2013-03-28

O meu diário e a minha liberdade

Quando era novinho, antes da maioridade ou por ali, escrevia esparsas entradas de diário que hoje reuniriam sorrisos. A bem da verdade, durante o curso em Coimbra o meu pai obrigava-me a anotar todas as despesas na agenda, e nunca sobrava espaço - eram aquelas agendas A5 da Âmbar, vermelhas, pretas, azuis, e lá está tudo para que davam os cinco contos, de cafés a bilhetes de comboio, entre oitenta e oito e noventa e três. Sempre cinco contos, pelo que é facil adivinhar o meu treino prévio para a austeridade e a percepção prática da inflacção. No último ano de curso, à sexta, faltava sempre dinheiro para cafés. Os cafés eram importantes porque me compravam horas de estudo no Internacional e no Mandarim, que eu ocupava, as mais das vezes, a escrever à namorada, hoje mulher, longas cartas que serão o que mais próximo eu tenho de um diário. Escrevia sempre entre segunda e quarta-feira (às vezes à sexta, já no Porto, para que ela me lesse na segunda seguinte), quase sempre no Mandarim (hoje McDonalds) da Praça da República ao fim da tarde, enquanto os outros jogavam bilhar. Colocava a carta na caixa postal com a última tiragem às oito da noite, e, antes da internet e dos telemóveis, achava mágico que ela recebesse a carta na manhã seguinte. Estas cartas, que provavelmente nunca mais revisitarei, conterão meras coordenadas da minha vida, mas eu nunca as carreguei das dores da existência. Na lonjura era essencial aplacar o sofrimento da miúda e o meu próprio, sentia-lhe a falta e o curso de Direito deixava-me pouco espaço à criatividade. Então os anos de Coimbra foram construídos por dentro, na leitura ávida e no pensamento, longas noites de insónia a pensar enquanto olhava para a minúscula televisão a preto e branco onde praticamente perdi a virgindade a ver o "Império dos Sentidos", sim, porque o "Pato com Laranja", historico equívoco da RTP em horário nobre, foi mais pândega familiar, e talvez por tê-lo visto sozinho e na pureza dos dezoito terei achado o filme tão belo. Profundamente belo. Nenhum dos meus companheiros de aventura coimbrã era grande leitor e eu não sabia apreciar devidamente a presença do Al Berto em Coimbra por aqueles anos (percebi desiludido que estão ausentes dos seus diários os meus anos coimbrãos), apenas me deslumbrava com as subidas aos Olivais com o Torga no trólei três e espreitá-lo no quintal da janela do meu quarto, estive anos para lhe dizer alguma coisa e nunca disse. Mas o meu pensamento ficou calado e por escrever, quer dizer, talvez não calado, que nas noites do Sjoelbak e do Briosa eu ainda pude, pela via do humor, mexer na caixa torácica dos amigos, mas pouco, muito pouco. Ainda hoje trago coisas por dizer e escrever, e basta um desfiar do blogue para perceber que não sou um adepto de diário. Curiosamente, a actividade de advogado nunca me trouxe essa necessidade, porque, apesar de manca e em torno de um instrumento desfuncional, é livre. Não assim a actividade literária ou o exercício do direito de opinião. Ah, democracia brumosa. Falei aí, num certo texto (a que a cúria poética não permite chamar de poema), da "vigilância do inferno" e da "indolência do céu". Esse texto, um tal de "Plátano", é precisamente sobre a forma como só entre as quatro paredes se consegue emenda para as agressões - tantas vezes silenciosas - dos poucos que se esticam para mudar o curso do leme, não sendo isto propriamente uma boa coisa, que às vezes o barco navega à bolina para lugares mais acertados. "Só os teus lábos me abrandam/ só os teus beijos me calam" é a bonança da tempestade dos idiotas (não dos idiotas Flaubertianos, de que falei ontem em verso, os que fazem sempre o bem, mas dos verdadeiros idiotas, os que acham que sabem tudo e em tudo acertam). O cuidado que temos de colocar na verve e a vontade de não sermos incomodados pelas tais cúrias, onde as há, e há-as em todo o lado, seja no meio artístico, na política, no jornalismo, o uso dos processos judiciais que serve apenas o poder e o dinheiro, porque se paga em poder e em dinheiro, não servem o Palhaço Augusto (cfr Norman Manea, "O regresso do hooligan"), e um ano sabático a pensar nestas coisas fez-me concluir, sem grande margem para dúvida, que só poderei dizer as coisas para dentro. Ou isso, ou quando estiver muito velho, altura em que nos são permitidas todas as tolices e atribuídas todas as (vazias) loas. Mas não há forma de começar esse diário. Enquanto não o fizer e se não o fizer, nunca me sentirei verdadeiramente livre. Nunca.

