2013-04-23

Revolta na estante



Tenho aqui milhares de livros amuados a dizer que hoje é o dia.
Querem sair, ver mundo, em vez de mostrar.
Estão fartos de estante e prateleira. Alguns de segunda fila dizem que é como se estivessem mortos. Os da prateleira inclinada do ikea, onde tenho as primas, explicaram-me que estão enjoados daquela posição atípica e do excesso de mérito. Que os misture com coisas leves e com mais nervo. A verdade é que a indignação cresce e eu começo a correr perigo. Que é injusto que sejam quase sempre os mesmos a sair. Na casa de banho, o "Vida e destino" e a "Odisseia" olham-me com desprezo. Este último consulta o relógio, por ser livro de biblioteca e saber que o prazo de empréstimo está quase no fim. Já não é a primeira vez que tento fazer a vontade a um e me caem todos em cima. Disse-lhes que não podem sair todos, mas prometi que roubava um hoje para trazer agitação à casa. O último que roubei foi uma edição bonita da Madame Bovary, que nesse dia viajou de comboio e a que no regresso uma amiga juntou um da Julieta Monginho. Calei-os. Estava determinado a roubar um "Livro do desassossego" que li na adolescência, mas depois lembrei-me que as últimas edições o duplicaram, e que o mais certo era ele ser desprezado por todo o acervo. Os livros de Direito, esses, estão mortos e já ninguém os rouba. BD, disse uma edição da Bíblia que sempre estranhou estar na secção de livros de poesia. Tens pouca BD, já chega de tanto palavreado sem cor. Eu vim com aquela treta de a cor ser das palavras e tive uma grande vaia dos dezoito volumes do Houaiss, que cliché, experimenta vestir sempre de cinzento e convencer os outros que até tens um interior bonito. Dizem que no natal em que arrumei na estante uma belíssima edição de "The Tale of Peter Rabbit" - facsimilada da original, mas pop up - houve comoção na estante virada a sul. Ninguém se queixa nessa estante, onde estão outros dicionários e uma edição brasileira de "...e o vento levou" de 1940. E eu concordei. Hoje roubo-lhes BD. Calaram-se. Dei-lhes os parabéns pelo dia e ouvi vários "pfff".

PG-M 2013

PS: não percam o vídeo supra, não hoje, que é o dia

2013-04-20

Eu, tu, os nosso filhos, aqui, agora (Lazhar)

Depois do filme "A Caça" nos ter virado a pele do avesso quanto ao nosso tempo e ao nosso relacionamento com a inocência (em todos os sentidos), não satisfeitos, os arautos dourados do cinema trazem-nos outro momento que nos confronta dolorosamente com o nosso tempo, as nossas pessoas, as nossas coisas em "Monsieur Lazhar". Não por acaso ganhou nos festivais de Toronto e Locarno, e teve o prémio da crítica no Sundance, do público no Cph, vários Genie e Jutra awards, o do realizador em Palm Springs, do júri e do público no RiverRun, argumento em Sidney e Valaldollid, para não falar nos inúmeros prémios individuais para os actores - não esquecer também que era um dos cinco nomeados este ano para o óscar do melhor filme estrangeiro. Vejam como está aqui o mundo. Tudo numa obra simples, que não precisa de problematizar para descarnar - e o faz com inteligência (como tudo devia ser). Já lá vamos. Numa escola preparatória de Montréal - o filme baseia-se numa peça, portanto é o tal olhar ao espelho - há um momento de excepção na vida de todos, que afinal não é excepção nenhuma porque, nas vidas todas juntas também as excepções de juntam numa regra de sofrimento: é, afinal, a condição humana. O que impressiona neste filme é o trabalho dos actores infantis, tal como já acontecia no filme dinamarquês. Mas aqui são mais. A cena final é do melhor que o cinema (ou o teatro) podem ter para oferecer a alguém e ninguém - ninguém mesmo - pode ficar imune. Ou impune. Atenção especial a Sophie Nélisse - na foto - (a mais premiada), Émilien Néron e Marie-Ève Beauregard nas personagens de Alice (a favorita de todos nós), Simon e Marie-Frédérique, mas não só. Enfim: vão ver. É obrigatório para que a inquietação que trazemos no peito se ligue a todas as inquietações do mundo e nos permita mais lucidez da próxima vez que se nos deparar uma decisão difícil. Nota intratextual: Aqui no blogue vamos ao cinema mais do que uma vez por semana, mas não escrevemos sobre cinema uma vez por semana. Só cá aparecem os (raros) filmes - uma dezena por ano, às vezes menos - cuja urgência nos impele a dizer ao próximo, de forma nada escolástica: olha, se queres desatar um nó, captar o sentido das coisas, como na grande literatura, como na grande arte, está aqui, senta-te, fecha-te no escuro, fica duas horas a ver isto, afinal podes nunca ter esta conversa, podes nunca chegar lá por ti. Daí o plural majestático: eu, tu, os nossos filhos, aqui, agora, somos nós. Monsieur Lazhar somos nós.

