2012-10-31

Relevante irrelevante vice-versa (Abrunhosa vs Caius)

Não será inconfidência porque é irrelevante, embora acabe relevante.
Então eu passo pelo Pedro Abrunhosa a pedalar, no fim do meu prémio de montanha privativo. Não nos conhecemos, para lá de uma breve troca de elogios há que tempos. Ele não é qualquer um, contudo, e na sua calma estilosa pareceu-me irrecusável a ideia de o cumprimentar. Finalmente, digo eu.
- Então, Pedro (Abrunhosa)? Pedro Caius (se procurarem nalguns discos dele e em todos do Rui Veloso e dos Azeitonas, perceberão a razão de eu ter usado como apelido o nome do meu avô).
Ele ia a caminhar de costas para mim na estrada velha Porto-Espinho. De forma muito económica pede-me para sair da faixa de rodagem e estende-me a mão. Estou obviamente a pingar de suor. O diálogo que se segue é literal:
- Finalmente, arf arf arf arf, conhecemo arf arf - nos.
- Ena, vens aí a bombar....que percurso fazes?
- Bom, arf arf arf quando tenho de arf arf arf descer à praia, subo até Gulpilhares arf arf arf e depois faço a descida arf arf e subida do menino d'oiro. Mas normalmente subo aos Carvalhos e volto.
- Ah. Boa. Tenho falado muito com o teu irmão.
- É meu tio - digo eu -. Arf. E o Miguel é meu primo.
- Ah, vocês têm uma família enorme.
- Pois é. Seis irmãos e as gerações arf arf todas que se seguem.
 - Tenho falado com os dois.
- Pá, vi-te ontem no IPO, muito bom.
- Pois.
(silêncio breve arf arf)
- Pedro, segue lá o teu caminho. Gosto em conhecer-te.
- Idem. Xau!
Eu prossigo de bicicleta, mudo de terceira para quarta, ele passa-me um minuto depois no seu Mercedão cinzento que tantas vezes se me atravessa no caminho quando vou levar a descendência à escola.
Ao princípio da tarde de ontem, o Pedro Abrunhosa tinha-se sentado a um piano branco em frente à sala de cancro da mama do IPO do Porto. Mas no centro da banalidade do nosso encontro não foi isso que ficou. No entanto, e não vos sei explicar se é simplesmente por eu ser saloio, ficou-me um prazer especial por ter parado e cumprimentado o Abrunhosa. Também não sei explicar porque é que, de tantas vezes que me cruzara com ele antes, escolhi este momento. Talvez tenha ficado tocado ontem com o seu piano branco no lugar em que foi, talvez tenha ficado ainda mais tocado pela forma como ele saltou hoje por cima do assunto. E porque é que eu escolhi partilhar esta história banal em público? Aqui já tenho a certeza de que é mesmo por eu ser um incorrigível saloio. Mas podia dizer que era porque não me chegava passar toda a vida incógnito por alguém que admiro. Afinal, não cumprimento Abrunhosas todos os dias. Muito menos músicos brilhantes que vão ao piano branco do IPO.

PG-M 2012
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2012-10-28

Será um domingo épico (Paulas)

Mas imagina que não está livre.
Imagina que ainda não está livre por dentro.
Imagina só por um momento. Cria comigo a Paula. A Paula é uma executiva bonita que nos seus melhores dias arrasa no saia casaco azul marinho sempre sapatos de salto alto e meia de vidro e perfume e um traço subtil de rímel e sombra lilás. E sombra lilás. E sombra lilás. Sorriso vermelho. Dentes brancos. Dentes branquíssimos. Leveza. Pose. A Paula é livre? A Paula é livre e todos os domingos da Paula são sublimes. A Paula não é o tipo de pessoa que se agarra ao guardanapo do almoço para que a conversa que se esvai não se apague. Se esse tipo de pessoa se levanta da mesa é porque o domingo dobrou e amanhã é dia de trabalho e não há mais nada a reter da vida do que respiração. Suspender a respiração até que haja sábado. Ou pelo menos quinta-feira e o sábado apto a ser tocado. Já sabemos dos que nem esse tocam. Alguns nem o domingo. Mas não podemos aprisionar todos cá dentro. Será um domingo épico. O único problema que temos para resolver é o das pessoas que não são livres. Quer dizer, elas dizem que são livres, erguem as mãos e agarram um limão de liberdade que se vai descascando para a limonada dos outros, descascando e decompondo, descascando e decompondo, descascando e decompondo. Mas mesmo a Paula. Será a Paula mesmo livre? Olha como comecei a escrever isto e fui lapidando. Para ela será sempre um domingo épico. Volto atrás. Delapido. Delapido tudo na palavra muito. "Muito".

