2013-02-27

Somos os assassinos do pensamento divergente

Imperdível, vale cada minuto, é mesmo urgente. Mudando a forma de ensinar: impressionante como, quando pequenos, estamos todos ao nível do génio quanto ao pensamento divergente, incrível como a actual escola nos mata isso. Eu sei que são precisas gerações para mudar, mas por favor veja, pensem, falem. Este vídeo foi partilhado por uma grande professora de português chamada Fiipa Fava. Abaixo falo-vos dos critérios de correcção da disciplina de português hoje:
Embora eu, como pai, já tivesse várias vezes sentido a inanidade dos critérios de correcção da disciplina de português entre o 5º e o 12º ano de escolaridade, só com a partilha de um documento oficial por uma boa amiga pude lê-los incrédulo. E então escrevi assim em post no facebook: "Salvem os professores de português. Salvem a língua portuguesa. Perante estes critérios (em anexo, um pdf inane), os nossos maiores escritores teriam zero. Há miúdos excelentes a ter zero em provas de português neste preciso momento - e isso posso comprovar. Estes critérios de correcção são gelados. Lê-los e tê-los presentes em cada correcção é suficiente para esvaziar o corpo de todo o sangue e não sentir a língua. Não tem sentido licenciar pessoas e depois agrilhoá-las desta forma, como se fossem mentecaptos. A isto se aditam as grelhas de correcção, verdadeiras penitenciárias da alma de um educador. Com todo o respeito que posso ter pelos "cientistas" que fizeram isto, que não é muito, um bom professor de português lê e sente a língua, sabe muito bem, e sabe-o instintivamente, o que é a língua e como o aluno a domina ou não, o que precisa ou deixa de precisar. Sabe classificar. Sabe avaliar. Estes critérios vi-os eu em professores medíocres e a esmagar toda e qualquer criatividade. Então quando aparecia o brilho da verdadeira literatura num miúdo, era o zero que esperava (e espera). O político responderá sempre que "não é bem assim", é este a triste realidade do ensino de português. Deixem os bons professores em paz e sossego. Aliás, experimentem dizer a um editor para aplicar estes critérios aos candidatos a escritor: nunca mais veríamos literatura nas livrarias.



http://www.gave.min-edu.pt/np3content/?newsId=430&fileName=TI_Port12_Fev2013_CC.pdf"



Acima fica a ligação para que possam ficar incrédulos, também.


Pena também que, efectivamente, pregar isto nesta realidade política e perante a mediocridade (esta, sim, epidémica) não adiante muito. Mas é precisamente um a um que mudamos o mundo. Não há outra forma de o fazer. Se cinco meninos da turma transmitirem isto a outros cinco, quando adultos, ou mesmo ainda crianças, exponenciamos o pensamento e preparamos a geração que realmente vai resolver isto - talvez a dos nossos netos ou bisnetos, não antes. O problema é que, juntamente com lucidez, há sempre uma proposta populista e demagógica. Tenho este pessimismo de que as pessoas de maior qualidade acabam por não aguentar ser sujeitos políticos. Esta certeza de que os melhores fogem todos rapidamente, e que no centro do poder só ficam os suficientes e medíocres.



PG-M 2013

2013-02-26

Take this Waltz - o poema (Lorca/ Cohen)

Ofereço a quem não sabia e a quem sabia, o poema de Frederico García Lorca intercalado com o que Leonard Cohen adapta livremente pelo seu punho em "Take this Waltz", que por sua vez dá nome ao filme de Sarah Polley que tem uma pequena recensão aqui. Desfrutem. São palavras viscerais. Há soluções dadas por Cohen que conseguem ser, na minha opinião, mais bonitas do que o original de Lorca (v.g.: On a bed where the moon has been sweating / In a cry filled with footsteps and sand). Os versos originas de
Lorca aparecem entre parêntesis.
PEQUEÑO VALS VIENÉS


Now in Vienna there's ten pretty women 
(En Viena hay diez muchachas,)
There's a shoulder where Death comes to cry
(un hombro donde solloza la muerte)
There's a lobby with nine hundred windows
(no original, o verso de Lorca aparece mais abaixo)

There's a tree where the doves go to die
(y un bosque de palomas disecadas.)
There's a piece that was torn from the morning
( Hay un fragmento de la mañana)

And it hangs in the Gallery of Frost

(en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.)
Ay, Ay, Ay, Ay 
Take this waltz, take this waltz 
Take this waltz with the clamp on it's jaws 
(Toma este vals con la boca cerrada.
Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.)


