2015-07-21

(Volume I) Sostiene Bernardi e o Voleibol em Itália - Novelle Italiane

 I
 Não me chamo Bernardi. No entanto, metade da vila piscatória onde ora resido chama-me Bernardi. Não sabem de onde cheguei, um dia, de repente, nos idos de dois mil e tal, com uma obsessão pela geração de ouro do voleibol italiano e clamando, num sotaque trentino, que Lorenzo Bernardi era o melhor jogador de voleibol de sempre. Que finalmente a FIVB o tinha reconhecido como tal - com efeito, ser o melhor do século XX é ser o melhor de sempre. No dia em que cheguei envergava a camisola número 15 do USA Volleyball Team com Kiraly a encimar o dorsal. Ninguém no Café Central contrapôs que Kiraly tinha ganho a distinção ex-aequo com Bernardi, nem podia saber que, verdadeiramente, eu não gostava de Kiraly. Ninguém no Café Central podia ou queria saber.
A metade da vila que me chama Bernardi considera-me meio louco. A outra metade não  me chama nada nem tem opinião formada. Não é rigoroso dizer, contudo que, estatisticamente, toda a vila me atestou, perante a autoridade sanitária central, como vinte e cinco por centro louco. Não obstante, foi isso que atestou o Doutor Remédios que, como é consabido, conseguiu concluir o curso de Medicina sem nunca ter feito Matemática: conclui ele e atestou que, como metade da vila considerava o indivíduo Barnardi meio louco e a outra metade não tinha opinião formada, conclui-se e atesta-se que tal indivíduo tem vinte e cinco por centro de incapacidade para o trabalho, devendo por isso ser colmatada a falta pela sociedade e ter o indivíduo direito a uma pensão que se fixa em (preencher) Euros. Estive um ano para que o bom do Doutor Remédios preenchesse o valor que me devia ser pago. Entretanto, vivi a esmola. Ontem foram-me pagos os retroactivos. A primeira coisa que o Dez-Cartas, o filósofo do Café Central, me disse depois de lhe mostrar o envelope com o dinheiro e a factura à sociedade, sabendo da minha obsessão por voleibol, é que o filho do advogado que me tratou do caso pro bono parte para Itália amanhã para jogar pela selecção nacional sub-17 de Portugal. Se guardas isso, a senhoria, que é uma ladra, vai roubar-te tudo, nomeadamente exigindo as rendas atrasadas e reparação dos buracos dos parafusos para afixação de posters emoldurados de voleibol. Depositas o valor legal na Caixa e vais ver a selecção a Itália. Foi pelo Dez-Cartas que soube que o  Doutor Remédios tinha sido remetido administrativamente para a glória de licenciado na confusão dos saneamentos da liberdade - era, pois, um lutador e um indivíduo credível. Adoptei o alvitre como brilhante: o que podia ser melhor para o desfrute da pureza do voleibol do que ir apoiar uma equipa sem adeptos que era o embrião do futuro? Um dia, disse o Dez-Cartas, arrecadarás comenda pelo estatuto de cordão umbilical destes miúdos voadores e o país, não apenas a aldeia, se encurvará deante de ti - e disse-o assim mesmo, não perante, mas deante, com pedante arcaísmo. Fomos ambos à agência de viagens do povo, cuja abriu só para nós -  a agência de viagens tinha a vidraça mais marcada pelas nossas testas do que pelo limpa-vidros, porque lá passávamos horas a estudar folhetos desbotados de viagens impossíveis.

(continua no volume II)

PG-M 2015
fonte da foto

Sem comentários: