2012-12-30

Senhor Burke e o sexo em Coimbra


Don't you feel like cry-cry-cry-cry-cry-cry-cry.

Dias (noites) instruídos por Solomon Burke.
Noites de desaforo com o senhor Burke no ouvido, ninguém por perto.
E que ninguém se chegue.
Sempre a cena recorrente. Sempre o mesmo problema das músicas de dois minutos e tal:
coitus interruptus.
Sempre o repeat.
repeat  repeat  repeat  repeat  repeat  repeat  repeat  repeat
Droga não, caraças. Como é que se sente o Solomon literal com droga?
Como é que eram as gravações, senhor Burke?
O estúdio tinha de ser mais ou menos como a cena recorrente:
nove metros quadrados, luz baixa e azulada, muito fumo, o senhor na mesa do canto, nunca pronto.
O senhor na mesa do canto, nunca pronto.
Fumava, Mr Burke?
O seu bigode curto como o meu, os seus lábios grossos como os meus, o cabelo em carapinha como o meu dos melhores dias. Tínhamos todos vinte anos, mais ou menos coisa.
Eu a ficar preto, como o senhor, e os filhos da puta dos skins a cercarem-me entre a camões e a dias da silva e eu judas:
"Eu não sou preto, sou só moreno", raio de judas da dias da silva,
a brandir fotografias de nerd pálido e a triste condição de caucasiano quase a implorar, vão perguntar ao Torga, que vive ali em baixo e vem no trólei três comigo, se eu não sou branco.
As miúdas a milhas, senhor Burke, e nós com o tempo, e nós com o espaço, todo do mundo e sem saber o que fazer.
Convenhamos:
na altura o senhor andava numa cassete de crómio cuja fita (também preta, linda) tinha de ser reengolida a voltas de caneta e começou a ficar quebradiça precisamente no "Just out of reach", e, que raio, o "Just out of reach" não é grande amostra sua, pois não?
Ainda não havia a moda dos "headset", senhor Burke, mas espere lá, vamos voltar atrás:
o senhor, acha, senhor Burke, que eu tinha multiplicado o sexo se o tivesse replicado pelas monumentais, enquanto subia no encalço das miúdas de psicologia?
E que, wasted, no meio dos betos do psd que fabricaram a vitória para a associação nos late eighties, teria alcançado o nirvana no bar da OAF, em vez de um café sem açúcar enfiado pela goela abaixo e bute? Bute para casa, que a noite acabou para ti.

Eram giras, aquelas seis de psicologia.
Ou eram três?
Onde estava você, senhor Burke?

"Tonight's the night", o Al Berto a ser vaiado no Dom Dinis e a mandá-los a todos para o caralho, descíamos com elas para o "Briosa", o bar do Bingo (lembra-se senhor Burke?), e era de língua até às quatro, não era preciso embrulhar miúdas podres na relva do parque, comer e ser comido pelas próprias finalistas que nos tinham galado um curso inteiro ao som do "Marilu", dos Ena Pá 2000, nós a querer e elas a deixar, mas nunca chegava, nunca havia tempo, ia-se-lhes nos arbustos e chegava sempre, cedo e a desoras, o Quim Barreiros.
Porque o Quim Barreiros, senhor Burke, esse Quim Barreiros foi sempre o grande erro de casting dos oitenta em Coimbra: mas que Mariazinha no seu devido juízo se rendia a um imberbe de direito, senhor Burke?

Agora somos velhos e barrigudos, senhor Burke.
Temos no regaço grandes mulheres e o melhor, pensamos a olhar o johnny distraído(s), é estarmos mais quietos do que mexidos para não dar cabo do aconchego, que para a maioria de nós nos torna, não corajosos maridos, mas pobre e conformados espécimens já devidamente identificados na tabela de correspondências faceboolkianas como os predadores depredados, que é para não dizer pior,
senhor Burke
(por esta hora o tamanho pouco importa, não é, senhor Burke?).
E, ainda que sejamos uns grandessíssimos e teóricos fodilhões, senhor Burke,

Don't you feel like cry-cry-cry-cry-cry-cry-cry?

PG-M 2012

2012-12-26

1884

 
Eu tinha prometido:
leio as dedicatórias dos meninos de Guimarães no dia de natal, madrugada dentro.
O livro fora-me oferecido, em nome de alunos e professores, no final da sessão na Xico da Holanda, e devolvido no mesmo acto:
quero que todos assinem, disse.
E assim foi, andou pelas turmas e foi escrito pelos meninos e devolvido embrulhado de forma maravilhosa por uma arquitecta, e deixado no Teatro da Vilarinha, no Porto, onde professoras da escola vieram ao encontro de um antigo aluno, ora actor, para o seu desempenho em "Metamorfose".
 
Vieram e trouxeram o livro, que eu deixei para ler no mesmo hotel, no mesmo dia, no mesmo lugar e quase à mesma hora em que terminei dois livros, precisamente "A manhã do mundo" e um que, espero, verá a luz em 2013.
Ainda por cima o livro tem esse título: 1884, o ano em que nasceu o meu bisavô escultor  da estátua do leão e da águia, na Boavista, Alves de Sousa, e um ano em que Guimarães disparou para as estrelas, culminando, entre tantos acontecimentos notáveis, com a inauguração da Escola Industrial Francisco de Holanda: a Xico. "1884 - O ano que mudou Guimarães".
 
Não me é possível, uma vez mais, verbalizar com justiça o que sinto.
Vou tentar, mas é difícil escolher a abordagem.
Não é fácil tocar pessoas jovens cuja educação é mediada por dezenas de factores e pessoas. Eu posso sentar-me a ouvir e a ser ouvido por um ancião duas gerações acima da minha, mas isso não funciona assim com jovens entre quinze e dezassete anos, mesmo havendo uma só geração de permeio.
 
Que veias recebem o excesso de sangue que pomos a circular?
 
É muito engraçado como uns me chamam "senhor" e outros directamente "Pedro", outros "autor", outros usam o nome "comercial" completo, e outros ainda - o que mais me tocou - começam por "querido Pedro". Por todos passa, sem excepção, uma incomensurável ternura. Há um rapaz que começa com a frase "o mar sempre me deu respostas". Um que eu aparentemente questionei em plena sessão, quando motivei os colegas a elegerem o "espertalhão" de cada turma, o que podia ser culpado pelas mazelas da personagem "Alice". Qualquer dos escolhidos desceu com coragem e...doçura. E no entanto este rapaz, depois de perorar sobre o mar, remata com a frase "Abraçar alguém sabe bem". Surpreende-me que aqueles três tenham percebido claramente que eram apenas um veículo privilegiado de uma mensagem positiva que eles próprios souberam transportar pelo pudor e respeito com que encararam o acto.
 
Não quero ser exaustivo, mas é importante que todos saibam que li cada linha. Não me escapou uma só. Li os nomes, faltou-me ligá-los às imagens que ainda tenho e saber um pouco mais sobre cada um, algo que só foi possível entre os que se sentaram ao meu lado para terem o livro assinado. No entanto, uma menina - entre tantas, claramente das mais especiais - reteve o conselho "faz o que te apaixona e mais nada".
Passa agora nos meus ouvidos a pergunta do Ray LaMontagne (canção "Are we really through"):
 
"Are you gonna catch me if I fall?"
 
Será um exagero pretendermos que, por hora e meia de encantamento mútuo, os miúdos, muitos já homens e mulheres apenas com um remate por fazer à saída da alfaiataria paterna, saibam que quem lhes falou seria capaz de lhes amparar uma queda, seja pelo que ali se disse e fez, seja literalmente, se as memórias não se apagarem umas às outras e houver a consciência clara do abismo de que lhes falei? Esse que está aí à frente, o que o fará - e nos fez a todos - perder os amigo para sempre.
 
Será um exagero pretendermos que eles nos amparem a nós?
 
Há um menino que todos conhecem na Xico.
Esse menino que já não esteve na sessão e queria ser escritor e dedicou parte da sua curta vida a escrever sobre a doença que o levou, publicando-o num jornal escolar. Há uma passagem de um dos seus textos que é quase insuportável: "(...)Porém, na altura que sei que tenho leucemia e que estou bastante mal, o desespero faz com que eu me abrace ao pescoço da minha mãe e lhe diga que quero morrer....)". Eu, sem saber, estive em Guimarães por ele. Sei bem que, se o tivesse conhecido, teríamos ficado amigos e arranjado tempo para estarmos, apenas estarmos, juntos. Eu fui a Guimarães e falei da forma que falei porque era tudo o que desejava quando era da idade deles, quisesse ou não ser escritor. Estive muito atento à eventualidade de, entre eles, haver quem tivesse esse sonho ou desejo. Tentei, até aos limites do espaço que me estava reservado e me foi concedido, que todos e todas percebessem que a minha disponibilidade era efectiva, e que através de mim nenhuma dúvida, nenhuma ânsia, nenhum medo, ficaria por responder.
 
E sempre disse que considero a deles a mais dura idade da vida.
Sendo pessoas quase completas, são também pessoas dependentes com todas as possibilidades da vida em aberto e nenhuma cumprida, e isso pode ser extremamente confuso. Ter escolhido, mesmo que mal, como nós, situa-nos, dá-nos rumo, e muitos deles estão ainda à deriva e é muito importante que lhes expliquemos que sabemos ouvir, que somos capazes de os ouvir.
 
