2013-05-23

Ok, do not think, please!


Contava um destes dias o Ricky Gervais ao John Stewart: "Eu gosto do twitter porque me divirto com a estupidez das pessoas. Eu sei que são seres humanos, mas...por exemplo: um destes dias escrevi que se NINGUÉM "retwittasse" o post eu oferecia dez mil dólares a uma instituição. Houve mil "retwits" em cinco minutos. E depois insisti: ouviram, estúpidos? Se NINGUÉM retwittar isto eu ofereço dez mil dólares a uma instituição. E logo quinhentos retwitts num minuto. E eu, claro, "retwittei" os twtits daquela gente."

É uma história que faz rir e chorar ao mesmo tempo, e eu pergunto: estamos mesmo assim tão estúpidos, não estamos?

PG-M 2013

2013-05-22

The Manchester notes (I)

De Maria João Freire de Andrade

Passados quase 15 dias de permanência nesta ilha verde e chuvosa, os ecos de Portugal, esse país de sol e boa comida, chegam-me como cacarejos. Não me refiro ao "cacarejar" do governo de Mr. Lapin e outros animais, mas ao cacarejar de certos indivíduos que surgem no facebook a partilhar grandiosas pseudo-eloquências contra este e o outro, e aqueloutro e mais este e mais aquele. E, ainda pior, "grandiosas pseudo-eloquências" escritas ou ditas por terceiros, pois nem por si mesmos conseguem pensar.

Apesar de sempre o ter sabido, agora à distância vejo-o melhor. Portugal é mesmo um país de gente pequenina, de gente medíocre, que ao descobrir uma rede social (inventada por um americano) considerou-a o meio por excelência para deixar transbordar toda a sua inveja, e "no entretanto" imiscuir-se como pretenso amigo das pessoas de quem sente inveja. 

É oficial. Portugal nem sequer tem nível para ser uma capoeira, não passa de um quintal cheio de galinhas tontas a chocarem de frente umas contra as outras. Galinhas deslumbradas que pretendem "poleiros" numa determinada área, e quando não o conseguem, extravasam toda a sua bílis a quem o conseguiu. Esquecem-se que as pessoas que invejam são pessoas que trabalharam arduamente, que conquistaram os seus respetivos lugares por direito e mérito próprio. Não tiveram de recorrer a redes sociais, nem "amigarem-se" e "desamigarem-se" virtualmente com alguém. As redes sociais, esta rede social, é também um belíssimo espelho que exibe sob inúmeras formas, a carranca (mais ou menos) servil e untuosa de certos "débeis de espírito", que seguem correntes e marés sem pensamento próprio. 

Cacarejai, senhores, cacarejai, é divertido ouvir-vos :)

MJFA

2013-05-21

O que são campeões (longas notas sobre o que é ser homem através do desporto à sombra dos atletas que começam)

Aqui se falará de campeões.
De todos os campeões na óptica da pirâmide invertida, que na realidade é uma pirâmide direita, porque os nossos pequenos são a base larga de qualquer sistema humano. Aqui se tentará tocar na essência do desporto através de uma história aparentemente concreta, mas que na realidade é apenas um modelo. Quase vinte anos. Quase vinte anos a jogar voleibol para chegar a pai e ver o filho perder na negra a final do campeonato nacional de voleibol de infantis, há umas horas. Um sofrimento que se esplanou no tempo e veio dos dias anteriores aos três da fase final e se prolongou até este momento, em que parece que o corpo do filho nos regressa depois de dias de pavilhões intensos, muito intensos, muito largos, muito amplos, muito luminosos, com muita gente boa a afinar gargantas e a bater bombos, com faixas e camisolas - em que havia uma que se destacava, e já lá vamos.

Neste fim-de-semana de Maio de 2013, jogou-se em Esmoriz, de sexta a domingo, a fase final do campeonato nacional de voleibol, no escalão 12-13 anos. Vou deixar de fora destas notas os que se classificaram de quinto a oitavo (Esmoriz, Ginásio Vilacondense, Colégio Frei Gil e CV Oeiras) apenas por razões de ordem prática: muitos deles também teriam belas histórias para nos contar, com destaque para o Esmoriz, a terra onde o voleibol se vive com paixão e saúde, sem sobranceria, e que organiza torneios e fases finais sempre de forma exemplar. Há trinta anos o meu pai treinou este clube e fez, além de campeões, o sentimento que ainda alimento por esta terra - um destes dias vi esses maduros, com muita saudade, jogar contra a equipa de seniores actual: saudade das sardinhadas de verão no pátio lá de casa, quer ganhássemos, quer perdêssemos.
Saudades também dos tempos de rádio em Esmoriz, na RVE, 93.1 MHz, onde fui locutor no princípio da década de noventa:).

Voltando à fase final, dos quatro primeiros, se tivéssemos de fazer um ranking do ano 2012/2013, colocaria a Académica de Espinho em 1º (não perdera, até aqui, um único jogo), o Benfica em 2º (também sem derrotas), o Atlântico da Madalena em 3º (perdeu apenas com a Académica de Espinho) e o Ginásio de Santo Tirso em 4º (perdeu todos os jogos oficiais com a Académica de Espinho e com o Atlântico). No final do campeonato, invertemos este ranking e temos o que se passou: o Ginásio de Santo Tirso foi campeão (ganhou a meia-final à Académica de Espinho, principal favorito, e a final ao Atlântico), o Atlântico vice-campeão (ganhou a meia-final a um excelente Benfica), o Benfica terceiro (ganhou o jogo de apuramento do 3º lugar à Académica) e a Académica de Espinho em 4º. Se formos falar tecnicamente, e esta é a modesta opinião deste escriba, o Benfica é a equipa mais evoluída, graças a um trabalho meticuloso do professor Marco Silva. Tacticamente foi o Ginásio de Santo Tirso: viu-se o trabalho do professor Durval nos mais pequenos detalhes: aquecimento - o mais prolongado de todas as equipas -, direccionamento do serviço, ataque ao espaço vazio, distribuição dinâmica, recepção. O Ginásio tem também o melhor jogador nacional deste escalão, Diogo Alves, que aos treze anos é um exemplo desportivo de trato, trabalho e humildade.
Já o Benfica tem a desvantagem que sempre tiveram os clubes a sul: não tem com quem competir durante a época, mas agora compensa isto com um visionário do voleibol, o professor Jardim, que faz um trabalho quase impossível a coordenar os vários escalões e a formar jogadores, e por isso se sente que o Benfica não é só o campeão nacional de seniores porque compra, mas também porque, com muito esforço, forma. Em rigor, qualquer apaixonado por este desporto em Portugal devia gostar deste Benfica, porque a norte o FC Porto desistiu há muito do voleibol, e só recentemente se lembrou dos seus velhos campeões, entre os quais o médico do futebol, o Professor Puga. Esse esforço esteve patente nas bancadas do pavilhão: os miúdos do Benfica conquistaram a assistência, e mesmo a claque, que, se ao princípio se isolou, quase com medo de ser hostilizada, depois se fundiu com as outras claques, principalmente com a do Atlântico.
Nós emprestámos os bombos à claque do Benfica para o apoio no último jogo, eles deixaram-nos os leques que faziam barulho e diziam "Apoie o Benfica rumo ao título. Força Benfica", e foi com esses leques que apoiámos os miúdos do Atlântico na final, com os bombos de regresso. Temos a certeza de que tocámos, e fomos tocados, pela equipa e pelos apoiantes do Benfica, assim como o Benfica ficou no coração de todos. Vamos já chegar à questão Académica de Espinho e o porquê de não terem sido apoiados por outras claques (além da óbvia razão de serem os papa-tudo da época, e por isso os naturais vilões, e o apoio tender sempre para os teoricamente mais fracos), questão que, como verão, é mais uma questão de "Espinho", e que nada se relaciona com os garbosos miúdos da Académica que jogaram esta fase final, nem com o seu treinador, Fabrício, que curiosamente é jogador dos seniores do Altântico, e considerado um dos melhores atacantes nacionais.

Antes disso falta dizer porque é que o Ginásio de Santo Tirso ganhou e porque é que o Atlântico perdeu. Há vários motivos, claro, mas dois principais:  um técnico e um desportivo. O técnico explica-se numa palavra: distribuição. Dizer "Diogo Alves" seria injusto para todos os outros rapazes do Ginásio. Claro que o Diogo faz a diferença, mas vou tentar explicar o porquê da "distribuição" (o acto de passar a bola aos atacantes - e o Atlântico tem-nos bons, Guilherme, Rui, André, João, Nuno): nos escalões minis, imediatamente antes deste, é estimulado o adorno da bola com as mãos (no meu tempo, havia até um exercício em que agarrávamos a bola uns segundos, e só depois a largávamos com os dedos), para que possa haver adaptação ao gesto e mais sustentação de bola no ar, afinal a beleza do voleibol, sendo normalmente perdoados os transportes de bola menos evidentes e o duplo toque (ou a mudança de direcção da bola). Mas o primeiro escalão com jogos completos em court completo é precisamente este, o dos doze/treze anos. Os miúdos estão ainda em adaptação, e há uma certa tolerância da arbitragem (como é justo que haja), tolerância que se estendeu aos jogos desta fase final. Mas essa tolerância acabou precisamente no jogo da final e no do apuramento do 3º. Acabou a tolerância e acabou o bom-senso. Porquê esta ideia peregrina de ser pedagogo no fim? O espectáculo (estes rapazes já têm momentos de espectáculo) e ambas as equipas foram penalizadas, mas os distribuidores do Ginásio estão menos "viciados" na técnica do escalão anterior (um deles é o mesmo Diogo, o outro o Álvaro). O jogo também perdeu fluidez, as jogadas foram interrompidas pelos árbitros e não puderam prosseguir normalmente: isso foi especialmente claro no quarto set, quando os distribuidores do Atlântico - principalmente o massacrado Miguel - já não sabiam como passar a bola e toda a equipa ficou afectada. O trabalho de toda uma época do professor Hugo Leão no Atlântico, ali apoiado presencialmente pelo bem sucedido treinador dos seniores, professor JP (uma atitude muito bonita, esta sim de campeão) acabou por ser posto em causa por uma dupla de árbitros demasiado zelosa. Ter levado o jogo a discussão até ao último ponto da negra, nestas condições, foi já um esforço hercúleo para os distribuidores agora vice-campeões. Por isso está o Atlântico de parabéns: no terceiro set com o Benfica e durante quase toda a final, mostrou a cabeça fria que decide jogos. Na própria negra, depois de um quarto set enervante, e começando em desvantagem psicológica, houve um momento, aos 10-6 para o Atlântico, em que tudo poderia ter sido diferente.
Já a razão desportiva  é precisamente o exemplo de ascenção do Ginásio de Santo Tirso: não havia nada a provar, era preciso apenas ter consciência do próprio valor e não ter medo das camisolas que os tinham vencido durante a época. 
Em resumo, "Acreditar", que era precisamente o que estava escrito nas camisolas da claque do Ginásio. Essa palavra teve o duplo condão de inspirar os jogadores e intimidar os adversários, que iam percebendo que a lógica da época não estava em vigor, e que, afinal, a humildade, a concentração e o trabalho também vencem jogos. Um grande trabalho do professor Durval.

Do lado oposto desta atitude está o Espinho voleibolístico - não, repito, os garbosos múdos da Académica nem o seu treinador, Fabrício. Espinho, que é uma cidade belíssima. Também belíssima é a paixão pelo voleibol, mas há um lado bê: gerações de sobranceria endémica, desde o tempo em que todos os espinhenses se tratavam por "sócios" - ser vencedor pode não significar ser um grande campeão. É uma sobranceria que, no futebol, podemos ver nos benfiquistas: parece que este ano muitos se olharam ao espelho e que começa a haver uma certa auto-consciência de que é importante que nos divertamos e que saibamos agradecer e mimar os adversários, porque são eles que abrilhantam as nossas vitórias. Ainda hoje um amigo benfiquista, ciente dessa realidade, me disse que, por mais que tente suavizar a sobranceria de alguns, não consegue. Em Espinho essa sobranceria demorará algumas gerações a ser corrigida. Do que vi nos primeiros escalões (minis, sete a onze anos, por aí)  é melhor nem falar, até porque já o escrevi aqui.

Cultura de vitória a todo o custo será cultura de campeão? Campeão é o que sabe que a glória é efémera e que tudo é relativo: eu nunca fui feliz nos anos em que fui atleta em Espinho (num deles fui também isto: vice-campeão nacional), e fui muito feliz em todos os meus quintos lugares como atleta jovem no Colégio dos Carvalhos. Eu e o meu irmão fomos convocados para a selecção nacional pelo Colégio, não pelos "Espinhos". E foi na selecção que aprendemos o que era lutar por um objectivo comum, coisas que as crianças de hoje têm desde cedo, com o projecto das selecções das Associações de Voleibol regionais. Muito mérito, a norte, dos professores Nuno Valente e Zé Manel, que todos os Domingos e Segundas lá estão, em Matosinhos, para acolher os bons e os menos bons, criando um espírito colectivo e uma amizade que transcendem clubites (aliás, estão vedadas as camisolas dos clubes nesses treinos) - tudo ganha sentido quando os miúdos que conseguem atingir um certo patamar se encontram desta forma. Mas há uma excepção: os iniciados da Académica de Espinho, também principais candidatos ao título deste ano, e onde joga o meu querido sobrinho Simão, estão proibidos pelo seu treinador de por os pés nas selecções da AVP,  e por isso de conviver com os seus pares. É uma opção respeitável, dir-me-ão. Mas também triste. Foi do mesmo lado que ouvi aquela célebre frase dos doentes compulsivos por vitórias, quando o meu filho Guilherme foi perguntado em Espinho pela época desportiva, e disse "fui vice-campeão regional". Resposta: "Isso não é nada. Isso é ser o primeiro dos últimos." Brincadeira certamente, daquelas brincadeiras de bom gosto que se fazem na cara de atletas de treze anos. Agora o Guilherme poderia dizer que foi também o primeiro dos últimos como vice-campeão nacional, que também é nada, claro, como o Benfica foi o segundo dos últimos e os próprios infantis da Académica de Espinho foram os terceiros dos últimos. Mas isso não é ser campeão. O que terá dito esta eminente figura perante a célebre cena da atleta suíça, Gabriela Andersen-Schiess, quando a viu a chegar à meta, quase de rastos, na maratona dos jogos olímpicos de Los Angeles, em 1984, e que levou quase dez minutos a percorrer os últimos duzentos metros, desidratada e com um choque de calor? Fácil: pelas contas dele, basta retirar uma unidade à classificação geral e dizer (como ela foi 37ª em 44), "esta foi a 36ª dos últimos". Por esta bitola a medalha de prata é sempre a primeira dos últimos e a de bronze a segunda. Dos últimos. Mas talvez se engane. Vi em todas as crianças de todas as equipas a fibra de campeão, cada uma dentro dos seus limites, umas amedrontadas para na próxima se superarem, a maioria a superar-se mesmo. É essa a definição de campeão. Só essa, mais nenhuma.

