2013-08-27

Regra literária

Quando é meio, e não fim, literatura cresce na proporção inversa dos umbigos ou do número de espelhos.




PG-M 2013
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A natureza do silêncio


"(...) E o barco sulcou o rio tentando o silêncio. Que é relativo, nunca absoluto. Silêncio é a suspensão dos ruídos comuns, mecânicos. Os galos a cantar de madrugada, os pássaros à conversa na copa de um pessegueiro, o vento, o próprio remo a separar as águas do rio, nada é adequado a quebrar o silêncio. No mundo das ideias o rumor suave das bocas durante os pensamentos também não. A dolência do barco, a paisagem definida dos socalcos verdes, o vinco dos montes, a liquidez da luz matinal a molhar as bochechas e a dourar os cabelos fez com que todos se calassem. (....)"

PG-M 2013

Ego-free


Antes do facebook e das redes sociais era mais simples escrever coisas bonitas. Mas a beleza de certos aforismos está a perder-se por desgaste. Eis o que escapa aos escritores que não frequentam estas coisas: saber o que já não é preciso escrever. Claro que aqui há um problema de profundidade. Que não é só dos mais novos, como se diz. Aliás, nos mais novos a necessidade de rebeldia traz mais e melhores murais. Mas falta pensar. E que o motivo que nos leve a escrever sejam os outros, e não nós. E que nós só possamos aparecer na medida em que servimos a todos.

PG-M 2013
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Communication


Quando deixo esta mensagem não sinto a solidão nem a madrugada, o gosto ou o desgosto, o corpo ou o pensamento, as mãos ou as ideias, a beleza ou a insignificância, o tempo ou a eternidade, deus ou o diabo, o alter ou o ego, quando escrevi aqui ou nas cavernas quis apenas uma só coisa pelos séculos fora: ser ligeiramente mais alto, mais amplo, mais comprido, menos singular, na consciência plena da minha pequenez.

PG-M 2013

2013-08-15

sol e lama


Está sol, pois está, e desta varanda só vejo mar, pois vejo, e cheira a bronzeador e às peles que passam com sal, estou tão perto que chego a sentir a espuma das ondas nos zigomáticos (que há quem adoce por "maçãs do rosto", argh), pois chego, e os miúdos a passar com sorrisos quase puros, e os caps a dar sombra aos olhos, não ao olhar, está maré vaza e estão corpos vazios e há espelhos na praia,por isso nenhum perdão para mim, que eu seja e veja isto tudo e insista que aqui por trás ainda é verão e não há hordas de vidas dolorosas com raiva que chegam ao fim da tarde como lama a desprender-se do monte para passar uma tangente à perfeição dos outros e conseguir sobreviver ao seu dia seguinte. Não, não cravei uma bandeira negra nesta praia indelével, hasteei a mão direita para que toda a infelicidade seja uma ilha breve e toda a felicidade uma praia comprida nessa ilha onde se misturam os sinais da beleza e os da dureza e todos, uns mais unidos do que outros, uns sistematicamente amparados, outros nunca, estes nunca, saibam que com o mesmo nunca se faz a morte, nunca é cedo nem tarde para a morte, como nunca é cedo nem tarde para a vida, todos nós com estes sorrisos perenes e alguns de nós sob esses óculos negros carecem, e quando vocês, turba das lágrimas e das dores e da raiva, descerem na lama à linha de mar para ganhar fôlego para mais infernos, procurem as mãos direitas hasteadas e apertem-nas, ainda que ninguém responda. Há sempre um infeliz com cara de feliz, há sempre um feliz com cara de infeliz, mas não há nenhum que, apesar de claro e belo e com o olhar limpo, não faça sombra no mar, como os cavalos do outro.

