2015-10-26

quântico


O meu mundo é assim, quântico. Tenho medo de estar no meio de coisas mesmo grandes, mesmo más. Então ataco o (e exalto o) minimal. Por isso faço dos pequeninos verdadeiros heróis, como tu. Por isso me aborreço com a mediocridadezinha que funda ódios, por isso os catedráticos que me deram a honra de recensear o Livro sem ninguém me descobriram Bachelard numa costela. Sou quântico.

 PG-M 2015

2015-10-25

a mulher em quebra


já são tantas as lágrimas
que o olhar não se forma
só um sopro
uma sombra
só um espelho em tensão
e será dos teus lábios
da pele dos teus braços
dos ossos da tua mão

que nascerá o dia

cada dia
a menina em quebra atrás do vidro
que não faz parte de si
tu à frente, imperial, divina
como só as mulheres
nas pontas da vida
a fazer a carne
dos homens



PG-M 2015
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terra omnia

de volta ao paraíso sem ter morrido
no paraíso está muito calor, mas a campina altera os corpos e os olhares, fica-se mais comprido do que à face do mar porque esta terra pode percorrer-se a pé e parece tão infinita como o oceano junto ao qual me habituei a viver
aqui tenho vontade de me fundir com o chão, com o capim amarelo, com as oliveiras, com os rochedos, e tenho a certeza de que a poesia e a literatura estão sempre a mais, aqui só consigo ler
e rever sem criar, e, sempre que tentei escrever, deitei as frases à terra sem as guardar e talvez tenham crescido sombras ou silêncios, ou sombras e silêncios

quero mais um dia aqui e depois volto
volto sempre.

PG-M 2015

dos limites da bondade


a partir do momento em que o outro pretende reduzir-nos
à ínfima dimensão, deve ele próprio ter perante nós
o tamanho que pretende que nós tenhamos
perante o mundo


PG-M 2015 
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2015-10-22

os já-mitos, enquanto ainda-vivos


Os já-mitos, enquanto ainda-vivos, hão-de postar-se ao teu lado quase invisíveis, hão-de negar honrarias ou pelo menos combatê-las com olhares humildes e palavras simples, e essa humildade, essa simplicidade, nos já-mitos, enquanto ainda-vivos, será exponenciada pelos teus sorrisos de gratidão e frases de espanto perante a sabedoria dos já-mitos, enquanto ainda-vivos, olha-a-grandeza-dele-como-é-simples. Ao invés, se os já-mitos, enquanto ainda-vivos, te olharem de soslaio ou te ignorarem, te pisarem por seres pequeno ou desimportante, verão a sua grandeza agravada e, aos teus olhos simples e humildes, não mais serão respeitados.

Dos primeiros, hoje, quase nada reza; e oramos nós, à míngua de sábios e de firmamento; já dos segundos, caindo um após o outro, está o inferno cheio.

Valha-lhes ao menos a morte, que inclui sempre o perdão universal, e permite que a alguns seja devolvida a primordial ilusão de grandeza.


PG-M 2015
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A gente não morre (intermúndio)

