2009-10-27

Praia Nocturna

Enquanto ainda me deixam usar o cê em nocturna, é urgente este aviso:
se entrares numa praia à noite, olha fixamente o vazio negro onde calculas que possa estar o resto da areia, e situa-te ouvindo o mar. Começa a caminhar, se possível a correr, pelo meio da praia. Agora volta a cara para o mar. Não vai demorar muito até que a visão se habitue e as ondas se tornem prateadas, depois quase brancas, e o marulho uma espécie de canção dolente. Não esqueças o céu, que sem poluição luminosa e em noite boa tem mais estrelas do que todos os teus céus passados, nem o que fica para trás, cuja observação dá outro fulgor à tua progressão cega.
Na manhã seguinte, a praia de inverno que atravessaste de noite vai parecer outro lugar, nesse dia de maré cheia em que as ondas te vão empurrar para as dunas, que é a forma de o mar dizer que agora nada daquilo é teu, vais pensar que quem está certo são os físicos quânticos, quando ameaçam provar-te que o mesmo lugar são dois e a mesma pessoa muitas.
Até lá, ou lês Freud, ou fazes de conta, ou vais a uma praia nocturna.

Créditos fotográficos: não foi possível apurar, mas publicar-se-á mal se saiba o autor. Foto colhida neste site.

2009-10-25

3 livros, 3 opostos, 3 obras-primas sobre a condição humana


Sándor Márai, com "As Velas Ardem até ao fim", na brilhante tradução do húngaro de Mária Magdolna Demeter, reconciliou-me com a leitura da grande literatura, e fê-lo quando eu tive os pés na areia e o azul do mar no fundo do olhar durante os habituais quinze dias de férias de praia em Armação de Pêra, os tais em que eu entro em transe de escrita e estou particularmente disponível para ler os que são muito melhores do que eu.

Procuro, cada vez mais, o osso da página, a frase depurada percorrida por um suave, quase imperceptível, perfume de poesia.
"As Velas (...)" são só dois amigos e a condição humana. Tem uma violência aveludada.
Mas é tão violento quanto delicioso. Um obra-prima não absoluta. Um exemplo maior de ficção.

Chil Rajchman escreveu um caderno sofrido, sobre o qual sangrou todo o sofrimento acumulado.
Dir-se-ia que não tinha escrito um livro.
Mas à medida que avançamos na leitura de "Sou o Último Judeu" (Edição Teorema de Outubro de 2009, Tradução de Telma Costa), que relata a experiência de sete meses no campo de extermínio de Treblinka (eu ia dizer breve experiência, mas não teve nada de breve, tendo em conta que o autor quase nada comeu ou bebeu nesses sete meses, dormiu no chão, terá tomado meia-dúzia de banhos, sendo que o seu trabalho, das cinco da manhã às seis da tarde, era o mais sujo, física e psicologicamente, que é possível imaginar, cortar cabelo a mulheres nuas desesperadas, à entrada das câmaras de gás, transportar milhares de cadáveres e arrancar-lhes dentes de metal, permanentemente seviciado por chicotes e pancada dos guardas ucranianos e SS, enquanto ia vendo os seus colegas de "trabalho" ser indiscriminadamente mortos por tiros de pistola - bastava um momento de fraqueza -, e sendo obrigado a encarar com naturalidade que todos os dias aparecessem enforcados, no barracão onde mal dormia, pelo menos três - muitas vezes cinco, sete, dez - companheiros de infortúnio), o lugar onde ocorreu o maior massacre da história da humanidade - perto de um milhão de inocentes massacrados em apenas treze meses, o que dá uma média de 60.000 por mês, 2.000 por dia! Fica-se, pois, com uma ideia do que era preciso fazer para assassinar, não uma ou vinte, mas duas mil pessoas num dia, entre homens, mulheres e crianças. Uma média. Porque dias havia que eram mortas quinze mil pessoas em escassas horas e metros quadrados, e numa espécie de linha de produção tenebrosa. Como Rajchman, judeu polaco nascido em Lodz, e mais tarde cidadão uruguaio, apenas mais 56 pessoas sobreviveram. Este relato é uma obra-prima porque não se limita a relatar. Tem uma adejctivação mínima, uma secura tremenda, mas nunca abandona um estranho equilíbrio estético que nos esmaga. E é possível reconhecer aqui, provavelmente, da mais depurada literatura que alguma vez lemos. Obra-prima não absoluta, mas narrativa maior.