PG-M 2013

Nós, palhaços

Às vezes, estúpido, penso que a manhã trará por si algum rasgo, alguma inspiração. Como tantos, começo a procurá-lo ligando a tv, lendo o jornal, olhando para as caras no caminho do tribunal. Muitas vezes, demasiadas vezes, nada ressalta. Quando está este sol, um certo sorriso de acolhimento colectivo ameniza esse desencanto. Mas finalmente chega o café do meio da manhã e eu pego no livro, há semp...re um livro, reparo em quem não tem um, como olha o vazio, como mesmo com o sol na cara o olhar regressa. Observo isto há anos. Não mudou com a crise. E então entro pelas secretarias e pelas agências e escritórios a disparatar, a ver se alguém levanta os olhos, já mal uso gravata, e se uso apouco-me perante os mais modestos, uso o vernáculo, trago-os de dentro das peles grossas, dispo-os das mágoas para ficarmos todos a rir do nosso ridículo. Depois vou correr à hora do almoço e ainda fico mais insuportável. Nos dias de tempestade, venho da chuva para secar quem puder pelo caminho. E tiro sempre meia-hora para abanar gente em facebooks e emails. Há quase meio ano que uma situação passageira me traz incapaz de tanta palhaçada - algo irrelevante, mas ainda assim suficiente para não me pintar nem fazer o número. Felizmente estou uns quilos mais gordo e uns anos mais velho e percebo ao espelho que só me resta a alternativa do circo. Tenho de me voltar a pintar e cortejar o mundo inteiro com o meu ridículo. Uma só gargalhada e algumas horas do dia ficam suportáveis. Muitas e a vida toda, que são dois dias, fica leve para o público do palhaço. Ao longe, vejo em cada televisão ligada em cafés o programa do Goucha, vejo a loura da Malveira a disparatar e os olhares vazios a transbordar de riso. A vida precisa dos que aceitam ser palhaços. Amanhã ainda vou carregar mais na base. E no livro, sempre o livro.

PG-M 2013
fonte da foto

in memoriam

Ponham isto na minha biografia de arrumador: "À hora do almoço equipava-se com trapos e sapatilhas velhas no ateliê da mãe e, ao contrário de O'Neill, que por causa do coração foi proibido pelo médico, corria contra o vento. Foi por isso que o arrumador, mesmo tentando ser um homem frio e insensível, nunca o conseguiu."
 
 

corpo-livro

e depois disse-lhe que era isso que acontecia aos corpos que se demoravam naquela estante de livros. Passavam a pertencer-lhe, caindo para dentro dela.
 

