2009-10-27

Praia Nocturna

Enquanto ainda me deixam usar o cê em nocturna, é urgente este aviso:

se entrares numa praia à noite, olha fixamente o vazio negro onde calculas que possa estar o resto da areia, e situa-te ouvindo o mar. Começa a caminhar, se possível a correr, pelo meio da praia. Agora volta a cara para o mar. Não vai demorar muito até que a visão se habitue, e as ondas se tornem prateadas, depois quase brancas, e o marulho uma espécie de canção dolente. Não esqueças o céu, que sem poluição luminosa e em noite boa tem mais estrelas do que todos os teus céus passados, nem o que fica para trás, cuja observação dá outro fulgor à tua progressão cega.

Na manhã seguinte, a praia de inverno que atravessaste de noite vai parecer outro lugar, nesse dia de maré cheia em que as ondas te vão empurrar para as dunas, que é a forma de o mar dizer que agora nada daquilo é teu, vais pensar que quem está certo são os físicos quânticos, quando ameaçam provar-te que o mesmo lugar são dois e a mesma pessoa muitas.

Até lá, ou lês Freud, ou fazes de conta, ou vais a uma praia nocturna.


Créditos fotográficos: não foi possível apurar, mas publicar-se-á mal se saiba o autor. Foto colhida neste site.

2009-10-25

3 livros, 3 opostos, 3 obras-primas sobre a condição humana

Sándor Márai, com "As Velas Ardem até ao fim", na brilhante tradução do húngaro de Mária Magdolna Demeter, reconciliou-me com a leitura da grande literatura, e fê-lo quando eu tive os pés na areia e o azul do mar no fundo do olhar durante os habituais quinze dias de férias de praia em Armação de Pêra, os tais em que eu entro em transe de escrita e estou particularmente disponível para ler os que são muito melhores do que eu.
Procuro, cada vez mais, o osso da página, a frase depurada percorrida por um suave, quase imperceptível, perfume de poesia.
"As Velas (...)" são só dois amigos e a condição humana. Tem uma violência aveludada.
Mas é tão violento quanto delicioso. Um obra-prima não absoluta. Um exemplo maior de ficção.

Chil Rajchman escreveu um caderno sofrido, sobre o qual sangrou todo o sofrimento acumulado.
Dir-se-ia que não tinha escrito um livro.
Mas à medida que avançamos na leitura de "Sou o Último Judeu" (Edição Teorema de Outubro de 2009, Tradução de Telma Costa), que relata a experiência de sete meses no campo de extermínio de Treblinka (eu ia dizer breve experiência, mas não teve nada de breve, tendo em conta que o autor quase nada comeu ou bebeu nesses sete meses, dormiu no chão, terá tomado meia-dúzia de banhos, sendo que o seu trabalho, das cinco da manhã às seis da tarde, era o mais sujo, física e psicologicamente, que é possível imaginar, cortar cabelo a mulheres nuas desesperadas, à entrada das câmaras de gás, transportar milhares de cadáveres e arrancar-lhes dentes de metal, permanentemente seviciado por chicotes e pancada dos guardas ucranianos e SS, enquanto ia vendo os seus colegas de "trabalho" ser indiscriminadamente mortos por tiros de pistola - bastava um momento de fraqueza -, e sendo obrigado a encarar com naturalidade que todos os dias aparecessem enforcados, no barracão onde mal dormia, pelo menos três - muitas vezes cinco, sete, dez - companheiros de infortúnio), o lugar onde ocorreu o maior massacre da história da humanidade - perto de um milhão de inocentes massacrados em apenas treze meses, o que dá uma média de 60.000 por mês, 2.000 por dia! Fica-se, pois, com uma ideia do que era preciso fazer para assassinar, não uma ou vinte, mas duas mil pessoas num dia, entre homens, mulheres e crianças. Uma média. Porque dias havia que eram mortas quinze mil pessoas em escassas horas e metros quadrados, e numa espécie de linha de produção tenebrosa. Como Rajchman, judeu polaco nascido em Lodz, e mais tarde cidadão uruguaio, apenas mais 56 pessoas sobreviveram. Este relato é uma obra-prima porque não se limita a relatar. Tem uma adejctivação mínima, uma secura tremenda, mas nunca abandona um estranho equilíbrio estético que nos esmaga. E é possível reconhecer aqui, provavelmente, da mais depurada literatura que alguma vez lemos. Obra-prima não absoluta, mas narrativa maior.

Finalmente, Primo Levi, "Se isto é um homem", muitíssimo bem traduzido por Simonetta Cabrita Neto, na versão que possuo há já alguns anos.
Pura luz, algo nunca visto por este vosso humilde servo até ao dia presente.
Escrito de forma sublime em 1945, uma ano depois da libertação dos campos de Auschwitz, nos quais se situa a acção, faz-se acompanhar de uma lucidez perturbante, de uma análise subtil, mesmo filosófica, do fenómeno do extermínio, dos limites da condição humana (uma vez mais). Páginas que nos respondem a muitos porquês que pensávamos retóricos.
Uma obra-prima absoluta.

Três livros de leitura imprescindível para quem quer dar passos adiante.
E por esta ordem de importância:
Se isto é um homem.
Sou o último Judeu.
As Velas ardem até ao fim.

Um garantia: serão pessoas diferentes, para melhor, depois da leitura destes livros, tal a marca indelével que nos deixam sobre a pele.

Mas é preciso coragem.


Crédito fotográficos: Wook

Frei Fernando Ventura e a Sabedoria

Para quem esteve distraído, por favor fixe este nome: Fernando Ventura, frade capuchinho, homem sábio. Para agnósticos, ateus, crentes, católicos praticantes ou nem por isso, ignorantes, diletantes, honestos ou desonestos intelectuais, para todos, com Saramago ou contra Saramago, não vão por mim. Vejam este inolvidável (muitas vezes inefável e tocante) momento de televisão. A sério, não vão por mim. Querem um "tease"? "Saramago tem razão, Deus não existe" ou "Podiam ter acusado Jesus de ser pedófilo."

2009-10-23

Poetic C.S.I. (on the beach)

Cada madrugada que me fica pelas costas, cada aguaceiro que passa, me aparece claro na alma o privilégio (não que tenho, mas) que conquisto quando calço as sapatilhas e visto o impermeável às oito e meia da manhã, e, sob qualquer temperatura ou fenómeno atmosférico, entro na praia para correr.

Corro há muitos anos e há muitos quilos, são por isso milhares de quilómetros sobre as dunas, nos passadiços de madeira de Gaia (Aguda, Miramar, Valadares, Madalena, Salgueiros, Lavadores), mas confesso que sempre o fiz por seguro de saúde, porque sei que, enquanto o faço, raras são as más disposições. Mas nunca tive grande prazer em correr.

Até agora.

Correr dentro da praia, na areia, em cima do mar, é toda uma outra experiência. E uma lição de humildade, para quem acha, em todos os campos da vida e do próprio conhecimento, que basta passar uma tangente às coisas para as conhecer. Pois eu passava ao largo, ali em cima, nas dunas, a vinte metros, e não tinha a mínima noção do que isto era.

Agora o entorno natural esmaga-me, ao ponto de não se sentir solidão, mas, pelo contrário, respeito e comunhão, pelo que todos os dias tiro os auscultadores dos ouvidos para deixar que o mar me ruja de peito aberto. Chamem-me louco, mas não raro abro os braços e eu próprio grito de prazer, como se voasse, o que, com as rajadas de norte nos dias bonsl, e com as tempestades anunciadas ou confirmadas nos dias maus, não é difícil (já não é novidade que do Outono à Primavera corro a cantar, e bem alto, porque ando quase sempre sozinho, e no Verão só modero o tom:).

Com as piores marés, nestes dias bravos de Outono, o mar cobre a praia de noite, chega a galgar as dunas, e estas praias são largas, amplas. Dificulta-me a corrida, mas deixa-me uma folha em branco que me permite perceber tudo o que se passou nas últimas horas.

Sei agora que os tractores da câmara só passam duas vezes por semana para limpar o lixo (no Verão andam sempre cá e lá, das oito da manhã às oito da noite), e deixam muito dele, que forma a linha que me diz até onde veio a maré. Às vezes assusto-me. Corro pior, porque a força do mar deixa a praia inclinada, enquanto no Verão as pessoas, os tractores e as marés pequenas, tornam a secção mais alta, junto às dunas, mais plana, mais fácil de cruzar.

Quase todos os dias, sei que sou o primeiro a passar nas praias, ainda vejo as minhas pegadas na volta, noutros dias percebo que alguém rasgou as areias bem cedo, sei quando é homem ou mulher, e agora também sigo as pegadas dos cães que batem quilómetros de praia à procura de comida, são sempre dois ou três, e passam por mim quase sempre no mesmo lugar. Deixam-me desconfortável estes bichos. As gaivotas e as pombas são muito mais destemidas nesta altura, não se afastam facilmente à minha passagem, como se considerassem que em dia de tempestade a praia é delas. Não temos de nos afastar para lado nenhum. Começo a perceber que entre as gaivotas há líderes com uma compleição assutadora, grandes, grandes, sempre as últimas a levantar vôo quando passo. As gaivotas mudam de sítio. As pombas fazem um círculo e voltam a pousar atrás de mim. O pescador que em Setembro está todos os dias no mesmo lugar, só vem uma a duas vezes por semana no Outono invernal. Os velhos que conferenciam ao cimo das escadas de uma praia, os velhos que jogam cartas sobre os bancos de outra, os velhos que se sentam reguardados sob um canavial, os velhos nem sempre vêm.

Nos passadiços anda sempre gente - só no Inverno se chega a ver ninguém -, e é bom, mas na praia só o que vos digo.

Andar dentro da praia fora do Verão é tão perturbante quanto gratificante. E ver como a natureza se impõe, como a natureza avança e reconquista os espaços que as pessoas lhe roubaram durante três meses, impressiona e faz-nos humildes e agradecidos por, ainda assim, termos consentimento. Há algo de primordial, difícil de explicar.

O mar estende-se com mais vigor areia dentro. É imprevisível. Já ando a fazer cálculos para que no Inverno uma onda mais matreira não me apanhe. É bom molhar as saptilhas na espuma na parte final da corrida, mas só o faço em dias de maré meiga.

Um destes dias um pôr-do-sol fez-me tombar, deitou-me ao chão.

(interrompo agora...continua vida fora...)

Crédito fotográficos: Super Stock

2009-10-20

Chuva - the beauty of it

O sol dilata os corpos.

O sol dilata as almas.

Debaixo do sol, não temos a verdadeira noção do elemento natural que somos, a nossa consciência admite todas as possibilidades, somos subitamente omnipotentes, a vida é bela já aí à frente.

Por isso, a queda é maior.

A chuva resguarda-nos em nós.

E se, por causa de um improvável movimento de sentido contrário à multidão que se encolhe em gabardinas e se encosta às paredes, enfrentas a chuva como enfrentas o sol, e sais cá para fora tentando abarcar o horizonte como se fosse um dia limpo, azul, ganharás noção da grandiosidade do que te rodeia e de como és pequena, mas também de como podes crescer, porque não cresceste tudo ainda, não estás inchada nem tens excesso de luz.

A Chuva acompanha-te a felicidade com assombroso realismo, e não te engana na solidão.

A água, dona da (trans)lucidez, 

sempre esteve mais perto da claridade.


2009-10-18

Eu na Escritaria e a Escritaria em mim

Imaginem-se a percorrer uma rua de pedras lisas clareadas pelo sol de outono, brisa alguma e vinte e três graus a meio, e a cada passo, num lancil, numa montra, numa esplanada, na desembocadura de uma praça, num jardim, dentro do museu, dentro da praceta, palavras, muitas palavras escritas, e Saramago escreve-as bem, com beleza e subtileza, ainda que sem certeza de alguns de nós, o que importa é a arte e o percurso e os milhares de páginas cinzeladas, as mais bonitas em cubos aos nossos pés, no chão, nas paredes.

Estive lá hoje. Magnífico. Não há qualquer metáfora aqui. 

Entrei dentro do Museu Municipal de Penafiel, vi a força e o amor de uma mulher sugestivamente chamada Pillar del Rio, trouxe risos, cores castelhanas, trouxe palmas e deixou entrar a figura do centro, pouco cabelo, límpido, delicado, brutal, digno, eu quero lá saber se nem tudo é do meu acordo (algo na vida o é?), se nem todas as palavras me inquietam (podemos descansar os olhos nas planícies), eu já o tinha visto com o meu polegar a deixar cair páginas em livrarias, no meu sofá, mas hoje tive a certeza:

Zé Saramago é um escritor de enorme estatura, escreve bem, e ainda emociona mais escrito na rua, no chão, no labirinto, civitas, são parágrafos de molde e moldes da alma.

Ao falar pausadamente com o seu modo de cantar cada vez mais doce, encanta.

Ele foi espalhado por Penafiel, eu fui devorado pela Escritaria.

Fica-se profundamente agradecido a quem concebe e executa momentos destes.

Penafiel dentro, mundo fora.

2009-10-11

Lobo Antunes no meu Supermercado

Pensei escrever esta "crónica" aborrecido, ressentido, com o António.

A maldade de uma crítica, que li ontem, teve o efeito contrário em mim: tenho dito que a inteligência, quando não é temperada por um mínimo de bondade, prescreve.


Acredito nisso.


O António é muitas vezes um desarmante lúcido que me obriga a fazer uma coisa que detesto. Citar. Cito-o porque ele diz: "Temos de escrever contra os melhores.", e eu penso que é mesmo isso.

Cito-o porque ele diz que a modéstia é inútil, mas a humildade não, e eu nunca me senti modesto, creio até que a modéstia, para ser uma qualidade humana, tem de ser invisível, porque quando se vê é mentira, e, sim, inútil, defeito.


Mas também o cito por razões menos boas.

Antes de as referir, contudo, quero dizer-vos que o que eu reclamo é o António de volta à doçura, a doçura que ele levou às entrevistas com o Mário Crespo, com a Judite de Sousa, com a Ana Sousa Dias, a doçura que ele tem quando nos trata pelo nome próprio, quando fala da essência das coisas e não das coisas da essência.

As pessoas são parte da essência, não se podem destacar da arte.

António, não podes pensar que resolveste os enigmas da escrita.

Não te podes guindar tanto.
Não acabou para ti, claro que não acabou para ti.

E se há cavalos que fazem sombra no mar, casas caladas às três da tarde, dor a vaguear pelos quartos, enquanto existes escreves.

Quando estavas no hospital e vieste correr nu perante o mundo nas páginas da Visão, eu pedi-te para saíres da luz. António, sai da luz.


Passaram quase três anos, e é nas páginas da Visão que te encontro de novo, mas menos do que esperava.


Tens mais sorrisos, mais estantes e sítios e composições, mas estás menos tu, menos doce.


Vou contrariar-te, pois.


Sempre disseste que as tuas crónicas não eram literatura.


Mas são. São muita literatura.

Dizes amiúde que os livros têm de estar cheios de silêncios.

Talvez tenhas alguma razão. Mas os livros também são barulho.

Estão cheios de gritos, António.


Dizes que os teus livros não são de supermercado, mas são, António. Estão lá, junto dos outros. Como tu estás, junto dos outros. Olha a fotografia transparente que te junto, acima.


Sabes que disparate tenho dito?


Que não há génios na literatura. Que a honestidade intelectual nos deve levar a tocar em todos os livros. Que o corpo da escrita não se revela ou desnuda antes da capa.

Dizes que os teus leitores não lêem imprensa frívola. Mas lêem, António.

Dizes que não ligas aos críticos. Mas ligas, António.

Eles e os leitores dos outros estão aqui, os teus críticos são homens com sentimentos e com gostos, às vezes precisam de te combater por seres grande, é verdade, mas às vezes combatem-te porque eles é que são humildes, e tu não.


Não digas que não conheces pessoas, António.

Conheces toda a gente, António.

Eles estão no meio de ti.

Deves aceitar pacificamente que muitos dos leitores que compram os teus livros não são capazes de os ler. Que, ao não baixares a intensidade da luz que os alumia, podes perder alguma sombra, alguma frescura, algum silêncio.


Disseste que tinhas chegado ao mesmo tempo que o Saramago.

Aí percebo-te.


Porque a publicação é um acidente da escrita, e não foi no fim dos anos setenta que chegaste, foi muito antes, compulsivo, por Benfica, a destruir os teus próprios poemas.

A literatura sempre cá esteve, já cá estava quando nós lhe chegámos, os nossos livros sempre cá estiveram, já cá estavam quando o mundo lhes chegou.

Por falar nisso, quando é que vocês, tu e o Saramago, se abraçam, caramba?

Que birra de miúdos é essa, António?

Achas que é possível medir o tamanho de cada um? Não é.


Tu não és maior do que ele, António, ele não é maior do que tu.

Não sabes que, se continuas assim até ao fim, ou até ao princípio, ergues muralhas entre os que seguem ambos com o coração? Os que vos dão o pão a comer?

Quando é que deixamos de ter trincheiras , quando é que deixamos de marchar em colunas concorrentes, pequenos ódios multiplicados muitas vezes por cada lado?

A inteligência, quando não é temperada de bondade,


prescreve, António.

Escrevo-te isto porque sou pequenino e não quero ser grande, António.


E cá de baixo avisto o espectro térmico dos grandes, e deixo de perceber o frio.


Ninguém é a rocha de gelo, ninguém é ilha de ventos, ninguém é Deus nem deus.


2009-10-09

Leitores e eBooks sem gripe

Chiu. Caluda. Eu também sou um compulsivo leitor de livros de papel.
So what?

Tenho, como quase toda a gente que usa computador, de ler centenas de documentos em pdf, que é para não falar de livros enviados por amigos, colegas escritores ou editores, ou blogues (dá para arrastar blogues inteiros para dentro disto, coisas que não temos tempo de ler no trabalho ou em casa). Em pdf.
E, como advogado, códigos, textos doutrinários e jurisprudenciais.

Aliás, custa-me a conceber como é que editores e assistentes editoriais ainda se massacram a ler centenas de milhares de páginas de pdfs no ecrã de um computador. Tenho pena, até. Porque, à excepção de uma boa amiga e grande tradutora, que por ser excepção confirma a regra, ninguém gosta de ler textos longos assim.

KISS, não é? Keep it simple, stupid. Ok.

Não vos escrevo com preocupações ecológicas, não tenho perfil para tal. É verdade que o meu filhinho de dez anos, ontem mesmo, me perguntou, do nada, "porque é que as pessoas só falam da Gripe A e não se preocupam com a falta de água?", eu achei piada, disse-lhe que ainda ninguém me tinha posto tão bem a questão, mas o que eu quero é ler tudo e em todo o lado e da melhor forma.

Estou a experimentar este leitor de livros electrónicos, e o que mais me impressionou, logo de entrada, foi a chamada "tinta electrónica", ou seja, um ecrã sem luz, sem consumo, as letras aparecem ali, à superfície, como num livro. Não cansa nem agride.

Gosto de coisas simples para poder usá-las.
Este não tem nenhum artifício, como não o tem um simples livro, e está pronto a usar mal se liga.
Os livros abrem na página em que os deixámos.
Com uma bolsa adequada (já pensei em forrar uma capa de um volume da "Recherche", e andar com o leitor dentro dela:), para proteger o ecrã e permitir que o seguremos como se de um livro se tratasse, a experiência não é nada desagradável, bem pelo contrário.

Questões práticas:
É supérfluo? Não. É para ler livros, e um portátil não é para ler livros. Tem uma bateria que não é preocupação - este lê oito mil páginas com uma só carga, o que quer dizer semanas, para não dizer meses, e como também carrega via porta usb, de cada vez que se liga ao computador para adicionar mais livros, é virtualmente inesgotável:)).

Não é igual a um livro, nem eu acredito que o venha a substituir totalmente.
É complementar.
O Vinil está a regressar, e não é preciso para nada. A sua experiência táctil não se compara à experiência de manusear e cheirar o papel de um livro. De o segurar na mão, sentindo os relevos ou vendo as imagens das capas, que nos atraem. Não. O livro não morre, nem estas coisinhas servem para o matar.

Por isso rejeito as mensagens do tipo "aqui está o futuro".
Não está.
Está o presente.

Se o dinheiro não for um problema, aconselho-o vivamente aos profissionais da escrita, da leitura, e aos leigos que são grandes leitores. Para esses, creio ser indispensável, e nem sequer é uma necessidade nova que se cria. Eles sabem o cansaço que os olhos sentem.

Se o dinheiro for problema, temos aqui um dilema:
Se queremos que o preço de um leitor simples venha para os 100 Euros, como eu acredito virá rapidamente, temos de os comprar. É uma pescadinha de rabo na boca. Comprar significa apoiar um conceito que não colide com o livro tradicional, bem pelo contrário:

Eu, se já lia muito, vou agora ler muito mais.

Ontem já aconteceu, nas esperas.
Tirei-o do bolso (este dá para isso) e estava a ler em segundos.

Viva o livro.

2009-10-04

Filipe (todo o)

Quando eu tinha dez anos, assustei-me.
Um colega de turma caiu ao chão e a professora afastou os meninos.
Não percebi completamente o que se tinha passado, mas ele próprio nos explicou o que era ser epiléptico, é assim como eu ter um curto-circuito no cérebro,

e se não tomas os medicamentos, cais ao chão, a espumar, a morder, a língua enrola para dentro, explicou mais tarde a mãe, que foi à minha turma num dia em que caiu granizo.

Só deixei de me assustar quando, ao longo dos anos, fui eu e os meus colegas a afastar os professores e a tratar do amigo, agarrar-lhe as mãos, meter os nossos dedos na boca dele, limpar-lhe a baba, acalmá-lo.

Ontem tinha-me queixado do meu dedo mindinho. Talvez precise de gelo.