O amigo do facebook que se começa a respeitar, talvez até a amar, mas cuja perspectiva de um encontro traz sempre desconforto - não por ele, mas por nós. A rapariga que nos deixa em paz na livraria do costume ou a que nos atende no restaurante do costume. O silêncio e a paz caseira ou, nos antípodas, a saudade diária dos nossos e o reencontro com eles, tantas vezes tumultuoso, com o encanto a esboroar-se nos primeiros segundos por causa de detalhes frívolos. Já lá vamos, ao encanto, e citaremos Guimarães Rosa para pesponto deste. Os corpos precisam de intermúndio, precisam de um espaço entre eles para respirar. A rotina silenciosa, ou temperada por saborosas conversas de circunstância, dá-nos equilíbrio, é bom encontrar as mesmas pessoas e é magnífico quando, num café, nos começam a trazer o que queremos sem sequer abrirmos a boca. Provavelmente, haverá poucas pessoas no mundo que estimemos tanto como esse empregado que nos traz o que queremos sem abrirmos a boca. Deixamos o pagamento em cima da mesa e devemos trocar cinco palavras por ano. Deixar isso e ir ao encontro do amigo do facebook de cujas palavras ou sugestões precisamos todos os dias, mas vemos como e quando queremos, exige um esforço físico, mental, carnal, que nem todos estão dispostos a empreender. E é mais valioso o silêncio da livreira do que a funcionária que nos aborda mal entramos na livraria, às vezes quebrando o encanto da busca de um livro que não queremos que seja ela a encontrar, mas nós, tal como é muito melhor a desilusão de o não encontrar do que um funcionário a conferir stocks num computador. E os nossos, de quem precisamos como de pão para a boca? Por vezes, em vez de nos beijarmos e seguirmos calados os primeiros momentos, talvez de mãos dadas, perguntamos logo tudo e, se falha alguma coisa, censuramos logo tudo, não nos sabemos calar bem, e é tanto pior quanto mais próximos estamos uns dos outros. Ouvir e calar tem ciência e é virtude. E então começamos a discutir, a falar alto, a despejar o que não despejámos no trabalho, a acusar e a ser acusados, aborrecemo-nos, entramos em casa, estamos fartos do dia e estamos fartos da noite, estamos fartos dos outros todos e estamos fartos dos nossos, os que nos podiam salvar, metemo-nos em nós, consultamos as redes sociais e ficamos profundamente sozinhos. O intermúndio. É importante observar os nossos e os outros como se não estivéssemos lá. Tocar ou sorrir ao de leve. As casas e os casamentos acabam quando deixamos de olhar as pessoas que amávamos - aliás, se pensamos que estamos a deixar de amar por causa dessa violenta sucessão de pequenas agressões, experimentemos olhar para eles como se não estivéssemos lá: quase sempre, o amor emerge, instala-se em toda a sua força, porque foi construído a observar e a escutar cada detalhe dos que amamos, crescendo junto a eles ou vendo-os crescer junto a nós. O silêncio e a observação são fundamentais para a felicidade, nossa e dos outros. Ontem a funcionária de um call-center com o belíssimo nome de Henriqueta pediu-me para apresentar um produto. Eu sabia que a apresentação seria redundante, porque já tinha feito a análise de mercado e tomado uma decisão. Mas optei por ouvi-la. Ela alertou que a chamada seria gravada. Eu disse "melhor". Ela começou: "Antes de mais, senhor Pedro, como está?", eu respondi "Estou bem, obrigado, e a Henriqueta?" e ela treplicou: "É a primeira vez que me devolvem esta pergunta desde que trabalho em call-centers." Um destes dias, quando ouvi uma amiga que, por necessidade, veio de uma actividade profissional cheia de charme para um call-center, quando soube o que se sofre quando uma equipa organiza um serviço robotizado, acreditando que isso é qualidade e eficiência, pressionando fisicamente o funcionário após três minutos de chamada para terminar a mesma porque está no protocolo, prometi a mim mesmo que teria a maior paciência do mundo, doravante, com os trabalhos-chapa-cinco, que são, certamente, os mais duros de todos. Se observarmos cuidadosamente o funcionário da repartição de finanças e o olharmos nos olhos e lhe falarmos sem a pressa que ali nos levou ou o tédio que ali nos deixou, teremos mais vida, menos dias maus, mais coisas resolvidas. Lá chegaremos. Se olharmos calados para os nossos no fim do dia, em vez de lhes perguntarmos tudo ou despejarmos tudo de nós, dificilmente deixaremos que a comiseração ou a solidão dos incompreendidos aparentes se instale. E sejamos artistas, expostos, vamos lá, de vez em quando, ao encontro daqueles que aprendemos a amar sem corpo nas redes sociais, mesmo que isso signifique desconforto. E então alongaremos a vida, porque cada dia terá mais sentido. E afastaremos a morte. Ainda que não se morra, como dizia o Guimarães Rosa, ou, mais precisamente:

"A gente não morre. Fica encantado."

Boas vidas.

PG-M 2015

2015-10-16

Os anjos da Asprela em verso

Os anjos que eu conheço fumam,
almoçam em tascas, bebem vinho, ouvem música alto e
cheiram, têm sexo, às vezes connosco, e até são maus
em partes desimportantes do dia
Mas quando toca a estarem presentes
porque se te vai a vida - estão
Nos escassos momentos em que vivem as próprias
existências, podem ser copy-paste,
mirrar para dentro de ecrãs e estar desatentos,
dizer e tipo, até fumar umas ganzas
e beber umas minis,
mas quando toca a estarem presentes
porque se te vai a vida - não só estão
como transcendem o que lhes pedes
É até comum que, quando se lhes pergunta se viram
uma ou outra coisa ou se sabem isto e aquilo,
possam ser ignorantes como nós, mas tenho para mim
que tal acontece porque nunca estão em si,
mas em ti e nos outros como tu, porque quando
se nos vai a vida não há tempo, ou, se há,
as horas tomam desoras e é preciso
quem ande lá por cima
 
É preciso quem voe

Hoje sabes muito bem. Sabes que são mais importantes
os que te seguram a mão e ouvem - e, verdade seja dita,
se os anjos da asprela fossem, além de bons, cultos,
- ou os que o são - e tu os conhecesses,

morrerias de enlevo,

e não do que eras para ter morrido, e eles,
com o seu sopro, cuidaram que se extinguisse,
como a chama das velas que agora espalhas pela casa
em nome deles. Sabes que eu não gosto
nada disso.

