como organização da capacidade de escutar, e quase ninguém tem capacidade de escutar. Não porque sou revolucionário, embora aposte em cavalos de tróia, mas porque me dirijo sempre aos presidentes e aos directores quando os vejo incomodados com a beleza.

Assim a regra mudou.  Por isso, Cristina Rubal, que vens em vez do Anxo, que é um nome belíssimo que em Portugal só se usa nos nomes de família e quase sempre no plural, não me dirijo a ti porque és subdirectora xeral das Bibliotecas da Galiza, mas porque celebro ter-te conhecido aqui e ver-te vibrar e emocionar, não apenas connosco, os protagonistas, mas com a audiência em frente, os anónimos, aqueles que hoje, provavelmente, nós não conheceremos ainda. Vladimir Nabokov, numa carta à sua mulher Vera, dizia que tinha a sensação que os anjos estavam todos no céu a fumar com ar de culpados, e que, quando o Arcanjo passava, deitavam os cigarros fora, à pressa, sem os apagar, e que isso, para Nabokov, é que eram as estrelas cadentes. Pois estou certo de que para ti também, Cristina.

Senhor Director Gonzalo, não precisava de me dirigir a ti no intróito do meu discurso, porque creio que já cumprimos todas as etapas da condição da amizade, mesmo antes de nos conhecermos. Nem sempre é fácil como foi contigo, por isso não te dirijo o discurso, mas amizade, respeito, mesmo esta paixão comum pela literatura.

E não me dirijo a ninguém de Portugal, porque Portugal está sempre comigo, dentro de casa. Talvez só me dirigisse a Portugal se ganhasse um óscar – é certo, e isso garanto-vos, que se me deixarem viver tempo suficiente, ainda ganho um óscar para Portugal, até para explicar aos americanos onde fica. Mas os galegos sabem onde fica Portugal.  Portugal é o seu corpo no mapa, o corpo de uma cabeça brilhante chamada Galiza.

E tenho pelo menos uma religião: a negação de mim como centro do mundo. Não  professo a fé de quando os escritores aparecem perante uma audiência apenas com a experiência e a sabedoria e não trabalham, não se tiram do centro, não fazem da audiência e dos pares ao seu lado o centro do mundo, o objecto do momento. Não fazem tudo para se apaixonarem e deixarem que se apaixonem por eles. Não oferecem o corpo, os abraços, a voz, os beijos, a saliva que separa as palavras umas das outras e até as queima, como queima as línguas dos outros. Creio nas nossas línguas assim, num beijo, em fogo, formando parte de uma unidade quando se juntam, e sendo indivíduos quando separadas, como os grandes amores, durmam na mesma habitação ou em habitações diferentes.

Grande parte deste texto estava escrito antes do terror de Paris, mas não pensem que, porque é moda ou anti-moda, eu vou deixar de disparar sobre vocês, eu vou fingir que cada reunião pública não é um acto de coragem e liberdade, principalmente de quem se senta na plateia. Porque, vejam bem, a alternativa é o conforto do espelho, é o curriculum do escritor ao espelho.  Em vez de falares de ti, escritor, de dizeres o teu nome, escritor, diz o nome da mulher em frente a ti, diz o nome do homem  em frente a ti.

Roberto Amarelle, não te protejas, não caias na trincheira, dá-te. A charla é sobre ti.

Alberto Crespo,  não te protejas, não caias na trincheira, dá-te. A charla é sobre ti.

Aida Cuiñas, não te protejas, não caias na trincheira, dá-te. A charla é sobre ti.

O Roberto não gosta de cinema, mas como poderia o Roberto gostar de cinema, se está ocupado a viver as aventura do Capitão Alatriste, do Arturo Perez Reverte?

O Alberto já gosta de cinema, do filme Abre os olhos, de jogar futebol com o Ronaldo na quinta privada que têm na praia e de comer comida mexicana e passar o tempo entre costuras.

A Aida, que tem um nome de grandes obras literárias e é a protagonista do meu primeiro romance, A Manhã do Mundo, onde estão todos os 11 de Setembros e todos os Charlies e Atocha e Londres e Paris, é mista no comer, Pilates e caminhada no mover, Inodchina no ver, mais de cem anos de solidão no ler e uma casa com jardim.

Carmen Regueiro Dopazo, não te protejas, não caias na trincheira.

Ana Valladares Fernández, dá-te.

Monica, de quem não sei o apelido e por isso vale para todas as Mónicas, Mónica, a charla é sobre ti.

A Monica, de quem não sei o apelido, é vegetariana e gosta da actividade que mais faz crescer, que é dormir, gosta de ver drama político e de ler poesia, filosofia, ciência, as vésperas de leviathan, e não sei se aqui véspera se diz no sentido de dia anterior ou de final de tarde. Para mim, Monica, é final de tarde na tua casa de campo.

A Carmen sobe montes e vales por caminhos ínvios numa bicicleta estática e não gosta de comédias absurdas e formará a sua própria novela numa casa longe de tudo onde não haja contaminação.