Os mais inteligentes são de tal forma puros no raciocínio que nos podem ensinar tanto, tanto, pelo menos podem ensinar-nos a reaprender o que é a vida sem o cinismo da impossibilidade fáctica.
 
Gosto que tenha passado para eles o conceito da simplicidade (é das palavras mais usadas).
E se passou a sabedoria, é por eu ser sabedor disso: que nada sou, nada sei.
Gosto que se espantem que eu tenha ido a troco de nada e vindo repleto de gratidão.
Que seja pelo menos uma lição aos que vão vivendo a vida de veste leve sobre pele fria, alheios aos outros, desconfiados, pessimistas, dar amor não é um risco e, mesmo que seja, pelo bem sempre se resiste.
 
Apetecia-me, mas não vou, nomeá-los.
E mesmo que possa haver textos mais inspirados do que outros, também não vou premiá-los.
 
Sobra a felicidade de ter sido possível, falando para quase oitenta pessoas, falar para cada uma delas, para a menina diferente e para o menino que, não contemplando, consegue sair do próprio mundo e perceber os seus limites.
 
Obrigado a todos, obrigado "stôras", obrigado Xico.
Em 2013 volto. Pelo Pinheiro. :)
 
PG-M 2012
 
 
 
 
 

2012-12-22

Morro


no cotovelo do bairro há uma super-
nova
chamada Maria
e o espaço sideral dobra p'ra dentro
sempre qu'ela
passa
às cinco vinda da têxtil, e o pior
é que eu sou só moço, estrela
nenhuma,
e que eu vivo num barraco
sem anéis mas
gravidade

e se eu morro,
morro por ela,
com ela,
que o morro sem ela
é nada

loirinha do morro que eu moro
Maria

PG-M 2012
fonte da foto

2012-12-21

o mundo acabou, e nem um natal


e feito o pinheiro,
a estrela do topo
desaba no corpo
e o corpo ao tapete e o abraço
em desmaio nas mãos que recebem
a dobra do tempo
um gume de luzes
o mundo

acabou.
e nem um natal

as línguas debaixo do gorro vermelho
os dedos nos dedos nos dedos os dedos

quadris em cometas

um riso infinito

PG-M 2012
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2012-12-16

Quando as velhas arrastam as cadeiras no café

Queria que soubesse, Dona Ana, que quando as velhas arrastam as cadeiras no café no domingo às seis da tarde eu só as suporto porque essa é a provação final antes do silêncio. Fico com pouca gente até às sete. Com quase ninguém até às oito. E escrevo, e leio. Mas dez minutos antes de as velhas começarem a arrastar as cadeiras, serão seis menos dez, levantam-se para uma longa despedida e começam a falar alto, afogadas nos seus casacos de pele de coelho e os maridos domesticados dentro de pulôvers cinzentos, elas aos berros com as outras, eles calados a sorrir um sorriso perdido, afastado, a pensar no passo seguinte da rotina, a pensar no que contêm as suas velhas insuportáveis para que eles as suportem.
Às vezes literalmente.
Quando o sorriso se recompõe, percebo que eles tiram sempre a mesma conclusão: elas, que tantas vezes são o próprio abismo, funcionam como o fosso que os afasta da solidão quando se começa a enterrar os companheiros de sueca. A solidão é um rio que passa por baixo e à volta do castelo. E o sorriso fica quase uma linha horizontal, às vezes menos do que isso, a imagem clássica do palhaço a remover a maquilhagem. E quando o café se cala eu penso que há uma razão para eu não retardar a minha chegada ao domingo. Eu ia sentir falta das velhas insuportáveis, as mesmas que nos dão murros nas filas de supermercado, as mesmas que nos empurram no autocarro, estas são as velhas felizes, as que combatem como elefantes enfurecidos o tratamento garantido da forca de chão com arrasto e enterro de corpo vivo. E lembro-me do choro invisível da avó naquela urgência hospitalar, o olhar rasgado a clamar, não me deixem aqui, não me deixem aqui, não me deixem aqui que morro já. Afinal, se elas têm de morrer, que morram ao lado dos velhos delas.

A operação é invasiva. Mais invasiva do que a morte, senhor doutor?

