2003-08-21

ELE NÃO SABE SE AQUILO É UM VESTIDO...

Ele não sabe se aquilo é um vestido, um roupão ,uma blusa larga e mais comprida que o habitual ou uma daquelas peças que as mulheres costumam vestir em momentos de crucial importância.

Encostada ao umbral da porta , perpassa , a contra-luz , a plasticidade das formas do corpo de Joana que a doença ainda não desfigurou.

Vendo-a , assim , nessa transparência frágil e resplandecente, Júlio não sabe se é a ela que vê ou a sua. aparição .

.Não corre para a pegar ao colo e deitá-la numa cama de nuvens para a olhar demoradamente no seu regresso à vida. Fica como está , sentado no sofá ,o olhar perdido no tempo, em busca de sinais de identificação entre o corpo conhecido e o corpo agora revelado.

Reconhece no pescoço de Joana a altivez dos tempos de sáude e no rosto a comoção iluminada pela alegria do regresso a casa.

.O olhar escuro e fundo de Joana , sem dúvida mais triste agora. Percebe que está à beira do abismo e que se a quer de volta não existe outro meio que não seja naquela suspensão antes que o tempo dê em correr e eles se percam de vez.

Júlio levanta-se.Pega em Joana ao colo , deita-a no sofá e , ajoelhado ,junto dela , desabotoa-lhe o vestido :o corpo inteiro de novo ao alcance das suas mãos.

Joana deixa que Júlio a contemple na crueza impiedosa da ausência do seio..Fecha os olhos porque tem medo de ler o olhar de Júlio. Sente indeléveis os dedos que a percorrem para a reconhecer e começa um breve sorriso quando , por baixo da pele, um frio suave a faz estremecer.

A mão de Joana procura devagar o coração de Júlio e , quando o encontra ,descontrolado ,deseja que uma força vinda de dentro desate o nó que a prende ainda ao tempo escuro das tratamentos no Instituto de Oncologia e lhe permita voltar aos tempos do encantamento .

Júlio, fechado nos seus pensamentos , procura palavras para dizer a Joana e não as encontra .

Quer dizer-lhe que ela é o eixo sobre o qual gira toda a sua vida mas tem medo que ela pense que é uma despedida.Quer dizer-lhe que nada mudou mas ambos sabem que a vida dos dois ficou em frangalhos .

.. O amor, de tanto amor , bloqueia o raciocínio e Júlio precisa dele para encontrar as palavras certas que há-de dizer a Joana , agora adormecida no seu colo.

A realidade fecha-se à volta da memória pictórica daquela tarde fria de Inverno quando desciam a avenida e Joana lhe disse “sabes , gostava de continuar a ver da cidade o rio. “

Júlio abraçou Joana, beijou-lhe o pescoço e enquanto a beijava, não deixando um milímetro sequer da sua pele por beijar, lembrou-se das palavras do poeta .” “Penso em ti e estou completo” .

Viana , 8 de Março de 2oo3

Luisa Novo Vaz

2003-08-05

DOMINGO FILHO DA PUTA

Desculpem-me os mais sensíveis, mas considero esta a única tradução possível para o "Bloody Sunday" ocorrido em Londonderry, na Irlanda do Norte, no dia 30 de Janeiro de 1972 (um dia com um outro especial significado para mim...).

Nenhum Irlandês sentiria este "Bloody" como apenas "sangrento".

Bendito o ultra-realista filme de Paul Greengrass, vencedor do Urso de Ouro de Berlim em 2002, que nos mergulha de forma notável no coração da tragédia.
É o filme definitivo sobre este horrendo Domingo*.

Bendito o desempenho brilhante de todos os actores, de onde se destaca, naturalmente, o protagonista, James Nesbitt (quem diz que um actor de televisão não é actor?), que recria a figura de Ivan Cooper, o parlamentar activista dos Direitos Civis que liderou a manifestação pacífica, e ficou com a mágoa perene de ter levado os seus pares, pela mão, ao muro de fuzilamento.
Este homem, ainda vivo (dizem que é a personificação da bondade) é contra os mártires: ele pensa que se deve "viver" pela Irlanda, e não morrer por ela.

