2013-10-31

Perdi um poema

 Aviso importante: perdi um poema que tinha passado pela minha cabeça sem chegar ao coração e daqui à corrente sanguínea que o comunica à boca ou à ponta dos dedos. Não tirei notas, e mesmo sabendo que os poemas que se perdem assim não são para ser escritos, só agora me apercebi de que o tinha perdido e isso provocou-me um certo mal-estar. Perdi-o no centro da vila, e como agora estou na praia, não é raro os poemas que eu deixo fugir escorregarem pelo empedrado os dois quilómetros que separam o centro da praia, principalmente quando chove. Mas já estive a olhar fixamente para a areia e não o vejo em lado nenhum. Há um vulto, contudo, talvez o vulto de um verdadeiro poeta, coisa que eu nunca serei. Aprendi a escrever poesia na oficina do meu bisavô, enquanto esperávamos um carburador novo para o Camaro e ele me dizia para dar à chave, Dá à chave e acredita, filho - os avôs chamam filho a todos os jovens duas gerações abaixo - e eu tentei, mas só me saíram uns versos e o Camaro ficou no mesmo lugar. Agora o carro já funciona e acontece-me muitas vezes ouvir dizer poemas que eu queria ter escrito. Quando sou eu que os escrevo não tenho certeza nenhuma e duvido deles toda a vida, porque têm falta de tempo no corpo. Mas quando os leio no verdadeiro poeta, fico apenas feliz e sem tormenta. Pode ser que aquele vulto me traga o poema de volta daqui a muitos anos. Sem esta tormenta. Espera. Sentou-se e está encolhido sobre si, com as mãos ao centro, sobre os joelhos, que juntou. Pode estar a escrever. Vou deixar lembrete. Procurar poema perdido no dia de hoje, cinco décadas adiante. O Camaro já está em segunda.

PG-M 2013
* para quem é fã da série "Lost", fica o desafio: quem protagonizou o episódio do Camaro? :)

2013-10-28

Tipo


No próximo Sábado, 2-11-2013, apesar de dizer no cartaz "Há poesia - e literatura - com PG-M", a ideia é testar se o que esse tipo tem escrito funciona como vindo de dentro de cada um dos que assistirão à sessão. Ou seja, não há dúvida de que hierarquicamente o público se situa no topo da pirâmide. A dúvida é se cairão para a base com o escritor. As coisas escritas, mesmo as bem escritas, precisam de sangue a circular, como as pessoas. Um escritor nada vale se olha para si ou por si, e só é profissional quando tem consciência das suas limitações. E depois o tipo não acredita em boa literatura sem um bom mediador - um editor que corta e humilda o ego do criador com letra pequena. A sessão tem esta singularidade: o tipo já passou um bom bocado dos 40, mas até hoje, em apresentações de livros ou encontros literários, mesmo com o nome no cartaz, nunca se centrou em si, mas sempre nos companheiros de mesa ou nas vozes que lhe povoam a vida (a avó, o Ilídio). E nunca deixou que lhe levassem poesia para a frente. Desta vez vai partir aparentemente do "eu", mas o tipo diz que as peças literárias - provavelmente toda a arte - são inúteis se não parecer que partem de dentro do leitor. O tipo diz que só consegue gostar do que escreve quando parece não ter sido ele a escrevê-lo, ou quanto mais se afasta da ideia que faz de si e se aproxima da ideia que faz dos outros. É por isso que vai ser uma noite única. E se alguém não gostar muito - não é só não gostar, é não gostar muito - o tipo diz que devolve o dinheiro dos bilhetes, porque a entrada numa coisa destas nunca é gratuita. Sábado, 2, 21:30h, Museu de Ovar. Há (boas) tascas perto.

2013-10-24

Eu, vós, nós no Museu de Ovar a 2 de Novembro

Este Sábado não, mas para o outro (2 de Novembro de 2013), era boa ideia jantar perto de Ovar e ir ao Museu à noite ouvir à tertúlia que pela primeira vez terá poesia minha no centro. Nunca antes aceitara ir com poesia a eventos públicos. O Museu fez questão e eu fiquei grato. À poesia tenho a ideia de a deixar em aberto para ser usada sem regra, que não vale nada ou vale mais conforme os olhos e as cabeças e os corações e algumas almas e o tempo. O que me vão fazer é uma gentileza bonita. Só pode ser uma noite bonita. Para feio já basto eu.
 

2013-10-21

Escritaria Mário de Carvalho

Escritaria, Penafilel, 2013: uma convicção de dimensão e sentimento. É tudo grande porque não há bicos de pés. Não cresce demasiado, porque se contém. Mesmos os eruditos que são chatos, e por isso menos sábios, são acolhidos com ternura. Há sempre riso e choro e empatia. Profunda empatia. Não está em causa nunca se o homenageado é um grande escritor, porque é da natureza dos homenageados não suportarem a tabela periódica das artes. Apenas se merecem. Tem de haver um percurso largo e comprido, de ter passado tempo. Assim Mário de Carvalho. Urbano. Agustina. Saramago. Lobo Antunes. Até o jovem Mia, para quem eu pedi um Nobel há dez anos. Nobel para Moçambique. Assim Mário de Carvalho. Dizem-se sempre coisa bonitas, as pessoas roubam os cubos com palavras das ruas. Desta vez havia caixas de pizza com contos do Mário. O índice do elogio balofo é baixíssimo. E sempre que lá vou afundo. Afundo mais e mais para a minha pequenez. Fico do pouco tamanho que tenho, como deve ser. Quantos mais crescemos mais pequenos nos tornamos, mas ainda melhor é ter quem nos mostre isso, por ser tamanho. Rendo-me. PG-M 2013

2013-10-04

Em Outubro

Em Outubro,
amo-te no arco da queda
no ar
na nervura do ocaso
na página superior
amo-te deposto
no chão, no pó
do limbo
quando as bainhas se tocam
nesta curva da azinhaga

amo-te nas lançadas
no fundo de sacos
negros
nos troncos incandescentes
no fumo
se me abraças em espiral
e ainda além
no nada.


PG-M 2011
fonte da foto