2011-03-29

Hoje é um dia feliz

Hoje é um dia feliz,
as nuvens cinza e a chuva
ocre,
Sayuri sorri quando a mãe lhe enfia o gorro,
na escola quer o tempo dos gritos
e à tarde
vê o pai no quarto três
e a enfermeira aperta-lhe o nariz
entre os nós dos dedos médio e indicador,
e anoitece em casa da avó
que lhe dá lágrimas secas
e pão a sair do forno
à noite a mãe uiva e o cão
lambe o antebraço
com que Sayuri protege a cara
e riem-se
os olhos da mãe, se chega
a cingir-lhe a roupa


Pois hoje, diz Sayuri
ao sol quase a nascer,
é um dia feliz


(Sayuri: pequeno lírio)
Pedro Guilherme-Moreira 2011
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2011-03-28

Stilografica

Republica-se, a pedido de muitas famílias:)

Stilografica

Io sono la stanza dove la parola sanguina
Io sono una rima sul letto
Io sono la frase dentro
l'armadio
E quando la cameriera viene
a pulire
Lancia poesie dalla finestra
E io torno a casa e vedo
versi
Sulle scarpe della gente


(Tradução: Caneta de tinta permanente/ Eu sou o quarto onde a palavra sangra/ Eu sou uma rima sobre a cama/ Eu sou a frase dentro do/ armário/ E quando a criada vem/ limpar/ Lança poemas pela janela/ E eu volto a casa e vejo/ Versos/ Nos sapatos das pessoas)

2011-03-27

Simpsons e o ringue do senhor da pedra

Estão intimamente ligados pela estupidez humana e pela vontade de fazerem de nós tolos.
Como sabem, Homer Simpson trabalha numa central nuclear, e vários canais de televisão, mundo fora, lembraram-se de censurar episódios dos Simpsons, cortando as partes "nucleares". Mais uma vez, alguém decide que o povinho não é suficientemente maduro para aguentar emocionalmente o embate de um programa que pode soar a humor negro (como se o humor negro fosse um crime) ou, pior, querem que nos esqueçamos por momentos da gravidade do acidente nuclear, como sempre quiseram que nos esquecêssemos de tudo o que era mau (é escondendo a perfídia - as imagens e provas de horror - que se consegue criar uma raça de súbditos incautos) e voltemos à nossa evasão, que é como quem diz, ao entretenimento que faz de nós pessoas acríticas.
Porque é despido de sentido crítico que se pode aceitar com naturalidade a segunda notícia: a câmara de Gaia resolveu desmantelar o polidesportivo do senhor da Pedra, ali mesmo em frente à capelinha sobre o mar, um verdadeiro serviço público usado por todo o tipo de pessoas, de papás com seus filhos bebés a adolescentes com os seus polegares e a adultos com a sua vontade de mostrar que nunca envelhecerão. E depois? Desmantelado o equipamento, os miúdos voltarão a exercitar o seu polegar nos telemóveis e a exacerbar o seu tédio nas esplanadas circundantes. Motivo avançado para o desmantelamento? O dito polidesportivo era invavido de madrugada por energúmenos que faziam barulho. O espaço está dotado de dois seguranças 24h por dia, mas estes explicaram que, depois de avisar o pessoal que invadia o espaço, nada mais podiam fazer que não chamar a polícia. Espanto: quando a polícia chegava, os relapsos já tinham ido embora. É para isso que serve a polícia, certo? E barulho pode fazer-se em todo o lado, e não se vai desmantelar todos os equipamentos e casas junto dos quais o barulho ocorre. Claro que só uma papalvo engoliria a dita explicação, e este caso só aparece aqui porque se aplica a este triste país: é que em volta do parque onde se insere o polidesportivo do senhor da Pedra mora (muita) gente importante. Oh, que surpresa. Gente que tem capacidade para mandar desmantelar, e por isso deitar ao lixo, as dezenas de milhares de euros (bem) gastos naquela espaço. Imagine-se se, por cada caso de polícia, se desmantelasse equipamento público. E deitar a estátua do Marquês abaixo para impedir festejos de campeonatos, que tal?
Agora o espaço ocupado pelo polidesportivo vai ser "reduzido" a espaço verde.
E se algum energúmeno se atreve a fazer barulho no dito espaço verde, o mais certo é que se desmantele o dito, cavando um abismo para o qual se possam atirar os cidadãos que se atrevam a incomodar quem pode.

