2012-09-25

todas as mulheres ao fim da tarde


cada mulher, agora, ao fim da tarde,
a aparecer aos galeões como outra
musa
com os filhos sugeridos nos rochedos
e o sangue nas fissuras
onde os homens colherão
nenhum poema
só poetas com os dedos nas bainhas
e a ameaça permanente do abismo
caiam vivos como mortos
nessas falhas vesperais
dão gargantas maternais
ao infinito

porque há sempre uma mulher ao fim da tarde

é a mãe que te limpa sangue e lama
água quente, tristeza, desespero
é a mão que te abafa cada olhar
muito antes de as pálpebras fecharem

e a morte abrir

PG-M 2012
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2012-07-16

Dias 8 e 9 - Olimpo e planeta de volta


Dia 8 - Ao oitavo dia o filho fala do olimpo, o deus todo perante a metade dos pais. 


Dia 9 -  (hoje, finalmente, pai e filho): Ao reencontro já sabíamos que, mais importante do que o próprio abraço, é a perspectiva de nos podermos abraçar a cada véspera. 


PG-M 2012
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2012-07-12

Dia 7 - De dentro (que é ao lado)



Dia 7: Ao sétimo dia a clareza de uma das inconciliáveis certezas da vida: o que de nós saiu nunca esfria fisicamente no lugar de onde veio. Nós. Podemos convencer-nos de que os filhos se afastam -e devem afastar - desde o nascimento, mas o nosso metabolismo terá sempre essa carência no espaço: a de que voltem para dentro.


PG-M 2012
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Dia 4, Dia 5, Dia 6 - Cheiro, memória, almas que dobram


Dia 4 - Ao quarto dia vai-se em busca do cheiro que passava por nós todos os dias e que agora só resta nas arestas de certos objectos e numa camisola vermelha. Na presença, o cheiro passa. Na distância, o cheiro entra. Na presença mal se dá por ele. Na distância fere.

Dia 5 - Ao quinto dia tem-se noção de uma profunda inimizade com a saudade. De manhã discute-se com a memória. À tarde despreza-se a tipa. À noite ignora-se. Ou não se dorme. Amanhã é outro dia. Com memória:).

Dia 6 - Ao sexto dia o corpo continua sem se conformar. A alma, contudo, dobra.

PG-M 2012

2012-07-08

Dia 3 - Descrescimento



Quando um filho fica longe, o corpo mirra para o lugar que era antes de ele aparecer.
Não é importante, só áspero, que isso aconteça já sem a mesma possibilidade, já sem a mesma juventude.
Importante é perceber que a nossa altura é inversamente proporcional à distância dele. 
E achar isso bom.


PG-M 2012

2012-06-25

A manhã do mundo dele


O pai aprendera a conquistar a calma e a serenidade apesar dos prazos da advocacia, mas quando viu o primeiro livro publicado uma especial azáfama contendeu com a brisa que dirigia os ramos do imponente diospireiro, o diospireiro que inaugura o pomar caseiro onde, entre a laranjeira, a tangerineira, a macieira e o limoeiro, o pai quis que se plantasse uma pequena magnólia. Porque o pai é o pai. O filho ouviu o pai na rádio, viu o pai e o livro do pai, "A manhã do mundo", em dezenas de jornais e revistas e até nas televisões, mas nada mudou, nem sequer lhe pareceu uma pessoa especial, o pai continuava a ser o pai, um homem grande e forte a quem se podia atirar vezes sem conta sem um ai, o colo largo e insistente, o equilíbrio dos beijos chatos, ora os dele ao pai, ora os do pai a ele, os indispensáveis beijos chatos. O livro, numa primeira fase, andava em todas as livrarias, ele ainda o tentou ler porque quis, um dia chegou e disse a si próprio "vou ler um livro" e pegou no do pai como podia ter pegado noutro qualquer. E leu-o. Leu-o quase todo. O pai nunca lhe perguntou o que achava. Ele nunca achou que lho devia. Passaram-se assim os meses e as coisas voltaram à normalidade sem que, entre ele e o pai, alguma coisa tivesse mudado. O diospireiro ainda balouçava, a magnólia sobrevivia no centro do pomar, e assim os frutos. O pai dizia muitas vezes, na brincadeira, que era graças ao desprezo caseiro que se mantinha focado. O pai continuou a engordar. O filho a crescer. A mãe a ficar mais bonita. No princípio do ano lectivo ele tinha dito aos pais, sem detalhar o quê e o porquê, que tinha tirado uma nota alta na disciplina artística lá da escola. Era a primeira vez. Os pais perguntaram "ai sim?" e o jantar prosseguiu. No fim do primeiro trimestre ele trouxe uma nota mais alta do que o habitual. Os pais pensaram que devia ser mesmo uma obra singular, mas tornaram à vida, habituados ao filho que, como é costume em casas regulares, se ama para lá de todas as forças e no qual se encontra sempre o génio. Os pais sabiam que isso era o equívoco normal do amor. E em conversas evitariam falar tanto dos dotes, como dos defeitos do rapaz, até porque longe viria o tempo em que o seu menino pudesse ser comparado aos monstros sem pescoço de Tenesse Williams *, os putos do Gooper, como ele pai e a mãe não podiam ser comparados aos próprios Gooper e Mae, até porque o seu menino estava crescido, tinha pescoço, era bonito. Mas eis que ele traz a obra para casa no final do ano lectivo. A obra era a capa decorada da própria disciplina. Mostrou-a ao pai, que, perdido noutros afazeres, disse que estava bem sem ver. Por isso se colocou o miúdo entre o pai e o afazer com um sorriso cúmplice e o pai reparou de raspão no tema. É sobre o 11 de Setembro, que engraçado, disse o pai. Mas continuou a não ver. A vida seguiu e a capa ficou em cima do aparador. Um dia à noite o pai olhou com outras armas para a obra e resplandeceu. Viu naquela colagem - logo o pai, que nunca gostara de colagens - uma espécie de verso daquele dilacerante final d"O Túmulo dos Pirilampos", de Isao Takahata, em que se vê os pedaços de solidão da menina, o pai viu a vida que o filho vivia apesar dele, o pai viu que estava todo dentro dela. Aquela colagem não era uma lembrança do 11 de Setembro. Aquela era a lembrança que o filho tinha do pai e que brilhava tanto que não se continha em casa, onde a vida era temporal e os ritmos os de sempre. Mas o pai não quis mostrar a "obra" por causa dessa comoção. O pai quis mostrar a obra por ser mesmo boa e por poder, como não pode - ou não quer - mostrar a um meio de que desconfia a sua maior obra, o próprio filho, agora maior do que a mãe. O pai queria mostrar a fotografia que lhe tirou este fim-de-semana e em que reparou que ele está mesmo um homem. Um homem bonito. Um homem que lhe vai tomar o lugar como os pais bons sonham que os filhos bons tomam - não a mesma profissão, não a mesma arte, mas as coisas boas só dele. O momento em que um pai olha para um filho e vê, não a cria, não a entidade frágil que tem de proteger a todo o custo, mas o homem que fez com os braços. Com apoio das mãos. Com choro, com raiva. É um rapaz bonito. A alma parece descansar, o corpo serena, não é bem já não precisar de cuidar de si: o pai percebe apenas que a velhice pode avançar com justeza, pode fazer o seu percurso, porque aí está a obra. A manhã do mundo dele.

