2014-04-26

A poetisa que deu nome ao próprio chão

 Eis os livros da Adélia sobre a minha mesa.

A abrir a subtil e bonita edição portuguesa ( Cotovia) de "Bagagem", Carlos Drummond de Andrade diz assim da poetisa Adélila Prado:

 "Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis."

E agora vem a gargalhada no lombo do ignorante. Vejam o que pensei muito para mim, naquele espasmo de garoto: "queres ver que o Drummond caiu numa espécie de paralaxe, não viu bem a Adélia do seu ponto de observação, confundiu os ângulos, não será um bocado forçado dizer que é fogo de Deus numa qualquer cidade inventada onde o próprio Deus mora, e dar-lhe o nome evidente de Divinópolis?"

Vai então, já descrente e antes mesmo de começar, abro outro livro da Adélia Prado, "Oráculos de Maio", e uma  bofetada - e de luva - me sapateia a cara logo na dedicatória à Biblioteca Almeida Garrett, aqui no Porto, Portugal:

"Para a Biblioteca Almeida Garrett estes oráculos. Meus cumprimentos aos leitores, Adélia Prado, 24.03.2012, Divinópolis"

Mau. Divinópolis?
E mais tareia é dada pelo próprio livro "Bagagem", ainda na primeiríssima página, antes mesmo da obra em si, na abertura da sinfonia, que quase fazia lembrar o "Génio", do Harold Bloom, que logo na página primeira do prólogo me questiona a convicção de uma vida, a impossibilidade do próprio génio na literatura:

mas não é que Divinópolis existe mesmo e que a Adélia é de lá?

Como sempre, Drummond emendou o génio na simplicidade, e o burro (que sou eu) olhou para o dedo.

Portanto, antes mesmo de começar, a poetsia já tinha dado nome ao seu próprio chão:

"Adélia nasce humilde em 1935, em Divinópolis", onde conclui o magistério. Mais tarde, para "escovar o pensamento", como ela disse, entrou com o seu amor na Universidade do seu chão, essa Divinópolis, para estudar Filosofia.

E eu, se fosse a escrever, e soubesse, seriamente sobre Adélia, não poderia ter fim, e poderia cair numa paralaxe como (não) caiu Drummond. Dizer banalidades não vale. A gente corre os poemas dela e tanto sobe ao céu como desce ao inferno, tanto joga cartas no olimpo como lava a louça no divino. Por isso, pela regra circular, volta Drummond e vinca:

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo",

 e eu, para não a tratar como a Camus (em verso) dos trópicos, abro os oráculos pouco ao acaso e explico-vos como a Adélia, versejando cruamente nos despojos do aparente, nos exibe e dá à empatia os nosso próprios amores maiores nesta passagem de "Viação São Cristóvão" (página 97 de "Oráculos de Maio", Editora Siciliano, Brasil):

"Meu marido gosta muito de sexo,
 mas é também um esposo
capaz de abstinêcias prolongadas."

Há-de o passante dizer, que raio, isto não é como aqueles quadros pretensiosos que não têm nada e pretendem dizer tudo?

Não é, não, passante, isto é a essência do amor, mas não é tentando muito ver que chegas lá, é fechando os olhos e conhecendo a cidade pelos cheiros e pelos sons e pelo declínio dos dias, conhecendo-a, como escreve precisamente Camus n'"O estrangeiro", como um cego.

E Adélia, para me dar alguma razão, escreve o poema "Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade".

"Enquanto punha o vestido azul com margaridas amarelas
 e estivava os cabelos para trás, a mulher falou alto:
é isto, eu tenho inveja do Carlos Drumond de Andrade
apesar de nossas extraordinárias semelhanças. (...)" 
("Bagagem", Cotovia, p61)

Agora vou sentando no meu joelho a parte crua do sublime da Adélia e voar ao encontro dela, poetisa que deu nome ao próprio chão.

PG-M 2014

2014-04-25

François & Marine


Não é só o filme inesperadamente mais belo do ano.
É o mais bem filmado.
É talvez a direcção mais perfeita de uma actriz de que me lembro em muitos anos.
Marine Vatch, a actriz, não foi escolhida por acaso, isto é uma evidência.
Mas a forma como François Ozon, o realizador, a dirige, como encena, como escolhe as luzes, as sombras, o olhar, como aponta a câmara para o corpo de Marine, como espera por ela, como a vê desfilar, como a vê morder, como a vê pintar, como a vê fechar e abrir a boca, como a vê esperar, como espera por ela, como a deixa esperar por si.