E claro que sinto falta de velhas insuportáveis que não deixam que lhes passem a perna, a forca ou a lama. A primeira vez que passei à porta deste café eram sete e meia da tarde e estava vazio, parecia quente e a luz pela metade, decidi que viria para cá escrever e esperar, mas quando finalmente vim era demasiado cedo, e lá estavam as velhas ainda a lanchar e a falar e a falar e eles com os olhos no chão e um olhar perdido. Perdido, não infeliz. E depois lá se iam elas embora, começavam a gritar, nem nos meus ouvidos a música lhes abafava o ruído, se tivessem uma fila passariam por cima de nós, se regressássemos de autocarro seriam violentas.
Mas são os abismos que separam os seus velhos da solidão e da morte.
Mais invasivas do que a morte, senhor doutor?

Não, Dona Ana, quisera eu que a avó tivesse velhas insuportáveis que arrastassem cadeiras no café para os seus lanches de domingo.

Daí ter-lhes uma raiva retórica e um amor dedicado.
Não há nada de linear nos bons e nos maus sentimentos.Estes velhos são felizes com estas velhas insuportáveis, que são felizes entre elas, ou pelo menos quando com elas.
Agora tenho para mim a estratégia Snow Patrol: Chasing Cars a 100% nos ouvidos. Não, não, Dona Ana, ninguém sossegou. Continuam a incomodar-me, ainda as ouço aos berros e nada abafa o arrastar de uma cadeira nesta tijoleira. Mas prefiro assim. Cuido dos nossos velhos suportando as inspuportáveis, como os seus velhos para que tenham um fosso que os separa da solidão. Não, Dona Ana, não é possível sorrir durante o ataque, o meu limite é gostar delas afogadas nos seus casacos de pele de coelho e os óculos Valentino pagos pelo seguro encostados às pestanas com excesso de rímel. Não me peça mais. Mas não é mau, isso concedo, vê-las felizes enquanto enlouqueço. 
PG-M 2012


O postal dos matulões da cadeia de Caxias


Uma duzia de homenzarrões (confinados) da prisão de Caxias ofereceu-me isto - de lavra própria - na quarta-feira passada, quando com os olhos a brilhar me falavam de livros, muito mais do que do meu livro. Os perdidos, os incorrigíveis, os sem esperança? Se nos descentrássemos mais dos nossos umbigos, percebíamos que somos todos melhores do que a amostra. Bom Natal!

PG-M 2012

Homens-pássaro com livros


Tempo. Caxias. Espaço. Caxias. Humildade.
António Eduardo Emerson Rui Rodrigo. António outra vez.
Nomes fictícios de alguns heróis que conheci dentro dos muros de um lugar onde os homens são confinados por terem errado uma, duas, muitas vezes.

E vou contar aqui, brevemente, uma história que os responsabilizará para sempre:
de como um homem que reconquista a liberdade entre muros não é livre de a voltar a abjurar.

Eu ia sair da prisão, e de algum modo a liberdade confinada já não importava, os olhos de Rodrigo voavam dali para fora quando me empurrou para a frente o Cosmos, do Carl Sagan, ele sabia o lugar exacto do capítulo sobre universos paralelos.

O Rodrigo ainda me ia ensinar muitas coisas se eu me tivesse demorado um pouco mais.

O António poeta empurrava O Livro do desassossego para o Emerson, o Emerson dizia que sim, grande livro, já leu isto?, sim, a espaços, vushhhhhhhhh, o António poeta é também

um tgv na ala norte.

a Tânia rasgava o pacote de livros novos que eles tinham pedido e alguns tinham gulodice dentro.
Não é coisa que se veja muito fora. Gulodice dentro.
Todos juravam que o texto que tinham prometido escrever estava quase pronto.
Preguiçosos, são uns preguiçosos,
mas eu não via preguiça, via vaidade, vontade de fazer o melhor, receio de entregar pior antes de ser melhor.
O António bilbiotecário tinha-o mesmo escrito, foi elogiado publicamente, estava muito bom.
Estava muito bom, António. Falta-lhe a placa para a dignidade ser um círculo completo e se erguer o seu corpo como um resistente: está ali no frio da biblioteca com um computador que não funciona e o seu silêncio é uma tempestade, muitas tempestades, de palavras, sabedoria, ânsia.

António é bibliotecário, é que António é blbliotecário mesmo, é que isso ninguém lhe tira.

O Emerson leu "A manhã do mundo", o Emerson estava entre as páginas da manhã do mundo, o Emerson pediu desculpa por não ter caído todo para dentro do livro, que ia ter julgamento em Janeiro e só o julgamento de Janeiro lhe passava na alma, que queria reler e ligar partes, está bem Emerson, está bem, tens tempo, Emerson,
mas, Emerson, já alguém te disse da bondade dos teus olhos, de como tens a serenidade dos homens que não vacilam na escolha, que o bem te é inerente?