PG-M 2013
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Das bestas


Na minha aldeia já todo o vento me rugia aos ouvidos a besta que eu era.
A mesma aldeia que protegia o torno dos meus braços com silêncio, que me servia caudalosamente o vinho e o bagaço, que nunca amparou a mulher ou os filhos para não perturbar a normalidade.
E como a aldeia o cão, que durante vinte anos calou os cintos e os dedos grossos sobre os pescoços, até alguns murros.
Antes da saída dos filhos, eu nunca toquei na mulher, pelo menos não coberta de gesso, os miúdos sempre ajudavam, mas quando a casa ficou vazia e eu a via fazer tudo com lentidão e lamento, passei a usar as próprias muletas para a dexar estendida.
Com a mulher no chão, o bicho deixou de usar o focinho sob a manta e passou  a ganir sentado, mas bastava um berro meu para ele voltar o corpo e deixar o marido e a mulher em busca do entendimento, que chegava se o jantar fosse servido, o que passou a acontecer sem falhas depois das primeiras tareias, que eram funcionais.
Alguns dinheiros que não pude pagar de volta fizeram a família votar-me ao abandono e a palavra "besta", que devia qualificar apenas o cão, passou a ouvir-se nas ruas dirigida a mim.
A mulher não era fácil e caía muitas vezes na histeria, principalmente quando discutíamos ao volante, eu não tinha problemas em parar o carro e arrastá-la pelos cabelos para fora. Uma vez deixei-a na estrada de piche e a estúpida conseguiu voltar a casa à noite com a ajuda do taxista da aldeia e ainda apanhou.
Tenho perfeita consciência de que podia ter evitado tudo isto se a mantivesse em casa e não fosse tão liberal nas saídas em família. Se tivesse sido menos tolerante nos almoços de caça, quando a deixava sair sozinha com os filhos.
Quando a perdi, quando finalmente a perdi, a aldeia dizia que tinha sido para a tristeza, depois de morrer o nosso mas velho num regresso de Paris. Ela apagou-se com o coração dele e eu fiquei sozinho numa casa de pedra de dois andares e um cão velho de vinte anos.
O cão também apanhava, mas pouco.
Era o dia da missa de sétimo dia da mulher e eu estava doido de fome quando apontei a arma ao bicho. Ele, como nunca antes, enfrentou-me sem qualquer clemência nos olhos, sempre sentado e com o focinho inclinado para o chão, os olhos não tinham raiva, não tinham ódio, só uma quietude insuportável. Todos disseram que tinha sido por desespero e fome, mas na verdade foi medo.

Antes que o cão me despedaçasse, apontei à têmpora e disparei.
Os primeiros a chegar fizeram passar no café a versão de que o bicho estava sentado, mas sem fazer um som ou esboçar uma reacção a quem entrava. Disseram que era, não um assassino, mas um fiel servidor, e de mim que era nada.

Minto. Disseram - diziam - que eu era a besta e ele o homem.
E quando o diziam riam-se e limpavam os bigodes de tinto carrascão e depois paravam e diziam coitada da mulher.
O cão foi abatido de velho.

PG-M 2013

2013-08-14

Raiva e acção

Esta é daquelas músicas que define um estado de espírito. Passa sempre, na íntegra, e faz o coração bater mais depressa, nos três minutos finais de cada episódio de "The Killing", uma das melhores séries de sempre, em que vemos o verso da Seattle que, por exempo, nos é mostrada limpa na Anatomia de Grey. Seattle chuvosa, cinzenta, sangrenta, o húmus humano, mas afinal tão mais nossa do que do Grace Hospital (ou Memorial). Quando ouço este música no mp3, a vida muda. Há uma raiva ínsita na vida de todos. Pequena, grande, não importa. Esta música aprisiona-a nos primeiros segundos, e depois dá-nos um crescendo de determinação que faz agir.
É magnífica, magnifica, magnífca.
Está aqui e é da autoria do compositor dinamarquês Frans Bak:

2013-08-12

Escrevo para


"Não escrevo para que me chamem poeta. Escrevo para combater."