Já bastam anjos que fumam.

PG-M 2012

2015-10-10

Saudemos esta pausa antes de a tempestade se abater sobre nós

Por momentos, breves momentos, tudo se detém, mesmo os actos formadores das tempestades.
É quando o mundo ganha fôlego para deflagrar sobre si mesmo.
A onda do tsunami.
O abalo maior do terramoto.
O desabamento da montanha.
A erupção do vulcão.

O grito da mãe. 


PG-M 2013
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2015-10-08

antecâmara


durante anos arrumei o teu pijama no armário e quando sem querer caía uma peça eu apanhava-a e cheirava-a como se te abraçasse e beijasse o lugar do pescoço onde o perfume chega primeiro e o sorriso que lhe sucedia era meio que uma lágrima retida ou um raio de sol oblíquo a entrar no caixilho profundo da janela do quarto, achaque de felicidade e,

ainda assim,
não estando tu junto a mim,
parecias multidão em volta

durante anos todas as morenas relativamente altas com o cabelo preto volumoso no espaço público me pareciam tu e se por lapso eu colhia das floreiras urbanas o acento almiscarado do teu perfume mais caro ocorria a saudade naquela versão selvagem que se parece com um esmorecimento cardíaco como o que teve a avó júlia que deu o nome às azedas e foi na ambulância com uma tez já de partida e nos fez finalmente decidir comprar o primeiro telemóvel para nunca mais cessar a comunicação
estás bem lembrada que ela não morreu, só quebrou
e depois foi morrendo cada vez mais perto de nós
até um dia de novembro, anos depois,

em que partiu a dormir
precisamente a meio do dia
estava de sol não de morte
depois de recitar a vida toda
nos lábios

durante anos as semanas secas de solidão e o pátio sem os teus cruzamentos a caminho de fazer tudo, só os triângulos de sol na mesma hora do raio oblíquo a entrar no caixilho profundo da janela do quarto, o estendal cheio da roupa que penduraras de manhã antes de ires para o trabalho, eu ou a tua mãe a remover as molas e a empilhar a roupa para a passares a ferro, isso também, a tábua de passar ferro ao alto na arrecadação e o desarrumo das coisas com que sonhavas permanentemente fazer um recanto do paraíso dentro de casa

ainda assim,
não estando tu junto a mim,
parecias multidão em volta

durante anos voltei dos julgamentos e das palestras de escritor para uma casa sem ti a meio do dia só silêncio e demasiado sol onde podia estar o teu corpo ou o teu cabelo prata e quando me desprendia da toga ou dos livros e começava a abrir os armários da cozinha ou a porta do frigorífico ou a máquina de lavar loiça e te via lá via a forma como puseras tudo com um equilíbrio que te podia descrever como as pestanas dos olhos ou a paz das pálpebras, tudo perfeito menos os pratos na máquina de lavar loiça, nunca soubeste cumprir regras na arrumação da máquina de lavar loiça, se fosses sempre tu a tratar disso fazíamos o dobro das lavagens e ainda assim eu olho para o trato ineficaz da travessa do assado que tem de ser sempre lavada à mão e quase morro daquela saudade que parece um esmorecimento cardíaco ou o fim de tudo

a felicidade tem margens cortantes e derivas perigosas
tem elementos em equilíbrio instável

o pedido de beijos e abraços
e o intervalo que deixam

ainda assim,
não estando tu junto a mim,
pareces multidão em volta
 

mas nesses épicos dias de solidão aqui tão miseravelmente descritos
o adeus continha o regresso

agora estás aí estendida e fria com excesso de brancura enquanto não fecham a urna e,

ainda assim,
não estando tu junto a mim,
pareces multidão em volta

na antecâmara
nenhum abraço contém já perfume
nenhum adeus contém já regresso
vou ver se morro depressa porque
assim,
não estando tu junto a mim,