Agora o meu campeão está sentado ao facebook a receber e dar os parabéns aos adversários, com o cachecol do Atlântico ao pescoço e a medalha de finalista ao peito. Foi, apesar de tudo, uma felicidade, depois de dois meses no estaleiro, com duas lesões chatas que puseram em perigo toda uma época. Durante toda a fase final soube aplaudir e consolar todos os adversários e as suas claques. No fim desta aventura, fora do mundo, quando as buzinas soavam lá fora por mais um tricampeonato do FC Porto em futebol, eu tentava gerir dolorosamente o facto de o meu filho, o meu campeão, não ter conseguido levantar a taça. Sei bem que, a longo termo, seria muito mais difícil gerir as suas expectativas na vida e no próprio desporto se ele começasse por ser campeão e depois não ganhasse mais nada. Sei que os grandes campeões devem primeiro aprender a divertir-se, depois a perder, depois a ganhar e finalmente a divertir-se outra vez, e que isso os prepara para a glória e os serena quando ela não vem.
Mas sabem vocês o que me apaziguou definitivamente, além de sentir que estou a voltar à grande família do voleibol, que abandonara quando encostei as sapatilhas Rucanor laranja de sola fina e as bolas Molten brancas, em 1987? Perceber que nos meios voleibolísticos deixei de dizer que sou um "Pedrosa", filho deste e irmão daquele, colega do Maia e do Brenha, para passar a dizer que sou o tio do Simão da Académica de Espinho e o pai do Guilherme do Atlântico.
Aí estão eles, a apaziguar-nos.
Aí estão os novos campeões.

PG-M 2013
fonte da foto de Gabriela Andersen-Schiess 
restante fotos do próprio

2013-05-16

"A manhã do mundo" - dois anos

Pronto. Hora de cantar os parabéns pelos dois aninhos. Nem de propósito, fazemos isso com a recensão da excelente revista Bang (nº 14), que só ontem me chegou às mãos. "A manhã do mundo" saiu no dia 16 de Maio de 2011. Da minha autoria, edição da Maria Do Rosário Pedreira, revisão da Sofia Madalena G. Escourido, capa do Rui Garrido, chancela da Dom Quixote.

Pedro Guilherme-Moreira 2013

2013-05-14

Le MEC

Não sei bem explicar o que neste homem me faz bem, me fez sempre bem. Não é um dado adquirido, não é aquela quase obrigatoriedade de dizer-bem-de-MEC, aquela pulsão "cool" de o elogiar publicamente, trazendo a sua glória sobre mim. Não gosto ou deixo de gostar de forma adquirida. Se tenho de gostar acriticamente de um amigo ou de um inimigo, prefiro não falar dele. Se falo dele, gosto ou desgosto criticamente. Digo mal apenas se me sentir defraudado. Se não esperava mais, calo-me educadamente. O Miguel Esteves Cardoso tem o traço de todos os homens bons que conheci, todos ao mesmo tempo, e mesmo assim não tem tempo. Nem nada. Nunca esperei menos dele. Tenho pena de que não seja meu amigo, apesar de ser a única figura pública que diz que quem sente que o conhece o conhece mesmo. Que diz não e sim de forma voraz. Que ataca qualquer pergunta como um bebé com fome de mundo. O conhecimento do interlocutor e das coisas que o interlocutor lhe traz ou permite descobrir. Profundamente humilde e sábio. Aquele ar trapalhão é a forma alegre da sabedoria, que ele diz ser intrinsecamente triste. Deve ser o único sábio alegre sobre a terra. Que não importa ser sábio, que a vidinha é bem mais importante, que não se devia ler tanto, mas viver mais, que não falta leitura aos portugueses, não senhor, porque os portugueses vão lendo nas salas de espera dos médicos, quando falam para o ar de forma imperceptível sobre as suas alfaces (confesso que quando ouvi isto estive para chorar). Vão lendo a própria vida. Que aspira ao sossego. Ao silêncio com a Maria João. Agora tenho a certeza: o Miguel Esteves Cardoso vai nascer todos os dias para o resto da vida. E nunca morrerá.
 
PG-M 2013
fonte da (belíssima) foto: Grupo Impala, Nova Gente

Solução Fagundes

Estou farto de verbos, adjectivos e palavras muito doces ou muito leves, mas não estou farto de gente nem de silêncio nem de um certo barulho e não sei como fazer isto,
pelo sexo é fácil mas não tão evidente,
se for só um beijo tem de ser lento e quase sem língua, afastado, seco,
se for pela música nem sempre te incluo e tenho demais demim*,
na dança não consigo parecer irrecusável,
sei que há um sorriso acompanhado, os lábios quase sem curvatura, as pálpebras inferiores franzidas, o sorriso do Fagundes, lembras-te?,
mas palavras não, penso até que esta espécie de diálogo na tua ausência não funciona, a frase está num beco estético sem saída, eu ia apanhar outra vez o táxi do Joseph Roth para evitar que ele morresse na miséria, mas não deixo de me sentir estupidamente feliz por ter consertado o furo no pneu por seis euros e me aprestar a descer à praia para correr junto ao mar como sempre faço e ver fumar o doutor que já morreu no fundo da rua, que amanhã acaba o prazo do iva, o prazo de tanta coisa, mas neste abismo estético eu posso sempre calar-me e dar-te o sorriso do Fagundes.
PG-M 2013
* mais uma nova palavra:)

2013-05-12

Desporto-desbenfica

Raramente escrevo sobre desporto, mais raramente ainda sobre futebol. Mas como nasci no Porto e aprendi a amar o FC Porto, onde treinei e onde o meu pai foi internacional e treinador, assim como um irmão, como estudei em Coimbra e aprendi a amar a Académica, como vivo em Valadares e estou todo orgulhoso que as meninas vão disputar a final da Taça de Portugal de futebol feminino, como estou delirante que o clube local de voleibol, o Atlântico da Madalena, tenha sido campeão nacional da segunda divisão e que o meu filho, pelo mesmo clube, vá disputar no próximo fim-de-semana o título nacional de infantis, onde provavelmente haverá um grande derby Atlântico-Benfica, pensei em escrever só isto, que no fundo é só o que me importa em qualquer actividade humana: ser "anti" o-que-quer-que-seja é ser descompensado emocional e mental - deixei de ter dúvidas sobre isso. Desejar o mal, não só a pessoas, mas a instituições, é precisar urgentemente de terapia. Usar cachecóis a dizer "Merda é Benfica" patológico. Não é por sermos um país pequeno e Lisboa ser, finalmente, uma belíssima cidade para qualquer tripeiro, e o Porto ser, finalmente, uma belíssima cidade para qualquer alfacinha. É porque os limites da natureza humana estão também nestes detalhes. A minha alma transporta uma comoção pelo granito que eu sinto num certo sotaque largo de quem ama o clube local, mas que não está em lado nenhum de quem odeia, de quem se esquece que em todo o lado, na sua vida, está uma pessoa que tem outra paixão e outra cor e que não é isso que a define, mas a distância ao centro das coisas. Na Casa do Benfica em Luanda os portistas e os benfiquistas fizeram ontem a festa, choraram, voltaram a fazer a festa e no final abraçaram-se, como em minha casa, como em muitas casas. Quanto mais nos afastamos do centro do furacão, quase sempre urbano, mais se limpa o cenário e depuram as pessoas, mais ressalta o bom e esquece o mau, mais fica  o importante e evanesce o inútil. Os animais que agridem jornalistas e vão insultar o seu melhor adversário, o adversário sem o qual não haveria nem jogo nem vitória, e atiram pedras a quem faz o que sente ou deve, esses, não são nada, não são adeptos de nada, mas a vergonha das camisolas que abusivamente envergam. Eu, por causa deles, não me quero esquecer dos dias em que fui de mão dada com o meu pai para dentro dos pavilhões e dos estádios das antas, os dias em que, miúdo, me agarrei fascinado às pernas de um Freitas, de um Teixeira, de um Cubilhas, de um Fonseca, o dia em que os ouvi chorar porque aquele jogador chamado Pavão, o que tinha caído no campo aos treze minutos da jornada treze de um Dezembro aziago, tinha morrido, o dia em que me deram a camisola azul e branca para a defender, como se fosse a mesma do meu pai, como foi a mesma que, uns anos depois, o meu pai me ofereceu quando, já veterano e a jogar noutro clube, perdeu um set a zero com o mesmo FCP. E eu comecei a jogar voleibol com essa mesma camisola número três desse mesmo clube. Dentro de um pavilhão das antas contei vinte quedas, vinte, na minha bicicleta amarela, no dia em que o meu pai, antes do treino do FCP, me tirou as rodas. Tinha seis anos. E o brilho nos meus olhos era o mesmo quando o meu pai recebeu em casa uma chamada para treinar o FCP. E aquele homem careca meio curvado que ontem estava comovido, de pé, junto ao banco do FCP, logo a seguir ao golo do Kelvin, o médico Nelson Puga, que era jogador do meu pai em 1978 e quase se sentava no chão antes de cada serviço, curvado, de cócoras, paralelo à linha de fundo do court de voleibol, esticava o braço direito e fazia um arco sobre o braço esquerdo e a bola voava em elipse, era um gesto belo, belo, belo. Tão belo que nenhuma dessas feras criminosas que espumam contra os outros pode apagar a essência do que isto é, e que não se separa, nem nunca se separá, em Porto e Benfica. São memórias de luta, de músculo, de crescimento. Que a queda de Jesus sobre os joelhos deixou no coração de todos.

