2010-08-23

Apontamentos sobre o verdadeiro amor

Encontro-me encerrado na torre sineira de uma igreja de uma aldeia de uma província de um país desconhecido, ou praticamente desconhecido, ou pelo menos falido e ignorado.
Ninguém, muito menos o resto do mundo, vai, pois, notar que me suicidei, ou, pior do que isso, ninguém quer saber do que me aconteceu desde o funeral da minha mulher, aliás, pior ainda, ninguém se lembra que eu existo desde a missa de sétimo dia. Recebi os últimos abraços contra a minha gravata preta, mais tarde contra a lã preta da camisola que vesti para me compor e para que o gelo da existência não fosse tão despudorado, e depois ficou tudo vazio. Até o nosso mar, ao longe, e as praias dele.

Hoje, felizmente, está uma noite boa, o que é conveniente, sendo a última.

Trouxe um banco de lona, daqueles que se levam para a praia, concertos e piqueniques, porque tinha receio de que as minhas pernas não fossem suficientemente fortes para subir ao parapeito. Agora serve-me de apoio para a escrita destes últimos fragmentos. Estou sentado no chão, as costas encostadas ao granito, a folha sobre a lona do banco que entalo com a parte posterior dos joelhos.
É a torre sineira, claro, da igreja em que me casei com ela.
E de lamechices chega.
Se pensam que o verdadeiro amor é feito de coisas destas estão enganados, e muito provavelmente divorciados. Claro que um homem acabar com a sua vida saltando da torre sineira da igreja onde, há quarenta anos, se casou com a mulher que amava, está bem. Apraz-me que o povo tenha de falar de mim por muitos dos anos adeante. Escrevo assim mesmo, adeante, porque me habituei a fazê-lo e usar um i seria desrespeitoso para com a minha senhora, que a tenha alguém, não sei se um deus ou o firmamento ou a terra que me terá a mim.
Vamos tornar-nos uma lenda, e isso é bom.
Mas sempre vos digo que o verdadeiro amor nunca foi falar demasiado.
Amar, verdadeiramente, é evitar fazer perguntas.
Se temos tempo de observar a pessoa que vive connosco, devemos fazê-lo, e então passará a ser fácil descodificar estados de espírito e preocupações em silêncio, como deve ser.
Basta, às vezes, a forma como ela se chega à banca da cozinha, se se detém e suspira antes. Convém que o suspiro seja imperceptível, legível apenas pelos códigos corporais que acabo de referir. Não devemos confundir a compulsão da pieguice que o casal tem dentro de si, de dramatizar e chorar dizendo que a sua vida é estúpida, como é. É como ir limpar os canais ao dentista. É preciso dizê-lo, chorá-lo, de vez em quando, por higiene. Esses suspiros não contam.

Claro que no verdadeiro amor sabemos muito bem que o que nos faz feliz é termo-nos.
A gestão das ausências é o mais importante. Toda a nossa vida havia apenas um momento em que tinha de a ter por perto todos os dias e, se não tinha, sentia a minha cabeça pender e ficar muito pesada, e então dava-me um tristeza de um tamanho tão largo que não se via nem o fim nem as margens.
Era ao pôr-do-sol, quando o dia se transformava em noite.
Mesmo que ela estivesse doente e não me pudesse fazer o jantar, ou eu a ela, tínhamos de estar dentro dos nossos muros, aqueles que, mesmo numa vida comunitária, que é como quem diz, com filhos a entrar e a crescer e a sair e a entrar e a crescer, só nós podemos ver.

Eu sabia distinguir as lágrimas verdadeiras das correntes.
Quando ela as deitava verdadeiras, evitava chorar. Deitava-as mesmo sem chorar.
Eu também.
Cerrávamos os lábios, franzíamos o sobrolho, e as lágrimas passavam por nós, caíam-nos nas costas das mãos.
O sofrimento ficava dentro da boca, e se a abríamos perdíamos o controlo.
Quando lhe acontecia, eu lá tinha de lhe valer, dando-lhe cobertura com os ombros e os braços atados sobre as costas. Nesses dias, abria a minha mão grossa e friccionava-lhe a parte de trás do coração, ali, sob a omoplata (também já não se diz). Isso eu fazia muitas vezes, mesmo em momentos alegres. Era, aliás, dessa forma que canalizávamos a maior parte do nosso amor. Pousando os dedos sobre o outro, quase sem se notar.

