2016-07-13

Ode a quem ama quem nós amamos

A tua fotografia, as fotografias de todos os que amam quem nós amamos, serão sempre a composição gráfica de uma pietá.
Vais pensar que é ficção.
Depois vais saber que é verdade, porque eu to vou dizer.
Depois vai ser ficção outra vez, para proteger as vozes claras do mundo.
Depois vais ler aquilo que eu estou sempre a escrever:
que a ficção existe pela verdade e a verdade precisa da ficção, umas vezes para temperar o sofrimento, outras para entender o que a transcende.

O amor é sobre-humano. Não se entende de frente, mas em dinamismos que às vezes o fazem parecer o seu contrário. É banal e simples, como a beleza. Olhas a beleza de frente e podes não a entender, podes vê-la transfigurada. Qual é a diferença entre observar uma obra-prima numa fotografia de altíssima definição no ecrã do teu computador ou ao vivo, num museu, pendurada na parede? Se te aproximas demasiado, não vês o quadro, não vês a beleza, vês o detalhe, vês a emoção da assinatura, vês a forma como foi construído, espantas-te como algo aparentemente tão desordenado como são as pinceladas vistas de perto pode dar-te a ideia da perfeição uns cinco ou seis passos atrás. E, antes de começar a explicar-te porque é que o amor é sempre incondicional e, enquanto existe, infinito - e, quando nasce por dentro das coisas e das pessoas, eterno, como o amor dos pais pelos filhos -, falo-te da beleza e de todas as coisas que nos transcendem, porque o amor é assim: sobre-humano. Ainda que a agitação e a imperfeição da vida, o egoísmo e a maldade, possam tornar um pai ou uma mãe incompleto e ausente para o seu filho, eles só morrerão completos com ele ao seu lado.

Deves estar a tocer os lábios, entre o espanto e a incredulidade. Mas afinal o que é que ele quer? Porque é que não deita esta pretensão de grandiloquência por terra e diz ao que vem, de forma tão crua e simples como a que defende para o amor e para a beleza, porque é que não é mais perfeito, como uma manhã de verão antes de o norte se levantar contra ela?

Então eu digo. Esta é uma oração de devoção a quem ama quem nos amamos. Se amas alguém que nós amamos, corres o risco de ser amada por nós. Se cuidas dele, se te preocupas, se o proteges, se lhe dás colo, se lhe exiges para não sermos nós a exigir, se lhe dizes para tomar cuidado, se o abraças, se és maternal e delicada, se te perfumas e o perfumas, se lhe dás sentido e tempo, corres o risco de ser tanto para nós como ele é.

Todas as pessoas boas são vítimas de uma solidão implacável quase desde o berço, porque essa bondade é uma pureza e uma inocência que são facilmente devoradas pelas multidões, mesmo que essas multidões sejam grupos de cinco ou seis estranhos ao núcleo sagrado da pequena família, que é a família sagrada, quando existe. Quando não existe, estás definitivamente por ti e só por ti. Por isso somos sozinhos na nossa intimidade, por isso nos deslumbramos e espantamos desde pequeninos, por isso temos medo de tudo, temos medo de dar aquele passo maior, de assumir aquele risco: porquê sair da concha, porquê sair do ovo, se aqui ninguém nos magoa e ali todos nos podem magoar? Eu respondo:

porque, se não saímos de vez em quando, não nos encontraremos.
E já viste a emoção de encontrar pessoas de bem, que amam quem nós amamos?

Deixa o pequeno risco ser a musculação do corpo para os embates da vida, mesmo que, de vez em quando, corra mal.

O que não corre mal, o que já é palpável, real, o que já aparece na minha mão quando a abro, é o teu amor pelo meu amor. Por isso te digo agora, pela primeira de muitas vezes, obrigado. Obrigado a ti e aos teus que tocam na mesma orquestra ou compõem a mesma sinfonia.

Finalmente, deixa-me acabar com a simplicidade que raras vezes sou capaz de atingir, e por isso é que sou bem pior do que tu:

sabes qual é, para mim, a característica principal deste amor incondicional - o amor é sempre incondicional - pelos que amam quem nós amamos? É ele ser livre e não exigir vínculo, compromisso, correspondência. É uma espécie de monólogo. Serás protegida e amada sem que isso dependa de ti.

Dar-te amor porque o amas e dar nome a isso nestas palavras é uma decisão apenas de quem ama, não de quem é amado.
É um imperativo de justiça nomeá-lo num determinado ponto do tempo.
Mas não depende de o teu amor por ele ser eterno ou passageiro, não te vincula, não admite interferências nossas, podia até já ter acabado, podia ser passado, e eu dir-te-ia que, se o amaste e cuidaste dele, nós passamos a amar quem amou quem nós amamos, porque nunca se passa por dentro dos outros incolumemente.