PG-M 2013
fonte da foto (jornal "A Bola")

2013-05-10

Memórias préstimas* de um advogado-sopeiro

    
     No dia das limpezas cá em casa sempre me levantei muito cedo. Normalmente era para sair antes que a empregada chegasse, mas quando convenci a minha mulher de que eu, sozinho, era mais do que competente para ela me pagar a mim em vez de à dona-não-sei-quantas, que ainda por cima não era fiscalmente justa e eu prometia entregar todo o meu soldo para benefício caseiro (dava para duas semanas de supermercado), fui contratado. A bem dizer, a minha senhora (coisa horrível de se chamar ao portento com quem me casei) já sabia que essa era uma despesa que não podíamos ter, não por causa da crise.
     (é que bem antes da crise os advogados, por razões boas - o simplex, que tanto simplificou a vida das pessoas e infernizou a de funcionários públicos dos registos e notariado empurrados para a selva sem formação e sem que muitos mecanismos tecnológicos tivessem sido atempadamente testados, mas eu não estou a criticar, nem pensar, então eu ia lá falar do inferno pioneiro que vivi com um garboso funcionário dos serviços centrais das conservatórias do registo automóvel, tal que ficámos amigos, como na tropa, vejam lá, mas eu não vou falar disso, bem antes da crise os advogados, por razões boas já tinham a sua própria crise de clientela;)
     (é que bem antes da crise os advogados, por razões más, como por exemplo a forma irresponsável como se aprovaram cursos de Direito - que eram moda - como cogumelos, e nem um político, nem um dirigente das ordens e associações profissionais, os teve no sítio, como dizem que têm, para fazer frente aos grupos económicos que os faziam proliferar, mas a bem dizer fizeram o mesmo no Estado com os professores e sem privados, o facto é que não temos gente de visão, essa é que é essa, diz o sopeiro;)
     (portanto, já na altura os avogados tinham a sua própria crise de clientela, principalmente os que possuem coluna vertebral e fazem seus os princípios na deontologia, que não são assim tantos, a bem dizer, diz o sopeiro, porque, com tantos inscritos, mais de trinta mil, a pressão de procura de estágio é de tal ordem que o mecanismo de que ninguém quer falar e que ninguém quer proteger, conhecido popularmente como de "escravatura de estagiários", está implementado e já ninguém fala disso, com efeito é fácil perceber que qualquer corajoso que fizesse vida a proteger estagiários abusados teria a sua vida rapidamente destruída pelos mais poderosos, e por isso o abuso está nas veias do sistema e já nem é mencionado, é que são tantos, que se desenmerdem ou então vão a caixas de supermercado;)
     E como a minha senhora sabia que essa era uma despesa que não podíamos ter, aceitou o facto de o marido, advogado e por acaso escritor, ser competente nas limpezas.
     (levanto-me hora e meia mais cedo, porque demoro isso; às vezes duas horas. A primeira coisa que disse à minha semhora foi "vês como ela não precisava de quatro horas a sete e meio à hora para limpar a casa?"; com efeito, a minha técnica de aspirar tapetes é perfeita e já está patenteada; a bem dizer, aspiro a casa duas vezes, primeiro com a pontinha do aspirador, que deglute as pequenas poeiras, depois com o braço maior, e sou também muito eficaz na limpeza do pó, e vou a mais sítios que a dona-não-sei-quantas-que-era-fiscalmente-injusta, quer dizer, não descontava, não é?)
     Mas eu estava a falar disto a propósito de quê? Ah, já sei. Era só para dizer que enquanto ando a limpar a casa ponho os auscultadores do meu filho, uns xpto com cancelamento de ruido externo (coisa perigoso, ó-ó) e uns baixos a bombar, que na verdade me deixam num estado de arrebatamento artístico difícil de explicar, sabem quando estão isolados em boa música e o mundo lá fora (com o ruído cancelado) não tem peso nenhum, e vocês desesperados para partilhar aquilo com alguém, mas quem?, como dizer isto?, como inefar* o inefável?, e eu até interrompo a lida da casa para ir ao facebook, para responder a uns mails de clientes e colegas, para fazer uns acertos em textos para a editora, ver os filmes que estreiam, isto enquanto aspiro aquele tapete, confessso, aquilo fica perfeito, perfeito, as migalhas que o miúdo larga durante a semana e nem uma, nem uma, confesso, estou a sorver migalhas com a pontinha do aspirador e tudo é perfeito, seja com os Daft Punk, com o Jake Bugg, com o Tom Odell, com a Nena, com a Lhasa de Sela, Mozart, Enaudio, Radiohead, R.E.M., Solomon Burke, não importa, com aqueles auscultadores eu chego ao céu, sabem como é?, e foi até por causa de um estado de graça desses durante a limpeza do pó que eu escrevi na cabeça aquele  poema em italiano, com que ora concluo, porque tenho de ir fazer o almoço, mas em português - este texto é sobre música e poesia, mais nada -, porque certamente já peceberam a ideia, eu quero é cantigas (onde abaixo diz "criada" não é a criada, sou eu, vale?):

Eu sou o quarto onde a palavra sangra
Eu sou uma rima sobre a cama/ Eu sou a frase dentro do
armário
E quando a criada vem
limpar
lança poemas pela janela
E eu volto a casa e vejo

versos

Nos sapatos das pessoas

     PG-M 2013
     * palavras inventadas, obviamente, porque posso, como sopeiro
     fonte da foto

2013-05-09

Mais de três polegadas de solidão

Não falo da solidão branca, que é desejada até pelos mais velhos de nós, que depois morrem naturalmente sozinhos com o único descuido de não terem preparado a morte, e depois são devassados por correntes noticiosas que só se lembram dos outros, dos da solidão negra, dos que não querem nem podem estar sozinhos. A solidão negra moderna ganhou uma ilusão de anulação: os ecrãs. Mas, tal como as multidões que nos deixam mais sozinhos do que a casa vazia, os ecrãs tiram a muita gente, não só a ideia, mas a probabilidade, de convivência humana. Todos nós, que vivemos neles, percebemos que o corpo fica cansado de não ser visto nem tocado. Quando usamos transportes públicos de forma ocasional, ficamos fascinados por ver pessoas. Pessoas que os suportam todos os dias. Algumas, por isso, fogem para dentro de ecrãs mal saem de casa. Não olham para o topo dos edifícios, para a rua, para o rio, para nós. Nós que um dia tomamos a decisão de ir tomar um café real com um amigo real, mas percebemos que os "amigos" estão ocupados. Essa ocupação pode ser a incapacidade de trocar o ecrã pela pele, porque tempo há, há sempre tempo, nem que seja para meter na cabeça que o temos para fatalidades e que não têm de sobrevir fatalidades para nos enxergamos. E enxergarmos o outro . Hoje o engano do cantinho quente da nossa cabeça faz-nos fugir do colectivo. Nunca tanta gente sofreu de solidão negra que parece branca. Ainda por cima é uma solidão que só aparentemente se quer, que faz chegar dias em que se pensa e sente que os amigos virtuais não querem saber de nós e se bate com portas que não existem. Importar-se com os outros ainda não deixou de ser o acto voluntário de mudar para outra pele. Em qualquer ambiente, analógico ou digital. E se estamos encerrados nas nossas cabeças nem sequer para a nossa pele mudamos, quanto mais para a dos outros. É preciso sair. Comecemos pelos próprios espelhos, antes que sejamos todos um colectivo de ilusões. Ou palhaços sem plateia.