Finalmente, Primo Levi, "Se isto é um homem", muitíssimo bem traduzido por Simonetta Cabrita Neto, na versão que possuo há já alguns anos.
Pura luz, algo nunca visto por este vosso humilde servo até ao dia presente.
Escrito de forma sublime em 1945, uma ano depois da libertação dos campos de Auschwitz, nos quais se situa a acção, faz-se acompanhar de uma lucidez perturbante, de uma análise subtil, mesmo filosófica, do fenómeno do extermínio, dos limites da condição humana (uma vez mais). Páginas que nos respondem a muitos porquês que pensávamos retóricos.
Uma obra-prima absoluta.

Três livros de leitura imprescindível para quem quer dar passos adiante.
E por esta ordem de importância:
Se isto é um homem.
Sou o último Judeu.
As Velas ardem até ao fim.

Um garantia: serão pessoas diferentes, para melhor, depois da leitura destes livros, tal a marca indelével que nos deixam sobre a pele.

Mas é preciso coragem.


Crédito fotográficos: Wook

Frei Fernando Ventura e a Sabedoria

Para quem esteve distraído, por favor fixe este nome: Fernando Ventura, frade capuchinho, homem sábio. Para agnósticos, ateus, crentes, católicos praticantes ou nem por isso, ignorantes, diletantes, honestos ou desonestos intelectuais, para todos, com Saramago ou contra Saramago, não vão por mim. Vejam este inolvidável (muitas vezes inefável e tocante) momento de televisão. A sério, não vão por mim. Querem um "tease"? "Saramago tem razão, Deus não existe" ou "Podiam ter acusado Jesus de ser pedófilo."

2009-10-23

Poetic C.S.I. (on the beach)

Cada madrugada que me fica pelas costas, cada aguaceiro que passa, me aparece claro na alma o privilégio (não que tenho, mas) que conquisto quando calço as sapatilhas e visto o impermeável às oito e meia da manhã, e, sob qualquer temperatura ou fenómeno atmosférico, entro na praia para correr.

Corro há muitos anos e há muitos quilos, são por isso milhares de quilómetros sobre as dunas, nos passadiços de madeira de Gaia (Aguda, Miramar, Valadares, Madalena, Salgueiros, Lavadores), mas confesso que sempre o fiz por seguro de saúde, porque sei que, enquanto o faço, raras são as más disposições. Mas nunca tive grande prazer em correr.

Até agora.

Correr dentro da praia, na areia, em cima do mar, é toda uma outra experiência. E uma lição de humildade, para quem acha, em todos os campos da vida e do próprio conhecimento, que basta passar uma tangente às coisas para as conhecer. Pois eu passava ao largo, ali em cima, nas dunas, a vinte metros, e não tinha a mínima noção do que isto era.

Agora o entorno natural esmaga-me, ao ponto de não se sentir solidão, mas, pelo contrário, respeito e comunhão, pelo que todos os dias tiro os auscultadores dos ouvidos para deixar que o mar me ruja de peito aberto. Chamem-me louco, mas não raro abro os braços e eu próprio grito de prazer, como se voasse, o que, com as rajadas de norte nos dias bonsl, e com as tempestades anunciadas ou confirmadas nos dias maus, não é difícil (já não é novidade que do Outono à Primavera corro a cantar, e bem alto, porque ando quase sempre sozinho, e no Verão só modero o tom:).

Com as piores marés, nestes dias bravos de Outono, o mar cobre a praia de noite, chega a galgar as dunas, e estas praias são largas, amplas. Dificulta-me a corrida, mas deixa-me uma folha em branco que me permite perceber tudo o que se passou nas últimas horas.

Sei agora que os tractores da câmara só passam duas vezes por semana para limpar o lixo (no Verão andam sempre cá e lá, das oito da manhã às oito da noite), e deixam muito dele, que forma a linha que me diz até onde veio a maré. Às vezes assusto-me. Corro pior, porque a força do mar deixa a praia inclinada, enquanto no Verão as pessoas, os tractores e as marés pequenas, tornam a secção mais alta, junto às dunas, mais plana, mais fácil de cruzar.