Oh I want you, I want you, I want you 
(Te quiero, te quiero, te quiero)
On a chair with a dead magazine 
(con la butaca y el libro muerto,)
In the cave at the tip of the lily 
(por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,)

In some hallways where love's never been 
On a bed where the moon has been sweating 

In a cry filled with footsteps and sand 
(en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.)
Ay, Ay, Ay, Ay 
Take this waltz, take this waltz 
Take it's broken waist in your hand 
(Toma este vals de quebrada cintura.)
This waltz, this waltz, this waltz, this waltz 
With it's very own breath of brandy and Death 
Dragging it's tail in the sea 
There's a concert hall in Vienna 
Where your mouth had a thousand reviews

(En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.)

There's a bar where the boys have stopped talking 
They've been sentenced to death by the blues
(Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.)
Ah, but who is it climbs to your picture 
With a garland of freshly cut tears? 
(Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.)
Ay, Ay, Ay, Ay 
Take this waltz, take this waltz 
Take this waltz it's been dying for years 
(Toma este vals que se muere en mis brazos.)

There's an attic where children are playing 
(Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,)
Where I've got to lie down with you soon 
In a dream of Hungarian lanterns 
In the mist of some sweet afternoon
(soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,) 
And I'll see what you've chained to your sorrow
All your sheep and your lilies of snow
(viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.)
Ay, Ay, Ay, Ay 
Take this waltz, take this waltz 
With it's "I'll never forget you, you know!
(Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".)

This waltz, this waltz, this waltz, this waltz ... 
And I'll dance with you in Vienna 
I'll be wearing a river's disguise
(En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.)
The hyacinth wild on my shoulder, 
My mouth on the dew of your thighs 
(¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,)
And I'll bury my soul in a scrapbook, 
(mi alma en fotografías y azucenas,)
With the photographs there, and the moss 
And I'll yield to the flood of your beauty 
My cheap violin and my cross 
(y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.)
And you'll carry me down on your dancing 
To the pools that you lift on your wrist 
Oh my love, Oh my love 
Take this waltz, take this waltz 
It's yours now. It's all that there is

Leonard Cohen (1934 - ) sobre poema de Frederico García Lorca (1898 - 1936)

PG-M 2013



A incomensurável tristeza


A manhã pesa-me
a tarde enleva-me
a noite tem-me

e na manhã
um homem chora um torso de árvore
que jaz na praia
contorna-o, deita as mãos à cabeça,
os braços ao céu,
na contraluz são iguais
aos ramos dela

e na tarde
pessoas embebidas em esplanadas
almas em copos
caras cegas
olhos longe
são gaivotas

e na noite
há crianças no bar e silêncio
todos fumam
caras brancas
há pipocas nas conversas
por comer
a solidão morreu
os pais não
estão cansados
só cansados
nus
inutilmente nus
sai luz de um beijo
uma língua queima
finalmente



A manhã pesa-me
a tarde enleva-me
a noite tem-me

e outra vez na manhã estão redes
sem pescador
e mares
sem torso

um homem chora na praia
de ramos no ar

A manhã pesa-me
a tarde enleva-me
a noite tem-me
sai-me
dilui-me
esvai-me
amanhece-me
entardece-me
anoitece-me
e o mundo

na incomensurável tristeza

PG-M 2013
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2013-02-25

A humildade


o velho, quando dobra,

é bonito dobrado
e, se aparece,
vai levar essa dobra
ao destempo do novo
que se ergue sem ruga

e sem passado

PG-M 2013

Take this (perfect?) Waltz

Take this Waltz não é um filme perfeito, mas parece.
Talvez Michelle Williams esteja longe de ser perfeita, mas parece.
E diz que para as senhoras Luke Kirby está mesmo próximo da perfeição.
Até Seth Rogen, que é sempre medíocre, se torna suficiente.
E a canadiana Sarah Polley, se não filma de forma quase perfeita uma rua de subúrbio do seu Canadá, parece mesmo. E escreve ainda melhor, uma escrita que vem de um lugar que não é habitual encontrar no cinema americano. Talvez os canadianos tenham um tempo e uma densidade que os vizinhos do sul andam a deixar fugir.
Há neste filme coisas raras que temos para nós como fundamentos da vida, por mais que pareçam adereços: honestidade, lealdade, pureza. Há um ritmo próprio e cenas memoráveis: finalmente entrei num balneário de mulheres, de muheres imperfeitas como as melhores, e foi bonito.
Ainda que a composição da piscina, a dança dos infiéis, seja pouco original, deixem-me sucumbir: é tão bonita, caramba, tão simbólica. Como simples é aquela frase final da cunhada, que nos põe a todos a pensar: a vida tem falhas por natureza, não as tentes preencher a todas.
Digam-me se entenderam o que eu entendi: talvez valha mais um preenchimento físico regular, que não necessariamente sexual, uma ocupação da mancha que tapa os buracos para onde caímos, do que a aparência de uma relação perfeita que nos preenche intelectualmente e até sexualmente. No final, digam-me o que queriam para Michelle (Margot): uma certa imperfeição ou uma certa perfeição. E será assim tão injusto casar com a família? E partir uma família em vários bocados?
Eu sempre disse que o amor nunca foi, nunca será, um jantar à luz das velas. O verdadeiro amor é a sabedoria na gestão do imperfeito. Vão ao cinema mergulhar na valsa e percebam que são mais felizes do que o que pensam.