 O António bilbiotecário e o Emerson tinham lido "A manhã do mundo", o António de forma meticulosa e atenta, o António sabia tudo, eu não, o Emerson com o espaço que a alma deixava, sorria mesmo que não se lhe visse a boca.
O que quer que estes homens tenham feito para estarem presos,

já são muito melhor do que isso,

divergem da rotina da cadeia para ler e ouvir ler, para saber e ouvir dizer o que se sabe,

cada livro é uma janela dali para fora e é preciso não os ter no sítio para lá voltar.
Um homem que experimentou este lugar, e ainda por cima tenha lido neste lugar, já se livrou da sombra há muito, não tem desculpa para voltar.

Há-de lembrar-se lá fora, quando for mais fácil fazer o mal, que já sabe que não, que tudo é mais valoroso, tudo vale mais a pena, todos os sacrifícios são melhores do que um deslize fácil.

Como voltar, Rui, quando no teu sorriso inquieto percebeste que cada homem e cada mulher valem por si?
E o Eduardo, mais calado, a antecipar a festa?
E o Garcia a sustentar a humildade de todos, o Garcia ouvindo, o Garcia ouvindo como poucos sabem.

De pé, de saída, tinha mais dois tipos que me chegavam ao metro e noventa e tal, e disse-lhes logo:
se o mundo acabar no dia vinte e um, volto para liderar a primeira tribo de sobreviventes.
Este quero-os ao lado quando for para reconstruir.
Há muitos fora de muros que podem ficar na toca.
Este quero-os ao lado.
Homens-pássaro com livros.

E aos homenzarrões da prisão de Caxias prometi poemas.


PG-M 2012
fonte da foto

2012-12-09

Monólogo dramatizado de uma velha nua ou a história banal de Ekaterina Savélievna Mostovoi

