2014-10-18

Porch


Regresso ao amplo alpendre de madeira para fumar um narguilé
ou uma cigarrilha ou qualquer coisa que um velho cowboy americano fumasse
o terreno perto da casa é seco
há um pequeno bosque a separar-me da estrada
os fumos são comestíveis
o da minha cigarrilha e o das árvores que o velho que eu sou tem a certeza de se moverem
todas as noites de outono, de se encolherem
todas as noites de inverno, de abrandarem
na primavera e de pararem
no verão
o fumo é o segredo do bosque, fica entre copas
com um sopro, levanto a tempestade
é fim de tarde e no interior da velha casa acende-se uma luz
a tinta branca estala sob os meus dedos
no meu modo americano não há mulheres visíveis, a não ser aquela luz da casa
ao fim da tarde
às vezes dedilho as duas cordas que restam na guitarra e lastimo uma canção do oeste
com a voz côncava que o tabaco me devolveu
o canto fica distante da estrada onde vão parando amigos que não sabem que sou eu
há lágrimas moucas
identidade
o fumo comestível dissipa-se nos braços do arvoredo
o do meu charuto encobre-me a cara
estrelas enfim
a luz no centro até depois do jantar
ninguém sai da estrada
ninguém vem
antes de me deitar ainda volto ao alpendre para cheirar o tempo
estendo os braços com a palma das mãos voltada para cima
o mundo pousa
a última passa nunca chega ao fim

PG-M 2014

fome

 
há no mundo, fora dos corpos, uma fome incurável que nos cerca e isola
e nos faz ilhas e se quer matar quando em solidão e depois se teme e deixa crescer como se fizesse parte de nós e nos impede de sermos gregários: é a fome de não sermos ilhas e de não estarmos sozinhos e o mar, em volta, como ilusão absoluta da multidão que não nos vê, mas que nós, de vez em quando, vemos,
altura em que pensamos que há no mundo, fora dos corpos, uma fome incurável que nos cerca e isola e nos faz ilhas e se quer matar quando em solidão e depois se teme e se deixa crescer como se fizesse parte de nós e nos impede de sermos gregários: é a fome de não sermos ilhas e de não estarmos sozinhos e o mar, em volta, como ilusão absoluta da multidão que não nos vê, mas que nós, de vez em quando, vemos, altura em que pensamos que há no mundo, fora dos corpos, uma fome incurável

que nos cerca e isola e nos faz ilhas e se quer matar quando em solidão e depois se teme e se deixa crescer como se fizesse parte de nós e nos impede de sermos gregários: é a fome de não sermos ilha e de não estarmos sozinho e o mar, em volta, como ilusão absoluta da multidão que não nos vê, mas que nós, de vez em quando, vemos. (...)


PG-M 2014
fonte da foto

the real secret story


estava aqui a pensar fazer o Grande Curso contra os cursos de escrita criativa, mas desisti logo. Pensei que mais vale catedráticos sem cátedra andarem a ensinar o que não sabem a desesperados fora de ofício do que a pedir na rua, porque isto está mau, mesmo mau, mais vale prémios literários fantasma com short lists de taberna do que governos que pensam que a cultura é um luxo. deixá-los, então. prefiro divertir-me com isto, a sério que prefiro. ainda tenho a honra de encontrar e abraçar alguns que admiro mesmo, e os outros, os que admiro pouco, às vezes cheiram e vestem-se bem, é um prazer, mesmo um prazer. e não quero ser o magoadeiro. beijinhos, sim. esta sim, é a secret story.


PG-M 2014
 

calendário perpétuo




Temporal.
É isto que te recuso. Que sejas tempo.
Mas, se também te recuso a morte, o desejo entra em colapso.
E não posso recusar-te o efémero e o eterno.
Então vem com os detalhes que passam e eu troco a imortalidade da memória pela finitude do corpo.
Temporal.
Já podes ser eternamente temporal.

Este (*) por todos.

*
dia/ mês/ ano/ ano bissexto/ século/ milénio/ universo/ sábado/ domingo/ janeiro/ fevereiro/ março/ abril/ maio/ junho/ julho/ agosto/ setembro/ outubro/ novembro/ dezembro/ dia 1/ dia 2/ dia 3/ dia 4/ dia 5/ dia 6/ dia 7/ dia 8/ dia 9/ dia 10/ dia 11/ dia 12/ dia 13/ dia 14/ dia 15/ dia 16/ dia 17/ dia 18/ dia 19/dia 20/ dia 21/ dia 22/ dia 23/ dia 24/ dia 25/ dia 26/ dia 27/ dia 28/ dia 29/ dia 30/  dia 31

ou

Esta
vida
dimensão
loucura
segunda
terça
quarta
quinta
sexta


PG-M *
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2014-10-15

Fernando Alves? "Amo-o"


Depois de uma velha eternidade em que, dia após dia, Fernando Alves me deixava assombrado, arrebatado, das madrugadas de rádio à beira do colapso, afastei-me e cortei os pulsos da escrita, e tenho de escrever para não me esvair em sangue, ou para me esvair, sim, devo escrever para me esvair em sangue, e deixei de ser capaz de parar de escrever ou de ler, apercebi-me de que me esperavam Camus, Kafka, Vergílio, Vieira, Torga, Saramago, Lobo Antunes, e deixei a rádio, aqueles febris dias de uma rádio que eu próprio fiz, e a rádio faz-se - nos idos de noventa.