PG-M 2013
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O bom e o mau na noite das evidências

 A minha 28ª noite de óscares sem interrupção. Uma delas foi acompanhada em directo na TSF, e as primeiras só se conseguiam ver - e mal - na TVE. É apenas um (bom) vício, não uma crença cega no mérito. É também a 28ª crónica - as primeiras dez estão manuscritas, não sei da papelada (talvez perdida para sempre:). As outras estarão em ficheiros digitais duvidosos. Apenas as deste blogue se salvam. Vamos a isto:
Aqui há três ou quatro anos tivemos uma noite clássica, plena de autenticidade, a única em 28 anos - devem lembrar-se daquela excelente ideia de o apresentador falar, um a um, "ao coração"dos nomeados para as categorias principais. Isso tem sido repetido, com algumas variações, ano após ano. Este não foi o ano, mas foi isso que gostei na abertura do Seth McFarlane, a quem devemos agradecer horas de riso inteligente por American Dad ou Family Guy. Foi autêntica. Não se sentiu por um momento o mau gosto nem a vontade de parecer mais do que o que é. O Seth não tem grande presença, mas o mítico Capitão Kirk da Star Trek tem, e ele trouxe-o (porque é que não convidam este para anfitrião?). Nenhuma piada evidente, algumas arriscadas, a preparar o terreno para o que vinha. Simplicidade e inteligência. Que me parece toda com o dedo do Seth, que, de acordo com o que pude apurar, se estendeu a pequenos detalhes noite dentro. E que bom foi ver a enorme Charlize dançar, como bem reforçou Dustin Hoffman.
O óscar de melhor actor secundário foi o para o austríaco Cristoph Waltz (é o segundo): o Waltz será sempre brilhante. É um grande actor. Mas é muito mais valioso um papel não histriónico como o do Philip Seymour Hoffman em "The Master".
Quanto à animação, gostei do "Brave", sinceramente, e ainda mais do "The paperman" (curta). Em termo de apresentação, excelente a ideia dos cinco actores a entregar óscares na categoria de fotografia e efeitos especiais - lá está: simplicidade e aposta na qualidade dos comediantes que esta noite homenageia.
Outra grande ideia: a música usada nos ataques do "Tubarão" para interromper os que se alargaram no discurso: mais uma vez a simplicidade de uma boa ideia (quase apostava que foi do Seth).
E quanto à melhor secundária, voltamos ao debate histriónico/ subtil. Fora de causa o bom desempenho da vencedora Anne Hathaway, mas foi a escolha mais evidente. Amy Adams começa a assumir-se como a nova Glenn Close, e não merecia. Já lá vão quatro nomeações a ver navios. "The Master", sem este, ficou em branco - e é o melhor filme do ano, juntamente com Argo.
No argumento adaptado, uma justíssima vitória para Argo.
No original, deixando de fora o merecedor, Paul Thomas Anderson (The Master), ganhou justamente o eterno Tarantino, com um discurso humilde e nada louco, que homenageia os seus actores, Jamie Foxx e o duplamente oscarizado Cristoph Waltz. 
No óscar para melhor realização, depois de deixarem de fora o Affleck - impensável - tinha de ser Spielberg a salvar Lincoln. Não foi: uma relativa surpresa Ang Lee a reforçar a Vida de Pi.
Para melhor actriz, perdeu-se a oportunidade de premiar um daqueles papéis "greater than life", como era o da actriz mais velha a ser nomeada, a grande Emmanuelle Riva. Pessoalmente, até gosto da Jennifer Lawrence, a vencedora, mas é uma miúda e tinha tempo. E, por bom que tenha sido o seu desempenho, não se compara ao de Emmanuelle. É outro universo.
Nos actores, muito bons Denzel Washington, e o merecedor, que já defendi aqui, Joaquin Phoenix. Mas Daniel Day-Lewis, com o seu Lincoln, entra na história como o primeiro actor a ganhar três óscares, e será conhecido nos próximos cem anos como o maior actor alguma vez vivo. Não é que não mereça, é um grande actor, mas fica o grande desempenho de Joaquin para o esquecimento. Excelente e bem humorado discurso do vencedor. Disse que tinha sido rejeitado no casting para Thatcher (preterido pela que também será considerada a melhor actirz de sempre, Meryl Streep, e que lhe entregou o óscar) e agradeceu a mulher por aturar tantos homens diferentes dentro de casa.
A entrada em directo da primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, mostra o poder de Hollywood. Ou de Jack Nicholson.:).
Quanto ao melhor filme, anunciado por Michelle, era previsível, há algumas semanas, que seria Argo, e assim foi. E merecido, porque "The Master" não podia. Não com a noite das evidências. E sempre deu para ver o protagonista de "Breaking Bad", o pequenito dos cafés, o tal de Clooney (produtor), e o verdadeiro vencedor, Ben Affleck, impressionantemente nervoso, mas finalmente humilde. Affleck aprendeu. E merece. Discurso intenso. Há poucos destes no fim destas noites.
Em resumo: uma noite previsível, sem grande emoção, mas bem realizada, apresentada e alinhada. Uma boa noite de óscares, apesar de tudo. O Seth escreveu-a bem e, não sendo entusiasmante ou inesquecível, é decididamente um tipo com bom gosto. E com um número final, dedicado aos perdedores: de facto, as noites de óscares acabam todas de repente, e este encerramento diferido não foi nada mal lembrado. Até para o ano.

