2011-02-28

Janelas

"Olhou para as janelas abertas e reparou que todas tinham o seu silêncio, e que ninguém se apoiava nas ombreiras para o convocar. Começou a fechar uma por uma. A última foi a do facebook. De olhos postos no chão, amaldiçoou o fim-de-semana intenso e a vida real que o fez abandonar os "amigos". Começou a bater às portas, mas ninguém atendeu."

PG-M 2011

2011-02-23

Correntes d'Escritas - dia 1 (20101, 12ª edição) - e ainda: revista, programa, participantes e revista


Olá a todos.
Para quem ainda não viu o programa e os participantes da 12ª Edição, de 2011, tem aqui o pdf. A resolução da imagem do programa não foi a ideal, mas é bastante para imprimir ou consultar.
Para quem ainda não viu a revista, ela aqui está, como foto, a ilustrar este artigo. Podem clicar sobre ela para melhor resolução. É uma peça que guardo religiosamente entre os meus livros, que é onde ela merece estar.

Finalmente, prosseguindo com o que foi feito o ano passado, descarrego aqui o resumo dos apontamentos publicados no facebook nos momentos em que estive presente (hoje foi só a sessão inaugural, da parte da manhã), com mais gente do que o usual nos últimos anos, o que é excelente.

Resumo:

Pelas 10:15h: "A quinze minutos de arrancar para o maior e mais inspirador evento literário nacional: a Póvoa e as Correntes recebem-nos com um sol literário:). Vou tentar dominar os superlativos. Stay tuned."

Pelas 11:45h: "Patrícia Reis anuncia que o prémio literário Casino da Póvoa é atribuído a Pedro Tamen, "Livro do Sapateiro" podem tomar contacto com o livro premiado e o autor, por exemplo, aqui

Pelas 11:55h: "Eduardo Lourenço reage ao papel de representante de todos os escritores nesta edição, que,segundo ele, lhe é inesperadamente atribuído (acordando-o da sua modorra sábia): "C'est trop!" e "Já tenho tanta difículdade em representar-me a mim mesmo, quanto mais os outros...:)"

Pelas 12h: "A belíssima homenageada Luísa DaCosta fala de pé e de forma segura, do alto dos seus 84 anos., e acha que poucos entendem a sua escrita e fala de uma burra poveira chamada "Andorinha":) - e do erro das "Mil e uma noites", em que o burro não tem nome:)"

Pelas 12:15h: "O presidente da câmara da Póvoa fala da solidão e do individualismo das redes sociais e eu vejo metade do público agarrado aos telemóveis."

E por hoje é, da minha parte, tudo. Amanhã há mais.

PS: Os participantes, com respectivos resumos biográficos, podem também ser visto aqui

2011-02-22

Os cães

Hoje sinto-me sozinho, sabes
como é?
Estás sobre a vegetação da duna que amanhã será nada
cortas a barba que volta a crescer ou borratas o rímel logo
pela manhã


Sabes como é?
Quando pensas que os amigos todos afinal são ninguém
e os amantes se diluem na bebida
e a nuca te vibra ferozmente
porque tu não choras e a derrota são os cães com as línguas de fora na praia
à chuva de Fevereiro e tu dentro do carro
com o limpa-pára-brisas desligado
a invejá-los


Sabes como é?
Tudo de bom no passado e ninguém por perto
amanhã
o corpo despedaçado e por fim o riso.


os cães ladram e nos seus territórios não há gatos,
mas nos gatos que não há


há ratos e o teu riso a dizer


já passou, e os cães
à chuva de Fevereiro nas suas infinitas e vazias
buscas


e o café, quanto é?


Pedro Guilherme-Moreira 2011

fonte da foto

2011-02-21

Kramer vs Michael vs o vazio do Homem

Nota prévia: não está aqui em causa a atitude lamentável do Michael Richards, mas apenas a forma como ninguém quer entender e todos querem linchar rapidamente. E como não há memória ou tolerância, mesmo com os intolerantes. E como se julga liminarmente tudo e todos. Ao minuto.


Este post é perturbante, ficam já avisados.