Este é um motivo, provavelmente um motivo falso, uma explicação conveniente.

A verdade é que muito Fernando Alves pode matar, o corpo comove-se e o olhar ergue-se para brilhar insuportavelmente mais do que os astros, os que brilham ou reflectem a luz dos outros, e queremos estar com ele na caverna onde não existe nada que comunique com o exterior para lhe dar uma palmada nas costas, um gole de tinto que repousa num copo de três entre o polegar e o indicador, e dizer-lhe: "é isso, companheiro, é mesmo isso,"

ou, a sorrir, "esta vida é uma merda"
ou, a chorar, "uma merda maravilhosa".

Deixei-o por sobrevivência, pois, e agora encontro-o igual, sem tirar, nos mesmos Sinais, e, com a modernice das playlists em podcasts, pedalo por aí com um sinal atrás do outro, Fernando Alves não cansa, vai-se pelas ciclovias a rir e, às vezes, a chorar, abranda-se ali na marginal do Douro, logo depois de passar por baixo da Ponte da Arrábida, embargado. Tiro ali, precisamente e quase sempre, os auscultadores. Trata-se de ouvir um novo som do rio, uma nova cor veneziana, os rabelos crescem e multiplicam-se, agora têm motor e levam turistas, e fica um som que se reflecte nas escarpas que me recorda o que eu ouvia na cidade silenciosa de Veneza, só lá há passos e vozes e motores de barcos, e, em dias bons, com o norte pelas costas e a subir o rio connosco, é só o que se ouve: o sol a amarrar as pálpebras, vozes, passos e motores de barcos. Esse programa - emitido no meu dia de anos - contava a história do gasolineiro Manecas, de Vila Real, que tirava o número de sapatos só de olhar porque tinha tido várias sapatarias, e num passo, numa voz, num motor, dizia assim o Fernando

"Porque onde eu quero chegar, do pé para a mão, é ao momento em que, falando nós dos homens transmontanos, perguntei a Manecas pelo Torga, e Manuel Mourão (Manecas, como o conhecem em Vila Real), antes de responder, levou a mão ao boné e destapou a cabeça. Não vergou a cerviz: destapou simplesmente a cabeça. No dia seguinte, parei na Galafura a contemplar o poema geológico, a beleza absoluta de que falava o Torga. Fui ao carro buscar o Portugal do Torga, porque é justamente nesse texto, sobre trás-os-montes, que ele fala dos "homens de uma só peça, inteiriços, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão (pausa funda - ou de Fernando Alves), e pensei, claro, em Manecas, o homem que sabe medir os pés alheios só com o olhar, muito chão firme terá ele pisado para viver as histórias que me contou, tão firme como o aperto de mão que trocámos. A minha mão, esta que escreve com caligrafia incerta, a dele, aquela que usou para destapar a cabeça quando respondeu à pergunta que lhe fiz (pausa de Fernando Alves) sobre o Torga"

sobre o Torga

Soube, desde esse dia, que tinha de erguer o pedestal que o Fernando nunca aceitará, apesar da merecida comenda, e nunca mais me cansei de ouvir e reouvir (eu que sou tão pobre releitor) os Sinais do Fernando, porque ele, como os grandes livros, diz uma coisa diferente a cada repetição, o do Manecas foram umas quatro ou cinco vezes, e de sentir, sempre de forma infantil, com uns quatro anitos e agarrado às calças dele, vontade de lhe dizer, cada vez que ele fala de um escritor, tal como sentia há mais de vinte anos, senhor Fernando! senhor Fernando!, eu agora também sou escritor, mas sou tão pequeno que o senhor Fernando, habituado aos grandes, como o Torga e o Manecas, não me consegue ver.

senhor Fernando! senhor Fernando!

Pensei, garoto,  imberbe, quando "O livro sem ninguém" foi "Livro do dia TSF" e eu cumpri o sonho de ouvir aquela voz comprida e encantada do Carlos Vaz Marques falar de um livro que me tinha nascido debaixo das mãos mas nunca houvera sido meu, como não é nenhum, que o Fernando, nesse dia, ia finalmente reparar ao que vinha aquele tipo que usa um hífen, o mesmo hífen que, em alguns dicionários, é um insuportável sinal burguês.

