2010-08-21

A invisível Trine Dyrholm (e Troubled Waters)


Fixem este nome, por favor: Trine Dyrholm.
É mulher, nascida em 1972 na Dinamarca, mas o que importa é que é uma actriz assombrosa.
Se forem ver "Águas Agitadas", uma co-produção nórdica em que também entra a Alemanha, vão ter de esperar algum tempo até ela aparecer no ecrã, mas, garanto-vos, vale a pena.
Aliás, tudo vale a pena.
Não gostam de órgão de tubos? Têm a certeza? Agora vão ver o filme e respondam outra vez.
A interpretação, em órgão de tubos, de "Bridge over troubled waters", ideia que está na base do (e dá o título ao) filme, é simplesmente de tirar o fôlego a qualquer um. Passa duas vezes. Se à primeira nos põe em sentido, à segunda arrebata-nos.
E depois há as convulsões.
Os nórdicos são lixados (a expressão parece vulgar, mas vem de quem foi tramado pelos ditos).
Partiram-me ao meio.  Harald Rosenløw-Eeg escreveu um argumento maravilhoso, profundamente literário, com aquele engano costumeiro quando se olha para os fiordes: são frios. Frios????  Não, meus caros. A palavra é "económicos". Têm economia emocional, mesmo física, mas uma tremenda pureza do não-dito. Falam pouco, observam muito. Parecem abordar os temas com uma secura extrema, mas depois empurram-nos da cadeira.
Não tenho vergonha de confessar - e nem sequer vou dizer em que cena - , mas, por falar em convulsões, chorei convulsivamente como, creio, nunca na vida. Notem: não disse "nunca no cinema". Disse "nunca na vida". Foi abrupto. Estava a gerir, lá está, o gelo das frases, a violência dos conceitos, a ambiguidade dos olhares e...pumba.
Voltei com vontade de rever o filme, e rever, e rever, e rever.
Há uma razão prosaica: ele é filmado para nos deliciar.
A luz, os enquadramentos, a fotografia, a própria música.
E se falarmos do nível hormonal, nem elas nem eles ficam mal.
Elas com o gigante (de tamanho mesmo, embora esteja muito bem como actor, também) Pål Sverre Valheim Hagen. Eles com a belíssima pastora Ellen Dorrit Petersen.

Mas quem enche o ecrã, meu Deus, ó se enche: é Trine Dyrholm.
Alec Baldwin disse dela, há pouco tempo, lá pelo festival dos Hamptons, e precisamente depois de ver este filme, que era a melhor actriz de todos os tempos (há uma versão que diz "dos últimos vinte anos"). Deixa dizer. Está bem dito. Rendição total. Que mal tem?
Overacting? Nunca.

A história do filme? É boa, muito boa, mas isso importa?
Talvez importe. A escrita de Harald Rosenløw-Eeg fez-me pensar que é a escrita de argumentos de alto nível, como este, que faz falta a este nosso cantinho.
Na breve cena do jantar (tenho de a mencionar) está tudo certo, mas é a literatura que a faz sublime.
O diálogo é perfeito, mas é também flagrantemente literário.
Literário como o título original, nada óbvio como o título internacional e português ("Águas Agitadas): "O Invisível".
Está na moda, os filmes-literatura digo, e parece-me que é por aí que nos podemos safar.
Um dia.
Mas digo-vos que a história é boa, muito boa, muito bem alinhada, e prende-nos do princípio ao fim (mais do que qualquer thriller americano, garanto-vos), mas, sinceramente, a sensação é que com esta gente qualquer coisa que saísse era boa.
Esta é a vida, a nossa vida.
Intensamente nossa. E invisível.

E Trine Dyrholm.
Deixem-me ver mais vezes a Trine Dyrholm.
Mandem-na para o mundo inteiro.

PS: Trailer aqui

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