Hoje conheci o Filipe, que tem nove anos, e não tem ataques frequentes.
Tem epilespsia em permanência, sem descanso.
Toma nove comprimidos por dia.
Nunca tinha conhecido um menino assim.
Era muito bonito e tentava comunicar.
Os pais têm um restaurante onde costumo ir comer, e deixam o Filipe com uma tia, mas a tia viajou.

O Filipe estava sentado no chão desde as sete da manhã (eram dez da noite), a gemer, a dizer coisas , a sorrir, com um olhar límpido e azul, e o pai também, e a mãe também.

O Filipe olhou-me na sua forma de olhar, clara mas dolorosa, aprisionada na linguagem e no gesto, e começou a cantar vogais sucessivas,

Obrigado, a Sílvia trabalha cá, a Lena já foi embora, a Lena trabalhava cá, agora é a Sílvia que trabalha cá, traduziu o pai, que é dono do Restaurante, e a mãe, que é a cozinheira, explicou que o Estado, além de abandonar muitos pais que não tiveram a sorte de ter filhos sãos como nós, faz-se de difícil quando se trata de providenciar um acompanhamento especializado para o Filipe, na escola onde está.

O Filipe está permanentemente em curto-circuito. Uma bateria de medicamentos tomados pela manhã livra-o dos ataques e traz-lhe serenidade e traz-lhe obesidade.
Os pais olham-no com orgulho, mas olham-me com tristeza, como se pedissem desculpa.

Ele está a mexer nas brocas, eu dou-lhe um "passou bem?", ele diz aiá ú, o país traduz por "obrigado", apresento-lhe o meu filho, o Filipe fica embaraçado - se ao menos ele entrasse dentro.

Eu ontem estava preocupado com o meu dedo mindinho.

Hoje estou com o Filipe todo, fecho as recordações, a vida segue, o Filipe vai acabar por perder, a vida ficou lá atrás, caída.

2009-10-03

Verdade como quem mente


Vejo-o agora, e vejo-o claro.

As pessoas, todas as pessoas, carregam o peso de não serem suficientemente gostadas, apreciadas, reconhecidas, de meio mundo ser ingrato e malévolo à face do que elas dão, e o outro meio indiferente.

As pessoas, todas as pessoas, precisam de palavras açucaradas, de gestos, algumas de toque, de quem as olhe, de quem espere pelas suas palavras, de quem lhes contenha o abraço.

E, ainda assim, devemos ser transparentes, verdadeiros.

Mas a amizade, mais do que a amizade, a decência humana, a preocupação perante o próximo, não significa usar a verdade como um punhal.

O melhor mentiroso mente como quem diz a verdade.

A melhor pessoa diz a verdade como quem mente.

2009-10-01

O Tempo Quieto

Ontem o tempo esteve quieto.

E o tempo quieto é, para mim, uma página em branco.
E como eu sou um permanente gatafunho, o tempo quieto permite-me evoluir sem ruído.~

Um destes dias, a uma mesa da magnífica esplanada do Arrábida Shopping, estando eu, que sou uma pessoa grande, a tomar café com uma mulher que é uma grande pessoa, e apesar de não gostar nada de astrologia, fiquei marcado por uma frase dela que me vem acompanhando:

- Os Caranguejos são obsessivos.

Faltou-lhe dizer compulsivos:).
A verdade é que, aquela simples frase a propósito de pouco, me ecoa na cabeça e faz ricochete nas paredes do meu ego.
Comecei a perceber que, ou ando sempre arrebatado, ou não ando.
E que um arrebatamento substitui o outro.
Seja a música, o Direito, a Escrita, os livros, pessoas.
Provavelmente é daí que vem a vontade de permanecer na escrita, onde o arrebatamento dura sempre mais tempo do que em qualquer outra actividade humana.
Música incluída.
Depois, o arrebatamento é um óptimo teste à lucidez e ao bom-senso.
É uma espécie de enxurrada que nos arrasta pela lama ou pelos céus, vestidos de nós ou de arlequim, e que só procede se nos mantivermos calmos, de olhos bem abertos.

Ontem, com o tempo quieto aqui no Porto, inscrevi-me no mundo sem rugas ou acidentes.
Os meus arrebatamento ficaram planos, eu sereno.
Hoje voltou tudo, e o mundo avança:).

Créditos Fotográficos: fonte aqui

2009-09-30

O Segundo Olhar, os Afectos e os "Requests"

Já é raro dizer hei-de emprestar-te um livro, e que raio de saudades tenho de ir a casa de um amigo que me "roubou" um livro que ainda não tinha lido, ou já tinha lido mas com o qual tinha uma relação especial de posse, ou só porque ia a meio, e esconder o meu próprio livro entre as minhas coisas para o levar de volta - aconteceu não há muito com a Valsa Lenta do Cardoso Pires.
Agora pouco fica escondido, tudo se mostra, manda-se por mail ou exibe-se logo no messenger, vê isto, vê aquilo, aquilo está demais, e mesmo eu, que fujo dos forwards como o diabo da cruz, sinto que vejo coisas a mais.
E o caso daqueles que ainda não percebem o que escrevi no último parágrafo?
Não é nada de que se devam gabar. Eu ergui uma cortina às notícias televisivas, já não as vejo de fio a pavio, e prefiro o que vai transpirando nas redes sociais, uma abordagem à actualidade de muito maior qualidade, e em que nem todos são redundantes ou estafados, mas não saber de nada disto, não perceber o que é o messenger,o facebook ou o twitter, claro que é analfabetismo.

E os afectos?
Neste momento, todos falam com todos, figuras privadas com figuras públicas, os primeiros mostram sempre especial ansiedade, os segundos tentam proteger-se, mas a verdade é que, ainda que as relações careçam de solidez, transmitem-se hoje mais afectos, de forma mais directa, mais próxima, do que nunca. Irónico.
Mas cada vez se desconfia mais de uma mão estendida ou de alguém que nos pede um abraço.

Eu tenho resolvido alguns problemas com um segundo olhar.
A tendência, hoje, e dado o exposto, é ir resolvendo tudo à primeira para seguir em frente.
Mas como todas as perversões do tempo, nada nos impede de resgatar velhas virtudes, e devotar um segundo olhar a algumas coisas e pessoas.
Não raro ouvimos os primeiros acordes de uma música e decidimos não gostar.
Depois, um chato qualquer obriga-nos a ouvir aquilo várias vezes durante uma viagem, fala-nos da história da música, e, sem querer, dá-nos um segundo olhar.
Vamos correr, estamos no escritório, em casa, e sentimos necessidade de voltar a essa música, de saber mais sobre o cantor, e começamos a puxar um fio de onde caem, as mais das vezes, coisas surpreendentes e maravilhosas.
Isso é navegar.
Quem navega, quem diz que gostar de navegar, tem precisamente este comportamento.

A navegação, quando é segura e sustentada, leva-nos a segundos olhares, e então, fazendo nós próprios a triagem (quem envia tudo para todos, muitas vezes de forma automática, perde a credibilidade, parece coleccionar coisas para mostrar e ele próprio deixa de as ver, deixa de aprender, torna-se frívolo, oco, vazio).

A outra face é a perversão dos novos hábitos. Os "Requests", por exemplo.
Os "Requests" são pedidos de "amizade" nas redes sociais, em particular no facebook, e, como se pode ver num recente anúncio da TMN, "I moche you", a miúda diz que tem seiscentos e tal amigos e sete requests.
Ora, eu também tenho alguns requests a que não posso responder positivamente, alguns pelas melhores razões, mas isso não me deixa feliz, nem é de anunciar.
No entanto, o tom com que se "anunciam" os requests é, neste caso, uma perversa medida do sucesso. És tanto mais popular quantas as pessoas que tens a pedir-te "amizade", ou seja, alegras-te por aqueles que ignoras.

Em vez de rejeitar liminarmente os novos tempos, temos de continuar a ser críticos, construtivos.

Sobre os afectos e os segundos olhares, há um momento que sempre magoou qualquer passante, que é aquele em que cruza olhares com alguém que o marca, e sabe que nunca mais vai ver essa pessoa, ou mesmo quem se cruza todos os dias com alguém que acaba por fazer parte da sua vida, e que de repente desaparece:
nas redes sociais, um dia, podemos aproximar-nos desses desconhecidos fascinantes e dizer-lhes isso mesmo, que são desconhecidos fascinantes, e às vezes surgem laços, coisas boas que acrescentam, e não retiram, vida. E estão lá. Raramente desaparecem.

Crédito fotográficos: fonte (autor não identificado)

2009-09-27

Cinderella Redshoes

Quando se diz que ela tem tudo estudado, as meias vermelhas, os sapatos vermelhos, os vestidos fluidos que deixam que lhe adivinhemos o corpo sem que as suas formas nos sejam entregues de forma óbvia, a altura (baixa) do microfone, a forma como ela a ele se agarra, a obliquidade do corpo enquanto canta, uma perna formando linha recta com as costas, a outra dobrada, em apoio, mais exposta, o joelhinho apontado para nós, os pés a pisar pedais invisíveis na espuma de ondas eléctricas, musicais, carnais, o modo quase sofrido como toca nas teclas, o cabelo agora liso, a formar com a repa um ângulo quase iconográfico, quando se diz que ela tem uma estética própria e calculada, esquecemo-nos do essencial.

Esquecemo-nos de que ela é música, compositora, executante, e que já cá anda há uns aninhos a forrar paciente e competentemente a glória de outros.

Esquecemo-nos de que ela é uma pessoa, e que uma pessoa, é, por definição, frágil.

Ao mesmo tempo, quem a vê em palco - e eu escrevo depois do concerto de Arouca, e embora tenha valido pagar o de Vila do Conde para a ver chegar até nós sem dores de pescoço ou encontrões, fica definitivamente confirmado que não cansa vê-la ao vivo, seja onde for e em que condições - tem a sensação de que ela se imaterializa, alçando-nos ao seu conto de fadas de forma imperceptível, e fica-se para ali encostado a sorrir-lhe como se ela fosse só nossa, como se ela nos cantasse ao ouvido.

Oh, Blue Bird take me away...

É por isso que perturba, que afaga, os mais empedernidos.
E acabamos por não perceber que plenitude é esta que ela nos dá, algo que nos descompõe, que nos leva a sentimentos primordiais.

E às vezes é não vista que se percebe que vai muito para lá do óbvio.
O momento do concerto de Vila do Conde em que a luz azul invade o público e a Rita fica na sombra, sem ser vista mas vendo-nos, não me ficou na retina, mas na alma, e foi algo de tão belo que magoa lembrar.

Oh, Blue Bird take me away...

Arouca não tinha resguardo atrás do palco.
Aliás, chegava-se ao parque milénio pela parte de trás do palco, e como esse é o resguardo de qualquer saltimbanco, não sei se tive a sorte, ou o azar, de ver a boneca de trapos à luz dos candeeiros da rua, numa semi-penumbra, um oportunidade para confirmar que a Rita é gente normal.

Mas não é. É muito melhor.
Não é um palhaço que se maquilha e desmaquilha, olhando triste e esgotado o espelho do camarim enquanto se constrói ou desconstrói.

A Rita é mesmo assim, a sua postura em palco é de comunhão absoluta com o público (como é delicioso o estilo Amália dos seus incontáveis "Muito Obrigado", e a forma como todos os seres vivos são para ela "senhores" e "senhoras"), a sua postura fora de palco não tem o condão de andar sem brilho. Porque brilha intensamente.

Parece-me que por estes dias começa a não ser "in" dizer que se gosta de Rita Redshoes, e por isso é a hora certa de lhe declarar fidelidade e ser coerente. Este primeiro álbum, Golden Era, tem pelo menos um pecadilho: tem demasiadas músicas boas, e, aí vai bomba, vai ficar na história da música pela sua excelência - e só em palco ela tem a oportunidade de interpretar, e dar a respiração a ouvir, cada nota que lhe saiu da forma das mãos e dos traços do canto.
Tem excelentes músicos em palco, mas a verdade é que eles próprios sabem que ninguém se mexe como ela, uma coreografia subliminar notável, que vem de dentro e a transforma em todas as pessoas de brincar que cruzaram os nossos dias e os nossos sonhos.

No entanto, e por causa de elementos de magia não explicáveis pelas ciências humanas, todos têm vontade de que um dia um dos seus sapatos vermelhos fique caído nalgum lugar, para que possamos ser nós, os que fingem não ser seus fãs e ter uma existência artística distinta de fenómenos estéticos conhecidos pelas pequenas e médias massas, os que rejeitam obstinadamente render-se a ela, a encontrá-lo caído na soleira da casa caiada de uma aldeia qualquer, e só descansar depois de lhe encontrar um pé e casar com a dona dele.

Mudei-lhe, pois, o nome artístico para Cinderella Redshoes.

Que, de tão maravilhosa, sempre se imaterializará antes que o sapato perca a matiz e vire cristal puro.

Dream on Girl.




Já agora, o novíssimo vídeo que simboliza o perfume da Rita ao vivo.




Créditos Fotográficos: fui eu que tirei esta foto em que parte do que fica dito ressalta com clareza;

Post mais antigo sobre a RR aqui.

2009-09-26

Vou escrever àquela menina que vai morrer...

... mas não hoje, porque há perspectivas impossíveis, questões que transcendem a filosofia, o próprio pensamento, posições corporais e palavras que nunca são competentes perante uma criança em estado terminal.

Vi isso, hoje mesmo, no cinema, quando os familiares da menina, à boca do seu estertor, dizem banalidades que fazem os espectadores encolher os ombros, mas que ela, precisada de camuflar a sua partida com um comprimento aparente, uma medida maior para a vida, que supera a própria esperança, se quedou sentada entre os lençóis, com um sorriso feliz, repetindo "Thank You", "Thank You", "Thank You".

Morreria nessa mesma noite, dando colo à própria mãe, esgotada de não a deixar partir.

"My Sister's Keeper", em português "Para a minha irmã", é um filme brutal em que não pode importar a intenção do realizador Cassavetes (em fazer-nos chorar copiosamente), muito menos as palavras de um crítico de cinema que o toma como mero objecto artístico (dizendo, por exemplo, que se trata de mais um melodrama sem originalidade, que por acaso até tem, precisamente a originalidade da verdade).
Abigail Breslin está uma mulherzinha de 13 anos, a chegar ao fim do paradigma "child actor", nunca deixou de ser uma pequena actriz dotada, contida, rara, Cameron Diaz confirma a sua maturidade, mas quem enche o ecran, mesmo que o filme não a atire para a frente com despudor, é a própria doente, no filme com quinze anos, na vida real com pouco mais, Sofia Vassilieva, no tal papel que Dakota Fanning não quis fazer.

De facto, há um ritmo literário a embalar as violentas imagens do sofrimento, uma cadência que nos faz olhar para dentro das questões que nos são levantadas, aliás a intenção não é fazer pensar, porque tudo é dito desde o primeiro minuto.
É fazer sentir. So what?

Não há exageros, procura-se realismo, e o "cliché" quer dizer apenas vida, vidas, vidas normais que são abaladas por fazerem de uma menina com leucemia o seu ponto fixo.
Chora-se muito, mas não se chora porque o realizador quer que se chore. Chora-se porque se tem a perfeita noção da bênção que é não estar ali - um choro copioso, soluçado, um choro fundamental, porque é fundamental perceber o fundo das coisas, para não lamentar certas frivolidades.

É preciso trazer para a arte, de forma limpa, clara, quase asséptica, a perspectiva das crianças que sofrem. Escudarmo-nos sempre no pudor do seu destino e da sua intimidade, é, essencialmente, virar a cara, fingir que o problema não existe. Mas existe.
Asséptica por respeito a elas, claro. Nós, os que somos sujos. Somo nós que temos capacidade de as transportar, de falar por elas, mas para isso temos de olhar para elas. Não podemos virar a cara.
Neste filme, estamos mais de duas horas a enfrentar a morte.
E eu, ainda e sempre, digo que se torna essencial, para viver, saber ir morrendo.
Ir morrendo com a obra-prima "O Túmulo dos Pirilampos", por não suportar a fome de dois irmãos órfãos, ir morrendo porque este "My Sister's Keeper" nos mostra a morte na primeira pessoa.
Em cinco primeiras pessoas.

Vou escrever sobre o sofrimento mais atroz e inaceitável,
o sofrimento das crianças, porque, se o não fizer, não só as estou a abandonar,
um abandono que as deixa, muitas vezes, em pura dôr e existência
sem sentido,
enquanto, sozinhas nas suas camas brancas de hospital, folheiam
revistas e livros
e nunca se reconhecem nas fotografias ou nos desenhos ou nas
palavras ou nos quadros,
tal como os que sofrem com elas na intimidade, em particular os pais,
que não têm nada que os prepare, antes ou depois de o destino lhes
ter pregado uma partida de mau gosto.

Vou, pois, escrever às crianças que sofrem, desenhar colos, mas não hoje.

Não ainda.

2009-09-20

Yes, We CARE

É importante escrever isto na tensão crescente do Magnólia, a passar às 2:49h do dia 20 de Setembro de 2009 na Dois, ainda só está a chover torrencialmente, água, ainda só está a chover água, o miúdo do concurso acaba de fugir, a edição está intensa, revisitamos todos os que desfilaram até aqui, depressa, cada vez mais depressa, ainda só água

o Miguel Sousa Tavares atacou as redes sociais que medram na internet e de que muitos de nós fazemos parte, disse que era o grande mal da humanidade, e eu já reflectindo sobre o mundo mudando pela rede global há quase quinze anos, estive lá, sim, fui praticamente pioneiro, e sei que o Miguel disse isso porque se esqueceu de que há pessoas tão ou mais inteligentes do que ele que se sentem tapadas pela vacuidade da televisão, agora até dos jornais e da rádio, e afinal podem colher o mundo através dos seus pares nestes "lugares", o Miguel disse isso porque se esqueceu de que há pessoas tão ou menos inteligentes do que ele que se servem disto para combater a solidão, para não ficarem expostas às suas cabeças, aqui tenho testemunhas, pensam, aqui faço testes que me dizem o que sou e para onde vou, aqui sou ridícula, sim, mas não mais do que lá fora, onde o silêncio me persegue como uma sombra.

Procuramos quem se importe connosco.
O Miguel tem razão.
Os nosso "amigos" estão lá, e a maioria não se importa verdadeiramente.
Ego, Eu, importo-me, sim, e sou resto apenas com quem também se importa.
Leio livros, cada vez mais livros, onde pelo menos o autor se importa consigo próprio.
Faço mal?
Serão os livros, esses objectos indecentes que isolam as pessoas em momentos, longos momentos, infinitos momentos que excluem absolutamente todos os outros, serão os livros o grande mal da humanidade há centenas de anos? Com livros alguém te toca? Alguém te olha, se não interromper a leitura? O narcisismo de se aculturar?
Os livros que o Miguel vendeu na casa milhão a gente que passou o tempo sem tocar ou olhar o próximo?
E o Miguel, quererá realmente tocar e olhar alguém para lá do pequeno quarto do seu ego e do anexo dos que ama e do outro anexo dos que o amam?

Ainda chove só água.
A música de fundo parou, mas nós sentimos o desenlace próximo na coreografia dos corpos e no tom da luz.

Eu escrevo.
Nenhum editor se interessará verdadeiramente algum dia se escrevo bem ou mal, se escrevo singular ou plural.
Pensará apenas, no limite, este gajo é bom, mas como é que o vou vender, ou este gajo não vale muito mas pode render-me uns cobres?
Os editores pensam, as pessoas pensam...

(um momento...a música...a música é poderosa...os personagens do filme cantam sucessivamente o "Wise Up", da Aimee Mann, tremendo momento, tremenda esta nossa vida, ainda só chove água...diz a Aimee, em tradução livre, "a dor não vai parar até despertares...por isso, desiste!". Give up. Supostamente não vamos despertar. Depende de quem? Depende de quem, despertar?)

A chuva parou.
Dizia que os editores pensam, as pessoas pensam, que há escritores curiosos, que há alguns livros obras-primas, gostam muito deste ou daquele escritor, há miúdos e miúdas que escrevem e ainda por cima são bonitos, ousados, mas ninguém se atreve a dizer que esperamos novos Prousts, Tostöis, Dostoievskis, Kafkas, afinal agora tudo é passageiro, grandes escritores, grandes livros, breves escritores, breves livros, reeditemos Thomas Mann, mas o "Morte em Veneza" é uma obra prima?, de certeza?, "A Montanha Mágica" ainda vá lá, mas o "Morte em Veneza", hoje??? Reeditemos bons e vendáveis livros, mas não leremos manuscritos de fôlego, e que ninguém se atreva a ter primeiras obras geniais, afinal os livros ficam seis meses nas livrarias e partem para os fundos, onde ficarão até serem queimados numa fogueira apolítica, não seria melhor a raiva, a paixão, a luta contra os ditadores para que a humanidade não adormecesse?

Claro que não.
Guardemos a liberdade.
Eu escrevo, e escrever livros é um pin engraçado para se pôr na lapela, é sensual, quase erótico, mas ninguém quer saber disso.
Há oportunidade e oportunismo, ninguém te dá colo, ninguém te pega, ninguém te paga,

ninguém se importa.

Dentro ou fora do Facebook, se sorris em demasia, se te importas em demasia, és louco, falta-te o equilíbrio essencial.
Fazes do teu blogue, do teu perfil, uma festa, mostras-te aos outros cheio de falsas luzes, com o corpo à sombra.

Ninguém se importa.
Ninguém se esforça por compreender.

Obama não contaminou o mundo com Yes, we care, mas com Yes, We can.
Poder. Importa Poder.
Não o sofrimento, não a solidão, não a excelência, não a verdade.
O Poder.
Escreves no facebook para te aproximares do poder, e o poder despreza-te?
Não é assim tão complicado evoluir pela bitola da verdade, esperar aceitação, compreensão, reconhecimento, até gratidão. Não dá dinheiro, é verdade, mas é simples.