Resistência

Nem por um momento eu consinto
que a tempestade me revogue


mesmo que na praia os detritos
batam uns nos outros e os amantes
se elevem por defeito


dos deuses que nos ventos
se diluem


o mar trocou de corpo com o céu
e nós na espuma
das nuvens

Pedro Guilherme-Moreira 2011


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A casa no topo do mundo

Lembras-te dos violinos
no campo?
E do chicote a rasgar
para o Caleb tocar


e o Elijah dançar?


Lembras-te das filas
a rir
para não chorar?
E da fome em Magadan?
E dos ossos em Dachau?
E do tremoço em Treblinka
com o som dentro das cascas?
Lembras-te da Villa
Grimaldi,
da dor do sono em Peniche

e do sol no Tarrafal?

Lembras-te do silêncio
em Guantánamo
e do circo em Abu Dhabi?
Lembras-te dos véus em Cabul,
das grutas em Tora Bora?
Lembras-te das Coreias,
de África, dos elefantes,
da travessia dos búfalos,
do mar de Bering, da neve,
da secura do deserto
das lágrimas em Darfur,
de um Setembro 
em Nova Iorque?
Lembras-te da nossa
casa,
de eu te acertar no focinho
quando te armaste em mulher?
Lembras-te do malmequer
que ofereci à alvorada
ao cortejo que passasse
à beleza que me amasse,
descansa que não é nada
o sangue e a face inchada
na tua ferida.
Lembra-te, querida,
do dia do casamento
vais de branco
sem lamento
não de luto
nem de luta
nem de puta.
Lembras-te? Tudo flui
no cone do teu sufoco,
meu estupor.


Ainda te queixas da vida?
Queres mais amor?


Os miúdos estão na rua
com cartazes
tu na sala
com tenazes,
Queimas os livros no pátio
logo pela manhã
quero essa jóia vendida


Está bem, querida?


Que mundo tão importante
Que sageza tão distante
e tu, armada em forte,
queixas-te da tua sorte


Mas achas que tens idade
de liberdade?


(e a mulher tomou para si
a arma do parapeito
e disparou sem demora
e a mulher
deu o mundo por desfeito
o mundo com ele ao centro
o mundo que cai de fora


para dentro
ao fundo
da casa no topo
do Mundo)

Pedro Guilherme-Moreira 2011

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2011-03-26

Um poema, merda, um poema (e 3 grandes minutos de televisão)

É um poema, merda, um poema! E três grandes minutos de televisão. O povo não aguenta isto? As audiências fogem?
Peço vinte segundos de poesia por dia no telejornal.
É muito?
Um poema, merda, um poema!

Fome ("The company men")

"Up in the air" foi o mais falados dos filmes que nos tentaram acordar, à pancada, para a realidade económica do mundo. Mas - e isto talvez seja muito pessoal - gostei muito mais deste "The company men". Não pelo Ben Affleck, que não é nada bom actor (nem cumpre especialmente bem), sim pelo regresso do nosso "quebra-costas" (Kevin Costner), sim - sempre - pelo Tommy Lee e sim pela miúda que nos faria a todos feliz, a muito desprezada e pouco falada Rosemarie DeWitt, e, principalmente, sim pelo argumento do John Wells. No fundo, sem exagerar no "achatamento"das personagens, tão comum no pouco ousado cinema americano de hoje, dá-nos a lição necessária. Extremamente útil para lidar com o psiquismo português dos anos 10 do século XXI, com o pânico economês e politquês, em suma, com a pequenez, passe a escusada rima. O que sabe bem neste filme é olhar de frente para as coisas, para nos determos apenas nas pessoas, ao contrário do que está em voga fazer hoje: exaltar as coisas como princípio e fim de tudo, esquecendo que é nas gentes que começa e acaba o mundo. É, pois, um filme essencial para os distraídos, os que vivem a vida a pensar que a coluna da bolsa é mais importante que a coluna vertebral.