 Mas depois de toda a nudez sou só a velha a chorar a morte do velho Mikhaíl Sidorovitch Vlássov.
Estou nua.
Estou finalmente nua.
Estou finalmente - literalmente - nua.
Mas também estava nua quando trazia o corpo dos dezassete sob três camadas de roupa e tu me dizias que começava a ficar gorda e que tinha de tirar o bebé ou te oferecias ao camarada Joseph Stalin e me oferecias a mim à desonra.
Serei soldado, Ekaterina Savélievna Mostovoi, serei soldado e nunca voltarei para ti.
Também estava nua quando me recusei e tu, Mikhaíl Sidorovitch Vlássov, partiste para a frente, e nunca me despi para outro até entrares pela porta e arrastares os meus pais para o celeiro e cumprires sobre mim a instrução 0428 vestido com um belo uniforme alemão, tu a explicares ao meu ouvido enquanto me rasgavas por dentro e por fora, "sou o primeiro para te dizer que faço isto por ti", seres o primeiro e fazer isto por mim foi violares-me antes do resto do teu comando de ataque porque eu teria a bênção de ser deixada viva para contar a história que o nosso estimado líder queria que fosse contada. "Fackelmännerbefehl cumprida", informou zelosamente o teu comandante enquanto retirava o membro do meu ventre ensanguentado, "dirás que foste violada por um regimento alemão das Waffen-SS, espalharás a palavra pelas aldeias vizinhas;". Esperava o cabrão que eu fosse dizer à minha própria mãe que os partisanos do teu comando de ataque eram animais alemães quando cada um desses nojentos gemia e me insultava em russo e o garboso comandante lembrava, da porta, que eu devia ser deixada viva?
Também estava nua quando o meu pai me explicou de forma veemente e sem discussão que tu,  Mikhaíl Sidorovitch Vlássov, eras um herói condecorado por bravos actos, aliás como o constante da Fackelmännerbefehl, que tu orgulhosamente exibias - aquele sorriso e aquela tentativa de abraço despiram-me mais três vezes - : Principalmente para aqueles que exterminam povoados atrás das linhas alemãs (em uniforme do oponente), deve sugerir-se condecorações, ora muito bem, pai, Mikhaíl Sidorovitch Vlássov violou-me com o fito exclusivo de que eu perdesse o bebé, teu neto, que ele não queria, ele e um comando de partisanos loucos, e o pai quer obrigar a sua filha a casar com a besta?
E nua outra vez o pai diz
Ele salvou-te, Ekaterina Savélievna Mostovoi, ele salvou-te a vida. Ganha vergonha nessa cara.
Também estava nua quando finalmente o único filho que não mataste nos nasceu sem braços e tu comentaste que razão tinhas tu por desconfiar que eu só paria monstros.
E nua fiquei de cada vez que chegavas a casa mais cedo e, vendo-me dar banho ao menino, perguntavas por que raio não estava o jantar pronto e que as tuas necessidades estavam acima das do monstrinho.
E era nua que me via quando à tua frente mimava o filho que tu nunca reconheceste.
E ainda nua quando regressava a casa enlevada pelas vitórias do menino e tu tinhas sempre um comentário negro.
E mais do que nua, rasgada, outra vez rasgada como no tempo da violação, quando mo tiraste e o partido o entregou aos meus pais, aos meus pais, Mikhaíl Sidorovitch Vlássov, a minha máxima humilhação e tu sabias.
Devia ter morrido, mas limitei-me a envelhecer.
A envelhecer.
A envelhecer.
Até este corpo de pregas aparecer e eu já não ser a menina de dezassete que ouvia, nua,
Ekaterina Savélievna Mostovoi, és sublime como
e nunca terminavas as frases porque não sabias, e eu, nua, imaginava as palavras que nunca lá puseste.
E mesmo quando o nosso filho homem nos visitava e tu pedias para não estar em casa quando ele viesse, esse monstro nem um abraço pode dar, e rias-te, os dentes eram sombras ou punhais, não importa, e eu nua.
Até hoje.
Quando o filho chegou hoje, de surpresa, e se sentou numa posição estranha sobre a mesa da sala de jantar, virado para ti como nunca fizera antes, porque nunca permitias que ele sequer te visse, quando o filho chegou hoje e me pediu que colocasse o concerto para violino de Tchaikovsky no fonógrafo
Mas tem de ser o do Vadim Brodsky, mãe.
Não, nesse disco ninguém toca, retorquiste tu, e eu comovi-me por consentires ao teu filho a existência e o teu filho saber na sua alma que tinha de ser aquele disco.
Na verdade, já não podias lutar por ti, mal te movias, e certamente não o fazias sem ajuda.
Sob o teu ódio móvel e o teu corpo imóvel, fui eu que coloquei a agulha sobre o disco, como se a carne. Não é só disparar. Quem não tem braços, aprende a fazer tudo com os pés. Mas nem sempre disparar, que exige um equilíbrio especial. O filho, ágil de pés e pernas, apontou-te a arma e tu, por não  saberes disso nem o tentares imaginar, respondeste com uma gargalhada. Estavas perdido. Estava achado o teu ridículo. O tiro foi certeiro e tu não te mexeste. A cabeça pendeu, sim, o sangue jorrou, mas tu não te mexeste. O filho saiu sem dizer palavra, os olhos a dizer estás livre, volto breve.
Para todos os efeitos, fomos assaltados com violência.
Eu violada.
Eu nua, velha, finalmente nua sobre ti e um sofrimento largo que não se separa do corpo.
As pregas cheias do teu sangue. O teu sangue por fora.
E eu nua.
Finalmente nua.
Estou finalmente - literalmente - nua.
A dor alaga, o espelho devolve o meu corpo abjecto, as pregas em sangue vivo, o teu sangue vivo, tu morto. Por dentro nada do passado é restaurado, nem eu nem a ilusão de ter dezassete anos e gozar sobre ti em movimentos circulares, a gozar tal como agora, tu sempre disseste que quando eu fazia assim era eu que te fodia e não tu a mim, mas pelos tempos apenas me mandavas para o quarto abrir as pernas e eu nua não.
Punha um sorriso sem lágrimas sobre o corpo.
Não entendo esta dor, este luto sobre ti, dizem que passa, que o corpo se habitua ao que a alma merece.
Ao que eu mereço.
Mas depois de toda a nudez sou só a velha a chorar a morte do velho.
A tua, meu filho da puta.
As lâminas sobre o pulso não são lâminas sobre o pulso.
O filho não compreenderá, quando voltar, se voltar.
Estou nua.
Estou finalmente nua.
Estou finalmente - literalmente - nua.

PG-M 2012
fonte da foto

2012-12-06

Guimarães sem palavras

...ou com poucas:). O fantástico dia 29 de Novembro de 2012, em que andaram professores, alunos e escritores em comoção mútua.
                                                   Professora Rosário and myself