A Ana Valladares tem algo que me fez parar logo, é um detalhe, faz parte dela e de mim ao mesmo tempo. Valladares é o nome dela e o nome da vila onde eu moro, da praia onde eu escrevo e onde me banho e tomo sol. Não pode ser coincidência, Ana. Nunca é. Ficas na obrigação de visitar essa vila portuguesa, porque eu já te visitei a ti. Até porque, como tu, me deixo encantar pela comida-lixo de vez em quando e vou comer ao mundo todo, a Itália, à China e ao La Pepita, em Vigo e hoje vou chegar a comer em Santiago. E é fascinante que o teu desporto favorito seja andar aos cogumelos e às castanhas, passear, perderes-te por ruas ou povos desconhecidos. E é tão bonito parar o carro e meter no maleteiro uma mesinha antiga antes de ver um filme com mensagem social. E gostas dos livros todos, por isso, sim, vais acabar por chegar aos meus, a mim e ao Valadares do Porto, Portugal.  Só tenho pena de não ter estufa nem chaminé em casa, Ana Valladares.

Alexandre Vizinho Aguirre, a charla é sobre ti.

João António Calo Pouso , não caias na trincheira.

Cristina Sobrado, não te protejas, dá-te.

Alexandre, só com o tema da trilogia do Padrinho, do Coppola, e a tua vontade de visitar a cidade onde eu nasci e vivo, o Porto, não nos calaríamos durante dias, mas há uma condição: espero que concordes que o Padrinho só tem dois filmes bons, e que o III é mau. Curiosamente, o que achávamos na altura ser um acesso de nepotismo do pai Francis, a apresentação da filha debutante, Sofia, ao mundo, veio a revelar-se premonitório, porque hoje a filha Sofia é mais brilhante a filmar do que o pai Francis.

João António, será que percebi bem? A qualidade do companheiro viajante deve ser brincalhão? Se percebi, talvez isso baste. O humor é uma virtude superior.

Cristina, tu gostas de comer na rua, de visitar a cidade, de te rires com a Costela de Adão, e ficar o resto da vida a ler Crime e Castigo, do Dostoievsky. Pois, é isto: está tudo dito. Basta querer fazer o mesmo.

Maria Tilve, não te protejas, não caias na trincheira, dá-te. A charla é sobre ti.

Maria, tu que tomas um pequeno-almoço tão forte que a comida não te vê durante o resto do dia, tu que amas Mia Couto com todas as tuas forças, como eu, fica sabendo que ele é, há mais de dez anos, o meu candidato para o próximo Prémio Nobel da Literatura em português, neste caso para Moçambique, e que, apesar de trocar correspondência com ele, como par, tenho veneração tão grande que o pudor me deixa calado quando nos encontramos pessoalmente, logo eu, Maria, que nunca me calo! Pois sei que amas Portugal e que, podendo, vivias o resto da vida, e até morrias nos Açores. Só não sei em que ilha, tens de me dizer antes de eu me ir embora, em qual das nove ilhas irias viver e morrer, Maria Tilve. E, antes de te despedires da Galiza e navegares para os Açores, passa pelo Porto e diz-me como descobriste o sal das palavras novas do Mia, palavras que são novas em todas as línguas.

Uma canção recente da genial cantora mexicana Natalia LaFourcade começa assim. “Esta historia terminó, no existe”. Pois aqui é exactamente ao contrário. Tudo acaba de começar.

Os nomes, anónimos há minutos, tornam-se subitamente gigantes e o centro deste mundo. Este é o movimento. O escritor, o artista, a figura pública, deve tirar-se do centro. Essa é a diferença entre escritores vivos e escritores mortos. Pois muitos dos escritores mortos estão bem vivos em nós, mas os que estão mesmo vivos não se podem comportar como se estivessem mortos, desaparecer do mundo, exaltar o silêncio de forma gratuita.

O universo literário comum é o universo. E tu tens de escutar o universo. Só há problema quando não escutas, quando ignoras. Se escutas, lês. Se olhas em volta, se procuras, se não sais de tua casa e vens à casa do teu irmão galego, nunca descobrirás que há literatura em lado nenhum. E ignoras o teu vizinho. E então tens medo de morrer sozinho e ficas furioso por ninguém te ouvir a ti. Isso é o suficiente para me querer, não escutar, não ler, mas matar. Nunca me matarás se eu te ouvir, se eu te ler, se eu me der a ler.

Como não podemos ter medo de terroristas e armas, também não podemos ter medo de gostar, de chegar perto, de deixar chegar perto. A rapariga sul-africana que se fingiu de morta no Bataclan, e cujo testemunho no facebook foi lido por milhões, disse que, quando estava deitada entre os corpos ensanguentados a despedir-se da vida, em nenhum momento pensou nos assassinos, mas nas pessoas que amava e que a amavam a ela, e garantiu aos familiares dos mortos que eles também estavam a pensar nos que amavam e os amavam a eles, não a perder tempo com o medo.

Como postou a Loaira, da Livraria Ciranda, no seu facebook, de um jovem escritor brasileiro, Gonzaga Neto, “Em tempos de gente seca, chova amor”, que em galego tem a mais bela palavra, que não existe no português e eu aprendi com a Ledicia:  agarimo.