* da peça "Gata em telhado de zinco quente"

PG-M 2012
foto do autor

2012-06-05

Campeões do mundo


Já me calaram a boca quando, a olhar
para o diploma cravado na parede branca do escritório
devoluto,
senti vergonha
pela primeira vez.

Não calarão mais.

Já me sugaram o sorriso quando, a olhar
para o prato vazio do meu filho na mesa vermelha da cozinha,
senti fome
pela primeira vez.

Não sugarão mais.

Já me prenderam os braços quando, a olhar
para o futuro negro como o mar minimalista do Billy
Bud do Melville
me julguei louco
pela primeira vez.

Não prenderão mais.

Já me forçaram o choro quando, a ouvir
a primavera do Einaudi
não enlevei
pela primeira vez.

Não forçarão mais.

Já me secaram as lágrimas na fila do emprego quando,
a explicar a minha merda de vida à luz do amor
me odiei
pela primeira vez.

Não secarão mais.

Já me enganaram quando, nas audiências políticas
às selecções nacionais me pediram para esquecer
tudo e pendurar bandeiras
no corpo que mirra
e na casa que foge.

Não enganarão mais.

Já me prenderam numa massa de gente em desespero
com a corda demagoga
"eu demagogo, quem, demagogos?"
e me culparam de tudo
de perderem a margem de conforto
o colégio o luxo e a potência
que é cada vez mais difícil
passar por mim
e até por cima
de mim

nós que fuçamos sabemos do que se gasta e desgasta
os parasitas das portas dos cafés votarão sempre
nos parasitas das portas dos palácios

Mas doravante venha
a transparência líquida
para toldar o punho
que nos venda
e diz que o amor
é uma lenda
e a liberdade
mania
e a coragem
a mais pérfida loucura
em pó
e aos dedos que nos culpam
de si próprios
forçaremos a vitória
e contaremos na rua
milhões de vozes
ou um silêncio
fecundo
e final.mente. seremos


campeões do mundo

PG-M 2012
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2012-05-17

Vou buscar pão


Eu limpava o pó a uma certeza com um trapo
excisado de glorioso pano
da louça
e veio à estrema
o álbum da prateleira
do meio
que eu abri para aliviar
o mesmo dia de maio
e então vi-o, ao filho que  não via
há precisamente quatro
horas
de beijo a fugir e olhar dentro
do celular
está maior do que a mãe
o corpo aos primeiros meses
a adentrar, primordial,
e tive a saudade que fez do peito
ónus
e enquanto sacudia na ombreira
o pano vi no relógio
ele a voltar
quando voltou
abracei um proto-adolescente com os braços inertes e a mochila nas costas
olá filho, obrigado
pelos dias desiguais
pelo amor sem condição
e a cara dele torcida,
a libertar-se dos beijos,
por me pores no lugar certo
da nossa casa pequena,
que nojo pai,
larga-me,
vi há pouco aquela foto em que a mãe está a ler uma revista no carro
e tu ao vidro com essa cara de malandro
depois vi mais dez, vinte, e sempre tu
como metrónomo
como piano
como sal
e tentando libertar-se o filho perguntou,
percebendo as lágrimas mas velando as emoções,
o que tens tu, pai?
o existencialismo
te pegou?
eu respondi não, rapaz,
foi a celeste do facebook
vou buscar pão
e à noite os Creedence nos bares
da Cândido
dos Reis.


PG-M 2012

2012-04-17

Tetrapétalo

Estou inserido num mecanismo que me faz pensar ciclicamente com o coração
É um sistema de inércia
como qualquer outro sistema de inércia em movimento de translação uniforme
relativamente a mim, a luz
é invariável e não depende da velocidade da fonte
a luz não depende
do observador que a mede
a existência de um céu é contraditória
com o conjunto de factos e com as leis da mecânica
bebo por uma palha
escrevo por uma palha
amo por uma palha
toda a carne está cravada no metal
e o que te comanda são duas bolas castanhas
raiadas de amêndoa
que não por serem olhos te sorriem
é o navio de espelhos do Cesariny
que não navega, cavalga
é o pão para a fome dos filhos do Pacheco
é a bicla do Herberto e o poeta a dar à pata
para um verão interior
estou inserido num mecanismo
que faz do terço de mim
tudo em ti