2013-04-19

A queda


2013-04-13

De como grunhos hetero podem superar crises de identidade e limpar o Olimpo

Olá, chamo-me Pedro e sou um grunho hetero. Não, nem tiro a Isabel Silva do canto azul, nem a Patrícia Carvalho do canto vermelho. De resto sim, vou desmontar, fazer implodir, metralhar, os templos de todas as outras divas. O que me trouxe a este grupo de apoio foi o facto de uma amiga relativamente conhecida me ter mostrado, como daí para aqui, as súplicas de amizade no seu facebook. O quadradinho vermelho marcava setenta e nove, setenta e nove só naquele dia. Na coluna dos pedidos, à esquerda, e logo pelas miniaturas das fotografias dos suplicantes, um em cada cinco era um tipo de tronco nu, sendo que, desses, um em cada dois era praticante de culturismo e o outro um decadente maduro com verdadeiros seios a precisar de mecanismo de suporte, não sei, um corpetezito, um estrofião, qualquer coisa menos aquilo e a cerveja à frente deles na mesa de uma esplanada algarvia. Um em cada dez mandava mensagem a instruir o pedido, e foi pelo conteúdo dessas mensagens que percebi o limiar da existência e reconheci o ridículo. Ou sofisticados intelectuais a exibir os seus dotes (mais valia mostrarem os seios, como os outros), ou elementos idosos com testemunhos plangentes de identificação com a dita amiga, ou verdadeiros broeiros cujo discurso equivaleria a uma violenta pancada nas costas à entrada da tasca, ou ainda tipos que se lhe dirigiam como se tivessem tido com ela mesa, copos e cama na véspera. Assustador. Ora, depois disto, e durante uns dois dias, olhava para os meus iguais com verdadeiro nojo. Apercebi-me até que o meu subconsciente procurava os espécimens mais enxutos, mais limpos, mais cuidados, ou seja, mais gays, para salvar a honra do edifício masculino. Alguma coisa está mal quando o consciente e o inconsciente de um grunho hetero procura modelos gays para se limpar. Ora, nesses dois dias pedi a uma outra amiga, esta gordinha e pouco fotogénica, para fazer uma experiência. Muda a foto de perfil, põe uma coisa sexy, uma modelo qualquer. Mas eles vão ver as outras fotos. Não importa. De facto, eu sabia, porque conheço os meus iguais, que "eles" não iam ver as outras fotos. O que define um grunho hetero é a ditadura do pénis, por milissegundos que seja, o suficiente para carregar num botão do facebook. O pénis não pensa, é estúpido, mesmo quando toma comprimidos. E assim foi. A minha amiga gordinha, no dia seguinte, tinha mais de cinquenta pedidos novos de amizade. E ali estavam as fotografias de grunhos a precisar de corpete, as mensagens de sofisticados intelectuais a exibir os seus dotes em vez de seios, os elementos idosos com testemunhos plangentes de identificação, os verdadeiros broeiros da pancada nas costas à entrada da tasca, os tipos com excesso de confiança. Nós somos assim, meus irmãos. Saravá. O efeito em mim foi devastador. Porque não é minha intenção considerar experiências homossexuais antes do apocalipse na tal ilha deserta em que não há mulheres, e mesmo aí sabe deus, percebi que era imperioso fazer uma desintoxicação. Aqui estou. Sim, sinto nojo. Já não consigo olhar para as nossas barrigas de cerveja e para os nossos hábitos grunhos com o mesmo carinho, já não me reconheço (nesse momento comecei a choramingar, e alguns grunhos do círculo levantaram-se para me confortar e eu, de forma tão brusca que a voz se me falhou e deu falsete, gritei: laaaaarguem-me! O caldo estava entornado, a transformação tinha começado;) Não, não peço mais amizade a mulher nenhuma, mas a Isabel Silva e a Patrícia Carvalho ficam no meu olimpo de éter, a primeira como diva-speedy-gonzalez, a segunda como diva-cool, como os dois últimos cigarrinhos no maço de Zeus, até porque se as limpasse era definitivo. Tinha deixado de ser grunho, tinha passado a ser, eu próprio, a diva.