2011-03-24

Solomon

Há quinze anos deixei de frequentar o café dos "Emigras", como nós lhe chamávamos.
Moro à beira da praia, e fugia dos cafés de areia, principalmente no Verão, quando a praia é o único lugar do mundo para os portugueses que não podem. Não fugia dos portugueses que não podem, apenas do desassossego que eles podem.
Ao tempo, eu e a minha namorada, hoje mulher, a mulher da minha vida, acarinhávamos a visão de um casal de velhinhos que nos parecia o nosso futuro. Ela pequenina, ele muito alto, cabelos brancos, totalmente brancos, ambos a rondar os noventa anos. Conduziam um carocha e a sua rotina corajosa inspirava-nos. Davam a mão, mas não ostensivamente, que os bons velhinhos conhecem a virtude da contenção. Eu e a mulher da minha vida decidimos ser assim, um dia, se o comandante nos deixar chegar longe.
Deixámos de frequentar o café quando as praias de Gaia se tornaram as melhores, e procurámos o nosso posto de observação do mar, mesmo com desassossego.
Não foram poucas as vezes que, nestes quinze anos, falámos deles. E prometemos ir ao café saber deles. Fomos adiando. Hoje desviei-me do caminho e fui lá. Quando abordei o dono do café, não estive com rodeios: lembra-se do casal de velhinhos...? "Lembro", disse ele, "era o Sr Guedes e a esposa. Já morreram há muitos anos! Moravam ali atrás..." Eu quis saber quem tinha ido primeiro. "Foi ele". E ela? "Ela foi pouco depois". Claro, pensei. Claro que foi. Saí triste. Queria ter-lhes dito o que aqui escrevi. Mesmo que passemos por loucos, serão as convenções sociais de pudor mais importantes do que a entrega de certos afectos? Quantos de nós verberariam, no fim da vida, um jovem casal que viesse ter connosco dizer-nos o quanto os inspirávamos? O certo é que não o fazemos. A minha tristeza nem vem daí: vem dos dias que ela passou sem ele. Cada um mais terrível do que o seguinte. 

Em Great Neck, subúrbio rico Nova Iorque, vive outro casal de velhinhos de noventa anos. Ele é tão alto como era o Sr Guedes, ela não é tão baixa como era a velhinha do Sr Guedes. São o Solomon e a Ida. Cruzei-me com eles quando cursava Direito em Coimbra, andariam eles pelos setenta, e ficámos amigos. Trocámos correspondência durante alguns anos, cartas escritas à mão. Ele, advogado como eu, mandou-me plantas fantásticas da cidade, que me foram levadas por um rapaz que mas há-de devolver. Depois licenciei-me, apareceu a internet, e deixámos de escrever. Há cerca de três anos, liguei para Nova Iorque cheio de medo (de que também eles tivessem partido), e atendeu-me a Ida. Não ouvia muito bem, mas foi o suficiente para dizer que estavam bem e me dar o email deles e me pedir desculpa por ter de desligar. Aos noventa, disse-me ela:
- My dear, we have to go and do some gymnastics.
Escrevi-lhes a dizer as saudades que sentia deles, e a perguntar se se importavam que usasse os seus nome e o lugar onde moravam como personagens de um livro meu. Não as suas vidas, mas apenas os nomes e o lugar, porque queria deixar-lhes esse mimo pela eternidade.
Nunca me responderam ao mail.
Hoje estarão a caminho dos noventa e cinco. Torno a ter medo, mas vou ligar de novo hoje à tarde. Antes de saber deles, a imortalidade está garantida: Solomon, Ida e Great Neck entram no livro e as letras não morrem. Podem passar a ter outra função, podem juntar-se noutro sentido, mas não morrem.