E, meses passados, cruzei-me com ele nos corredores da Escritaria da Lídia Jorge e pensei, caramba, ele está sozinho e gosta de abraços firmes, é desta!, esta é a oportunidade de me render ao meu ídolo, mas, tal como fiz cinco longos e tortuosos anos em Coimbra, naquele percurso do trólei três entre o Teatro Académico Gil Vicente e o cruzamento da Avenida Dias da Silva com a Luís de Camões, tive o Torga sentado à minha frente, cara fechada, meu deus, meu bicho, e nunca fui capaz de o incomodar ou de arriscar o que me garantiam: ele vai responder-te mal.

Eu não podia arriscar o desprezo do meu Torga.
Como não podia arriscar a indiferença do meu Fernando.
Mesmo sendo o pequenito de quatro anos agarrado às calças do senhor e seja justa a trapalhice do arrebatamento.

E depois tive este texto de homenagem em suspenso durante tanto tempo, nunca me senti merecedor de o assinar - porque ouvia o Fernando que, sendo dos homens, parece acima deles. Um dia ouvi-o num dos Sinais e tive uma ideia: vou pegar num texto de homenagem de dois amigos que lhe aquecem o coração (por mais banal que seja a expressão, é mesmo isto), e adaptá-lo a nós, com o devido respeito e distância no que a mim me toca. E então glosei:

"Não sei quando é que o Fernando chega aos setenta (nem quanto tempo sou mais novo - ou se até serei mais velho - do que ele). Portugal é capaz de produzir um Fernando Alves: todas as nossas fantasias de autodesqualificação se anulam. Seu talento, seu rigor, sua elegância, sua discrição são tesouro nosso. Amo-o como amo a cor das águas de Fernando de Noronha, o canto do sotaque tripeiro, os cabelos crespos, a língua portuguesa, as movimentações do mundo em busca de saúde social. Amo-o como amo o mundo, o nosso mundo real e único, com a complicada verdade das pessoas. Os arranha-céus de Chicago, os azeites italianos, as formas-cores de Miró, as polifonias pigmeias. Suas canções - porque cada "sinal" é uma canção - impõem exigências prosódicas que comandam mesmo o valor dos erros criativos. Quem disse que sofremos de incompetência cósmica estava certo: disparava a inevitabilidade da virada. O samba nos cinejornais de futebol do Canal 100, Antônio Brasileiro, o Bruxo de Juazeiro, Vinicius, Clarice, Vieira, Torga, Pessoa, Saramago, Eusébio, Pavão, Oscar, Rosa, Pelé, Tostão, Cabral, tudo o que representou reviravolta para nossa geração foi captado pelo Fernando e transformado em coloquialismo sem esforço. (...) A Revolução Cubana, as pontes de Paris, o cosmopolitismo de Berlim, o requinte e a brutalidade de diversas zonas do continente africano, as consequências de Mao. Fernando está em tudo. Tudo está na dicção límpida do Fernando. Quando o mundo se apaixonar totalmente pelo que ele faz, terá finalmente visto Portugal. Sem o amor que eu e alguns alardeamos à nossa raiz lusitana, ele faz muito mais por ela (e pelo que a ela se agrega) do que todos nós juntos."

É só a declaração de amor do Caetano ao Chico, que deixei quase igual, e que, quando eu ouvi pela própria voz do Fernando, me fez pensar, caramba, é mais ou menos isto que te quero dizer. Basta-me, com supremo atrevimento, plagiar o génio do Caetano e colocar Fernando ao lado, não sobre, Chico, como se trauteássemos uma cantiga ao desafio como o meu pai fazia, nas noites da minha juventude, e depois o Fernando completava, e que até o Caetano um dia fez em conluio com o Almodóvar, mas não em Almodôvar, que era onde o Fernando o teria feito:

"Dicen que por las noches
No más se le iba en puro llorar
Dicen que no comia
No mas se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se extremecia al oir su llanto
Como sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando"

E assim foi.

Fernando Alves? Amo-o.


PG-M 2014

2014-10-07

se ao menos, mãe


se ao menos me voltasses
toda no sorriso

se ao menos eu andasse
solta nos teus passos

se ao menos te dourasse
luz nos meus cabelos

se ao menos te guardasse
voz neste silêncio

se ao menos te pudesse
ter mais um minuto

se ao menos me tomasses
toda no teu colo

se ao menos, mãe, no tempo comprido que eu conto daqui
à eternidade,
os homens soubessem que os teus beijos doces
estão dentro do carro e na estrada que percorro,
na música dos meus ouvidos
nos passeios
nos cafés

nas montras onde te peço
tudo

se ao menos os homens soubessem
que ainda cuidas
de mim
que eu te pergunto da vida
e ouço cada palavra

se ao menos eu pudesse
ter como te queria

numa cadeira sentada
e a minha cabeça
nas pernas e as tuas mãos
na cabeça

se ao menos,
mãe, se ao
menos, mãe


PG-M 2014
fonte da foto

livremente inspirada na canção "If only", da Dave Mathews Band, aqui: