2018-10-18

Está na hora da revolução contra-cultura: que se fodam os novos puritanos

nunca deixaste ficar as costas da tua mão
contra as costas de uma mão
desconhecida?
no metro, num concerto, numa passagem
de multidão?
pois fica sabendo:
esse é o assédio que
salvará o mundo

@pguilhermemoreira
2018
fonte da foto

2018-10-03

Fernando Rocha e o princípio e o fim do mundo


Jim Carrey, Fernando Rocha, Lobo Antunes, Rodrigo Amarante, Eduardo Lourenço, George Steiner, Shakespeare, Cervantes, Saramago, Robin Williams, vida e morte, panteão, palhaços, gritaria em rede social, depressão, suicídio, grande e pequena arte, existência ou inexistência da literatura, limites do humor, Irene, milagre seria não ver no amor essa flor perene.
Tenho o privilégio de ser chamado a escolas e a comunidades de leitores para justificar o meu direito a abrir a boca na contemporaneidade, onde só uma ficção benevolente pode atribuir-nos mérito e demérito artístico. Na verdade, nenhum artista - está visto que eu vejo os escritores como artistas - ou julgador de artistas pode realmente saber se é importante ou não. Nem para o seu tempo, nem para o fim ou princípio dos tempos. Todos, claro, aspiram a isso.

 Não o Rocha.
O Rocha trabalha, é um homem bom que até estima e promove quem não o estima a ele, é um dos pioneiros da moda do stand up muito antes de ser moda e arrasa plateias desde o tempo em que os senhores importantes do humor eram os meninos. Na verdade, à beira do Rocha serão sempre uns meninos.

Confessso que andava há anos para escrever isto, mas não lhe encontrava o ângulo certo. Até perceber que o ângulo certo era homenagear e reconhecer este grande humorista que é o Fernando Rocha sem relativizar o que quer que fosse. Eu não sou humorista. Se fosse, gostava de ser o que ele é. Abri este post como abri o post do meu ídolo Jim Carrey. Isso diz tudo. Mas eu vou dizer um pouco mais:

Há muitos pontos de contacto entre o Jim Carrey e o Fernando Rocha, mas, no final, o nosso tuga está mais próximo de nós, mesmo que seja uma estrela mais planetária do que as pessoas pensam. Ambos foram, durante muitos anos, olhados de lado pelos seus pares, mas sempre foi para o lado em que dormiram melhor. Ambos, ainda hoje, são colados a uma imagem frívola e simplificada: a do Jim é a do cómico de filmes light, o que é perfeitamente disparatado e ignorante, a do Fernando Rocha é a do broeiro brejeiro do Porto que só lá chega à custa de muitas caralhadas, o que é perfeitamente disparatado e ignorante.

Eu até admito que alguém que não tenha alma nortenha tenha dificuldade em perceber a pureza dos tipos retratados pelo Fernando. Não tem é o direito de o julgar  por isso. O Fernando foi suporte e chão de muitos humoristas e muitos programas que não tinham onde assentar e se socorreram dele. O Fernando é seguro e sólido, mas, ao mesmo tempo, é genial e trabalhador. Observa, reflecte e adapta o seu material e é, juntamente com o Herman José e o Ricardo Araújo Pereira, um dos grandes do nosso tempo - tomara o Herman conseguir ter a elevação, a humildade e a cultura que o Fernando Rocha tem. Tem-nas, mas nunca antes de si mesmo. Talvez o Ricardo Araújo Pereira seja genuinamente um tipo simples como o Fernando. Não na sua persona pública, isso ele não consegue senão pela celebrada técnica da auto-depreciação e do apoucamento, mas pela forma como busca, estuda e trabalha o conhecimento sobre humor e o partilha connosco. E o faz, claro. O Herman nunca teve esta capacidade: é actual, observador e tem história, mas não necessariamente humilde, até porque acha que já não tem de o ser. Já o Fernando agrega tudo o que ambos têm de bom. Claro que, em alguns círculos, qualquer elogio ao Fernando será sempre um exagero. Mas o Fernando aguenta-se na excelência perante qualquer microfone e qualquer entrevistador ou anfitrião que se ache muito inteligente e sofisticado. O bom do Unas, que é outro puro mas não consegue esconder a sua quequice, caiu de quatro várias vezes quando o entrevistou para o Maluco Beleza. O que distingue o Fernando é que entra sempre, em qualquer lado, da mesma forma que entrou no primeiro minuto da sua carreira. E isso é raro e ímpar

As elites podem não perdoar ao electricista de Gondomar o facto de ele ser melhor do que elas, mas, na verdade, ele é melhor do que elas.

No final, o Fernando comove-me com o seu sotaque largo e a sua forma tripeira de ser. É tão nosso em cada detalhe, na postura, nos tempos, na forma como mexe a boca, nos silêncios. Espero que o Porto não tarde em prestar-lhe a homenagem devida, mesmo que o país se esteja nas tintas, hoje e, provavelmente, sempre. Não devia, mas está. Mas o Fernando Rocha não é menor porque nasceu num país pequeno.

Eu venho desse lugar bafiento que se chama intelectualidade e, se há pessoa que me inspira a ter sempre os pés assentes no chão e o espírito elevado, é o nosso Fernando Rocha. E como é bom, nestas mesas sofisticadas onde põem os escritores, ter a largueza de alma para se ser broeiro, brejeiro e tripeiro e eternizar muitos sorrisos em muitas caras. Mesmo não sendo humorista, mas bebendo dos maiores como o Fernando, que são feitos da mesma massa.

Esse maior é o Fernando Rocha, feito desta massa dos deuses que, no fim de contas, é ser do Porto. E ser o melhor possível do Porto e do Mundo.

Obrigado, Fernando.

@pedroguilhermemoreira 2018


2018-10-02

Aznavour e a Boémia

Dois dias depois de Charles Azanavour se ter imaterializado e ascendido às estrelas, onde já estava  o seu reflexo há muitos anos, ofereça-se-lhe o belíssimo poema do La Bohème em português. Onde estão todos os abismos e ascensões da própria Paris. E não só Montmartre.

A Boémia

falo-vos de um tempo que os menores de vinte
não podem conhecer
naquele tempo, Montmartre pregava os lilases
mesmo por baixo das nossas janelas e,
se isso não pagava o humilde quarto
que nos servia de ninho
foi lá que nos conhecemos
eu chorava de fome
e tu posavas nua

A Boémia, a Boémia,
ou seja,
éramos felizes e só comíamos
um dia em cada dois

pelos cafés vizinhos alguns entre nós
esperavam a glória
e, mesmo miseráveis e com
a barriga vazia,
nunca parámos de acreditar e,
quando qualquer bistrô,
em troca de uma refeição
quente, nos pendurava
uma tela, recitávamos
versos em volta do
fogão e esquecíamos
o inverno

A Boémia, a Boémia,
ou seja, como tu
és bonita e nós
todos génios

muitas vezes me sucedia
passar noites em branco
perante o meu cavalete
retocando o desenho
na linha de um seio
na curva de um quadril
e já era de manhã
quando finalmente nos
sentávamos perante
um café-creme,
esgotados, mas
felizes
faz falta que nos amemos
faz falta que amemos
a vida

A Boémia, a boémia,
quer dizer que temos
vinte anos e vivemos
da leveza do tempo

quando, na roleta dos dias,
faço um tour à minha antiga
morada, já não reconheço
nem as paredes nem as ruas
que vi na minha juventude
e no topo da escadaria
procuro o ateliê do qual
já não resta nada

e, no seu novo décor,
Montmartre parece triste
e os lilases estão mortos

A  Boémia, a boémia,
éramos jovens
éramos loucos
e a Boémia
já não quer dizer
nada


tradução de PG-M 2018
e a magnífica e conhecida performance de Chales Aznavour
interpretando este magnífico poema