Pedro Guilherme-Moreira 2011

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PS: sempre liguei na tarde deste dia em que publiquei a crónica. De Nova Iorque, atende-me uma mulher:
- Is this Sololom and Ida's home?
- Who's this?
- Pedro, from Portugal. Remember me? I caled three years ago to see how you were doing...
- Yes, I remember.
- Is this Ida?
- Yes.
- You never answered my email...
- Sorry about that, Pedro.
- So, Solomon...
- We don't live here anymore.
- You don't...?
- He died.
- Oh, that's what I was afraid of...
- He died last year...
(sinto que ela está a chorar)
- I'm not available to talk.
(desliga)
Acima de tudo, a tristeza. Sempre tive medo deste momento. Trocámos cartas maravilhosas, eu e o Solomon, sobre a vida, sobre o Direito. Foi uma inspiração para mim, ainda como estudante. Passámos dez anos a escrever-nos. Este fica para mim como o dia da morte do Solomon. Era um homem bonito, de 1,90m, exerceu advocacia em Nova Iorque durante mais de sessenta anos. Mais uma vez a convicção: não devemos adiar os afectos. Talvez um dia ainda possa ler à Ida as palavras que lhes dediquei - aliás, estiveram para sair do livro, em revisão editorial, mas esta é a razão pela qual me agarrei a elas. Oh, Ida, my Ida. :((((  )

2011-03-22

Perspectiva

Vomito "crise", que é a pequena histórica politiqueira e acrítica histeria mediática. Em 1983 fomos pobres e felizes com a inflacção a 30%, juros a 25% e o FMI a entrar. Passeámos, fizemos praia, vimos o Verano Azul (e outras séries), eu dei uns beijitos, acampei, ouvi boa música, as carpintarias continuaram a fazer móveis e as gelatarias a vender gelados. Somos nós, que trabalhamos, não eles, a fazer o país, pessoal!
E penso nos meus pais, não em mim. De como não eram ricos e tocavam a vida para a frente, passeavam connosco, deixavam que jogássemos futebol na rua. E os nossos filhos não estão preocupados e deprimidos? Estão. Vá que eu, a partir das oito e dez, mal passam os títulos, mudo para a Fox e para a Sic Radical. Ao almoço, a formação política é feita com o American Dad. Tenho de o proteger.
Os líderes partidários agora reagem em directo e segundos depois, o que já nem política é. São palhaços no infantário. Os media acham que estes tipos são importantes e mostram-nos a toda a hora e todos ao mesmo tempo: basta ser líder partidário e treinador de futebol para tomar de assalto os noticiários da oito,