Lista de nomeados e vencedores aqui.

PG-M 2013

De Correntes

 Um bom amigo perguntou-me se este ano não reportava as Correntes. Durantes anos escrevi sobre as Correntes d'Escritas, o maior evento literário português, e sempre o fiz com um entusiasmo difícil de conter. Deixei de o fazer no ano em que passei a ser autor publicado. Confesso que não foi fácil conciliar o prazer no absoluto anonimato com a inquietação de já não me sentir marginal. Mas quem não é conhecido de quase ninguém e não se quer mostrar não se mostra mesmo. Entrar tarde na sessão de abertura, ficar no escurinho, sair mal acaba, escolher o segundo balcão do auditório. Apagar-me traz-me outros prazeres. O prazer de ouvir sem julgamentos liminares, de apreciar sem o próprio ego de permeio, sem sentir a obrigação de dizer o que quer que seja. Algumas surpresas. Ter a mão da Hélia entre as minhas, o Onésimo a pedir-me um livro porque uma amiga comum o tinha espicaçado, a minha editora Rosário Pedreira a arrebatar corações com aquela bonita voz projectada, no centro da noite. Se a Rosário começou lá, muitas Correntes atrás, uma história pessoal bonita, foi também na Póvoa que eu e ela tivemos, há que tempos, a nossa primeira reunião. Lá vi e revi bons amigos. Este ano a sessão de abertura não permitiu tanta discrição. Não se fez na sala de espectáculos do Casino, mas logo à entrada, num pequeno auditório, onde ninguém se pode esconder. O acaso protegeu-me quando vim atender o telemóvel cá fora, à entrada do Casino da Póvoa, e a Hélia estava, no mesmo local, a dar uma entrevista ao telefone. Eu tinha chegado tarde e não sabia que ela tinha ganho o Prémio das Correntes. Quando terminei o telefonema, a Hélia entrou à minha frente, porque também tinha acabado o dela. Não nos conhecíamos, mas quando a vi ali sozinha disse-lhe quem era, falámos de amigos comuns, pedi-lhe finalmente - e em pessoa - desculpa por, sendo um fã absoluto e leitor de primeira hora da sua obra prima "Adoecer", que, expliquei-lhe, anda a envelhecer no banco de trás do carro e é usada como garrafa de oxigénio (o que é tão bom sinal, comentámos), o ter indicado nas "Escolhas" do "Atual", suplemento cultural do Expresso, como "Adormecer" (imperdoável dislexia:). Tinha a sua mão entre as minhas, supremo privilégio, e quando a deixei também tinha uma fila atrás de mim. O primeiro da fila era o Rui Zink, ainda na véspera de exponenciar o verbo "grandolar". Distraído como sou, só percebi a razão da fila quando, a comer o melhor risotto do mundo, o do Maurizio, na Pizzaria Castelo, ali mesmo, por trás do Casino, vi na televisão a Hélia a receber o prémio. No Sábado voltei com a minha mulher e, finalmente, consegui sentá-la confortável a ver uma "mesa". Até ali ela tinha ficado sempre contrafeita, sentada nas escadas de madeira do balcão ou de pé nas faldas da plateia. O Jaime Rocha falou de vizinhos parecidos com os meus - afinal, só queremos vingar na literatura para que os nossos vizinhos se orgulhem de nós, se aqueçam connosco e com os nossos livros nos seus longos invernos. Sábio, o Jaime começou assim: "Não tenho nada para dizer, por isso vou falar." Riso e boa disposição. Terna ia a manhã. O Jaime Rocha, grande poeta e marido da Hélia, foi o centro da manhã, moderada pelo Onésimo e com excelentes intervenções do Joel Neto ("passarei a escrever para uma montra açoriana") e do Possidónio Cachapa. Ao ver a Cristina Carvalho dizer que não consegue ser espontânea - o texto era bonito -, como a compreendo,  ou a Andréa del Fuego, com uma vozinha sumida a ler um excelente texto, fiquei a pensar no medo que terei no dia em que for convidado e cumprir um sonho. Sim, a única forma de dizer isto sem ser mal-entendido é contar a verdade: estar numa mesa das Correntes foi sempre um sonho distante, igual a discursar nos óscares, nunca uma vontade real, porque na altura não fazia sentido e hoje não tem merecimento. Com convites para escolas e eventos, com os lançamentos de livros, rapidamente percebi a falta de jeito para estas coisas, ainda que quase todos tenham corrido bem - a minha gaguez é simpática, as minhas hesitações amáveis. Em 2012 tive mesmo pânico de ser convidado, o que seria natural, dada a publicação do livro em Maio de 2011. Não fui, e consegui recuperar o absoluto prazer de ir à Póvoa sendo o nada absoluto. Gosto de andar pelos cantos, saber sempre onde há lugar para o carro, saber sempre onde levar gente a almoçar (aquele risotto!) e já lá vou há muitos anos. Quando não posso ir um dia inteiro, escolho as "mesas" possíveis, como este ano, provavelmente aquele em que menos tempo passei na Póvoa. Ainda assim, tem sido tocante ler os relatos de vários participantes, de jornalistas ou bloggers, como ficam arrebatados, como percebem a raridade do momento. Como tão bem escreveu o Zé Mário Silva no seu "Bibliotecário de Babel", "Chega-se à Póvoa para matar saudades. Sai-se daqui cheio de esperança.". Eu acrescento que é sempre bom ir à Póvoa ver como quase todos os participantes se sabem diminuir em prol dos pares que brilham, ver como o meio literário consegue ser maior do que ele próprio e durante três dias não se divisam ímpios. Como todos se comovem justamente, como choram as almas por um mundo em que as Correntes não sejam a excepção.
As Correntes são um desígnio maior do que nós, mas no entanto são a nossa cara.