PG-M 2012
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2012-02-11

Abrazos (variações em lá maior)

não lhe chames infelicidade
é antes uma incerteza nas caras
sempre melhor do que a forma como te desfazes na boca
em cubos de alcaçuz com óleo de anis
demasiado doces demasiado outros
para subitamente dizeres larga-me
tenho de ir
- porque é que as fotografias deles estão sempre bem
e as nossas não?
- serão felizes mesmo?
lá estás tu do pedestal
é terrível a forma como sobes todas as
noites
só porque te dirijo aquela frase sem advérbio de modo 
és bonita de qualquer maneira
e tu sobes protestando
que um cavalheiro diria especialmente
especialmente qualquercoisa
- e depois estão sempre em todos os lados do
mundo,
é estranho, marido, que só naqueles sábados
fechados em casa
por um estar doente ou não haver o que gastar
a pressentir o teu sorriso à vista do meu corpo nu
completo e imperfeito
eu chegue ao pico da forma?
que a minha plenitude seja a tua mão
de manhã?
a cama do teu vulto no prelúdio
do meu?
estão sempre a sorrir nas revistas
a dançar nas televisões
a brilhar nas rádios
gargalhadas sinfonias rímel base cheiro pele
e tu que és bonita de qualquer maneira
não lhe chames
infelicidade
é antes uma incerteza nas caras
sobe em vez de ao pedestal
comigo neste abraço
até roçarmos as nucas
no tecto
as costas dobradas sobre o caule do outro
macanudo ao largo com o lápis de despir
bajamos que tengo que ir a trabajar
sí, you también
después nos vemos?
dale.


PG-M 2012
exercício sobre desenho de Macanudo

2011-10-18

O arrebatamento morreu

Tenho de ouvir isto, tenho de ouvir isto, vai falar o ministro, o presidente, o gestor e talvez algum filho da puta, as televisões não podem estar todas enganadas, quando foi em oitenta e tal só havia dois canais e vacas a visitar concursos, não tempo, o país era pobre e analfabeto, estava desligado,  as estações do ano regulares, não havia alertas amarelos para o calor nem vermelhos para a chuva, ainda Reguengo do Alviela submergia, não se sofria por antecipação, nos setenta andava tudo drogado, crescer ou recuar era indiferente, nos sessenta as miúdas quase se masturbavam com o sorriso na cara do Paul McCartney, nos cinquenta era o Elvis, elas gritavam, eles gritavam, havia bailes e nos bailes salões e nos salões danças, havia charme e cigarros, cabelos armados e mini-saias, havia campo e saloios, havia paz no olhar, espaço de brilho, brilhantina, agora eu abro a boca e fala o ministro, é fatal, tem consciência, tu tem consciência, ajuda o teu país, caralho, espera lá, achas-me muito comuna se eu disser que tu ainda gastas trinta litros aos cem no teu audi á oito, coitdadito, com três anos, velho, e que há políticos suecos, os malucos, que andam de autocarro, queres mesmo que eu mirre ou é hora de abrir as goelas e de me masturbar com o teu sorriso? Há um milhão de reis e rainhas no facebook, donos da estética, dos tops musicais, os famosos metem-se pelos olhos dentro e depois chamam-nos stalkers, ninguém se cala a não ser quando tem de falar, ninguém se espanta, ninguém te diz estás bonita ou sempre te achei bonita a não ser no bar de engate das onze da noite, os cafés cheios de desempregados e rendimentos mínimos que continuam a comprar dois maços de tabaco por dia, estão a pensar a reduzir para um, a bola, o jogo e o record, estão a pensar reduzir para dois, e a pagar a sport tv no payshop, não estão a pensar a reduzir que um gajo tem de se alienar. O que é que vais fazer, maluco? Pintar, escrever, compor, na cara do downsizing e do despedimento colectivo? Queres que te compre um livro, um quadro, um mp3? Grande besta! Ai, coitados de nós. O arrebatamento morreu. Mas não eu. E vou foder pelos cantos e fazer filhos arrebatados e antes de me curvar netos arrebatados e antes de cegar bisnetos arrebatados. E depois morro, e o arrebatamento, apesar, ainda me vai ao funeral dançar. O arrebatamento morreu. Mas não eu. Agora tenho um sumário no primeiro criminal. Não mo vão pagar. Vou a sorrir e a ouvir a Lucille. Sabes que quando a Lucille fala o BB King cala? Tenho de ouvir isto, tenho de ouvir isto. E morre tudo menos eu.

PG-M 2011

2011-09-25

A história de um tracinho entre o Guilherme e o Moreira e entre a manhã e o mundo

Nota: a convite da Cristina Delgado, escrevi um texto para a secção de Domingo do blogue "O tempo entre os meus livros". Aproveitei para fazer luz sobre o tracinho. Aqui fica o texto: 

O senhor Menezes é um tipógrafo em Espinho que trabalha para a empresa da família há muitos anos. Quando o filho do patrão lhe pediu para ser ele a fazer os primeiro cartões para o seu tirocínio como advogado deu, como modelo, uns em que um tal José Pedro unia o Aguiar ao Branco com um hífen. Ora, o José Pedro também os tem separado no Bilhete de Identidade, mas como José Branco nada lhe dizia e o pai e o irmão mais velho há muito usavam o Aguiar com o Branco, mandou unir com cordel de hífen. O José Pedro foi a ministro, melhor ainda, o José Pedro foi aos "Gato Fedorento esmiúçam os sufrágios", que não dá pensão mas dá prestígio social. Ora, o bom do Pedro não pediu ao tipógrafo para atar o Guilherme ao Moreira, mas o bom senhor copiou pelo modelo e encaminhou meia grosa de cartões para a praia onde morava o nosso herói. Quando viu, Pedro indignou-se. Quando olhou sorriu. Depois gostou. Como Pedro Moreira é coisa que nunca lhe soara, pois todos os primogénitos da família, há umas boas gerações, se chamaram qualquercoisa Guilherme ou Guilherme qualquercoisa ficou assim, Guilherme tracinho Moreira. Pois o Pedro Guilherme-Moreira já usou Pedro Pedrosa. Tem um nome comprido no Bilhete de Identidade, que em 2011 ainda não é do Cidadão. Seis vocábulos. Um dia, um professor de português a quem chamavam poeta maluco mas era Luís Carlos e lhe deu nega por escrever bem mandou os meninos chapar o seu nome completo numa folha ali mesmo, de pé, perante ele. Quando chegou a vez do Pedro, e como a primeira linha tinha acabado e o próximo nome era Pedrosa, começou a escrever este mesmo na segunda linha. Ora, Pedrosa começa por Pedro e termina com sa. Quando o poeta maluco viu um Pedro alinhado com outro Pedro, que ainda por cima era a mesma pessoa, desferiu um tabefe sobre as faces rosadas dos dois que eram um só. Pumba. Agora o Pedro Guilherme-Moreira, que já não usa Pedrosa, gostava de reencontrar esse professor para medirem as mãos. E outras coisas. O Pedro nasceu no final da década de sessenta no Porto. Viveu nas Antas, aprendeu a andar de bicicleta dentro do pavilhão do Fê Cê Pê e andou ao colo daquela equipa de futebol do Porto com o Fonseca, Simões, Freitas, Murça, Gomes, etc, etc. O pai foi internacional de voleibol pelo mesmo clube e contagiou a família toda. O Pedro também foi voleibolista federado durante muitos anos, treinou com a selecção nacional, onde foi partir os pés, era um ano mais velho que o Maia e do tamanho do Brenha, que é algo a rondar dois metros, o que é bom para concertos ao vivo. Vejam o seu desempenho brilhante nos anos oitenta, jogando pelo Colégio dos Carvalhos, onde estudou, desempenho tributário da imagem do Serafim Saudade, que estava a nascer (é o oito):