De resto, mais nada, nada de tão físico, pelo menos.
O sexo era subtil, só pode ser, num casal que se ama. A treta do sexo com amor é precisamente isto, e não uma cópula animal com declarações de amor constantes. Que náusea.
Tínhamos uma convicção comum, eu e ela: a de que muitos casais se separam por não perceberem a simplicidade das coisas. Por achar mesmo que o amor tem de vir de um príncipe encantado (ou de uma princesa), por se porem à espera de coisas insensatas e exigirem um ao outro tarefas desumanas para quem vive junto dia e noite.
Não. Erro crasso.
Amar verdadeiramente é ceder, sim, mas após a fusão, que se dá aliás nos primeiros tempos, depois do momento em que se trocam os papéis e até a pele, na maioria dos casos, tornando-nos fisicamente parecidos com a pessoa que amamos e vive connosco. Depois disso, começa o exercício de viver lado a lado, na linha tangente, sem quebrar a casca fina da intimidade do outro, sem lhe dar um peso excessivo e sem encher a sua vida de ruído.
E sem nunca desistir.
Saber discutir, e discutir violentamente, porque esse ódio é um genuíno sentimento de compromisso, é a sangria dos dias. Não deve é durar demasiado tempo, nem aparecer demasiadas vezes.
Não deitar a cabeça na almofada sem olhar para ela, nem encerrar um dia desejando-a longe.
Não passar a fronteira.

E perante outras e outros, perante a vontade de possuir outros corpos e outras almas, de deixar a natureza prosseguir livre, como a carne pede, o segredo não é lembrar que se deu a palavra, e que se está prestes a quebrá-la.

No verdadeiro amor, eu lembrava-me.
Lembrava-me que sem ela nunca suportaria o cair da noite, e que a nenhuma amante poderia algum dia cobrar essa perda.
E depois, para mitigar as camas que não pude ter, ia com ela fazer as coisas simples que aprendemos vida fora e que, em segredo, sempre soubemos terem mais charme do que as extraordinárias que se contam entre os amantes.

E ríamo-nos juntos do quão ridículo éramos, sempre fomos, como só o amor sabe ser.

E aqui, no fim, se acaso me quiserem perguntar "E o corpo?"
E como era ver velho e macilento o corpo outrora perfeito da rapariga que nos preenchia os sonhos?
Gosto que me perguntem isso, porque tenho oportunidade de explicar que essa é a única coisa verdadeiramente magnífica e emocionante do envelhecimento de dois verdadeiros amores. E poderosa.
É que conhecemos tão bem, anos fora, aquele corpo, amamo-lo tanto por a ele nos encostarmos nos dias frios, e dele nos afastarmos nos dias amargos, que o padrão estético pelo qual se avaliam modelos de passerele não poderia nunca servir.
Serve uma má masturbação, mas não serve para medir o amor da nossa vida.

A forma como o olhar permanece intocado, e no entanto o tempo vai adequando todas as restantes partes dos corpos, e os corpos se vão adequando a ele, é quase milagrosa.
Há corpos que quase se arrastam pelo chão, e no entanto os velhos reconhecem sempre a dignidade com que o seu amor faz o contraponto à morte.
Porque o fizeram devagar, dia a dia, anos fora.
Muitas vezes o corpo até contraria o tempo, melhora, ergue-se.
E é por isso que aqui,

na torre sineira de onde partirei da vida, dava tudo para ter a minha pobre velhinha curvada sobre si, como a vi morrer, e nem quarenta musas perfeitas me fariam abdicar de uma carícia nas rugas que eu senti aprofundadas em mim. Rugas que passaram a estar lá sob os meus olhos, até ao fim da noite.

As  minhas pernas, afinal, ainda chegam para subir ao parapeito.
Está a amanhecer. Vou.
Agora vou.

10 comentários:

Alexandra A. disse...

Gostei muito. Mesmo.
Parabéns.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado. Sempre com grande humildade. As ideias deste textos esperavam há muito um estilo adequado para serem transmitidas. Encontrei-o na leitura, como sempre:).

Kássia Kiss disse...

Simplesmente arrasador...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Kássia:). Simpatia tua.

Susana disse...

Adorei! :) no teu estilo frontal e tão real.... e eu fico sem palavras!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Susana. Conheço alumas Susanas, não sei se és alguma delas, mas também não importa:).

Berta Cem Mil disse...

texto maravilhoso. comoveu-me, obrigada.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado, Berta. fico verdadeiramente sensibilizado:).

lau disse...

Maravilhoso Pedro.Comovedor.E obrigado por abordar este tema do amor,do envelhecimento,do sexo duma forma tão poética,tão simples,logo num tempo em que se pede eterna juventude,em que tudo tem de ser perfeito...Obrigada.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Eu é que agradeço