Eu sinto falta de que me toquem e de que se chore mais vezes. Não um choro vazio e egoísta do “Olha para mim”, mas alguma coisa física e violenta por não conseguirmos aguentar a beleza cá dentro. Acontece-me muitas vezes com os poucos amigos íntimos: no Porto até temos o hábito de nos insultarmos por amor, porque não aguentamos a beleza dentro do peito. Esse é que devia ser o nosso universo comum: se nos tocarmos, fisicamente ou intelectualmente, entendemos tudo o que dizemos em qualquer língua: vão perceber porquê quando terminar esta leitura.

não creio na frialdade, pero que a hai, hai

Há uma palavra em galego que é muito mais bonita e completa do que em português: ilusion.

Ilusão, em português, não é virtude. Mas é virtude em galego. Vou daqui com uma decisão: vou começar a usar a ilusão em português como uma virtude.

O universo literário comum do norte de Portugal e da Galiza não é uma questão política ou linguística. É uma questão de carne, de escuta, de atenção. De agarimo.

Tenho um problema grave com a minha interlocutora, Ledicia. Quando comecei a ouvir o que ela escreve, repito, a ouvir na minha cabeça o tom das frase e das palavras da Ledicia, postas como ela as põe na pauta, reconheci-me. É o lado bom do espelho, quando olhas da parte de trás e reconheces um igual. A Ledicia é igual a mim, mas a Ledicia é muito melhor do que eu. Ainda botei os olhos ao Recinto Gris, ao Animal chamado néboa, à Escarlatina, e não encontrei nenhum livro infantil, nenhum livro juvenil ou adulto. Só literatura. E incomodei-me com a beleza, como te prometi, Anxo, que tu também te incomodarias.

Ledicia, não te vou perguntar o que pensas sobre nada, mas o que sentes sobre tudo.

Ou então, vou perguntar outras coisas para fingir que não somos todos frágeis, por exemplo,  o que era o caderno rubio que a professora te quitou? E porque é que a Marta ainda o usava? E porque é que a Marta, que era a mais guapa da classe, tem de escrever grande, Ledicia? Tens algo contra as formigas em forma de palavras, Leidicia, contra segredos escritos baixinho? Fizeste chorar a Marta como Mario, Ledicia. Não é grave, é dramático, como ela disse.  Depois chamaste-lhe pécora, que é uma palavra muito bonita em português, porque não se usa muito e soa aos cobertos dos casamentos, não a prostitutas. Pécora é uma palavra bonita em português. Agora podes escrevê-lo trezentas e trinta e três vezes, Ledicia. Nenhum português pensa em loira quando ouve rubia, mas o galego tem a palavra ruiva e usa rubia para loiros, mas a professora explicou que, afinal, rubia é ruiva e loura é loura. Faime caso, Ledicia. Faime caso, porque, se não me fazes caso também te pego um chiclete ao cabelo e depois alguém vai ter de te cortar uma madeixa e nunca mais serás a mesma. E a verdade é que, se me fazes caso, podes fazê-lo em qualquer língua. Não me importa. Saber escutar é invisível como o agarimo, a eternidade, a pena, o ar, o norte. O nosso norte. E cito-te, Ledicia:

Abrir comiñas: “Há muitas coisas importantes que são invisibles. Air, pena, amor, norte. O do norte é uma coisa rara. Porque, ainda que te dirijas para ele, nunca chegas. Sempre há outro norte mais ao norte que esse onde estás.  E assim podes passar a vida, indo para norte. Eternamente. “ Fechar comiñas, porque Ledicia não se escreve entre comiñas. Ledicia está aqui. Que sorte que Ledicia está aqui.

Quando eu era pequeno e passava a velha ponte de Valença para Tui para comprar caramelos, para mim a Galiza era só uma rua pequena junto ao rio Minho com lojas. Tendas. Tenda sim, tenda sim. Estávamos horas a mostrar os documentos à polícia da fronteira para passar uma ponte de ferro e caminhar quinhentos metros para lá e para cá a comprar caramelos. Não estava mal que a Galiza fosse só uma rua. Ainda é isso para mim. É infinita, mas também é só uma rua onde eu caminho a escutar coisa invisíveis. É perto. É minha.

E, apesar de todas as nossas semelhanças e raízes comuns, o que me encanta, na literatura e na vida, é a diferença. E a comunicação como ponte sobre os desfiladeiros. Gosto dos estrangeirismos, gosto de escrever com palavras mais galegas do que portuguesas, ou portuguesas com sotaque brasileiro ou galego, gosto da liberdade de falar como me apetecer.

Gostava de fazer asneiras e dizer palavrões em galego – é a primeira coisa que se deve aprender, a fazer asneiras e a dizer palavrões.

Sou poliglota, mas comunico numa só língua, que as contém a todas, como os beijos.

E porque eu gosto de todas as línguas, também sei que, se eu fosse refugiado e estivesse cansado e pedisse a uma mulher síria para adormecer o meu bebé, ela lhe cantaria uma balada em árabe e ele entenderia.

Entenderia a paz da sua voz e das suas palavras.

Provavelmente é isso. É essa a solução para um mundo melhor. Aprendermos estratégias com  a música. A música que nos fala sem palavras ou com palavras que não entendemos e, ainda assim, comunica.