 É bisneto de escultor, neto de comerciantes, filho de pintora e engenheiro.

Ora, o tracinho, como veio a ser carinhosamente apelidado pelos seus colegas advogados, seguiu vida no trólei três, como se sabe, como Torga, com quem nunca falou, mesmo habitando na zona dos Olivais, perto do Dr Adolfo Rocha, ou Miguel. Formou-se em Direito em Coimbra e exerce apaixonadamente há mais de quinze anos, sendo que a paixão esmoreceu à custa de muita tibieza. Já vinha escrevendo desde que oferecera aquela fábula à professora Laura, aos sete anos, e nunca mais parou: poesia sempre, mas a prosa ainda não estava bem. Nem aos vinte, nem aos trinta. E eis que um acidente grave da prima Susana o fez obrigar-se, ao espelho, a terminar o livro sobre a guerra civil estradal que levava sete páginas escritas em cinco anos. Começou por volta dos trinta e cinco e nunca mais parou. Até hoje. Hoje também não parou. Escreveu mais de mil páginas de enfiada e experimentou todos os estilos, e tudo o que lia era bom para rasgar a página, voar a página, mastigar, deglutir, cheirar. A prosa passou a ser-lhe compulsiva, mas a poesia volta cada vez que termina um livro, e enquanto não começa outro. Ser pai tem sido também um projecto visceral e arrebatador, mas durante três anos nenhum poema se veio colar ao seu bebé. Aos três anos, contudo, veio o


FILHO

A mão dele ainda cabe aberta

Na minha mão fechada.

No dia em que não couber,

vou em busca do abraço

que encerre em mim uma volta.

Os olhos dele ainda brilham

nas frestas do olhar do pai.

No dia em que não brilharem,

buscarei em mim o véu

que lhe devolva o horizonte.

E os seus ouvidos vibram,

desaguando os meus passos.

No dia em que não vibrarem,

vou em busca do silêncio

que me deixe ouvir os seus.

Enfim, um dia, o meu filho,

não vai querer um beijo meu

à porta da sua escola.

Nesse dia, a ternura

que docemente traduz

a violência pura

do amor,

vai sentar-se na mão,

a mesma mão

que em si fechava a sua,

e descansar

sobre o seu ombro,

calada.

Se ao menos nesse dia ele deixasse

fechar sobre si o abraço...

Pedro Guilherme-Moreira

2003-07-30

E é homem de todas as mulheres mas de uma só, e não é a mãe, é aquela com quem namora há vinte e cinco anos e que ama ao Domingo.


Ao Domingo,
amo-te do outro lado da casa,
fico à escuta de joelhos
sob a manta escocesa


Ao Domingo,
amo-te por seres uma certeza

E podia contar mais, mas chega a manhã do Mundo.

Aproximou-se assim:

Chegou assim:

E finalmente, em homenagem às mulheres, contou uma parte da história assim:

Quando no dia 11 de Setembro o professor Marcelo escolheu o livro do tracinho, o Pedro Guilherme-Moreira recolheu-se, humilde, perante a certeza de que mais de um milhão de pessoa estavam a vê-lo naquele momento.

Então o Pedro Guilherme-Moreira soube que aquilo que tinha decidido, nunca mais parar, era para levar avante, não por si, mas pelos abnegados leitores que lhe têm enchido a alma. (...) 
PG-M 2011

2011-08-01

A bondade é uma palavra redonda e devia ter mais arestas para que os amargos lhe cedessem