                            "(...) Custa perder-me dos rapazes e raparigas que deram tudo de volta.
Custa-me o peso do coração, a leveza dos pensamentos, custa-me a fotografia que não se detém, o auditório da Xico cheio de luz e nós sem medo de olhar as caras todas uns dos outros, custa-me a brevidade, custa-me não repetir, custa-me o brilho encantado da Cristiana, da Rita, da Rute, da Cláudia, da Bia, do Bruno, do Luís, da Carla, da Bruna, da Ana, da Sandra, de pausas doces sem nome, custa-me não parar o tempo. (...)" 
  nesta parte eu li à sala uma versão light do que está no livro, avisando que quem o tivesse podia seguir o original "proibido":). Funcionou bem. Os possuidores divertiram os outros:). Curiosamente, e isso eu não contei, a versão que li era a original, antes de eu a editar com a MRP, tornando-a mais clara e dando mais "corpo" à virgem malandreca que a Alice também soube ser:).
e não é que apareceram mais livros para a leitura da parte "hot"? Não tinha reparado ali nos malandrecos do canto:))).
finalmente, as que se comovem, mas também as que filtram a ignorância, as responsáveis por isto tudo, as boas professoras de português. E boas pessoas. Aqui falta a professora Helena. Estão as professoras Glória, Conceição e Manuela. A professora Rosário estava ao meu lado.
"(...) Custa-me sem a Conceição, a Rosário, a Lena, a Glória, a Manela e os que virão.
Custa-me literatura dentro da voz da cidade estrangulada por descontos, lapidada pelas grelhas e a excelência em directrizes. Custa a escola toda sob as curvas dos quadrados. (...)"
Sobre a visita, pode ler-se ainda o texto Custa-me.
PG-M 2012
fotos da Biblioteca da Escola Francisco de Holanda

Morales fantástico

 O João Morales tinha na mão a minha mesa do fórum fantástico de 25 de Novembro. E o João fez-me engolir em seco o pouco que sou e sei. Comecei por pedir-lhe que aguentasse o que viria a ser um festival de sabedoria - não que ele fizesse por isso ou o quisesse, mas é inevitável nele - para lhe contar que eu, tal como o ilustre Afonso Cruz, um rapaz doce ali mesmo ao lado, tinha tido uma carreira gloriosa como ilustrador aos catorze anos, desenhando a série dos porcos (contada uns dias mais tarde também em Guimarães, e que pode ser lida aqui).
A forma como o João fez a ponte entre o meu livro, "A manhã do mundo", e o último de Afonso Cruz, "Jesus Cristo bebia Cerveja" demonstra ainda mais do que sabedoria: trabalho e dedicação.
Graças ao João foi como se tivéssemos combinado previamente a articulação de ideias, identidades e pontos de contacto entre os livros.
Falámos do narrador omnisciente, da curiosidade do tom profético num livro que aborda o livre arbítrio, eu expliquei todas as opções. E foi desconcertante como o João, finalmente, descobriu que o elemento fantástico, n'"A manhã do mundo" foi um pretexto, um McGuffin (como ele disse) para abordar outras questões – memória histórica; dignidade humana; liberdade para fazermos o que queremos das nossas vidas;  
Muito curiosa a questão dos vidros ou janelas como elemento simbólico na narrativa e na tragédia em si: citou a p. 134 e as crianças coladas ao vidro, numa cena imediatamente anterior ao momento de maior pânico.
As posições estéticas e éticas também foram abordadas. A forma como foi fundamental eu entender muitos familiares de vítimas, como falei com alguns, como tomei decisões éticas e optei por um minimalismo estético. O piso 106 vazio como cenário de toda a escrita. Mas também a forma como foi assumido o risco do carácter simbólico do livro, a opção de confrontar o mais "pop" de todos os holocaustos com o que tratei como holocausto indidividual de três mil em Nova Iorque. Como quis descarnar as personagens para nelas caber cada leitor sem trauma, e os riscos que isso comporta, aliás claros numa ou noutra crítica, em que se pedia mais - mas esse mais não só não foi querido como prejudicaria a limpeza estética de um narrativa ética.
O João também sabia que a expressão usada n´"A manhã do mundo", "um canalha é um canalha é um canalha", era uma alusão ao poema de Gerturde Stein “Sacred Emily”, “Rose is a rose is a rose is a rose”. Sabia e ensinou quem não sabia.
Depois pôs os livros em diálogo: foi para mim um ponto alto quanto se falou da geometria na literatura. Foi para a página 178 do livro do Afonso e citou a frase notável: “todas as relações são triangulares, mesmo as mais quadradas”. E eu engatei na agitação e li uma passagem sublime do meu livro preferido do Afonso, "O pintor debaixo do lava loiças", que parte da geometria e diz assim (página 21), sobre o jovem pintor Josef Sorz:

"A minha mãe é tão pequena que, vista de longe, parece um pontinho."
 E o Afonso desenha um grande ponto final negro. E continua, na 22:
"e o meu pai é tão alto que, visto de longe, parece uma linha, um risco de lápis."
 E o Afonso desenha um risco de lápis.
"Mas vistos de perto sao como toda a gente, têm braços, pernas, nariz, chapéu."
 E o Afonso desenha um homem e uma mulher com braços, pernas, nariz, chapéu.
 E continua, na 23:
"Quando se querem beijar, demoram muitos dias, pois o meu pai tem de se baixar desde as nuvens até ao chão e isso demora muito, especialmente para quem sofre das costas. A chuva consegue fazê-lo com rapidez, mas não tem costas."
 "Porém, quando eu olho para eles, são quase da mesma altura."
      