PG-M 2013

2013-04-12

Jornalista-bli mini-moli

Sou pivô de um canal noticioso e faz agora dez anos que moro naquela rua da margem sul. Farto-me de levar cordilheiras de papéis para casa, para estudar os vários temas e os vários convidados, ler livros, recortes, opiniões, recensões, críticas, comentários de amor e de ódio.
No início desta semana - logo pela manhã - o meu vizinho da frente, que nunca me tinha dirigido a palavra, vendo-me com mais uma cordilheira de papéis nos braços, perguntou, quase em estilo arrumador:
 - Doutora, esses julgamentos? Cada vez mais, hein? A vida está pr'ós advogados, hein? Hein?
E eu, atrapalhada, com o resumo do livro intragável de um líder político de extremo-centro a escorrer-me pela perna direita, a chave do carro pendurada no mindinho, a mala do portátil entrepernas e o apanhado das declarações de um ministro entre dentes, tentei dizer
- Ê'n'xou'dvogada!!!
Mas ele, mais interessado nas suas determinações do que na minha figura, levantou o braço e despediu-se, Olhe, boa sorte de qualquer maneira, que sempre tem aquele Marinho para dar no corpo a quem precisa. Saudações do vizinho Turkey*!
Turkey? Mas quem é se chama Turkey?
Depois do almoço fui, vou sempre, tomar café ao Tomás das conquilhas, onde sou muito bem tratada, precisamente como se não fosse ninguém, mas hoje um novo elemento fixou-me com o sobrolho franzido e, entre pentear a careca e puxar, sem espelho orientador, os pêlos brancos do bigode grisalho, apontou-me um dedo grosso de ponta roída e acusou-me, vermelho:
  - Isabel Silva! Isabel Silva da TVI? Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah, malandra, ah! ah! ah!
Eu, com o espanto de ser trocada por outra, cuspi o café e sujei a blusa branca e, preocupada e sem tempo para me mudar, não conseguir desmentir o homem. Mas ele continuou a anunciar-me aos nóveis amigos como "esta gaja é do caraças. Eu sou taxista ali no Oriente, e a gaja aparece-nos lá com uns naperons a dizer assim. E antes de dizer o que dizia, ria-se alto, muito alto. Ah Ah Ah. Ai o caraças. Nunca o homem, ainda mais vermelho e entalado, usou um Eh para se rir. Ah Ah Ah, perante a atitude compassiva do Tomás, que encolhia os ombros para me dizer sem palavras, Tá bêbado. Com um naperon - continuava ele -, ouuuuuuve, pá, a dizer. Ah ah ah. Um naperon bordado a dizer. Ah Ah Ah. "La-la-la-o-ca-ra-lho". Ah ah ah.
  - Ei, ei, ei, ei, ei. - censurou o Tomás - Olh'aí, ó Nippers*. Mais respeito.
Nippers? Mas quem é que se chama Nippers?
Segui para a estação já atrasada, a nódoa de café parecia o mapa de Manhattan, chamei o faz-tudo e pedi-lhe que trouxesse uma tijela de água morna com bicarbonato de sódio. Não temos. E não podia dar um saltinho à drogaria ou à farmácia para comprar qualquer coisa que tirasse isto? Oh, Mahattan, que interessante, disse ele, desconversando. Podia fazer-me esse favor, podia?
 - Preferia não fazer.*
Olhei-o com ódio e reservei para mais tarde. Agora tinha de ver os mails. Centenas de mails. Dezenas de mails de patrocinadores a alertar para o incumprimento dos tempos. Relatórios de audiências e sugestões para aumentar o tempo dedicado ao futebol. Grunhos-hetero-supostamente-intelectuais a tentar impressionar-me, pais de família a elogiar-me a beleza, e amigos, tantos amigos. Um nojo. A atitude do faz-tudo começou a roer-me por dentro, e por roer lembrei-me do bêbado de pontas roídas chamado Nippers e do vizinho obtuso chamado Turkey.
Ninguém se chama Nippers.
Ninguém se chama Turkey.
Voltei a chamar o faz-tudo. Que não.