Pouco depois das oito e meia da noite estava, uma vez mais, perdido de riso, a ver a Sic Radical, agradecendo à providência tê-lo enviado assim (três mil visualizações no youtube):


Uma hora depois, quis saber o que era feito do actor, Michael Richards, e fui inundado por isto (quase um milhão de visualizações no youtube!):


Viram como acabou? "É por isso que nunca mais foste nada depois do Seinfeld."
Minutos depois, dei com as desculpas, tristes, sombrias, perturbantes, com Jerry Seinfeld a fazer de mãe:


Em 2010, perde uma estatística caseira: é mais odiado do que o próprio Howard Stern.



Em 2011, está aqui (nada parece ter mudado, e a Cindy, como se vem falando, está ainda melhor):



Um homem em decadência?
Talvez, mas muito antes disso estamos nós, meus caros: nós que somos uns filhos da puta uns para os outros.

Não duvido de que a maioria estaria na linha da frente para linchar o homem.
Argumentos, bons argumentos, haveria muitos, sim.
Mas os verdadeiros não se explicam aqui: estão na natureza humana, primeiro, e no carácter, depois.
Boa noite da vida.

2011-02-20

A bela em movimento

Não és igual a todo o mundo.
Não és a primeira que escolhe meticulosamente as fotografias que afixa no mural, mas és a primeira que, rimando com o melhor das mulheres, nos deixa sem voz quando em movimento.
Nunca vi ninguém que, não distraindo a média dos seres humanos em pose estática, fosse tão bela caminhando na rua ou movendo-se em filme.
E depois há a pureza desse sorriso, que nas fotografias não passa do consentimento da devassa, e na dinâmica das tuas poses imperfeitas faz de ti a mulher que o desejo não consegue reprimir. Em movimento, agregaste em ti as virtudes de todas as mulheres, e nenhum homem que se inteire da tua pessoa vai deixar de te pedir a mão. E este será um problema no reino das mulheres estáticas.
Serás, pois, conhecida pela bela em movimento

2011-02-19

O discurso do Colin e a tareia do Geoffrey (e um PS sobre o "Fighter")

Muito bem. Acabo de ver uma colecção de imagens do rei George VI de Inglaterra (já como rei e ainda como príncipe) - não poderia pronunciar-me sobre o desempenho de Colin Firth sem o fazer. Isto porquê? Porque seria um enorme erro reduzir o filme de Tom Hooper, "O Discurso do Rei", aos desempenhos. Mas é disso que aqui vamos falar, para esclarecer as coisas. Afinal, é a forma "contundente" como ele filma os seus actores, usando (e, na minha opinião, não abusando) do close-up com grandes angulares que nos atira Colin Firth e Goffrey Rush para o colo, que exalta as actuações. Posto isto, devo ser o primeiro a não ficar arrebatado com o desempenho do bondoso e inteligente e raro Colin - é bom, note-se, mas não arrebatador, e não deixa de ser algo histriónico. Poderiam rebater este argumento com a natureza do próprio filme, "suavemente" caricatural, se é possível conceber estes conceitos que adoçam o que é extremo ("algo" histriónico e "suavemente" caricatural) e dizer-me que, assim sendo, Colin está perfeito. Talvez, talvez. Mas não vamos por aí, se quisermos falar do merecimento do óscar que aí vem (seria das maiores surpresas dos últimos anos, se assim não fosse). Nunca me chocaram os óscares de carreira, as consagrações. Temos garantido, creio, e por tudo o que li do Colin, um grande discurso, um grande momento, e, até para acalmar a minha mulher (nós, homens, temos de lidar com este encantamento do Colin, e eu já só posso dizer, "mas eu ainda tenho mais 2 cm do que ele":)...de altura, seus malandros, de altura!), é mais do que justo dar o óscar ao Colin Firth. Mas, registem aí por obséquio, para mim é o papel dele em "A Single Man" ("Um homem singular" - crítica aqui) de Tom Ford, este sim, contido, complexo, quase perfeito, que o merece, e é nesse filme que vou pensar quando Colin subir ao palco do Kodak Theatre, não neste. Neste ele é bom, mas não tão bom. Quem é bom a sério é Geoffrey Rush, mais uma vez nomeado na categoria de secundário pelo papel de terapeuta da fala (e futuro amigo de uma vida) do príncipe/ rei, quando é, efectivamente, um actor principal, e que grande actor. Helena Bonham Carter também é uma fantástica Isabel, futura rainha-mãe (a mãe da actual soberana Isabel II).
E do filme, não se fala?
Fala. É um grande momento de cinema. Não liguem aos críticos que têm a cabeça mais cheia de tecnicalidades do que de emoção. É um grande filme, tem trabalhos quase exemplares na fotografia, na edição, no som, na edição de som, na direcção de actores, nos cenários, no guarda-roupa. Um filme que não tem nada de clássico. É, como se disse acima, "suavemente" caricatural, muitas vezes minimalista, com um apuro estético irrepreensível e uma composição de espaços e personagens dignos de figurar por muitos anos na nossa memória. E sai connosco da sala. É preciso dizer mais?
Sim, só mais uma coisa: o discurso histórico do rei gago, com as técnicas usadas para corrigir o defeito, as longas pausas e a forma como cada palavra parece uma vitória, tornou-o realmente majestoso e inspirador. É ver para crer.
Pedro Guilherme-Moreira 2011