August Strindberg



PG-M 2013
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Dosis sola facit venenum

O exercíco de não olhar para si próprio não resolve o anátema dos que estão fora de todas as redes sociais e sobrevivem - estar de fora é uma opção legítima. O que já não é legítimo é estar de fora e saber que todos são diferentes e achar que os que estão dentro são todos iguais, têm os mesmos vícios, os mesmos problemas, as mesmas carências e nada de bom. Se irrita a sucessão de praias e jantares e festas que se perdem, desliga-se. Como a televisão. Se indispõe a maldade, evitam-se os maldosos, como na vida. Se há verdadeiras bestas que, sendo espertos, não têm filtro social e insultam aqueles ou a memória daqueles que são exaltados ou não suportam as loas preguiçosas aos que morrem, aprenda-se as bestas, acolha-se as bestas no lugar que foi feito para elas serem livres. Se incomodam, desligue-se, como a televisão. Claro que o exercício do bloqueio ou a limpeza de caras é legítimo, mas tem o lado B: na vida não se limpam os incómodos. Pelo menos não com um clique. A rede social nasceu precisamente para retirar os egos do seu próprio centro, e quando os egos se centram em si perante milhares, milhões, expõem-se, são sindicados: uns vão aprendendo a fugir de si, outros viciam-se no número de polegares erguidos. Como na vida. A ilusão e a verdade não são líquidas. São sólidas e podem sublimar-se. E uma vez no ar respiram-se. Pode ser veneno. Pode não. Talvez só a dose faça o veneno.
 PG-M 2013
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2013-08-10

Abrando



Abrando aqui quase todos os dias, neste café, à espera de alguém que depois levo para casa e assim fica o dia dividido em dois, do lado de cá a separação e a solidão (a solidão boa, deus me livre da outra, que quando me tenta visitar eu espanco com palavras bonitas) e o trabalho antes do lado de lá, o regresso aos meus, a reunião. Gosto de vir a este centro de lojas, gosto de passar pelas pessoas e de vê-las passar por mim, gosto de me encostar aos vidros dos elevadores e de entender os corpos num esforço de adequação ao espaço e os olhares num esforço de adequação ao silêncio, chego e peço sempre um café comprido com adoçante e um copo de água e abro o portátil e arranco a música nos ouvidos e, quando não tenho tempo para trabalhar mais um bocadinho, escrevo coisas assim. Tenho andado com a literatura à cintura, como uma daquelas bolsinhas fora de moda, tenho andado mais calado do que falante, mais com os dedos em suspenso sobre o teclado do que caindo sobre ele, tenho lido tanto, ouvido tanto, olhado tanto para as pessoas que passam para as cidades delas, para os momentos delas, tenho conhecido tanta gente sem livros e de rebarbadora e de cana de pesca e de chave de parafusos na mão a quem falo sempre de livros, elas perguntam o que é que eu faço e se eu digo que sou advogado sou consultado, se digo que sou escritor sou olhado de lado, uns sorriem, outros continuam como se eu não tivesse dito nada, e eu vou falando do que está dentro do livros e depois à noite aproximo-me da mancha do meu filho, que é o bastante para o reter, e penso que sempre que ele escreve, e é quase nunca, escreve melhor do que eu e então pergunto pela literatura que eu quero para ajudar a levantar aquelas rebarbadoras, aquelas canas de pesca, aquelas chaves de parafuso, porque eu sei que há livros para nada mas tenho a certeza de que há livros que são tudo e sei, hoje sei, cada vez mais sei, que tenho de comunicar a literatura para dentro daqueles olhos duros e daqueles corpos doridos, fazê-los parar e escrever no ar para eles, pegar nas frases que já estão feitas e os confortam e tirar-lhes um verbo, aplicar-lhes uma luz, um cheiro, um botão, um barulho que os faça acordar durante alguns segundos e depois voltar à função e levar na boca, para o café, para este café, umas horas mais tarde, a inquietação que eu lhes dei, como eu trago tudo deles para aqui, que nunca nenhum me provocou o tédio que me provocam as pessoas importantes todos os dias. Estamos perto, estamos perto, filho.

PG-M 2013

Vai deitar-te


Ai as madrugadas, as madrugadas redundantes

PG-M 2013
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Melodrama


O que eu penei ao som desta música, Midnight Blue, dos Dreamers. 
Penei, literalmente, o meu primeiro amor, a Carla dos Carvalhos que fugiu para a Maia e aos 15 anos a ponte da Arrábida passou a ser o abismo que me separava do El Dorado. Pensei em fazer locuras (querendo isto dizer apanhar uns quantos comboios e autocarros e procurar por ela, porque ainda não havia metro), mas entretanto comprei este 45 rotações e, de pé, encostado ao gira-discos do meu pai, sem lágrimas mas com cinco toneladas e meia no peito, uma sensação nova porque o meu peito só pesava meia, tentei entender o que era a paixão com um gesto mecânico de regressão da agulha para o princípio do disco de três em três minutos. Sofri algum tempo e veio o estágio - nos Carvalhos - da selecção nacional de voleibol, juvenis, e eu parti um pé entre treinos e apaixonei-me por outra miúda na sala de espera do hospital. Deixei de ouvir este disco. Até hoje. Esta nova miúda, uma andebolista também com alguma coisa partida, era de Vila de Conde e lá estava outra vez a ponte da Arrábida como fosso. Eu já tinha um amigo de dezoito anos com um pai que tinha um stand da jaguar e sentia-me culpado por gastar tanto dinheiro aos meus pais em chamadas interurbanas. Um dia consigo que me autorizem um passeio num velho jaguar branco com o meu amigo. O plano secreto era, obviamente, surpreender o meu segundo amor. A única referênca que tinha, ironia das ironias, era a rua e a matrícula do carro do pai dela, que estava sempre parado à porta de casa, dizia ela. À chegada a Vila do Conde, pela nacional treze, havia uma fila de carros que nos obrigou a parar o jaguar na berma. Eu e o meu amigo fomos espreitar e o carro branco despistado ao fundo da valeta tinha a mesma matrícula que eu tinha memorizado como sendo a do carro do pai dela. O meu amigo conseguiu que eu, desesperado, não descesse a encosta, onde já estava muita gente para ver mortos. Afinal foi só um. Um morto confirmado, uma menina de quinze anos, e um ferido grave, que sobreviveria para viver o seu inferno, porque era pai dela. Desde esse dia que eu deixei de temer o sofrimento extremo e de aceitar o impossível. Isto é má, muito má, literatura, mas é a verdade, e eu nunca conto a verdade quando escrevo. Entro por ela. É a primeira vez em trinta anos que conto esta história publicamente. Tempos houve, tal o sofrimento, em que os factos desapareciam da minha memória e reapareciam como ficção e eu perguntava ao espelho se tinha sido verdade. Hoje sei que foi verdade e finalmente percebo que o tempo funciona, mas para uma coisa destas leva, seguramente, uns bons trinta anos. É uma história absolutamente melodramática que nunca poderia caber na literatura. A ficção acabou. Ainda bem.

PG-M 2013...ou melhor...PG-M 1984

Não perdoarei, Urbano, cada dia sem ti

Não perdoarei, Urbano, cada dia sem ti
Do amor, da literatura, da coragem, da simplicidade, da serenidade com os pares, do abraço aos novos, da humildade, do acolhimento crítico. Não sei se havia um único assim além de ti. Se houve.
Sei que há todos aquém de ti.
Não é a morte, é o meu plano de vida.

Ao e do meu blogue, claro que trago, tarei sempre, o que tive do Urbano.