  - Preferia mesmo não fazer, Isabel. - e saiu porta fora antes de eu lhe poder dizer o que quer que fosse. Praguejei e entre dentes, já sem morder as declarações do ministro, declarei não me chamar Isabel. Isabel é a tua tia. Mas porque é que toda a gente me chama Isabel hoje? Como é que se chamava aquela "colega" com que o bêbado do Tomás das conquilhas me confundiu? Isabel Silva, era isso. Mas quem é o raio dessa Isabel Silva? Googlei-a. Uma baixinha bonitinha que faz as reportagens de campo do programa do Goucha e da Cristina. Como é que me podem confundir com ela? Eu sou uma mulher alta e pi-vô de no-tí-cias. Vi algumas reportagens da menina e reparei num carregado acento nortenho. Liguei a um amigo do Porto para saber se ele a conhecia e o que pensava dela. Ele não me atendeu, eu mandei-lhe uma sms a perguntar-lhe se ele conhecia uma Isabel Silva da TVI e se me podia dar uma opinião. Ele respondeu por escrito a dizer que conhecia, mas que preferia não dar. Corri para a casa de banho e lavei a cara com água fria. Isto não está a acontecer. Isto não está a acontecer. Escrevi-lhe um mail e ele repetiu a graça. Resolvi acalmar-me. Isto não leva a nada. Tenho de compreender. As pessoas estão num limite da existência e provavelmente hoje é o dia. Hoje é o dia em que tudo e todos explodem. Mas não eu. Escrevi os meus pivôs, preparei a entrevista do ministro cujas declarações tivera entre dentes à frente do meu vizinho Turkey, entrei em directo. A entrevista correu bem, mas o ministro, no final, em directo, virou-se para mim e disse:
 - Gosto muito do seu trabalho, Isabel. Particularmente nas manhãs, em que um estilo vincado e um maravilhoso sotaque nortenho, aliado a uma competência extrema, faz com que consiga dar um brilho a temas que os próprios condutores do programa não têm pudor de explorar de forma bem mais polémica. A Isabel não toma o povo por burro. É inteligente, brilhante. Vejo sempre a primeira hora do programa antes de sair para o ministério, espero pela minha Maria e deixo-a na mercearia. Gostei particularmente daquele programa há tempos, sobre aquelas meninas que bordam, o "Hardcore Fofo", - o ministro aclarou a voz e deixou escapar uma risada púdica, um ih ih ih que o Nippers nunca estaria perto de imitar, e eu, embora tivesse tentado aplacá-lo, dizer que estava errado, confundido, que eu não era Isabel, não consegui soltar um som sequer, e o ministro continuou - as meninas bordam por assim dizer, "carvalhadas", - vincou bem a palavra - ih ih ih, como era?, "Rala-me o pepino". ih ih ih, oh oh oh. Em directo.
Lívida, despedi-me dos espectadores (aAO) e fechei a emissão. Passei pelo ministro sem uma palavra e fui directamente à telefonista pedir-lhe uma chamada. Esperei a mesma resposta, este era o dia, eu já tinha visto este dia nalgum lado, mas não sabia onde:
  - Eu preferia não fazer.
Procurei os contactos e liguei para a TVI. Pedi para me ligarem à Isabel Silva. Que não estava, mas que se estivesse também não passavam. Comecei a protestar e do outro lado ouvi "La, la, la" e mais "La, la, la". Francamente! Que infantil, minha senhora! Disse aos colegas que não ia tomar um copo com eles, que estava muito irritada e que tinha de ir para casa e era já. Durante o caminho tentei compreender todos os protagonistas do dia, menos eu própria. É sempre assim, todos os dias, todas as noites, com os jornalistas. Pensei, megalómana, que tinha tido o meu atarracado Bloomsday**, e que o venceria na intimidade do meu quarto, lendo o longo e belo solilóquio da Molly Bloom ao espelho, com cinco ou seis respirações, para abrir a veias. Quando ia a entrar em casa, apareceu-me outra vez o vizinho Turkey, encostado ao portão, a friccionar os lóbulos das orelhas e a parte de dento das narinas, novamente eu a carregar as cordilheiras de papel e ele sem oferecer ajuda, também não queria, o tipo é abjeto, que raio de vida a minha, e começa ele, primeiro baixinho, irritante, mas subindo gradualmente de tom, virando as costas e sempre, cada mais alto:
 - La la la, la la la e la la la, advogadas vigaristas, la la la, la la la, la la la.
E eu, claro, qual bordado de hardcore (fofo):
 - La la la, o ca - e expliquei as restantes sílabas muito bem explicadinhas - ra - lho.
 Turkey levou a mão à boca, cobrindo-a com pudor.
  - Vou fazer queixa à sua Ordem.
  - Hades*** fazer, hades!
 E entrei em casa e, quando me preparava para bater violentamente com a porta, ainda o ouvi suspirar:
 "- Oh Bartleby! Oh humanidade!"*