2018-09-14

Izzy Slowly e as selfies

É um assunto recorrente aqui.
Não se toca nas mulheres nos pedestais.
Há mulheres nos pedestais. As mulheres nos pedestais estão no mesmo patamar filosófico dos ídolos. Não se devassa um ídolo para lhe colocar o braço em cima do ombro imaterial e tirar uma selfie connosco, os belíssimos imperfeitos terrenos.
Pensem lá: uma selfie faz mais pela despromoção do ídolo do que pela nossa promoção. Vá, a meio do século passado, se aparecias numa fotografia ao lado de um ídolo com ele a abraçar-te e a enfrentar a câmara ao teu lado, podia haver paridade.
Deixava é de haver ídolo. Ou passava a haver dois.
Portanto, se não gostas, verdadeiramente, do teu ídolo, devassa-o, toca-o, puxa-o para ti e nivela-o por ti.
Não me venhas com o discurso paritário. Ídolo é ídolo.
Terei feito cinquenta viagens no trólei 3, em Coimbra, entre o Teatro Gil Vicente e os Olivais, sentado em frente ao Torga, quarenta e nove das quais pensei falar-lhe de Miúra, o touro. Avisaram-me que ele me destrataria e eu nunca ganhei coragem. Da minha janela, via a sua mulher terrena, belga, a fazer tarefas terrenas no quintal da casa deles, à Rua de Camões. O Torga morreu e eu não lhe falei. Vive em mim. Talvez não vivesse se eu tivesse rompido a película de celofane entre nós e ele me tivesse destratado, talvez até incluído numa entrada dos seus diários tardios, escrevendo:
"as pessoas não entendem que Adolfo Rocha não é Torga; ainda tinha esperança nesta nova geração de miúdos, mas ainda agora um parvinho se dirigiu a mim e, em vez de me cumprimentar, disse disparatadamente: gosto tanto do Miúra, doutor Torga!"

Izzy Slowly podia ser uma pin-up. Não é.
Podia ser uma altíssima vedeta com rabo de silicone. Não é.
Podia ser uma miss mundo com um discurso avançado. Não é.
Podia ser uma pivô televisiva. Não é.

Izzy Slowly é só uma mulher dos tempos passantes dotada da leveza dos fantasmas e do veludo azul da Isabella Rosselini, tem quase só substância e quase não-aparência e um perfume inefável, infungível, incindível sem hífens, frases intensas sem acordo, eterna menina em busca de uma forma que nunca alcançará, porque Izzy, tendo-se como um elemento irrelevante da poeira estelar que nos homens se reconstitui na terra no fim de cada existência, não aceitará nunca o pedestal.

No entanto, não a podes tocar. Ninguém a pode tocar.
E, ainda que as deusas modernas tenham cônjuges e carne, qualquer tentativa de as vulgarizar, mesmo depois da maternidade, ou principalmente, resultará frustrada.

Este é o tempo em que não existem, verdadeiramente, deusas.
Ou são excepção as que emergem.
Mas, quando uma menina pura, febril, luminosa, passa a adolescência incólume, chega a Izzy Slowly e, sem saber, sobe pelos pedestais com a ilusão de que a vida é lateral, não central.

Como é normal nas deusas modernas, que não sabem que o são, o que nós sabemos ser superlativo é para elas relativo;

É normal que atravessem uma vida carnal inseguras e, por vezes, tristes, quando afinal inspiram o universo sem a ele aspirar e, ao inspirá-lo, criam a dinâmica do abismo e despenham-se sobre os homens que, ao serem banhados por elas, devem curvar-se em gratidão e reverência e nunca ousar tocar-lhes.

Não se toca na dançarina de colo.
Não se toca na deusa.

É normal que a dançarina pense que é a deusa e que a deusa pense que é dançarina.

Não há argumentos para Izzy slowly.
Só culto e eternidade.

@pguilhermemoreira 2018
@pg-mor



2018-07-28

A carruagem do silêncio

Melanie tinha subido da Mauritshuis, em Haia, de mão dada com a namorada. Nem uma nem outra se calavam sobre a autópsia do Rembrandt ou sobre a luz da pérola da Rapariga do Brinco do Vermeer. Compraram o bilhete de comboio para o aeroporto de Schipol e apanharam o intercity das 17:03h. A App dizia que o comboio era excepcionalmente curto e podia vir excepcionalmente cheio. Assim foi. Melanie e a namorada correram para a frente do cais, mas era 1ª classe. Voltaram a correr para trás e subiram em 2ª e entraram no compartimento de passageiros. O silêncio era tal que
Melanie sentiu que a tinham posto de castigo por uma razão que desconhecia. Ao princípio teve piada, mas a cada sorriso cúmplice trocado com a namorada a carruagem respondia com mais silêncio. Um qualquer automatismo cultural e cosmopolita fê-las sentirem que tinham entrado num  transporte especial para um campo de trabalho. A dor do século era crónica em todos os sobreviventes e todos os seres vivos são sobreviventes. Talvez suspeitassem que elas pertenciam à resistência. Mesmo em 2018. Olharam em volta e viram o sinal gráfico de um telemóvel atravessado por uma linha diagonal vermelha. Depois leram as letras na janela: "Silence Stilte". Ah, disse Melanie censurando-se a si própria de imediato, já sei. Ela tinha lido que os comboios holandeses tinham carruagens de silêncio. Os passageiros, todos os passageiros, mesmo os poucos que as observavam, de pé, acotovelando-se no corredor da carruagem do silêncio, porque os comboios holandeses não garantiam lugar e custavam o mesmo fossem suburbanos ou intercidades, estranha democracia, não esboçavam sequer um sorriso de empatia. O sinal gráfico do telemóvel cortado não era, certamente, a proibição do uso do telemóvel, porque todos os passageiros iam mergulhados nos seus telemóveis. E o silêncio era relativo, porque todos os passageiros daquele comboio levavam auriculares duplos, o que queria dizer que apenas não ouviam o próximo, mas toda a sua cabeça e corpo estavam repletos do ruído que eles haviam escolhido para criarem o seu próprio mundo e se isolarem do mundo dos outros. Os holandeses eram calmos, serenos, civilizados e bruscos. Uma francesa - aliás, qualquer cidadão do mundo - que fizesse o pouco mais de quilómetro entre a Maritshuis e a Estação Central de Haia perceberia logo que a bicicleta é a vaca sagrada dos holandeses e que um velocípede não pára  por razão nenhuma e parece ter prioridade, nem que seja apenas psicológica, sobre a totalidade dos outros. As bicicletas não abrandam nunca. Melanie imaginava que a sociedade holandesa tivesse debatido longamente a necessidade de carruagens assépticas e silenciosas onde às pessoas fosse permitido evitarem o mais possível o mundo dos outros, que os desmemoriados pensam mesmo não ser o seu - algo que conseguisse complementar a experiência asséptica moderna: limpo, bloqueio, apago todo o meu espaço social até me sentir superior aos demais quando me sento na sanita: porque esse momento de privacidade e silêncio ninguém me pode negar. A sociedade holandesa, dotada de um avançado civismo, precisou de um espaço de garantia contra os menos educados. Melanie pagara o mesmo bilhete, talvez até mais, do que as caras fechadas que a olhavam de solslaio, mas Melanie ia de pé e nem sequer podia falar de Vermeer ou de Rembrandt, com medo dos puristas destas coisas de regras. Começou a entrar no seu telemóvel uma chamada que Melanie rejeitou. Era a mãe. Pôs o telemóvel no silêncio. Depois uma sms. "Atende, é muito urgente". Melanie atendeu e falou em surdina. O pai acabava de ser internado, mal chegues a Paris vai directa ao hospital. As caras fechadas abriram em esgares de condenação, alguns dos seus donos apontaram para os sinais gráficos, ouviram-se sonoros "shhhhhhh". Melanie sentia-se perdida e já nem sequer sabia a próxima paragem. Seria a do aeroporto? Não se podia enganar. A namorada perguntou a algumas pessoas, mas não obteve resposta, até porque só se ouviam a si próprias, e ainda assim  o movimento de Melanie a atender o telefone os incomodara. Por vezes, uma sociedade moderna e civilizada não se enxerga a si própria. Qual era a próxima paragem? Qual era a próxima paragem? Dachau? Terezin? Bardufoss? Belzec? Bergen-Belsen? Bolzano? Bredtvet? Breendonk? Breitenau? Buchenwald? Chełmno? Falstad?Flossenbürg? Grini? Gross-Rosen? Herzogenbusch? Hinzert? Jasenovac? Kaufering? Kovno? Klooga? Langenstein Zwieberge?Le Vernet? L'viv? Majdanek? Malchow? Maly Trostenets?Mauthausen? Dora? Natzweiler? Neuengamme? Niederhagen? Oranienburg? Osthofen? Płaszów? Ravensbrück? Riga? Risiera di San Sabba? Sachsenhausen? Sobibór? Stutthof? Treblinka? Vaivara?