PG-M 2013

O Porto não perdoará

Quando a Apel anunciou, lá de longe, de Lisboa, que, pela primeira vez em 83 anos, não iria realizar Feira do Livro no Porto, eu achei que tinha de saber mais sobre esta enormidade. Conheci aquele a que chamo, no mínimo, de discurso inábil e sem visão (eu gosto mais de "sarrafeiro", mas pronto, fica inábil) dos políticos locais do Porto, tipo "se não há dinheiro para pão, não há dinheiro para livros" ou "se eles querem vender livros, que paguem eles" (as citações são paradigmas, e não ipsis verbis, e afinal, tantos foram os crimes políticos contra o Porto: lembro-me, assim de repente, da destruição do Palácio de Cristal para receber um mundial de hóquei). Consegui falar rapidamente com políticos hábeis, e percebi que soluções para a feira se realizar não faltavam. E em tempo. Há já movimentos vários para que a feira se realize e haveria sempre a possibilidade de angariar os 75 mil euros (bastava o apoio de uma televisão num Domingo dolente). Mas agora tem de se fazer a pergunta: e se a Apel não quiser? E se a Apel quiser castigar politicamente os políticos do Porto, ainda que houvesse dinheiro e lugar e tempo, como havia? A verdade é que não consta que a Apel tenha respondido positivamente a apelos de quem quer que seja, e já houve muitos, mesmo muitos, e de peso. Agora é porque já não há tempo e é logisticamente complicado, como se não se pudesse adiar a coisa uns dias e pedir mais braços (com os meus podem contar). Talvez porque na Apel haja gente muito importante, como tanta gente neste país, dos mais diversos sectores de actividade, que, sofrendo de um certo complexo de superioridade, considera sempre que o silêncio e o desprezo são uma saída com classe. E lá de longe, de Lisboa - onde continuam apostadíssimos numa grande feira do livro em Lisboa (ainda maior, para se vingarem da fome na invicta), continuam a sair comunicados e decisões em desfavor da feira este ano. Sem perceber que isso é violar a dignidade, não só de uma cidade e dos seus habitantes, mas de todo o norte. E será sempre um tiro no pé. Teremos sempre, para os que ficarem historicamente responsáveis por esta vergonha, uma solução de vocabulário local que, provavelmente, nunca constará dos vossos dicionários. Na Ribeira começa sempre pelo verbo "ir" no imperativo. O Porto, que nunca perdeu, não vos perdoará.

PG-M 2013

2013-05-05

Oprheu e a mãe branca (ou quaquer outro nome da luz, mesmo que seja preta)


Vais ver, mãe, que vai ser um arqueólogo a descobrir que o Orpheu do avô é toda a nossa existência em demanda antes de tempo. Já te perguntaste sobre a obsessão? Com tanto para descobrir em Paris, arriscando um encontro com Pessoa, Sá Carneiro, Picasso, Souza Cardoso, Modigliani, todos tanto, porque é que o avô se fechou naquela cave bafienta no setenta e tal da Rue Vercin e modelou aquele gigante como se estivesse a modelar a prórpia carne e a de todos os seus filhos? Aquele olhar ausente, tão subido que parecia ter dado a volta desde o inferno, pelo céu que lhe é adjunto. Já te sentaste na escadaria do pavilhão meio esquecido do outro lado do jardim das Belas Artes do Porto e olhaste para o Orpheu do avô? Não? Faz isso e há uma coisa que te vai parecer evidente: o avô deu à estátua todo o nosso sofrimento. Já não tens de o suster em ti, só o medo, um medo breve, e depois deixa que o Orpheu te ampare os golpes e te sorva as lágrimas e que enquanto beba te deixe os sorrisos que lhe foram vedados. Não vês? Ficou tudo lá, o passado, o presente e o futuro de todas as nossas dores. Por isso te deves deixar elevada, mãe, e branca (ou qualquer  outro nome da luz, mesmo que seja preta).

PG-M 2013

poema à mãe e outras vidas

Mãe, porque é que as palavras duras são mais doces do que duras as doces, e porque é que tanto duram as secas como se desfazem as que eles vendem em apresentações de vinte e oito comprimidos de cristais e tudo se passa num instante enquanto ardemos? Mãe, porque é que os milagres foram substituídos por talidomida? Escrevo-te a estas horas altas para disfarçar. Não quero que no topo da minha página do facebook esteja uma opinião política, mesmo que os meninos da quarta classe ma viessem a apodar de generosa, quero literatura aqui em cima, mãe. Lembras-te de como eu me sentia crescido quando passei para a terceira? Fiquei pequeno de novo, mãe. O recreio é severo. Ainda não consigo ser o mais forte nos domínios dos plátanos. Aflijo-me com os fracos, disse-te que este ano não os deixaria a descoberto, mas ainda não posso, mãe. Ainda fico nas escadas a olhar os grandalhões sobre o pão com marmelada. Quando tenho a boca cheia, desvio os olhos. É nessa altura que os pequenos são gozados e todos se riem. Quase levam os relapsos em ombros. É por isso que quando hoje ler a minha redacção política os meninos do quarto ano me apoiarão sem hesitações. Endorsment. Sabem que não levanto ondas, que sou fiável, mesmo que não concorde com multidões nem me junte a elas. O preço é relevante. Estão lá as meninas mais bonitas, mãe. Que ganho eu em querer fazer coisas com os nerds e as professoras? Tenho de ficar sozinho e disponível a comer o meu pão com marmelada para os grandalhões saberem que não pertenço. Que estou deserto. Livre. Mas escrevo-te, mãe, para te dizer que quero literatura no topo da minha página do facebook. Assim apouco a minha redacção política, que está por baixo. E digo-te o que importa, minha mãe, e digo-o completamente, e passo da literatura à vida, que a todos serve, por uma vez: vai correr bem, mãe, vai correr tudo muito bem. Afinal, a maior de todas és tu. Mãe. Eu, mais pequeno, vou a caminho da cidade que já não existe. Que vento atrasa as faias em Idanha, que sombra adianta as magnólias em Coimbra, que apneia suspende as areias em Francelos? E os invernos, mãe? Tu a separar-me as galochas de borracha preta e a cingires o meu sorriso ao essencial do sofrimento, as paixões negras, as gaivotas do Don Henley no baptizado do Marco, ninguém na estrada, ninguém na rua, a Joana como o grão do anjo e os corações candentes, o avô a posar com a avó junto ao portão verde e a deixar o BMW de estofos vermelhos de pele na palma da mão. E a trincheira agora. O rasgo na terra, os helicópteros ao longe, haverá resgate? Quem está pior? O escritor está de vísceras, deixá-lo. Mãe, achas mesmo que as raparigas gostam de rapazes altos? E alto, o que é alto, mãe? Davam leite simples e pão com marmelada. Davam felicidade em batas brancas passadas a ferro com vincos. Davam nomes. Bordavam. A Eduarda era padeira. O irmão atirava paralelos à nuca. A Sofia era e já não é. A Dona Laura será sempre. Não está em causa a memória de um. Está a de todos. E no meio de todos cada um tem ao peito o abismo de um tempo que não volta. Excepto para ti, mãe. Volta para ti a bandolete amarela, a saia curta, o cabelo armado, o stacatto. Uma frase em suspensão. Uma valsa, a tua mão em arco amplo, o corpo delgado. Toma-se nos braços. Roda. E roda. E roda.