PG-M 2013
foto retirada de hardcorefofo.pt
* do conto de Herman Melville, "Bartleby"
** o dia 16 de Junho (de 1904), em que se passa todo o "Ulysses" de James Joyce, e que é hoje feriado nacional na Irlanda
*** Hades, deus grego dos mortos, como aliás a aqui mencionada Ordem dos jornalistas, à nascença, e flexão moderna e popular do verbo haver no Tomás das conquilhas, que será integrada pelos especialistas no próximo acordo ortográfico, por exaustão - é certamente melhor do que "espetadores";
  

2013-04-11

Crónica de uma vida dupla


De um escritor esperam sempre alguma coisa sensível, inteligente, e que não ganhe nada (se for bem sucedido, passa a light). De um advogado, hoje, esperam que seja mais burro do que eles, aceite a história desenhada em família e pesquisada na net, e que não leve nada. Portanto, o que me define é nada. Sendo nada, eis como respiro: na aldeia onde vivo, ser advogado é o bastante para ser aparentemente respeitado. Quando eles sabem que escrevo, desconfiam. Fora da aldeia onde vivo, escrever granjeia algum respeito. Se sabem que sou advogado, desconfiam. Outro dia, o tono disse que me tinha visto na televisão e que não sabia que eu escrevia. E ficou a dedicar-me uma expressão entre o vazio e o desprezo, como o resto do café. Depois bateu-me nas costas e falou-me do Marinho Pinto, com um largo sorriso. Demos um gole nas nossas cervejas. De há uns anos a esta parte, é o Marinho que lhes acende o vernáculo, e o povo passou a procurar e a esperar o lado broeiro no advogado. Eu saio do café com o meu ego confuso. Chego a casa, pego no Quixote e não consigo deixar de ver no Sancho o Marinho. "Talvez seja mais alto", penso. O problema é que é impossível reconhecer-me no fidalgo dos moinhos de vento, porque eu sou um Sancho em ponto grande. E então ficam as duas minadas para o dia. A advocacia e a escrita. Depois pego no Homero e leio aquela parte do poema em que ele e os companheiros, que choravam sempre muito e eram uns medrosos, fogem ao gigante de um só olho, Polifemo, que cegam como estratégia, pendurados por baixo de ovelhas. Fico muito tempo a pensar se as ovelhas eram gigantes, mas não eram, e se o Homero alguma vez se tinha pendurado numa. Parece-me claro que nenhuma sairia do sítio, e eu penso que isto ainda é perdoável num miúdo urbano de hoje, para quem as ovelhas são animais míticos, mas não no Homero. Triste, deprimido e sem saída, volto como ambos ao café e bebo mais um copo com o tono. Ponho a barriga para fora e imito o Marinho. Todos riem. E enquanto bebo a segunda cerveja penso na sessão de uma escola, logo à tarde, na veste de escritor. O mais provável é ceder à pressão dos miúdos e acabar num pranto, por colapso nervoso. Se isso acontecer, direi que imito os companheiros de Homero que, obviamente, nunca tiveram hipótese de chegar a Ítaca, ranhosos como eram, e explicarei a minha teoria das ovelhas. Talvez assim me safe porque, na prática, levo esta vida dupla mas não sei quem sou. Olha, agora pareço o Pessoa, mas ele tinha sorte. Não era advogado. Agora vou ali arrumar uns carritos.

PG-M 2013
fonte da foto

2013-04-07

E se algum céu (literário)

 
Vamos lá: um "menino" da Rosário (Pedreira) a falar de outro "menino" da Rosário, a lusa caça-talentos da "aurora de róseos dedos" do século XXI? Um concorrente ao Prémio Leya 2012 (sim, sim, os cem mil davam-me jeito) a falar do vencedor do mesmo? Mas tu acreditas mesmo nesse prémio, Pedro? Ou acreditas porque "és" da Leya? Nova literatura portuguesa? Pfff, o que é isso? Tudo isto, ou tanto disso, é dito à boca pequena e em surdina, ou então por atacado por um(a) ou outro(a) "corajoso(a)". Mas dessas necessidades básicas nem todos sofremos.
Vamos lá, então: esta é a "narrativa" a que tenho de responder cada vez que falo de livros? Não. Não é. Não pode. Afinal, quem ama (bons) livros está sempre do mesmo lado. Qualquer escritor vale zero antes da página dois. Não há génios apriorísticos nem vultos. Há fantasmas. E há, certamente, no pequeno (pequeníssimo) meio literário português, excesso de cagança e decesso de pujança. E nas páginas dos jornais e nas imagens das televisões há excesso de cátedras e decesso de catedráticos. Sentencia-se ou resume-se o autor e a autoria, assim como os seus produtos, para que o povo "estúpido" entenda rapidamente e não desmobilize. Tudo é "notável", "o maior da sua geração", "alvo de criticas entusiasmadas", "livro do ano". Então, para que não pareça sentença ou cátedra, aqui vai a minha rápida opinião, e não se fala mais nisso: os novos autores portugueses estão estacionados num bom nível qualitativo, mas falta rasgo e coragem (principalmente para não publicar tudo e para publicar o que é diferente) a autores e editores, e não, não aceito que isso seja constantemente motivado na crise, até porque houve crises bem maiores na História. Há, claro que há, (muitos) empregos em risco, mas no tempo dos maiores vultos havia tudo o que há hoje e muito mais e muito pior. Acaso alguém já se deu ao trabalho de ler o prefácio que Cervantes faz ao seu Quixote? Pois que leia, que veja como é de hoje. Como de hoje é o tique de fazer dos que estão mortos super-homens e dos vivos parvos. Ao tempo em que saíram, poucas foram as obras-primas consensuais, quase todas foram violentamente atacadas. E basta abri-las e lê-las sem preconceitos para perceber que os super-homens também falharam (muitos classicistas estão de acordo que, por exemplo, Homero não deu o seu melhor na "Odisseia" e que a "Ilíada" - se for dele - é bem melhor); Proust foi vexado; Joyce - que tomou contacto com a "Odisseia" numa versão para jovens muito parecida com a que o nosso Frederico Lourenço publicou cá na Cotovia - foi, até muito tempo depois da sua morte, considerado um escritor maldito, uma ovelha negra no seu próprio país, que hoje dedica um feriado ao seu "Bloomsday" e teve o "Ulysses" banido de solo americano até que uma só corajosa mulher resolveu afrontar a censura americana).
 
