2013-04-03

Um velho muito velho tem dentro de si tudo o que é, não a memória disso

Há um velho muito velho que se chama Éton e caminha na curva da morte, a curva do vácuo de Clarice para Macabéa, e ele caminha com todos os Étons concêntricos, desde a ideia de Deucalião, seu pai, desde o primeiro corpo em que o olhar primordial era igual ao que ora leva posto, o olhar que todos nós, velhos muito velhos, vestiremos para pedir aos nossos filhos ou a ninguém ou à cuidadora do lar o último socorro, o socorro que finalmente estabelecerá no nosso íntimo que sempre fomos apenas um infante ou nada, ali, no pó a que regressamos, e que as mulheres, todas as mulheres cada vez mais jovens a deixarem de ser nossas, todas as mulheres em fuga como água a escorrer entre os dedos deviam saber que só os nosso olhos contam e que as almas claras, fundas, se contorcem num corpo velho como uma folha de papel numa fogueira e a cápsula da existência mirra sob cada paixão tornada impossível. E sobre Éton se falará, antes que morra.

Mas vai falar-se muito mais simples do que no precedente parágrafo, que é mais presciente do que imprecatado, incasto, para que se não tolde por palavras os próprios batimentos das frases por elas feitas.

Vai o velho Éton na última estrada, na linha do horizonte um mar cor de sangue, e tem dentro de si o sábio Éton que ainda tem forças para de braços estendidos segurar o primeiro bisneto, que tem dentro de si o maduro Éton, que vigoroso faz subir no ar o primeiro neto, que tem dentro de si o vigoroso Éton, que explodindo de adrenalina acolhe num colo fechado o filho Telémaco, que tem dentro de si o jovem Ulisses, que suave acolhe num colo fechado a sua mulher Penélope, que tem dentro de si o miúdo Éton, que correrá as pradarias como cavalo de Hélios, que correrá as pradarias como cavalo de Pallas, que tem dentro de si o espaço sidéreo e correrá as estrelas como cavalo de Plutão, que tem dentro de si a fome de Erisícton, saciada pelo abutre, carrasco de Prometeu.

O velho, qualquer velho, tem dentro de si tudo o que é, não a memória disso.

Por isso se ajoelha Éton, mesmo antes de morrer, quando por si passa a última jovem mulher e Éton pressente a última jovem paixão, porque o velho Éton tem dentro de si o vigoroso Éton que corria todas as musas de todas as ilhas e não o espelho que o reduz, que é o mesmo dos olhos delas, quando começa a entardecer para nós, que é o mesmo dos olhos deles, quando começa a entardecer para elas, que é o próprio estigma da invisibilidade, como o sente qualquer corpo que perdeu o brilho dos deuses.

E quando a jovem, que surpreendetemente o vê, ainda que a agonizar - e como estão tantos jovens atentos à agonia dos velhos, invisíveis quando a fatalidade ainda é remota, agonia que sentem como a iminência da liberdade e a actualidade do poder - 

quando a jovem, dizíamos, se baixa para Éton e lhe dá, não o beijo, mas a caridade da pergunta
"O que tens, velhinho?", assim, no diminuto da palavra que lhe apouca a dignidade,

Éton cai para a frente e morre.

E morre, porque tem dentro de si tudo o que é, não a memória disso, no vigor da juventude.

PG-M 2013

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