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2021-06-26

Olivetri*, Tino e os 3 mil crápulas

Que Oliveira queria convencer o PSD a fazer uma aliança com o RIR, do Tino de Rans, que pediu para o Tino ser recebido pela Distrital do PSD e que o Tino foi recebido, respeitosamente, por Alberto Machado (contado pelo próprio) são factos. Apenas factos. Sintomáticos, no meu entender, sem ser preciso dizer mais nada. Não para desprimor do Tino, que o Oliveira queria com ele na campanha, na rua, e na vereação da Câmara de Gaia. O ilustre calceteiro de Rans, Penafiel. O problema é que qualquer gaiense, qualquer português, quando sabe isto, fica a olhar para o emissor e franze o sobrolho. É isso: é sintomático e as pessoas são tudo menos burras. O facto devia ter sido comunicado pelos núncios logo à cabeça, antes de o caso se tornar o fait-divers da semana. Não foi. Os Maus, quando fazem uma coisa boa, são descritos como parecendo maus, mas lá no fundo serem bons. Os Bons, quando se descuidam, são descritos como parecendo bons, mas no fundo serem uns crápulas capazes do pior: não foi Jacques de La Palice que o escreveu ou disse, mas o antropólogo espanhol Luis Cencillo, e há bem pouco tempo, porque nos morreu já este século. Parece simples, parece uma evidência, mas é uma observação brilhante sobre o azedume da condição humana. Agora o golpe de teatro. A equipa do Oliveira para a câmara de Gaia (não preciso de lhe chamar doutor nem António, porque, como verão, ele realmente andou comigo ao colo, ou quase) integrava, por inerência, os candidatos às Juntas de Freguesia, que eram quinze, oito dos quais independentes. Eu era e sou um destes, candidato à Junta das maravilhosas terras de Gulpilhares e Valadares, terras de mar, campo, indústria e gente rija, como são os nortenhos, em geral. Ao contrário dos supracitados, não sou importante. Apenas um simples escriba, advogado e voleibolista. Malandro, como todos os nortenhos, mas bom rapaz. O meu pai foi atleta da gloriosa equipa de voleibol Futebol Clube do Porto dos anos setenta e, quando o maestro Oliveira comandou as tropas à quebra de jejum de dezanove anos, eu era aquele puto de sete anos ali na esquerda baixa, que acompanhava o pai, deslumbrado, à única sauna que o estádio das Antas tinha, para se cruzar com os seus ídolos futebolísticos. Oliveira, Freitas, Teixeira, Simões, Murça, Fonseca, Cubilhas, Gomes, etc! Quando o Oliveira reuniu com os candidatos à junta, em Gaia, a coisa até prometia, pelo menos do meu ponto de vista, porque ele, o meu ídolo, apontou para mim e disse “eu já vi o vídeo do meu amigo!”. No final da reunião, uma hora depois, interrompi a conversa com um companheiro para que o Oliveira não saísse sem o meu abraço: disse-lhe que não o via desde os 7 anos e contei a história supra. Nada dali o Oliveira levou que não esperança, respeito e vontade de um líder. De todos nós. Não vou lavar roupa suja. Na verdade, não vi roupa suja a ser lavada. Escrevo porque sou livre, independente, não tenho ali amigos (estou a ganhá-los agora, mas não pela cor, apenas pelo respeito) e estive dentro do processo. O que não compreendo é porque é que factos públicos e que nem sequer ficaram sob reserva perante os jornalistas não são pensados e debatidos. Como este do Tino. Tanto se comenta do que nada se sabe. Estive na conferência de imprensa do PSD Gaia e, francamente, fiquei espantado com o "excesso" de elevação de todos, jornalistas e dirigentes partidários. E pergunto até hoje porquê. Não, desta vez quem fala da mercearia não tem razão. Um bom amigo, experiente politicamente, disse-me um dia uma coisa que me ficou gravada: “são três mil e tal Juntas; basta um crápula por junta, e há sempre um, para serem três mil e tal pessoas a fazer barulho e exercitar a perfídia e politiquice baixa; mas isso quer dizer é que a maioria é gente decente”. Acredito nisso. E quem fala em chupetas e tachos não deve saber que um vogal de Junta, o equivalente ao vereador camarário, recebe 21 Euros do Estado. O Oliveira tinha o meu número, tinha o número de todos, que nunca tiveram o número dele, e, depois de me dizer que eu podia contar com ele e eu lhe dizer que ele podia contar comigo e lhe dar aquele abraço, foi-se embora e nunca mais me ligou. Nunca mais ligou a nenhum de nós, garbosos quinze, que colocaremos a nossa vida em suspenso por uma causa comum. Por muitas causas comuns. Eu sei o nome disto na terra dos homens de barba rija. Mas vocês, por favor, perante os factos, tirem as vossas conclusões. E nunca se bastem só com o que parece.

Pedro Guilherme-Moreira

Junho de 2021

* assim lhe chamava o Estebes, do Herman, quando o “entrevistou”, há quase 40 anos. Mais concretamente Olibetri.

Foto Diário de Notícias