Adormecermos com um canto de embalar nos braços de outra mãe.

Pois a minha outra mãe é, faz muito tempo, a Galiza.

Obrigado.

 PG-M 2015
foto da Escola Oficial de Idiomas de Santigago de Compostela

Agarimo

Era isto, pois :)




2015-11-15

Pletora (noite pátria)


Ó silêncio da manhã, névoa eterna, noite
pátria, este biombo que as lágrimas tomam
será o meu escudo e o medo a montada
das veredas ínvias aos campos abertos
onde juram sangue as almas penadas
vazias de força tapadas de fome
de si e de luz e de esperança e comidas
de tempo e da honra e da voz e de nós
como gente, o golpe é de braço em abraço
sem conta ou limite que não do amor,
Ó silêncio da manhã, névoa eterna, noite
pátria, mesmo que de um colo frágil parta
a branda luminância desta espada,
mesmo que da humanidade o torpor,
cindirei a fera em duas
uma parte de esquecer
outra parte de lembrar
e o sangue

o sangue
exangue

PG-M 2012

2015-11-08

As camélias não têm noite nem domingo

tenho sempre dúvidas sobre a lonjura e a utilidade de um texto
sobre chamar-lhe poema, narrativa ou canivete multifunções,
por exemplo a japoneira ontem à noite à chegada a casa
eu na rampa empedrada a atravessar o jardim do esteves
onde nunca reparo em nada quando é noite
só nos predicados do dia que passou
nos medos pelo dia que há-de vir
e na garagem
habituei-me a estacionar a carrinha de traseira sem pensar
em estacionar a carrinha
ontem vinha de uma derrota de voleibol
a ouvir aquela música da nancy sinatra
sobre sermos pequenos e brincarmos aos tiros
bang bang he shot me down
ban bang I hit the ground
não há derrota no abraço aos vencedores
nem vergonha se no istmo
das fauces encontras
lágrimas

todos sabemos que aquela música nunca foi de brincar

e que todos irão morrer a cada escuta
bang bang my baby shot me down

pois ontem no jardim pela noite
como creio que em todos os jardins de novembro
estavam camélias brancas na japoneira
e mesmo num domingo como hoje
com o sol em sangue e as veias iluminadas
e os corpos hialinos a transitar na areia
e felicidades sombrias sob jornais grossos

toda a camélia branca
é dia e não tem noite
nem domingo

e tu não estás nua
tu és
nua
e o sexo é madrugada
porque sexo com amor é um cliché estafado e purpurino
como um cadáver e é mais que sabido que todo o amor
de uma vida se concentra no leito das pálpebras

não sei que te amo pela intersecção dos ventres
sei que te amo quando,
morta ou viva,
tens os olhos fechados

e é por isso que a fosforescência das camélias
no jardim do esteves
dos telhados derribados da noite
dos torsos prostrados
das pleuras consumidas
por excesso de bondade

é apenas um estado de mundo
ou o inverno em flor


PG-M 2015
fonte da foto

2015-11-05

Rentrée

 
Nota: o texto é publicado fora de data. Portanto, estamos em Setembro (de qualquer ano)
Gratidão. Temos centenas de queixas, as coisas perfeitas andam longe, vivemos num país com tanta beleza quanto mediocridade, há muitas certezas no ar, poucas dúvidas fundadoras no chão, os amigos nomeiam imperceptivelmente os amigos, há lapsos no mérito, quer-se fazer melhor mas há um cansaço a travar e um ordenado a proteger, no fundo tu serenas no meio de imprecisões e de homens sem qualidades. Há, no entanto, quem esteja curioso com a tua felicidade improvável e te queira receber e escutar. Eu, atrevendo-me a falar também em nome dos que, como eu, têm o privilégio de correr o país por capelas que celebram o que criam, e depois de uns sete meses inesperadamente loucos e intensos, tenho apenas vontade da solidão e da gratidão. Preciso de fazer este balanço, antes de seguir com a vida, já depois do almoço. Creio que este ano que passou - de algum modo ainda faz sentido, para mim, medi-los de Setembro a Julho, ficando Agosto como o abismo hegeliano - foi dos mais importantes e felizes da minha existência, e, lá está, falo por alguns outros criadores que vejo no mesmo ponto, no mesmo deslumbramento. Sem alarido, resgatei a minha paz na função criadora. Estou cansado e sem memória do detalhe, mas feliz. Recebo amor todos os dias do exterior sem o procurar e vejo a solidão que me alimenta respeitada. Finalmente conheço gente sexualmente lúcida. Recolho à caverna profunda de onde vim. Apetece-me muito, muito, desparecer do lado mais público, mas acho isso um atrevimento cívico e uma desnecessidade, até porque é certo que, quem não se agita ou salta perante a opinião pública, quem não investe na personagem literária que é, é rapidamente esquecido. Desejo isso. Ao mesmo tempo, peço a vossa paciência a cada despertar de hibernação. Eu ainda sou uma personagem literária, não egocêntrica, mas altamente limitada pela dimensão plana que tenho na construção que faço de mim aqui. Quase nada me importa além da literatura, mesmo que possa parecer que sim, e isso torna-se uma constatação amarga para alguns amigos. Agora estou investido num projecto a quase dez anos, precisamente porque desejo afastamento de tudo o que é dinâmica editorial. Tenho alguns filhos (livros) já criados que um dia sairão de casa. Não sei quando nem pela mão de quem. Não me perguntem, eu prometo que digo logo que saiba. Gratidão. Ou seja, apesar deste ano determinante em que a maturidade ensinou caminhos por mágoas, cada vez são mais os caminhos e menos as mágoas. Somos elementos frágeis. Por sermos isso, não tem sentido aspirar à perfeição pessoal - mas a obsessão da perfeição criativa é incontornável. E essa é a conclusão deste balanço de meio de vida e de meio de criação: quero criar em silêncio e darei o que me apetecer. Mas darei a todos e, principalmente, tenho vontade de amar todos, mesmo os maus ou os medíocres, porque tenho esta convicção profunda de que o amor é uma peste que cobrirá tudo. E peço consintam que não seja sempre meigo, que ame criticamente e com a violência do que aspira sempre ao degrau de cima. Não do poder, mas da composição do tempo. Obrigado.