nha vida é longa demais
e todo o sol redundante



PG-M 2015 
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2015-10-05

O vídeo, João de Melo e outros viajantes do olimpo


Ovar, o FLO, o Festival Literário de Ovar, o primeiro, este de 2015, foi um momento singular em que me deixei estar naturalmente entre os grandes, mas quase não quero falar aqui de competências literárias, embora queira falar de memória e de presente. Gostava de falar da doçura e do respeito de senhores como Jaime Rocha, sublime poeta e marido da Hélia Correia, que eu idolatro e faço questão de idolatrar, entre outros, como o Miguel Real e o João de Melo, mas não só. Neste último caso, vi-me, nesse memorável jantar ovarense de escritores, noite alta, a ouvir a lucidez do João de Melo sobre a memória. Eu e ele, num troço da longa mesa e já na fase das migalhas, mas para mim no prato principal. Depois disso, sei que pediu os meus livros e os leu. Tive a honra de ouvir/ ler dele palavras que levarei para a sepultura (talvez até as grave na pedra tumular). Depois houve o dia em que ele me mencionou por escrito e publicamente, e isso para mim não passa. Tive esse dia cheio de comoção e "louvo-me" por ter podido conhecer e ser alvo das palavras do grande João de Melo, que se "louvou", e passo a citar, "por ter descoberto em Pedro Guilherme-Moreira o autor fulgurante de "A Manhã do Mundo" (sobre o quotidiano nova-iorquino dos mortos que nos saudaram no 11 de Setembro de 2001) e de "Livro sem Ninguém"; e esta menção vale quantos prémios vocês quiserem. Não o partilho porque me ache nada de especial. Partilho pela raridade e pela beleza do acto num dos grandes. Este homem, este meu ídolo, foi, por exemplo, o editor de Memória de Elefante e de Os cus de Judas, de um tal de Lobo Antunes, e também do Mário de Carvalho, entre outros. O que me comove é ter passado no crivo de quem já viu muito. E é tão bom que tenha voltado e continue a ver. (junto um printscreen parcial, porque a partilha não ficava visível para todos). Abaixo podem também ver o vídeo que substitui a minha intervenção principal em Ovar e que nos deixou a todos plenos, porque todos, quase todos, acreditam que a literatura (também) é isto:
PG-M 2015

condição

tenho muito presente a fragilidade e o cansaço dos corpos à alvorada e ao por-do-sol

tenho muito presente a nossa ausência
dos barcos pousados no horizonte
as cabeças das pessoas
os olhares nas esplanadas
e a forma de inscrição
do mundo com o corpo todo

quando nos levantamos
todos
quase todos
somos mais falíveis de pé
do que sentados


PG-M 2013
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2015-10-03

poema de uma só linha sobre um dos aspectos do silêncio



hoje é dia de dar as palavras às vezes em que as perdi


veio daqui: "escrevo muito pouco olhando o passado ou a experiência. Escrevo muito projectando-me no que leio nos olhos ou na postura dos outros. E às vezes manipulo o meu próprio sentimento: hoje é dia dar as palavras às vezes em que as perdi"
(música de Arvo Pärt - Spiegel im spiegel;
 letra de mim)

 

 PG-M 2013

2015-10-01

A sala com sentimentos



Quando nenhum suicida rompeu o círculo vicioso, o governo mandou o exército avançar por aquela rua da cidade cujo equilíbrio fora, até agora, perfeito. É verdade que os passantes habituais nunca haviam reparado que algo de singular crescera num dos endereços e que só Frigga, a acompanhante de luxo que usava o quarto no hotel em frente e cujas costas nuas redimiam, muitas vezes, o sofrimento dos trabalhadores que a viam, se sentira ela própria redimida com a visão da liberdade. Mas fora a única - e isso revelar-se-á importante na sua salvação.

A infantaria já tinha uma linha de vista para o segundo andar do edifício espelhado da multinacional que, dentro da multinacional, ficara conhecido pela sala com sentimentos, porque todo o segundo andar trabalhava pelo sistema de espaço aberto e nele restaram, como de costume, os mais inteligentes e criativos, mas, ao contrário do costume, nenhum dos ordeiros disciplinados se suicidou e a sala atingiu um insuportável nível de pressurização e quem se levantou foram os criativos com sentimentos e visão, o que rompeu a ordem das coisas, porque os criativos com sentimentos e visão estavam para trabalhar e não para contestar a ordem estabelecida até um dos ordeiros, deixado como uma espécie de resto matemático deliberado nas salas de trabalho, rebentar e recorrer ao suicídio ou ao massacre de todos os seus colegas criativos e livres pensadores que, normalmente, o olhavam num tom cinzento, astigmático e sem profusão, quando entre si eram claros, nítidos, profusos e carnais.