Estou condenado a ver a beleza. Que se reflecte nos objectos. Não acredito na maldade orginária. Acredito que o pérfido pode ser adoçado se o tomarem por bom. A outra face, pois. Que somos todos capazes de coisas maiores se os mais fortes carregarem os mais fracos. Que a vida pode ser boa num ciclo de dez minutos, os dez minutos antes de ele morrer de cancro, que ocupamos entre os nossos beijos na testa suada e o sorriso dele entre gemidos. Se encostarmos a velhinha ao nosso corpo forte e, com a mão direita, conduzirmos a colher de chá com água aos seus lábios roxos e depois a libertartmos com o seu doce rastilho a queimar devagar até ao fim. Ela deitada, serena, a dizer a vida toda em seis frases e a desfalecer serena. Talvez falte muito para que, do lado de lá da beleza, eu consiga atingir a bondade. A bondade é uma palavra redonda e devia ter mais arestas para que os amargos lhe cedessem. A celebração da vida, o altruísmo calado, a felicidade à luz dos outros, as lágrimas necessárias, tudo, tudo é encarado como uma insuportável desfaçatez pelos menos bons entre nós, pelos que estão convictos de que ser assim é só aparentar ser assim e de que aparentar ser assim é de uma falsidade sem precedentes e que se tem de dar a tal indivíduo uma noção dos penhascos da vida, até empurrá-lo para um para que aprenda. Quando é que o pai deixa de testar o filho e o abraça? No leito da morte de um deles? Quando é que um amigo a quem a vida não sorriu (a quem não encheu de coisas boas, até tirou) percebe que o braço forte do puto que com ele rasgava os joelhos no futebol de rua não é uma declaração de superioridade? Quando é que a valoração das pequenas coisas deixa de ser egocentrismo - não é aí que está a emoção dos dias, no que se mostra e se ouve, no que é ouvido e mostrado? Porque é que o fogo de artifício de um gesto tem de ser uma agressão à indelével tristeza dos homens? E no fim de tudo, puta que pariu, deixa-se a mão na face da pessoa que nos apoucou porque se acredita, acredita sempre, que o calor da nossa pele resgata o melhor dela.  A quem nos falha sempre não devemos falhar nós. E se o nosso corpo nos disser que já chega, afastemo-nos sem nunca fechar a porta. Ser muito bom não depende do sucesso social, nunca dependeu. E ao amigo não devemos ter vergonha de pedir abrigo. A bondade é uma palavra redonda e devia ter mais arestas para que os amargos lhe cedessem. É a maior guerra de todas.
PG-M 2011

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2010-11-26

E agora morri

Eu vou explicar-te porque é que não me custa estar morto.
Não tenho frio nem fome. Principalmente não tenho frio da indiferença nem fome de conhecimento. Confesso que já me cansava querer conhecer tudo e saber que não podia, ler tudo e estar sempre mais por ler. Não tenho de acordar cedo nem sinto culpa por me deitar tarde ou dormir pouco, porque este sono vai ser longo e com toda a preguiça que nele caiba sem que ninguém me possa criticar por isso. Não estou a ver um dos poucos visitantes da campa repreender-me: "Já se fazia qualquer coisinha, não?" Deixarei de aturar os chatos e os parvos, mas vou sentir falta dos loucos, dos vivos em geral, dos velhos, das crianças, das mulheres e de alguns homens, salvo seja. Música e livros deve haver de sobra lá por cima. Vai ser curioso habituar-me a novos clichés, como, por exemplo, viver a morte um dia de cada vez. Posso deixar de me preocupar com o IVA - o último é o do funeral e já nem sou eu que pago. A igrejas, festas e romarias, lugares e ocasiões que, como sabes, me entediavam de morte (vá, faz uma pausa aqui, ri-te), repito, me entediavam de morte, só vou noutra forma de ser, para que nenhuma alegria deixe de ser vivida porque morri. Finalmente vou deixar de fazer exercício para emagrecer, porque isso virá naturalmente, mas principalmente porque essa parte, o corpinho, já não interessa nada. Aliás, se há por aí alguma inquietude pelas saudades da minha presença, pelos momentos em que se notará que a minha enorme mancha física (dois metros por dois) já não faz sombra a ninguém ou os meus modos brutos já não abanam os amigos, ou até se os cantinhos da casa se mostrarem vazios de mim, ou até as minhas frases já não encherem as redes ou livros novos, repara, isso é o menos porque, graças a Deus, quase ninguém leu o que eu escrevi e eu escrevi tanta, mas tanta coisa, mais ainda do que é possível a alma mais pessimista imaginar, que serão precisos anos para o ler e quando o corajoso que assumir a missão pensar que acabou ainda encontrará pedaços de frases e pensamentos, e se ainda assim acabar vai estar tão cansado de mim que me recordará com alívio. E os que, ainda assim, não lerem, também não se podem queixar de saudades, hipócritas, porque basicamente escrevi sobre tudo, passado e futuro, sim, futuro, pelo que a convivência comigo não vai acabar nunca. Mesmo para os mais íntimos,a equação é fácil: se não há fé, acabou mesmo tudo e ninguém sai prejudicado, fora o chão que me acolhe. Se há fé, então é claro, claríssimo, que eu neste momento estou nos serviços administrativos do purgatório tentanto negociar a entrada no céu e a burocracia é tal e a preocupação de evitar a vida eterna junto de alguns chatos que morreram antes de mim tão incomensurável que eu vou andar tão ocupado que nem sequer posso mandar sinais cá para baixo. Entretanto, se não me quiserem esquecer depressa, o que aconselho vivamente, agarrem-se às camisolas grossas que no Inverno eu usava cinco dias seguidos, e se o cheiro desaparecer abusem do meu perfume, como eu abusei. E chorem pelas vossas vidas, o que, sabe-se, faz bem. E se no fim de tudo for mesmo a saudade, a falta da minha presença chatinha, que vos vier visitar amiúde, então, por amor dos santos, vão lá buscar os meus livros e leiam e vão buscar os meus poemas e sintam e não se queixem, caramba. Porque se há uma virtude na morte é que, finalmente, há tempo para as pessoas pensarem no que o morto fazia e dizia e toda a pressa da vida abranda para recuperar todos os momentos do defunto. A morte é, pois, como concluiu São Francisco de Assis, e eu também (e ninguém me fez santo por isso), o momento mais alto da vida. Finalmente calam-se todos, morto incluído, e conseguem ouvir. E reflectem e sentem e valorizam cada detalhe. E os que nos sucedem terão sempre o tempo ocupado a tratar de partilhas e afins, e eu sempre gostei de uma partilha rasgadinha, escaldante. E quando a partilha acabar, há sempre um nome para propagar e projectos deixados a meio para concluir. Portanto, morrer é uma canseira. Mesmo a descida à terra: acho-a bela desde que vi a avó descer num dia de chuva, o cheiro da terra já tão parecida com o barro a cair sobre o caixão, é bonito e completo o regresso ao lugar de onde se veio, é bom ficar fisicamente ali sem sentir nada e deixar tudo o que importa de nós viajar infinitamente nos corações e nas cabeças dos que nos amaram e mesmo dos que não nos amaram. Viver eternamente, pois. Concluo já, senhor presidente. Concluo dizendo que me vai saber bem ocupar-vos até à missa de mês e ser esquecido daí para a frente e ficar em paz. E ser visitado nos finados. E se algum de vocês insistir em me convocar, não faz mal. Afinal amei, amei muito, fui amado, muito amado, e, sempre que me lembrei, fui bom moço e quis saber de todos. Fiz o filho, a mulher, o livro e agora serei árvore. Magnólia.