PG-M 2013
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2013-02-19

Não por escrito

Amo Maria
e mais duzentas mulheres
amo as pedras do calçado
o caule dos malmequeres
o tempo que faz no peito
(e ao cima da vila a rua)
a altura do pé direito
do menor lugar de ti
e os mendigos do sinal
e o cruzamento onde li
o tom de um olhar normal
mas também amo a vertigem
do livro de perdição
na jaula da Relação
amo o cajado e a sombra
do pecado e da miséria
mas também amo sem rima
amo as gotas do silvado
as lâminas da manhã
os aromas venenosos
amo a viela do anjo
amo os corpos maculados
os cafés da deu-la-deu
a tristeza do Abel
a Sá da Bandeira alada
a copa das árvores nuas
amo São Lázaro, avô,
o Orfeu das belas artes
o cemitério e os mortos
que ao fundo dão no rio
amo o Stop e amo o Dallas,
o Brasília e o Rui Veloso,
o Tê e o Rui Reininho,
amo os pavões do palácio
a Garrett e as camélias
o Porto que vem das tripas
o Benfica nos amigos
amo a Rua das Pedreiras
o campo do Belenenses
a Calçada do Galvão
amo Lisboa às avessas
em olhares lentos e doces
amo Coimbra a ferver
no sangue do meu amor
que é do negro da Académica
nos Olivais, no Madeira,
na recta Dias da Silva,
no retrovisor cromado
do Mazda do professor
de Economia e Finanças
que matava os seus mosquitos
de banco e de luz acesa
no Penedo da Saudade

Amo a mesa preta oblonga

das quartas do holandês
prenhe
dos copos secos de fino
do Maria e a Zé e a Paula,
(ai o corpo da Paulinha)
os coches em pão de hambúrguer
a noite em batatas fritas
o Taxeira em moedinhas
os caralhos do Al Berto
nas morgues do Dom Dinis
as coxas do Mandarim
as bebedeiras do corso
as putas na associação
a Benedita e o Aroso
o bedel e o bar de letras

(o Pina em letra de imprensa)