"A Paula é uma executiva muito bonita que nos seus melhores dias arrasa no saia casaco muito azul muito marinho sempre sapatos de salto muito alto e meia de muito vidro de muito perfume e estilhaços de rímel e sombra lilás desde o sorriso vermelho." Chega. Está bem, "muito" e "estilhaços", uma sombra como consequência de um sorriso. Subitamente a Paula é uma mulher destruída, hiperbólica, não é bem uma executiva bonita, é pivô num canal noticioso do cabo. Faz os dias úteis às oito da noite. Apesar de ser um canal de cabo, a Paula é vista por centenas de milhares. A Paula é muito bonita. Melhor: a Paula parece muito bonita. E, como qualquer pivô, provoca uma quantidade considerável de patologias nos que a vêem esfíngica e profissional e se aproximam dela no facebook para lhe partir a cerâmica do corpo e serem íntimos à força. O síndrome de Estocolmo: alguns cientistas loucos advogam que a austeridade faz do telespectador uma vítima às mãos do pivô e que a maioria dos espectadores devem acorrer a um especialista para se tratarem. Os sintomas são o amor. Se sente amor pelo pivô que lhe dá as más notícias, deve consultar um médico.
Tu e eu criámos a Paula porque não sabemos se lavar casas de banho é pior do que ser pivô (como é que se chamava a outra, a das casas de banho?), porquanto a Paula tem de parecer, essencialmente e a todas as horas úteis, imaculada. Perfeita. Não há pior do que se ir dobrando para o trabalho e ter de se parecer perfeito. Mas esta Paula "muito" Paula representa todos os presidiários de domingo. Que vamos agora libertar.

Chefes sádicos, colegas malévolos, paper cuts, traidores, agrafos, sonsos, três horas de transportes públicos, duas de pára-arranca, manhãs frias, clips, manhãs de chuva, prazos, relatórios impossíveis, falências, despedimentos colectivos, fracos, pequenos, nada. Nada.

Nada bate a dignidade com que a Paula se deposita nas mãos da maquilhadora e lhas agarra até que as  próprias lágrimas se expandam para dentro da almofada de blush e a façam inchar. A Paula quer estar no lugar da lavadora das casas de banho de um estádio de futebol abandonado numa manhã gelada de segunda-feira. A Paula sabe que ela não grita, só verga, mas ela gritaria. A lavadora das casas de banho (foge-nos o nome) queria estar no lugar da Paula e, se estivesse, não tocaria nas mãos da maquilhadora. Limitar-se-ia a sorrir pelo seu reinado breve. Não é impossível que o segredo de um domingo épico possa estar na nossa pele dentro da pele dos outros, como é ensinado por filosofias e religiões desde sempre. A velhinha que se cola à janela de uma casa pobre na parte pedonal da praia de Armação, em frente à pizzaria, e olha fixamente os que comem e os que passam, não tem dias. Não tem domingos. Nem segundas. Tem o tempo que não passa e a janela. Não é forçoso que a solidão a tolha. Nenhuma infelicidade é uma consequência necessária da aparência. Como nenhuma felicidade é uma consequência necessária da aparência.

A Paula beija agora as mãos da maquilhadora a quem nunca mostrara o sorriso.
Aspirará a coisas simples como ser velha contra uma janela numa casa pobre de uma praia no inverno a ver ninguém. Claro que as vizinhas gastam as soleiras das portas da vila. Ou isso ou o rímel estilhaça. Hoje talvez não, mas o próximo. O próximo, navegado à vista, será um domingo épico.

A maquilhadora pergunta à lavadora de casas de banho como se chama. Ela não lhe responde nem lhe toca nas mãos. Claro que tem o mesmo nome que não nos falhou na pivô que às primeiras horas de segunda-feira entrará numa casa de banho de um estádio de futebol vazio e gritará. Paula.