PG-M 2012

fonte da foto

2013-05-01

Primeiro

 
Meu amor, o dia nasce, os galos replicando a Aurora, o derrame das ursas nos quintais da Celeste, copiam breves pautas pequenos pássaros em vastas copas de Pomar e há um só risco de luz no fundo dos olhos, primeiro de Maio, depois de ti, que de mim nasces numa volta da cama, os lençóis quentes puxados para cima dos ombros, bom dia, que horas são?, é cedo, dorme, voltam-se os corpos no espaço sideral e o dia nasce e a revolução está feita. Nós não. Nós ainda não. Ainda se dorme dentro da casa.
 
PG-M 2013

K.S.F.!

Vivemos anos alimentados a Calvin, que começava o nosso dia na última pagina do Público. Ainda sentimos, mesmo ao ler esta adaptação, o tom de genialidade e humor que nos salvava os dias e nos dava coragem de ir em frente.:) E hoje rimo-nos de todas as vezes em que relemos a prancha. É a nossa cara.
 

Em Maio (reeditado)

Em Maio, amo-te nua
sem memória do inverno,
amo-te o corpo na rua
amo-te o rasgo de inferno
e nem sol te contém,
passas da sombra, da luz,
do tempero e do desdém,
da vénia que te depus,

e vens-te.
Em Maio,

amo-te no vestíbulo
de todos os lugares do mundo,
assim, rotundo,
imundo,
nos pórticos de palácios
nas antecâmaras do mar
nas dunas
no quarto
no tecto
nos espasmos do capim
no não no sim
nas montanhas e planaltos
nos saltos altos
nas desculpas nos pretextos
entradas de dicionário
não somos corpos
bissextos
amantes de breviário
vais fazer-me no ginásio
vou comer-te no granito
do tampo que te tiver
em refeições imprecadas na incoerência da nossa
cozinha.
Venha quem vier

Em Maio és minha

PG-M 2011

2013-04-23

Revolta na estante



Tenho aqui milhares de livros amuados a dizer que hoje é o dia.
Querem sair, ver mundo, em vez de mostrar.
Estão fartos de estante e prateleira. Alguns de segunda fila dizem que é como se estivessem mortos. Os da prateleira inclinada do ikea, onde tenho as primas, explicaram-me que estão enjoados daquela posição atípica e do excesso de mérito. Que os misture com coisas leves e com mais nervo. A verdade é que a indignação cresce e eu começo a correr perigo. Que é injusto que sejam quase sempre os mesmos a sair. Na casa de banho, o "Vida e destino" e a "Odisseia" olham-me com desprezo. Este último consulta o relógio, por ser livro de biblioteca e saber que o prazo de empréstimo está quase no fim. Já não é a primeira vez que tento fazer a vontade a um e me caem todos em cima. Disse-lhes que não podem sair todos, mas prometi que roubava um hoje para trazer agitação à casa. O último que roubei foi uma edição bonita da Madame Bovary, que nesse dia viajou de comboio e a que no regresso uma amiga juntou um da Julieta Monginho. Calei-os. Estava determinado a roubar um "Livro do desassossego" que li na adolescência, mas depois lembrei-me que as últimas edições o duplicaram, e que o mais certo era ele ser desprezado por todo o acervo. Os livros de Direito, esses, estão mortos e já ninguém os rouba. BD, disse uma edição da Bíblia que sempre estranhou estar na secção de livros de poesia. Tens pouca BD, já chega de tanto palavreado sem cor. Eu vim com aquela treta de a cor ser das palavras e tive uma grande vaia dos dezoito volumes do Houaiss, que cliché, experimenta vestir sempre de cinzento e convencer os outros que até tens um interior bonito. Dizem que no natal em que arrumei na estante uma belíssima edição de "The Tale of Peter Rabbit" - facsimilada da original, mas pop up - houve comoção na estante virada a sul. Ninguém se queixa nessa estante, onde estão outros dicionários e uma edição brasileira de "...e o vento levou" de 1940. E eu concordei. Hoje roubo-lhes BD. Calaram-se. Dei-lhes os parabéns pelo dia e ouvi vários "pfff".

PG-M 2013

PS: não percam o vídeo supra, não hoje, que é o dia

2013-04-20

Eu, tu, os nosso filhos, aqui, agora (Lazhar)

Depois do filme "A Caça" nos ter virado a pele do avesso quanto ao nosso tempo e ao nosso relacionamento com a inocência (em todos os sentidos), não satisfeitos, os arautos dourados do cinema trazem-nos outro momento que nos confronta dolorosamente com o nosso tempo, as nossas pessoas, as nossas coisas em "Monsieur Lazhar". Não por acaso ganhou nos festivais de Toronto e Locarno, e teve o prémio da crítica no Sundance, do público no Cph, vários Genie e Jutra awards, o do realizador em Palm Springs, do júri e do público no RiverRun, argumento em Sidney e Valaldollid, para não falar nos inúmeros prémios individuais para os actores - não esquecer também que era um dos cinco nomeados este ano para o óscar do melhor filme estrangeiro. Vejam como está aqui o mundo. Tudo numa obra simples, que não precisa de problematizar para descarnar - e o faz com inteligência (como tudo devia ser). Já lá vamos. Numa escola preparatória de Montréal - o filme baseia-se numa peça, portanto é o tal olhar ao espelho - há um momento de excepção na vida de todos, que afinal não é excepção nenhuma porque, nas vidas todas juntas também as excepções de juntam numa regra de sofrimento: é, afinal, a condição humana. O que impressiona neste filme é o trabalho dos actores infantis, tal como já acontecia no filme dinamarquês. Mas aqui são mais. A cena final é do melhor que o cinema (ou o teatro) podem ter para oferecer a alguém e ninguém - ninguém mesmo - pode ficar imune. Ou impune. Atenção especial a Sophie Nélisse - na foto - (a mais premiada), Émilien Néron e Marie-Ève Beauregard nas personagens de Alice (a favorita de todos nós), Simon e Marie-Frédérique, mas não só. Enfim: vão ver. É obrigatório para que a inquietação que trazemos no peito se ligue a todas as inquietações do mundo e nos permita mais lucidez da próxima vez que se nos deparar uma decisão difícil. Nota intratextual: Aqui no blogue vamos ao cinema mais do que uma vez por semana, mas não escrevemos sobre cinema uma vez por semana. Só cá aparecem os (raros) filmes - uma dezena por ano, às vezes menos - cuja urgência nos impele a dizer ao próximo, de forma nada escolástica: olha, se queres desatar um nó, captar o sentido das coisas, como na grande literatura, como na grande arte, está aqui, senta-te, fecha-te no escuro, fica duas horas a ver isto, afinal podes nunca ter esta conversa, podes nunca chegar lá por ti. Daí o plural majestático: eu, tu, os nossos filhos, aqui, agora, somos nós. Monsieur Lazhar somos nós.

