
É importante escrever isto na tensão crescente do Magnólia, a passar às 2:49h do dia 20 de Setembro de 2009 na Dois, ainda só está a chover torrencialmente, água, ainda só está a chover água, o miúdo do concurso acaba de fugir, a edição está intensa, revisitamos todos os que desfilaram até aqui, depressa, cada vez mais depressa, ainda só água
o Miguel Sousa Tavares atacou as redes sociais que medram na internet e de que muitos de nós fazemos parte, disse que era o grande mal da humanidade, e eu já reflectindo sobre o mundo mudando pela rede global há quase quinze anos, estive lá, sim, fui praticamente pioneiro, e sei que o Miguel disse isso porque se esqueceu de que há pessoas tão ou mais inteligentes do que ele que se sentem tapadas pela vacuidade da televisão, agora até dos jornais e da rádio, e afinal podem colher o mundo através dos seus pares nestes "lugares", o Miguel disse isso porque se esqueceu de que há pessoas tão ou menos inteligentes do que ele que se servem disto para combater a solidão, para não ficarem expostas às suas cabeças, aqui tenho testemunhas, pensam, aqui faço testes que me dizem o que sou e para onde vou, aqui sou ridícula, sim, mas não mais do que lá fora, onde o silêncio me persegue como uma sombra.
Procuramos quem se importe connosco.
O Miguel tem razão.
Os nosso "amigos" estão lá, e a maioria não se importa verdadeiramente.
Ego, Eu, importo-me, sim, e sou resto apenas com quem também se importa.
Leio livros, cada vez mais livros, onde pelo menos o autor se importa consigo próprio.
Faço mal?
Serão os livros, esses objectos indecentes que isolam as pessoas em momentos, longos momentos, infinitos momentos que excluem absolutamente todos os outros, serão os livros o grande mal da humanidade há centenas de anos? Com livros alguém te toca? Alguém te olha, se não interromper a leitura? O narcisismo de se aculturar?
Os livros que o Miguel vendeu na casa milhão a gente que passou o tempo sem tocar ou olhar o próximo?
E o Miguel, quererá realmente tocar e olhar alguém para lá do pequeno quarto do seu ego e do anexo dos que ama e do outro anexo dos que o amam?
Ainda chove só água.
A música de fundo parou, mas nós sentimos o desenlace próximo na coreografia dos corpos e no tom da luz.
Eu escrevo.
Nenhum editor se interessará verdadeiramente algum dia se escrevo bem ou mal, se escrevo singular ou plural.
Pensará apenas, no limite, este gajo é bom, mas como é que o vou vender, ou este gajo não vale muito mas pode render-me uns cobres?
Os editores pensam, as pessoas pensam...
(um momento...a música...a música é poderosa...os personagens do filme cantam sucessivamente o "Wise Up", da Aimee Mann, tremendo momento, tremenda esta nossa vida, ainda só chove água...diz a Aimee, em tradução livre, "a dor não vai parar até despertares...por isso, desiste!". Give up. Supostamente não vamos despertar. Depende de quem? Depende de quem, despertar?)
A chuva parou.
Dizia que os editores pensam, as pessoas pensam, que há escritores curiosos, que há alguns livros obras-primas, gostam muito deste ou daquele escritor, há miúdos e miúdas que escrevem e ainda por cima são bonitos, ousados, mas ninguém se atreve a dizer que esperamos novos Prousts, Tostöis, Dostoievskis, Kafkas, afinal agora tudo é passageiro, grandes escritores, grandes livros, breves escritores, breves livros, reeditemos Thomas Mann, mas o "Morte em Veneza" é uma obra prima?, de certeza?, "A Montanha Mágica" ainda vá lá, mas o "Morte em Veneza", hoje??? Reeditemos bons e vendáveis livros, mas não leremos manuscritos de fôlego, e que ninguém se atreva a ter primeiras obras geniais, afinal os livros ficam seis meses nas livrarias e partem para os fundos, onde ficarão até serem queimados numa fogueira apolítica, não seria melhor a raiva, a paixão, a luta contra os ditadores para que a humanidade não adormecesse?
Claro que não.
Guardemos a liberdade.