Basta o vosso amor ter acontecido. Pode acabar, pode aumentar, pode mudar, mas aconteceu.
Assim o nosso.

E, se eu sou pai, é tão paternal como o que lhe devoto.
E, se eu sou mãe, é tão maternal como o que lhe devoto.
E, se eu sou irmão, é tão fraternal como o lhe devoto.
E, se eu sou alguma coisa, é igual para ti, é tanto por ti.

Então eu digo outra vez:

Esta é uma oração de devoção a quem ama quem nos amamos. Se amas alguém que nós amamos, corres o risco de ser amada por nós. Se cuidas dele, se te preocupas, se o proteges, se lhe dás colo, se lhe exiges para não sermos nós a exigir, se lhe dizes para tomar cuidado, se o abraças, se és maternal e delicada, se te perfumas e o perfumas, se lhe dás sentido e tempo, corres o risco de ser tanto para nós como ele é.

Hoje é o dia perfeito para te dizer isto e te agradecer pela primeira vez.

Obrigado, menina.


PG-M 2016, dedicado a (e disponível para) todos os que amam quem nos amamos

2016-07-05

Falta-me o ar (Filho)

Filho, acho que é a primeira vez que fazes anos, 17, e não te tenho comigo. Escrevo-te em público porque eu podia ser reduzido a nada e existiria em ti. O meu mundo és tu, esgota-se em ti, não é nada sem ti, é tudo contigo. Deixa-me ser assim mais uns anos, até deixares a nossa casa e seres a tua. A tua mãe, ao meu lado, sente o mesmo. O resto vem a seguir, mas com o resto podemos morrer. Espero morrer com o resto e tu ficares para sempre e então todo eu ficar. A vida voltou a ser dura nos últimos dias, mas perante a notícia de ti nada dói. É a primeira vez que passo a meia-noite do teu dia e tu não estás aqui, é a primeira vez que nasce o teu dia e tu não estás aqui. É uma preparação para o futuro. Por isso é que eu já sei o que quero de prenda de anos, eu que os faço dentro de poucos dias. Se não te for insuportável, quando voltares a fazer anos, sempre que voltares a fazer anos, dá-me um abraço às primeiras horas do dia. Estou em crer que cura tudo. Assim talvez não sinta este embargo no peito nem abismos nos passos, como se o corpo evoluísse sem membros ou não evoluísse de todo. É uma sensação de afogamento. Falta-me o ar. Por isso esse abraço, para ficar à tona. Para respirar e seguir em frente. É tudo o que te peço, se estiveres perto. Podes até dizer à menina, ou então não digas, à meia noite de cada 5 de Julho, olha, vou ali à porta abraçar o meu pai; mas ele ligou-te?; não, mas vou ali à porta abraçar o meu pai, demora só uns segundos, ele está velho e chato, mas nestes dias fica em silêncio, dá-me o abraço e vai-se embora e depois é um dia normal e começa tudo de novo. Se puder ser, meu filho. Se puder ser. É uma sensação de afogamento, este amor. O amor que sempre foi maior do que os homens onde mora.

PG-M 2016
Foto de Paulo Almeida

2016-07-02

55 anos de Voleibol (Pedrosas Moreiras)



 A vida pode dar muitas voltas, mas esta noite não vai desaparecer. 28-06-2016: três gerações de Pedrosas Moreira jogam lado a lado pela primeira vez. Emocionante. O avô começou tarde a jogar, tinha uns 17 anos, mais ou menos a idade dos mais novos nesta fotografia. Mas deu aí início a 55 anos ininterruptos de voleibol nesta família. Três gerações de internacionais. Agradeço aos meus companheiros de treino do CAM, Flávio,
Eduardo, Marco, Pitrez, Lucas e Pedro Vasco, terem proporcionado esta noite tão especial, como adversários (e amigos, claro). Jogar ao lado do meu filho em pavilhão pela primeira vez foi a cereja. Houve momentos em que olhei para o lado e pensei como era maravilhoso estar ali e ter o privilégio de ver o avô de 72 anos passar para os netos de 16 e 18. Na foto que abre este post, que é de Paulo Lucas, da esquerda para a direita de quem vê: em cima, Marco 41, Pedro 46, Guilherme 72, Paulo 46; em baixo, Guilherme 16, Simão 18, António 16
 Foto de Paulo Almeida
 Foto de Paulo Almeida
 Foto de Pedro Guilherme-Moreira
  Foto de Paulo Almeida

 Foto de Paulo Almeida