 PG-M 2015

2015-10-16

Os anjos da Asprela em verso

Os anjos que eu conheço fumam,
almoçam em tascas, bebem vinho, ouvem música alto e
cheiram, têm sexo, às vezes connosco, e até são maus
em partes desimportantes do dia
Mas quando toca a estarem presentes
porque se te vai a vida - estão
Nos escassos momentos em que vivem as próprias
existências, podem ser copy-paste,
mirrar para dentro de ecrãs e estar desatentos,
dizer e tipo, até fumar umas ganzas
e beber umas minis,
mas quando toca a estarem presentes
porque se te vai a vida - não só estão
como transcendem o que lhes pedes
É até comum que, quando se lhes pergunta se viram
uma ou outra coisa ou se sabem isto e aquilo,
possam ser ignorantes como nós, mas tenho para mim
que tal acontece porque nunca estão em si,
mas em ti e nos outros como tu, porque quando
se nos vai a vida não há tempo, ou, se há,
as horas tomam desoras e é preciso
quem ande lá por cima
 
É preciso quem voe

Hoje sabes muito bem. Sabes que são mais importantes
os que te seguram a mão e ouvem - e, verdade seja dita,
se os anjos da asprela fossem, além de bons, cultos,
- ou os que o são - e tu os conhecesses,

morrerias de enlevo,

e não do que eras para ter morrido, e eles,
com o seu sopro, cuidaram que se extinguisse,
como a chama das velas que agora espalhas pela casa
em nome deles. Sabes que eu não gosto
nada disso.

Já bastam anjos que fumam.

PG-M 2012

2015-10-10

Saudemos esta pausa antes de a tempestade se abater sobre nós

Por momentos, breves momentos, tudo se detém, mesmo os actos formadores das tempestades.
É quando o mundo ganha fôlego para deflagrar sobre si mesmo.
A onda do tsunami.
O abalo maior do terramoto.
O desabamento da montanha.
A erupção do vulcão.

O grito da mãe. 


PG-M 2013
fonte da foto

2015-10-03

poema de uma só linha sobre um dos aspectos do silêncio



hoje é dia de dar as palavras às vezes em que as perdi


veio daqui: "escrevo muito pouco olhando o passado ou a experiência. Escrevo muito projectando-me no que leio nos olhos ou na postura dos outros. E às vezes manipulo o meu próprio sentimento: hoje é dia dar as palavras às vezes em que as perdi"
(música de Arvo Pärt - Spiegel im spiegel;
 letra de mim)

 

 PG-M 2013

2015-09-10

A consciência aguda da beleza

 A consciência aguda da beleza e do silêncio, que podem ser sinónimos ou o seu contrário, como a consciência aguda do lugar universal, deixa-nos frequentemente calados, passivos, sendo a irrelevância estelar que num olhar, num sorriso cúmplice que leva silêncio à beleza e um barulho íntimo, estético, ao silêncio, se manifesta um todo, que para o universo é nada e por isso nos calamos durante os abraços e até durante o choro mais profundo, seja ele felicidade ou o seu contrário. 


PG-M 2015 - ATP forever 
Foto de Ana Teresa Pereira em publico.pt aqui/ autoria: José Miguel Rodrigues

2015-08-11

Ekaterina vive e é principalmente Carolina (e Daniela e Rita)

Ana Carolina Cardoso em "Ekaterina sobre tudo". Finalmente, digo eu. É daqueles momentos que rebentam connosco por dentro. A minha peça "Ekaterina sobre tudo" foi objecto de um exercício teatral de pouco mais de cinco minutos pelo Grupo de Teatro de Amadores de Gondomar. A menina que condensou o texto, que deve ter perto de uma hora, e por isso fez um trabalho notável, chama-se Ana Carolina Cardoso e é brilhante fora e dentro do palco (aqui é a protagonista). Não desistam nas partes em que se ouve pior (principalmente no primeiro minuto), porque o resto dos minutos valem muito. É uma comoção absoluta para mim, como autor, espero um dia que muitos de vocês estejam na plateia. Hoje sei que é preciso uma coragem tremenda para levar este texto às costas, mesmo por cinco minutos. A ovação final di-lo. Um dia alguém o levará pelo tempo todo. Talvez a Carolina, talvez a Catarina (olha, Catarina! olha Paula, olha Maria Miguel, olha Cristina, olha Margarida, olha Joana, olhem os que puderem) - Obrigado também à Carla Daniela Mota e à Rita Fonseca. Ficha técnica anexa ao próprio vídeo, que pode ser visto aqui:
https://www.facebook.com/peronog/videos/10205478009487778/