Dito isto, se eu disser que qualquer abordagem literária só tem sentido e utilidade (se aqui não incluirmos o lado lúdico das polémicas) se a humildade e a subjectividade da abordagem estiverem em destaque, estou obviamente a dizer que quem aborda obras literárias pelo lado da cátedra tem de a ter, à cátedra, porque, não a tendo, deve sempre deixar a nota de que não foi investido da luminária do julgador que redige sentenças. Neste nosso país, neste nosso tempo, já não há muitas cátedras a escrever sobre literatura. E porque não há deve importar-nos, cada vez mais, a ´"víscera", o sentimento daquele que nos fala de uma obra, pois é isso que o distingue de todos os outros.
 
Eu nunca, quase nunca, escrevo sobre livros. Escrevo livros, não escrevo sobre livros. Sei de menos para isso. E se um dia souber o suficiente, o meu amor pela literatura vai sempre opor-se a que eu escreva sobre livros. Não uso comparativos porque isso seria sempre apoucar o (muito e os muitos) que não conheço. Dizer "o melhor" é, para mim, impossível na literatura.
 
Mas eu quero dizer alguma coisa sobre o novo livro do meu colega de Pedreira e de Leya, Nuno Camarneiro, que me ganhou o Prémio Leya 2012, a que também concorri (porque preciso), e cujo valor (o do Nuno, não o do prémio), para mim, nada tem a ver  - nunca terá - com concurso nenhum. Já não tinha quando saiu "No meu peito não cabem pássaros", logo, logo, a seguir ao meu "A manhã do mundo", e que me deixou sempre a impressão de que estávamos juntos nisto. O que eu - só eu - procuro em qualquer livro é una apneia, uma que seja, e alguns (mesmo alguns dos "melhores" à força) não me dão nenhuma. Por isso as procurarmos nos consagrados e testados. Mas não devemos descansar nesses pré-conceitos, por superlativos que sejam. Escrevem-se apneias hoje. O livro do Nuno deu-me várias. Não vos sei dizer onde se situa o Nuno no "espectro" da "nova literatura portuguesa" - nem sei eu, nem ninguém, porque isso não se pode saber sem que passem, pelo menos, umas boas décadas (a "História" é tempo, e nenhum iluminado contemporâneo pode tirar-lhe isso); o que se pode saber hoje, isso pode, são as apneias.
 
Estas são as apneias que o Nuno me deixou com o seu livro "Debaixo de algum céu":
 
Como leitor, na minha cabeça ficou o inverno de um prédio na Praia da Barra - quando o Nuno me disse que vivia lá, sempre o imaginei a traçar no teclado o inverno de quem vive numa praia (eu também vivo numa, sei bem a urgência que, de quando em vez, nos surge em invernos nada urgentes, a de retratar as pessoas que passam ou que estão) - perto de Aveiro, embora possa ser qualquer prédio de qualquer povo de praia a alguns quilómetros de qualquer cidade média.
 
E parei brevemente de respirar perante o terceiro direito e a história da ausência - um dia perceberão porque é que eu fiquei no terceiro direito mais tempo do que o devido. O amor que Bernardino faz. Os beijos pequenos dados pela Joana. O toque de Margarida nos livros do marido holandês, sem os ler. As três pessoas na praia. O gato louro daquela Margarida que tem lugares só seus. O segredo de um Moço no menos um. Os livros do padre Daniel. A oliveira inclinada para onde foge Constança. As queixas de Manuela - o chocolate. O anjo da guarda. Ouro e homens, não há nada que não se perca, nada que não se encontre, no adeus de Moço ao doutor Adriano. A carta que comove David. O cheiro a horas lentas e corpos quietos do domingo do prédio. O limpa-para-brisas que falta dentro da cabeça de Adriano. O tempo é uma mercê porque corre sem a Joana. Margarida a reapossar-se da casa e do silêncio depois das visitas. O ovo de raia. A "check list" de Bernardino. Os cães da praia, que eu sempre temi. A morte a multiplicar-se por dentro. O sino-saimão que nos tem de putas e casamentos.
 