 O autismo político-mediático não tem sequer noção de que - aposto eu - daqui a 30 anos nada disto vai estar nos livros de história, e dificilmente será dado nas universidades. Eu acabei o curso em 1995 e ninguém falou de 1983 em Economia Política. Mesmo dada por um comunista. E falávamos do Jonathan Swift, o que escreveu o "Gulliver...", e da sua teoria do canibalismo de bebés e de como isso podia salvar a economia. Agora, estes merdas, estes donos de umbigos gigantescos, estes núncios que falam para se ouvir a si próprios não tenho nem devo ouvir, e devo dizer ao meu filho que deve ter raiva de quem ouve.:)
Não é mera teoria da conspiração: estive lá, vi, e não quero nada com essa gente. Estaria melhor em Wisteria Lane com o lar de violadores e criminosos que o Paul Young queria construir.
E depois, as semanas que andei nos corredores de terminais em Outubro, a morte do Ilídio no fim do mês, da avó Júlia em Novembro, do Carlos Pinto Coelho em Dezembro, reforçaram a minha ideia, não de que a vida tem outra perspectiva perante a dor e as mortes dolorosas, mas de que o meu país é feito desta boa gente, não da outra, e de que eu não posso perder tempo: tenho de os imitar, porque fica muito espaço sem três bons monstros numa pequena vidinha, como é a minha. Perder tempo com medíocres (se me disserem um que não é, pago um jantar)?
E então a geração de jovens que foi para a rua protestar, vivendo num dos mais pobres países do velho continente, consegue ser a que mais carros novos compra na Europa? O povo pergunta, claro, "onde é que está a crise"? 
Quem é do Porto sabe que nós, aqui no norte, já sentimos a crise há muito. Mas eis o grande exemplo: o empreendedorismo dos jovens revitalizou a baixa de uma forma brutal. E fomos nós. Nenhum comerciante da zona das "galerias", e quarteirões circundantes, se queixa. E nenhuma instituição esclorosada meteu o bedelho.
Sabem, numa perspectiva ampla e histórica, o que aconteceu aos países que sofreram a Grande Depressão nos anos vinte do século passado? Continuaram o seu percurso de crescimento. Confiram o vídeo em rodapé, por obséquio, e tirem mais algumas conclusões lúcidas, porque estar atento nem sequer é muito difícil.
E, para acabar esta ofensiva, vai um sorriso? Fecho com uma cena de "Yes Prime Minister", tão válida hoje como há vinte e cinco anos. 
Tal como "As Farpas", do Eça e do Ramalho, o "Yes Minister" e outras ofensivas intemporais, os merdas andam por aqui há séculos, e a substância da resiliência e da lucidez sempre foi a mesma. E está sempre actual, com uma excepção: os merdas agora monopolizam os ecrãs e não há espaço para a crítica criativa e inteligente. Resta-nos "Os Simpsons" e "American Dad".
"- It's up to you, Bernard. What do you want? (Sir Humphrey, chefe de gabinte do PM).
- I want to have a clear conscience. (Bernard, secretário particular do PM)
(pausa, e Sir Humphrey comenta, pausadamente e com ironia:)
- When did you acquire this taste for luxuries?