2015-07-31

(Volume 7) Bernardi e Francesca na Gioiosa Ionica (e talvez voleibol) - Novelle Italiane

VII    (volume anterior aqui)
Bernardi ficou popular em Cinquefrondi depois do episódio de Toto e Gardini.
Atraiu atenções que até ali se limitavam a uma simpatia externa pelo estranho simpático.
Talvez vos tenha mentido quando atribuí a mesmice de expressão de Bernardi, nos últimos dois dias, (falava apenas por lágrimas) à sintese do poema. Não era bem isso. No fim do primeiro jogo de Portugal, houve, para Bernardi, uma desaceleração do tempo: os olhos diáfanos de Francesca. Ela passou em câmara lenta no corredor da imprensa e dos fotógrafos, aos pés do Palazetto, olhou fugazmente para a bancada e Bernardi atirou-lhe
- Os teus olhos têm a mesma cor do sobremar calabrês.
- Cosa? No entiendo! - respondera Francesca, de fugida.
É comum que os italianos ouçam castelhano em todos os povos ibéricos e, se souberem algumas palavras, as usem com os portugueses, a quem agradecem regraciando, excepto Gardini, que sabia o que era um obrigado, e portanto também sabia agradecer em português. Não é difícil, realmente, aprender a palavra nacional de agradecimento dos três ou quatro povos que nos fazem vizinhança, mas também não é comum ouvir um italiano a dizer  "obrigado".
Convém também precisar a invenção de Bernardi: "sobremar" é uma palavra que não existia antes de Bernardi chegar all'estremo sud e olhar para o mar calabrês naquela primeira manhã. Explicou-me que a inventara para designar o mar perfeito, azul e homogéneo que se vê de um ponto alto, bem acima do nível do mar, mas "sobre o mar". Diz que designará um mar superior e alto. Pode chamar-se sobremar ao mar que se vê das montanhas madeirenses ou até das falésias alentejanas ou até da serra d'arrábida.
- Os teus olhos têm a mesma cor do sobremar calabrês, naqueles primeiros metros em que os corpos e os objectos não se podem esconder e tudo é transparente.
Francesca sorriu e seguiu.
É morena com os cabelos em flocos e uns óculos grandes e quadrados aparentemente sem lentes e com a exclusiva função de lhe emoldurar os olhos, caminha na cadência belucci dos melhores tempos e nem com a tshirt oficial do torneio perde o enlevo - aliás, a palavra Portogallo na tshirt é, para Bernardi, uma declaração de amor. Francesca seria o sortilégio de Bernardi. Nem o voo de um pica-pau negro sobre as montanhas rochosas de Aspromonte lhe mitigará o apego.
No manhã do último jogo de Portugal, já depois do episódio Gardini, Francesca apareceu-nos como uma mistura do coelho e do gato da alice do carroll, deu as cartas, às de copas, perguntou ao Bernardi se conhecia Gioiosa Ionica.
- Só pelo Toto, que disse que o mar Jónico era o melhor de todos os mares, mas o Toto exagera...
- No. È perfetto. Andiamo?
Uma águia azul planou, como fariam os atletas de Portugal, o vento quente do levante varreu os pêlos dos braços e as ervas altas, os lábios de Francesca estavam pintados de verde escuro e cheiravam a maçã, Bernardi reparou que as pestanas dela eram compridas e arciformes e roçavam nas lentes dos óculos, afinal os óculos tinham lentes, as mãos eram finas e compridas e melífluas e uma delas encaixou espontaneamente na sua. Bernardi olhou-me, entre o assustado e o feliz, e eu acenei que sim com os lábios cingidos e kiss-ready, expressão de aprovação de amigo. 
E Bernardi voltou a tomar conta do texto:
Fizemos todo o caminho para o mar jónico entre montanhas e com Francesca a olhar-me nos olhos pelo retrovisor central. Cheirava a lírios-brancos. Chegámos à Gioiosa Ionica, Francesca indicou-me uma praia vazia. Parámos, saímos, ela perguntou se eu tinha uma toalha, disse que sim, que a levasse. A praia era toda seixos cinzentos, Francesca deslizou até à primeira linha de mar, tirou o vestido canário pela cabeça, ficou em soutien e cuecas cor de pele, uma tez muito escura, quase árabe.
- È questo il tuo sobremare?
Sorri. Estúpidos somos nós, não elas. Nadou a trinta graus, eu fiquei estático sobre os seixos, uma sensação de impossibilidade encrespou-me, Francesca saiu lentamente verificando o próprio corpo, escorreu o cabelo e parou a um metro de mim:
- Sono fidanzata. Si può guardare, sentire l'odore, abbracciare, ma non baciare.
Não fiquei desiludido - prepara-me o arrepio da impossibilidade. Fiquei até grato: Francesca veio ao mar jónico dar-me, gentilmente, uma memória. Para a tatuar, perguntei:
- E dançar, pode-se?
Ballare se può. Pegámos nos respectivos telemóveis ao mesmo tempo, mas eu disse:
- Não, Neffa não, por favor não.
Francesca riu, depois dobrou o riso, despois desdobrou o riso.
Esta sim. Não uma clássica a compor um quadro perfeito e anódino. Se não se pode beijar
Let’s Marvin Gaye and get it on
You got the healing that I want
Just like they say it in the song
Until the dawn, let’s Marvin Gaye and get it on
(Marvin Gaye, Charlie Puth)
Há um toque de cha-cha-cha, o vento de levante, o cheiro a lírios-brancos e maçã, os lábios verde escuro, a fonte quente de Francesca, a mão melíflua a cingir-me, as ancas a marcar o ritmo e os pés a varrer os seixos.
Não a beijarei. Não já. Os pica-paus pretos e as águias azuis continuarão nas montanhas de Aspromonte e eu não a beijarei. Levarei, contudo, esta tatuagem, este final de manhã, princípio de tarde, para a nossa escala em Veneza. Descobrirei a ponte mais discreta e bonita do mundo para descrever uma paixão impossível. Não a Calatrava, não a Rialto, nenhuma do Canalasso, mas a ponte Giustinian, sobre a qual construirei mitos maiores do que os destes doze atletas exemplares e da minha Francesca.
E um dia, despois de nos rirmos muito das memórias da Calábria, de comermos tramezzini em rolo e bebermos san benedetto limone, beijá-la-ei no centro do arco da ponte.
E escreverei em grafitti contra as leis
Se può baciare. Per sempre.
Amanhã regressarei por ti all'estremo sud, para rematar todas as lendas.
(continua no volume 8 e último)
também pode ler Volume 1, Volume 2, Volume 3 ,Volume 4 ,Volume 5 e Volume 6
PG-M 2015