Quase todos os dias, sei que sou o primeiro a passar nas praias, ainda vejo as minhas pegadas na volta, noutros dias percebo que alguém rasgou as areias bem cedo, sei quando é homem ou mulher, e agora também sigo as pegadas dos cães que batem quilómetros de praia à procura de comida, são sempre dois ou três, e passam por mim quase sempre no mesmo lugar. Deixam-me desconfortável estes bichos. As gaivotas e as pombas são muito mais destemidas nesta altura, não se afastam facilmente à minha passagem, como se considerassem que em dia de tempestade a praia é delas. Não temos de nos afastar para lado nenhum. Começo a perceber que entre as gaivotas há líderes com uma compleição assutadora, grandes, grandes, sempre as últimas a levantar vôo quando passo. As gaivotas mudam de sítio. As pombas fazem um círculo e voltam a pousar atrás de mim. O pescador que em Setembro está todos os dias no mesmo lugar, só vem uma a duas vezes por semana no Outono invernal. Os velhos que conferenciam ao cimo das escadas de uma praia, os velhos que jogam cartas sobre os bancos de outra, os velhos que se sentam reguardados sob um canavial, os velhos nem sempre vêm.

Nos passadiços anda sempre gente - só no Inverno se chega a ver ninguém -, e é bom, mas na praia só o que vos digo.

Andar dentro da praia fora do Verão é tão perturbante quanto gratificante. E ver como a natureza se impõe, como a natureza avança e reconquista os espaços que as pessoas lhe roubaram durante três meses, impressiona e faz-nos humildes e agradecidos por, ainda assim, termos consentimento. Há algo de primordial, difícil de explicar.

O mar estende-se com mais vigor areia dentro. É imprevisível. Já ando a fazer cálculos para que no Inverno uma onda mais matreira não me apanhe. É bom molhar as saptilhas na espuma na parte final da corrida, mas só o faço em dias de maré meiga.

Um destes dias um pôr-do-sol fez-me tombar, deitou-me ao chão.

(interrompo agora...continua vida fora...)

Crédito fotográficos: Super Stock

2009-10-20

Chuva - the beauty of it

O sol dilata os corpos.

O sol dilata as almas.

Debaixo do sol, não temos a verdadeira noção do elemento natural que somos, a nossa consciência admite todas as possibilidades, somos subitamente omnipotentes, a vida é bela já aí à frente.

Por isso, a queda é maior.

A chuva resguarda-nos em nós.

E se, por causa de um improvável movimento de sentido contrário à multidão que se encolhe em gabardinas e se encosta às paredes, enfrentas a chuva como enfrentas o sol, e sais cá para fora tentando abarcar o horizonte como se fosse um dia limpo, azul, ganharás noção da grandiosidade do que te rodeia e de como és pequena, mas também de como podes crescer, porque não cresceste tudo ainda, não estás inchada nem tens excesso de luz.

A Chuva acompanha-te a felicidade com assombroso realismo, e não te engana na solidão.

A água, dona da (trans)lucidez, 

sempre esteve mais perto da claridade.


2009-10-18

Eu na Escritaria e a Escritaria em mim


Imaginem-se a percorrer uma rua de pedras lisas clareadas pelo sol de outono, brisa alguma e vinte e três graus a meio, e a cada passo, num lancil, numa montra, numa esplanada, 
na desembocadura de uma praça, num jardim, dentro do museu, dentro da praceta, palavras, muitas palavras escritas, e Saramago escreve-as bem, com beleza e subtileza, ainda que sem certeza de alguns de nós, o que importa é a arte e o percurso e os milhares de páginas cinzeladas, as mais bonitas em cubos aos nossos pés, no chão, nas paredes.
Estive lá hoje. Magnífico. Não há qualquer metáfora aqui. 
Entrei dentro do Museu Municipal de Penafiel, vi a força e o amor de uma mulher sugestivamente chamada Pilar del Rio, trouxe risos, cores castelhanas, trouxe palmas e deixou entrar a figura do centro, pouco cabelo, límpido, delicado, brutal, digno, eu quero lá saber se nem tudo é do meu acordo (algo na vida o é?), se nem todas as palavras me inquietam (podemos descansar os olhos nas planícies), eu já o tinha visto com o meu polegar a deixar cair páginas em livrarias, no meu sofá, mas hoje tive a certeza:
Zé Saramago é um escritor de enorme estatura, escreve bem e ainda emociona mais escrito na rua, no chão, no labirinto, civitas, são parágrafos de molde e moldes da alma.
Ao falar pausadamente com o seu modo de cantar cada vez mais doce, encanta.
Ele foi espalhado por Penafiel, eu fui devorado pela Escritaria.
Fica-se profundamente agradecido a quem concebe e executa momentos destes.
Penafiel dentro, mundo fora.