Amo o Aviz e o Ceuta,
os gelados da Sincelo,
o minigolfe da Foz,
a Rádio Nova e a velha
da Rua da Picaria,
amo a tarde na Arcádia
em que te li hermenêutica
e perguntei, não entendes?
ainda bem, eu também não,
e os teus olhos brilharam
e o mundo todo, em vão,
foi tomado de cuidados
se te amasse não diria
palavra que se apagasse
num volume de Direito
pois então não disse nada
mas, tu sabes, amo tudo
que não puder ser deixado
como verso num poema

e também te amo a ti

mas sem rima
e não por escrito

PG-M 2013
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Resistência 2


mas daqui até ao mar

toma o caminho mais estreito
a alma mais larga
e uma vez lá
mergulha por dentro

todas as marés
colapsam. o sol

está na rua
deita-te nua, espera,
planeia a voz, o silêncio,
seremos cavalos de

tróia

PG-M 2013
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2013-02-12

A injustiça (para Phoenix, e alguma coisa sobre óscares)

Em relação a Paul Thomas Anderson (PTA), um anito mais novo do que eu, sou e serei sempre suspeito, mas também ninguém me pede que escreva com objectividade e sem tripas, caso em que estaria morto e a assombrar.
Não vos dou propriamente nota do filme "The Master", porque se torna redundante dizer que qualquer filme de PTA é obrigatório. Vá, um mdesto aforismo, seja, um epigramazito: se Magnólia é um filme genial com momentos muitos bons, The Master é muito bom com momentos geniais. A cena voyeur, em que as mulheres aparecem todas nuas, é comovente, surpreendente e memorável. Freddie Quell a correr no campo lavrado, para fugir dos familiares do supostamente envenenado. Há outros, muitos, momentos, porque The Master, sendo um bom filme, é acima de tudo uma sublime composição e uma base para grandes actuações. Podia nem ter história, que ficávamos a ver em plenitude Philip Seymour Hoffman, Amy Adams (prováveis vencedores dos seus óscares este ano), o próprio Jesse Plemons, e - meu deus, que grande, grande - Joaquin Phoenix. Mas tem. Tem história, perturba, convoca, faz pensar: o pensamento mais perturbante que me sai do filme é como podemos achar génio numa seita, sem que isso represente perigo: se a pulsão da liberdade terrena (como a de Quell), perante um discurso tão assertivo que se torna sufocante, for sempre superior à tentação de libertação divina, podemos.

Mas está garantida a injustiça da década, provavelmente uma das maiores da historia do cinema: não coroar o Phoenix renascido. A produtora devia ter tido a decência de apontar Joaquin Phoenix para o óscar de melhor actor secundário. Não é, é principal, mas também Seymour Hoffman é bem principal e foi apontado para secundário para fugir à trituradora de Daniel Day-Lewis e o seu biopic de Lincoln na categoria de actor principal. O problema está aí: Day-Lewis é só muito bom a fazer o seu Lincoln, mas Phoenix é estratosférico a fazer o seu Freddie Quell, assim como Seymour Hoffman é cumulonímbico a fazer o seu Lancaster Dodd. Phoenix, depois de em 2000 ter perdido o óscar de secundário para Benicio del Toro (Traffic) e em 2005 o de principal (nomeado pelo seu próprio biopic de Johnny Cash) para o Capote do seu agora parceiro de filme Seymour Hoffman, perderá injustamente a actuação de uma vida (tem lá tudo, é inútil explicar porquê - até a contenção da grande arte) para outro biopic. Claro que há anos em que a maioria do pessoal da Academia parece ver os filmes. Se este fosse o ano, teríamos a surpresa da década, mas porque é que eu duvido tanto? Bom, já acertei na primeira negra (Halle Berry) e na primeira francesa (Marion Cotillard) a ganhar a actriz principal (o que, juntamente com o dado à altura subvalorizada Charlize Theron foram grandes alegrias das minhas insensatas noites do vício dos óscares), mas não tenho grande fé em alegrias este ano. E ganhar o justo e não o pecador é sempre uma grande alegria. Valia-me a Amy Adams, que há alguns anos vejo como uma das maiores, se ganhasse à quarta nomeação, embora tenha perdido sempre bem -  em 2005 para a pecaminosa Rachel Weisz (The Constant Gardener), em 2008 para ainda mais pecaminosa Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona) e em 2010 para a companheira de filme Melissa Leo (The Fighter) -, mas a coisa anda a cair mais para o lado da histriónica Anne Hathaway e da corajosa Helen Hunt.

Veremos já no dia 24 (25 de madrugada em Portugal) , mas entretanto não percam as composições de The Master. No cinema, se fosse possível.