E no meio das palavras bonitas, dos vídeos embutidos, das músicas partilhadas, dos poemas, dos textos, dos links, tu sabes que procuras quem se importe, e vais evoluir pensando que podes abanar a árvore dos fundamentos e colher um, dois amigos, nenhum também é possível, mas é um ou dois.

E eu estou cá, Miguel, para ler palavras com coisas dentro, não calculadas em função das audiências ou do Poder, hoje toquei mulheres e crianças e velhos e livros, hoje olhei-os a todos, abracei alguns, vi quem soltasse a parede, é um sorriso, um justo sorriso, mas está vazio, o nosso Porto perdeu, e claro que sou mais por dentro, muito mais por dentro quando perco, e estou aqui sozinho mas sem solidão, sei que me surpreendo sempre feliz porque tenho pouco e não aspiro a mais do que ter um livro impresso com palavras lidas, não espezinhadas mas lidas, lidas devagar, digeridas, quero ter isso mas nunca a qualquer custo, claro, sei que a pobreza é meio caminho andado para a felicidade, sei porquê, estou cá cheio de abraços, beijos, olhares e toques, estou cá tentando ser decente para sempre, e nas décadas que já passaram sei bem que o estado do mundo não depende dos suportes tecnológicos ou do uso que as pessoas lhes dão, Miguel, se assim fosse, olha para os gregos e ainda tudo permanece, as Farpas ou a Queda do anjo e ainda tudo permanece,

a natureza humana não depende de nada disto, Miguel, começaram a chover os sapos no Magnólia, está na hora de encerrar aqui,

a (boa) natureza humana depende de enfrentares tudo e todos por dois ou três princípios simples, os meus são a liberdade e a bondade, são só dois afinal, junto a isto está tudo, porque se não abdicas da liberdade sabes temperar as fraquezas da bondade, mas o que estou eu a dizer, não há fraquezas na bondade, digo, sabes temperar a aparência de fraqueza da bondade, ser livre e bom exige-te perseverança,

mas no fim de tudo, tens de te importar, tens de perceber que se importam contigo.

Hoje um grande amigo vive o luto mais destruidor que a alma pode conceber, a morte de um filho, eu importo-me e não estou junto dele, ele usou o facebook para gritar a sua dor, pediu que ninguém lhe ligasse, os "amigos" desfiaram palavras de conforto que ele lerá mais tarde e que lhe exponenciarão e aquecerão as lágrimas, sim, e eu a este verdadeiro amigo disse-lhe muito pouco, toquei-o, abracei-o, mais nada, não sei já se o toquei no casaco, na pele ou em lado nenhum, nem sei se as palavras foram ditas entre o caixão pequenino do bebé e o fato preto, ou se, como ele certamente preferiria, as escrevi num papel que lhe pus num bolso, num email ou num mural.

No fim de tudo, tens apenas de te importar, tens de perceber que se importam contigo.

São agora 3:50h.
Acabou a obra prima do Paul Thomas Anderson.
Com a música "Save me", da Aimee Mann, claro.
Conheces?

Pedro Guilherme-Moreira

Créditos fotográficos: Reuters

2009-09-14

"Os meus sentimentos" por Dulce Maria Cardoso

Foi hoje.
Podia ter sido mais tarde, muito mais tarde, podia ter sido nunca.
Mas foi hoje, Domingo, num sofá bege no primeiro andar da melhor livraria do Porto.
Era o único livro que levava comigo, talvez porque o presentisse.
Ante de me sentar, ainda percorri a estante de livros de História e fotobiografias, folheei um livro magnífico de mulheres viajantes, estava lá a dinamarquesa Karen Blixen no nada tudo africano.

Então abri "Os meus sentimentos", da Dulce Maria Cardoso (Edição Asa) e fiquei por lá horas.
Assustei-me.
Assustei-me muito.
Quando olhei para a mulher invertida, pendurada pelo cinto de segurança e fixa numa gota de água, quando recuei e a acompanhei na língua fina e negra da auto-estrada onde se havia de inverter, quando dancei ao ritmo das palavras ou me embalei nos detalhes simples em que cada parágrafo subsiste límpido e claro como uma tampa de garrafa atarrachada pelo meio,
seguramos o parágrafo na mão, entretidos, quase hipnotizados, apetece ficar ali contemplando a mão da escritora deslizando pela folha ou pelo teclado, embalados no berço que os livros são.

Eu escrevi isto, pensei.
E tinha realmente escrito.
Com outras palavras, como outros parágrafos, certamente, mas com as mesma linhas brancas para respirar.
Sim, tinha escrito pior, muito pior do que a Dulce, mas tinha escrito assim, e pela primeira vez na minha ausente carreira literária, tão ausente quanto longa de dezenas de anos, tão presente quanto genuína e independente de todas as forças que relativizam a arte,

pela primeira vez desde que escrevo me vi reflectido num lago de palavras.

Na minha cabeça, escrevo como a Dulce, devia escrever como a Dulce, é o que a Dulce escreve que tenho dentro, depois há o ar, certos ventos, os ossos dos meus dedos, a luz em ângulo agudo e saem palavras diferentes, frases diferentes, livros diferentes.

A Dulce é a pureza apriorística da minha literatura.
Daí o susto,
como uma viagem breve de auto-observação por fora do corpo,
com remate de paz, que é a identidade quase absoluta.

Comprei o livro porque era meu.
Era-me eu muito antes.

Eu que não sou ninguém entre as ondas visíveis

(Obrigado, Dulce Doce)

2009-09-08

O Troféu

* "Este foi o melhor momento que passei num tribunal em quinze anos de exercício."

Os homens não choram, os advogados muito menos.

Por isso, mal acabei de dizer aquela frase, desrespeitando a ordem da juíza para me calar, o meu corpo inteiro foi tomado por uma inesperada comoção, ainda disse entre dentes, com a voz sumida, "agora pode prender-me", e ouvi a juíza e a procuradora, sob espanto, devolver o "obrigado" que não foi coloquial, foi pessoal.

A juíza tinha ordenado que me calasse pelo seu alto sentido de ética, e foi também por causa da ética, e pela fome que ela me dá, foi também por toda a descrença de quinze anos de advocacia em que eu me apercebo de que todos os intervenientes estão sempre mais preocupados com o seu umbigo, e que vão e vêm como moscas, deixando a merda no mesmo lugar, que me comovi.

Mas não chorei.
Desci dois pisos, tive de entrar na Sala dos Advogados para me recompor, baixei a cabeça, servi-me de um café de saco, os meus olhos marejavam e as mãos tremiam, o que é isto Pedro?, o que te deu?, sentei-me, suspirei profundamente e deixei o café aquecer-me por dentro, porque o calor de fora gelava-me, olhei para a janela do terceiro piso onde prosseguiam em diligências a mesma juíza e a mesma procuradora, pensei que tinha tido o direito de ter permanecido junto a elas para lhes explicar porque disse aquilo, e porque é que nunca o houvera feito antes, mas o corpo não deixou, eu saí a correr porque me senti embargado, não porque estivesse com pressa.

Foi preciso coragem para me levantar da cadeira, acabar o café e sair da sala.

No regresso, uma ideia assaltou todas as outras, eu estou comovido porque amo o que faço, porque apesar de amar o que faço a descrença era absoluta, hoje de manhã levantei-me a custo achando que ia fazer, uma vez mais, figura de Quixote a lutar contra pás ou mós, que eu próprio já não me aturava, muito menos o sistema, apanhei a funcionária do costume, uma para quem tudo são nãos, mas que eu compreendo sempre, porque compreendo o que lhe dói e porque é minha colega, como todos os que trabalham no tribunal em particular e no Direito em geral.

Hoje, inesperadamente, aquela juíza e aquela procuradora resgataram o sentido a uma luta violenta e solitária, e então, em plena auto-estrada, eu achei que tinha direito a chorar, e finalmente chorei de raiva, chorei pelo dinheiro que não ganho e pela ética que faz fome, e porque quem sente esta pressão e não quer dever nada a ninguém perde o sentido da beleza da sua função social e profissional, tantas são as estaladas e as navalhadas dos seus iguais e dos seus diferentes.

No intervalo da diligência, pensei logo dizer-lhes o que disse, discretamente, no final.
Pensei que lhes deveria entregar o troféu que não brilha nem se funde em metal mas se funda na essência do que que é mais importante na vida.
Pensei, depois de tudo passado, que deveria escrever este texto em sua honra, inicialmente sem nome, por uma questão de reserva, depois com nome, porque não se honra ninguém no anonimato.

A juíza Amélia, também dos olhos doces, e a Procuradora (que num assomo de superior dignidade, disse que não era adjunta, mas da República, e eu vi-lhe nos olhos e na postura que não o fazia por formalismo ou pedantismo, mas pela mesma razão pela qual eu viria a chorar de raiva momentos depois, porque a vida lhe deu o direito a isso) Maria de Lurdes, ambas intensamente bonitas porque serenas e sensatas - sendo irrelevante o padrão estético -, dirão que não fizeram nada de extraordinário, mas eu comecei a procurar com a memória os meus pedaços de tribunal, e não vi nenhum com esta perfeição, e soube ali mesmo que o que defendo há anos é verdade:
o lugar natural dos advogados é o mais longe possível do tribunal, porque quando o tribunal, no exercício das suas funções, atinge a excelência, o advogado torna-se, e ainda bem, inútil.

Como é que eu dizia naquela tese de Direito Preventivo (que ainda não há por cá)? O juíz é endógeno ao processo mas exógeno ao real, o advogado é endógeno ao real mas exógeno ao processo. Assim sendo, o advogado deve fazer o seu papel na rua para que o juiz faça o seu papel no processo. A ida do advogado ao tribunal é, em si, contranatural, e prenuncia sempre conflitualidade. A função do advogado, sendo essencial e nobilíssima, deve exercer-se afastada o mais possível do tribunal, onde uma série de factores burocráticos e processuais e forenses dificulta que se atinja o coração das coisas, algo de que nos conseguimos aproximar a montante, ou então, muito depois, perante o cansaço e o esgotamento desnecessário de todos os intervenientes, a jusante, na foz, no fim, no espectro insolúvel.

Não vou dizer porque é que foi o melhor momento que passei num tribunal em quinze anos de exercício de advocacia. Isso pertence ao processo, e no processo não vou nem quero mexer. Quero ser actor secundário, como dizia, e muito bem, a Procuradora da República. Sempre quis.

Mas vou dizer que parte da minha emoção se funda, a contrario sensu, na forma como os magistrados hoje filtram as palavras dos advogados, como já não nos querem ouvir, como anseiam seguir em frente com o seu trabalho, porque afinal o advogado não está lá para ajudar, mas sim para ser enfático e pleonástico, para fazer barulho e vincar e sublinhar à exaustão a posição já defendida. A culpa é nossa, só nossa.

Hoje eu fui lá prometendo não julgar, porque eu não julgo, nem acusar, porque eu não acuso.
E consegui.

No final, nem à luz dos olhos doces a juíza Amélia me quis deixar falar, porque já todos tinham saído, e nessa posição o advogado é mudo, os magistrados são mudos, só fala o processo.

Como eu gostava que não fosse sempre assim.
Como eu gostava que, à imagem de países mais civilizados, os juízes, para ganhar tempo e enquadramento informal, chamassem os advogados para um café ou um almoço e deixassem entrar no foro o resto da vida, um filme que foram ver, um livro que andam a ler, o colo que dão aos filhos, a forma como lhes falam em surdina, vai alta a madrugada, e lhes dizem que está frio e que têm de os cobrir, como eu gostava que o foro ganhasse cor e os protagonistas respeito, profundo respeito, uns pelos outros, o respeito que hoje é mais declarado do que praticado.

No final, nem à luz dos olhos doces a juíza Amélia me quis deixar falar, e nem por um momento admitiu que eu ia dizer alguma coisa fora do padrão a que já se habituou. A culpa é nossa. A desculpa também.

No final, nem à luz dos olhos doces a juíza Amélia me quis deixar falar, nem ao sol do brilho intenso da sabedoria da Procuradora da República, e por isso eu disse que ia desobecer, que me prendesse, mas

"Este foi o melhor momento que passei num tribunal em quinze anos de exercício."

Queria antes ter martelado a cinzel as palavras, queria ter criado o troféu num pergaminho que ficaria tombado num corredor obscuro do tribunal e que um dia seria descoberto pelos arqueólogos da justiça, dizendo mais ou menos

Se soubesses o que eu chorei, se soubesses o que a inclinação do meu corpo disse, se soubesses o que a surdez dos meus olhos gritou, se visses as lágrimas em sulcos calados na tez da minha pele, se visses que a vida entrou pela quarto onde tu fazes montes de cartolina atados a um cordel,
Se visses a calma do teu lago, a luz da República, a minha luta
E os olhos doces,
Tinhas pedido, não deixado, que eu escrevesse isto na pedra.
Lentamente
Tiro o Ó na cadência da frase, e o bê pequeno a seguir, o erre o i e o guê, o outro á e o dê,
o outro Ó e tu, se tu soubesses!

(se tu soubesses...seria impróprio.
É bom que não saibas. Obrigado!:)

E os minutos mais banais do mundo à vista desarmada viraram, sob lucidez, um troféu.

O Troféu.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: tive novamente presente a música que diz que devemos olhar a essência antes de nos transformarmos em pedra, que podem ouvir aqui, porque é fantástica! E porque, sim, é hora de não deixar por dizer as coisas mais importantes.

* Créditos fotográficos: Nélson Garrido, Arquivo Público

2009-09-04

O vazio sempre foi assim

Um novo mundo. A aparência da democracia total. Os imaterais, as figuras públicas, misturam-se connosco e com os nossos amigos. Escrevemos-lhes como se fôssemos íntimos, achamo-nos no direito de ter essa oportunidade. Milhares de amigos não existem. Passam a fãs. E fãs são animais perigosos que se deve manter à distância excepto quando pagam bilhete. Mas de repente os imaterais precisam de humanidade, da voz da rua e descem a nós.
E nós?
Pululamos pelas redes sociais e identificamo-nos intensamente com esta ou aquela personagem que escreve tudo o que pensamos, que decalca o nosso pensamento, queremos aproximar-nos, temos os amigos, os verdadeiros amigos, por ali, somos considerados, somos ignorados, somos considerados, somos ignorados.
E depois dizemos coisas nossas, partilhamos. Esperamos.
É o deserto.
Lá fora não estão os amigos, e, embora o ecran abarrote, sabemos, se formos lúcidos, que estamos sozinhos, que sempre estivemos sozinhos.
Alguns ascendem, são banhados pelos focos, tornam-se imateriais também, cruzam os fantasmas com os outros imateriais. Outros pedem amizade a tudo o que mexe, e vão lá pela quantidade, que mede o sucesso.
Subitamente ficam inundados de amigos e de comentários e aprovações e de abraços e de fives e depois de mails e sms.

Sabemos, se formos lúcidos, que estamos sozinhos, que sempre estivemos sozinhos.
E que os amigos não enchem uma mão.
E há noites em que sentimos essa solidão.

Lá pelo ecran, eventualmente, há emoções reais. Válidas.
Melhor do que hábitos mediáticos passivos.
Pessoas que gostam de nós, e é fácil gostar de frases limpas e de pessoas que se apagam ou se acendem com um clque de rato. É prático.
Pode ser autêntico, contudo. Pode.

Mas, ontem ou hoje, o vazio sempre foi assim.

2009-09-02

Setembro

Fui um miúdo de praia durante vinte anos, hoje vivo a dois quilómetros do mar, mas volto todos os dias à areia, sobre a qual corro porque um fisioterapeuta me disse Meu Velho, se queres continuar a jogar voleibol sem muletas, tens de fortalecer os ligamentos, e isso só correndo na areia, tu que corres na estrada todos os dias, passas a correr meio-meio, e em Maio lá me danei, lá mandei vir as muletas e disse que ia seguir o conselho, e quando recomecei a caminhar, devagarinho, descalçava-me e ia uma hora para a areia, depois fiquei melhor e passei a correr meia-hora (na areia), depois os meus pés ganharam golpes dos pequenos objectos deixados gentilmente pelas pessoas entre os grãos, e eu concluí que correr só de sapatilhas, assim era um esforço tremendo, só que o peso cedeu, os ligamentos fortaleceram, e a mítica malandragem da areia para ossos e coluna não se confirmou. Tudo para dizer que todos os dias corro três quilómetros dentro das praias, sobre a areia seca, e dois na estrada. Mas Setembro?

Em Agosto, como qualquer miúdo de praia, verberei as turbas que me invadiram a costa, me tiraram o lugarzinho para o carro e me atravancaram os areais. Habituei-me. Comecei até a achar graça aos companheiros de todos os dias, o careca morenaço, as chavalas da praia X, a madura entre rochas, a menina do quiosque a quem eu estive para cumprimentar, mas, sabem como é, é sempre a correr, esta vida é assim mesmo, sempre a correr, os meias-horas do Alex, os cool do Atlântico, o povo de Francelos, e eu sempre a correr, o mp3 a tocar nos ouvidos, eu a gastar fôlego acompanhando as músicas, uma ou outra vez corri na linha de água, mas assim não dá gosto, não dá pica, a areia molhada é quase chão, subo para a seca...

...e chega Setembro.

Faço-me à areia e não está ninguém.
Pensava que ia gostar, suspeito até que desejei o momento, mas aquele deserto fez-me recordar a tristeza dos miúdos de praia, os que vivem à beira-mar e odeiam os Agostos até se habituarem, ano após ano, ao bulício da praia, à vibração dos dias, e que ao chegarem ao deserto de Setembro descompensam.
Está bem, agora os cafés são nossos, as longas extensões de areal também, e já podemos preparar o nosso Inverno em paz.
Sei da adrenalina de correr sobre a areia molhada num dia de chuva torrencial, na quadra do Natal, no Carnaval, praias vazias que até os residentes afastam, estou só no mundo, enfrento a besta, tenho a coragem de cortar o granizo com os próprios punhos, e o mar ali em baixo a rugir.

Mas nada me prepara para o primeiro dia de Setembro.
Nem os anos a suceder-se e a repetir a tristeza.
Vista daqui, a ausência, tanta ausência, também magoa.

Para o ano, quero lembrar-me de vos rever, de sorrir perante Agosto, de acenar Até para o ano em Setembro.

2009-08-28

A banda sonora da vida

Ainda antes dos telemóveis, já eu usava aquelas agendas electrónicas da Casio para contactos, calendário e agenda. Acontece que o avisador irrita-me ao fim de alguns meses. Nas velhas agendas Casio e nos primeiros telemóveis, não havia hipótese de o mudar, tal como nos velhos telefones. Hoje podemos ter um toque por cada situação ou pessoa, e há quem não goste. A mim, sempre me divertiu. Perco pouco tempo com os meus toques, mas também gosto que sejam a minha cara, sem me embaraçar. Como tripeiro (das entranhas até à ponta dos dedos dos pés), tive durante muito tempo o trecho de guitarra do "Porto Sentido", do Rui Veloso, que eu próprio montei (como faço com todos, usando o Audacity) como toque geral. Passei pelo genérico do "Boston Legal", mas a 5ª temporada tirou-o de lá (o que é isso de despedir quase todas as mulheres da série?). No presente, orgulho-me, porque me dão paz em vez de me irritar. "Cinema Paradiso" para toque geral e mensagem, mas o mais fantástico, que só na rotina dos dias se destacou, é o avisador de agenda: "Ave Maria" de Maria Callas (som real, em mp3).
"A Voz" sai surpreendentemente límpida, e infiltra-se em todos os recantos, mesmo quando o telemóvel está guardado nos fundos. Aquela contenção suprema é contagiante, e eu deixo-me estar, ouvindo.
Passei a atrasar-me para todos os compromissos, o que, sendo português, é inadmissível e merecedor de castigo severo.
Deixei de cumprir a agenda, mas digo sempre que a culpa é da Callas.
Safar-me-ei?

2009-08-27

Fuck You

Respeito e prezo a coragem de Lilly Allen. Invadir o marasmo com uma canção com este título é de aplaudir. Fica a letra em português, que nos faz lembrar tantos energúmenos com quem nos cruzamos todos os dias. Dizem que foi dirigida a George W Bush, e outros identificam-na como um manifesto em defesa dos direitos de gays e lésbicas. Embora o video junto retrate isso mesmo, para mim a música serve para todas as situações em que queremos dedicar um momento bonito a algum "amigo" destes (não se lembram de ninguém, assim de repente?).

2009-08-24

No reino dos homens peludos (crucificando a futilidade)

Isto também mete, literalmente, nojo.
Não os pêlos nas costas, muito menos quem os tem ou quem os tira, mas quem decide perder o seu tempo a falar deles, principalmente para dizer que os detesta.
Sou peludo, sim, e tenho-os, sim, mas nunca tive o Tony Ramos como modelo, não, e não os vou tirar, não, apesar de saber que ao longo da História, sim, exceptuando talvez o período das cavernas, não, ter pêlos nas costas nunca foi moda.

Sim, sei disso tudo.

Mas conheço os meus mecanismos biológicos de expulsão, e reparei que começo a sentir fortes náuseas quando vejo uma mulher, na televisão ou fora dela, dizer que odeia homens peludos. Pode ser um mimo estético, mas a consideração por tal especimen cai-me logo pelos ralos. Não tenho culpa, e tenho razão, porque é tão grave dizer isso como eu gastar o meu precioso tempo a dizer que odeio mulheres de cabelo curto (que não odeio), ou que repas em cima da testa são um caso de saúde pública (que não é), e que, sim, uma mulher com mais penugem é a coisa mais asquerosa à face da terra (que também não é).

Pois estas opiniões, para quem as tem, como tantas outras, dão-se com pudor e na intimidade, e todos concordam que deve ser assim, mas ninguém tem pejo em dizer, publicamente, que odeia homens peludos, e que vomita à vista de pêlos nas costas.
Na televisão ou numa roda de amigos.
Não se diz que se detesta gajas com mamas descaídas, ou com rabos arrebitados, ou lábios finos, ou orelhas grandes, em público ou em privado.
A isso chama-se delicadeza e civismo.