O trailer é, como já começa a ser normal, limitado e limitativo. Empurra os espectadores menos habituados a ver cinema europeu à ideia de que o filme é alternativo, obsessivo e sexual, quando é pura beleza, sujeita-se a ser procurado por voyeurs, quando a verdade é que vemos evoluir uma muher com corpo de menina com corpo de mulher, uma menina, normal.
Sim, normal, inteligente, boa aluna, apesar de tudo com bom ambiente em casa, com uma relação sólida com o irmão mais novo, que a protege e defende. Vemos um verão das nossas vidas, mas breve e cru, afinal mais breve e cru do que o resto do filme, que supúnhamos breve e cru e afinal é quente, bonito, cheio. Simples, como, afinal, a arte maior.

E somos despidos por ele, por François Ozon, que, com meia-dúzia de golpes certeiros, nos descontrói. Questiona preconceitos e nos faz pensar que, afinal, o anormal é normal, e o normal será anormal.
Que o que está aprarentemente doente é fluido e saudável e que o que parece fluido e saudável pode estar doente.

O que é transparente é a câmara de François e os olhos de Marine.
Mas, sendo-o, podia não ser uma virtude, porque os lábios de Marine são opacos e no entanto parecem trespassar-nos como luz, e François faz avançar a língua dela para nós e até tem sabor.

E é tão bom que sabe a pouco, mas, a bem dizer, a câmara de François e a presença de Marine estão nos limites do arrebatamento. Poema total que não se cinge às tílias e às cavatinas de Rimbaud.
Não se aguentava mais do que isto.

Jovem e bela.

"Não se pode ser sério aos dezessete anos
Quando as tílias perfumam as margens da estrada
"
(e a cidade está perto) *
 
PG-M 2014
* do poema "Romance", Arthur Rimbaud, cuja leitura do poema pelos estudantes de literatura valeria, por si só, o filme

2014-04-14

Nogueira namora Annaick entre Vigo e Praga



O sol é como uma mulher que penteia languidamente os cabelos sobre Praga.
- Neste caso sobre Vigo. - observou Nogueira, polido, deixando incólume a mão delicada de Annaick, que se apoiava no seu braço enquanto subiam a Rua Uraíz.
- Sobre Praga, insisto, Fernando. Porque a formulação - o sol é como uma mulher que penteia os cabelos sobre Praga - não é minha, mas de um checo intrigante que dava por Bohumil Hrabal, e se a digo como ele a escreveu, posso dizê-la em qualquer lugar do mundo que os fios dos cabelos do sol iluminarão sempre Praga.
- Não foi o bom do Bohumil que ainda agora - para aí há uns quinze anos - morreu?
- Foi precisamente ele, morreu e morreu sem Espanha ou Portugal, que nenhuma alma - pelo menos nenhuma alma fora das universidades - fez caso de que existisse.
- O que é pena, porque aquela língua cálida, picante, pura, doce, que, como vê pela adjectivação, não se parece com nada.
- "Eu que servi o rei de inglaterra."
- "A terra onde o tempo parou."
- E veja - disse Nogueira apontando a sombra dividida em vésperas e blocos de sol no átrio de um hostal - como cai a tarde numa hospedaria checa.
Sorriram.
- Ainda temos de procurar o bosque de Karsk no Parque do Castro, Fernando, para que ele sossegue.
- Não me atreveria. Não é desfeita que se faça ao Bohumil. E muito menos aos vigueses.

Nogueira observou que há uma complexidade no viguês que transcende as fronteiras de Espanha e da própria Galiza.