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2011-03-18

As putas dos anjos

As putas dos anjos

Um anjo não tem de ser
branco
doce
seminal

porque um anjo pode ter
um casaco lá de casa que só veste
pela véspera
ser de carne
vir do vento
trazer frio
e um lamento
ao chegar à nossa beira
e lágrimas ao nosso ombro
e rímel à nossa malha
e deixar a pele inteira
e não ser

(lamentavelmente)
(necessariamente)
belo

e um abraço, caralho,
um abraço pode dar
mesmo que à vigia acorram

os donos da alma pura
os feéricos convivas
ou jograis ou deputados, animais ou condenados, enfim tipos
que devoram

a candura,
mas que há


Há anjinhos e marmanjos a comer
os nosso anjos

Pedro Guilherme-Moreira
2011



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2011-03-15

O piano

O piano, que o avô deixara apodrecer na garagem depois do divórcio - e um tio dedicado recuperara e afinara -, ficava na sala mais distante da casa, e quando o pai ouvia o filho de onze anos através de sete paredes tudo lhe parecia perfeito, como se o menino, lá ao longe, fosse um velho pianista que lhe entrava em surdina, todos os dias, pela casa - e pela alma - dentro.

PG-M 2011

2011-03-14

Os populistas, os fundistas e os autênticos

Eu nunca tive o que quis e sempre fui precário: sou feliz e luto, só isso.
Uma massa de gente arrebatada quis forçar-me a mão para que registasse na minha agenda o dia 12 de Março de 2011 como um dia histórico, assim mesmo, por arrebatamento, sem qualquer hesitação. Registar a História no próprio dia é uma inovação da era da comunicação imediata em que não se espera por nada nem ninguém. Eu sou um tipo de arrebatamentos, sim, mas não cometo a insensatez de os impor a todo um país, ou até ao mundo. Os meus arrebatamentos são partilhados com amigos e "amigos", mais nada. Fico seriamente impressionado quando vejo na cara dos outros a vontade de nos correr à estalada se não lhes fazemos a vontade. Os olhares de lado quando querem aplaudir de pé e nós não nos levantamos. Não foi há muito tempo que vi um texto parvo sobre novas tecnologias e comunicação, lido numa certa conferência, ser aplaudido de pé. Para tal, basta escrever, e depois ler, algo como isto: "Com as tecnologias de hoje, já ninguém se olha nos olhos, já ninguém escreve uma carta." Explosão de aplausos. Isto é mediocridade. O contrário da entrevista do George Steiner à LER 100, que me arrebatou, sim, mas que eu contive nos meus domínios: e, reparem, nem sequer concordo com tudo, tal como não concordo com muitas coisas que escreveu o Harold Bloom sobre génio literário, porque quem me conhece sabe muito bem o que penso dos génios em literatura, sobre a forma como nos sentamos a olhar para ontem, de costas para esta mesma plateia do amanhã, sem lhes dar atenção (os mesmos que ontem aplaudiram os jovens que ignoraram a vida toda andam a citar Pessoa há cinco anos, ininterruptamente). No entanto, é imperioso que me renda à inteligência e cultura de personagens ímpares, grandes, como Steiner e Bloom. Concordar ou discordar não está em causa entre pessoas de boa fé. Uma boa ideia, bem exposta, inteligente, mesmo que oposta às nossas, é estimulante. Prefiro ouvir o resto da vida pessoas sábias dizendo sempre o oposto do que eu penso, a meninos armados em importantes e "cools" a desfiar clichés que, por acaso, estão de acordo com as minhas ideias. No caso das novas tecnologias e da comunicação, já entedia ouvir os popularuchos com este discurso estafado de que já nãos nos olhamos nos olhos. Claro que esse pode ser um problema, mas o que fazer ou não dos recursos depende das pessoas. Os que se deixam afogar pelas tecnologias são os mesmos, ou filhos deles, que se deixaram engolir por outros recursos alienantes no passado. Qualquer pessoa sensata sabe que tem de manter um permanente posicionamento crítico sobre tudo o que a vida lhe dá: manter-se atento e importar-se com os outros (já nem digo ser benevolente ou bondoso) e cumprir o desígnio da filosofia do século XXI, que já não é a "verdade" (que é tão impossível quanto a felicidade, mas cuja busca fará sempre o Homem), mas a "autenticidade".
Mencionei aí em cima o tédio, e aqui encaixa a citação que Steiner faz: LA BARBARIE PLUTÔT QUE L'ENNUI» - Théophile Gautier, na mesma "LER" 100, algo como "Antes a barbárie que o enfado." - não há nada mais perigoso para a civilização do que o tédio. E as novas gerações andam entediadas, pensam que não há nada para fazer quando estão de corpo nu, sem extensões tecnológicas nos dedos. Foram para a rua dizer coisas importantes, mas no dia seguinte voltaram às suas vidas. E a janela mediática fecha-se. Quem quer fazer o bem, normalmente, trabalha uma vida inteira sem procurar reconhecimento de mérito. Ontem ouvi, isso ouvi, os que realmente se esforçam e fazem, muitas vezes, o que não querem para sobreviver, dizer que também queriam o que se pede nas ruas. Nem toda a gente pode ter o que quer, mas deve lutar todos os dias por isso.Claro que o caminho  das mensagens simples e populistas, em vez da serenidade e humildade dos corredores de fundo, há-de sempre ser vencedor. Mas, quanto a mim, prefiro que se importem realmente comigo (e não que "finjam" que se importam - o que é fácil, nos dias que correm) e me mandem uma SMS com um poema escrito na hora do que um "LuvU pk es dfrnt d tdos" escrito numa carta com selo e envelope.