PG-M 2013

2013-08-05

A janela redonda de Al Berto

Estas são as frases que me cabem no processo secular de desmaterialização e ascensão de um contemporâneo a mito. Pressinto que - embora historicamente implicado e demasiado perto - os anos oitenta do século vinte foram os anos de implosão, depois de ter explodido a condição humana na sanduíche das duas guerras com recheio de grande depressão, depois de ter explodido o sexo nos anos sessenta e setenta, a estética dos anos vinte aos anos setenta, todas as correntes artísticas até aos anos setenta, todo o mundo e todo o século implodiu nos anos oitenta: a indeterminação estética que ainda hoje nos faz sorrir, tão rica e diversificada que hoje nos devolve todas as modas a pretexto de regressos nostálgicos que são um pouco mais do que isso: nós, que os vivemos, e as novas gerações, que os não viveram, adoptam os oitenta sem vergonha e até com voracidade. Implodiu a liberdade sexual com a SIDA e implodiu a homofobia. Claro que não se advoga aqui que nos curámos de todos os sintomas: o ser humano e o mundo que deturpa para si tem tendência a adaptar-se e a ser ecléctico. Convoco a homofobia para voltar à célebre sessão de leitura da poesia do Al Berto pelo próprio no início dos ano noventa no bar Dom Dinis, e que nos voltou via youtube (aqui) de uma forma assombrosa, como se tivéssemos viajado no tempo, eu que precisava de saber o que afinal se tinha passado lá dentro quando vi os meus amigos sair esbaforidos do Dom Dinis dizendo que o Al Berto tinha sido insultado por um grupo de putos que não o deixaram ler a poesia. E devolvido os insultos. Ele não era realmente popular entre os estudantes universitários, fechado, diferente, pouco simpático, mas essa violenta noite despertou em mim a curiosidade de o seguir vida fora, apesar de tudo. Essa adopção literária não culminou na sua morte, mas na publicação dos Diários do Al Berto pela Assírio & Alvim, e nas longas sessões de leitura da primeira parte dos ditos na Almedina do Arrábidashopping.
 
Em particular as páginas escritas na Rua do Forte, em Sines, a olhar pela janela e a ver o mar, ou a não abrir a janela porque tinha muito frio e se sentia febril e doente, porque tinha muitas dores ou estava deprimido, para depois a voltar a abrir num dia azul, perfeito, descrevendo o movimento de barcos no horizonte ou o minimalismo da neblina e as pinceladas fantasmáticas que só os seus olhos viam, e quando o Al Berto dizia que ia apanhar o expresso para Lisboa eu só desejava que ele voltasse à Rua do Forte e àquela janela, que voltasse a sentir frio, calor, excitação, exaltação, depressão, que voltasse ao que o mar lhe devolvia, às gaivotas, aos barcos, ao sofrimento, à esperança. Com a ajuda da jornalista Raquel Ribeiro, que tem os seus laços com Sines e com o trabalho que fez sobre o Al Berto, descobri o lugar exacto dessa minha memória literária. Ia em família e pedi para me deixarem sozinho ali, enquanto esperavam pelo péssimo e caro (Al Berto teria dito assim) arroz de marisco do Varanda do Oceano, que terá tido melhores dias. Foram quinze minutos encostados à janela redonda, que fica ao nível do rés do chão: foram literariamente perfeitos e, por mais que eu saiba que não foi assim, ou pelo menos não foi sempre assim, para o Al Berto, a morte, a desmaterialização, a excelente edição dos diários com o toque da poetisa Golgona Anghel, fizeram o Al Berto subir, definitivamente, à condição de estrela, a tal que Saramago dizia que à terra pertencia. Eivo agora este texto das imagens que Al Berto via, tomadas com o cotovelo encostado à moldura da janela redonda da Rua do Forte. E embora fosse melhor que Al Berto cá estivesse, qualquer escritor aspira ao leitor que o tenta sentir desde dentro e através dos tempos. Assim.
PG-M 2013

2013-08-03

A mais bonita do mundo inteiro


Ela pinta-se como um vampiro. Ela pinta-se como um palhaço. Ela pinta-se como um junco quebrado.
Esta manhã ela não abre os olhos, dissolve-se na luz e na sombra, as longas pestanas são facas afiadas e pingam.
Esta tarde ela nasce para o mundo e morre para dentro.