Nogueira observou ainda que, pelo menos ao fim-de-semana, que era quando se deslocava de Lisboa a Vigo, e fazia-o periodicamente entre Abril e Outubro, os espanhóis, não necessariamente os vigueses, não necessariamente os galegos, picavam pinchos entre as rebaixas e os picos do sol. As horas das copas e dos pinchos coincidiam, mais ou menos, com as horas de almoçar e jantar de Nogueira, que antes delas e de Annaick, trilhava as ruas de Vigo sozinho, por causa da sesta dos mundos.
- Os mundos galego e castelão, que estão ambos implicados em toda a Galiza, não é, meu querido?
- E depois, dulce amiga?
- Depois - disse Annaick - nunca mais os galegos conseguem ser portugueses.
- E quem lhe disse que os galegos querem ser portugueses?
Permaneceram ambos em silêncio até entrarem na Crêperie bretã de Annaick.
- Quer o costume, Fernando, com chocolate belga?
- Negro, por obséquio. Com um café solo ao lado.
Annaick levantou um dos braços, desenhou no ar um círculo e uma empregada chamada Amparo, que de manhã fazia as estantes da Librouro, subvertendo-as, acenou afirmativamente.
Nogueira nunca beijara Annaick.
Nogueira nunca beijaria Annaick.
Annaick não era Marcenda. Annaick era uma mulher de negócios bem sucedida, tão bem sucedida que já se pensava que a biografia de Annaick Noblet, como selfmade-woman da Crêperie Bretonne, era pura invenção de franchisados e franchisantes.
Pura ou não, ficção ou não, Annaick, cuja fotografia vintage aparecia na face anterior das cartas de crepes, nunca seria beijada por Nogueira.
Para este português denso e estranho, o privilégio de a trazer pelo braço desde a rua Rosalia de Castro, onde lhe tinha arrendado um quarto com vista para o porto de mar, era o bastante. E Annaick, que falava de literatura de uma forma estranhamente qualificada, não sabia que o lado mais belo da literatura era a morte.
Disse-lho Amparo nessa noite,
sobre Bohumil.
- Afinal sabe de que morreu Bohumil? - perguntou Nogueira a Annaick, de modo que todos os circunstantes da Crêperie pudessem ouvir.
- Não faço ideia, meu querido.
Amparo, pousando à frente de Annaick uma clara com limão, esclareceu:
- Parece que caiu do quinto andar do Hospital de Praga.
- Mon dieu! - exclamou Annaick - Mas ele morava num quinto andar.
- E escreveu várias personagens que se suicidavam de um quinto andar.
Annaick apertou com força a mão de Nogueira.
- Ai a literatura. - disse.
Amparo, que já caminhava na direcção da copa com os restos da degustação,virou-se para trás:
- Mas há pior, minha senhora. Um pior que sabe melhor.
E, como ambos não fizessem menção de a interromper, contou que o escritor checo fora enterrado com a seguinte inscrição no caixão:
"Cervejaria Polná".
Annaick e Nogueira não precisaram de transformar a expectavida em interrogação, porque Amparo, que subvertia as estantes na Librouro, eslcareceu:
- Foi na cervejaria Polná que se conheceram a mãe e o padrasto de Bohumil.

Nogueira e Annaick asfastaram-se um do outro, aliviados, e Nogueira observou, por fim, que nem que fosse vivo pediria para o caixão a inscrição
"Crêperie Bretonne Annaick"

E depois riram-se pelas sestas do mundo até ficar frio e Nogueira ajustar um cachecol cor-de-café que um dia lhe voaria para o mar. E depois riram-se até Vigo anoitecer, ou, se a lua fosse uma mulher, arrumar numa touca branca os cabelos que penteara de dia.

PG-M 2014

2014-04-09

apartamento


 estou triste
disse ela
e passou o ferro na camisa
com vinco na evidência
a consequência
do tempo é o passado
(o vapor foi projectado)
e o problema do passado
é ter a mesma medida
do futuro

(o botão, que é duro,
partiu)

é infinito

ah, não,
respondi
(estava de costas e na mão
o esfregão
de aço)
o passado só é infinito
se acreditares em deus

não necessariamente
treplicou

estou triste,
a minha única forma de vida
é a morte
(mudou a peça na tábua
era uma blusa
transparente)

isso não é razão de tristeza
a morte ao lado facilita
(aquele tacho era o último,
estava limpo)

e pode não haver explicação para a tristeza

(limpei as mãos, virei-me,
ela estava de costas,
estendi os braços junto ao pescoço
dela,
tapei-lhe os olhos

o tronco dos meus dedos ficou
salgado

ela soluçou
colocou o ferro ao alto no suporte
a blusa deslizou para o chão
fiz menção de a apanhar
não deixou
rodou
no meu abraço
beijou-me
encostámo-nos ao parapeito
da janela do apartamento

bastou o ar quente de junho
e os táxis amarelos de nova iorque
a passar na sétima avenida
e eu a passar a caneca de café
nas bocas
e a tristeza,

não a morte,

partiu)

coloquei a pastilha na máquina
arranquei-a nos cinquenta
graus
ela voltou a forçar o vapor
na pressão máxima e disse
vão dizer que agora fazes poemas
banais


deixámo-nos rir algum tempo
o ar quente varreu a sala de estar
em oito
o cabelo dela livre
apaguei a luz branca da cozinha
ela o candeeiro
de pé

a roupa ficou numa pilha mais pequena

tratámos das solidões
em cantos opostos
da casa
eram três da manhã
eu encaixei o meu corpo
e ela, fetal,
dormiu

PG-M 2014
fonte da foto


2014-04-08

apenas oito de abril de dois mil e catorze

 não sei, não sei, espera lá, há uma sede de concisão, não podes escrever o que te vem à cabeça, tens de usar frases curtas, adjectivos seleccionados, expressões claras, palavras escritas com precisão de ourives, escolhe a posição de cada uma na frase, escolhe a posição de cada frase na página, escolhe a ordem de cada página no livro

o resultado não é necessariamente frio, cerebral
é preciso teres a certeza de que queres mesmo escrever o que acabas de escrever, 
de que cerebral é frio,
pálido,
de que febril é quente,
sanguíneo,

agora escreve.

E eu escrevo, apesar do professor e das regras do professor:

Não sei bem. De um certo modo, o que quero dizer é impreciso. E do mesmo modo que é impreciso, é preciso. É impreciso depois de chegar aos outros. É preciso em mim, na ponta da minha língua, na base do meu pescoço, na ponta dos meus dedos, no centro das minhas duas mãos, que agora estão suadas.

O que quero dizer é que hoje parou a chuva e está sol, hoje parou o frio e está calor, e depois o frio voltou ocasionalmente na forma de sol póstumo, que é o significado do vento norte: sol no dia seguinte.

Houve alguns corpos na praia da parte da manhã, corpos com cheiro a creme mas não a roupa, pés na espuma residente. Houve essencialmente a intenção do verão.

 Creio que a intenção do verão dá mais felicidade do que a areia efectiva nos pés.

Um café tomado com ironia também.
Não lhe chamaria ironia pura. É no fundo o engano humano, passe-se a rima.
Um sorriso subtil com o céu totalmente azul à frente da cara, excepto algumas nuvens, poucas, que não constituem qualquer hesitação para o sujeito que prende a chávena entre o polegar e o indicador e, sem o mindinho no espaço - antes na almofada suada da mão a percurtir a linha da vida - sorri ao universo antes do primeiro gole.

Ele está com pressa, mas teve a consciência plena de que devia parar quinze minutos para celebrar o dia oito de abril de dois mil e catorze, independentemente do que passou e do que virá, ou seja, do dia sete e do dia nove

Semicerrou os olhos
(não uses semicerrar, está a ficar batido)

Dizia, semicerrou os olhos, tomou para si uma pausa, inspirou com média profundidade, o suficiente para o diafragma mover o corpo, fazendo o queixo subir e o olhar alongar-se mar dentro, o céu, lembre-se, estava aberto e azul para ele, encostou a chávena aos lábios, afastou-a uns centímetros, exarou aquele sorriso subtil que expressa uma vitória sobre os elementos, o tal
engano
humano

bebeu o café, pagou, levantou-se, estava a maresia a atravessá-lo, fez a melhor pose, olhou obliquamente o mar, e começou a descer na direcção do carro. Não tinham passado dez minutos. Alguns colegas de esplanada, pensou ele, como todos nós quando abandonamos os lugares públicos onde estivemos parados em comunhão com estranhos, levantaram a cabeça de espanto, o espanto pela sua inscrição no dia.

Ele seguiu dentro do carro, derivou para a cidade densa, esteve toda a tarde na sombra do escritório a manejar papéis brancos, mas nunca perdeu de vista a vitória sobre os elementos que lhe tinham alongado o inverno e a curva das costas.

Bastaram, portanto, onze minutos para se erguer.

Foi o primeiro estridente, saboroso, assumido,

engano
humano
do ano

PG-M 2014


2014-04-04

Egoturismo

(esta é a intervenção na apresentação de 3 de Abril de 2014, em Lisboa, na Ler Devagar, que é também uma viagem pelas oito restantes, entre 27 de Fevereiro e 3 de Abril de 2014)

Eu não sou um orador, sou um redactor. E por isso redigi para vocês esta oração, que passo a dizer de improviso, porque sou um daqueles redactores que fala sempre de improviso.


O egocentrismo do escritor é o tema central deste improviso.

Ora, o egocentrismo é parecido com flatulência.

São ambos uma espécie de ilusão que, afinal, incomoda.

E é por isso que, para explicar o que tento fazer nos livros, o descentramento do ego e o centramento no senhor Esteves da farmácia e no mundo do senhor Esteves da farmácia, ou na Sofia da Livraria Ler Devagar, e no Ribatejo da Sofia da Livraria Ler Devagar, sem a qual vos garanto que não estaria aqui hoje, eu falei, nas oito apresentações anteriores deste livro no último mês, apenas dos outros, usando o escritor como o palhaço pobre do espectáculo, que nada vale, essencialmente, sem o que fica fora de si, livro incluído.

O escritor é um icebergue.

Um décimo está fora de água, o outro décimo sustém a parte visível. E a pessoa do escritor está no centro, é a rocha invisível, provavelmente a parte mais pequena de si próprio, mas a que lhe dá estrutura. Não vou comparar a alma com o ego ou com a flatulência, o cabeça muito menos (mas podia, se quisesse), mas são afinal as coisas mais pequenas ou invisíveis que nos fundamentam.


É por isso que as pessoas que deixam a visibilidade suprema do facebook para entrar num livraria e ver cada aparente egocêntrico falar de um livro dele, que afinal não é nada dele, mas das pessoas que apanharam frio e chuva e sol para o ouvir, merecem ouvir a história dos outros nele, não dele.


Porque um décimo de mim são livros, e os outros nove décimos também.

Porque um décimo dos livros são os outros e o mundo dos outros,

e os outros nove décimos também.


Então atribuo escritores e livros aos que, durante o último mês, andaram à chuva comigo.

Começa aqui o egoturismo.


Avisto a 27 de Fevereiro a Beatriz, na apresentação de Guimarães. A Beatriz tem quinze anos e explica-me que tem saudades das noites de verão, quando saíam todos felizes em famíla e o pai lhe explicava as constelações. Agora o pai, com a mesma idade do escritor que a olha nos olhos, não tem estrelas, tem Parkinson. Mas ainda a acorda todas as manhãs com um “bom dia princesa”. Eu digo à Beatriz que esses bons dias podem ser mais importantes do que as estrelas, e é óbvio que, quando chego a Lisboa, a mando com o Saint-Exupéry ao planetário Calouste Gulbenkian, onde não chegarão a entrar, porque o escritor se deterá a explicar à Beatriz, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, precisamente as constelações úteis, as constelações da terra, como as de Saramago.


Avisto a 2 de Março o Manel, da apresentação do Estabelecimento prisional de Setúbal, e o Manel, ao saber que eu sou do Porto diz, com orgulho, eu também sou do Porto, e ao querer comparar-se com os saltadores das torres gémeas do primeiro livro, explica que também ele já se atirou de uma torre. Andava o Manel empoleirado pelos placards gigantes dos outdoors para aceder ao quarto andar de um prédio contíguo e roubar qualquer coisita. Ora, azar do Manel, quando bota o pé na varanda do quarto andar recuado traseiras do setenta e tal da Rua do Fulano, e se sente seguro, encosta o nariz ao vidro da portada, sinal de um aturado planeamento prévio, e divisa um par de polícias já no interior da casa, a atravessar a mesmíssima sala de estar que o Manel ia pilhar. Ora, pergunta-me ele, o que é o senhor fazia? Eu não queria ir preso, por isso saltei. E assim fracturou as duas pernas e a terceira e quinta vértebras, e foi preso na mesma. E ali estava, rijo mas quebradiço, no Estabelecimento Prisional de Setúbal. E esta foi, para o Manel, a experiência literária prévia que o faria entrar de cabeça no livro “A manhã do mundo”. Pois ao Manel apresentei o Alexandre Dumas e soube que eles foram vistos os dois num barquito a remos, hoje mesmo, de manhã, a enfrentar o mar no Bico d'Areia tendo como objectivo o Bugio.

Avisto, na tarde desse mesmo 2 de Março, a primeira apresentadora deste Livro sem ninguém, numa Évora chuvosa, a senhora procuradora e poetisa Maria José, de cujos atributos físicos não vou falar, porque não devo, ou, dito num napolitano cerrado, não vou falar di doje perfeti gammi e uno magnificu abito aranciu, mas falo da belíssima prelecção, e a quem atribuiria, não um livro napolitano, porque, como certamente perceberam, o napolitano era só para disfarçar, mas a companhia do Brian de Palma num passeio de descida do Príncipe Real até ao Jardim de São Pedro de Alcântara, onde perorariam, claro, sobre o Vestida para Matar, com uma incidência especial na ideia de que a senhora procuradora Maria José poderia facilmente ter sido uma Angie Dickinson morena.


E, como vinha a senhora procuradora para Lisboa, para Évora mandava a tia Graça com o livro do João Rebocho Pais. E, prontos, tá bem, com um cachecol do Benfica, que toda a gente já sabe que eu sou um portista tolerante, e até gosto do Benfica por causa do Boleibol e do Professor Jardim.


Não me posso esquecer de contar que em Évora encontrei uma experiência literária e política instantânea numa excelente pessoa que é marido da minha amiga Isabel, juíza de Execução das Penas do Manel das pernas partidas e demais companheiros. Bastou perguntar o nome ao marido da Isabel, que, como vão ver, uns levam para a literatura outros para a revolução que, não tarda, completa 40 anos. E assim foi durante toda a vida do rapaz: ou bem que és revolucionário, ou bem que és apaixonado pelo teatro. Eu só achei nobre. Chamava-se, claro, Otelo.


Em Leiria, o meu apresentador foi o Gil Vicente. É um profundo amigo de infância e, como eu costumo dizer, o génio mais singular que conheci. Tinha pouco mais de dezasseis anos e aprendia holandês numa semana, o suficiente para suportar uma conversação, e eu isso só bêbado nas queimas das fitas de Coimbra, a rolar pelas monumentais abaixo, mas já lá vamos. Para o Gil Vicente, atribuo, claro, o Gil Vicente. Um duplo Gil Vicente na Rua dos Douradores, com o guarda-livros Moreira entalado entre eles e o Bernardo Soares a espreitar do janelão do livro de razão.

Em Ovar quem apresentou foi o Afonso Cruz e o professor Carlos Granja, ou, mais propriamente, vinho tinto de Pias e morcela e ovos com bacon e bacalhau de cebolada. Aqui figurei uma cena mais intrigante, era o professor Cleto, director do Museu de Ovar, o Quixote, o senhor Silvério um Sancho Pança mais elegante, seria o primeiro o Rei de Alcântara e o segundo o seu ministro, eu o cavalo, o Afonso Cruz o redactor da corte para as aventuras que ambos desenvolveriam entre o Calvário e a Casa dos Bicos, e, finalmente, o professor Carlos o encarregado de contar tudo às crianças.

Em Gaia, como as coisas se passaram, tinha de aviar a jovem actriz e redactora Catarina Lacerda com um livro do Miguel Miranda, que, de viva voz, plangendo, chorando mesmo, se queixou à Rosário de que o Livro sem ninguém devia ter um aviso de poesia inserta, como nos maços de tabaco, e que pode matar, pois claro que pode matar, pode matar qualquer prosador desprevenido, mas não passa disso, a poesia que estupidamente não se auto-denuncia a escorrer pelos estendais não é culpa do autor, era o que faltava.

E como eu hoje não trouxe o meu blazer Ermenegildo Zegna, não digo, nem que me cortem este dedo, que depois de eu ficar gordo e num caber no fato do casamento, que era efectivamente Ermenegildo Zegna, mudei a etiqueta, caríssima, para todos os casacos que trago quando benho a Lisboa e digo assim, Bera, troca-me a etiqueta, e ela troca.

(A Bera é a minha mulher, para o caso de não terem percebido.)

Aliás, coitada da Bera, e o que ela passou numa mesa da confeitaria Arcádia, na abenida dos Aliados, onde eu lhe declarei amor de uma forma muito estranha, ora bê lá se percebes o que está escrito aí, era o livro de introdução ao direito do batista machado a falar de hermenêutica e ela disse num entendo e eu disse também eu num entendo, e depois beio o empregado da Arcádia e eu disse quero um café e ele, aqui só servimos lanches, e eu...