(Volume 6) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle Italiane


VI   (volume anterior aqui)

Bernardi ficou consumido com o poema. A poesia pode ter esse efeito: sintetizar todos os sentidos do universo com a palma da mão que se abre para nela pousar o mundo ou outra mão, que é o mesmo. Foi por isso que Bernardi me passou a mim, Dez-cartas, a responsabilidade de escrever a crónica final em jeito de comentário desportivo. Os nossos meninos começaram e continuaram a perder, mas, a cada "Portuguesa", sentia-se incólume a alma lusitana que planava sobre as montanhas de Aspromonte. A forma mais dura e eficaz de aprender em qualquer nível de desporto é perdendo, com a vantagem de baixar a guarda dos adversários. Na verdade, tinham ganho em Dezembro à Espanha, que viria a ser segunda classificada numa final com negra a 16-14. A Itália tinha, realmente, um nível superior a todas as outras selecções, mas às vezes também se ganha com o coração. E ganham-se corações. Começar a perder e acabar a ganhar fez da equipa portuguesa a mais simpática de todas, com claque italiana nos últimos jogos. Giusy Bonini foi a intérprete e tradutora da selecção portuguesa, mas, além disso, trouxe para o Palazetto sport de Cinquefrondi uma cintilância que fez dela e de Gianluca, o rapaz das finanças do bar, as luminárias nativas das quinas que eu e Bernardi íamos polindo nas águas quentes do Mediterrâneo todos os dias. Vou contar-vos uma coisa extraordinária. No final do primeiro jogo, não sabíamos bem que direcção seguir para sair de Cinquefrondi. Então abordámos um casal maduro muito bonito, ele mais de dois metros, ela quase um e noventa, aquele tipo de loira italiana sobre a qual desceu toda a classe: "Prego, per Nicotera?", e ela, simpática, "oh, no lo so, ci stiamo arrivando da Bologna", e logo eu, "e noi da portogallo!"; ficou um sorriso também no marido gigante, mas o Bernardi não avançou. Quando olhei para ele estava com a boca aberta, em suspenso. Dez-cartas, disse-me, eu esperava tudo, garanto-te, mesmo tudo, menos encontrar aqui, em carne e osso, um ídolo da minha selecção de sempre, um dos seis, nunca. Quem, aquele gigante? Aquele gigante era o Gardini, o central que alternava com o Lucchetta. Não me digas. Digo. Queres ir pedir-lhe um...? Ah, não, não. E a semana continuou. Toto, o velho tiffosi teórico do clube local, o Jolly Cinquefrondi, falou das tácticas e das direcções ideais que il portogallo devia dar ao seu jogo, do que estava a falhar e do que o allenatore Guerra devia fazer, e Bernardi só lhe dizia: o que está a falhar é a cabeça, e é isso que neles vai crescer, mas dentro do crânio e de forma imaterial, que aqui não curamos dos grandes avanços da neurologia. Toto ouvia, mas não acreditava, que aqueles meninos eram muito mais do que estava à vista e então chegava a compará-los à célebre geração dos fenómenos italianos, que tinham vindo do nada, e estava sempre a apontar para Gardini, para Gardini, para Gardini, e a falar das jogadas do mundial de 1990, o que para Bernardi era música. Toto não ficou muito espantado quando Bernardi lhe explicou que lhe chamavam Bernardi precisamente por causa disso, pela sua obsessão pela mesmíssima equipa, que tinha como uma espécie de ídolo colectivo, mas essa ausência de espanto é muito típica, não dos calabreses, mas de todos os italianos, que foram uma eternidade, e ainda sentem que são o centro do mundo. Foi esse centro do mundo intumescido, ensoberbecido, do italiano Toto, que quase deu a primeira e única desinteligência da semana. Depois do primeiro set do Portugal - Itália, Toto passa junto ao court e faz gestos para a bancada, na direcção de Bernardi, que se tornara seu companheiro de conversa e intervalos. Estendeu as duas mãos abertas e depois fez um dois com os