Schipol, finalmente?

PG-M 2018


2018-07-01

Como nunca perder (e perder como nunca)


Vou só dizer isto e calo-me. A glória neste jogo que mobiliza malucos e lúcidos, burros e espertos, pacíficos e violentos, voltará às quinas, sim, mais uma ou duas vezes neste século. Se gostassem mesmo de futebol, não escreviam nem falavam tanto do que não o é. Mas a verdadeira glória, deixem que vos diga, está e estará sempre nas ligas e nos desportos dos úlltimos. Ou na incrível entrevista de hoje do Souto Moura à E e em todo aquele deslumbramento literário. E, por falar em arquitectura, a verdadeira glória está num filmezinho que anda aí chamado Columbus, em que alguém questiona se o défice de atenção não estará no pai literato que se maça a ver o filho a jogar passado 5 minutos, e não no filho a jogar que (ainda) lê pouco. Sabem o que diz o mundo, a esta hora? Simplifica. Diz que o Cavani afastou o Ronaldo e mais nada. Como tinha dito Ronaldo 3 Espanha 3. Isto não é o meu país, ou pelo menos não é tão pouco nem tão simples.
Está bem, a glória facilita e anestesia algumas dores e deixa a memória e a nostalgia como drogas de resgate de alguns desesperos e desventuras. Mas o que resolve é a atenção. Saber escutar o mundo e o outro. Saber observar. Deste grandíssimo evento - como o são todos os mundiais - fica-me aquele estrondoso jogo com a Espanha e a superação desse atleta excepcional. Mas comovi-me mais com a festa do Panamá no golo de resposta aos 6 de Inglaterra. Agora, como todos, quero sarar. E, como a maioria, espero outras coisas. Bem maior do que esse Espanha Portugal foi a promoção desse outro Portugal, o que joga voleibol, à elite mundial. Lá também temos este Ronaldo da foto, que se chama Alexandre Ferreira. Ganha pouco dinheiro e joga longe de casa, na Coreia. Para o ano, pode até acontecer que Portugal perca todos os jogos na elite. Não serão menos do que os que hoje perderam em Sochi. A adormecer, aqui no quarto ao lado, tenho o meu herói máximo, um que fiz e que agora voa sozinho. Trabalha todos os dias muitas horas, ele e mais uma dúzia, para honrar as quinas num Europeu inédito que se joga a partir de 14 de Julho. Ainda estudam, todos estes heróis estudam, sem qualquer apoio.
Não ganham nada a representar o país, a não ser honra e ventura. Às vezes glória. A tal que voltará às quinas mais uma ou duas vezes neste século e não é grave que não tenha sido hoje. E todos vocês terão o vosso verão e as vossas glórias mais íntimas, uma doença superada, uma notícia boa. Isso sim, é importante. Isso e este abraço que vos deixo. Ser português é maravilhoso.


@pedroguilhermemoreira 2018

Adenda: recordo também o texto com que abri a reflexão sobre estas quase três semanas de Mundial da Rússia 2018, depois daquele estrondoso Espanha 3 Portugal 3:

New York Times. Para ler. Eu não sou o mais entendido dos adeptos e o meu desporto é o voleibol, mas ontem, à medida que as horas passavam, eu (e creio que todos) percebi que tinha acabado de assistir a um momento que ficará na eternidade, mesmo que Portugal não vá longe no Mundial da Rússia. E não é só por Cristiano, que conseguiu pôr um jornal argentino (argentino, cuidem bem) a escrever "a única dúvida é se ele é o melhor de sempre". A nível caseiro já não pode haver essa dúvida. Quanto ao jogo de ontem, eu tive a sorte de não deixar escapar aquele que, para mim, é o artigo perfeito sobre um momento de excepção, a prosa sublime e a atenção ao detalhe de Rory Smith para o New York Times, que escreve também um artigo para a eternidade. Ele diz que a FIFA, se não corresse o risco de perder muito dinheiro, devia fechar já o Mundial e eleger este Portugal 3 Espanha 3 como a final perfeita. E repartir o título pelos dois, digo eu. Uma final que ainda pode acontecer, e Portugal até pode jogar melhor do que hoje e ser campeão do mundo, mas duvido que o jogo e o espectáculo sejam melhores. E a minha cabecinha de português sofredor até estava satisfeita, mas lembrei os falhanços do Guedes, o quase-golo do Quaresma, com os espanhóis a fazerem o que nós devíamos ter feito ao Diego e ao Nacho, ou seja, a serem o camião à frente da baliza, e teríamos ganho. Mas o Rory Smith, que reparou nesse momento do Quaresma, foi à essência do jogo, qual Ortega y Gasset, que considerava o desporto a forma superior da existência humana (e eu envelheço a concordar, cada vez mais, com ele), mostrando também que fazem falta bons escritores e sensibilidades apuradas e multiculturais no desporto. Não esquecer a piada do The Guardian, que diz que Ronaldo devia doar o cérebro a um Museu da Fifa para se poder observar uma força mental do outro mundo. Mas Rory Smith foi ao detalhe de reparar na inteligência da economia e na arte do astro de 33 anos, o que menos correu na equipa portuguesa a seguir a Fonte. Fala dos adeptos espanhóis que ficaram a aplaudir Ronaldo já depois de a equipa de Espanha ter saído. Fala da beleza única do espectáculo entre equipas que podiam estar fragilizadas, e afinal mostraram brilho, Espanha pela saída de Lopetegui, Portugal pelo acordo fiscal do Ronaldo e pelo drama do Sporting e da usurpação da dignidade e excelência desportivas por um bando de arruaceiros. Rory Smith transforma um mero jogo de futebol naquilo que realmente foi: um momento superior de arte. Que mesmo os comentadores tacanhos sentiram, mas dificilmente nomearão como Rory. E, sem superlativos exagerados, pobres dos que perderam a noite de ontem levando-a à conta de voragem cultural do futebol. Ontem não. Ontem não foi isso. Foi Ortega y Gasset. E ninguém se pode lamentar. Nunca se lamenta o sublime e a beleza. A não ser quando somos egocêntricos feios. Mas isso nós, portugueses e espanhóis, apesar das aparências e dos buços, não somos. Foi uma lição ibérica para a eternidade. E a certeza do melhor de sempre. Kant, disse Adorno, postulou a imortalidade para fugir do desespero. Ortega y Gasset disse melhor ainda: 
"bien sé que a la hora presente me hallo solo entre mis contemporáneos para afirmar que la forma superior de la existencia humana es el deport"

@pedroguilhermemoreira 2018

2018-06-04

Era uma vez a Marta Massada: ícone do tempo absoluto

Começo com uma história da Marta Massada o combate que pretende contribuir para elevar a forma como como o nosso país encara a Alta Competição (que agora se chama Alto Rendimento) e a dupla ou tripla excelência (no desporto e no ensino e até na profissão, como a Marta). E é bom começar por este facto: temos leis piores do que no "tempo" da Marta (o tempo de selecção, porque este ainda é, e será, o tempo da Marta e dos que são como a Marta), quase nunca aplicadas nas universidades, e o país não apoia nem protege os seus melhores atletas e estudantes. O esforço é das federações, dos próprios atletas, dos pais, dos amigos, dos treinadores, dos colegas. Não de Portugal. Mas Portugal pode, se a política mais nobre (onde quer que ela esteja) quiser, mudar isso. Pode estudar modelos de sucesso, como o americano, e importá-los, para que, um dia, ser campeão europeu e mundial não sejam acasos de sorte, nem uma medalha olímpica seja a excepção à regra.