PG-M 2013

Nós, palhaços

Às vezes, estúpido, penso que a manhã trará por si algum rasgo, alguma inspiração. Como tantos, começo a procurá-lo ligando a tv, lendo o jornal, olhando para as caras no caminho do tribunal. Muitas vezes, demasiadas vezes, nada ressalta. Quando está este sol, um certo sorriso de acolhimento colectivo ameniza esse desencanto. Mas finalmente chega o café do meio da manhã e eu pego no livro, há semp...re um livro, reparo em quem não tem um, como olha o vazio, como mesmo com o sol na cara o olhar regressa. Observo isto há anos. Não mudou com a crise. E então entro pelas secretarias e pelas agências e escritórios a disparatar, a ver se alguém levanta os olhos, já mal uso gravata, e se uso apouco-me perante os mais modestos, uso o vernáculo, trago-os de dentro das peles grossas, dispo-os das mágoas para ficarmos todos a rir do nosso ridículo. Depois vou correr à hora do almoço e ainda fico mais insuportável. Nos dias de tempestade, venho da chuva para secar quem puder pelo caminho. E tiro sempre meia-hora para abanar gente em facebooks e emails. Há quase meio ano que uma situação passageira me traz incapaz de tanta palhaçada - algo irrelevante, mas ainda assim suficiente para não me pintar nem fazer o número. Felizmente estou uns quilos mais gordo e uns anos mais velho e percebo ao espelho que só me resta a alternativa do circo. Tenho de me voltar a pintar e cortejar o mundo inteiro com o meu ridículo. Uma só gargalhada e algumas horas do dia ficam suportáveis. Muitas e a vida toda, que são dois dias, fica leve para o público do palhaço. Ao longe, vejo em cada televisão ligada em cafés o programa do Goucha, vejo a loura da Malveira a disparatar e os olhares vazios a transbordar de riso. A vida precisa dos que aceitam ser palhaços. Amanhã ainda vou carregar mais na base. E no livro, sempre o livro.

PG-M 2013
fonte da foto

in memoriam

Ponham isto na minha biografia de arrumador: "À hora do almoço equipava-se com trapos e sapatilhas velhas no ateliê da mãe e, ao contrário de O'Neill, que por causa do coração foi proibido pelo médico, corria contra o vento. Foi por isso que o arrumador, mesmo tentando ser um homem frio e insensível, nunca o conseguiu."
 
 

corpo-livro

e depois disse-lhe que era isso que acontecia aos corpos que se demoravam naquela estante de livros. Passavam a pertencer-lhe, caindo para dentro dela.
 

2013-04-19

A queda


2013-04-13

De como grunhos hetero podem superar crises de identidade e limpar o Olimpo

Olá, chamo-me Pedro e sou um grunho hetero. Não, nem tiro a Isabel Silva do canto azul, nem a Patrícia Carvalho do canto vermelho. De resto sim, vou desmontar, fazer implodir, metralhar, os templos de todas as outras divas. O que me trouxe a este grupo de apoio foi o facto de uma amiga relativamente conhecida me ter mostrado, como daí para aqui, as súplicas de amizade no seu facebook. O quadradinho vermelho marcava setenta e nove, setenta e nove só naquele dia. Na coluna dos pedidos, à esquerda, e logo pelas miniaturas das fotografias dos suplicantes, um em cada cinco era um tipo de tronco nu, sendo que, desses, um em cada dois era praticante de culturismo e o outro um decadente maduro com verdadeiros seios a precisar de mecanismo de suporte, não sei, um corpetezito, um estrofião, qualquer coisa menos aquilo e a cerveja à frente deles na mesa de uma esplanada algarvia. Um em cada dez mandava mensagem a instruir o pedido, e foi pelo conteúdo dessas mensagens que percebi o limiar da existência e reconheci o ridículo. Ou sofisticados intelectuais a exibir os seus dotes (mais valia mostrarem os seios, como os outros), ou elementos idosos com testemunhos plangentes de identificação com a dita amiga, ou verdadeiros broeiros cujo discurso equivaleria a uma violenta pancada nas costas à entrada da tasca, ou ainda tipos que se lhe dirigiam como se tivessem tido com ela mesa, copos e cama na véspera. Assustador. Ora, depois disto, e durante uns dois dias, olhava para os meus iguais com verdadeiro nojo. Apercebi-me até que o meu subconsciente procurava os espécimens mais enxutos, mais limpos, mais cuidados, ou seja, mais gays, para salvar a honra do edifício masculino. Alguma coisa está mal quando o consciente e o inconsciente de um grunho hetero procura modelos gays para se limpar. Ora, nesses dois dias pedi a uma outra amiga, esta gordinha e pouco fotogénica, para fazer uma experiência. Muda a foto de perfil, põe uma coisa sexy, uma modelo qualquer. Mas eles vão ver as outras fotos. Não importa. De facto, eu sabia, porque conheço os meus iguais, que "eles" não iam ver as outras fotos. O que define um grunho hetero é a ditadura do pénis, por milissegundos que seja, o suficiente para carregar num botão do facebook. O pénis não pensa, é estúpido, mesmo quando toma comprimidos. E assim foi. A minha amiga gordinha, no dia seguinte, tinha mais de cinquenta pedidos novos de amizade. E ali estavam as fotografias de grunhos a precisar de corpete, as mensagens de sofisticados intelectuais a exibir os seus dotes em vez de seios, os elementos idosos com testemunhos plangentes de identificação, os verdadeiros broeiros da pancada nas costas à entrada da tasca, os tipos com excesso de confiança. Nós somos assim, meus irmãos. Saravá. O efeito em mim foi devastador. Porque não é minha intenção considerar experiências homossexuais antes do apocalipse na tal ilha deserta em que não há mulheres, e mesmo aí sabe deus, percebi que era imperioso fazer uma desintoxicação. Aqui estou. Sim, sinto nojo. Já não consigo olhar para as nossas barrigas de cerveja e para os nossos hábitos grunhos com o mesmo carinho, já não me reconheço (nesse momento comecei a choramingar, e alguns grunhos do círculo levantaram-se para me confortar e eu, de forma tão brusca que a voz se me falhou e deu falsete, gritei: laaaaarguem-me! O caldo estava entornado, a transformação tinha começado;) Não, não peço mais amizade a mulher nenhuma, mas a Isabel Silva e a Patrícia Carvalho ficam no meu olimpo de éter, a primeira como diva-speedy-gonzalez, a segunda como diva-cool, como os dois últimos cigarrinhos no maço de Zeus, até porque se as limpasse era definitivo. Tinha deixado de ser grunho, tinha passado a ser, eu próprio, a diva.