quero um café e um lanche, entom.
Em Coimbra, claro, para as duas dessões, o In Illo Tempore do Trindade Coelho, a antítese da solução de continuidade para os grandes professores, porque o que eu vi, nos dois momentos, na Bertrand com olhos jovens a brilhar, e na velha faculdade com olhos jovens a brilhar, ainda que de outra idade, foi grandes professores implicados no mundano onde os livros crescem e entre quem os livros crescem, e se o professor Seabra Pereira falou da essencialidade do Estranhamento em literatura, o professor Ferro falou apaixonadamente da Linda Hutcheon, e de como ela me poderia informar a mão posmodernista que, disse ele, escreveu o Livro sem Ninguém, mas vibrou, como todos, quando, num texto sobre o Solomon Burke e o sexo em Coimbra, este antigo aluno de Coimbra lembrou com saudade a noite do Bar Dom Dinis em que o Al Berto, entre poemas viscerais, nos mandou a todos, mesmo a todos, e literalmente, para o carvalho. E hoje todos vibramos. O Torga dormia em paz na Rua Luís de Camões, a um quilómetro em linha recta do hospital velho, onde o Al Berto pôs o dedo em riste e a voz funda.

E por Lisboa tantos mais, literatos anónimos e improváveis, tantas vezes sem livros, que passo a citar com nome, como representantes de todos vocês, se não se importam, e eu já falei ao princípio da Sofia Ribatejana da Ler Devagar, não falei? Está falado.


Pois não falei da personagem Alcaso, a que atribuiremos temporariamente o nome de Sónia, paradigma do espanto literário, para quem eu transformaria o Tejo em Rio Mekong, numa viagem de barco até ao Montijo, e traria o coração das trevas do Conrad, que já não mais se descolam do apocalipse do Copolla e da sombra visceral do Brando, prestes a decair, e fá-lo-ia porque a amizade também fala de vísceras.


À personagem Bettencourt, temporariamente com o nome de Elsa, paradigma do ombro literário, jardineira e doceira do inverno e da primavera na Rua do Arco Celeste, eu dava a companhia, obviamente, do George Perec, mas sem aquela pera assustadora e aquele cabelo desalinhado, portanto fazia-lhe a barba e cortava-lhe o cabelinho à tesoura, e queria-te ver, Elsa, a fazer os doces todos sem a letra “e”.


À personagem Lucas, temporariamente com o nome Pedro, nuns dias, e Isabel noutros, paradigma do chão literário, que é um exemplo de estudo e trabalho sem vida à larga, vejo, numa manhã submersa, a entrar na UAL com o Vergílio, de onde seguem para uma qualquer conferência europeia e representam orgulhosamente Portugal sem tradução simultânea. Ou então, quando é Isabel, Nova Iorque, só Nova Iorque, como personagem, livro e escritor e tudo.


À personagem Nucha, temporariamente com o nome de Ana, paradigma do colo literário, lembro-a em bicos de pés para as pautas de entrada em Direito. É rapariga tutelar, como tantas mulheres que são mães, mas tomam conta de nós todos, são companheiras do marido e amigas mais velhas do resto do mundo, e por isso precisa de calma e ordem, pelo que a mandava aviar calmantes à farmácia da Calçada do Combro, que é do Esteves sem metafísica, e para meio entendedor.

E a personagem Almeida, temporariamente com o nome de Carla, paradigma da grande leitora, finalmente com as mãozinhas fora da minha camisa. É que ela, que hoje já passou dos trinta, estava com uns seis aninhos sentada no meu colo não literário e descobriu no bolso da minha camisa um maço de SG Lights. A gaiata fez a costumeira pergunta retórica: tu fumas? E eu: Eu não, isso é do meu pai. E ela, de um pincho, como se diz no Porto, correu escadas acima e reportou o facto a toda a família: o Pedro anda com os cigarros do pai. Pois a essa pérfida criança eu atribuiria a companhia do Lobo Antunes, e a mesma missão que dois bombeiros voluntários lisbonenses me atribuíram num dia de quarenta graus, na esquina da Duque de Loulé com a Camilo Castelo Branco: o senhor, para chegar ao cimo rua do Conde Redondo, não corta para lado nenhum porque não conhece, desce esta até ali abaixo, e depois vira à esquerda e sobe tudo até lá acima.E eu, a olhar para o fundo da rua e fazer contas aos graus, pergunto, Não posso continuar aqui pela Duque de Loulé, e depois....Não senhor! O senhor não conhece. Faça como nós dizemos, não seja teimoso! E eu fiz, mas fui sempre a pensar, Depois és tu, querido bombeiro, que espremes o que sobrar de mim. E a Carla também. Mas com o António Lobo Antunes à ilharga e, claro, Os Cus de Judas na mão.