Escolhi a Marta porque ela congrega em si o anti-cliché: é hoje, na prática, uma das ortopedistas desportivas mais conceituadas. Termina conferências citando Mandela sobre a superação e sobre a forma como o desporto nos pode dar um mundo melhor. Fez o curso de medicina em seis anos sem uma média alta, precisamente porque queria o instrumento que o diploma é, não o prestígio académico vazio, mas chegou à excelência com muito trabalho e paixão. Defende que mais valia ter parado o curso e aproveitado oportunidades de se prolongar profissionalmente no voleibol, mas já voltou várias vezes a jogar e não impõe a si própria um prazo de validade. Na sua carreira, foi quase sempre vice-campeã, tendo perdido de forma dura várias finais: no entanto, não é como vice que a vemos, mas como o ícone de uma campeã absoluta. E isto é também um bom motivo de reflexão: o que é um (verdadeiro) campeão. Quer ter voleibol a correr nas veias até morrer. Tem uma carreira internacional a nível de clube e selecção como poucas. É, pois, também, o ícone asoluto da dupla excelência sem clichés: no desporto e na medicina. o ícone do tempo absoluto e não relativizado.

Estou a levantar histórias que relacionem a alta competição e a escola ou universidade. Duvido que conte alguma história que seja um exemplo positivo de como Portugal faz alguma coisa pelos seus atletas, até porque todos eles, habituados à ausência do país na sua excelência, não perguntam o que pode o país fazer por eles, apenas o que podem fazer pelo seu país. Como a Marta, que congrega em si todas as virtudes pessoais e desportivas: paixão, empenho trabalho, dupla e tripla excelência.

Era uma vez, então.

Era uma vez a Marta Massada, estudante de medicina e filha de outra glória do desporto nacional e da medicina, o andebolista Leandro Massada.
Marta está em estágio prolongado pela selecção nacional de voleibol, como ainda hoje acontece (por vezes, dois meses longe de casa e da faculdade e da vida normal, em concentração competitiva absoluta, como tem de ser entre os campeões).
Empenhada levar o curso de Medicina sem atrasos e em não deixar cadeiras para a época especial, pede ao seus seleccionador e treinador da altura uma licença especial para poder ausentar-se o estágio e ir fazer um exame à faculdade. 
Disciplina-se e estuda em pleno estágio, ou seja, o duplo sacrifício, mas que ela, disciplinada, assume.
Chega à faculdade e, ao entrar na sala, o professor, alto e em bom som, à frente de toda a gente, profere a sentença:

"A senhora tem de se decidir: ou o desporto ou a Medicina!"

E fecha-lhe a porta da sala de exame, deixando a Marta de fora e impedindo-a de fazer o exame.

Podemos pensar que é uma excepção no país que temos.
Não é. É a regra. E por isso simbólica.

A Marta é o nosso (primeiro) ícone.

(continua, com mais histórias - até à dupla ou tripla excelência)

PG-M 2018

2018-05-30

Estamos todos surdos (e inúteis), excepto para nós

Tudo o que eu escrevo ou digo serve para nada e tem uma importância nula. Não quero com isto dizer que a literatura é inútil. Que a poesia não serve para nada. 

Não quero dizer, também, que não possa haver prazer ou desgosto na sequência imediata da leitura do que escrevo ou na audição do que digo. Eventualmente até posso ser citado de raspão uns dias à frente. Ou seja, não me estou a desvalorizar ou menorizar. Sempre tive alguma consideração por mim próprio. Caso contrário, cultivando, como cultivo, a humildade, mais ainda do que a bondade na arte (cultivo, não defendo que seja imprescindível para ser bem feita: claro que não é!) já me tinha calado há muito, sem precisar de estar morto.

A minha percepção recente é diferente. Sempre vivi na convicção (profunda) de que nada do que fazemos pode ser correctamente avaliado à luz da contemporaneidade. Ou seja, no nosso tempo de vida. Portanto, os meus livros, os meus poemas, as minhas crónicas, só terão valor se resistirem ao tempo. Não que o tempo encerre em si o mérito. Já tenho falado de muitos artistas, escritores, pintores, músicos, que, não sendo devidamente comunicados, são punidos pelo tempo. Todos os dias se descobrem "novas" velharias desconhecidas. Falo do tempo absoluto: se essas "novas" velharias são publicadas, em vez escondidas para sempre, é porque resistiram ao tempo.

Mas hoje falo-vos de outra coisa: da auto-suficiência do ser humano. As pessoas, hoje, vivem rodeadas de si próprias como nunca. Porque as redes sociais nos ensinaram a fabricar uma versão simplificada de nós próprios que não serve apenas para alimentar os outros, mas a nós próprios. O tempo e a oportunidade para ouvir e observar os outros em profundidade (reparem: em profundidade), para reflectir e pensar, ou não existe, ou não é usado quando existe.

E o que nos deslumbra, mesmo que seja um barulho maior, mesmo que não seja abafado, será rapidamente esquecido no meio do ruído. Dos ruídos, tantos ruídos. E as pessoas voltam cada vez menos atrás e para dentro.

Começo a formar uma certeza: a de que, embora seja culpa nossa não ouvir, o mundo nos tem deixado poucas alternativas. Abandonar as redes sociais e todas as formas de ruído em excesso pode ser uma solução, mas é uma solução egoísta. Já pensei nisso muitas vezes. Preciso de ir embora, não por auto-piedade ou sentido de drama, mas para reconquistar o silêncio. Observo calado o movimento das minhas redes sociais e percebo que ir embora seria abdicar de ferramentas de trabalho essenciais e deixar de "ver" muita gente que gosto de ver e até é minha amiga.

Mas sabem a consequência desse ruído? Por mais que importe o que dizemos, rapidamente fica soterrado e esquecido. E até podemos servir a alguém, mas não chegará para que o nosso pensamento sobreviva. Deixá-lo escrito? Talvez. É um tiro no escuro, mas talvez seja a nossa obrigação. Mas ter de o escrever todos os dias ou regularmente em tempo recorde? Não. Os canais mediáticos não estão tomados pelo mérito, mas pela habilidade, pelo amiguismo, pelos lobbies, pelos interesses, pelas audiências. Na verdade, é sinal dos tempos. A qualidade é, por regra, financeiramente deficitária, porque pouco imediata. Portanto, mesmo que sintamos que temos coisas importantes para dizer, ou que tentemos comunicar com a maior humildade  por sentido de dever, não seremos ouvidos senão nas margens.

Lentamente, depois de anos de grande entusiasmo, quase onanismo, na comunicação e no vício da comunicação e do contacto e do conhecimento, percebo que é inútil comunicar no tempo, na contemporaneidade. Eu estive nos primórdios da internet e aprendi quase todas as lições. Acompanhei os novos tempos, cometi erros, fiz experiências, fiquei deslumbrado e achei que deslumbrava. Não.

Claro que não. Com excepções que confirmam a regra, se deixas de comunicar e publicar posts, sejas tu quem fores, serás esquecido, não porque não gostem de ti ou não te achem importante, mas porque cada indivíduo se alimenta o suficiente de si próprio para nunca morrer à fome. E, como está saciado, não vai ter energia suficiente - nem necessidade - para procurar o outro.

Se deixarmos de escrever ninguém nos vem procurar. Quase ninguém. Os que vêm serão sempre excepções a esta regra da autofagia. Ou amigos. E, embora os amigos devam ser, pela natureza da própria amizade e do investimento que ela exige, poucos, não podem ser a bitola social. Nem um indivíduo avaliado pelos amigos que tem. Houve muitas sumidades na história da humanidade que morreram sozinhas ou ostracizadas. A popularidade e a roda de amigos não podem ser bitolas: aliás, até podem ser fatais, porque são apenas mais uma ilusão, talvez a mais perigosa de todas. E todos nós vamos ganhando essa consciência, quando em rede. E então não nos voltamos para trás nem para o outro. Consumimo-nos e protegemo-nos a nós próprios.

Daí que o que mais me acontece hoje em dia é achar que não vale a pena dar opinião. Ou fazer reflexões, de fundo ou não.

Todo o mundo está a dá-las e a fazê-las e não há espaço para que nos ouçamos todos, até porque nos ouvimos demasiado a nós próprios. 

Lentamente, deixarei de escrever crónicas e pequenas opiniões. Creio que ficarei limitado aos grandes projectos.

Cada vez a minha vida tem mais silêncio, e cada vez dou mais silêncio aos outros.
Não creio estar a fazer mal. É isso que quero.
E já não é só na rede social, é na vida em carne.