2010-09-09

Um repentino pensamento libertador (diário de bordo)

Nota prévia: se procura temas mais abrangentes, é melhor saltar este post, que se destina, essencialmente, a leitores, principalmente a quem está a pensar ler, ou já leu, este livro. Contém reflexões sobre a literatura;


Sem demora e pretensão, deixo-vos uma espécie de diário da leitura de "Um repentino pensamento libertador", do norueguês Kjell Askildsen. Tive a preciosa ajuda, nas reflexões, de um reputado crítico literário, mas obviamente, por respeito e porque não me compete publicar palavras alheias, omito o diálogo. Tenham em conta, contudo, que, a partir do quarto ou quinto conto, tive esse espantoso interlocutor (que saudades de certas tertúlias literárias que que nunca vivi).

- A escrita ao osso não é seca.Tão pouco minimalista.É apenas um estrutura onde o leitor assenta as suas próprias emoções.É parecida com a arquitectura.Induz sentimento sem ser óbvia.O primeiro conto do livro ("As crias de Gaivota"), ainda assim, é banal. O segundo("A partir de amanhã acompanho-te a casa") é muito bom, considerado obra-prima do conto norueguês.Não seria A obra-prima do conto português. Estranha tradução.Mas compreendo o Mário Semião: quis deixar a sonoridade da origem. As palavras soam a norueguês.Não sei se terá sido uma boa opção, mas compreendo-o. Penso contudo que o tradutor deve ter noção do que deixa e não deixa passar. Há coisa que soam banais, sem serem originais. De qualquer modo, estou a aprender muito com o mestre. Que bom.

- Deve ser por nos repetir as coisas simples que a nossa cabeça nos explica sem palavras que Askildsen é considerado brilhante. Depois de fazerem amor pela primeira vez, na floresta, um miúdo e uma miúda iam cada um para seu lado, como de costume. Algo fez com que se detivessem e percebessem que isso passaria a ser incorrecto. E então ele disse-lhe: "A partir de agora acompanho-te a casa".

- E ao conto "Encontro", Askildsen, o seco e inclemente Askildsen, transforma-se em Lobo Antunes. Surpresa inesperada. E o homem que não descrevia, descreve (já se fartara de descrever no conto anterior, espécie de "Janela Indiscreta"), e o homem com meridiana clareza usa diálogos entre parêntesis, meramente separados por vírgulas (como eu gosto tanto de fazer) - não são confusos, mas também não são meridianos.Este conto é escrito em tempestade mental, é profuso e difuso.







- Procuro há algum tempo caminhos para a depuração. Askildsen está a ser um desafio enorme, até porque me mostra claramente aquilo que há anos defendo: na literatura não há génios, mas apenas momentos e páginas geniais. Este livro, que paga ao norueguês uma dívida de esquecimento, percorre toda a carreira de um escritor que é hoje unanimemente considerado um grande escritor. E mostra-nos que a sua escrita tem momentos de banalidade confrangedores, sem contudo macular a excelência - não podem, porque, realmente, é na banalidade que vivemos, e se nos trazem mais banalidade não podemos levar a mal. "Crias de Gaivota" anda precisamente entre o puro e o banal. "Final de Verão" não tem nada de novo. "Uma Rosa em flor" é, talvez, uma experiência kafkiana em si mesmo. Fiquei a pensar o que nos queria trazer o escritor com este conto. A forma como o grotesco nos habita? Ou o ridículo?


- "A partir de agora acompanho-te a casa" talvez tenha sido o início das coisas boas - e terá mais valor pelo contexto histórico em que surgiu do que pela história em si. Gostei muito de "Funeral", bastante de "Encontro" (onde se sente, claramente, a "pureza"), e estou a debater-me com "A Noite de Mardon" - é mesmo uma enorme surpresa encontrar as soluções literárias que Askildsen vem usando neste e no conto anterior (um conto em que, aliás, ele se farta de descrever e adjectivar:). Para isso não nos avisou ninguém: o Lobo Antunes terá lido Askildsen? Presumo que estes contos tenham sido dados à estampa antes da "Memória de Elefante", mas intriga-me o experimentalismo.


- "A noite de Mardon" é magnífico. Fica gravado. Mas eu não procuraria este estilo como leitor de "escrita ao osso". A sensação de diálogos e discursos e narradores cruzados é pouco "pura". É visceral, lê-se desde as entranhas. Preferia o Askildsen do "Funeral" a escrever esta "Noite...". O que me lembra mais dois pontos que deixo à consideração: a) É da minha vista ou Askildsen tem variações estilísticas brutais, ao longo dos anos? Nota-se claramente que ele vai experimentando saídas. b) A questão da tradução, já cima aflorada;


- Ainda vou a tempo de falar sobre "Uma Rosa em Flor". Não me soube muito bem, e considero-o totalmente partido em dois (antes do encontro combinado com a Rosa, e depois dele). Mesmo a pancadaria final me parece estranha. Soou-me a Kafka pela naturalidade com que as descrições são feitas num enredo peculiar. O próprio K. fazia assim: descrevia com naturalidade uma cena onírica (para o leitor). Mas há pormenores e ideias que percorrem todos eles e que começo a depositar na caixinha da excelência: pensamento simples que todos temos e que a literatura parecia não acolher antes de Askildsen. Fico a pensar nisso e, assumo-o claramente, sou tremendamente influenciado em termos de escolhas de caminhos numa encruzilhada narrativa. Em suma: ele faz


- Parece que já ouço a voz que vim procurar. "Nada por nada" e "Chapéu para o sol" são sublimes:). Sim. Há algo que soa a frio na forma como ele isola os nossos próprios pensamentos. Provavelmente seremos todos assim, e soa mal ser-nos servida a vozinha da (in)consciência.


- É realmente um grande momento, este "Ingrid...".:). Mas a reflexão que me surge, depois de tantas páginas de envolvimento, ao ser largado assim à bruta pelo norueguês, é precisamente este seu jeito de abandonar as histórias como se saltasse de um comboio em andamento. Claro que é deliberado, mas não sei se, como leitor, lhe perdoo:)). Abrir uma cortina para a vida, e depois nem sequer a fechar? Sim, a espaços ele quer "passar despercebido", mas é óbvio que o que o faz um grande escritor (e isso parece que é mesmo) é a intervenção, a deformação. Bom, a aventura continua.


- A leitura de "Carl Langen" foi-me especialmente cara. Advogado há 15 anos, não levei muito tempo a perceber que este é o tempo em que as pessoas compõem a sua vida como uma mentira meticulosamente arrumada. Se há algo fora do sítio, tentar arrumar. Se acontece um crime ou um acidente, não nos visitam, salvo raras excepções, com a verdade nem com a sua versão da verdade, mas com uma história que elas fabricaram e um enredo que acham que devemos levar em frente. O relatado neste caso, um inocente que se comporta como culpado, já me aconteceu várias vezes. Depois de analisadas várias hipóteses, a estratégia a seguir foi a da verdade. A cliente, perante a juíza, ficou atrapalhada e achou que devia inventar. Quase era condenada. Por ser minha mãe, foi especialmente penoso assistir à forma como uma pessoa se deforma perante o medo. Porque é que nunca escrevo sobre o que vivo no Direito? Precisamente porque transcende a ficção:).


- Thomas F. sofre do mesmo "mal" de outras leituras. Tem-me acontecido muito, ultimamente, o que quer dizer que tenho escolhido bem. Quando me apercebo de que é isto, e é isto, tendo a travar. O livro está a chegar ao fim, e eu resisto-lhe. Este fica para ser acabado antes do próximo Domingo. 


- E o livro acabou, antes do Domingo.
De uma coisa estou certo: como eu esperava, marcou-me esteticamente. Haverá sempre um antes e um depois de Askildsen. E é raro eu "sentir-me" marcado (quando o sou, o estado é de inconsciência).
Vai parecer estúpido estar a misturar a música que tenho nos ouvidos (e no "testamento":), "Anda comigo ver os aviões", com este livro, mas não resisto. A pureza quase juvenil da letras dos "...aviões..." cola-se a muito Askildsen que, como eu suspeitava, é bem mais caloroso do que incialmente se pode pensar. Agnóstico (quase fundamentalista:), convicto de que se gastam demasiadas palavras no mundo, mas que, no fundo, elas são tudo o que nos resta, profundamente lúcido no que toca à velhice e à morte, ao verdadeiro significado da vida. Ainda me ri (bastante) com a passagem da filha que bebia a própria urina. Lê-se em profundo respeito, porque nos sentimos a dar um salto em frente na nosso própria existência. "Tomas F." é uma delícia absoluta, "...pensamento libertador..." um tratado minimalista (quer ele queira, quer não queira:), mas, sim, elegeria sempre "Carl Langen" como o melhor, não pelo tema, mas pela lucidez do olhar sobre a verdade na justiça. Uma coisa rara. Neste últimos anos, tal lucidez vi-a aqui,no Askildsen, e...aqui, no Askildsen. Agradeço ao norueguês (com o fabuloso filme "Água Agitadass" - cfr post sobre o filme aqui - saio com muita Noruega no sistema:), dizia, agradeço a este afável senhor a coragem de dizer a verdade. Que quando se diz na arte, não tem de ser travada com subtilezas. Sinceramente, aspiro a ser um deste velhos. Quem me conhece e os ler, vai ficar intrigado, mas também é mais ou menos evidente que eu ando um bocado farto do cinismo e da hipocrisia desnecessários (porque os há necessários). Agradeço especialmente ao José e ao Njell o "fair play" e a humildade que me ensinaram.


E o resultado, em escrita, do Askildsen no meu sistema são estes Apontamentos sobre o verdadeiro amor.


Parabéns à excelência promovida pela editora Ahab.

2010-06-09

O Lost não acabou (declaração fanática)


É assim: adiei, adiei, adiei, gravei os dois últimos episódios em HD, escolhi o momento para poder sorver cada minuto dos ditos. E para me despedir das personagens que conheço há seis anos. Na brincadeira, disse a todos que era para me despedir da Kate, mas é verdade que houve na série muitas mulheres deslumbrantes. Sim, porque, como se vê no último episódio, a Kate não fica lá muito bem de vestidinho justo e saltos altos. É a menos feminina de todas. Mas adiante, porque o que aqui me traz é coisa diversa. Pretendo apenas que fique registado, nestes primeiros dias de Junho de 2010, que ninguém me convence que o Lost acabou. Podem escrever. Não só porque o argumento ficou aberto, como é óbvio, não só porque o final pode ser só mais um delírio, mas porque os americanos, pura e simplesmente, não acabam nada assim. Acabam por exaustão, muitas vezes de repente e sem concluir a tarefa, mas, por mais que os não-fãs repitam sempre aqueles argumentos estafados do "não percebo nada" (querem perceber sem ver, os bacocos!), onde é que o Lost está exaurido?
Não está.
E se não o quiserem escrever, escrevo eu: A série vai continuar, provavelmente com duas a três temporadas de permeio (nunca antes de 2012, o tal ano do apocalipse:) ou então a equipa vai oferecer-nos "Lost - the movie" no cinema (era boooom!).
Não, não tenho informadores dentro de lado nenhum.
É pura dedução lógica sobre uma indústria que nos tem oferecido poucas surpresas.
Sim, "apesar" de Lost.
E apesar desta útlima temporada. Pouca imaginativa, às vezes mesmo de gosto duvidoso,  mesmo "cheesy" no final.
Mas, temei leitores que procuram nesta palavras conforto espiritual ou vingança dos fãs que  vos ignoraram sempre olimpicamente (e muito bem): eu também vos ignoro.