Eu escrevo, e escrever livros é um pin engraçado para se pôr na lapela, é sensual, quase erótico, mas ninguém quer saber disso.
Há oportunidade e oportunismo, ninguém te dá colo, ninguém te pega, ninguém te paga,
ninguém se importa.
Dentro ou fora do Facebook, se sorris em demasia, se te importas em demasia, és louco, falta-te o equilíbrio essencial.
Fazes do teu blogue, do teu perfil, uma festa, mostras-te aos outros cheio de falsas luzes, com o corpo à sombra.
Ninguém se importa.
Ninguém se esforça por compreender.
Obama não contaminou o mundo com Yes, we care, mas com Yes, We can.
Poder. Importa Poder.
Não o sofrimento, não a solidão, não a excelência, não a verdade.
O Poder.
Escreves no facebook para te aproximares do poder, e o poder despreza-te?
Não é assim tão complicado evoluir pela bitola da verdade, esperar aceitação, compreensão, reconhecimento, até gratidão. Não dá dinheiro, é verdade, mas é simples.
E no meio das palavras bonitas, dos vídeos embutidos, das músicas partilhadas, dos poemas, dos textos, dos links, tu sabes que procuras quem se importe, e vais evoluir pensando que podes abanar a árvore dos fundamentos e colher um, dois amigos, nenhum também é possível, mas é um ou dois.
E eu estou cá, Miguel, para ler palavras com coisas dentro, não calculadas em função das audiências ou do Poder, hoje toquei mulheres e crianças e velhos e livros, hoje olhei-os a todos, abracei alguns, vi quem soltasse a parede, é um sorriso, um justo sorriso, mas está vazio, o nosso Porto perdeu, e claro que sou mais por dentro, muito mais por dentro quando perco, e estou aqui sozinho mas sem solidão, sei que me surpreendo sempre feliz porque tenho pouco e não aspiro a mais do que ter um livro impresso com palavras lidas, não espezinhadas mas lidas, lidas devagar, digeridas, quero ter isso mas nunca a qualquer custo, claro, sei que a pobreza é meio caminho andado para a felicidade, sei porquê, estou cá cheio de abraços, beijos, olhares e toques, estou cá tentando ser decente para sempre, e nas décadas que já passaram sei bem que o estado do mundo não depende dos suportes tecnológicos ou do uso que as pessoas lhes dão, Miguel, se assim fosse, olha para os gregos e ainda tudo permanece, as Farpas ou a Queda do anjo e ainda tudo permanece,
a natureza humana não depende de nada disto, Miguel, começaram a chover os sapos no Magnólia, está na hora de encerrar aqui,
a (boa) natureza humana depende de enfrentares tudo e todos por dois ou três princípios simples, os meus são a liberdade e a bondade, são só dois afinal, junto a isto está tudo, porque se não abdicas da liberdade sabes temperar as fraquezas da bondade, mas o que estou eu a dizer, não há fraquezas na bondade, digo, sabes temperar a aparência de fraqueza da bondade, ser livre e bom exige-te perseverança,
mas no fim de tudo, tens de te importar, tens de perceber que se importam contigo.
Hoje um grande amigo vive o luto mais destruidor que a alma pode conceber, a morte de um filho, eu importo-me e não estou junto dele, ele usou o facebook para gritar a sua dor, pediu que ninguém lhe ligasse, os "amigos" desfiaram palavras de conforto que ele lerá mais tarde e que lhe exponenciarão e aquecerão as lágrimas, sim, e eu a este verdadeiro amigo disse-lhe muito pouco, toquei-o, abracei-o, mais nada, não sei já se o toquei no casaco, na pele ou em lado nenhum, nem sei se as palavras foram ditas entre o caixão pequenino do bebé e o fato preto, ou se, como ele certamente preferiria, as escrevi num papel que lhe pus num bolso, num email ou num mural.
No fim de tudo, tens apenas de te importar, tens de perceber que se importam contigo.
São agora 3:50h.
Acabou a obra prima do Paul Thomas Anderson.
Com a música "Save me", da Aimee Mann, claro.
Conheces?
Pedro Guilherme-Moreira
Créditos fotográficos: Reuters