Muito tem mudado em mim. Ouço mais os outros. Dou mais importância aos outros. Pratico aquilo que nos pode fazer diferentes da maioria: ficarmos felizes por eles, não sentirmos inveja ou pena de não estarmos a ser vistos ou iludidos pela falsa grandeza. Perante o sucesso, fico curioso, fico sempre a pensar como as pessoas lá chegaram. Raras vezes é pelo mérito puro. Fico mais feliz quando é pelo mérito puro. Fico intrigado quando não é e tento perceber o mecanismo. Já tentei reproduzir algumas vezes esses mecanismos. Nunca tive sucesso. Mas isto não é inveja. Por isso me irrito com os que são invejosos por natureza, mas até isso vou compreendendo cada vez melhor. Porque são a grande maioria. E o que vou eu fazer com a grande maioria? Deixar de contar com ela? Ostracizar a maioria? Virar eremita? Nunca. Recolhimento e busca de lucidez não são isso.

Na verdade, mostramo-nos tanto e tanta coisa que já nem sabemos bem distinguir o que é grandeza, o que é importante.

Levo mais e mais menos a mal. 
Mas o cronista e o comunicador vai descrente. Restam as obras, porque a obra, no singular, é uma consequência no tempo.

No imediato, como não sou pintor, sobra a imagem. Gosto da fotografia e tento atingir a excelência com meios amadores ou algumas lentes prime com mais de 40 anos. Foco manualmente. A vida também.

Quanto à escrita do imediato, mesmo neste texto de comunicação de desmame, tenho pouca fé. Tenho alguma fé nas marcas da imagem, do cheiro e de uma certa fé não exclusivamente religiosa.

Sempre escrevi a partir do outro, porque nisto acredito: que cada indivíduo é um universo, um pomo de elevação, se se despojar o mais possível de si próprio. 

Estamos todos surdos (e inúteis), exceptos para nós.

PG-M 2018

2018-04-10

Oh, desventura (3.0) !!!

Uma destas noites estava eu reclinado no sofá grande a ler, como estou tantas vezes. Contrafeito, como estou tantas vezes. O meu corpo é pesado. Dez minutos depois de cada posição, dói-me a parte que suporta mais peso (não sejam malandros com a palavra "posição": dez minutos no sexo já é um poema épico). Nunca dei a mim próprio um cadeirão decente, que me proteja e onde possa adormecer sem estar contrafeito. Mesmo no Ikea são caros. Mas também nunca procurei, rendendo-me à evidência: leio há quarenta anos e quero ler até morrer. Não quero sofrer tanto. E ainda vejo bem ao perto. Tinha tirado o som á televisão. Não gosto de ver televisão, mas gosto de me desligar dela com ela ligada, seja para ler, seja para adormecer, e principalmente para adormecer a ler. Alguém lá em casa tinha deixado no canal de um reality show e parece que ao sábado à noite é dia de eles verem um filme na sala da casa onde são metidos como ratos - há dezoito anos, quando estes programas começaram, nenhum concorrente ou espectador podia, verdadeiramente, medir as consequências de uma experiência destas. Hoje, os ratos têm consciência de que são ratos. Onde talvez falhe a consciência, neles, nos espectadores fiéis e nos detractores, é que nós, membros desta magnífica e venturosa raça, qualquer que seja o nosso nível cultural ou intelectual, seremos sempre previsíveis na ratoeira e na rodinha infinita. Já não é tempo de discutir se devemos, ostentanto a nossa superioridade intelectual, apoucar quem participa e quem vê, quem tem contas em redes sociais e quem não tem, quem consome futebol e apostas e não lê nem vai ao cinema, mas conduz a nossa economia e, consequentemente, o nosso mundo.

O mundo está sempre a mudar, mas esse mundo, o previsível mundo dos tipos sociais virtuais e/ou televisivos de massas, está mesmo a mudar. As redes sociais estão a chegar aos mais baixos estratos sociais e intelectuais, pressionados por nós, os mais altos. Mas o mundo já sabe que as pessoas não se escalonam em altos e baixos estratos sociais e intelectuais. Já sabe que a violência doméstica chega primeiro onde chegou o pedestal: a mulher feita deusa cairá dele perante o violentador, claro, porque o que fundamenta a sua violência é o seu próprio ego desequilibrado. Os mais doentes, social e mentalmente, são tão mais violentos quanto mais conhecimento têm. Não é a formação que gera a violência, mas a incapacidade de se comandar a si próprio quando ninguém vigia, quando a porta da célula familiar se fecha e ninguém pode avaliar as nossas atitudes. Quando voltamos a ser, simplesmente, animais no nosso limitado ecossistema. Ratos. Ratinhos. E, espanto, às vezes somos assim atrás de uma porta fechada, mesmo que estejamos a ser filmados por trinta câmaras e transmitidos em directo para o mundo inteiro.

Num curto espaço de dias, ouvi dois génios dizer exactamente a mesma coisa. O maior, Miguel Esteves Cardoso, no notável "Fugiram de Casa dos seus Pais", e o Ricky Gervvais, no seu novo espectáculo de stand-up, Humanity. Já devem saber que ando a vigiar o stand-up tanto quanto leio livros. Depois explico - noutro fórum, talvez, ou procurem aqui o que escrevi sobre o terceiro génio, que é o primeiro, Jim Carrey. Pois disseram eles algo como isto: inaugurado o poder popular de fazer e divulgar opinião de forma livre e com grande divulgação e de forma quase totalmente democrática (não soubéssemos já todos - mais ou menos - como funcionam os algoritmos das redes sociais), todos estão sempre a dar opinião e a protestar. Este é o nosso tempo. Um tipo chega a uma praça de uma grande cidade e põe-se a gritar com os placards publicitários, como se os placards publicitários quisessem saber. Somos assim nas redes sociais. E não é este tempo que eu digo que está a mudar. Este ainda vai durar mais uns anos, porque os mais megalómanos - e são muitos - não vão escolher abdicar desse poder nem perceber que, as mais das vezes, são usados pelo algoritmo,  e não o contrário.

O que está a mudar é a consciência.
A consciência que temos, dos dez ou onze anos aos cento e tais, de que somos usados, de que o nosso tempo é usado, de que perdemos o controlo sobre isso mais vezes do que gostaríamos, e que, quase sempre, não somos capazes de combater pelo mundo que sonhamos (o que é diferente de combater pelos nossos sonhos individuais - o mundo nunca esteve tão apto a cumprir sonhos individuais).

Na verdade, nos tantos eventos públicos em que estou presente, todos ou quase todos concordam com o essencial: é preciso mais atenção, concentração, colo, dedicação - uns aos outros e quaisquer que sejam as idades e os temas. Mas poucos lutam por isso.

Eu luto, e deixem-me que vos diga: tem sido tão amargo quanto sublime.
Como não é o indivíduo signatário que ando a cultivar, o risco e o eclipse do indivíduo que sou, de quando em vez, não me tira o sono. Incomoda muito, é  verdade, e às vezes incomoda muito tempo, mas durmo sempre bem e para o melhor lado. O combate não é pela aparência, mas pela essência. E nada pode ser deixado de fora. Sexo, literatura, arte, Direito, amor, ventura, desventura, oh, desventura (3.0) !!!!

Conservo, pois, a capacidade de levantar os olhos do livro para um reality show sem som e sentir algum espanto pela forma como as pessoas vêem um filme, seja na sala de casa, seja na sala escura do cinema. E somos todos iguais. Espanto pela imobilidade, pela passividade aparente, espanto por um momento de beleza, espanto por um sorriso, espanto pela serenidade, espanto pelos lábios, espanto pelo cheiro que se sente ou adivinha.

Oh, desventura (3.0) !!!!