PG-M 2013

2013-04-12

Jornalista-bli mini-moli

Sou pivô de um canal noticioso e faz agora dez anos que moro naquela rua da margem sul. Farto-me de levar cordilheiras de papéis para casa, para estudar os vários temas e os vários convidados, ler livros, recortes, opiniões, recensões, críticas, comentários de amor e de ódio.
No início desta semana - logo pela manhã - o meu vizinho da frente, que nunca me tinha dirigido a palavra, vendo-me com mais uma cordilheira de papéis nos braços, perguntou, quase em estilo arrumador:
 - Doutora, esses julgamentos? Cada vez mais, hein? A vida está pr'ós advogados, hein? Hein?
E eu, atrapalhada, com o resumo do livro intragável de um líder político de extremo-centro a escorrer-me pela perna direita, a chave do carro pendurada no mindinho, a mala do portátil entrepernas e o apanhado das declarações de um ministro entre dentes, tentei dizer
- Ê'n'xou'dvogada!!!
Mas ele, mais interessado nas suas determinações do que na minha figura, levantou o braço e despediu-se, Olhe, boa sorte de qualquer maneira, que sempre tem aquele Marinho para dar no corpo a quem precisa. Saudações do vizinho Turkey*!
Turkey? Mas quem é se chama Turkey?
Depois do almoço fui, vou sempre, tomar café ao Tomás das conquilhas, onde sou muito bem tratada, precisamente como se não fosse ninguém, mas hoje um novo elemento fixou-me com o sobrolho franzido e, entre pentear a careca e puxar, sem espelho orientador, os pêlos brancos do bigode grisalho, apontou-me um dedo grosso de ponta roída e acusou-me, vermelho:
  - Isabel Silva! Isabel Silva da TVI? Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah, malandra, ah! ah! ah!
Eu, com o espanto de ser trocada por outra, cuspi o café e sujei a blusa branca e, preocupada e sem tempo para me mudar, não conseguir desmentir o homem. Mas ele continuou a anunciar-me aos nóveis amigos como "esta gaja é do caraças. Eu sou taxista ali no Oriente, e a gaja aparece-nos lá com uns naperons a dizer assim. E antes de dizer o que dizia, ria-se alto, muito alto. Ah Ah Ah. Ai o caraças. Nunca o homem, ainda mais vermelho e entalado, usou um Eh para se rir. Ah Ah Ah, perante a atitude compassiva do Tomás, que encolhia os ombros para me dizer sem palavras, Tá bêbado. Com um naperon - continuava ele -, ouuuuuuve, pá, a dizer. Ah ah ah. Um naperon bordado a dizer. Ah Ah Ah. "La-la-la-o-ca-ra-lho". Ah ah ah.
  - Ei, ei, ei, ei, ei. - censurou o Tomás - Olh'aí, ó Nippers*. Mais respeito.
Nippers? Mas quem é que se chama Nippers?
Segui para a estação já atrasada, a nódoa de café parecia o mapa de Manhattan, chamei o faz-tudo e pedi-lhe que trouxesse uma tijela de água morna com bicarbonato de sódio. Não temos. E não podia dar um saltinho à drogaria ou à farmácia para comprar qualquer coisa que tirasse isto? Oh, Mahattan, que interessante, disse ele, desconversando. Podia fazer-me esse favor, podia?
 - Preferia não fazer.*
Olhei-o com ódio e reservei para mais tarde. Agora tinha de ver os mails. Centenas de mails. Dezenas de mails de patrocinadores a alertar para o incumprimento dos tempos. Relatórios de audiências e sugestões para aumentar o tempo dedicado ao futebol. Grunhos-hetero-supostamente-intelectuais a tentar impressionar-me, pais de família a elogiar-me a beleza, e amigos, tantos amigos. Um nojo. A atitude do faz-tudo começou a roer-me por dentro, e por roer lembrei-me do bêbado de pontas roídas chamado Nippers e do vizinho obtuso chamado Turkey.
Ninguém se chama Nippers.
Ninguém se chama Turkey.
Voltei a chamar o faz-tudo. Que não.
  - Preferia mesmo não fazer, Isabel. - e saiu porta fora antes de eu lhe poder dizer o que quer que fosse. Praguejei e entre dentes, já sem morder as declarações do ministro, declarei não me chamar Isabel. Isabel é a tua tia. Mas porque é que toda a gente me chama Isabel hoje? Como é que se chamava aquela "colega" com que o bêbado do Tomás das conquilhas me confundiu? Isabel Silva, era isso. Mas quem é o raio dessa Isabel Silva? Googlei-a. Uma baixinha bonitinha que faz as reportagens de campo do programa do Goucha e da Cristina. Como é que me podem confundir com ela? Eu sou uma mulher alta e pi-vô de no-tí-cias. Vi algumas reportagens da menina e reparei num carregado acento nortenho. Liguei a um amigo do Porto para saber se ele a conhecia e o que pensava dela. Ele não me atendeu, eu mandei-lhe uma sms a perguntar-lhe se ele conhecia uma Isabel Silva da TVI e se me podia dar uma opinião. Ele respondeu por escrito a dizer que conhecia, mas que preferia não dar. Corri para a casa de banho e lavei a cara com água fria. Isto não está a acontecer. Isto não está a acontecer. Escrevi-lhe um mail e ele repetiu a graça. Resolvi acalmar-me. Isto não leva a nada. Tenho de compreender. As pessoas estão num limite da existência e provavelmente hoje é o dia. Hoje é o dia em que tudo e todos explodem. Mas não eu. Escrevi os meus pivôs, preparei a entrevista do ministro cujas declarações tivera entre dentes à frente do meu vizinho Turkey, entrei em directo. A entrevista correu bem, mas o ministro, no final, em directo, virou-se para mim e disse:
 - Gosto muito do seu trabalho, Isabel. Particularmente nas manhãs, em que um estilo vincado e um maravilhoso sotaque nortenho, aliado a uma competência extrema, faz com que consiga dar um brilho a temas que os próprios condutores do programa não têm pudor de explorar de forma bem mais polémica. A Isabel não toma o povo por burro. É inteligente, brilhante. Vejo sempre a primeira hora do programa antes de sair para o ministério, espero pela minha Maria e deixo-a na mercearia. Gostei particularmente daquele programa há tempos, sobre aquelas meninas que bordam, o "Hardcore Fofo", - o ministro aclarou a voz e deixou escapar uma risada púdica, um ih ih ih que o Nippers nunca estaria perto de imitar, e eu, embora tivesse tentado aplacá-lo, dizer que estava errado, confundido, que eu não era Isabel, não consegui soltar um som sequer, e o ministro continuou - as meninas bordam por assim dizer, "carvalhadas", - vincou bem a palavra - ih ih ih, como era?, "Rala-me o pepino". ih ih ih, oh oh oh. Em directo.
Lívida, despedi-me dos espectadores (aAO) e fechei a emissão. Passei pelo ministro sem uma palavra e fui directamente à telefonista pedir-lhe uma chamada. Esperei a mesma resposta, este era o dia, eu já tinha visto este dia nalgum lado, mas não sabia onde:
  - Eu preferia não fazer.
Procurei os contactos e liguei para a TVI. Pedi para me ligarem à Isabel Silva. Que não estava, mas que se estivesse também não passavam. Comecei a protestar e do outro lado ouvi "La, la, la" e mais "La, la, la". Francamente! Que infantil, minha senhora! Disse aos colegas que não ia tomar um copo com eles, que estava muito irritada e que tinha de ir para casa e era já. Durante o caminho tentei compreender todos os protagonistas do dia, menos eu própria. É sempre assim, todos os dias, todas as noites, com os jornalistas. Pensei, megalómana, que tinha tido o meu atarracado Bloomsday**, e que o venceria na intimidade do meu quarto, lendo o longo e belo solilóquio da Molly Bloom ao espelho, com cinco ou seis respirações, para abrir a veias. Quando ia a entrar em casa, apareceu-me outra vez o vizinho Turkey, encostado ao portão, a friccionar os lóbulos das orelhas e a parte de dento das narinas, novamente eu a carregar as cordilheiras de papel e ele sem oferecer ajuda, também não queria, o tipo é abjeto, que raio de vida a minha, e começa ele, primeiro baixinho, irritante, mas subindo gradualmente de tom, virando as costas e sempre, cada mais alto:
 - La la la, la la la e la la la, advogadas vigaristas, la la la, la la la, la la la.
E eu, claro, qual bordado de hardcore (fofo):
 - La la la, o ca - e expliquei as restantes sílabas muito bem explicadinhas - ra - lho.
 Turkey levou a mão à boca, cobrindo-a com pudor.
  - Vou fazer queixa à sua Ordem.
  - Hades*** fazer, hades!
 E entrei em casa e, quando me preparava para bater violentamente com a porta, ainda o ouvi suspirar:
 "- Oh Bartleby! Oh humanidade!"*

PG-M 2013
foto retirada de hardcorefofo.pt
* do conto de Herman Melville, "Bartleby"
** o dia 16 de Junho (de 1904), em que se passa todo o "Ulysses" de James Joyce, e que é hoje feriado nacional na Irlanda
*** Hades, deus grego dos mortos, como aliás a aqui mencionada Ordem dos jornalistas, à nascença, e flexão moderna e popular do verbo haver no Tomás das conquilhas, que será integrada pelos especialistas no próximo acordo ortográfico, por exaustão - é certamente melhor do que "espetadores";