Ainda sobre a geometira e o espaço, o João lembrou a ideia da página 187 d'"A manhã..." – as pessoas dentro das cidades; as cidades dentro das pessoas;" e perguntou ao Afonso se as figuras que ele inventa reinventam a geografia onde vivem (neste caso, Alentejo).
Eu contei que nada faz mais falta à escrita do que noções mais aprofundadas de geometria, matemática, ciência.
Disse ainda o João que no livro do Afonso o Alentejo estaria transformado em Jerusalém e lembrou o fime "Good Bye, Lenin”.
Quase a acabar, trouxe a página 143 d'"A manhã" e a ideia de Ortega y Gasset, “Somos o que somos, ou somos a circunstância de nós próprios?”, que eu pus em diálogo com uma pergunta da narradora: "Somos o que não somos, ou somos a circunstância dos outros?"
Para acabar, fui eu que pedi a palavra para trazer uma última perspectiva à (saborosa) discussão:
Se até ali havíamos discutido os nossos livros e a forma como se projectam no fantástico, eu aproveitei a presença na sala da autora de um livro genial, "No tempo das criadas", Inês Brasão, um ensaio que traz ensinamentos a qualquer romancista atento, principalmente na forma precisa, literária, limpa, como a Inês transcreve as conversas que teve com as "criadas", para dar conta da outra perspectiva: aqueles para quem tudo o que é normal para nós é fantástico. Isso via-se nos olhos de todas as criadas de aldeia. Isso vê-se nos olhos de todas as pessoas para quem a nossa própria figura é algo do outro mundo. Obrigado, grande João.
Morales fantástico.

PG-M 2012
fonte da foto
PS: a fotografia  tem uns anos, mas foi escolhida porque me pareceu rara e porque dela consta também o imortal Carlos Pinto Coelho

A escolhida

Desculpem a presunção da escolha, mas está tudo combinado. Mal lhes seja dada notícia da minha morte, os meus amigos galegos descerão ao Porto com as suas gaitas. Quando o meu caixão estiver a descer à terra, soará esta. Isto, ao contrário do que possa parecer, faz-me feliz. PG-M 2012

2012-12-03

Em Dezembro


Tinhas morrido em Novembro
e em Dezembro

ceámos sem ti

havia prendas nos pés
e sapatos
nas varandas
e varandas
nas mãos, e mãos
no canto surdo dos umbrais

esfreguei violentamente os olhos
e a neve a cair
e as lágrimas
duras

ping ping
splash
splash

o choro é um silvo
fiúúúúúú
fiúúúúúú

os barcos passam no rio
as luzes
o tempo

será natal em breve
hoje mais tarde

PG-M 2011

Dos advérbios venosos


fez o percurso sem sombra
sem raiva e sem perdição
rigorosamente cinzento
dotado de alinhamento
às quatro patas
snifou uma linha no cume do dia
meticulosamente divertido
cumpriu a loucura
de forma sensata
e replicou-se aos demais

no dealbar da noite
partilhou mesa com marginais
que em sombra e raiva e perdição
são rigorosamente versados
nas sete cores no arco íris
e a desfazer-se na língua
são pesticidas
e tempo

o cavalheiro
vai desculpar:
nenhum desses indivíduos possui
os advérbios venosos
que circulam na frase.
na rua paralela
o poeta escreve a respiração com o sangue dos próprios pulsos
o compositor o equilíbiro dos passos
com o que resta das veias
e o pintor a substância da vida
para dentro dos ventrículos,
e eles, sem querer saber,
eles,
o cinzento e o marginal,
vão ter ponte
em vez de faial

(pós-poema:
o cavalheiro vai desculpar,
está um vento a insinuar-se
na luz da manhã,

tempos houve em que deixávamos alegremente morrer
os nossos poetas, os nossos pintores, os nossos
compositores,
hoje não.

hoje somos meticulosamente atreitos
à arte, e como jornalistas mediamos
a respiração do mundo,
o equilíbrio dos passos,
a substância da vida,

para dentro dos ventrículos
da civilização

discretamente os abraços, tantos abraços, os apoios, tantos apoios

o cavalheiro vai desculpar, há que acudir,
como diria Drumond,
ao parto candente,
é que nasceu,
cavalheiro,
nasceu,
bem no meio das pedras do caminho,
uma flor

é que,
cavalheiro, e apesar de tudo
há sempre um sentido que a razão não alcança,
e, meu caro senhor,
elas nascem

as flores nascem)

PG-M
fonte da foto