Pois neste ciclo não houve círculo vicioso.
O ciclo fechou-se com a conversão do resto ordeiro em colega criativo e a sala ficou, não a rebentar de tensão e desespero, como as chefias estavam habituadas, mas de sentido e liberdade.

A tensão e o desespero haviam de chegar, sim, às chefias, que aproveitariam o sistema fechado de favores para acorrer a esta emergência laboral e pedir a intervenção do exército para controlar a sala com sentimentos - argumentando que o sistema em vigor desde a revolução industrial já estava suficientemente impregnado de empregadores que pugnavam por que os seus fossem os melhores lugares para trabalhar, devaneios que só a compra por "irmãos" mais velhos e experientes no sistema resolvia, obviamente com custos para o tecido social e o perigo da invasão por um reino com um sistema de mérito e não o vetusto e eficaz sistema do demérito do patrão que verifica por balance scorecards ou furos nos cartões dos empregados o seu próprio poder que, construído sob a forma de um oco bastão de bambu,  tem serventia para correctivos e para sexo, não o sexo dentro do local laboral, que se assumiu como a mais perigosa forma de prazer do século XXI, mas o sexo escravizante que salda as frustrações do gabinete com terceiros por meio da introdução do bastão de bambu no canal rectal e outros prodígios, a verdade é que o sistema cada vez mais redutor, massacrante e rentável - contudo perigoso e civilizacionalmente apocalíptico, como se vai ver - da transformação da gente em máquinas e das máquinas em gente, para que singre o reinado do número e nunca haja franquia para o mencionado reino invasor do mérito, vinga sempre.

O sistema no segundo andar em espaço aberto da multinacional antes do perigoso surgimento em sala de sentimentos era simples e eficaz e funcionava assim:
Pela imprevisibilidade das competências dinâmicas, os novos contratados eram divididos, ao fim de um ano, em ordeiros - de um lado - e criativos - do outro, sem que isto significasse que um criativo não era ordeiro, mas significando que um ordeiro não era criativo. Vinha sempre um director dar as boas-vindas à nova equipa e prometer disponibilidade e envolvimento. Nenhum director observou algum dia um funcionário a trabalhar. Quem fazia isso era apenas o Presidente, que visitava as equipas de cinco em cinco anos e antes houvera observado uma pessoa a trabalhar e dava sempre conta, na reunião, como estava dentro das dificuldades práticas dos seus funcionários e como era importante mudar algumas coisas para lhes aliviar o fardo. Estas promessas, ainda que conhecidas e pouco credíveis, concediam mais seis meses de vida aos funcionários, animais que tendem a ter fé nos directores e nos presidentes para que a própria vida não se afigure uma mentira completa, assim como os cidadãos querem, muitas vezes e perante o medo e a promessa do inferno, acreditar nos políticos do sul da europa, quando é certo e sabido que, geneticamente, os políticos do sul da europa não quinhoam da sabedoria desde o Império Romano. Depois os directores alteram as regras anualmente. As novas regras nunca fazem sentido para os funcionários, mas é imperioso que, no fim do dia, e embora digam o contrário durante o dia, eles pensem que são eles os incapazes, e não quem os dirige. Há algo de comovente na escolha de directores: são todos cegos. Para cegos, fazem um trabalho magnífico, desconhecendo, como desconhecem, o seu ofício e o ofício dos funcionários que dirigem. Conhecer exige um anormal gasto de energia e essa queixa ia também anexa à emergência: não é bom para nenhum sistema laboral da era industrial conhecer.