2009-10-11

Lobo Antunes no meu Supermercado

Pensei escrever esta "crónica" aborrecido, ressentido, com o António.

A maldade de uma crítica, que li ontem, teve o efeito contrário em mim: tenho dito que a inteligência, quando não é temperada por um mínimo de bondade, prescreve.


Acredito nisso.


O António é muitas vezes um desarmante lúcido que me obriga a fazer uma coisa que detesto. Citar. Cito-o porque ele diz: "Temos de escrever contra os melhores.", e eu penso que é mesmo isso.

Cito-o porque ele diz que a modéstia é inútil, mas a humildade não, e eu nunca me senti modesto, creio até que a modéstia, para ser uma qualidade humana, tem de ser invisível, porque quando se vê é mentira, e, sim, inútil, defeito.


Mas também o cito por razões menos boas.

Antes de as referir, contudo, quero dizer-vos que o que eu reclamo é o António de volta à doçura, a doçura que ele levou às entrevistas com o Mário Crespo, com a Judite de Sousa, com a Ana Sousa Dias, a doçura que ele tem quando nos trata pelo nome próprio, quando fala da essência das coisas e não das coisas da essência.

As pessoas são parte da essência, não se podem destacar da arte.

António, não podes pensar que resolveste os enigmas da escrita.

Não te podes guindar tanto.
Não acabou para ti, claro que não acabou para ti.

E se há cavalos que fazem sombra no mar, casas caladas às três da tarde, dor a vaguear pelos quartos, enquanto existes escreves.

Quando estavas no hospital e vieste correr nu perante o mundo nas páginas da Visão, eu pedi-te para saíres da luz. António, sai da luz.


Passaram quase três anos, e é nas páginas da Visão que te encontro de novo, mas menos do que esperava.


Tens mais sorrisos, mais estantes e sítios e composições, mas estás menos tu, menos doce.


Vou contrariar-te, pois.


Sempre disseste que as tuas crónicas não eram literatura.


Mas são. São muita literatura.

Dizes amiúde que os livros têm de estar cheios de silêncios.

Talvez tenhas alguma razão. Mas os livros também são barulho.

Estão cheios de gritos, António.


Dizes que os teus livros não são de supermercado, mas são, António. Estão lá, junto dos outros. Como tu estás, junto dos outros. Olha a fotografia transparente que te junto, acima.


Sabes que disparate tenho dito?


Que não há génios na literatura. Que a honestidade intelectual nos deve levar a tocar em todos os livros. Que o corpo da escrita não se revela ou desnuda antes da capa.

Dizes que os teus leitores não lêem imprensa frívola. Mas lêem, António.

Dizes que não ligas aos críticos. Mas ligas, António.

Eles e os leitores dos outros estão aqui, os teus críticos são homens com sentimentos e com gostos, às vezes precisam de te combater por seres grande, é verdade, mas às vezes combatem-te porque eles é que são humildes, e tu não.


Não digas que não conheces pessoas, António.

Conheces toda a gente, António.

Eles estão no meio de ti.

Deves aceitar pacificamente que muitos dos leitores que compram os teus livros não são capazes de os ler. Que, ao não baixares a intensidade da luz que os alumia, podes perder alguma sombra, alguma frescura, algum silêncio.


Disseste que tinhas chegado ao mesmo tempo que o Saramago.

Aí percebo-te.


Porque a publicação é um acidente da escrita, e não foi no fim dos anos setenta que chegaste, foi muito antes, compulsivo, por Benfica, a destruir os teus próprios poemas.

A literatura sempre cá esteve, já cá estava quando nós lhe chegámos, os nossos livros sempre cá estiveram, já cá estavam quando o mundo lhes chegou.

Por falar nisso, quando é que vocês, tu e o Saramago, se abraçam, caramba?

Que birra de miúdos é essa, António?

Achas que é possível medir o tamanho de cada um? Não é.


Tu não és maior do que ele, António, ele não é maior do que tu.

Não sabes que, se continuas assim até ao fim, ou até ao princípio, ergues muralhas entre os que seguem ambos com o coração? Os que vos dão o pão a comer?

Quando é que deixamos de ter trincheiras , quando é que deixamos de marchar em colunas concorrentes, pequenos ódios multiplicados muitas vezes por cada lado?

A inteligência, quando não é temperada de bondade,


prescreve, António.

Escrevo-te isto porque sou pequenino e não quero ser grande, António.


E cá de baixo avisto o espectro térmico dos grandes, e deixo de perceber o frio.