2011-03-12

"Vais ser melhor sozinho, pá" (apologia da mediocridade)

‎"(...) - Os eremitas têm uma certa razão: se tentas ser melhor, vai c'um caraças, isola-te num ermo, porque tentar ser melhor em sociedade e difundir o que se pensa vai provocar nos outros a ideia de que tentas ser melhor do que eles - e não importa se o és, efectivamente: os piores serão sempre muitos mais e trucidar-te-ão rapidamente. Vai ser melhor sozinho, pá. (...)"

OU

"(...) Saborear a mediocridade dá-nos a medida daqueles contra os quais lutamos, baixa-lhes a guarda, mas deve ser apenas um ponto de partida. Devemos ter o cuidado de não excluir da nossa vida o pensamento e, acima de tudo, a pluralidade e o bom senso. (...)"

PG-M 2011

2011-03-11

A moldura da essência (muito mais do que Rango ou o melhor western do ano ou o espírito do oeste)

Sim, todos sabemos que a maioria dos adultos que forem ver Rango o farão arrastados pelos seus filhos. Eu fui, e costumo estar atento ao cinema e, particularmente, à animação de excelência, mas não ia preparado para o que vi. Para já, não me lembro de muitos filmes de animação com duas horas, o que seguramente nos dá dez anos entre a ideia inicial e o resultado final (há informações dispersas sobre um argumento - que é mesmo muito bom, superiormente escrito - que terá demorado, só ele, cinco a ser escrito). O que se sabe é que é a primeira animação da Industrial Light and Magic (ILM), que nos habituou ao melhor (Star Wars, Indiana Jones, Schindler's List, Pirata das Caraíbas, Magnolia, etc, etc), e que tem Gore Verbinsky como realizador.
Em poucas palavras, e tudo o que vamos dizer não se refere à subclasse da animação, mas ao cinema em geral, é um grande, grande filme. Usando mais algumas, é um dos três melhores westerns dos últimos vinte anos (ao nível de Unforgiven). É provavelmente o melhor filme de animação por computador de todos os tempos, por mais que nos custe colocar Toy Story 3 em segundo lugar, e lembrando que "O Túmulo dos Pirilampos" é animação convencional (e não poderia estar em causa). Tem as melhores figuras humanas e os melhores cenários: até assusta o realismo da pele, as texturas das paisagens. A banda sonora é excelente. É o filme de animação que mais atenção e trabalho deu ao detalhe e à história. Só uma personagem é "plana", e mesmo assim fortíssima: Rattlesnake Jake. Todos os outros são uma delícia de singularidade. A sensação de abjecção que podemos ter ao visionar o trailer, por causa da grande diversidade de "bichos", perde-se logo ao início. Aquele camaleão somo nós, aquela lagarta é a nossa miúda, aquele presidente o nosso presidente, aquele coro trágico a nossa subitl e cómica ironia (o saber rir de si próprio), aqueles vilões os nossos vilões, aquela vila a nossa vila, aquela vida a nossa vida. E o trabalho da equipa de dobragem portuguesa é, uma vez mais, superlativo. A escolha de sotaques ou tons idiosincráticos um espéctáculo dentro de outro. Como nortenho, não posso deixar de sentir a alma quente pelos diálogos dos "maus" nortenhos ("o xerife é um gajo fixe, deu-nos uma autorização de prospeçomnhe; o quê, trouxesto o garrafomnhe? és muito toninho..."). É fino. Tem classe. Emociona. Faz vibrar tanto que a única crítica que lhe foi apontada, em todo o mundo, é não ser um filme para crianças. Pois não é, não. Mas não lhes faz mal nenhum ver um bom filme, até porque, como sempre, só um insuportável puritano pode ter problemas com a linguagem "gráfica": a cena do "filho daaaaaa" é de rir e chorar por mais. Os miúdos sabem as asneiras para não as dizer. A Nicklodeon estreia-se em força, a ILM vai levar o caminho da (ou superar a) Pixar, e nós deixamo-vos com o simbolismo de Rango, quando faz a moldura de si: aquele quadrado, a essência, fica-nos na alma, sai connosco e acompanha-nos. Já mencionei essa belíssima imagem meia-dúzia de vezes desde que vi o filme, há dois dias. O que pode querer isto dizer, num mundo vazio de referências?