Então porque é que se diz com tanta propriedade que se odeia homens peludos?

Quem o faz publicamente, é publicamente parvo, e estúpido, intensamente estúpido, em privado.

A única coisa que peço é que a Soraia Chaves não venha dizer que destesta homens peludos, porque eu tenho investido muito do meu suor a defender que a rapariga vai ser uma actriz de primeira, que pode virar fenómeno fora de portas, além de suspeitar que seja terrivelmente inteligente.
É a única que resta com miolos entre as musas nacionais, depois de um destes dias eu ter ouvido a Diana Chaves, no exercício da sua liberdade de expressão, dizer que gosta de um peito lisinho.
Ora merda!
Não vê ela que exclui todos os outros????

Razão tem o Joel Neto (que não sei se é peludo ou não).
Só falta que um dia destes, num inquérito de Verão, alguém diga:

"Tenho sempre dez livros de cabeceira, trinta na mala do carro, mas odeio homens peludos!"

Ide mas é....

PS: E podem bem vomitar à vista das minhas costas, sim, porque, sim, são minhas!

2009-08-22

Os brutos e a menina campeã (Semenya)

Já estou tão farto disto, que me parece honesto escrever o que penso antes que os despudorados senhores da IFAA publiquem os resultados do teste ao género sexual de Caster Semenya.

Com as palavras todas, a forma como o mundo em geral, e certas instituições em particular têm "fabricado" o caso da grande atleta e campeã do mundo dos 800 m em Berlim, Caster Semenya, é, mais do que revoltante, nojenta.
Então lembraram-se de duvidar agora? Ela é tão feia que tem de ser um homem?
Isto é maneira de se tratar uma senhora (corrijo...uma menina) ?
É mesmo preciso envergonhar e humilhar um ser humano desta forma?
Ninguém tem noção de decência?

Meus caros, sem qualquer fundamento sério, que não o fútil da aparência "masculina" e a superioridade esmagadora (perante suspeitas imperialistas, como vão ver), a dita Federação Internacional e os órgãos de comunicação de todo o mundo têm oferecido um megafone indelicado e fútil sobre a aparência da atleta, no momento da sua merecida glória.

O que diz isto de nós todos?

Imaginem agora, como é altamente provável que aconteça, que Caster Semenya é "declarada" mulher. A menina de dezoito anos proveniente de uma família negra pobre de África do Sul, que teve o desplante de ser campeã do mundo de forma brilhante, fica marcada para toda a vida por este episódio (o seu pai já declarou, e muito bem, sentir-se pessoalmente ofendido).

Que certas bestas do jornalismo não tenham noção, princípios ou limites para inibir a divulgação destas notícias, ainda vá (por acaso, vi uma excelente e cáustica reportagem do Luís Costa Ribas para a Sic - muito bem! - , coisa rara na televisão portuguesa - e um breve mas saboroso comentário irónico ontem mesmo na RTPN, que mostra que nem todos os jornalistas vêm comer à mão o que lhes dão sob holofotes;), e quando falo de princípios ou limites estou a lembrar-me de uma capa do "The Sun", salvo o erro, "gritando" a Caster: "Prova que não és um rapaz!"

E então, como explicar toda esta precupação dos britânicos?
Fácil: É que, também de forma brilhante, a britânica Meadows conseguiu uma medalhe de bronze "in extremis". Se afastasse à força a medalha de ouro, ficava com a prata, vejam lá (onde está o senhor de La Palice?), e a Grã Bretanha ainda não ganhou nenhuma medalha de prata!!!

Bastou este mau perder para rapidamente a lamacenta imprensa britânica conspurcar o nome da menina sul africana de 18 anos, e o resto do mundo ir atrás.

"Porque é notícia."

Ora merda!

Sejamos lúcidos, sensatos, e ignoremos o desprezível rebanho que nos leva todos os dias ao precipício, balindo alegremente.

O Quinto poder é muito estúpido!

2009-08-12

Onde arrumar os sentimentos (before we turn to stone)



Onde arrumamos os sentimentos, quando de repente nos apercebemos de que gostamos muito mais do que odiamos, ou que por acaso não odiamos nada, só desprezamos algumas coisas e algumas pessoas, desprezamos humildemente, sem desfazer, mas essencialmente levantamo-nos de manhã e, estejam as coisas fáceis ou difíceis, passamos o dia em busca de vida, e quando se procura encontra-se muita, porque ela está aí, está aí todos os dias no vapor da respiração, e mesmo quando nos dão morte, a morte de alguém que nem sequer é nosso, nós encostamos as nossas costas às do desaparecido, estendemos uma passadeira vermelha e durante alguns dias, às vezes muitos dias, percorremos o seu caminho de volta, detalhando momentos, e quando todos detalham momentos mostram aos outros o tanto que lhes escapou, por isso mesmo na morte há vida, mas o problema é se, de repente, nós começamos efectivamente a olhar para todos os que nos rodeiam com olhos de ver, como faríamos nos seus funerais, com vontade de gostar deles, de apreciar o que eles fazem, de validar e testemunhar as suas vidas, o que acontece é que de repente o nosso coração rebenta, porque se estivermos atentos, mesmo muito atentos, até aquela pessoa que nós sempre tivemos como mesquinha e má, mesmo essa pessoa traz vida no rosto, algumas rugas de sofrimento, e como repara que nós a olhamos de frente comete o pecado de sorrir, e depois todos os dias nos sorri, e nós começamos por detestá-la menos e acabamos a gostar, gostar pelo menos um bocadinho, afinal ela é má porque nunca se deteve sendo boa, e se nós abrandarmos em alguém sua maldade, pode dar-se o caso da bondade, não, não é bem a máxima do Luis Cencillo (o filósofo que eu deixei morrer sem prestar respeitos), que dizia que um dos erros da vida era tomarmos à conta de mau o que é sempre bom, mas de vez em quando mau, e à conta de bom o que é sempre mau, mas de vez em quando bom, não é isso, o problema é mesmo onde arrumar este sentimentos, se mesmo o detalhe dos maus e mesquinhos pode mostrá-los bons, o que fazer dos que são mesmo bons, o que fazer da beleza das pessoas na rua, o que fazer do sorriso da empregada na loja, o que fazer da tristeza que conseguimos quebrar atrás de um balcão, há olhos tão tristes que são quase choro, e nós estamos ali perante eles e não os combatemos?, claro que sim, claro que combatemos, e eles sentem-se combatidos e quando chegam a casa para serem injectados de tristeza de novo, sim, porque aquela tristeza não era do trabalho, o trabalho só não ajudava, mas há tristezas tão fundas que vêm já de casa, e ela leva de fora um sorriso e chega a casa e discute ou é desrespeitada ou espancada e fica triste de novo, é preciso voltar no dia seguinte, onde é que arrumamos os sentimentos da rapariga que é tão bonita que temos de lhe agradecer, porque muitas raparigas são bonitas e não se põem assim, ela parou perante si em casa e disse que ia supor que era a mais bela do planeta, supôs isso e saiu tão confiante e produzida que nos iluminou, lá está, o que fazer do prazer e da beleza que nos trazem as mulheres luminosas como a canção, quando passas à minha rua, como um anjo que flutua, os meus pés nunca pisam o chão, por acaso escrevo estas palavras de desespero pelos sentimentos fantásticos que tenho jorrando sem prateleiras onde os pôr, por acaso escrevo ouvindo outra canção, antes de nos transformarmos em pedra, que diz assim, e assim termino, porque afinal não consigo arrumar, ou melhor, eu cá sinto que a forma de os arrumar é sendo feliz e contagiando todos em volta, mas nem sempre eles deixam, há pessoas que adorámos no passado que não nos deixam chegar perto, têm medo de ser vistas no presente, têm medo de gostar de ver, outras que adoramos hoje e se eclipsam, mas temos é de ir caminhando em passos firmes e faremos a estrada, a nossa e a de todos, que as estradas são para todos os que passam, e ficam feitas, diz assim a canção:
vamos lançar um segundo olhar/ para lá do livro de histórias/ e aprender que as nossas almas são tudo o que temos/ antes de nos transformarmos em pedra;
vamos dormir com cabeças mais leves/ e corações demasiado grandes para caber nas nossas camas/ e talvez nos sintamos menos sozinhos/ antes de nos transformarmos em pedra;
E se esperares pela mão de alguém/ certamente cairás;
Sei que não sou nada de novo/ mas há muito mais que podemos fazer/ mas como é que podemos expiar/ antes de nos transformarmos em pedra?;
Sei que se for pelas ruas ser bom ninguém me aceita, chamam-me louco, afectado, poeta, artista, estranho, talvez louco outra vez,
mas eu vou pelas ruas ser bom,
a bondade é lamechas e eu vou levar-lhes a insuportável lamechice da bondade,
foi isso que decidi,
vou pelas ruas ser bom até fenecer.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Músicas referidas no texto: "Quem és tu, miúda?", Azeitonas, e "Turn to stone", Ingrid Michaelson; video refere-se ao momento que esta última musica, episódio 22, temporada 5, Anatomia de Grey;

2009-08-09

Redshoes e Kafka com a Guerra fechada e o hospital aberto


Nota Prévia: detalho alguns momentos privados porque se me impõe, e acaba por ser serviço público explicar que há coisas que não podem funcionar assim;

Não tive noite e dormi três horas de madrugada, porque ontem sucedeu cá em casa um daqueles momentos em que a saúde faltou, e quando assim é o mundo revira-se e o que deixa de suceder é a imortalidade.

Porque ontem não havia mais nada a fazer no hospital privado (a urgência despega às 24h), viemos dormir pouco e marcámos hora para pegar ao serviço do sofrimento no hospital público. Na véspera, tinha criticado de forma inclemente os hospitais públicos perante a médica do sistema privado. Hoje o dia deu-me razão.

Chegámos pelas 9h, e depois eu não pude entrar, e depois o menino foi atendido, e depois fez análises, pelas quais esperou mais de duas horas.

Às 10:50h, enquanto eu tomava café numa confeitaria das redondezas e lia um artigo no DN sobre as casas dos escritores, alguém ligou para a guerra e disseram-lhe que estava fechada. Raul Solnado morria aos 79 anos. Não me caiu nada bem, porque aquele sorriso malandro não é dos que fecham. Não fechará.

Fugi para a Fnac e deixei-me levar pelos livros, persegui a Rainha Vitória (é impressionante que, sendo um símbolo da história da Europa, não haja nas nossas livrarias livros sobre a época vitoriana ou a Rainha Vitória), a arte e arquitectura em Paris - grande livro que desencantei na Bertrand - (onde descobri que Kafka era da idade do meu bisavô e que também tinha escrito nos seus diários sobre o Metro parisiense). Decidi perseguir Kafka também.

Tive a sorte de ir almoçar com os meus dentro do hsopital, saber notícias e abraços.
Quando chegaram à minha beira eram 13 horas: Levavam cinco horas no corpo numa sala de espera bafienta entre gritos, e só no último minuto tiveram dos médicos uma notícia mais animadora.

A maioria dos médicos, mesmo que pendure um sorriso nos dentes, não nos olha como gente animal, mas como animal gente. Há uma desapego que se sente num olhar que é a média de todos os olhares, o olhar de enfermeiros, médicos e pessoal auxiliar, vi-os na esplanada do bar interno e era assim, hei-de-escrever sobre isto, há uma defesa nas palavras com que se dirigem a nós, chamando mãe à mãe e pai ao pai, como quem chama boi ao boi e vaca à vaca, sem ter uma verdadeira noção de que nos estão a tratar como coisas, meros elementos mais ou menos previsíveis do sistema.

Foi bom poder comer com os meus num bar decente, mas foi mau que o filme do Tom & Jerry estivesse parado na mesma cena, durante horas, na sala de espera de pediatria, e ai de quem se atrevesse a dizer que o filme rolar era importante para amenizar o sofrimento das crianças.
Na televisão do bar confirma-se e o coração ainda aperta mais: Raúl Solnado fora mais longe.

Era preciso esperar pelas 14h, porque ecografias não urgentes só de tarde (lembremos que se estava numa "Urgência" - pelos vistos não urgente - ). Eram 14:30h quando foram chamados para junto da parede da Eco, e apenas 15:30h quando a fizeram.

Eu libertara-me na Leitura, em Ceuta, a ler os diários de Kafka, de como ele deslumbrava as próprias irmãs e conseguia ser virtuoso dentro da casa de banho lendo-lhes alto, mas não perante os homens do seu tempo, como tratava o Sr. K como um alter-ego, e como misturava no dia-a-dia a ficção com a realidade. Mas a edição da Difel é acrítica e reduzidal. Sobre Paris quase nada.

Já passava das 16:30h quando os meus foram chamados à médica, e era oficial:

saíram perto das 17h, o que perfazia oito horas , oito, oito horas ininterruptas dentro de um hospital para ter uma consulta em que nos chamam pelo papel social, uma análise ao sangue e uma ecografia.

Fugimos.
Fugimos pelo Sol e pelos jesuítas de Santo Tirso, pelas compras breves num Outlet, pelo jantar junto ao mar, e à noite...

... Rita Redshoes ao vivo em Vila do Conde.

A Rita é uma riqueza.
Bonita e pequenina, com os tiques robóticos de David Fonseca (que nela ficam a matar), mas bem mais arguta do que ele, que nunca teve a ideia de escolher como nome artístico, por exemplo, David Bluetie.

É uma riqueza a Rita, e conseguiu dar uma boa hora e quarenta e cinco minutos de comunhão, de desempenhos intensos e profissionais (uns fiéis ao disco, e ainda bem, outros exponeciando-o, e ainda bem), humor fino, a Rita chega ao palco em meio desconchavo mas sobre ele parece bailarina, muitas vezes boneca assumida, contém a expressão no canto e mal risca rugas na cara, escalou os minutos quase como uma artista internacional e terminou intimista, já em encore, com um pássaro a quem ela pede que a leve dali, porque não quer morrer num dia de sol.

Nunca pensei que um fio de luz branca, outro de azul clara, virado para o público, e o artista no negrume a cantar uma canção quase sem instrumentos, fosse mais privada para quem vê do que a luz de outros concertos, ou seja, nesse momento final, em vez de a Rita estar sozinha no palco com um foco suave sobre ela e tudo em volta na mais profunda escuridão, chegou-se à frente e o foco incidiu no público e ela é que ficou na mais pura escuridão, só lhe víamos um recorte preto, mas a verdade é que estava ali, ao fundo de um braço que nunca se estendeu, de vestido preto reversível e sapatos vermelhos, tentando destruir-nos o coração a cada segundo.

Deu cabo de nós no dia em que a guerra fechou e o hospital abriu sem tino, Raúl Solnado poderia levar-nos pela mão a conhecer a Rita, porque Kafka alternava constantemente o virtuosismo e a excelência com a banalidade. Não tens de te acreditar nisto. Não acredito.

A Rita está inclinada em tripé sobre os teclados, provocante e bem ensaiada, genuína e virtuosa, a acompanhar-se no Choose Love, uma menina portuguesa com tudo para vencer e se massificar, e eu queria dizer isto mas já não posso.

Queria ligar para a frente de batalha e dizer-lhes coisas bonitas, mas são quase três da manhã e a guerra está mesmo fechada.

Pedro Guilherme-Moreira

Créditos Fotográficos: Miguel Rosenstock

2009-08-08

A Jovem Vitória (e o grande cinema)

Primeiro, Emily Blunt, actriz toda.
Tem uma beleza real, próxima, até algo demodé, o que em cinema é sempre útil.
Cria uma relação de cumplicidade connosco desde o primeiro minuto, para não mais nos sair da pele. E permanece nossa algum tempo depois de sairmos da sala. Para quem andava distraído, desde 2004 que ela dá cartas como actriz, e não era preciso a sua excelente actuação no menos bom "O Diabo veste de Prada" para o confirmar.
Como jovem rainha Vitória - numa composição de um equilíbrio notável, mesmo tocante, entre força e doçura, determinação e fragilidade - torna-se uma actriz maior.
Está na minha lista "Tio Óscar".

Depois, todo o filme.
Preeche-nos os poros, envolve-nos, está estudado para emocionar (e emociona!) e é, além do mais, uma janela para o passado. Há certas mis-en-scénes que impressionam pela sua perfeição, como que fotografias contemporâneas do tempo retratado. O canadiano Jean Marc-Valée - que também já prometia em C.R.A.Z.Y. (2005) - está de parabéns.

Não sei no que estavam a pensar os críticos que reduziram este filme a um produto menor.
Por favor, não se fiem. Eles já se esqueceram do que é o prazer em cinema.
"The Young Victoria" é um grande filme para pessoas de carne e osso.

Créditos Fotográficos: Martin Usborne

2009-08-07

Nobel e Camões para Mia Couto

Pronto. Já está. Com este título, que vou repetir de seguida, "Nobel e Camões para Mia Couto", este artigo vai passar a propagar-se na rede universal, e em alguns dias passa a facto. E daqui a algum tempo vai haver uma mesa redonda para debater a possibilidade, e já não se vai saber onde nasceu a ideia. Um mau jornalista vai pesquisar qualquer coisita antes de uma entrevista que vai ter a sorte de fazer ao Mia, e lançar-lhe a pergunta "Sabe que já se pensa no seu nome para o Nobel?", e o Mia vai ter de desconversar, como fazem todos os escritores, porque ninguém aguenta um que diga "sim, penso nele todos os dias!", ou "sim, claro que quero, claro que mereço!", e preferem uma alienação momentânea tipo Doris Lessing, com um saco de compras no regaço e ar de campónia, que é a nova moda mediática, dizendo algo do género "Quem, eu??? Já nem me lembrava que escrevia!"

Só que isto é muito sério e decente, modéstia à parte.
Claro que vou aproveitar para o Mia o lado bom desta coisa má: a propagação irracional e estúpida de uma ideia, boa ou má. As boas fazem-nos os dias, se quisermos e soubermos procurá-las, as más fazem os noticiários.

Até há alguns anos, as brancas do Mia eram em número insuficiente, assim como o tempo decorrido sobre o seu nascimento. Agora são bastantes, e em anos já vai na casa dos cinquenta, o que pode querer dizer que tem quase sessenta, pelo menos ao tempo em que esta mensagem acabar de dar a sua terceira volta ao mundo e surgir num computador qualquer como se fosse uma grande novidade.

Não se deve desperdiçar um Nobel num escritor que vende massivamente, como um Ian McEwan ou um Philip Roth, não se deve, em suma, desperdiçar demasiados prémios Nobel em americanos ou europeus, que vivem muito centrados no seu umbigo (mais aqueles do que estes, mas estes cada vez mais do que aqueles;).

Precisamos do Nobel, pelo menos, para nos lembrarmos de que não estamos sozinhos no mundo, e que algures num canto esconso do planeta há grandes pessoas a escrever (porque, já agora, se me é permitido o remoque, eu não acredito em génios literários).

O Mia é de Moçambique, um dos mais pobres países do mundo (ou seja, seria bem empregue e um estímulo para a economia, mataria a fome a muita gente;), e a questão não é ele escrever maravilhosamente bem. A questão é que este homem, depois de ser mundialmente conhecido e reconhecido como um inventor de palavras, e assim poder passar à eternidade, reinventou-se a si próprio, depurou a linguagem, sustou os deliciosos neologismos, e ainda assim conseguiu crescer, fazer livros cada vez maiores, sempre com o poema a construir-lhe as frases.

Ou seja, a Academia sueca, e já agora o júri português do Camões, têm onde se agarrar para lhe dar isto e justificar longamente as suas decisões.

Agora aguenta-te, Mia.
É que quando este artigo se propagar em forma de verdade e chegar à Suécia, lá vais tu para as intermináveis listas anuais esperar vez.

Claro que, como homem humilde e bom que és, vais sentir que já ganhaste só por aparecer aqui, nos fundos de um remoto blogue de um português subterrâneo.

Fica o grito de guerra:

NOBEL E CAMÕES PARTA MIA COUTO JÁ!

Pedro Guilherme-Moreira

PS: A composição da foto está deliberadamente grosseira, para não virar verdade antes de o ser:);

2009-08-06

A que sabe ser livre

A atitude desta senhora em seis minutos e tal de excelência absoluta é tudo o que eu pretendo da vida, e não é pouco. Garra, virtuosismo, autenticidade, bondade. Quando descobri este momento, em busca do livro que deu um filme, "The World Unseen", descobri que é esta música que o abre, e quis rever a Nina, mas não conhecia este pedaço de céu negro (que é como que diz azul). Fenomenal Nina Simone. "I wish i knew how it would feel to be free." Ao vivo em Montreux, 1976. Stay with me:)

2009-08-05

Estive sempre aqui (haikai)


Lentamente deixei
O corpo em que te encontrei,

E voltei.

2009-07-28

Uma lição














O termómetro da carrinha marcava cerca de 35 graus quando nos aproximámos da minúscula localidade de São Lourenço, não muito longe do litoral algarvio, mas o suficiente para se distinguir.
O resto é uma lição de civismo, aos pés da lindíssima igreja de São Lourenço (se quiserem saber o que é uma igreja Algarvia, não procurem mais), que por sua vez fica em frente a uma escolinha primária que deixa qualquer criança com água na boca.
Querem ficar esmagados com o carinho de um espaço que, gratuitamente e por obra da iniciativa privada de um casal de alemães (ele morreu há poucos anos. Cá. Mas Maria permanece. E faz.), promove concertos e exposições e ainda se tem a si próprio para mostrar, lindíssimos jardins repletos de magníficas obra de arte de grandes artistas. Na altura que lá fui, estava patente a exposição "bichos", da também grande Joana Vasconcelos.