Ninguém é a rocha de gelo, ninguém é ilha de ventos, ninguém é Deus nem deus.


2009-10-09

Leitores e eBooks sem gripe

Chiu. Caluda. Eu também sou um compulsivo leitor de livros de papel.
So what?

Tenho, como quase toda a gente que usa computador, de ler centenas de documentos em pdf, que é para não falar de livros enviados por amigos, colegas escritores ou editores, ou blogues (dá para arrastar blogues inteiros para dentro disto, coisas que não temos tempo de ler no trabalho ou em casa). Em pdf.
E, como advogado, códigos, textos doutrinários e jurisprudenciais.

Aliás, custa-me a conceber como é que editores e assistentes editoriais ainda se massacram a ler centenas de milhares de páginas de pdfs no ecrã de um computador. Tenho pena, até. Porque, à excepção de uma boa amiga e grande tradutora, que por ser excepção confirma a regra, ninguém gosta de ler textos longos assim.

KISS, não é? Keep it simple, stupid. Ok.

Não vos escrevo com preocupações ecológicas, não tenho perfil para tal. É verdade que o meu filhinho de dez anos, ontem mesmo, me perguntou, do nada, "porque é que as pessoas só falam da Gripe A e não se preocupam com a falta de água?", eu achei piada, disse-lhe que ainda ninguém me tinha posto tão bem a questão, mas o que eu quero é ler tudo e em todo o lado e da melhor forma.

Estou a experimentar este leitor de livros electrónicos, e o que mais me impressionou, logo de entrada, foi a chamada "tinta electrónica", ou seja, um ecrã sem luz, sem consumo, as letras aparecem ali, à superfície, como num livro. Não cansa nem agride.

Gosto de coisas simples para poder usá-las.
Este não tem nenhum artifício, como não o tem um simples livro, e está pronto a usar mal se liga.
Os livros abrem na página em que os deixámos.
Com uma bolsa adequada (já pensei em forrar uma capa de um volume da "Recherche", e andar com o leitor dentro dela:), para proteger o ecrã e permitir que o seguremos como se de um livro se tratasse, a experiência não é nada desagradável, bem pelo contrário.

Questões práticas:
É supérfluo? Não. É para ler livros, e um portátil não é para ler livros. Tem uma bateria que não é preocupação - este lê oito mil páginas com uma só carga, o que quer dizer semanas, para não dizer meses, e como também carrega via porta usb, de cada vez que se liga ao computador para adicionar mais livros, é virtualmente inesgotável:)).

Não é igual a um livro, nem eu acredito que o venha a substituir totalmente.
É complementar.
O Vinil está a regressar, e não é preciso para nada. A sua experiência táctil não se compara à experiência de manusear e cheirar o papel de um livro. De o segurar na mão, sentindo os relevos ou vendo as imagens das capas, que nos atraem. Não. O livro não morre, nem estas coisinhas servem para o matar.

Por isso rejeito as mensagens do tipo "aqui está o futuro".
Não está.
Está o presente.

Se o dinheiro não for um problema, aconselho-o vivamente aos profissionais da escrita, da leitura, e aos leigos que são grandes leitores. Para esses, creio ser indispensável, e nem sequer é uma necessidade nova que se cria. Eles sabem o cansaço que os olhos sentem.

Se o dinheiro for problema, temos aqui um dilema:
Se queremos que o preço de um leitor simples venha para os 100 Euros, como eu acredito virá rapidamente, temos de os comprar. É uma pescadinha de rabo na boca. Comprar significa apoiar um conceito que não colide com o livro tradicional, bem pelo contrário:

Eu, se já lia muito, vou agora ler muito mais.

Ontem já aconteceu, nas esperas.
Tirei-o do bolso (este dá para isso) e estava a ler em segundos.

Viva o livro.

2009-10-04

Filipe (todo o)


Quando eu tinha dez anos, assustei-me.
Um colega de turma caiu ao chão e a professora afastou os meninos.
Não percebi completamente o que se tinha passado, mas ele próprio nos explicou o que era ser epiléptico, é assim como eu ter um curto-circuito no cérebro,

e se não tomas os medicamentos, cais ao chão, a espumar, a morder, a língua enrola para dentro, explicou mais tarde a mãe, que foi à minha turma num dia em que caiu granizo.

Só deixei de me assustar quando, ao longo dos anos, fui eu e os meus colegas a afastar os professores e a tratar do amigo, agarrar-lhe as mãos, meter os nossos dedos na boca dele, limpar-lhe a baba, acalmá-lo.