Prosseguindo o relato do sistema equilibrado de organização do trabalho, no limite da razão do custo/benefício, os ordeiros são dispensados ou despedidos, assim como os piores ou mais contestários entre os criativos, mas há uma regra de ouro: deixar entre os sobreviventes o mais frágil dos ordeiros. Nos espaços abertos ficam então funcionários efectivos maioritariamente criativos e pelo menos um frágil e ordeiro, e entre eles paredes de tensão e opressão, objectivos e números, protocolos e resultados, sendo estimulada a permanente competição e aproveitada a dinâmica dos criativos para crescer. O frágil ordeiro que fica entre eles será naturalmente conduzido à morte, não sendo imperioso que seja uma morte física: quando o ordeiro passa os seus próprios limites, que por definição são estreitos, ou se suicida, poupando muito dinheiro às seguradoras de vida e abrindo espaço a um novo ciclo de recrutamento em que também o director é despedido (com justa causa e fundamentadamente, com relevantes poupanças para a instituição), ou planeia a morte dos colegas criativos, o que também isentará de responsabilidades a empresa, que se limitou a respeitar o sistema de trabalho. E, embora os passantes nas ruas onde estão as sedes destas empresas nunca reparem, até porque o passante humano olha em frente ou para o chão, nunca para cima, que as paredes dos espaços abertos normalmente se contraem durante cada ciclo, tornando as ruas mais amplas - o que convida à fuga - e os edifícios mais estreitos, a verdade é que todas as cidades doentes crescem por estreitamento das moradas e alargamento das ruas, forradas por magníficos tapetes entretecidos a fio dourado: o tom não vem do ouro, mas da solidão, que é uma matéria-prima eminentemente humana e os homens e as mulheres são feitos de uma luz que não é exactamente branca, por causa da pele e dos pelos.

A sala com sentimentos, contudo, perverteu o processo por se ter tornado consciente dele.
Ao processo de recrutamento acorreram elementos das mais diversas artes - poder-se-ia pensar que a maioria deles eram actores de teatro, mas, no que toca à essencialidade do rumo, qualquer bom elemento de qualquer arte é um bom intérprete e um bom soldado. Os candidatos, contudo, tinham todos uma primeira profissão, com a qual se inscreveram: no século XXI todas as artes têm profissões de resguardo e tristeza. E, quando a configuração do novo espaço aberto se tornou definitiva, as paredes não contraíram, pelo contrário, incharam, e isso seria visível da rua, não fossem os passantes de olhos no chão - é certo, por falta de hábito, mas também por temerem o sofrimento que transcende o seu próprio -, mas Frigga, a acompanhante de luxo que dava as costas nuas à sala e depois se voltava com o mesmo arrebatamento que nela colhia, e que a sala dela colhia, reparou que a sala com sentimentos se debruçava sobre a rua e fazia sombras novas onde antes o sol ardia. Cada elemento do espaço aberto trazia novas todos os dias, partilhava mão com mão, braço com braço, a música e o teatro e a literatura e até um olhar, um sorriso, um perfume, um ou outro beijo consentido, partilhava a pureza do desporto que amava, não eram likes nem reencaminhamentos sem corpo, eram likes e reencaminhamentos com corpo, as reuniões e as novas regras dos directores foram sentidas como espectáculos de stand-up, havia riso franco e os directores liam-no como sucesso retumbante, o frágil ordeiro eleito, na verdade o melhor actor e o líder secreto do projecto de afronta, continuou a fingir situar-se muito perto dos limites, e assim a sala cresceu de sentimentos todos os dias durante os anos que durou o ciclo, mas houve uma coisa que a sala com sentimentos não teve em conta e talvez esta tragédia sirva de lição aos livres pensadores, a saber:

a infantaria entrou na rua, preparou-se para investir e cruzou-se com os passantes indiferentes, indiferentes mesmo ao exército, quando a dinamarquesa Frigga, símbolo da doçura, deusa nórdica da fertilidade, do amor e da união, assomou à janela do seu quarto de hotel e tapou a boca com as mãos e os ombros com o manto. A sala com sentimentos, inflada, arrebatada, insustentável, caiu à rua. A infantaria e os passantes foram soterrados - entre estes, nenhum sobrevivente. A espuma de poliuretano do tecto falso do primeiro andar aplacou a sala com sentimentos e todos os seus elementos, cuja dor e o medo em queda foram considerados indemnizáveis pela Unidade Central Secção Três Jota Sete do Tribunal de Comarca - não o seriam a dor e o medo em queda pelo sistema de trabalho estruturado para maximizar a produção, não a produtividade, e minimizar os custos primários, que não incluíam o coupé topo de gama do presidente estacionado à porta do edifício (nem mesmo o coupé de dois lugares e um só cavalo do fundador), presidente que, milagrosamente, sobreviveu graças aos serviços de Frigga, que dava as costas nuas à luz dourada dos criativos do segundo piso e o corpo intersticial aos donos do mundo.

A cavalaria vinha atrás e não sofreu danos.

A dor e o medo indemnizáveis fundaram veios de expressão artística e a sala com sentimentos foi recuperada em queda por arquitectos premiados. Entretanto, começou novo processo de recrutamento. Frigga foi a primeira candidata.

PG-M 2015