Só o Centro Cultural de São Lourenço, uma conjunto de casas velhas recuperados como equipamento cultural por este casal de empreendedores, e do seu bolso, vale uma viagem de muitas centenas de quilómetros. É o mínimo para se testemunhar a excelência e a lição aos poderes mesquinhos deste país.
E não há forma de lidar com esta excelência, que se pega aos poros, senão com um sonoro Obrigado.

Obrigado Maria. Tu fazes.
Danke Maria. Du Machst.

2009-07-14

Uma longa Sexta-feira de Arrebatamento

A vida não é um filme, mas às vezes parece. Supera. Dizem que imita a ficção.
Em que lugar depositamos os sentimentos?
Se na vida falamos deles ou os exacerbamos, somos olhados de lado.
No Cinema ou em frente à televisão, pode ser.
Se metermos tudo em caixas bem rematadinhas, e tivermos o cuidado de as arrumar, ninguém se agita, está tudo bem.

Pois eu vou dessarumá-los todos sobre a mesa.

No dia 10 de Julho tudo começou poucos minutos depois da meia-noite com uma mensagem decifrada do Anjo a Norte, cuja essência se solveu na minha tantos anos depois.
Prosseguiu com sinais entre mim e o ecran do computador, em busca do equilíbrio do dia seguinte.
Deitei-o.
Deitei-me.
Deitada.
Acariciei-lhe os cabelos, como sempre.
Fiquei-lhe junto da pele, desliguei a televisão e adormeci.

Como sempre.

Acordaram-me antes da hora e deram-se-me.
Rumei a Miramar, deixei-o, depois fui sozinho para Francelos, deixei-me.
Chegaram mensagens em catadupa, chamadas em catadupa, quase tudo ao mesmo tempo, à porta da minha rua. Debaixo da minha árvore.
Depois fui voar.
A praia estava perfeita, o ar no peso certo, o sol sobre as pestanas, eu voando sobre a areia.

Como sempre.

A professora ao meio-dia, com palavras no olhar, trinta e um anos depois.
Falei-lhe de tudo, agradeci, bebi o café de saco e comi os bolos de pão de ló de Ovar, agradeci, vi-a chorar a morte do seu menino, agradeci, e depois quis falar-lhe dela. Da tal que me andava no peito ia para o mesmo tempo.

É assim, professora, de nada me lembro senão da Garça e do seu traço de luminosidade, um sorriso é um gesto?, seria um movimento de lábios que só não me cegava porque havia demasiada sombra nos outonos e invernos, ela era o astro, o único astro,

É assim professora: tenho saudades dela, muitas saudades dela.
Veio-me pelo braço até à carrinha, disse até sempre, fiz dois telefonemas e a meio da tarde fiquei com um pé no presente e outro no passado, os mesmos trinta e um anos de abismo no meio de mim, mas a amiga de volta, a mesma que dançava todas as rodas de todos os dias de todos os círculos do meu pensamento, voltei à metáfora do filme, estava em câmara lenta com o sorriso suspenso e a batinha branca planando no meu pudor, está aí. Estás aqui.
Que bom que tenhas vindo, finalmente.
E logo hoje.

Antes, tinha almoçado com o rapaz que me ouve.
Que me ouve tudo e ainda pergunta mais.
Como pode? Não existem dele hoje.
Tenho tanta sorte.

A noite ia começar a fechar-se, mas saí com o filho pelo asfalto e tinha de ser cedo o pavilhão de voleibol, porque o foi cedo também na vida, havia lanternas na alameda, é o mesmo que dizer que me alumiaram elas todas, principalmente três, e eu precisava de uma inundação prévia, algo primordial, de surpresa, antes que fosse dobrado o meu cabo.

Voltei pelas primas (primeiras) que podiam não estar, e estiveram afinal, estive também, estive por dentro e por fora, e quando cheguei ao meu pátio já estava em suspenso, e não consta que tenha voltado ao chão.

Começou cedo a noite com os amigos da manhã da vida, o manto seráfico a cair sobre o cimento, eu sempre a um metro do chão, e depois sufoquei, sufoquei de tudo o que a vida me quis dar nestas décadas, sufoquei dos sorrisos que vieram claros, sufoquei da amizade que sentia nas peles, de algum amor que transbordou sem querer, a saudade, raio de saudade que nos atropela o olhar e torna trémulos os lábios, não chorei.

Não chorei a noite toda, e quando chorei ninguém viu, foi uma lágrima por dentro do fim do vídeo que entretecera dias antes, parabéns a todos vocês, a história de mim feita pelas imagens deles, como tinha de ser.

Estive distante, quase de fora a ver a minha sorte, os amigos, as amigas, a mulher e as mulheres da minha vida, o filho e os filhos das minhas palavras, fluía a música de ontem, a música deles, na rua havia quem ouvisse o mar, o mar de hoje que subia pela rua dos bombeiros até nós, molhou-nos os pés de espuma salgada, quase todos se deixaram ficar na praia, ninguém partiu.

Abri o bolo, e passado um bocado expus-me. Despi a camisa.
Dei-me a todos e, sei-o profundamente, a tudo.
Quem és tu, miúda?
Anda comigo ver os aviões, deixa que a brisa os leve de volta.
Debaixo da ramada da videira cantei a Lenda das Rosas porque me desafiaram, eu sem saber a letra, eu sabendo o poema,

disse o poema todo

Na mesma campa nasceram duas roseiras a par
e enquanto o vento as movia, iam-se as rosas beijar

O sol reapareceu, como eu pedira, mas nada ficara de pé.
Começou a despenhar-se na morrinha
que havia de ser eu

(chorando, horas antes).

Jamais me levantarei desta longa sexta-feira de arrebatamento.
Jamais me quererei levantar.

Morrerei feliz só com a película da morrinha que me sustentou o peito

e me suspendeu sobre a noite

até eu próprio cair sobre mim

com o húmus de todos os que me fizeram assim.

2009-07-10

40 (um beijo meu e mais vida)

Hoje quero ser frugal. Pouco mais de um beijo.

Tem sido uma aventura quimérica até aqui.

Doce, brutal, bonita.

Ser marido e pai são as maiores realizações altruistas vida.

Ser escritor é finalmente a implementação prática de toda a minha essência.

Gosto das rugas e dos cabelos brancos, não gosto tanto das dores no corpo, mas desacelerar também nos faz ver coisas novas. O tempo que pensávamos não ter, por exemplo.
As pessoas que pensávamos perdidas para sempre.

Estou com vontade de ir até ao fim da linha feita média. O dobro, pelo menos:)

E neste dia tenho que agradecer a dois tipos de pessoas:

Aos que gostam de mim e aos que me respeitam.

Um enorme bem-haja a todos.

Pedro Guilherme-Moreira

2009-07-07

Um chá tomado por fora do corpo (Algarve)

Em que estás a pensar?, pergunta por defeito o Facebook.
Às vezes essa tipificação provoca! E quero responder:

Sempre ouvindo "Os Azeitonas", penso na película azul que nos envolve de calor, como um chá tomado por fora do corpo, que é o Algarve, e que eu aprendi a cultivar como o zerar de corpo e alma. Para lá chegar, tenho a secretária cheia de processos para limpar, e durante uma semana pararei de ler, de escrever, de investigar, quase de viver. Só uma semana!.Mas tenho sempre as corridas diárias na praia...e Sexta, o 10 de Julho, data em que sempre me senti especial, mas a que só dei uma importância íntima. Esta ano está-me a extravasar. Às vezes vou-me abaixo das canetas, não sei se aguento estar tanto tempo cá fora, exposto, mas está a ser delicioso.

Venha Sexta, e depois, algures na semana que vem, venha vagarosamente o chá tomado por fora do corpo!

Créditos fotográficos: a foto consta do post The Sky Is The Limit, Posted on February 10th, 2009 by Shawn Kung

2009-07-05

Jorro de luz à entrada da magnífica semana - 10 e 40 anos

Hoje, às 17:35h, faz dez anos certos que sou pai.
Nunca escrevi publicamente prosa alguma sobre isto (escrevi poesia, vá lá), mas esta não é uma data qualquer. Estou profusamente feliz.

Ontem andava pelo shopping quase deslumbrado com cada pessoa que se cruzava comigo, pensando que algo de estranho se passava comigo. Não é normal achar toda a gente bonita. É mesmo perigoso. Mas era isso que sentia. Estou convencido de que me assaltava a felicidade pura, que afinal só existe nestas embalagens de momentos, não pode ser permanente. E por saber disso deixei-me estar no jorro de luz.

Em cinco dias perfaço quarenta anos, e antes que seja tarde, deixem-me que vos diga o ano magnífico que tem sido.
Costumo dizer que sou pobre de bolso, mas opulento de espírito.
Sou caso provado de que o dinheiro não traz felicidade, e se a falta dele não a concede automaticamente, a noção do seu carácter perfeitamente acessório ajuda bastante.
Viver economizando ódios e canalizando essas energias negativas para enfrentar a incompetência e a desonestidade, porque não há dúvida de que é duríssimo ser decente.
É preciso uma atenção constante, uma aposta na busca da lucidez, mesmo contra os que temos como modelos.

Finalmente, sendo contidos e respeitosos, deixemo-nos de merdas.
Pelo menos a partir dos quarenta.
Basta a vida anterior para as incertezas de estatuto.
Os quarenta, não dando garantias de respeitabilidade, dão ao menos aquele apriorísitico estauto do maduro. É a idade zero para a reclamção da maturidade, com a consciência plena de que se reclama um posicionamento social, e que isso não nos livra do perigos de infantilidade até à morte: chifres em parlamentos, por exemplo.

Deixemo-nos de merdas, porque está na hora de dizer a todos as coisas boas que lhes pertencem sem resguardo.
Sem receio do que possam pensar, ou do sentido da sua aceitação.
Se essa entrega criar anti-corpos no interlocutor, paciência.
Um dia ele vai querer a palavra branca e não a vai ter.

O mais certo é contagiarmos os outros dessa coragem e dessa bondade.

Hoje, às 17:35h, faz dez anos certos que sou pai.
O meu filho é talvez do outro mundo, agridoce como são os melhores, e as corridas pelo pátio à meia-noite e trinta dizem-me que é feliz, o braço sobre o meu pescoço mostra-me a bússola que me guia, e eu já não preciso que me digam como sair.

Estou cá bem. Fico para sempre, se me deixarem:).

2009-06-26

O teu morreu (o de Charlie também)

A Farrah Fawcett (Jill) era o anjo do meu primo Gonçalo, a minha era a Jaclyn Smith (Kelly) e a do meu mano a Kate Jackson (Sabrina). Tínhamos entre nove e onze anos. Com elas fomos tudo: piratas, gangsters, detectives, playboys, mas nunca cobiçámos a mulher do próximo:). A loira platinada que deixou as rugas crescer em si sem esmorecer a beleza, morreu ontem, e só hoje eu, o meu primo e o meu mano vamos parar de brincar aos Anjos de Charlie. Mas amanhã, às primeira horas do dia, quando o seu corpo for escondido do mundo, voltaremos a encontrar o ouro dos seus cabelos, que é certamente o mesmo que brilha nos nossos sonhos.

(N.A.: na realidade, o funeral de Farrah tem lugar na Catedral Católica de Los Angeles na Terça-feira, 30 de Junho de 2009; depois de ter visto - hoje mesmo, 28-6 - o documentário sobre a sua luta contra o cancro, um pedaço de coragem que incorpora a exacta atitude que acredito todos devamos ter perante a morte, as modestas palavras que acima escrevi assumem uma importância particular, e Farrah agiganta-se mais e mais como símbolo das coisas boas da vida...)

PS: No mesmo dia, morreu Michael Jackson, e a lenda continua...

2009-06-25

O Anjo a Norte

Vi-a pequenina com tufos doirados entre os panos alvos que podiam ser as roupas penduradas no estendal ou o linho da mãe a que se encostava envergonhada nos passos pequeninos que formava até à praia.
Mas o que nunca naquela rua alguém alguma vez esqueceu foi o sorriso líquido da menina de Francelos, o sorriso onde sempre o nosso olhar suavemente se estendia, tal a clareza das suas águas, seriam os dentes pequeninos bem alinhados, seria o coração grande, seria toda ela, leve, seria a boquita franca ou os largos sinais da sua felicidade, assim era a pequena vizinha ao Norte de mim e da minha casa, portões acima.

Fui-me embora na deriva normal da vida, e um dia tomou-me a tristeza porque deixara de ver os cabelos belos brancos curtos do pai da pequena vizinha a Norte, e disseram-me outras vozes que se tinha imaterializado na sua bondade.
Deixei-me estar na deriva. Afinal o que podemos nós nas nossas vulgares tristezas perante os muros que erguemos em volta?

Um dia, muitos anos depois, outra menina, que mais de perto era mulher, e mais de perto ainda puro rasgo, pura luz, um dia essa menina passou-me vogando pelo passeio da casa de Francelos, onde eu estava por acaso, passou vogando e sorriu, sorriu claro, e prosseguiu para Norte, e quando eu a vi entrar na mesma casa da minha pequena vizinha, indaguei sem me deter. Quem seria? Não respondi, e a vida prosseguiu.

Meses depois desse dia, a mesma menina, mais de perto mulher, rasgo, luz, passou-me de novo vogando, sorriu, eu desprevenido nada fiz, nem um gesto, nem um aceno, sorriu de novo transparente, prosseguiu para Norte, entrou na mesma casa, e foi aí que me desceu a memória, e dentro dela a imagem da pequenina com tufos doirados entre os panos alvos que podiam ser as roupas penduradas no estendal ou o linho da mãe a que se encostava envergonhada nos passos pequeninos que formava até à praia.

Era ela.
É ela.

Daí até cá, passa sempre e eu nunca a conheço a tempo, nunca lhe trago um aceno ou um gesto que lhe mostre admiração, mesmo ternura, mas ela sim, ela capta-as no ar, tempera o sorriso claro na boquita franca, na face fresca, e prossegue segura para Norte, portões acima.

Estive anos para escrever estas palavras, porque sabia que tinha de ser assim, que nunca poderia tocar à campaínha do anjo ao Norte da minha antiga casa de Francelos e dizer:

- Obrigado por iluminares.

E ela dizia o quê?

"- De nada."?

Há coisas na vida que nos transcendem, há conhecimentos desconhecidos que nos formam e enformam e não podemos fazer mais do que calar ou escrever palavras na distância.

- Obrigado por iluminares a nossa rua toda desde sempre.

Créditos fotográficos: Ashley J Tyler ; modelo: pequena Hailey

2009-06-24

A Grande Noite do S. João do Porto 2009

Palavras para quê? É o delírio de uma noite magnífica! É o Poooooorto!





















2009-06-23

Os nosso seis anos e dicas secretas para ver o fogo de São João


Prometemos à nossa única seguidora declarada (porque page views diários são uns milhares, e mesmo que não fossem, cá estávamos, como ao princípio, há exactamente seis anos - hoje somos pequeninos -), a Helena, que este ano publicaríamos as dicas secretas para ver o fogo sem ser atropelado, e é isso que vamos fazer, de forma breve e não exaustiva.

A primeira é não ver o fogo da Ribeira do Porto. Além da configuração irregular do espaço, que se torna sufocante quando entalados no meio da multodão, é mais bonito ver o Porto em fundo (de Gaia), do que o contrário. Escolher a Ribeira de Gaia só exige inteligência na escolha do lugar para estacionar, e o convencimento de que o São João é para andar a pé. O mais correcto é deixar o carro junto à Câmara de Gaia, num dos parques ou até na rua, e caminhar os cerca de dois quilómetros até à Ribeira, sempre antes das 23h. Prefiram sempre o espaço amplo do calçadão a qualquer encosta pelo caminho, e posicionem-se junto a uma rua larga, para poderem regressar calmamente. A Rua Cândido dos Reis e a General Torres são de evitar para o regresso e nunca, por nunca, tentem atravessar a ponte D. Luís para o Porto na primeira hora depois de o fogo acabar, porque podem ter uma experiência de apertos assustadora. Fala quem já o experimentou.

A segunda é ver o fogo nos dos Aliados, menos espectacular mas perfeitamente relaxado, sem apertos, e também no centro da festa, que há coisa de dez anos deixou, infelizmente, os "movimentos migratórios" Aliados-Boavista até às 2 da manhã, de depois a debandada até à Foz. Era muito mais giro. Agora a circulação em que se pode desfrutar da experiência das marteladas é só praticamente, em torno da baixa, e principalmente o circuito Aliados-Ribeira-Aliados. É muito agradável pulular em frente a São Bento entre as 23h e as 24h. Agradável e divertido.

É sempre importante uma boa escolha para estacionamento, ou ir de comboio. Estacionar perto da saída para a Ponte do Infante, por São Lázaro, não costuma ser má ideia. A partir da uma da manhã, quase todos os circuitos que levam para a Ponte da Arrábida a partir da baixa ficam tomados. Melhor as ponte do Infante ou Freixo. Em São Lázaro é possível decidir qual das pontes se escolhe, espreitando para o movimento da Ponte do Infante. Janta-se bem aí perto, entre Santo Ildefonso e a Batalha.

Finalmente, e por aqui ficamos, um pequeno segredo de um sítio que, não sendo propriamente a Ribeira de Gaia, que permite um visionamento em toda a amplitude, é bom para quem quiser ficar do lado do Porto, mas não lhe apetecer descer à Ribeira. Até tem de subir. Desce a Rua de São Bento da Vitória, a partir da Torre dos Clérigos, até não poder ir mais e aparecerem as escadinhas de. Por aí há um pequeno promontório, num terreno aparentemente baldio, que permite uma vista belíssima sobre o Porto e Gaia, e consequentemente o fogo, num cenário de postal ilustrado. Quem já esteve nas instalações do TIC (preso ou a trabalhar:), sabe de que vista falo. (cliquem na imagem junto a este "post" para verem a planta detlahada; o local fica sensivelmente junto à letra C;)

Para todos, em particular para a Helena, um maravilhoso São João.

Como já devem saber, esta noite é perfeitamente inefável para mim, porque é quando vivo e partilho de forma mais intensa a minha alma tripeira. Emociono-me sempre.

2009-06-19

Este foi o dia (Onde está a Nena e os meus livros e o Mendes e os Joões)?

Foi uma autêntica vergonha. Fui de fato.
Não consegui vir a casa trocar de roupa.


Foi uma autêntica vergonha. Não vi a Nena.


O Mendes disse que o "Anda Comigo Ver os Aviões" está na linha literária do "Readers' Digest", o que é um perfeito disparate, porque este último (sendo brilhante) é impossível de dedicar à minha mulher, e o "Anda Comigo Ver os Aviões" é, porque não é apenas sobre as romarias a Pedras Rubras, mas sobre todo um sentir e um amar dos rapazes do Porto.
Eu, quando ouço o "Anda comigo ver os aviões" (título que pensei por ao meu livro sobre o 11 de Setembro, a sério!), penso apenas no amor de tronco completo que nunca enjoa. Se amas a tua mulher, ama-la a comer tremoços e a ver aviões nas redes de Pedras Rubras, não a jantar no Rivoli à meia-luz. Aí todas se amam! Mendes, a minha mulher sempre disse que o Porto de Leixões e as vias férreas do lado de lá da auto-estrada eram o ideal para fazer um teledisco. Tu escreveste esta canção de mim para ela. Está dito.

À tarde, cheguei em espuma à primeira foz da minha literatura.
O segredo é a alma do negócio, e não posso nem quero revelar mais pormenores, mas uma pessoa não é bem um rio, e se for repete o circuito da água e está sempre a desaguar. Esta foi a primeira de algumas. Foram 34 anos a ouvir elogios do amigo do lado. 20 anos a esperar humildemente pelo momento certo. Uma tarde com uma pessoa magnífica que nos olha e nos ouve. Foi isto que pedi. Nada mais.
Tive.

Este foi o dia.
Mas onde estava a Nena? A Nena foi? Se foi, passarinhou pelas paredes forradas a alcatifa azul escuro do Passos Manuel? Alguém a viu? E o Wally? Eu tinha trocado de caneta, troquei para aquelas de escrever em Cds, que não saem, para dar um autógrafo a um fã, e levar um autógrafo dela. Nada.
O Mendes calou-nos.
Fica-se a ouvir e a ver este rapaz, que começa por nos despistar a fome a falar dos cachorros (pagos) do Gazela da Batalha, continua sempre simples e familiar como se fosse fácil subir a Rua Firmeza entre Santa Catarina e a Alegria, deixa-nos um sorriso luzente e permanente, culmina sempre virtuoso mas olha-nos e toca-nos como se estivesse connosco discutindo as chuteiras do Gomes à soleira da porta do Café dos Lóios, dizendo apenas que não é por causa delas que ele corre com passos pequeninos, quando afinal tinha acabado de dedilhar a guitarra da lágrima negra como se o seu apelido fosse Lucia e o flamenco pudesse esperar. O Salsa - que é meu fã - sabe muito e tocou harmónica de acordeão como um caubói, o João Vaz tornou a "Costureirinha da Sé" da avó ainda mais inesquecível, e ouviu-me e eu ouvi-o e é magnífico.


Mas a Nena não vi.
Será que lhe vou ter de falar desta coisa de sangue que tenho da Babi para ela me perder o medo, e deixar que a musa necessária vingue (já não se fazem musas, não me deixam ter uma)?
Este foi o dia.

Queria agradecer a todos os portugueses,
em particular a uma Magalhães (que também fazem no feminino, sabiam?, e sublime, e tem a ver com a tal tarde literária, não com Azeitonas), um Miguel, dois Joões e uma Barbosa que se deseja mais opaca.


Agora andem comigo ver os aviões.

2009-06-13

Os Azeitonas (e o belo absoluto)

Tenho de escrever isto, porque não quero morrer estúpido:).

É oficial. Acabou de acontecer. Aquele momento em que, tendo passado algumas semanas, ou meses, depois da descoberta de um grupo musical, ficamos parvos de todo e já não conseguimos ver nada de errado neles. Ou com eles. Ou por eles.
Acabei de ficar parvinho de todo, pois.
Há coisas do caraças.
A caixa de Cds da minha carrinha anda instável vai para um mês. Maldição. Eu, que no Rover 620 Si a cair de velho já tinha transitado para música ouvida em Cartão SD (que nunca falhava), tive de voltar à caixa de Cds que já vinha com a minha Tânia Filipa (são as letras da matrícula, não se assustem). A gaja é temperamental. A carrinha, não a caixa de Cds - esta é mesmo pérfida. Ora, mal deixo o centro cá da vila e desço à praia e começam os paralelos, os Cds saltam e no visor ultra-moderno da carrinha aparece a merda da expressão anglo-saxónica "Surface", que eu nunca soube verdadeiramente o que queria dizer no contexto da avaria. Ainda arranjei rituais, saco a caixa fora, limpo os Cds, sopro para dentro, mas ela só funciona quando quer.

Acontece que eu andava mais ou menos dependente de ouvir todos os dias o "Quem és tu, miúda?", e não há melhor momento para fazê-lo do que com o cabelo ao vento a ver passar e a passar por gajas e raparigas e até mulheres parecidas com as que imaginamos saídas da canção, no fundo todas as mulheres passadas e presentes que nos fizeram e fazem estremecer por um momento que fosse (seja) vida fora.

Em resumo, agora tenho de os ouvir na porcaria do portátil, que sem fones tem um som verdadeiramente reles, mas com fones nos envolve no outro extremo.
E aqui sentado deu-me para descobri-los mais e mais.
E uma pessoa fica a respeitar esta (boa) gente.
Não que os tipos interessem, mas interessa a Nena, que um ouvinte distraído leva à conta de menina de coro, mas que umas buscas no "You Tube" nos devolvem na forma de anjo, como o que passa à nossa rua, e flutua. Então aqueles grandes planos da "Praça da Alegria", a cantar os Desenhos Animados, desestabilizam qualquer rapaz bem casado (como eu).

Serem do Porto (como eu) não é pormenor despiciendo, embora "Os Azeitonas" sirvam ao mundo, mais do que ao país. Mas sendo do Porto, talvez possa dizer do Norte, há uma emoção particular, uma essência que nos faz agradecer a estes putos o virtuosismo de um bom gosto que vem das tripas.
E depois ouvimos neles o Neil Diamond, os Beach Boys, o Rui Veloso, os ZZ Top, os anos cinquenta, sessenta, oitenta, noventa.
Já lhes chamei "Os Trabalhadores do Comércio" dos anos 2000, mas isso é muito redutor.

Para quem escreve, como eu, ouvir letras que são livros totais é impagável.

Os Azeitonas fazem-me sentir que não temos de ser "cool" para ter emoções.
Derreto-me todo a ouvi-los, vibro, derreto-me, vibro, derreto-me.

"Quem és tu, miúda", "Um tanto ou quanto atarantado", "Carta ao Pai Natal", "Desenhos Animados" (não me apetece ir ver o nome completo, estragava a onda), "Mulheres Nuas", e agora todas as do Salão América (escrevo esta elegia ao som de uma nova, "Anda comigo ver os Aviões" - que com o foobar passou ininterruptamente nos meus ouvidos já mais de dez vezes, como eu gosto de os ouvir cantar o Porto de Leixões, ou fazer rimar totobola com pistola!).

Juro que apetece chorar de felicidade por ver que há pessoas que conseguem trazer-nos a simplicidade da dita, a imperfeição da dita (felicidade), como apetece não relativizar o belo absoluto com que passei a olhá-los quando fiquei parvinho e me tornei fã, há meia-hora atrás.

Gosto de os ver reclamar para si a simplicidade do romantismo. O direito a ele.

E afinal dão tudo, está tudo disponível gratuitamente para download, e até deram à TVI a música que passa nas novelas (por isso dizem que são dados, e não vendidos, como os acusaram de ser porque para certos afectados tudo o que entra nos Morangos passa a estado terminal da segregação).

Não temem ser confundidos com zés ninguéns, como eu às vezes tenho quando gaguejo a falar dos meus livros, e têm a perfeita consciência de que valem (de valor intrínseco) o mesmo agora do que valiam em 2002, quando resolveram fundar-se numa bebedeira em Ibiza, e que valerão amanhã, quando metade do país se render a estes ímpares poetas dos paralelos da minha carrinha. Valem muito.

Ficam as justas ligações, e a certeza de que vida fora lhes darei mais do que o que custariam os Cds que ele não vendem, dão. E dar-lhes-ei como eles me dão a mim.

http://www.osazeitonas.com
http://blog.osazeitonas.com

Gosto de vocês!!!!!!

(reivindico o direito a ser lamechas, apesar de escritor, apesar de advogado, apesar de investigador, apesar de grande, apesar de chato, apesar de melga, e depois de ter sido trucidado duas vezes por superlativos Cirque du Soleil, não vejo menos brilhantismo na dedicação destes moços;)

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Créditos fotográficos - Marlon



2009-06-07

Eddie Britt morreu. Viva Eddie Britt!

Escrevo deslumbrado.
Acabei de ver o 19º episódio da 5ª temporada das "Donas de Casa Desesperadas", um magnífico espisódio dedicado a Eddie Britt e intitulado "Look into their eyes and you see what they know", uma série que em certo ponto abandonei, mas que está agora melhor do que nunca. É a única que me inspira literariamente. Cada episódio tem introduções e epílogos tão bem escritos, que me dão a urgência de escrever. Não raro, sento-me ao computador para sarar essa dor, como agora.
Como este espisódio já passou há algum tempo nos Estados Unidos (2009-04-19), parece-me legítimo falar no pretérito dessa grande personagem que era Eddie Britt, por já ser pública a "notícia":
Mataram-na. Não sei se por questões contratuais ou de enredo (esta última hipótese não faz muito sentido), nem é importante. Mataram-na e eu vou sentir a falta dela.

Ao contrário das mulheres doces da variante J, que homenageio abaixo, Eddie Britt era ácida e artifical, implacável e frívola. Não era agradável na espuma dos dias, nas horas que passam devagar, não era amiga de todos os minutos.

Mas era uma mulher magnífica.
Voluptuosa, de cultivo da aparênca, do cheiro, do toque, da fantasia, tinha a leveza das mulheres que não precisam de peso, porque o têm de forma específica. Era quase tudo o que queremos ser ou ver. E, se essas mulheres de mera índole estética, do virtuosismo da imagem, também são essenciais para um mundo melhor, porque um mundo sem beleza se torna esquizofrénico, Eddie Britt, afinal, estava presente nos momentos fundamentais daquelas que, aparentando ser suas concorrentes, mesmo rivais, eram verdadeiramente suas amigas, estava sempre por lá nos dias de chuva, com um copo na mão, e não deixava que o colectivo se afundasse em lamúrias. Descolava do marasmo.
Senhora de uma ética muito própria, era profundamente solitária, vivendo atormentada pela verdadeira solidão, de que tentava fugir, sem sucesso.
E por não se dissociar dessa sede incontrolável da aparência e de bem-estar material, alcançou a suprema coragem de entregar o filho, que obviamente amava, à custódia do pai, quando se divorciou.
Morreu num acidente estúpido de automóvel, electrocutada.

O mundo também precisa destas pessoas.
Pessoas bonitas que, tendo consciência do seu desvalor para lá da aparência, são suficientemente humildes para deixar alguns palcos a quem os merece. Todas as guerras, aliás, são feitas do oposto do que era esta mulher. Quantos medíocres conhecemos que, a pretexto de quererem abocanhar tudo, infernizam tudo e todos em volta?

Vamos sentir a falta de Eddie Britt. Era mulher magnífica.
Loira, alta, corpo perfeito, voluptuosa, de cultivo da aparência, do cheiro, do toque, da fantasia.
Era quase tudo o que queremos ser ou ver.

Eddie Britt morreu. Viva Eddie Britt.

PS: já agora, uma salva de palmas para a excelente actriz que é Nicolette Sheridan:), à qual só conseguiram dar nos idos de 1979 dois Soap Opera awards por "Knots Landing", e nenhum Globo de Ouro ou Emmy Individual (ganhou apenas dois globos de ouro colectivos, em 2005 e 2006, pelas "Donas de Casa Desesperadas");

Créditos Fotográficos: Randee St.Nicholas, ABC

2009-06-03

Superlativos eficientes

Estava eu a almoçar na esplanada errada da Rua Augusta (não serão todas?), porque o Martinho estava fechado e não devia, estava eu levando um banho de cosmopolitismo que só Lisboa saber dar neste país (o meu Porto é - e eu dou graças - muito mais recolhidinho), quando vejo a pungente cena (é sempre pungente ver o ser humano superar-se) de vários paraplégicos  - um ou outro tetraplégico - rodeando um executante de rua, fotografando, recolhendo som, filmando. Muitos deles só mexiam a boca, outros não coordenavam os movimentos (como nós), mas formavam todos um grupo coeso, distibuindo-se entre a rua e a esplanada onde se empenhavam em grandes diálogos num tempo e espaço próprios. O meu filho absorveu tudo com admiração. Sei que estes momentos vão fundar um gesto corajoso nalgum ponto da sua vida. A mim apetecia-me chorar baixinho, de admiração, de alegria, de respeito. Nunca de pena.  Superlativos eificentes!

2009-06-01

O Cirque e o Corpo

Hoje vi um rapaz deficiente fazer da sua fraqueza força. Era artista de um circo superlativo. Girava sobre muletas e o público, em silêncio, agradecia ao circo do sol a inclusão óbvia. Óbvia porque o Cirque é virtuoso.

Hoje vi dois irmãos de troncos e pernas atados voando em fios negros.

No dia 25 de Abril de 2008, em Algés, tinham sido dois corpos num jogo de luzes, a luz foi a carne, a dar-nos os mais belos quinze minutos das nossas vidas.
Hoje vi outra vez o público rendido, deslumbrado, as crianças a rir da simplicidade da beleza e da comédia. Aos adultos impressiona o rigor, a coordenação perfeita, a orquestra ao vivo, e a forma como o encanto vira deslumbramento.
(Já vi pessoas chorar por não conseguir sintetizar a emoção do tanto que lhes é dado.)
Entramos, vemos risos e marketing e tudo a municiar o financiamento desta loucura que um dia (no ano da graça de 1984) tiveram Guy Laliberté e Daniel Gauthier na Baie-Saint-Paul (algures no Canadá).
Saímos e queremos contribuir (nem que seja com palavras), porque é devido.
Eles não se enterram no buraco negro do sofá, nem sofrem de exaltação do ego e afundamento do alter.
São.Ponto.
E deviam SER obrigatórios.
Cada espectáculo do Cirque du Soleil é uma "life time experience".
Eu já vi dois, sou por isso privilegiado e viverei mais tempo, nem que seja sonhando aos círculos com o universo destes iluminados.

2009-05-26

A cor do teu nome


A cor do teu nome é clara
E as tuas mãos em flor

Abrem claro o teu sorriso.

2009-05-25

Caro António, este Circo do Direito é...

Afinal, a despeito da ironia inserta no artigo abaixo ("Eu, o Direito, a Soraia Chaves..."), sempre falei hoje cerca de dez minutos aos microfones da RTP e da Antena 1, em directo e sem rede.
Surpresa agradável - A serenidade do António Jorge, o pivot, a vontade de ouvir, a capacidade de deixar falar e a atenção ao que é dito pelo interlocutor; espero que ele tenha percebido que os meus ataques não foram dirigidos à imprensa, à sua imprensa, mas a toda a mediocridade;
por isso é ao António Jorge que dirijo, numa espécide de carta aberta, as seguintes palavras:


"António,

Como viu, e confio na sua lucidez, hoje, no seu programa, não se falou efectivamente de nada.
Mesmo a Dra Elisabete Granjeia, pessoa que muito admiro e respeito (sem reservas), ao ser vice-presidente de um órgão ameaçado de extinção (Cconselho Distrital do Porto da Ordem dos Advogados), nunca poderia falar descomprometidamente. E falou do meu "dedo", quando eu apontei as estrelas. Importava realmente se a questão afecta ou não o meu dia-a-dia? Nada. Claro que afecta o dos Conselhos ameaçados de extinção (e o que importa isso à essência das coisas?).

Mas eu fiz uma intervenção de fundo! Dela ficou apenas:
- a guerra na Ordem não afecta o meu dia-a-dia;
- há advogados que passam fome;

O resto foi, com uma ou outra excepção, verdadeira ignorância passeando pelas massas, que ainda assim é melhor do que incompetência. Mas não sai da mediocridade.

Continua o Circo. Quer ver?

Não liguei a ninguém previamente. Mas a TV e a Rádio são megafones.

Aqui na terra, e também na Terra :), houve gente que me ouviu, entre conhecidos e amigos.

O pessoal da rua e do café gostou, porque sou da terra, mas não me percebeu realmente, e continua a dizer o mesmo que me levou a atestar, no início do Bastonato, que tínhamos o povo ganho só com o estilo deste Bastonário. Mas não percebeu nada do que eu disse. Advogados a passar fome? Ganha menos do que a sua empregada doméstica? Circo?

Os amigos que me ligaram , mais informados e serenos, perguntaram-me se tinha corrido bem.

Eu disse, claro, que não, porque não serviu nem servirá de nada.

Sinto-me perfeitamente realizado se você, António, duvidou por um momento se está ou não a cumprir agendas previamente definidas. Nem que seja por guerras de faca e alguidar perfeitamente irrelevantes (os Bastonários serão sempre passageiros, mas a Justiça inerte fica). Repare que tenho certeza absoluta de que muitos bons jornalistas, cegos pela luminosidade do próprio poder mediático que exercem sem maldade, não têm capacidade de discernir os contornos claros da coisas. Não por culpa própria.

Já pensou porque é que noticia o caso Esmeralda e não um qualquer caso Ana Maria, ou Mafalda, ou Teresa, ou Hugo, ou Pedro, ou Marco? Se eu lhe disser que os ingredientes da maioria dos casos de que lhe falo são bem mais escabrosos do que o caso Esmeralda, poderá concluir que...noticia o caso Esmeralda porque sim? E "porque sim" é a vocação de certas pessoas de se porem a jeito para serem estrelas mediáticas. O caso Esmeralda não é mais do que isso.

(provavelmente a questão da CPAS - ouviu falar? - é a única importante no meio disto tudo, desta aparente "guerra", mas quem fala disso?).

Queria fazer uma declaração final formal: respeito todas as profissões, todas as artes, mas em nenhuma delas respeito o conformismo, a incompetência ou a mediocridade. Isto para que, no ruído do que digo, não fique o que não quero dizer.

Se o António identificar a mediocridade, por favor venha cá fora observar por outra lente.

Confio que o António, e alguns mais, advogados ou jornalistas, serão capazes.

Serão sempre poucos, mas serão capazes.

Abraço do Pedro Guilherme-Moreira"


"Little boxes, all the same.
There's a green one and a pink one
And a blue one and a yellow one
And they're all made out of ticky-tacky
And they all look just the same"
Malvina Reynolds (genérico de Weeds)

2009-05-24

(Did you say it?) You changed my life (Did you say it?)

"This is it.
It might all be gone tomorrow."

Esta é a voz (estas são as exactas palavras) de Meredith Grey nos últimos e emocionantes momentos da quinta temporada da Anatomia de Grey, mas não é sobre uma série de televisão que vos quero falar, embora muitas vezes a ilusão seja maior do que a vida.

A cena dá-se com os acordes de "Off I Go", de Greg Laswell, em fundo.
Muitas vezes fica o piano sozinho com a nossa emoção. Gerimos situações limite de personagens que nos são familiares, que nos fazem chorar e rir.

Estremecer.

Municiam-nos os passos mais doridos da vida, resgatam um sorriso de um lugar em nós que pensávamos impossível, facultam-nos a lágrima que devíamos ter chorado muito antes.
As mais das vezes (e sabemo-lo), só somos nós próprios na intimidade e perante a ilusão.
Na rua, na vida, encapotamo-nos, como se a tempestade se eternizasse.

Independentemente da chuva emocional, não faz sentido que tratemos melhor as nossas ilusões do que as pessoas que passaram e passam na nossa vida e nos fizeram e fazem, quais rios de curso vago, correr num leito diferente.

Venham do passado longínquo ou do presente, é preciso que algo de extraordinário nos suceda para que as abracemos e lhes digamos o quanto gostamos (ou gostámos) delas?
António Lobo Antunes começou a dizer às pessoas o quanto gostava delas depois de ter sido salvo de um cancro. Ou começou a dizê-lo com frequência. Terá confessado o seu amor e admiração por mais pessoas no último ano do que em toda a sua vida anterior.
É possível não cometer o mesmo erro e ter uma vida menos literária, não é?

Quando Meredith pergunta "(Did you say it?) You changed may life (Did you say it?)" e o piano de Laswell fica a sós comigo (o pano descia), o meu peito enche-se de orgulho, e eu respondo sibilando entre dentes:

"Yes I did"

A praticamente todas as pessoas que conheço.

I often do.

Mas como não sou neon nem tenho brilho próprio, não tenho "star quality" nem banda sonora a acompanhar, fico certamente perdido em prateleiras simpáticas da posteridade, como uma foto que se tira de um álbum poeirento.

É esse o destino dos meus abraços?

Duvidarei sempre, até porque os desenho fechados, apertados, como as palavras que escrevo, e estas lanço-as ar fora sempre com a esperança de que andem a migrar entre os corpos.

Luminosas.


PS: fica um homem frágil por isso? Claro que não.

PS2:  A foto - plenamente dentro do contexto, para quem me conhece, documenta essa mesma dicotomia: a fragilidade do corpo é irrelevante perante a força do espírito

2009-05-21

Eu, o Direito, a Soraia Chaves e o Mário Crespo nas Grandes Entrevistas - Vidas de Brian

Depois de muito tempo, volto a escrever sobre Advocacia e Direito para camionistas (acima de tudo, mas presumo que alguns licenciados em Direito conseguirão entender;).
 
Peço desculpa, mas a falta de tempo impede-me de vos dar informações mais detalhadas sobre o epigrafado, nomeadamente as minhas entrevistas na RTP, SIC, TVI, SICN, RTPN, TVI24, Dois, Gaia na Frente, Armação de Pêra pelo lado, Alentejo Total, Idanha é nossa, Viva o Porto.
 
Tenho-me desmultiplicado em entrevistas, mas só vai ser possível observá-las no director's cut da sociedade, daqui a alguns anos.
 
Basicamente o que defendi perante todos os entrevistadores foi que o Direito precisava de uma "Vida de Brian".
 
Neste momento, o apregoado senso todos tolda, todos os que se pensam extremamente lúcidos, e até consideram que é nos megafones da imprensa que resolvem todas as questões..
 
Infelizmente, estamos entregues aos bichos, que comem inclusive o colesterol bom dos mais saudáveis.
 
Só os medíocres têm paciência para permanecer no poder e sob holofotes.
 
Há um critério que, para mim, é fundamental:
quando se fala mais à imprensa que aos próprios pares, está tudo dito.
 
É válido para todos, não apenas para o Bastonário.
 
Mas quando eu for Bastonário, e nessa "Vida de Brian" sê-lo-ei, saberei calcorrear caminhos junto dos meus colegas, e longe dos holofotes.
 
Responderei a cada jornalista que ele (o jornalista) está nas mãos de interesses, mesmo quando pensa dizer a verdade, e que se não estuda a fundo junto de um tolo como eu o que são os verdadeiros problemas da Justiça e da Imprensa, nunca irá longe. Será sempre postiço.
 
E farei questão de anunciar que Portugal já precisava de uma Marilyn Monroe, e que ela é a Soraia Chaves.
 
Gostaria de lembrar, uma vez mais, que a Marilyn Monroe morreu como grande actriz (quem viu "Misfits" não pode ter dúvidas), e é mais importante para a História, e portanto para o próprio Direito, do que qualquer Bastonário de qualquer ordem pelo mundo e pelos séculos fora.
 
Ou seja, estou hoje perfeitamente consciente de que o bem se faz sem anúncios prévios, na rua, cara a cara, grão a grão.
 
Estou certo de ter "tocado" para o bem maior do Direito, ao longo de 14 anos de profissão, pelo menos 200 pessoas.
 
E quando digo tocar, digo tocar a sério, mudar a perspectiva e a atitude perante a sociedade e os conflitos potenciais.
 
Coisa pouca, mas é a minha obra maior, até porque não ganhei dinheiro com isso.

Somos 27.000 x 200 tocados = Cinco milhões e quatrocentas mil pessoas, e se cada uma delas falou e fez perceber 3 outras = Dezasseis milhões e duzentas mil pessoas.
 
Se deixar isto apenas para um terço dos advogados, tirando as maçãs podres, mas tendo em conta que alguns deles têm outros meios de persuasão, teríamos um número realista de sete milhões de portugueses devidamente esclarecidos.
 
Por mais que o nonsense dos Monty Python faça aqui a sua incursão, é muito real a minha convicção de que o bem só assim se pode fazer.
 
Tenho lido algumas coisas sobre História. Estou perfeitamente convencido. E desprezo o que tenho visto de uma forma tão profunda que só me permito deixar de considerar quase todos os envolvidos.
 
Esta mensagem foi só para que saibam que, apesar da desilusão e da tristeza de uma realidade comprovada (uma triste realidade), tenho a paz e a serenidade de, sem utopias, e com sentido realmente prático, estar a fazer o bem.
 
Claro que, o que temos de tirar aos sete milhões de portugueses esclarecidos, são cerca de nove milhões.
 
Não de benfiquistas, mas de pessoas confundidas, desiludidas, revoltadas, com o triste espectáculo do qual pouco entendem, para lá dos resumos normalmente mentecaptos da imprensa (e eu até acredito na imprensa de qualidade, embora ela hoje tenha pouco tempo para existir - às vezes, nem o Mário Crespo, que entrevista sargentos sem estatura porque são "factos noticiosos"...!)
 