Bendita a fotografia de Ivan Strasburg, que literalmente nos transporta para as ruas de Derry.

É bom que nunca se esqueça este dia, como nunca se esquece cada dia de cada genocídio.
Certamente não o digo pelos 13 mortos (até hoje morreram cerca de 3000 pessoas no conflito), mas pelo facto de, nesse dia, ter sucumbido a paz real, que deu lugar à utopia da paz. Até hoje.

Como disse "Ivan Cooper", em forte comoção, na conferência de imprensa que se seguiu à chacina:
"Esta Noite, o Governo inglês deu a maior vitória ao IRA. Esta noite, centenas de jovens vão pegar em armas pela primeira vez."

De reflectir é que nenhum dos responsáveis pela "execução" de 13 pessoas (a maioria das quais menores) tenha algum dia sido punido, judicial ou disciplinarmente, pelos actos praticados.

Como disse o professor de história da Universidade do Ulster, Paul Arthur, ocorreram duas agressões nesse dia: as execuções propriamente ditas, e a ofensa à dignidade do povo irlandês, pelo encobrimento às acções do exército britânico.

Que eu saiba, nunca o Governo Inglês pediu desculpa pelo que o seu exército fez.

É revoltante e assustador que tal se tenha passado num dos países pretensamente mais civilizados do mundo.

Permanece pendente o "inquérito Saville", iniciado em 1998, em que vão ser entrevistadas mais de 280 testemunhas do exército. Do outro lado, há 20.000 testemunhas. (não nos faz lembrar alguns inquéritos cá da pátria?)

Será inútil explicar-vos porque considero este filme, mais que sublime, obrigatório, principalmente para os mais jovens. Obrigatório para que nunca possam ser esquecidos dias como esse 30 de Janeiro de 1972.
Mais que explicá-lo, há que ver o filme.

A outro nível, mas curiosamente sobre factos ocorridos no mesmo país, também é obrigatório o filme de Peter Mullan, "As irmãs de Maria Madalena", uma instituição religiosa que, nos nossos dias (foi encerrado o último "convento" em 1996), perpetrava punições à base de violência física e psicológica sobre raparigas menores cujo único crime, por vezes, eram serem bonitas.
Estas, coitadas, tiveram muitos "Domingos Filhos da Puta", alguns dos quais as levariam à morte, outros à loucura e outros ainda à eterna menoridade mental e sentimental.

O filme Bloody Sunday, ganhou o Festival de Berlim, o Sundance Festival, recebeu uma "standing ovation" em Nova Iorque (apesar da alegada campanha de desinformação do governo britânico, através da sua embaixada), recebeu o Audience Award de 2002, etc, etc.

Mais, foi patrocinado pela Granada Television (inglesíssima, com sede em Londres) e pelo próprio governo britânico, através do British Film Council.

O realizador, Peter Greengrass, é inglês, e não irlandês.

Sem demagogias ou falsos apelos, por favor vinguem-se no cinema para aclarar a consciência.

Pedro Guilherme-Moreira, 2003-08-05



*o "Sunday Bloody Sunday", de Schlesinger, é de 1971 e, podendo ser encarado, pelos mais supersticiosos, como um prenúncio, nada tem a ver, como é óbvio, com os acontecimentos de 30 de Janeiro de 1972.

FILHO

FILHO

A mão dele ainda cabe aberta
Na minha mão fechada.

No dia em que não couber,
vou em busca do abraço
que encerre em mim uma volta.


Os olhos dele ainda brilham
nas frestas do olhar do pai.

No dia em que não brilharem,
buscarei em mim o véu
que lhe devolva o horizonte.


E os seus ouvidos vibram,
desaguando os meus passos.

No dia em que não vibrarem,
vou em busca do silêncio
que me deixe ouvir os seus.


Enfim, um dia, o meu filho,
não vai querer um beijo meu
à porta da sua escola.


Nesse dia, a ternura
que docemente traduz
a violência pura
do amor,
vai sentar-se na mão,


a mesma mão
que em si lhe fechava a sua,
e descansar
sobre o seu ombro,
calada.


Se ao menos nesse dia ele deixasse
fechar sobre si o abraço...


Pedro Guilherme-Moreira
2003-07-30