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2011-03-10

Voleibol

Voleibol: a essência do meu desporto de sempre (adoro esta foto:), onde penei e parti pés e tive escassas glórias, mas que me emociona hoje, num corpo que já não pode tudo, mais do que nunca.

The lady is NOT L.A.

A senhora são duas senhoras: Elle Fanning, prestes a fazer 13 anos, e quem a filma, Sofia Copolla, mais crescidinha, bem longe do ridiculo da cena de nepotismo em que, sem jeitinho nenhum, dançava no Padrinho 3. Atrás das câmaras, Sofia é autora. Não me espanta que poucos gostem deste filme, "Somewhere", da mesma forma que não me espanta que muitos gozem com o génio de Manoel de Oliveira. À saída da sala Sofia era comparada persistentemente ao mestre português, que a Academia deve estar à espera de que faça 110 anos para premiar com um Óscar honorário. Mas Sofia começa desacelerando o espectador do ritmo da rua, e é assim que deve ser. Para mostrar a vida nula de uma estrela de hollywood é assim que deve ser. E depois filma a jovem Elle. Desde "Benjamin Button" que não chamo a Elle, nem a irmã mais nova da Dakota (agora com 17 anos), nem lhe destaco o estatuto de child actress. Ela vale por si e dá-nos dos mais belos momentos de cinema. Não é de 2011, ou da década de dez, ou do que quer que seja. É só "dos mais belos momentos de cinema". O filme é bom, muito bom. Basta apenas que se preparem para deixarem que a Sofia faça de vós cobaias do vazio. E depois digam-me se não sufocam, por momentos, na máscara. A máscara que é nossa.

2011-03-01

Em Março

Em Março, amo-te pelo que vem,
e digo que já não
chove, e nem frio
nem desgosto
te verá no promontório
com saudades dos verões.

Em Março, vem a ti
o horizonte, e eu amo-te
em perspectiva
porque me perco e aguardo
que o nosso amor sobreviva

Pedro Guilherme-Moreira
2011

A paragem do Inverno

Hoje o Inverno parou.
Não acabou, parou. Passam-se anos sem que isto aconteça. Hoje acontece. Há uma brisa morna de Sul, uma brisa muito suave que mal se sente. Se lhe deres as tuas costas, nada. O ar está quieto, respira-se maravilhosamente bem e não agride. Nada te agride. Não há frio nem calor, não está Sol nem noite. O céu está uniformemente nublado, sem matizes. É um só cinzento, um cinzento que não te deprime porque o Inverno parou. Não. Não lembra o Verão, sequer a Primavera ou o Outono, não há cheiros roubados a outras estações. Simplesmente parou.
É tão difícil assim conceber que os elementos possam suspender-se alguns minutos para que possamos alcançar um novo equilíbrio?
Não, nem sequer querias estar no conforto do teu Hotel de Belle Époque, aquecido nas galerias que se debruçam sobre o salão de baile, hoje sala de jantar, trabalhando na tua complexa recensão sob o brilho lúteo do lustre arte nova, já me disseste muita vezes que quando entras no teu Hotel queres que chova e faça frio lá fora, a mesma coisa que nas noites que antecedem as manhãs em que não tens de te levantar cedo, queres esse contraste para buscares a perfeição da protecção.
Para te sentires frágil sem disfarces ou defesas.
Não. O Inverno parou mesmo. Não é preciso abrigo ou plano de fuga. Este é o momento de sair à rua e começar de novo. Há três assim na vida. O nascimento, a morte.
As paragens do Inverno.

Pedro Guilherme-Moreira 2008