dedos, "dodici punti", disse, voltou a estender as duas mãos abertas, depois mais uma e outro dois com os dedos, "diciassiette minuti", e seguiu caminho na direcção do bar de Gianluca. Bernardi desceu calmamente da banca, o peito ebulia, chegou-se ao mesmo bar, cheio de italianos, e disse, em italiano escorreito: "Non ho bisogno che mi ricordi i punti o i minuti". E, imediatamente, funcionou a generosidade italiana. Perceberam que não estavam num refrega regional, mas numa disputa internacional que era de crescimento para todos: eram crianças a virar homens, senhores. "Hai ragione, Bernardi, hai ragione", disseram Gianluca e Nicola. Toto tomou as mãos de Bernardi, olhou-o nos olhos e ainda disse "Scusa" e pagou-lhe tudo o que ele precisou do bar naquela noite. Repetiu esse "Scusa, Bernardi" mais umas vinte vezes. Bernardi, olímpico, ainda declarou, para todos ouvirem: "per me, questi ragazzi sono tutti della stessa squadra". Até serem seniores, precisou. Mas mesmo depois, porque é natural que muitos joguem no estrangeiro, na mesma equipa. Gardini, sempre a uma distância higiénica, como convém a qualquer ídolo, tinha vindo ver o filho jogar numa jovem selecção italiana onde também evoluía o filho de outro ídolo da selecção de 1990: Cantagalli. Gardini ouviu o protesto límpido do português, ele e Aldo Bonini, eminência local. Aldo estendeu a mão a Bernardi e disse: "Grazie per la civilitá". Gardini, gigante, cingiu Bernardi pelo ombro e tomou-lhe um cachecol dos "Portugal Young Braves". "Posso?", perguntou Gardini. Bernardi, de todas as cores, deixou que Gardini levantasse o cachecol e o fizesse pousar sobre uns ombros imensos. Disse "obrigado", mesmo assim, "obrigado" em português bem explicado, mudou o braço do ombro de Bernardi para o ombro da mulher, a loira que distribuía classe, e afastou-se na noite de Cinquefrondi. Bernardi, que depois do poema só expressava as coisas por lágrimas, expressou-as uma vez mais. Gardini, o seu ídolo, tinha os ombros universais forrados do futuro dos meninos: "Portugal Young Braves". No dia seguinte, sem ninguém o esperar, Portugal U17 reconheceu-se finalmente ao espelho na manhã calabresa, foi imperial e venceu a Holanda por 3-0. Não que perder fosse mau, mas ganhar é outro tipo de identidade e talvez a poesia e a literatura não cheguem. Gardini sim, chegou e sobrou.

(continua no Volume 7)

também pode ler Volume 1, Volume 2, Volume 3 ,Volume 4 e Volume 5
Dez-cartas 2015

(Volume 5) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle italiane

V    (volume anterior aqui)

Nota prévia: Dez-cartas, tens um papel para eu alinhar os versos? Começou a tocar "A Portuguesa", ali, all'estremo sud, tão longe de casa, e eu não contive as lágrimas que me queimaram o poema; os nossos heróis de mão sobre o coração e o poema deles a arder assim:
afonso está parado no ar com os braços desdobrados
e as mãos ilegíveis
ilude o palácio na curta para o central
david salta na vertical
a bola voa de costas para a zona dois
guilherme levanta voo da um
roda a roleta e bate
à frente dos três
capum
diagonal limpa a cair
na um do opositor
que devolve
kiko desenha uma prancha
a bola na pinta álvaro
empurra para o ponta
andré sobe e varre
a linha
marco de chaimite
dispara os directos
o terceiro fica
em jogo, diogo a.
faz de muro com
paulinho

a bola ressalta
a bola sobe

diogo o. bate seco
na longa oblíqua
max joga o pensamento no
bloco sobra
o triângulo curto
com sinfrónio
capum
zona um

foram vistos em bando
nas montanhas
de aspromonte
são aves de alma austral
planando por portugal

Bernardi 2015,
nas bancadas do Palazetto Sport de Cinquefrondi

PS: entreguei o papel ao Dez-cartas, que se iluminou de patriotismo e chorou

(continua no volume 6)

também pode ler Volume 1, Volume 2, Volume 3 e Volume 4