Assim sendo, o papel desta voragem mediática proporciona-nos um saldo negativo de três milhões, ou mesmo os nove milhões, se os sete milhões ao nosso cargo esmorecerem.
 
Eis o triste papel dos medíocres, que são os únicos que têm paciência para se agarrar ao poder (ou à vontade de o procurar).
 
Cumprimentos, Pedro Guilherme-Moreira

PS: que fique bem claro que esta não é uma crítica ao Bastonário Marinho Pinto (aliás, nem sequer é nele que penso em primeiro lugar), mas absolutamente a todos os advogados que não pensam, nunca pensaram, nem nunca pensarão, acima de tudo, no bem comum, nos seus colegas; Pensam, antes de mais, em si próprios, na sua promoção, muitas vezes iludidos de que são Dom Quixotes com nobres sendas. Toca aos mais eminentes, e essa é a razão da minha profunda tristeza com o que se passa. Todos ralham e ninguém tem razão. E o mais grave é que nunca o perceberão. Melhor tratar tolos como eu de tolos para cima.
 

2009-05-18

Variante J (haikai só)


Há manhãs em suspensão,
(Formas complexas de orvalho),

E vésperas de cristal.

Pedro Guilherme-Moreira




PS. A todas as mulheres doces, às que se acham ignoradas e se fazem ignorandas atrás das paredes e dos tachos, dos aventais e dos filhos, que não devem precisar de rupturas ou crises para que o espelho lhes devolva o brilho da sua autenticidade; doravante, não sendo possível nomear todas, terão ao seu serviço a letra J (não o x, nem o y, nem o z) e estes dois poemas:).

2009-05-17

J (com haikai dentro)

Elas passam no passeio das Cardosas,
Poderosas,
Passam todas em vestidos sufocantes
Estão pedantes,
Estão na praia por esplanadas refulgentes
Diluentes

Menos J,
Que é mulher.

(Que abaixo do brilho dos corpos celestes
 Que acima da carne dos homens agrestes
 Há doces sorrisos e mãos de veludo e colos de lã e ombros de amparo e olhos de seda
 e trapos rasantes de todas as formas por dentro dos homens, por fora não és,
 Só és substante se ela, mulher,
 estiver por descer
 de anjo, na sombra
 dos passos, gaivota
 no plano de voo,

 trovão na vã quietude.

E então essa J, a tal  que é mulher, pediu de rompante a sua palavra, pediu para dizer,)

Decantando um malmequer:

(haikai:)

Luz do dia, Cotovia
Fundamento dos teus versos,
Doce rima dos teus berços.

 


2009-05-16

Obrigado! O Porto é fotogénico:)

Primeiro a Super Bock, que tem sempre a boa ideia filmar anúncios no Norte, sendo que os últimos decantam com mestria a essência do Porto, e quem é tripeiro reconhece cada recanto, interno ou externo, Porto que, caso não saibam, está com uma noite como nunca teve (zona da baixa/Cedofeita). Agora a PT, com a fibra óptica, que inunda o país de Porto. Como tripeiro nado (e criado) no Porto e em Gaia, agradeço o reconhecimento da fotogenia do Porto, contra o "cliché" da cidade cinzenta e sombria, que não é por sistema. Se o é, é porque o sotaque largo e o olhar doce do tripeiro precisa de recantos reservados, escadinha, ruas escuras, tortuosas, para se estender:). Bibó Porto.

2009-05-15

nem surrealismo nem sexo (com bolinha)

Bolinha (nota prévia): é expressamente proibido ler este texto na tela de um Magalhães, tenha o leitor a idade que tiver; convém, igualmente, ter mais de 16 anos, porque a linguagem pode não ser compatível com o seu ideal de educação; os facilmente impressionáveis com honestidade erótica e palavrões, também devem abster-se.


Nem o Púcaro Búlgaro, nem o próprio Campos de Carvalho, nem Pacheco, nem Cesariny, nem Pessoa, nem mesmo o próprio Breton (que nunca poderia ser surrealista em português) podiam hoje salvar-te do teu problema. Queres fazer sexo com uma mulher brasileira. Não queres fazer sexo real. Muito menos surreal. Ainda menos virtual. Queres só fantasiar com uma mulher brasileira e atingir o orgasmo sem subterfúgios. Não te queres masturbar, e já cansaste dos amigos mesquinhos da Polícia do Pensamento que te segredam que não podes fantasiar sem ser infiel. Foi o Edson do economato que anteontem na sombra do teu intervalo para café a meio da manhã te disse Estás com fantasia no olho, devo avisar tua mulher?, e tu cuspiste o líquido negro e deixaste de fumar um cigarro porque apenas rugiste

Foda-se! Quando é que vocês renegam o cerco mental?

Não, meu caro, a tua erecção perante a ideia dos quadris de uma brasileira em tuas mãos não é rótulo de natureza canalha. É só hormonas e liberdade. O Edson é que anda procurando subscrição para a folha em branco do seu caráter ausente, tem de encontrar em todos os cantos um igual que desmaterialize a sua culpa e valide a sua traição. Ele nunca inteligiu limites, e a primeira vez que o pénis explodiu contra o ecrã quis convencer Deus e a sua própria cobardia que passara a fronteira, coisa que nunca fizera contra os azulejos do banheiro (que é igual), e foi correndo uma, duas, cem vezes para todos os nicks, e fodeu-os dentro da pele sem fantasia alguma. Edson é macho cobarde e sem caráter, tu não.

Acredita que não precisas do surrealismo para nada, também eles, a maioria deles, eram uma espécie de maricas afivelados de maneirismos, calões e incapazes de trabalhar os mais dos anos de suas vidas como gente séria, em busca do suicídio glorioso, fosse o tiro nos cornos ou a margem social.

Vamos então perceber: não queres sexo real, surreal, virtual, oral ou masturbação, mas queres uma brasileira em ti agora porque é o teu fetiche e uma das vias para a liberdade. Ok. Estás com uma erecção desde manhã e nem sequer a pediste. Não falaste de negar sexo escrito. Puxa então uma folha em branco e escreve honestamente

Ela tem uma camiseta branca e uma calcinha de fio dental preta que desaparece no centro das nádegas que o torno do divino carpinteiro fez em curva nos mais precisos cálculos da imprecisa engenharia humana. Está inclinada sobre a cama para que possas apreciar da cortina do teu pudor onde reside o rio e os afluentes da tua fórmula. Prenuncias os teus lábios sobre a pele eriçada, o sabor na tua língua, primeiro os teus indicadores sobre os mamilos endurecidos, depois as tuas mãos em concha sobre os seios em globo, mas não executas. Arrancas o tecido de musselina transparente que está no guarda-vestidos ou nos teus olhos e voltas a cobri-la quando ela já vai nua. Levantas o véu para o teu corpo passar por baixo do dela, de frente para ela, nunca a tocas, deslizas suavemente até a tua boca estar em frente à dela, carnuda, vermelha, os dentes brancos de pureza, mas não a beijas. Sentes a respiração, o cheiro a sal e a praia, a areia que caiu na colcha da cama por abrir do hotel, o bronzeador que te veda a formação de frases. Sabes que és parvo e inocente, até um pouco obtuso e palerma, mas sempre doce e honesto. Sempre foste.

Colocas a tua mão direita sob a orelha esquerda dela, a ponta dos dedos no pescoço empurrando tufos de cabelos brilhante, cruzas as respirações divisando sua língua esperando a tua, não trocas saliva, nada, só dizes

Eu vou entrar em ti logo à noite sobre os meus azulejos, vou só com o que tenho todo livre e sem romper trato de sangue, mas levo daqui o teu cheiro e o teu quase suor, a tua quase saliva, a tua quase vagina afogada, o meu quase esperma, os nossos quase movimentos arquejantes em viagens de acesso e regresso, levo daqui a nossa quase plenitude erótica sem nunca te ter visto na pele sem o véu de musselina.

E um dia, quando puderes mostrar os teus breves parágrafos de sexo escrito ao teu filho, para lhe explicares a diferença entre pornografia e decante do corpo, saberás que o teu único pecado foi ser livre pensando a quase totalidade, sem o subterfúgio de uma arte desonesta ou a desonestidade de uma pedra em bruto. Esculpe-te como pessoa de dezasseis milhões de cores e fala com a clareza do preto e branco.

Essa brasileira, na noite dos azulejos, no fundo do seu banheiro, foi a amante permanente do teu corpo, a fantasia consentida, a tua mulher (e os votos renovados).

2009-04-07, P. Guilherme-Moreira

2009-05-11

The River

A Profª Drª Ana Maria Chaves emérita tradutora e professora Universitária na Universidade do Minho, que não conheço, concedeu-me a honra das palavras seguintes, enviadas por correio electrónico,  e que são inestimáveis como pai, e certamente prenda eterna para o meu Guilherme, e autorizou que as reproduzisse, o que passo a fazer, sem mais considerações.

"Estive nos seus blogues, onde voltarei muitas vezes, e estou fascinada com o poema do Gui. Impressionante para 9 anos! E como sou uma tradutora apaixonada e compulsiva de boa poesia, perdoem-me a ousadia, mas não resisti a traduzi-lo:  
 

THE RIVER

I see in your eyes a river of

tears flowing to a solution

of water.

On the shore the sea is not the sea

but your blue iris.

Your sadness envelops small

particles of joy.

The river envelops everything:

Joy, sadness, solutions,

And even a little of the sea.
 
 
Cumprimentos
 
Ana"

Recordo que o original, em português, está aqui: O RIO

X

Antes de ires, regressa ao campo
onde tens guardadas flores,
onde estás guardada flor.
Lembras-te da planície imensa

onde tudo era claro e todos inábeis,
onde tudo era ausente e todos presentes,
onde o tempo não disse nem tu percebeste
que há deusas na terra por breves segundos?

E vens cá chegando com toda a brancura,
com toda a pureza, com toda a leveza
vinho pão semente vão casa pele

coração. Agora vai,
Sai planando pelo espaço, sai do tempo
leva os X à eternidade, apertados

à cintura, vai sem véu
vai planura.

Pedro Guilherme-Moreira,
2009-05-11


2009-05-10

Atlântico da Madalena Campeão

No dia em que o FC Porto celebra, em futebol, mais um tetracampeonato, este blogue destaca uma vitória do lado mágico, especial, onde se ergue o edifício do desporto.

Hoje, em Fiães, uma equipa de voleibol do Atlântico da Madalena constituída por dois Andrés, um Guilherme e um Pedro, jogadores de primeiro ano de Minis-A com pouco mais de seis meses de treino (em nove e dez de vida), venceram o torneio local contando por vitórias todos os jogos disputados (contra várias equipas do próprio Fiães, Vale de Cambra e Académica de Espinho).

Na final, encontraram uma equipa da Académica de Espinho com uma qualidade técnica superior, e que venceria nove em cada dez jogos, mas que hoje foi batida pela humildade, concentração e esperança de jogadores que atingiram assim, de forma certamente gloriosa (porque se inscreverá para sempre na memória pessoal de cada um, e se erigirá como base de cada momento maior), a primeira vitória desportiva da sua carreira e da sua vida.

O facto de ter entre os vencedores um filho, e entre os derrotados um sobrinho (há um mês foi vice-versa, já que esta final foi uma re-edição dessa), faz com que sinta fundamental trazer este testemunho, que acaba por ser pessoal.

No final, uma criança da Académica, que chorava convulsivamente, percebendo ter perdido, e enquanto os adversários festejavam a sua improvável vitória, alterou o marcador do jogo que tinha sido seguido por dezenas de pessoas até ao ponto final, vencido in-extremis pelo Atlântico. O seu treinador, ao invés de tornar esse facto irrelevante, apoiando o seu jogador, afastando-se para lhe dar uma lição de desportivismo e deixando o palco breve aos vencedores, resolveu rentabilizar esse facto para fingir uma vitória que não teve. Todos os adeptos (pais) e técnicos do Atlântico se portaram com dignidade e elevação, estimulando que os jogadores das duas equipas se abraçassem e se integrassem na despedida colectiva final, sem valorizar este acto, como deve ser.

E à luz vitória, saborosa, os jogadores vestidos de verde e branco aprenderam, pela primeira vez, a desconfiar  e a vigiar o adversário, e os jogadores vestidos de preto perceberam que podiam enganar de novo, com o beneplácito dos seus professores e formadores.

Não houve insultos, reclamações, dos campeões.
Por isso mesmo: são campeões.

No dia de mais um tertra do FCP, uma equipa de voleibol dos Minis-A do Atlântico da Madalena percebeu, pela primeira vez, o que é ser maior.

As dores do tempo

Ando cheio de dores do tempo.
A ver se as percebo nas próximas linhas.
Se as explico e o nó do peito se me desfaz.

Como já aqui aventei no "post" "As marés dos amigos de ontem", e depois de 25 anos sem nada fazer para rever velhos (e grandes) amigos e amigas, decidi deixar as promessas e as declarações de intenções para concretizar. Contactei, nos últimos cinco meses, mais de quarenta, entre conversas profundas, presenciais ou telefónicas, visões breves, olás doces ou enxutos como vais.

Estive, por isso, gravemente exposto à radiação da luz do passado de estrelas presentes.
Pior, estive sujeito a sofrer com o sentimento de culpa de ter estado ausente do sofrimento.

Como é isto? É precisamente quando ganhamos alguma autonomia dos pais e vamos para as Universidades ou para os empregos que viramos as costas a pessoas que nos acompanharam nos momentos mais íntimos durante 5, 6, às vezes 10 e 12 anos? Provavelmente os mais importantes anos das nossas vidas, aqueles em que ganhámos forma de gente? Amigos que nos sustentaram o choro, nos ampararam a raiva, nos partilharam os gritos e os abraços, nos acompanharam as gargalhadas,  nos quebraram ou alimentaram os corações?

Muitos dirão: é o curso natural da vida.
Ora, raios para o curso natural da vida! No curso natural da vida há pessoas que de nós dependiam que estão hoje numa solidão tremenda. E nós com isso!

É verdade: absorvemo-nos de tal forma no nosso projecto pessoal (académico e profissional), na parceria matrimonial, na paternidade, rodeia-nos tanta gente e tanto barulho nesses anos, é tudo tão novo e tão importante, a conquista do nosso lar, da nossa própria família nuclear, a morte dos avós e dos familiares mais próximos, tudo é tão absorvente que, quando decidimos que é hora de parar e olhar para trás, para os que ficaram (não necessariamente para os que passaram!) lá no fundo dos tempos, aqueles a quem nós confiávamos a vida e que nunca mais vimos, perguntamos a nós próprios:

Devo fazer isto? Posso fazer isto?

Perante estas saudades, que nalguns casos, quando desenterradas da camada subcutânea onde se suspenderam por mais de duas décadas, são poderosas, muitos respondem escondendo-se e fugindo. Poucos partilham. Poucos respondem. Poucos abraçam, muito menos abraçam forte.

Este é o primeiro sintoma da dor do tempo. Abraços que precisam de ser dados e não são.

O segundo sintoma, terrível, é o daquelas (poucas) pessoas que estão na nossa constituição química. Concluímos que, afinal, algumas delas fazem efectivamente parte de nós, sempre fizeram, sempre farão. E quando digo "parte de nós" não me refugio numa metáfora despida de sentido.
Quero dizer efectivamente "parte de nós". Da forma como ainda hoje sorrimos ou contamos piadas, olhamos ou escrevemos, beijamos ou fazemos amor.

Andei a tentar entender-me sem fugir para a frente. 
As pessoas que me doem, estas que me doem porque me lembrei delas e não posso revê-las, não podem morrer. Não podem morrer como não pode morrer o mais íntimo dos nossos. 

Às vezes, é alguém que não tem espaço para ocupar (no presente).
Uma paixão antiga, por exemplo, uma daquelas que nos alimentou em exclusivo durante muito tempo, anos, às vezes décadas. Pessoa passada que está dentro da presente, e que permanece parte de nós.
Espécie Matrioska emocional.
Quando somos felizes e amados no presente, a paixão antiga não pode ocupar esse espaço nem travestir-se de amizade comum.
Quando surpreendemos nela uma história de infelicidade (sentimos culpa por não a termos impedido) ou uma necessidade urgente de ajuda, a frustração é exponencial.

Chora-se de forma surda. Em hemorragia interna. Infinitamente.

Não há solução, nem é preciso que haja.


(Escrevi este post ao som de "O Vinho do teu corpo", dos portugueses Neruda, porque me apeteceu e porque ao ouvido é uma grande canção com uma grande letra, "Bebo o vinho do teu corpo,/ devagar como se a boca/ fosse uma flor onde o tempo/ desenha o mapa da vida." Estranhamente coerente.)

2009-04-29

"Preview" do terceiro livro (Era 11 de Setembro, e eu saltei)


Deixo uma pequena prenda para os visitantes do blogue, e, como acabei de dizer noutro "local", para quem gosta de ler e para quem não gosta, porque há escritores subterrâneos ambiciosos e, principalmente, apaixonados:). Desfrutem! Aqui está o preview do terceiro livro. Ou aqui: http://www.portolegal.com/era11preview.pdf

2009-04-18

This is England (Isto somos nós)



Chego a casa vindo de uma sala de cinema com aquele sufoco de magia em suspenso que só um grande filme nos pode provocar. "This is England" é uma verdadeira obra de arte e - já - um dos filmes da minha vida. Tem tudo e de tudo para todos. Sendo especialmente saboroso para a Geração 80s, centrar-nos nesta ideia seria redutor. "This is England" é uma delícia do princípio ao fim dos seus curtos 100 minutos. Tem ritmo? Tem. Actores sublimes? Todos. Enredo? Sim. Emoção? Incomensurável. É pungente. Profundo. E ainda ensina daquelas lições de vida que, de tão evidentes, deixam de ser ensinadas, e por isso são atropeladas.

Ainda está a ler este insuportável blogue e não correu a ir ver o filme????

PS: na foto, a "mãe" do filme (eu disse que ela era bonita! Perceberão quando virem o filme), a actriz inglesa Jo Hartley, e o pequeno protagonista, Thomas Turgoose, hoje com 17 anos - nasceu em 1992 - , e que ficou órfão de mãe, precisamente, durante a rodagem do filme; Este é o primeiro filme de Thomas, que foi expulso do grupo de teatro da sua própria escola (Thomas vive na cidade retratada no filme e anda na escola que nele aparece) por mau comportamento, e teve de desembolsar cinco libras para a audição que o haveria de escolher para o papel principal;

2009-03-14

Os olhos do bisavô


No dia 6 de Março de 2009 telefonei para a Livrairie Portugaise, em Paris, e fui atendido pelo fantástico Michel Chandeigne. Queria saber se o livro que a sua editora iria lançar no Salão do Livro de Paris na Segunda-feira seguinte, 9 de Março,incluía material sobre o escultor Alves de Sousa, meu bisavô (1884-1922). Ele verificou, e disse que não. Pedi para falar com a Agnés Pellerin ,a  autora, ou com a Anne Lima, que pelos visto concluiu o projecto após o abandono da primeira. Fui aconselhado a enviar um mail, o que fiz.

Pouco depois, contudo, acontecia a "revolução": Decidi que terminara a hora do meu amadorismo nesta questão, e que iniciaria uma investigação sobre o meu bisavô que eu queria a mais aprofundada de sempre (ia dizer definitiva, mas nada é definitivo, nem mesmo a morte).

Só ontem soube, em consulta à entrada que lhe é dedicada neste livro, que nesse mesmo dia fazia anos que o bisavô tinha falecido (6 de Março de 1922). Há coincidências espantosas na vida. Esta não será propriamente espantosa, como aliás a anterior. Essa nem sequer teve sentido neste contexto, mas a verdade é que a última vez que eu decidira dedicar-me mais a sério ao tema tinham acabado de cair as torres gémeas, o dia estava magnífico e eu descobria os topos da cidade, passeando calmamente pela baixa do Porto, passeio esse que inspiraria mais tarde uma passagem sobre o assunto (o da cidade não vista) no meu romance "A Longa Sepultura". Deslocava-me para a Biblioteca de Gaia em busca de uma cópia da monografia do padre Romero Vila (sobre o bisavô e os dois concursos mais conhecidos em que ele participou) com uma sensação de desconforto causada pelo que tinha acabado de ver: o ataque à segunda torre.

Gostava de fazer transpirar neste blogue pessoal o meu definitivo arrebatamento por este meu antepassado. Será possível gostar tanto assim de alguém que nos pre-existiu em quase meio século, e nem sequer estivemos perto de conhecer? É, certamente, e eu sou a prova.

E depois há uma história de amor pela qual nenhum historiador se interessará, e que eu quero contar: António Alves de Sousa e Victoire Germaine Lechartier:

"Victoire e a Imortalidade". O duplo sentido de "Victoire" e toda a extensão do conceito de Imortalidade e a sua ligação a Alves de Sousa. A paixão, a ansiedade, o pundonor.

A vida foi-lhe algo madrasta mas imortalizou-o. A imortalidade, contudo, dá trabalho, e nós, os descendentes, somos responsáveis por não esmorecer.

Estes olhos tristes, doces, fervilham-me no sangue e não me deixarão parar!

Não há forma de parar.

