2017-09-30

nos próximos minutos ou então a vida inteira


nos próximos minutos (ou então a vida inteira), haverá apenas dois guilhermes no mundo, um pai e um filho, tão diferentes um do outro como as copas e os troncos das árvores, como os sorrisos duros e os olhares doces, tão diferentes um do outro que os respectivos corações são poços sem fundo e quem para eles espreita dos rebordos de granito entre os meses só vê preto,

só que a entrada para o meu é pelo topo e a entrada para o teu pela base e como não têm fim nem a manipulação formal de equações, operações matemáticas, polinómios e estruturas algébricas resolve o problema a quem nos estranha:

onde fica o verdadeiro acesso?
já quem nos ama chega ao centro de olhos fechados, comigo pela pele e pelo cheiro, contigo pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

ambos comemos ética e liberdade, só que eu já engordei e tu ainda não,
pelo que comigo a ética e a liberdade funcionam como as lutas de homens e touros mais ou menos como as caracterizou um dos maiores matemáticos do nosso tempo, Hemingway, estou quase nos cinquenta e ainda não sei viver com economia física e acho que a beleza de um gajo do porto está no desbraganço e no calão e na forma vigorosa de destruir as espaldas dos amigos
(não vou agora recordar-te, com o risco de uma lamechice mortal, que a minha solução não foi opção porque era espancado em criança e um dia me levantei e comecei eu a espancar: isso seria estúpido e pouco literário; na verdade sou assim porque acredito nisto)

e tu, que só muito recentemente te tornaste homem,
comes ética e liberdade com economia

como o garcía martín lá em oviedo, a forma como um homem não se vende nem se cala - nem aos amigos, nem aos inimigos, nem aos inofensivos nem aos mais perigosos - priva-o imediatamente da unanimidade, e, como a unanimidade é perigosa, torna-o seguro

mas, na verdade, ninguém sabe que esse homem é seguro, porque o homem livre parece sempre um cabrão e um cabrão parece sempre um simpático homem livre

a diferença é que eu agora passo a vida a dizê-lo e tu não

os teus amigos percebem-te em silêncio e sem proximidade
curiosamente, no fim de contas, os meus também

posso dizer-te, meu filho, que é provável que possamos obter algum reconhecimento à morte ou na extrema velhice, nunca antes

não esperes palavras justas ou reconhecimento quando partes de um lugar ou de uma casa
não esperes agradecimentos públicos
não esperes cartazes pendurados em murais

afinal, esta filosófica busca da autenticidade - e não da verdade, que é mais falível e impura do que a matemática - traz apenas isso, autenticidade

mas, repara, não leves a mal a ninguém o silêncio perante homens com qualidades
quem pode viver sem um abraço e um elogio público?
ou ao ouvido, baixinho, para que ninguém ouça, "mano, sabes que nunca me vou esquecer de ti"?
quem pode viver sem uma noite de embriaguez e a negação da dolorosa ciência dos dias, sem os metais da vitória e do sucesso, a carne das taças e o brilho da geometria, a arrumação iconográfica do ecrã do telemóvel ou a selfie que te ilude a sentença suicida:

mas a vida é só isto? esta merda?

afinal, meu filho, a única coisa que tu fazes é voar

e ser digno


e sim, a vida é só isto, é lama e cinzento, são corpos cansados e as curvas das mulheres misturadas com as curvas dos ossos, mas, tu que és de cá,

um dia vais fazer o que eu fiz: vais levar o sobrinho do Pessoa,
que nasceu da névoa em Canidelo, naquele percurso da luz:
pelas onze da manhã, estacionas o carro na afurada, debaixo da ponte da arrábida, e diriges-te a pé rio acima e, depois da primeira curva à direita, vais apontar (eu sei que não gostas, mas, por favor, aponta) para o primeiro vislumbre da ponte de ferro e mostrar o jorro da luz da manhã a varrer o rasto dos barcos em direcção a ti e ao céptico que te acompanhar e dizer

a vida são aquelas lágrimas de há pouco, sim,
mas também isto

e lá está o meu defeito, é sempre a mesma merda:

eu só escrevi isto para te dar os parabéns como todos os pais têm dado aos filhos que entraram na universidade este ano, e mesmo aos que não conseguiram mas lutaram e vão continuar a lutar

é, pois, um texto profundamente banal e nepotista

é até bem triste que um pai se sirva do seu próprio filho como exemplo nas escolas que visita como escritor, como se não tivesse vida própria além desse filho, e é por isso que eu gostaria de esclarecer publicamente, para que fique claro, agora e sempre:

é verdade, eu não tenho vida própria além deste filho; mais precisamente: a minha vida própria é este filho e tudo o resto uma grande consequência de não haver nada mais importante

vai continuar a ser assim até descobrirem o fundo aos poços dos nossos corações, lamento

nas escolas eu digo que andavas com umas notas pouco recomendáveis no décimo ano quando viste a luz da engenharia mecânica, soubeste que estava na moda e que o lamentável crivo se aproximava de um dezoito e tu estava longe de ser um dezoito e disseste

eu quero isto


e acabaste perto do dezanove; desligaste a playstation durante um ano, perdias cinco horas por dia a treinar com a tua selecção nacional de voleibol e a combater as leis medíocres deste portugal que há muitos anos não ajuda os seus atletas e prefere fazer leis parvas que as escolas e as universidades e as federações não combatem a sério, foste dando sempre passos seguros atrás quando te queriam empurrar para a frente, mudaste de clube, foste feliz e respeitado e nunca deixaste de voar, mas os critérios de topologia, geometria, até a teoria dos números para te descrever, tudo

tudo em ti é imperceptível e infungível

e no entanto és feliz

baixas o corpo quando o distribuidor te aponta a bola, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado

sabes o teu lugar, se to tiram combates por ele e bates palmas aos adversários
e quando abraças um amigo é para sempre,
mesmo que ele não abrace de volta

mas receber o teu abraço custa uma vida
e quem te estranha, pergunta: onde fica o verdadeiro acesso?
já quem te ama chega ao centro de olhos fechados, pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

entraste

vais lutar pelo máximo, sempre

e, naquele desporto que toda a vida foi nosso, estás parado no ar,
no teu deserto privado
e sem ninguém

mesmo perto do brilho, com o corpo pronto para lutar pelo impossível,
lanças tu a bola ao ar,
baixas o corpo, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado,
na falível percepção da felicidade
mas com memória do mundo


parabéns, meu filho



PG-M 2017
foto do próprio






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