PS: depois da escrita deste artigo, vi o desempenho de Christian Bale no "The fighter", e, de repente, estou preparado para um dos melhores combates dos últimos anos na categoria dos secundários (que são ambos principais, note-se). Não posso mentir: Bale é arrebatador. E Melissa Leo, meu senhores, que faz de mãe dos dois puglistas? O filme valia só por ela e Christian. E por causa de Melissa, dificilmente este é ano da nossa Amy Adams, que já vai merecendo o óscar e tem aqui o melhor papel da sua carreira. Mas com a Melissa a fazer sombra, muita sombra, não me parece.

2011-02-18

Cynicbook

Este não é um artigo sobre a maravilhosa dimensão cultural e mercantilista das redes sociais.
Este é um artigo sobre a ilusão da bondade - portanto, sobre os indivíduos.
Criticar estando fora é, quase sempre, um exercício de cinismo. Vêmo-lo amiúde.
Criticar estando dentro pode ser um exercício de egocentrismo ou narcisismo.
Mas eu quero olhar brevemente para o instrumento que uso desde que decidi que não basta ser escritor, tem de se parecer. O facebook serve-me para exercitar o poder de síntese e divulgar alguma da minha obra. Serve para assentar um padrão estético quanto à minha imagem pública. Mas o que nunca consegui fazer no facebook é ser diferente de mim quando intervenho. Também não consigo usá-lo como o lugar onde vou para não pensar, bem pelo contrário. A profundidade e os debates com qualidade são tão raros no facebook como na vida corrente, porque, basicamente, as intervenções dos utilizadores são do género "olha, estou aqui" (não me exlcuo) ou "olha como eu tenho bom gosto" ou "olha como eu sou inteligente e desprezo tudo em volta" ou "olha como eu sou bonito" e orientadas pelo conceito de tribo. Há muitas, e não as vou elencar.
Não sei se toda a gente sabe que a forma de aceder ao verdadeiro conhecimento já está há muito identificada com a assunção da própria ignorância (que deu nome a este blogue), com a consciência humilde das próprias limitações. Estar num "lugar" com uma postura insindicável é, no mínimo, perverso.
A maioria das pessoas partilha coisas que nem conhece, e quando entra num debate é para aplaudir ou vaiar.
A maioria, quando é contrariado, cala-se e começa a enviar mensagens privadas a cascar no dissidente, ou a avisar como conhece quem não conhece, sem se aperceber da maldade da liminaridade.
Raras vezes vi o exercício de, quando se tem as convicções em causa, saudar o contraponto pelo que nos faz aprender. E os que me fazem mais pena são os que, estando claramente fora do seu meio, da sua tribo, tentam a aceitação a todo o custo, e são, normalmente, objecto de um incomensurável desprezo.
É cansativo que pessoas aparentemente inteligentes nunca tenham meio-termo, e que confundam a (boa) capacidade de acolher a diversidade de ideias com relativismo moral. Ou gostam sempre de alguma coisa ou de alguém, ou não gostam de nada.
A maioria das figuras públicas, mesmo que pouco públicas, age como se fosse muito importante e muito pública. Larga o poio e nunca vem limpar o que fez: deixa a turba a esgadanhar-se por um momento de atenção e permanece em silêncio, usa e não se deixa usar.
E se, entre a maralha, os há obsessivos e chatos, são muito menos do que as almas atormentadas armadas em importantes.
Gosto muito de pessoas, e quase toda a gente que se comporta assim é...boa gente. Apenas se limitou a cair num cesto sem exercitar o seu sentido crítico. É no one-on-one, ou seja, nas conversas particulares ou diferidas (por email, por exemplo) que a maioria das pessoas efectivamente se revela, e, claro, com uma personalidade totalmente dissonante da que vendem em público. E o que é curioso é que são melhores em privado do que o que querem parecer em público.
Mas o que leva uma rede social gigantesca a assumir-se como Cynicbook é o medo da exposição e da autenticidade. E expor-se não é mostrar a imagem (sua e dos filhos e dos maridos e da privacidade aparente - e até confundem os que só têm fotografias de si próprios - é o meu caso - com egos inchados. Na verdade, eu prefiro quem, em termos de imagem, só se mostra a si próprio). Expor-se é expor o que realmente se pensa. A turba prefere manter-se à sombra de um jogo frívolo. Não se expor é perfeitamente legítmo. Expor apenas os outros, saudando e apoucando sistematicamente o que mais convém, nem tanto - qual a virtude do massacre aos espíritos frágeis ou da massagem aos pertinentes? Aprecio, nos tempos que correm, e cada vez mais, quem expõe as suas ideias e sabe debater, acolhendo as ideias dos outros e fazendo o esforço de uma síntese. Paz é isto.
A turba critica a guerra, mas só sabe fazer a paz aparente.
E o humor, o humor franco, que é a saída mais leve e digna para o supérfluo, quase não se vê.
O cinismo esse, reina sobre os murais.
E ser-se melhor pessoa virtual, já marchava, não?