PG-M 2013
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2013-02-10

Maus tratos ao bom teatro (pela Noite com os plebeus)

Quando tenho a sorte de saber que os plebeus avintenses vão levar à cena uma peça, quero sempre ir ver. Este grupo exala competência, empenhamento. É voluntarioso e abnegado. Talvez seja o mais profissional dos grupos não profissionais que conheço. Esta noite excederam mais uma vez em valor o que cobram pelo bilhete (3,5 Euros) para nos darem "A noite" de 24 para 25 de Abril de 1974 dramatizada por Saramago e encenada por Eduardo Freitas. Mas voltemos ao início: quanto tenho a sorte de saber. Já não sou de indignações supracutâneas, mas esta noite estive no teatro indignado até às vísceras. Estava mais gente em palco do que a assistir, e, à medida que a peça se ia desenrolando e o público ia percebendo que muitos dos actores não ficam a dever nada à maioria dos profissionais que conhecemos e que a encenação, enxuta e competente, é de qualidade, ficava a pergunta suspensa no ar: de quem é a culpa de estar tão pouca gente? Certamente do poder local, ao nível da freguesia, que podia e devia ter espalhado cartazes pela vila. Certamente do poder local, ao nível do município, que não divulgou devidamente a peça. O cartaz que estava no teatro não era apelativo, nada dizendo sobre o enredo, o que não se compreende numa peça que, como se diz no encarte, foi escrita por Saramago para o povo, povo esse que, se soubesse o que ali está, acorreria em massa à sala. Mas se ninguém lhes diz. Se se divulga de forma mínima e, pior, minimalista.Valadares é uma terra preguiçosa - eu sei, moro cá - e sem dinamismo cultural. Nem sequer cuida dos seus, quanto mais dos ilustres visitantes, como este grupo de referência, quase centenário. E a Gaianima não anima nada. E voltando ao encarte, nem mesmo este tem uma linha que seja sobre o enredo da peça, por sinal a primeira de Saramago. A peça é muito curiosa, e traz-nos aquela dor do génio de quem a fez, ao descrever-nos a realidade do jornalismo de hoje com o tempo de ontem. Ainda que tanto tenha mudado, a própria velocidade, aquilo que inquina a credibilidade da notícia está igual. O Camurça (Manuel Almeida), protagonista Abílio Valadares, é um chefe de redacção histriónico na medida certa, bem secundado por Eduardo Moura e António Soares, as singulares Paula Vieira e Carla Mota, o assertivo Bruno Costa, o rigoroso Serafim Dias, e todo o restante elenco: está bem escolhida a Cláudia (Eduarda Alves), mas confesso que a belíssima Ana Magalhães não tem culpa de não criar antipatia com a corrupta Guimarães- sem que isto seja essencial, penso que a Guimarães teria tudo a ganhar com uma figura mais pesada, conservadora, embora também se perceba que se pretendeu que os alinhados com o regime tivessem um leque alargado de idades. Em resumo, uma boa peça, uma grande esforço dos plebeus, um excelente e envolvente final - mesmo forte, inspirador - imperdível e digno de encher dois Cine-teatros Eduardo Brazão, e que merecia uma divulgação decente das entidades oficiais no lugar onde foi levado à cena, e não a teve (não basta imprimir cartazes - alguns dos quais copiam o que se escreve sobre "A noite" em toda a internet): e isto não custa propriamente dinheiro, mas trabalho, dedicação e competência.
Custa também Portugal.

PG-M 2013

2013-02-08

Em Fevereiro

Em Fevereiro, amo-te sem
máscaras,
sem comédias nem tragédias, nasones
ou arlequins,
pulcinellas, colombinas,
mimos, momos ou truões,
sem degredos sem segredos
sem os cumes nem os fundos
sem invernos mas quimeras
fecundando primaveras


Em Fevereiro, amo-te sem dilemas
e peço-te e dou-te e digo-te todos
os poemas


Pedro Guilherme-Moreira 2011

fonte da foto: Harol Silverman

2013-02-07

Os inamigos

Foi avistado na língua de areia áspera da praia de Chesil, que em Dorset neste século vinte e dois só fica a descoberto de nove em nove anos se o verão for precedido de estações doces, o esqueleto exquis do que pode ser considerada uma nova subespécie humana - e que poderia dar ao cientista que o sintetizou o prémio Nobel da verdade, se ainda existisse, não tivesse a verdade sido violentamente abandonada ao longo dos duzentos anos precedentes, com todas as corrente filosóficas a assentar a sua busca no inútil, em prol de um sistema de conhecimento assente em parâmetros de autenticidade.

Serás autêntico, ainda que tenhas de mentir ou omitir ou até omentir para sobreviver.

A subsespécie do esqueleto é a subespécie dos inamigos.