Só os teus lábios me abrandam.
Só os teus beijos me calam.

PG-M 2013

2013-03-27

L'idiot


Não tenho de dizer que é tristeza,
mas é
nas minhas costas  vagas
de tanta altura
como a indiferença do tempo
escurece
desde sempre o meu olhar

quando no trânsito milhares de
locomoções, e eu diáfano
na envergadura das asas

Levo Flaubert a mais, como o do bem
idiota
que verá de um sorriso impróprio

a de outros sempre bela e subtil
maldade

PG-M 2013
fonte da foto

2013-03-22

Ai de mim

Ai de mim ao tempo em que nenhum som se detém atrás de portas. É fundamental ser estúpido para ser feliz. Ouço todo o tipo de vozes em cada silêncio. Nos padres a olhar por cima dos óculos. Nos governos quando cingem os lábios. Nas oposições quando levantam vozes e engrandecem narinas. Nas empresas quando cerram fileiras para despedir os que não contrataram leasings milionários. Nas artes quando repetem as loas e os espancamentos, quando a sabedoria passa a esperteza saloia, quando o ódio e o desprezo são tudo o que da letra impressa se pode beber e a preguiça mental nomeia os mesmos grandes nomes, as mesmas revelações, os mesmos génios apócrifos. Quando se aplaude o sofrível escolhido pelo medíocre. Quando reinam os cínicos, tanto calam que o rei vai nu e vêm a chorá-lo na pós-deposição, e desculpa, tão ampla desculpa. Não vira a luz, a luz, a luz. Estes que se somam e se tomam mutuamente pelos pescoços e depois mutuamente se salvam. E chamam à lucidez loucura. Passantes cinzentos de ombros supridos apontam o dedo sem saber a quê. Diz que diz que diz. Não se fazem perguntas nem se diz que não. Comenta-se. Transitam em julgado todas as sentenças orais. E os broches. Não é bem dizer que não, é dizer porquê e para onde. E de qualquer sexo ou quadrante, ai de nós os que nos sentamos a mesas talhadas em troncos de oliveira antes da casa a toda a volta como a cama de Ulisses e Penélope e não nos deixamos foder. Ai de nós que sem bicos nos pés nem na boca serenamente percebemos que a mediocridade gerará mediocridade até se sumir o osso e voltarmos todos a surgir do chão porque sim e porque é assim. Os não desistentes estão calados porque calados não serão notados nem feridos. Os mais pacientes irão por dentro em cavalos de madeira. Só parasitando a mediocridade a decência vingará. Entretanto mulheres ocupadas rejeitarão, cansadas, o poder e a escrita e tudo continuará na mesma. Serão quatro gerações até à clareza. Ai de mim.