Pinta-se como um vampiro.
Os cabelos são pretos e escovados maquinalmente pelo próprio espelho, alquebrado.
O camarim sufoca e ela vem fumar fumo puro, enche os pulmões de grama branca quase líquida e expele os compostos da existência.

Está pronta. É a mais bonita do mundo inteiro.

Ouve melodias elegíacas que a elevam acima da atmosfera terrestre.
Pressente sempre a queda quando passa do topo. Nada pode ser perfeito. Ninguém pode estar limpo.

Pinta-se como um palhaço.

Os cabelos são pretos e escovados maquinalmente pelo próprio espelho, alquebrado.
O camarim sufoca e ela vem fumar fumo puro, enche os pulmões de grama branca quase líquida e expele os compostos da existência.

Está pronta. É a mais bonita do mundo inteiro.

Procura música afiada, algo que não suporte, que a corte ao meio.

É um hexâmetro e um pentâmetro alternadores.

Pinta-se como um junco quebrado.
Parte abraçada ao LaFontaine, no colo do Casanova, às cavalitas do Rimbaud mas o Rimbaud é frágil e cede, tem doze anos ela quarenta, ela nunca gostará de poesia, ele deixará de a escrever. O Casanova levanta-a nos braços ela desfaz-se outra vez, agora vai a pássaro e ergue-se mulher porque as asas

a percussão na orquestra a afundar a elegia
és um junco quebrado

Os teus cabelos pretos e escovados maquinalmente pelo espelho alquebrado.
O camarim  a sufocar-te e tu a vires fumar fumo puro, tu enche os pulmões de grama branca quase líquida e expele os compostos da existência.

Estás pronta. És a mais bonita do mundo inteiro.

És mesmo a mais bonita do mundo inteiro e nunca o saberás.
Carl Sagan toma o teu exemplo contra as estrelas e consegue explicar aos demais a teoria gravitacional de Le Sage.

Casanova tem fama e proveito e vastos conhecimentos, tão vastos que envergonhariam qualquer autor entre nós, está em modelo redux como o paradigma da masculinidade. Ela despreza-o profundamente.

Hoje não se pinta
ainda que o mundo caia para dentro de si e sem maquilhagem

Está pronta. Invoca ritos selvagens. É a mais bonita do mundo inteiro.

PG-M 2013

As palavras têm um corpo móvel


As palavras têm um corpo móvel e um dia são doces e no outro amargas e tu tens um corpo móvel e um dia és doce e no outro amarga e tu e as palavras têm corpos móveis e um dia eu digo-te coisas doces e tu amargas e no outro coisas amargas e tu adoças e no outro coisas doces que te adoçam e hoje serão coisas amargas que te amargarão mas amanhã é outro dia e as mesmas palavras e os mesmo corpos vão mover-se uns sob os outros até encaixarem nas frases que eu, se estiver atento, saberei dizer

PG-M 2013

2013-08-02

Não te rendas



Não te rendas

(nem deixes que te inibam as coisas leves ou te imponham as pesadas, não rias contra ninguém nem chores só por ti, usa o sofrimento como atalho de lucidez e não processes a maldade ou o egoísmo alheios como matéria prima de uma vingança do nada e lembra-te de amparar a mediocridade com conhecimento sem lhe virar as costas)

Não te rendas


(serás mais completo se esperares menos de todos e te cercares dos melhores, mortos ou vivos, para que os piores se espantem como tu)


Não te rendas

(e toma tempo para gostar e para entender o desgosto, para o acolheres como ponte para um dia melhor quando fores maior porque não te rendeste nem te desgastaste a desgostar)


PG-M 2013
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Prognósticos só amanhã


As melhores ideias do homem e da mulher do presente servem apenas a esperança dos pares, mas o poder só as incorporará amanhã, como o poder de hoje se rege pelas ideias sedimentadas de ontem. A mudança dura gerações, não dias. As sentenças dos comentadores do mundo são sempre, quase sempre, o fingimento da sabedoria. E a garantia do pequeno poder.

PG-M 2013