Ontem tinha-me queixado do meu dedo mindinho. Talvez precise de gelo.

Hoje conheci o Filipe, que tem nove anos, e não tem ataques frequentes.
Tem epilespsia em permanência, sem descanso.
Toma nove comprimidos por dia.
Nunca tinha conhecido um menino assim.
Era muito bonito e tentava comunicar.
Os pais têm um restaurante onde costumo ir comer, e deixam o Filipe com uma tia, mas a tia viajou.

O Filipe estava sentado no chão desde as sete da manhã (eram dez da noite), a gemer, a dizer coisas , a sorrir, com um olhar límpido e azul, e o pai também, e a mãe também.

O Filipe olhou-me na sua forma de olhar, clara mas dolorosa, aprisionada na linguagem e no gesto, e começou a cantar vogais sucessivas,

Obrigado, a Sílvia trabalha cá, a Lena já foi embora, a Lena trabalhava cá, agora é a Sílvia que trabalha cá, traduziu o pai, que é dono do Restaurante, e a mãe, que é a cozinheira, explicou que o Estado, além de abandonar muitos pais que não tiveram a sorte de ter filhos sãos como nós, faz-se de difícil quando se trata de providenciar um acompanhamento especializado para o Filipe, na escola onde está.

O Filipe está permanentemente em curto-circuito. Uma bateria de medicamentos tomados pela manhã livra-o dos ataques e traz-lhe serenidade e traz-lhe obesidade.
Os pais olham-no com orgulho, mas olham-me com tristeza, como se pedissem desculpa.

Ele está a mexer nas brocas, eu dou-lhe um "passou bem?", ele diz aiá ú, o pai traduz por "obrigado", apresento-lhe o meu filho, o Filipe fica embaraçado - se ao menos ele entrasse dentro.

Eu ontem estava preocupado com o meu dedo mindinho.

Hoje sou o Filipe todo, fecho as recordações, a vida segue, o Filipe vai acabar por perder, a vida ficou lá atrás, caída.

2009-10-03

Verdade como quem mente


Vejo-o agora, e vejo-o claro.

As pessoas, todas as pessoas, carregam o peso de não serem suficientemente gostadas, apreciadas, reconhecidas, de meio mundo ser ingrato e malévolo à face do que elas dão, e o outro meio indiferente.

As pessoas, todas as pessoas, precisam de palavras açucaradas, de gestos, algumas de toque, de quem as olhe, de quem espere pelas suas palavras, de quem lhes contenha o abraço.

E, ainda assim, devemos ser transparentes, verdadeiros.

Mas a amizade, mais do que a amizade, a decência humana, a preocupação perante o próximo, não significam usar a verdade como um punhal.

O melhor mentiroso mente como quem diz a verdade.

A melhor pessoa diz a verdade como quem mente.

2009-10-01

O Tempo Quieto


Ontem o tempo esteve quieto.

E o tempo quieto é, para mim, uma página em branco.
E como eu sou um permanente gatafunho, o tempo quieto permite-me evoluir sem ruído.~

Um destes dias, a uma mesa da magnífica esplanada do Arrábida Shopping, estando eu, que sou uma pessoa grande, a tomar café com uma mulher que é uma grande pessoa, e apesar de não gostar nada de astrologia, fiquei marcado por uma frase dela que me vem acompanhando:

- Os Caranguejos são obsessivos.

Faltou-lhe dizer compulsivos:).
A verdade é que aquela simples frase, a propósito de pouco, me ecoa na cabeça e faz ricochete nas paredes do ego.
Comecei a perceber que, ou ando sempre arrebatado, ou não ando de todo.
E que um arrebatamento substitui o outro.
Seja a música, o Direito, a Escrita, os livros, pessoas.
Provavelmente é daí que vem a vontade de permanecer na escrita, onde o arrebatamento dura sempre mais tempo do que em qualquer outra actividade humana.
Música incluída.
Depois, o arrebatamento é um óptimo teste à lucidez e ao bom-senso.
É uma espécie de enxurrada que nos arrasta pela lama ou pelos céus, vestidos de nós ou de arlequim, e que só procede se nos mantivermos calmos, de olhos bem abertos.

Ontem, com o tempo quieto aqui no Porto, inscrevi-me no mundo sem rugas ou acidentes.
Os meus arrebatamento ficaram planos, eu sereno.
Hoje voltou tudo, e o mundo avança:).

Créditos Fotográficos: fonte aqui