PG-M 2013

2013-03-18

Umbra Klara

A ideia de um Deus ateu não é nova, mas é a que ora se traz ao edifício do discurso.
Falar-se-á de cinema, mas o cinema, este cinema, não se inscreve no vazio. Usa-se a Ave verum corpus, de Mozart (carrega-se a expressão latina do sofrimento do corpo de Cristo que transporta o sofrimento de todos os homens) que encerra o último de três filmes vistos em três dias em grande ecrã, no final de uma semana em que um conclave de ilustres cardeais elegeu um Papa que se quis chamar Francisco e pediu uma igreja pobre para os seus pobres, os pobres que lhe ficaram a latejar na cabeça quando o cardeal brasileiro Hummes o abraçou e beijou pela eleição e lhe pediu para nunca se esquecer deles. Qualquer homem de fé que seja lúcido gosta de ver nos olhos do amigo ateu a emoção (e a comoção) do mundo. E ateus choram, talvez porque percebam a evidência de que sobre a batina branca impende um putativo peso da História, com tudo o que de bom e mau foi aos homens trazido em toda a simbologia cristã - e durante centenas de anos aos papas que lideraram (e deviam ter cedido o corpus a) crentes, não crentes e indiferentes. A "Ave verum corpus" encerra o filme "Robot and Frank", provavelmente o menos notável dos três, mas podia percorrer cada cena do "Ferrugem e Osso" e do filme que verdadeiramente nos traz aqui: "A caça" (Jagten), do dinamarquês Thomas Vinterberg. É, para mim, e apenas para mim, um filme perfeito. Deixou-me tantas vezes à beira da raiva e do choro e do choro pela raiva e da raiva pelo choro, deixou-me sair sem certeza nenhuma, não sei se de olhos secos, talvez de olhos secos e alma derramada. Se ao espelho nos virmos como homens bons, pelo menos tão bons como o Lucas de Mads Mikkelsen, seremos prostrados no curso da película. Lucas é educador de infância numa pequena (e aparentemente feliz) vila dinamarquesa. Por causa de uma sucessão de eventos comuns na vida de todos nós (adolescentes a correr a casa com tablets que mostram imagens pornográficas, sem protecção dos que as não podem entender) que até dói, Klara, um anjo loiro de quatro anos, sentindo-se despeitada pelo seu educador favorito, melhor amigo do pai, que não lhe consente um beijo e uma prenda, mente ou é levada a mentir sobre eventuais actos impróprios que são atribuídos injustamente a Lucas - o homem impoluto por excelência, único na vila que, mesmo debaixo de fogo, persegue princípios. A partir daí, com um rigor e uma completude que impressionam, o aparentemente frio Vinterberg filma o inferno a instalar-se nas nossas vidas. Filma tudo o que podemos pedir, filma todas as perguntas que podemos fazer, filma toda a beleza e toda a maldade, filma tudo o que faríamos e mais: filma como o bem faz peito ao mal, numa missa do galo e numa das cenas mais belas e catárticas a que a minha imperfeição podia assistir num filme que sente como perfeito. E é tão curioso como para Vinterberg a cor da sombra (umbra Klara) e da tristeza é o azul (é comum nos nórdicos o azul ser o cinzento) e o da alegria o laranja. O laranja da colónia de nudistas onde ele próprio cresceu e onde corpos o sentavam ao colo sem que ninguém olhasse de lado. É verdade que um filme perfeito pode ser uma arma para os criminosos sexuais que tentam branquear-se. Mas seremos nós capazes de, como sociedade, e apesar da realidade milenar desses abusadores, permitir que as nossas crianças possam ser de novo mimadas, amadas, tocadas e pegadas ao colo por quem as ama além dos próprios pais? Ou esse tempo acabou definitvamente? E seremos capazes de desatar o novelo social súbito em que toda a histeria enredará os mais insuspeitos cidadãos? É assustador. Somos cada vez mais o nosso lado animal. Um filme obrigatório, claro. E no cinema, para que não possamos virar a cara, sair da sombra azul de Klara - está apenas nos cinemas UCI, em Lisboa e Vila Nova de Gaia, e de forma errática pelo país. Vinterbeg responde, no final, com um tiro, à pergunta sobre se alguém algum dia se poderia livrar do inferno. O Papa Francisco não teria resposta. Ninguém tem. Ave verum corpus. Umbra Klara. Que aqui até Deus parece ateu.

PG-M 2013

2013-03-10

Rio Brecht

o rio quase não corre
é feito de vigilantes
mas se nos tivesse a nós,
que o contemos desde a margem,
teria um curso selvagem