PG-M 2012

Lágrimas, Escritaria, Ais, Porto, Lágrimas, S.Bento

Pergunta o pai de Lobo Antunes à doente terminal:
"Como é que a senhora ainda consegue (continuar com a sua vida, normal)?"
Responde a senhora:
"A lágrimas e ais."
Lobo Antunes diz que é a mais bela definição de sofrimento que já ouviu.
Cada vez choro menos, hoje chorei duas vezes - a culpa será do teatro.
A primeira vez estava em Penafiel perante um dos mestres, António Lobo Antunes, ali, a meio metro, sentindo-lhe parabolicamente a respiração (como bem disse a Fátima Campos Ferreira numa das intervenções, e eu entremeei parábola) a que não devoto senão uma admiração crítica que se transforma amiúde em comoção, não sei porquê. Nem sei se ele se pôs, se é posto ou se é, mas está realmente muito alto, muito para lá do que é tangível, tanto que até eu, que não tenho vergonha na cara, nunca estive sequer perto de lhe dirigir a palavra - o Mário Crespo disse, também ali, que "mete medo entrevistá-lo", "mete medo lê-lo", eu digo que mete medo ponto final. Como é o aforismo que eu arranjei à força só para mim? Saramago desbravou-me o parágrafo, Lobo Antunes a página, Pessoa o sentido. É isso. Pois antes de fuçar em todo o Lobo Antunes eu não sabia resolver a página, é tão simples quanto isto. Já Saramago me ajudara a deslindar o parágrafo. Eu junto os dois, tenham paciência, e tenho uma raiva imensa que um tenha morrido antes que se desse a minha utopia de uma mesa literária onde ambos, ainda que friamente, se sentassem lado a lado para cumprir Portugal. Ontem era a minha quarta Escritaria e não é novidade que é um raro encontro literário porque se dá horizontalmente no meio de cubos de palavras do homenageado que são roubados da rua pelos transeuntes. Quer dizer, não é costume um roubo tão descarado como o que aconteceu ontem, mas rolou a bola de neve quanto uns começaram a ver os outros com cubos de palavras na mão. É melhor que os ladrões tenham em casa cubos de palavras em vez de nada. Em Penafiel vi Saramago, Agustina, Mia e agora Lobo Antunes. Muitas histórias, muita emoção, muito conhecimento, Veiga, Alzira Seixo, Blanco, Love, uma história pela boca do António para mostrar como é grande Eanes, terá ligado durante o cancro do António e explicado que ele não se podia dar a gostar para depois assustar assim os amigos, algo assim, e desligado sem sequer deixar o António responder. Dias melhores contados pela Isabel Coutinho, jornalista do Público, aqui. Mas o que eu começo mesmo a não esquecer são intervenções de grupos de teatro e a pensar como poderiam os escritores dar-se e dar à sua audiência momentos poderosos se pusessem as suas palavras na boca de actores, em vez de as porem em si próprios, as mais das vezes modorrentas e aborrecidas. Jeff Love foi notável na concisão e qualidade da sua intervenção (em inglês). A Professora Alzira Seixo e María Luísa Blanco notáveis pelos conhecimentos, não tanto pela concisão.
Mas quando entra o grupo de teatro com um protagonista vestido de médico a enfrentar o António do passado e diz sem apoio toda a famosa crónica de uma sala de espera de radioterapia, tudo passa a fazer sentido. A rapariga da almofada, o velho com a nódoa e a gravata invisível visível. Os actores concretizam as palavras, tornam-nas palpáveis - e pela primeira vez desde a leitura a sensação chega-nos pelo corpo de outro. A experiência é sempre poderosa. Chore-se então.

Depois veio a noite e "Porto S. Bento" do Nuno Cardoso no Carlos Alberto, no Porto. Não vou falar em detalhe da peça, a não ser no facto de que perdê-la lesa a alma do omissor e do outro facto, o de que o Nuno se vem tornando, a pouco e pouco, um dos grandes poetas portugueses (mais do que dramaturgo, mais do que encenador) do espaço. Para lá da forma como esse espaço, o cénico, nos entra na carne e do detalhe de cada momento e de cada personagem representado por actores ou não actores - em certo ponto perguntam ao espectador, olhos nos olhos, se precisa de colo -, para lá do serão inesquecível e do tanto Porto que a peça encerra (ou liberta) - comovente ver reflectida a própria beleza do ser(mos) tripeiro(s) -, para lá de tudo isso há aquele momento em que, pendendo uma dolorosa exposição de vida de um dos personagens, uma outra, uma mulher pouco eloquente até ali, começa a cantar uma ária com uma voz celeste que se me alojou, primeiramente, nas costelas, depois veio invertida escorrendo ou era eu a fazer o pino e a vê-la subir-me ao esterno e a entrar, inopinadamente, no coração. 
Chore-se então. Por todos nós. Copiosamente.