PS: finalmente há um site sobre ele na internet, que "alimento" há uns dias, mas já tem muito que entreter. Está ligado ao twitter, que segue a investigação passo a passo. C omecem aqui, pf:

http://escultoralvesdesousa.blogspot.com

2009-03-10

Os cafés em carne viva


Uso muito esta expressão. Em carne viva. É talvez a forma como gosto que o tempo e o espaço se desdobrem em mim. Voltei aos cafés no ano da graça de 2008. Tinha-me esquecido de como posso ser terrivelmente produtivo a salvo do mundo à mesa de um café. Fiz o curso entre as mesas do Mandarim (hoje McDonalds), na Praça da República, em Coimbra, e a Pastelaria dos Olivais, mais ou menos em frente ao edifício velho da Faculdade de Economia, na Dias da Silva, sem esquecer as minhas fugas para o Porto de Quinta a Segunda, para namorar e estudar no Aviz. Agora é a escrita. Este ano, como não me posso dar ao luxo de escrever à noite e é impossível no escritório, procuro a algumas horas improváveis o Paredão-Bar, em Canide, e o Palhota, em Francelos, recentemente renovados. Quando estes, por alguma razão, não estão disponíveis ao tempo que para eles reservei, perco-me. É aí que sinto como não é a simpatia (bem pelo contrário) ou a empatia que procuro nos cafés, mas o espaço adequado que se funde com a minha respiração. Se é demasiado invasivo, demasiado exposto, demasiado familiar, demasiado silencioso, não fico. Se é abandonado, minimalista, sombrio, e suficientemente barulhento, deixo-me pelos anos fora. Assim se vá fundindo um pedaço da pele com a geometria do espaço e os gestos tácitos dos empregados de mesa. Os meus cafés em carne viva.

As marés dos amigos de ontem


Tenho feito um assinalável esforço para reunir amigos que não vejo há 25 anos ou mais. Terei encontrado mais de vinte, e todas as conversas têm sido deliciosas. Nota-se uma grande alegria no reencontro. Há, no entanto, dois fenómenos a registar: a consciência da pouca importância que temos na vida de alguns que pensávamos do peito, o que não deixa de ser mais um desafio para que sejamos mais humildes nos passos em frente; e as marés. Apesar da festa do reencontro, o movimento natural das coisas leva-os de volta. Para mar alto.Confesso que, quando o pressinto, uma suave frustração toma conta de mim. Quem é feliz no presente encara estes momentos de nostalgia como puro prazer. Mas não é assim para todos. Há quem não queira ser tirado do lugar onde está por um minuto que seja, para um café que seja. Há quem não queira ser visto diferente, mesmo que esteja melhor do que há 25 anos. Há quem não queira descolar do ninho que conquistou para voltar a assumir o mesmo papel de antes. E então temos de concluir, pela primeira vez, que os perdemos para sempre. Sem drama (para lá do poder do sentimento que toma conta de nós). Não voltes ao lugar onde já foste feliz.

2009-03-04

O Souflé de Peixe

Ontem antingi o plano abstracto, filosoficamente falando, do marido perfeito. Não, não cozinho. Sei fazer coisas básicas (arroz, bifes, ovos, massa, saladas), mas mesmo assim não as fazia. A princesa (mulher) não gosta de interferências (isto é mesmo verdade) e afastava-me da cozinha. Eu próprio tinha dito às ruas sociais que funcionava de forma diferente, e que um dia desceria sobre mim a luz do Chef. Caramba, já sou eu que pago as contas, arrumo parte da casa (sou doméstico a tempo parcial, é verdade), sou pai a tempo e inteiro e quase omnipresente (não uso os benditos ATL's) advogo, escrevo, promovo toda a dinâmica familiar, e não há nada que não tenha feito ou dado à minha princesa (mulher), salvo seja. Por isso, o momento é trascendental. Sabia que, se tivesse dito um ou dois dias antes, a qualquer amigo ou familiar, que ia cozinhar e, pior, que ia fazer um prato pouco simples ("Souflé de Peixe") todos se tinham rido, apesar de conhecerem aqui o PG-M como o gajo que quer-faz. Não, nunca tinha feito molho bechamel, separado gemas de claras, batido claras em castelo, cozido peixe. Já tinha feito estrugido, mas ontem tinha de ser tudo perfeito, e o primeiro saiu-me mal. Quem acabou por fazer foi o meu filho de nove anos (que também migou o peixe e fez a sopa). Sempre vos digo que foi orgásmico. Quase nada falhou, deixei a cozinha a brilhar e a comida estava óptima - é verdade, devia ter usado um pirex mais alto e caprichado nas claras, para que o "crescimento" no forno fosse maior, mas esse é um pormenor que não afecta a minha ascenção cultural. Já está! Marido pefeito. Daqui para baixo, é sempre a descer:). PG-M

O Vento é do Mar


O Vento é do Mar

Os mortos da terra em gente à lareira queimando verdades de mantas equívocas

Os vivos da margem da espuma da praia sob a tempestade montam guarda à lenha

Que aquece e rebenta debaixo do lume

PG-M, 2009-03-04

2009-03-02

O RIO (do meu pequenito Gui, 9 anos)


Quando o meu filho de nove anos me mostrou este poema que escreveu assim, do nada, só dele, fiquei siderado. Eu sei, é meu filho, é suposto eu sentir-me assim. Mas escrever assim aos nove anos quer dizer tanta coisa. No meu orgulho desmedido, publico este poema, na certeza da solenidade do momento: é o primeiro texto que alguma vez o meu Gui teve publicado (a arrumação dos versos é dele):

O RIO

Nos teus olhos vejo um rio de

lágrimas que corre para uma solução

de água.

Na praia o mar não é o mar,

mas sim a tua íris azul.

A tua tristeza envolve pequenas

partículas de alegria.

O rio envolve tudo isto:

alegria, trisiteza, soluções,

e até um pouco de mar.

Guilherme Moreira, 2009-02-25

2009-02-28

Rachel getting married - What a movie!



Prometi a mim próprio que ia poupar nos superlativos e avisar que esta era uma opinião muito pessoal. Mas depois de passar as semanas cercado de telenovelas e noticiários cada vez mais vazios e insubstanciais, e mesmo que deles fuja, encontrar um filme destes faz vibrar todos os poros do corpo. Eu que nem sou nada de circuitos independentes ou alternativos, e até gosto de um bom "mainstream". Johnanttan Demme, aliás, é um artista do "quality mainstream" (lembrem-se de Filadélfia ou Silêncio dos Inocentes - ganhou o Óscar de melhor realizador por este último). Mas este filme não tem nada de mainstream. Para quem não viu "O Segredo do Cuscuz" porque resiste a tudo o que não fale inglês, tem aqui uma boa oportunidade de observar um trabalho de idêntica profundidade e dimensão, embora os tiques dos críticos de cinema exaltem o tunisino  Abdellatif Kechiche e se esqueçam de exaltar o americano Demme. Este filme é todo em carne viva, e vê-se de um trago. Emociona profundamente, e é bom sentir autenticidade nos dias que correm. É verdadeiro, muito verdadeiro, e confesso que me vi retratado naquela Kimmy, eu que nunca cheguei sequer perto de drogas, o que prova que a empatia não se dá necessariamente entre os que têm percursos idênticos. Não há um actor que seja menor, mas Anne Hathaway, pela qual eu não dava cinco tostões como actriz, surpreende brutalmente. Depois disto, tinha de ter votado nela para o Óscar de melhor actriz, e vou ficar a torcer por ela daqui para a frente - o que ela nos dá neste filme é impagável. Bom rever a grande Debra Winger e todos os outros. Pode ser o flme do ano. Lembro-me de poucos que me tenham tocado tanto, em termos técnicos e lúdicos. Viva o cinema.

2009-02-23

OSCARS 2009 - Encerramento



Esta foi, sem dúvida, a mais autêntica de todas as cerimónias a que assisti, numa clara recuperação do estilo clássico, deixando o brilho aos artistas e não apenas à plasticidade do espectáculo.
 
Foi também a mais barata de há uns anos a esta parte, o que mostra alguma sensibilidade aos tempos que correm.
 
Apesar de tudo o que é condenável na articialidade, a verdade é que são estes senhores que ainda nos alimentam os sonhos e nos amenizam o peso dos dias. Viva o cinema!
 
Como sabem, o esperado grande vencedor foi um filme arrasado pelos críticos de todo o mundo. Ainda bem. É mais indiano do que outra coisa qualquer, e ganhou 8 Óscares, coisa que já não se via há algum tempo:
 
Slumdog Millionaire.
 
O derrotado da noite foi O Estranho Caso de Benajmim Button, mas não deixa de ser um grande filme, que não devem perder.
 
O meu único desacerto nas previsões foi um momento histórico para o Japão: Óscar de melhor filme estrangeiro. Grande surpresa, aliás.
 
A Kate Winslet lá ganhou (ficou por premiar a grande composição de Angelina Jolie em Changeling), o Sean Penn também (meia surpresa, porque havia um grande favoritismo do Mickey Rourke; as suas maldades passadas, contudo, e até as declarações demasiado sinceras - disse que não ia perder o sono por causa do Óscares - levaram a estatueta para o grande desempenho de Sean Penn, que aliás deu um grande destaque, no final do seu discurso, ao "brother" Mickey);
 
Foi notável e superlativa a emoção que percorreu a sala, neste novo formato de actores e actrizes tecerem o elogio directo a um par, sem qualquer tipo de imagem, que não do próprio, a acompanhar.
 
Para os quatro prémios principais de actores, entraram cinco ex-vencedores, e cada um pronunciou-se sobre um dos nomeados.
 
Foi bom rever a "minha" Marion Cotillard dirigindo as suas palavras (num inglês muito melhorado) a Kate Winslet. E foi bom vê-la lado a lado com Penélope!

O cinema faz parte da minha respiração. Não posso dizer muito mais. A emoção também é minha. Ficam os vencedores da noite, e até para o ano. Sempre até para o ano.
 
PG-M
 
Best Motion Picture of the Year
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Christian Colson
Best Performance by an Actor in a Leading Role
Winner: Sean Penn for Milk (2008/I)
Best Performance by an Actress in a Leading Role
Winner: Kate Winslet for The Reader (2008)
Best Achievement in Directing
Winner: Danny Boyle for Slumdog Millionaire (2008)
Best Foreign Language Film of the Year
Winner: Okuribito (2008)(Japan)
Best Achievement in Music Written for Motion Pictures, Original Song
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - A.R. Rahman, Sampooran Singh Gulzar("Jai Ho")
Best Achievement in Music Written for Motion Pictures, Original Score
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - A.R. Rahman
Best Achievement in Editing
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Chris Dickens
Best Achievement in Sound
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Ian Tapp, Richard Pryke, Resul Pookutty
Best Achievement in Sound Editing
Winner: The Dark Knight (2008) - Richard King
Best Achievement in Visual Effects
Winner: The Curious Case of Benjamin Button (2008) - Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton, Craig Barron
Best Documentary, Short Subjects
Winner: Smile Pinki (2008) - Megan Mylan
Best Documentary, Features
Winner: Man on Wire (2008) - James Marsh, Simon Chinn
Best Performance by an Actor in a Supporting Role
Winner: Heath Ledger for The Dark Knight (2008)
Best Short Film, Live Action
Winner: Spielzeugland (2007) - Jochen Alexander Freydank
Best Achievement in Cinematography
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Anthony Dod Mantle
Best Achievement in Makeup
Winner: The Curious Case of Benjamin Button (2008) - Greg Cannom
Best Achievement in Costume Design
Winner: The Duchess (2008) - Michael O'Connor
Best Achievement in Art Direction
Winner: The Curious Case of Benjamin Button (2008) - Donald Graham Burt, Victor J. Zolfo
Best Short Film, Animated
Winner: Maison en petits cubes, La (2008) - Kunio Katô
Best Animated Feature Film of the Year
Winner: WALL·E (2008) - Andrew Stanton
Best Writing, Screenplay Based on Material Previously Produced or Published
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Simon Beaufoy
Best Writing, Screenplay Written Directly for the Screen
Winner: Milk (2008/I) - Dustin Lance Black
Best Performance by an Actress in a Supporting Role
Winner: Penélope Cruz for Vicky Cristina Barcelona (2008)

OSCARS 2009 - Abertura


Olá a todos. Como repórter oficial, só me falta estar em Los Angeles. Este não é o ano, mas há-de ser. Esta é a 24ª cerimónia seguida em directo, e estamos naquela meia-hora mais adorável da entrada na passadeira vermelha. Para quem gosta disto pelo glamour e não tem ilusões sobre o mérito. 
Depois desta nota de abertura, só voltarei no fim da noite, para deixar o registo dos vencedores. Até já, esperando Kate Winslet e Mickey Rourke, mas sabendo que a maior justiça seria Angelina Jolie e Sean Penn (ver entrada sobre o filme "Rachel getting married", em que mudarei de opinião). A Penélope Cruz é a primeira aposta ganha da noite: finalmente o Óscar de melhor actirz secundária, numa cerimónia que começa a melhor de muitos anos. Algo que se perde quando se vê isto apenas nos compactos. Posso mesmo apostar que vai ser a melhor das vinte e quatro. Mas isto sou eu a dizer. Boa Noite a todos!

2009-02-17

TENHO FOME


Tenho fome,
estou doente da clareza das
palavras,
e palavras
dou aos outros sem urgência, e eles
ficam leves ou pesados

de mim,
e eu devasso sem peso.
Tenho fome,

fico nervoso, sou pobre

inquieto

por não ter saldo ou cuidados,

afogo

na torrente dos meus textos

enganos


meio mundo neste fato
e gravatas neste espelho,
e moléstia neste corpo.
É cara
a decência,
É vaga
a dormência

do escritor que não pode ser mais nada
E tem fome.
Tenho fome,

mas dói-me a ponta dos dedos,
não acho 
a partilha deste choro.

Tenho fome
e não sei se vou comer,
paguem-me os livros com sopa,
ou os poemas com água,
os autógrafos com carne,

deixem morrer o elemento

aparente, deixem morrer

o vocábulo, não

o homem, não

de fome.


Pedro Guilherme-Moreira
2009-02-17
 

2009-02-14

Acorrentados d'escrita? Pinto Coelho e os testemunhos memoráveis


Começo por dizer que foi uma sessão a todos os títulos memorável. Mesmo pelo que ficou por dizer, e que vem a latejar nas nossa cabecinhas. Mas eu ia falar, lá mesmo, ao vivo, tinha de falar, e já não tive tempo. Ora, a sessão termina praticamente com um testemunho emocionado e tocante de Paulo Teixeira Pinto sobre o seu filho recentemente falecido. Ele pediu para os jornalistas não mencionarem a questão, alegando que o filho não era objecto literário. Pediu mal, porque não compete a ninguém decidir isso. Não queria, não falava em público. Falou, marcou, deixou uma mensagem produto de longas, profundas e dolorosas reflexões, deu a ganhar a todos. E a marca indelével que o seu testemunho deixou, sendo vida, é objecto literário. Mas, não sendo jornalista, vou respeitar pelo menos o teor do testemunho, não sem antes dizer que a sua figura nunca me tinha despertado grande simpatia ou consideração. Questões frívolas, se quiserem, estéticas, de figura. Este testemunho trouxe-me essa consideração. A frase "A vida não tem mistérios, a morte sim" fica marcada em quem o ouviu. Mas se ele não quer aqui o conteúdo, não se põe. Mas o que eu queria realmente era falar do Carlos Pinto Coelho. Ao microfone, dir-lhe-ia que tinha lá ido essencialmente por ele, que bem o merece. Na minha humilde opinião, portou-se mal em duas ou três ocasiões, sendo uma delas merecedora desta crónica, mas nenhuma ofuscou o seu extraodinário valor e a forma empolgante com que resumiu as intervenções. Empolgante e bela. A sua humildade permitir-lhe-á, espero, reconhecer alguns erros importantes que cometeu. Não me vou alongar na forma paternalista com que tratou um escritor idoso que disse que tinha de sair para o lançamento do próprio livro, nem a rejeição do tratamento por "você" com um brasileiro ao lado. Falo do momento triste em que uma menina ou senhora da audiência insta Paulo Texeira Pinto sobre a morte do filho. Atrapalhou-se. Ela falou claramente no contexto da mesa, porque a morte acompanhava as intervenções desde o início. Carlos Pinto Coelho não teve a sensibilidade de deixar a sua experiência actuar, e quis alinhar no drama do burburinho que vinha da assistência. Triste e ofensivo da liberdade que ele tanto preza. A menina ou senhora simplesmente queria saber que palavras tinha ele para a morte de um filho. Perfeitamente dentro do contexto do tema: "Estou farto de palavras" (de um poema de Nuno Júdice). Umas velhas (verdadeiras velhas) atrás de mim começaram a esbracejar para o Paulo Texeira Pinto não responder, pouco faltou para por a menina ou senhora fora da sala, e Pinto Coelho não queria dar a palavra a Texeira Pinto, não fosse ele querer mesmo responder! Viu-se bem que ele se sentiu bem ao expressar ali o seu sofrimento, algo de inimaginável e incomensurável. Viu-se que quis prestar essa homenagem ao seu menino. E nós precisamos de quem nos ajude a enfrentar a morte assim. Para viver melhor a vida. Mas também precisamos de liberdade, e Pinto Coelho devia saber disso (não, a liberdade da menina ou senhora não invadiu a liberdade de Teixeira Pinto, como aliás também se viu - ele não se sentiu acossado, não verberou a pergunta, não comentou a oportunidade;). Estive para me levantar e sair nas barbas de Carlos Pinto Coelho (não posso admitir que se destrate assim uma pessoa), mas não o fiz porque preferi ficar para lhe dizer isto. Ele ainda vai a tempo de perder todo esse paternalismo e ficar só com a sua notável paixão pelas coisas bonitas da vida. Preferi ter ficado porque ele merece este e muitos mais descontos. E assim acontece.

PS: Todos os oradores foram notáveis, mas é bom destacar também a forma como Rui Cardoso Martins cumpriu a emoção de todos os que são apaixonados por livros, honrando a memória da sua falecida mulher Tereza Coelho, editora notável, e enfrentando a morte e o luto. Claro que, se algum espectador lhe tivesse feito essa pergunta, vinha tempestade... foi ele, de frente, com coragem, sem dar azo a especulações e sem censurar a experiência que as pessoas levaram do seus testemunho!

2009-02-13

A maravilhosa Cate (e o maravilhoso Benjamim)


Tem-se discutido aqui muito Cinema. E este filme é o quê, senão um banho de cinema e, mais do que isso, de literatura? Eu, que lá entrei de pé atrás, pelas críticas tão discordantes, depois de um filme "literário" na semana passada, Revolutionary Road (outro para encher as medidas, embora este seja um "feel bad movie" e o "Benjamim" claramente um "feel good movie"), rendi-me aos primeiros minutos. Fotografia irrepreensível (estou a torcer pelo óscar para o Cláudio Miranda), onírica, quase três horas de deleite (dez minutos para empolgar as senhoras) e uma Cate Blanchett de encher as medidas, o que não espanta a quem a venera há muito. Não, nada de extraordinário na interpretação de Brad Pitt, que no entanto cumpre com competência, como bom actor que é. Mas a Cate. A Cate é fenomenal. Tem todo o brilho de uma actriz clássica e a sensualidade de uma do século XXI. A Cate! Esperem para vê-la dançar ballet com os quarenta anos que tem, parecendo dezoito. Valha a verdade: não é uma injustiçada. Ganhou um óscar e cinquenta e cinco troféus variados. Cinquenta e cinco! Mas merecia a nomeação este ano, que não teve. Um filme imperdível e de chorar por mais. Vão por mim, e vão depressa, que, se não for o vencedor dos Óscares, está de saída em poucas semanas. Tem uma média de 8.3 no www.imdb.com em 60.000 votos, o que é extraordinário. Votos de pessoas normais, como nós, não de críticos muitas vezes desligados da sua verdadeira função.

2009-02-06

Kate, Angelina, Katelina


Venha o diabo e escolha.

Bom, embora nada se compare, na minha escala de valores, à prestação pretérita da Marion Cotillard, que espero ter o prazer de rever na entrega do Óscar ao Mickey Rourke (não que eu deseje que ele ganhe), este ano tenho um dilema:

Gosto muito da Kate Winslet, vi-a em Revolutionary Road, e está fantástica. Ou "vai fantástica", como diziam com encanto os nossos avós. Mas com o excelente trabalho do Sam Mendes, até o afectado Leonardo está muito bom. Dizem que em The Reader, a Kate ainda está melhor. A Academia ingorou o Revolutionary, mas Kate ganhou o globo de ouro de melhor actriz secundária por este filme, o que é um logro, porque não há nada de seecundário neste papel. Deve ganhar o Óscar por The Reader.

Adiante. Sabem que eu quero secretamente ver a Kate a subir ao palco do Kodak Theatre, mas tenho de ser justo:

Há muito tempo que não via uma composição tão perfeita como a de Angelina Jolie em "A Troca". Ali está a contenção de uma Maria Callas a cantar a Ave Maria de Bach/Gounod. Sublime.

No entanto, a Academia é de compensações, o que até nem está mal, se querem que vos diga, isto pela pena de um maluco que segue religiosamente a cerimónia há 24 anos (nunca falhei uma directa, mesmo quando só dava na rádio:).

Se assim for, vou rejubilar com o Óscar para a Kate (uma grande actriz, com pouco glamour, como também é bom e orginal que seja, e que tem 6 nomeações para Óscar e ainda nenhuma vitória), mas tenho de aqui deixar escrito que se vai deixar de premiar aquela que é para mim, até ver, a composição deste século, juntamente com a do Daniel Day-Lewis em "Haverá Sangue".

Acabo como comecei: não toquem na Marion:)!

2009-02-05

E o terceiro já cá está - ERA 11 DE SETEMBRO, e eu saltei

Depois de ter falado tanto - provavelmente demais - sobre a minha chegada à edição, confesso que estou falho de palavras quanto a este teceiro livro. Está aí, pronto. Segue a história de quatro protagonistas e de cinco suicidas das torres gémeas, e noventa por cento da trama ocorre nos dias 11 e 12 de Setembro de 2001. O resto não se pode contar. É inspirado em casos reais, mas descola desse espartilho para buscar a essência do sofrimento e da natureza humana. Não é assim sempre? Para orientação, podem utilizar o www.portolegal.com . Obrigado e abraço do PG-M