E não é pouco nem é tudo. Voltem  lá por mim.
 
PG-M 2013

2013-04-03

Um velho muito velho tem dentro de si tudo o que é, não a memória disso

Há um velho muito velho que se chama Éton e caminha na curva da morte, a curva do vácuo de Clarice para Macabéa, e ele caminha com todos os Étons concêntricos, desde a ideia de Deucalião, seu pai, desde o primeiro corpo em que o olhar primordial era igual ao que ora leva posto, o olhar que todos nós, velhos muito velhos, vestiremos para pedir aos nossos filhos ou a ninguém ou à cuidadora do lar o último socorro, o socorro que finalmente estabelecerá no nosso íntimo que sempre fomos apenas um infante ou nada, ali, no pó a que regressamos, e que as mulheres, todas as mulheres cada vez mais jovens a deixarem de ser nossas, todas as mulheres em fuga como água a escorrer entre os dedos deviam saber que só os nosso olhos contam e que as almas claras, fundas, se contorcem num corpo velho como uma folha de papel numa fogueira e a cápsula da existência mirra sob cada paixão tornada impossível. E sobre Éton se falará, antes que morra.

Mas vai falar-se muito mais simples do que no precedente parágrafo, que é mais presciente do que imprecatado, incasto, para que se não tolde por palavras os próprios batimentos das frases por elas feitas.

Vai o velho Éton na última estrada, na linha do horizonte um mar cor de sangue, e tem dentro de si o sábio Éton que ainda tem forças para de braços estendidos segurar o primeiro bisneto, que tem dentro de si o maduro Éton, que vigoroso faz subir no ar o primeiro neto, que tem dentro de si o vigoroso Éton, que explodindo de adrenalina acolhe num colo fechado o filho Telémaco, que tem dentro de si o jovem Ulisses, que suave acolhe num colo fechado a sua mulher Penélope, que tem dentro de si o miúdo Éton, que correrá as pradarias como cavalo de Hélios, que correrá as pradarias como cavalo de Pallas, que tem dentro de si o espaço sidéreo e correrá as estrelas como cavalo de Plutão, que tem dentro de si a fome de Erisícton, saciada pelo abutre, carrasco de Prometeu.

O velho, qualquer velho, tem dentro de si tudo o que é, não a memória disso.

Por isso se ajoelha Éton, mesmo antes de morrer, quando por si passa a última jovem mulher e Éton pressente a última jovem paixão, porque o velho Éton tem dentro de si o vigoroso Éton que corria todas as musas de todas as ilhas e não o espelho que o reduz, que é o mesmo dos olhos delas, quando começa a entardecer para nós, que é o mesmo dos olhos deles, quando começa a entardecer para elas, que é o próprio estigma da invisibilidade, como o sente qualquer corpo que perdeu o brilho dos deuses.

E quando a jovem, que surpreendetemente o vê, ainda que a agonizar - e como estão tantos jovens atentos à agonia dos velhos, invisíveis quando a fatalidade ainda é remota, agonia que sentem como a iminência da liberdade e a actualidade do poder - 

quando a jovem, dizíamos, se baixa para Éton e lhe dá, não o beijo, mas a caridade da pergunta
"O que tens, velhinho?", assim, no diminuto da palavra que lhe apouca a dignidade,

Éton cai para a frente e morre.

E morre, porque tem dentro de si tudo o que é, não a memória disso, no vigor da juventude.

PG-M 2013

Amicitia


Pelo que li um destes dias no José Tolentino Mendonça, e embora ele não lhe tivesse chamado isso, a amizade é, essencialmente, intermúndio.

É o espaço entre dois amigos. O espaço não ocupado entre dois corpos.O espaço (activamente) deixado vago. A oportunidade de respiração. Pode ser, deve ser, abstenção. Parêntesis. Silêncio. Presença surda. Ouvido.

E se esse espaço for atravessado sê-lo-á pelo corpo do outro transportado pelo nosso.

PG-M 2013

2013-04-02

Estas flores de magnólia

Estas flores de magnólia têm agora a última oportunidade em vasos metálicos não sanguíneos de corredores de hotel. À medida que abdicam, deixam as páginas espessas pelas alcatifas. E apetece escrever nelas, mas são folhas não em branco onde normalmente se lê "de como negar um certo inverno". Estas flores de magnólia.