Porque, apesar de tudo, vi estes dois últimos episódios no velho estado de transe, desfrutei de cada segundo. Despedi-me de todos eles (caso não saibam, o meu favorito era o James, não só porque usa o meu perfume, mas porque tem o aspecto que eu achava que um dia podia ter tido:) quase em oração (private joke), e, sim senhor, gostei.

 Mas não acabou. (Am I in denial?)
No f... way! :)

2010-04-07

Por Portugal 24 anos depois

Hoje fui treinar voleibol com quarentões e acabei inesperadamente a jogar contra a selecção nacional de cadetes femininos, e estou com o coração apertadinho porque me lembrei de que foi precisamente há 24 anos, com a mesma idade e nas férias da Páscoa, que vesti aquela mesma camisola naquele mesmo sítio num estágio de Portugal. E lembro-me das possibilidades que tinha nos olhos e que revi naquelas meninas.

Foi assim o ano passado, e poucos se aperceberam.
Voltei a jogar voleibol depois de 20 anos parado. E o meu corpo começou a lembrar-se das formas geométricas daquele jogo fantástico, e eu perguntei a mim próprio como fora possível estar tanto tempo afastado da quadra, das zonas, das redes, das varetas, dos blocos, dos amortis, dos mergulhos, das curtas, das tensas, de tudo.
Com dezassete anos tinha treinos em Espinho às 10 da noite. Regressava a casa no comboio da meia-noite e meia e só jantava à uma da manhã.. Estava diminuído por sucessivas lesões e cansado desse ritmo. Quando fui estudar para Coimbra, deixei tudo, aliviado.
A minha carreira tinha acabado um ano antes, precisamente nesse estágio da selecção nacional de 1986. Depois de cumprir o sonho de ser convocado pelo falecido Sálvio Nora, parti o pé numa brincadeira estúpida com o meu próprio irmão e nunca mais voltei a ser um atleta completo. Tive sucessivas rupturas de ligamentos. Passava mais tempo de muletas do que a jogar.

Esse estágio da selecção nacional foi, apesar de tudo, marcante na minha formação como homem e desportista. Partilhar esses breves dias de "tropa" com adversários que defrontava desde pequenino, numa altura em que o Voleibol era amadorismo no seu estado mais puro, deu-me amigos a cujas carreiras nunca mais fui indiferente.

Homens sábios dizem que o que distingue o voleibol de outros desportos é que, se for alcançado o objectivo máximo, que é manter a bola a no ar, existe uma comunhão absoluta entre os dois lados do campo. É verdade: o primeiro objectivo do voleibol é manter a "bola a voar", e só depois colocá-la dentro do campo adversário. Quando a bola voa durante longos minutos sem cair (o "rally") o jogo atinge a sua beleza máxima. E há verdadeira comunhão entre adversários.

Recordo-me de outras vezes em que estas meninas da selecção nacional de cadetes se cruzaram connosco naquele pavilhão, e do (nosso) secreto desejo de partilhar outra vez o campo com pessoas com um mundo de possibilidades pela frente.
Hoje foi o dia.

Há 24 anos atrás, envergando uma camisola parecida que dizia nas costas "Portugal Voleibol 1988" (era esse europeu que estávamos a preparar) não tive o privilégio de defrontar antigos jogadores. Não sei se estas meninas de hoje valorizaram a oportunidade. Eu senti-me transparente. As nossas adversárias desta noite, concentradas e empenhadas nas suas carreiras e no seu potencial, não nos "viram", realmente, do lado de lá. Mas eu vi-as a elas. Vi o seu olhar límpido, puro, cheio de possibilidades, e estar ali a participar no seu crescimento de uma forma tão plana, tão igual, com os corpos a mergulhar ao encontro da mesma bola, o suor em atrito com o chão, as mãos no ar, o balanço dos braços, afinal os vinte e quatro anos que para mim passaram num repente não significarem abismos ou fronteiras, e nós todos, sem excepção, estávamos num estado de graça que parecia um qualquer delírio comatoso de homens que não sabiam exactamente o que fazer.

A verdade é que nos sentíamos tão privilegiados que ninguém soube desempenhar cabalmente o seu papel, e isso acabou por abonar em prol de um inesperado equilíbrio que nos trouxe a humildade que as pessoas de quinze anos, sei-o aqui como nas maravilhosas aulas de Direito que dou nas escolas a rapazes e raparigas da mesma idade, convocam para nós.

Porque eles têm a vida pela frente, uma enorme e difícil interrogação que já não nos atormenta, mas devia.

Não que tenhamos perdido o jogo, mas porque essa possibilidade era real, foi com humildade e admiração por aquela forma pura de se ser, pelo espelho de um passado que me parece tão perto e tão breve, que valeu cada set, cada ponto, cada momento.

Obrigado, meninas.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Deixo uma lista aproximada das nossas adversárias, para que vejam com o que lidamos hoje, entre os 15 e os 17 anos:). Uma delas tem mais um centímetro do que eu:).


Ana Monteiro - 29.07.93 - 176 - SC Arcozelo / Eduarda Duarte - 28.07.93 - 186 - Leixões SC / Mariana Filipe 14.02.93 - 174 SC Braga / Mafalda Silva 7.05.92  - 185 - Leixões SC / Joana Polido - 2.08.92 - 194 - GD Sesimbra / Joana Silva - 7.03.93 - 184 - Leixões SC / Marta Hurst - 7.07.92 - 182 - CA Trofa / Joana Neto - 4.01.93 - 175 - Leixões SC / Carina Moura - 17.10.93 - 184 - Atlético VC / Elsa Moreira - 5.0592 - 177 - Atlético VC / Patrícia Neves - 14.06.93 - 176 - Col. Calvão / Mariana Meireles - 29.02.92 - 173 - Leixões SC / Treinador Principal: Fernando Luís / Tr. Adjunto: Filipe Lacerda