A humanidade viveu os últimos duzentos demasiado perto dos inamigos para perceber que os tinha. A incompreensão do seu comportamento levou a uma explosão de suicídios e homens-bomba, que se colocavam estrategicamente junto da sua vítima para lhe iluminar e em simultâneo lhe dinamitar a vida e os órgãos internos. Aos inamigos chamava-se na altura conhecidos. As chamadas redes sociais, hoje designadas genericamente como maquilhagem, exponenciaram as paixões e arrebatamentos entre esqueletos maquilhados e a empatia dos modelos vazios que iam caindo para dentro uns dos outros.

A sociologia moderna mostra tendência para incorporar os inamigos no borboto dos tecidos, defendendo que o homem de hoje demora menos do que o de ontem para limpar as excrescências do entorno. Mas é sabido ao que levou a prática do bloqueio: nas redes sociais do século vinte e um, muitos animais ficaram viciados no exercício de eliminação de "amigos" de forma liminar, e é hoje conhecido como o treino do liminar e da visão redutora do outro como um mural de vidro, em conjunto com o poder incontrolado da demagogia de colectivos que se agregavam de forma rápida, como nunca antes na história da humanidade, levou ao repristinar dos genocídios e trouxe uma nova noite ao mundo, com um milhão de homens e mulheres a devorarem-se uns aos outros da equerda para a direita e da direita para a esquerda, com todos os políticos clássicos decapitados e com a corrupção erradicada até reasssomar para facilitar o bem.

Hoje, felizmente, os animais são todos iguais, e não são consentidas descriminações entre cães e crianças, com a vigilância da comissão de concordância prática de direitos constitucionais.

Até serem erradicados, o poder advoga que deve haver tolerância com os inamigos, e que é normal sentir empatia por tais seres ou crer que se tem mais amigos do que a contagem efectiva de cabeças.
Ainda na linha filosófica da autenticidade, os testes de amizade nos parques de linhas de comboios em que a alma em perda tem de escolher salvar uma de duas pessoas amarradas aos carris têm sido eficazes, além de permitir um controlo populacional.

E apraz registar a unanimidade social no sentido de excluir o conceito de naturalidade do erro humano e de que a vida é dinamizada pela imperfeição. O impasse dá pena de morte.

Na praia de Chesil, em Dorset, de nove em nove anos, já não há corpos nus.

PG-M 2013
fonte da foto



2013-02-05

À mulher (des)conhecida

Sou incapaz de explicar o que sinto por ti.
És mulher, tens uma beleza que não obedece à convenção, és imperfeita, normalmente mais nova do que eu, e é assim porque parte do meu encantamento reside no infinito da tua possibilidade.
Não quero nada contigo, sequer um abraço, talvez uma conversa (teremos poucas coisas em comum e talvez o silêncio), só sei que me encantas e gosto de te espreitar, de sentir a tua mancha, de prover o teu reflexo, mas é impossível, neste século como no fim do outro, advogar este encantamento sem sexo.
A primeira pergunta que me faço é porque é que isto não me acontece com homens.
Não sei responder.
Sei que provavelmente te faço a corte, sejas empregada de café ou de livraria, recepcionista de hotel ou paquete de pizaria, tens normalmente menos formação académica do que eu - porque anseio intimamente o mínimo de compatibilidade entre nós. És conhecida da minha mulher, de quem nunca escondo as minhas mais profundas empatias - escondê-lo é meio caminho andado para que o sexo seja uma espécie de falso motivo de libertação: não poucas vezes pensamos que temos o direito a não estarmos condicionados, cerceados, limitados à intimidade com uma só pessoa, e como não sabemos esperar pela lógica serena do tempo, cumprimos essa libertação quase irracional pelo sexo com outros, incumprindo a própria fantasia. Nunca fazemos o exercício da ausência - o que serei eu sem eles, se não os ter é condição dessa liberdade aparente?
Normalmente tenho saudades tuas, e se desapareces das rotinas onde te encontro sinto a tua falta. E mesmo que te esqueça, nunca é rapidamente. Às vezes há até um desespero, algo muito parecido com paixão, de não poder saber de ti e de qualquer diligência para te encontrar ser socialmente inaceitável.
Acredito que não sou o único a ter tantas mulheres assim, mulheres que muitas vezes são também mulheres da nossa vida e que tendemos a ignorar por pequenez. Mulheres a quem deixaríamos um recado inebriado de luz, mas de quem não queremos o corpo. Mulheres que completam algumas metades por cumprir: porque nenhuma nunca poderá ter tudo.
As mais das vezes tendemos a esquecer que a nossa própria mulher tem as suas figuras e que, quando  sabemos conter o frívolo, somos ambos maiores do que o espelho ou a consciência devolve.
Eu, mulher, eu sou apenas

todo homem normal