e este rio de barragem

PG-M 2013

2013-03-06

Almedinarrabidashopping

Tem de ser, a palavra é grave.
Não esdrúxula.
Não aguda.
Almedinarrabidashopping é uma palavra, a sua palavra, e é grave.
Como talvez seja grave que ele não compre mais livros n'Almedinarrabidashopping, e, por causa disso, o acusem de esdrúxulo.
Espera, espera. Não é bem assim. Na sua livraria de eleição, a Leituradocidade, de pé, decidiu que o "Vida e Destino", do Vassili Grossman, apesar de uma primeira página sublime, não era para ele. Depois ouviu dizer que alguém chegado tinha andado a sondar na Leituradeceuta se o dito livro era adequado a uma pessoa que gostava muito de livros. Mas que tipo de livros lê? Todos. Todos? Todos. Mas mesmo...? Sim, mesmo. Pega em todos, escuta-os, prova-os, às vezes engole-os mastiga-os, despreza-os, namora-os, presta-lhes vassalagem, ali, sempre de pé, quase sempre de pé, e depois pergunta se alguém quer fazer alguma coisa que ele não queira fazer para voltar às livrarias uma e outra vez. Costuma comprar na fnacdogaiashopping e na fnacdesantacatarina por causa da vida e do desconto e dos pontos. E porque, no fundo, agradece à fnac a inciativa dos livros para mexer. Tinha estado numa fnacdestrasburgo, há quase vinte anos, deslumbrado. Como pode uma livraria ter cinco pisos e computadores e discos e deixar mexer em tudo e ainda dar sofás e conforto (as portuguesas começam a tirá-los, mas o pessoal até no chão se senta)? Depois abriu a fnacdonorteshoping e ele foi a correr. Foi a primeira a norte. Que maravilha. Depois veio um metro igual ao que eles lá tinham e depois começaram a abrir coisas de pessoas nas galerias, ali no centro do Porto, e hostais e assim, e de repente ele tinha uma cidade igual à que tinha sonhado, não amado, porque ele sempre a amara desde a rua do cimo de vila. Mas estamos a fugir. Acusam-no de esdrúxulo porque a Almedinarrabidashopping é, desde que abriu, o lugar que mais o recebe e menos livros lhe vende. Ele jura que a gratidão ainda dará frutos, mas para já abre-lhe uma janela sobre Sines e o profundo tédio do Al Berto, e todas as semanas ele vai no expresso das cinco de sexta e volta no das seis de segunda, ou algo assim, com o Al Berto, percebe-lhe o frio, parte da loucura e da lucidez, enfim, para não sair do assunto, quando pede o café àquela menina leve do bar, acho que se chama Paula, não sei, quando a livraria abriu o bar era num mezanino, isso fechou e agora é logo à direita de quem entra e é todo branco, e sobre o "Vida e Destino" ele pediu que esperássemos por ele no cinema e o café à menina leve e leu trinta páginas de enfiada. Ele tinha dito que a primeira página era sublime, depois hesitou, é muito dinheiro, talvez seja um livro pesado, talvez não seja para mim, e quando ouviu os boatos de que alguém ameaçava oferecer-lho foi lá e fez isso: pediu um café à menina leve de cabelos compridos que eu acho que se chama Paula, ou melhor, ele já não pede o café, ela adivinha pela cara dele, é um cafezinho, certo? O café também deixar de ser agudo, e fica grave quando diminui. E perde o chapéu. É quase sempre assim com as palavras, excepto na mercearia da vila, onde o senhor Raimundo Faria usa diminutivos com chapéu, artimanha que os torna gravíssimos. Escreve sempre num papel quando manda o moço entregar o pão: aqui tem o seu pãozínho, senhor dôutôr, o til é uma espécie de echarpe e o recado vem com a oferta de três chapéus que normalmente não estariam lá, o que mostra a generosidade do senhor Raimundo Faria. E então foi assim: quando o outro pediu o café ou a menina leve o adivinhou e leu as trinta páginas do "Vida e Destino" chegou branco ao pé de nós, estava o filme quase para começar, e só repetia, com os olhos nas colunas de dolby surround do tecto do multiplex, qual Guerripaz, qual quê, e o filme, marcante que foi, só lhe suscitou este comentário, como é que este livro andou perdido tantos anos? E foi. Comprou-se-lhe o "Vida e Destino" n'Almedinarrabidashopping e ele nunca mais o largou. Anda a estragar-se com o da Hélia Correia, mais gordo, comprime o "Adoecer" na mala da carrinha e nos outros lados todos, porque ele não larga nem um nem outro. N'Almedinarrabidashopping, que ele admira pelo tempo que guarda os livros expostos das notas de devolução e da figura jurídica da consignação, mais do que pela quantidade de títulos, ele dá voltas breves e retoma os mesmos livros, com uma ou outra adição, lê o Atualsemcêdospresso, os contos do Kafka, muito Borges (mais o Aleph), os ensaios de teatro, Araparigasemcarnedojaimerocha, o segundo e o terceiro do Askildsen e todos os que dizem ser maus, conta-me sempre das surpresas, não começa mal este da Margarida, e fica sempre, sempre, de olhos tão alvos como a luz do bar e da menina leve que acho que se chama Paula, quando lhe pesam a Lispector e a Llansol e ele manda embrulhar escrevendo no espaço entre-cordas, como o senhor Raimundo Faria faria, aqui tem o seu pãozinho, quantos vão ser amanhã?

PG-M 2013
fonte da foto: Almedina