PG-M 2012



2012-10-26

Galeguinha


(letra de unha cançom sem música)

conheci unha galega
binha em gestos de cetim
e um bestido de jasmim
com um botom mesm´ó centro
e o mar todo por dentro.
 

tinha rochas de tristeza
que passabam no olhar
"e atopaban a beleza"
d’um sorriso a naufragar


nom me chores, Galeguinha,
traz a alma e o fole em pranto
canta encanto Galeguinha,
canta o meu país aos pés
na metade do que és
nunca ficarás sozinha
Galeguinha

e se nos olhos penedos
e no coraçom degredos
pinta as unhas de um berniz
que traz frases do passado

nom me chores, Galeguinha,
traz a alma e o fole em pranto
canta encanto Galeguinha,
canta o meu país aos pés
na metade do que és
nunca ficarás sozinha
Galeguinha



PG-M 2012
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2012-10-17

Porch (o modo americano)


Regresso ao amplo alpendre de madeira para fumar um narguilé ou uma cigarrilha ou qualquer coisa que um velho cowboy americano fumasse. O terreno perto da casa é seco. Há um pequeno bosque a separar-me da estrada. Os fumos são comestíveis. O da minha cigarrilha e o das árvores que o velho que eu sou tem a certeza de se moverem todas as noites de outono, de se encolherem todas as noites de inverno, de abrandarem na primavera e de pararem no verão. O fumo é o segredo do bosque. Fica entre copas. Com um sopro, levanto a tempestade. É fim de tarde e no interior da velha casa acende-se uma luz. A tinta branca estala sob os meus dedos. No meu modo americano não há mulheres visíveis, a não ser aquela luz da casa ao fim da tarde. Às vezes dedilho as duas cordas que restam na guitarra e lastimo uma canção do oeste com a voz côncava que o tabaco me devolveu. O canto fica distante da estrada onde vão parando amigos que não sabem que sou eu. Há lágrimas moucas. Identidade. O fumo comestível dissipa-se nos braços do arvoredo. O do meu charuto encobre-me a cara. Estrelas enfim. A luz no centro até depois do jantar. Ninguém sai da estrada. Ninguém vem. Antes de me deitar ainda volto ao alpendre para cheirar o tempo. Estendo os braços com a palma das mãos voltada para cima. O mundo pousa. A última passa nunca chega ao fim.

PG-M 2012

2012-10-07

Os anjos da asprela

Os anjos que eu conheço fumam, almoçam em tascas, bebem vinho, ouvem música alto e cheiram, têm sexo, às vezes connosco, e até são maus em partes desimportantes do dia. Mas quando toca a estarem presentes porque se te vai a vida - estão. Nos escassos momentos em que vivem as próprias existências podem ser copy-paste, mirrar para dentro de ecrãs e estar desatentos, dizer e tipo, até fumar umas ganzas e beber umas minis, mas quando toca a estarem presentes porque se te vai a vida - não só estão como transcendem o que lhes pedes. É até comum que, quando se lhes pergunta se viram uma ou outra coisa ou se sabem isto e aquilo, possam ser ignorantes como nós, mas tenho para mim que tal acontece porque nunca estão em si, mas em ti e nos outros como tu, porque quando se nos vai a vida não há tempo, ou, se há, as horas tomam desoras e é preciso quem ande lá por cima. É preciso quem voe. Hoje sabes muito bem. Sabes que são mais importantes os que te seguram a mão e ouvem - e, verdade seja dita, se os anjos da asprela fossem, além de bons, cultos - ou os que o são - e tu os conhecesses, morrerias de enlevo. E não do que eras para ter morrido e eles, com o seu sopro, cuidaram que se extinguisse como a chama das velas que agora espalhas pela casa em nome deles. Sabes que eu não gosto nada disso. Já bastam anjos que fumam.

PG-M 2012

2012-10-01

e de que cor ficam os choupos dos subúrbios quando chega a paz ao poeta da cidade?


(a Herta diz que os choupos são facas verdes, mas não descrevia um momento de abrandamento de um criador de palavras, as palavras que na terra dela pousavam sobre as pessoas; o abrandamento dá-se quando deixa de importar quem se é e o que se faz e o motor se transfere para a colheita dos outros e para a paz de os ir ouvindo - ainda que as páginas fiquem mais tempo vazias)

PG-M 2012
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