Last, but not the least, não se explica a ilusão do egocentrismo, e, aceito, não vale a pena insistir em comparações soezes com flatulência, porque fica, no mínimo, deselegante, a não ser que a flatulência fosse, por exemplo, uma americanice para a condição ou o achaque dos viciados em procura de apartamentos. O FLATulente compulsivo procura agora um apartamento em alcântara, e, enquanto o não encontra, vive, come e dorme na Ler Devagar, onde toma café e escreve assim, porque se quer egodescentrar:


“Abrando aqui quase todos os dias, neste café, nesta livraria, à espera de alguém que depois levo para casa e assim fica o dia dividido em dois: o lado de cá, de separação e solidão, o trabalho, e o lado de lá, o regresso aos meus, a reunião. Gosto de vir a este sítio, gosto de passar pelas pessoas e de vê-las passar por mim, gosto de me encostar aos vidros e de entender os corpos num esforço de adequação ao espaço e os olhares num esforço de adequação ao silêncio, chego e peço sempre um café comprido com adoçante e um copo de água e abro o portátil e arranco a música nos ouvidos e, quando não tenho tempo para trabalhar mais um bocadinho, escrevo coisas assim. Tenho andado com a literatura à cintura, como uma daquelas bolsinhas fora de moda, tenho andado mais calado do que falante, mais com os dedos em suspenso sobre o teclado do que caindo sobre ele, tenho lido tanto, ouvido tanto, olhado tanto para as pessoas que passam para as cidades delas, para os momentos delas, tenho conhecido tanta gente sem livros e de rebarbadora e de cana de pesca e de chave de parafusos na mão a quem falo sempre de livros, elas perguntam o que é que eu faço e se eu digo que sou advogado sou consultado, se digo que sou escritor sou olhado de lado, uns sorriem, outros continuam como se eu não tivesse dito nada, e eu vou falando do que está dentro do livros e depois à noite aproximo-me da mancha do meu filho, que é o bastante para o reter, e penso que sempre que ele escreve, e é quase nunca, escreve melhor do que eu e então pergunto pela literatura para ajudar a levantar aquelas rebarbadoras, aquelas canas de pesca, aquelas chaves de parafuso, porque eu sei que há livros para nada mas tenho a certeza de que há livros que são tudo e sei, hoje sei, cada vez mais sei, que tenho de comunicar a literatura para dentro daqueles olhos duros e daqueles corpos doridos, fazê-los parar e escrever no ar para eles, pegar nas frases que já estão feitas e os confortam e tirar-lhes um verbo, aplicar-lhes uma luz, um cheiro, um botão, um barulho que os faça acordar durante alguns segundos e depois voltar à função e levar na boca, para o café, para este café, umas horas mais tarde, a inquietação que eu lhes dei, como eu trago tudo deles para aqui, que nunca nenhum me provocou o tédio que me provocam as pessoas importantes todos os dias. Estamos perto,

estamos perto, filho. ”


E terminaria com a avó Júlia, porque foi com ela que comecei há três anos na Bulhosa de Entrecampos, quando lhe chamei minha editora privativa, ainda mais exigente do que a Rosário, e porque é o nome dela que este Livro sem Ninguém inaugura para as azedas, isto foi o que este icebergue lhe disse no primeiro almoço depois de ela, com oitenta e oito anos, oitenta nove quase perfeitos, morrer:


Hoje almoçamos sem ti, e eu quero que a manhã

siga lenta, e nunca chegue

a hora de contar

os pratos


Hoje almoçámos sem ti, e eu tentei disfarçar

a tua ausência, mas a mão

ia sempre descansar

no lugar onde comias.

A altura do naperon ao chão

e o fingimento

e a tristeza na boca

e a vida,

tudo parecia

igual


E levantou-se a mesa e o teu lugar

estava limpo, mas eu

vim sacudir as migalhas

que fingi

dentro do punho fechado


Hoje o sol deteve-se nos telhados e o frio veio

das ombreiras, porque almoçámos


sem ti.

Obrigado!

PG-M 2014
Fotos de Mónica Joady, João Manso, Carlos Granja, Maria Porto, Elisa Costa Pinto, José Florim, Biblioteca Avelar Brotero e Margarida Nunes