@pguilhermemoreira 2018
fonte da foto

O princípio do Mundo em Sacavém e o Biblio-meretrício

Primeiro vem o meu prazer de forasteiro. Lisboetas casmurros para quem Sacavém é e será sempre subúrbio em contraste com sacavenenses orgulhosos e um engano: o gps (ou deveria armar-me em europeísta e passar a dizer galileu? ok, o galileu) enganou-se pela centésima vez e fez-me circular pela Sacavém velha. Eu já estava atrasado para a sessão matinal do 2º Encontro Nacional de Comunidades de Leitores (vou aqui omitir "associados a Bibliotecas Públicas", porque quero ir mais além nestas palavras). Na verdade, eu acabaria por conhecer a Sacavém velha a caminho do restaurante do historiador e investigador sacavenense Paulo Condesso, mas é curioso o olhar do Estrangeiro, e não é só desde Camus. Afinal, Sacavém é bonita. E para teimosos mostre-se a magnífica travessa da Oliveirinha, a primeira rua de Sacavém, diz-se.

Um encontro nacional de comunidades de leitores já era um sonho quando o Jorge Silva, Presidente da ímpar Comunidade de Leitores da Maia (onde decorreu, com retumbante sucesso, o 1º Encontro Nacional), me convidou para o 2º Encontro Nacional, apoiado pela Câmara de Loures, entre outras entidades. E eu já tinha decidido que o circuito de lançamentos do meu terceiro livro, saído em Setembro ("Saramaguíada", Poética, 2017) seria feito quase exclusivamente em comunidades de leitores e escolas. Tem sido assim, ainda sem excepções, que obviamente admito, aqui e ali, embora já esteja cansado do modelo - que considero esgotado - do lançamento em que se sentam três a uma mesa, publicador, apresentador e escritor, e falam do livro. Como escritores não nos contrataram para palhaços, mas, já que andamos por aí, como o Santana Lopes, porque não dar o corpo ao manifesto, descentrando-o do ego?

Disse em Sacavém e repito-o aqui: pode haver egos entre os leitores das comunidades, pode haver "personalidades" e pode haver "protagonistas". Pode haver. Mas eu é que não encontrei nenhum. Como raramente os encontro nas escolas. Já em festivais literários chovem egos. E são os mesmo trinta, sempre, com honrosas excepções. Como o meio literário português são umas vinte pessoas, nesses trinta dez convidados. Temos, neste momento, uma situação de monopólio no agenciamento, fruto do abnegado trabalho dos criadores da Booktailors, o que, como amantes de livros que são - e eu tenho muita consideração por alguns deles e, se tenho menos por outros, admiro a cultura literária de muitos - , que portanto estão a colher o frutos do seu trabalho, mas o tempo do monopólio dá-lhes uma especial responsabilidade de montar festivais com uma quota de não agenciados, responsabilidade social e literária essa que nem sempre é cumprida.

O que, para mim, é menos compreensível, é que a maior parte das publicadoras e dos escritores andem alheados da importância dos leitores e das comunidades de leitores. A maioria de nós valoriza as bibliotecas públicas (não sei é se pratica actos em função dessa valorização), mas não valoriza, como devia, os leitores e as comunidades de leitores, a quem devemos, praticamente, tudo.

Esse sábado, 24 de Março, entre o magnífico Museu de Cerâmica de Sacavém (de manhã) e a Biblioteca Municipal de Sacavém (pela tarde), as conversas foram materiais, tiveram substância. Não houve dispersão. Houve propostas concretas e comunicação, ainda que pudessem, e devessem, estar representadas muitas mais comunidades e bibliotecas (é preciso muita humildade e trabalho na comunicação prévia, é preciso ir ter com as pessoas de todas as formas e convencê-las; a ideia de que só vai quem quer e de que já se mandou mails para todo o lado, se fez cartazes e banners, etc, etc, e "agora seja o que deus quiser" é, a meu ver, errada; temos de estar perto dos leitores, temos de lhes dar atenção e de os mimar, temos de pensar mais neles e menos em nós, escritores, críticos e publicadoras) mas isso torna 
manifesta a falta de uma rede efectiva de comunidades de leitores e bibliotecas (com expressão no espaço
virtual ou rede global) onde seja fácil trocar experiências entre actuais e futuros leitores, entre leitores e escritores, entre leitores e publicadoras (porque não? esteve por lá a Porto Editora), haver transferência de títulos entre bibliotecas e fazer rolar a bola de neve da leitura, que não, não está a regredir, embora todos andemos a tentar perceber o modelo que se irá impor neste século XXI - podendo fazer reflexões e preparar terreno para o Livro no Século XXII. E tudo isto pode e deve ter apoio do Orçamento, assim haja propostas para o Participativo.

Deixo para o fim a comoção.
É violento, para mim, o contacto com esas entidades superiores que são os leitores que só pensam nos livros.
É verdade que qualquer bom escritor tem de ser um bom leitor, mas dificilmente o escritor deixa de ler por oficina e com a pureza e a liberdade de um leitor que não está preocupado em criar. Pode tentar, mas ficará para sempre poluído do momento em que leu por oficina pela primeira vez. Ora, as pessoas que cultivam os livros pelos livros, com aquele espanto e maravilhamento primordial, devem ser preservadas como espécie em extinção. E temos de arranjar um modelo para estes leitores em extinção frutificarem, terem crias, contaminarem outros.

Obrigado Jorge, Carlos, Maria, Rita, Anabela, Vera, Paulo, David, Sandra, Maria Helena, Paula, Luísa, companheiros João Tordo e Isabel (e marido), e muitos mais. Obrigado a todos.

Eu, que respeito a elegância e a classe, mas fui nado e criado no Porto, onde vivo, gostaria de cultivar aqui essa complexa deselegância tripeira, essa forma de ser broeiro, que reclama o direito ao calão e à ausência de filtros, dizendo sempre, e digo-o comovido e penhorado, a escolas e a comunidades de leitores, que sou um verdadeiro prostituto literário. 


Por isso, usem-me.
E usem os escritores todos que conseguirem.
Frutifiquem.

Prometo que aqui darei notícia, pelos anos fora, dessa "dura" vida de biblio-meretrício.

@pguilhermemoreira 2018

2018-03-09

Oscar - decadência certa e impossível

Nota prévia: como estes textos se referem aos óscares, prémios da Academia Americana de Artes e Espectáculos concedidos anualmente desde 1927/28, embora eles próprios considerem que a primeira cerimónia oficial foi a de 1929 (razão pela qual só este ano celebram os 90 anos), usarei sempre a forma inglesa do singular e plural nos títulos ou tags: oscar e oscars.

Esta não pode ser uma crónica anual de um fenómeno vivo porque eu declarei os óscares, como os conhecemos, mortos. Portanto, das duas uma, ou esta é uma crónica de um cadáver ou de um novo ser, recém-nascido, com outra forma (ok, ok, lá vem a piadinha deste ano: a forma da água).

Na verdade, noto desde o ano passado algo que me incomoda. Ainda assim, deixem-me ser claro logo a abrir: é impossível que os óscares morram. Estão decadentes, é certo, mas nunca morrerão. Têm é de mudar todos os anos de forma, ou tornam-se rapidamente um prémio sem prestígio e respeito. É que, mesmo que os cinéfilos digam todos os anos que o óscar é um prémio que cumpre uma determinada função de promoção e não premeia estritamente o mérito, na verdade ganhar um óscar ainda é uma coisa transcendente. Imaginem o que seria um português ganhar um óscar ou ser simplesmente nomeado. Mais: se tivessem feito justiça ao Manoel de Oliveira e o tivessem incluído no habitual In Memoriam, quando morreu, em 2015, teria sido notícia em todo o país. Não foi. A Academia apenas lhe fez uma menção online. Agora veja-se: se nem um cineasta europeu de 107 anos, profundamente respeitado pelos seus pares, e que até dava uma boa história à Academia, tem direito a um segundo numa cerimónia de quatro horas, quanto vale um óscar para qualquer vencedor e até para os países a que pertencem? Este ano, por exemplo, a Academia quis deixar claro que está ao lado do México e afrontou o muro do Senhor Trump consagrando um filme menor de Guillermo del Toro, a animação e a música de Coco, entre muitas outras subtilezas que fizeram deste o ano da "latinoamerica" em Hollywood.

Mas não é bem este descambar da arte para a política que me aborrece mais. Eu escrevi acima que estava incomodado desde o ano passado. Estou, é verdade. Devo dizer-vos que sou tão doente por óscares que, muito antes do advento da internet, e à falta de uma obra que condensasse todos os dados importantes da história dos óscares, eu ia para as bibliotecas reconstituir os nomeados e os vencedores através dos jornais antigos. Estamos a falar de um puto de 16 ou 17 anos. Portanto, doente. Olhei e li para trás, para o que não testemunhei directamente. Ou seja, tenho noção da história dos prémios da Academia. Aliás, quando os comecei a acompanhar, em 1985, não tinham passado muitos anos de óscares como espectáculo de entretenimento global. Passariam ainda outros tantos sem que as televisões e as rádios, com a excepção da TSF, no final dos anos 80, princípio dos 90, se interessassem em transmitir a cerimónia em directo. E para bons artigos de follow up, talvez só o Público e o Diário de Notícias e as magníficas edições vespertinas d' A Capital com as imagens dos vestidos na passadeira vermelha. Depois vieram os anos de transmissões em directo com comentadores ansiosos por se mostrarem, atropelando o espectáculo e abafando as piadas superiores do Billy Cristal, e, finalmente, as transmissões a cru, com nenhuma ou escassa intervenção de comentadores, de que este ano a Sic foi um mau exemplo, ao poluir a imagem de rodapés e ao interromper o Jimmy Kimmel aqui e ali. Mas a transmissão em si teve uma melhoria interessante (mas não o espectáculo): bastava qualquer premiado mencionar o mais anónimo familiar, a que agradecia, que, se ele estivesse no Kodak Theatre, aparecia na imagem. Isto exige muitos recuros e planeamento.

Então o que me incomoda?
Tudo para dizer que tenho noção da história dos óscares e não sou elitista ou alternativo (gosto muito do bom e velho filme americano e não rejeito um blockbuster) para dizer o que vos vou dizer:

que apenas o ano passado e este ano entraram nos nomeados obras e protagonistas sem merecimento.
O evento LaLaLand, no ano passado, foi inenarrável. Mas este ano voltamos a ter filmes fraquinhos, como The Post, nomeações imerecidas como a que deram a Meryl Streep, filmes falhados como o, afinal, grande vencedor, A Forma da Água, consagrações de filmes estrangeiros medianos (quando antes só víamos obras primas nos cinco nomeados) como o chileno que venceu, Uma Mulher Fantástica, com uma tentativa de promover uma actriz transexual que não pode ser colocada sequer a meio da tabela, Daniela Vega, só porque sim - e aqui foi o lobby que funcionou, porque a rapariga andava há semanas a passear-se nas festas de Hollywood, numa atitude profundamente contraditória com a propalada dignidade e igualdade de género.

E foram esquecidos filmes maiores, como Mudbound ou, no meu entender, The Florida Project, secundarizadas obras como The Square, Loveless e, principalmente, o húngaro On Body And Soul e a sua brilhante protagonista Alexandra Borbély.

Não entro sequer - ou entro pouco - na questão da insistência na Frances McDormand, mais do que consagrada e premiada naquele registo (ainda que seja uma excelente actriz) e a forma como se passa ao lado de uma actriz monstruosa (no melhor dos sentidos) como Margot Robbie - e não é de agora, ela anda por ali a dar respostas de excepção há anos. E a quem me fala da juventude da dita, eu aceno com o verdadeiro "crime" cometido em 2013 pela Academia ao atribuir um óscar de melhor actriz a uma miúda que nem é grande coisa e tem muito que aprender, a Jennifer Lawrence, e negá-lo à grande actriz francesa com um desempenho perfeito em Amour, Emmanuelle Riva, e que viria a morrer pouco tempo depois. Aliás, nunca poderia a miúda Jennifer ganhar pelo fraquito (mais um, o começo da tendência) Silver Linings Playbook. Eu até admitia o óscar por Joy ou American Hustle, mas ainda acho um exagero uma miúda a precisar de humildade  e cultivo de talento ter já 4 nomeações e um óscar (imerecido).

Portanto, está mal e está no caminho errado.
E não percebo, finalmente, a falta de imaginação para fazer uma cerimónia com rasgo. Ninguém imagina, ninguém escreve, ninguém planeia, ou é assim porque querem que seja e vamos-lá-despachar-isto e ter salários exponenciados a partir de segunda-feira.

Termino com uma colecção de textos sobre alguns filmes nomeados e não nomeados este ano, já que tenho escrito tão pouco no blogue. Até para o ano!

MARGOT ROBBIE
"Margot Robbie. Não sei, sinceramente não sei, como se pode comparar este desempenho ímpar com o desempenho par da provável vencedora do óscar, Frances McDormand. Actrizes excepcionais há algumas. Frances é uma, mas já foi premiada por este registo, em Fargo. Daí o par. Margot é outra e este devia ser o ano ímpar da Margot, miúda com dois palminhos de cara que nunca (ou ainda não) se deixou deslumbrar. É simplesmente incrível. Quanto ao filme, é muito, muito bom. Em tudo. E, a acreditar na tese do filme, e eu acredito, Tonya Harding é uma das maiores desportistas de sempre e, claramente, das mais injustiçadas. Uma palavra especial para um desempenho que nem sequer tem sido destacado e é assombroso. Quando forem ver o filme, reparem no gordinho que faz de Shawn, Paul Walter Hauser, e depois digam-me qualquer coisa. Margot, se ganhares, a gente, cá em casa, apanha uma piela. Depois de Halle Berry e Charlize Theron (por quem ninguém dava nada, ao tempo do óscar), é na Margot que ponho as minhas fichas há algum tempo. Mas eles acham que a Jennifer Lawrence, a medianinha, é que é. Pfff. Ah, óscar que não têm discussão é o de secundária, para Allison Janey. Oh ye."


 THE FLORIDA PROJECT
"Este filme vai directamente para o número 1 do meu top pessoal, porque é simplesmente assombroso por tantas razões que não cabem num post. Começo pela Bria Vinaite, a mãe, que nem actriz era e, provavelmente, faz o melhor papel do ano, a par da sua "filha" Moonie, a jovem actriz Brooklyn Prince, que tinha 5 anos quando foi escolhida, e que é simplesmente inacreditável. Curiosamente, Bria não era actriz, mas a jovem Brooklyn já tinha feito pequenos papéis. Com este ganhou o Critic's Choice Award, que não é para qualquer um. Portanto, os dois melhores papéis do ano no mesmo filme chegam para não o perder, não concordam? Mas há "pior" (melhor). A forma como Sean Baker filma não profissionais é uma lição. Curiosamente, vê-lo a seguir a 15:17 Comboio para Paris torna mais claro o disparate de Clint Eastwood e o génio de Sean Baker. E olhem que o colapso emocional da jovem Brooklyn não estava no argumento. O Sean até teve de gritar "corta" mais cedo e não fazer mais nenhum take, por se ter afligido com a forma como a menina incorporou a emoção. Se forem ver o filme, vão perceber de que cena falo. É uma experiência inesquecível, obviamente esquecida pela Academia, que apenas nomeia o (excelente) gerente de motel, Willem Dafoe, porque não podia premiar o amadorismo genial de Bria, que contudo revistas e jornais de referência já escolheram para capa. O corporativismo não chega para ensombrar ou assombrar este filme genial. Sean disse ao produtor, vendo o Instagram da desconhecida Bria, "não há Brias em Hollywood?". E se lhe escrevêssemos? Bria pensou que era brincadeira até ver que lhe pagaram o bilhete para a Florida e que Sean era um realizador a sério. Agora ninguém a vai largar. Espero que também vocês. Já a jovem Brooklyn Prince, sou sincero: ouvi e vi várias entrevistas da miúda. Não é por acaso que, não sendo sequer uma menina de anúncio ou a mais bonita de todas, ela domina todos os espaços em que aparece, mesmo perante adultos. É brilhante. Por doloroso que seja aceitar que isto é possível numa miúda de 7 anos, vão ver e percebem.
#thefloridaproject #briavinaite #brooklynprince #seanbaker #willemdafoe"

15:17h DESTINO PARIS
"Não fiquem desconsolados se estavam com a ideia de ir ver este filme porque gostaram do trailer, querem saber o que se passou e a ideia de ver protagonistas reais vos deixou curioso. Mas isso não é um filme. É, mais do que uma palhaçada que nem telefilme chega a ser, um crime. Um não, vários. Um crime da argumentista, por estragar uma boa história. Um crime para a credibilidade de um cineasta como Clint Eastwood, que certamente perdeu a lucidez, e, pior, um crime contra o mito dos heróis e a ilusão do cinema, porque saímos do filme a pensar que estes heróis foram apenas uns bananas sortudos. Eu puxo pela cabeça e pergunto porquê. Como é isto possível? Não, desta vez não o comparo com o LaLaLand que, sendo um filme inane, tinha ao menos aparência de filme. Isto não. Isto é uma coisa disforme que nos faz pensar como pessoas acima de todas as suspeitas fazem esta maldade aos seus fãs. Nepotismo? Senilidade? Só pode. Mas não fiquem desconsolados. Vão ver. Só vendo se acredita. É que até um mau filme é melhor do que esta coisa. E olhem que não há aqui nenhuma subjectividade na apreciação. Vão por mim, ahah."


VISAGES, VILLAGES
"Agnés Varda. Faz 90 anos em Maio. Dá-nos, com o fotógrafo JR, um filme tão belo, tão belo, que eu já nem sei o que vos diga. Fora os logros do costume, que grande ano de cinema. 90 anos, hein? É a emoção na cara das pessoas. Visages Villages está nomeado para o óscar do melhor documentário. Devia ganhar. Era tão bonito que ganhasse. E fez-me decidir que tenho uma urgência. Ir para perto das pessoas que habitam uma região onde tenho parte das minhas raízes, a Normandia. Agnés, mulher de Jacques Demy e amiga chegada de Gordard, que ela vai visitar neste filme (sim, Godard ainda é vivo) é aquela cineasta brilhante com olhos e curiosidade de menina que já tem um lugar enorme na história do cinema. Estou com muita vontade de a ver na passadeira vermelha de Los Angeles no dia 4 de Março. Espero que possa ir. E,se subisse ao palco do Kodak Theatre, então é que era. Não percam, por favor."

ON BODY AND SOUL
"Depois de, finalmente, ter visto Corpo e Alma, Urso de Ouro em Berlim, filme húngaro candidato a melhor filme estrangeiro, que devia e podia estar candiato ao óscar absoluto; depois de me ter rendido a Alexandra Borbély, que devia e podia ser candidata ao óscar de melhor actriz, por ser um papel que ficará nas nossas almas e na história do cinema, tenho de afirmar peremptoriamente que Corpo e Alma pode ser o mais incontornável filme, não só de 2017, mas da década, até ver. No entanto, vou escalonar o meu pódio pessoal de 2017 da seguinte forma: 3. As estrelas de Hollywood não morrem em Liverpool 2. Corpo e Alma 1. Mudbound. E há dois LaLaLand em 2017 nomeados para melhor filme: o fraquinho The Post e o sobrevalorizado The shape of Water. Este é o tempo dos logros absolutos nos óscares. Não foi sempre assim. Mas enquanto houver Mudbound e Corpo e Alma estamos salvos."


AS ESTRELAS NÃO MORREM EM LIVERPOOL
"Anette Bening no papel da sua vida, esquecida por quase todos e agora o desabafo. Só me falta ver a (minha favorita) Margot Robbie no I, Tonya. Mas já posso dizer que, para mim, não faz sentido premiar a Frances McDormand por mais do mesmo. Ela é uma actriz genial, já sabemos. Premeiem-na num ano em que não haja tantas a merecerem mais, mesmo as esquecidas. Este "As estrelas não morrem em Liverpool" tem um ou dois momentos para os anais. É um filme belíssimo e verdadeiro. E a Anette Bening, actriz que nunca teve os meus favores, está finalmente magistral. A diva Gloria Grahame, que ela representa, bem o merecia. Que bonita vida madura ela teve. E a Margot Robbie vai arrasar onde a Frances cumpre. Este filme da Anette quase beija os pés do Mudbound, mas ainda assim é muito melhor do que os "Três cartazes...", que já é muito bom. Escrever um livro destes e fazer um filme destes é de uma grande coragem. E, não fosse a minha relação séria com a "rainha" Claire Foy (pelo desempenho numa série que nem sigo linearmente), ponderava o meu primeiro casamento com a Anette. Mas, vá, beijemos-lhe os pés de dupla diva, respeitemos a vez na lista da Margot Robbie (em espera há muito, eheh, tem é de voltar a engordar) e rezemos (eu vou rezar) para que a Academia ganhe juízo. Ps: Já agora, este é o primeiro ano em que a Meryll Streep não merece mesmo."

KEDI
"Eu acho - mas isso sou eu - que o filme dos gatos em Istambul é uma obra-prima. Eu, que nem simpatizava muito com uma ou com os outros, fiquei fascinado com aquela e reverencial para com estes. Gosto muito do som da língua turca há muito. De algum modo, além da sabedoria daquele povo (onde a única nota negativa - visível no filme, quando a jovem pintora diz que os turcos usam os gatos como o feminino e esquecem e não o permitem à própria mulher - talvez seja a menoridade das mulheres, mesmo das maiores), o filme mudou a minha perspectiva de vida, e isso é muito importante. Ainda hoje, quando um gato tomou a decisão de atravessar a estrada no momento do encandeamento pelas luzes do meu carro, eu pensei naquela frase magnífica: "Os gatos têm a percepção de deus, os cães acham que nós somos deus". Este gato conseguiu refrear os instintos e adiar a decisão e, portanto, não ser atropelado. Pela primeira vez fiquei a olhar para ele e achei o bicho lúcido :) - Grande obra de Ceyda Torun, que filma os gatos de uma forma perfeita - com muito cinema dentro. Kedi."

MUDBOUND
"Surpresa, surpresa, esse enooooooorme filme que é Mudbound. O melhor do ano, sem qualquer dúvida. Inesperado, porque ninguém fala dele. Quando o vi, foi quase por favor. Que texto, que imagem, que música, que actos. E só nomearam a Mary J Blige, mas podiam dar-lhe o óscar, em nome de todos. Não vão dar, mas que safanão. Que narrações sublimes. Que cadência. Oh, deixem-me chegar a este tempo e a esta escrita. Uf."

LOVELESS
"Volto a Mudbound, para mim o melhor filme de 2017. Quando escrevi esta sentença, não usei o "para mim". Parece-me óbvio, contudo, que o indivíduo apaixonado que usa amiúde superlativos sobre objectos artísticos ou literários, o faz sempre para si e para os que confiam nos seus pontos de vista e sentimentos. A minha amiga Raquel Pinheiro, que vê quase todos os filmes em pequeno formato, apressou-se a replicar que o melhor filme do ano era Loveless. Eu esperei para o ver, e vi-o no grande ecrã. Para mim, lá está, são objectos cinematográficos incomparáveis. Loveless é essencialmente cinema e fotografia. Excelente cinema e excelente fotografia. Não temos actores nem texto acima da média. Não temos narração. Mas é um retrato incrível dos nossos tempos, afinal tão longe e tão perto. Imperdível, claro. Mas quem me conhece sabe que não resisto - e me arrebato facilmente- a filmes que, além de tudo o que Loveless tem de excelente, também têm literatura, narração e actores ou desempenhos de mão cheia. E é isso que Mudbound tem que Loveless não tem. E ainda tem silêncio, como Loveless. E sombra, como Loveless, ou o mundo em castanho, como Loveless o tem em azul-noite-neve ou cinzento. Ambos nos deixam sair do cinema em apneia, mas a apneia de Loveless é respirável e a de Mudbound não. Gostava era de vos ver no cinema, o quanto antes, porque, ainda que ambas as formas de apreender a sétima arte sejam legítimas, a Raquel em pequeno formato e a minha em grande, eu acho que é apenas bom senso ser contemporâneo destas obras e vê-las no grande formato enquanto estão no nosso tempo, pois no pequeno poderão ser vistas em qualquer altura. Ver o desempenho da Mary J. Blige em pequeno formato é não ser cercado por ela. Portanto, sejam cercados pelo Mudbound e pelo Loveless no grande ecrã e digam qual é melhor. Eu não tenho dúvidas. Para mim, Mudbound é cinema e ainda tem um livro e várias peças dentro, e Loveless é cinema, sim, não o resto. E Mudbound é o melhor filme de 2017 de longe. Inesperadamente, como vos disse."

@pguilhermemoreira
2018