PS: há excepções, claro, mas é quase matemático: 1 a 2% dos "amigos" serão verdadeiros amigos, pessoas realmente se importam consigo. E já é muito. E um dos grandes ganhos das redes sociais.

Livros marcados e a partitura


O volume da Recherche que anda comigo molhou-se com o temporal e foi desaguado entre os lençóis pelo corpo, por ser lento e natural, mas ficou marcado e eu não sei se gosto, por mais que me emocionem os livros marcados, com manchas de café e cores que evoluíram da original, e me arrepiem os livros intocados e lisos.

Resolvi voltar ao zero, quando, por voragem quilométrica, estava a meio desta empreitada, mas algo me perturbava nela: não, Proust não tem de ser só o que eu lhe tenho chamado: um aparelho de culturismo intelectual. Então voltei à página um, e em boa hora o fiz, porque estou a ler pela camada mais funda. Costumo ler na intermédia, porque o prazer da leitura também deve ter alguma leveza, mas nesta dos abismos tudo faz muito mais sentido. E então o prazer e o respeito pelo Marcel passou a ser total. Não gosto disso, pelo que me vou devotar a uma empreitada impossível da qual não quero, para já, dizer nada.

Mas agora olho todos os dias para a Recherche como uma partitura.

2011-02-17

A queda (Elephant)

"Aos que entre vós se despenham de amor, eu peço:


sejam gentis na queda"


(inspirado em "Elephant", de Rachael Yamagata:


"(...) for those of you falling in love, keep it kind, keep it good, keep it right.
Throw yourself in the midst of danger, but keep one eye open at night (...)"


fonte da foto


Ainda ele, no "princípio" de tudo

Man Ray estava em Paris em Novembro de 1822, quando Proust morreu.
Jean Cocteau pediu-lhe para fotografar o escritor no seu leito de morte. Era um hábito muito comum ao tempo, isto e a execução do máscara da morte num molde, que é pena ter-se perdido.
Olhar Proust aqui não tem nada de mórbido. Situa-nos e dá-nos ainda mais humildade.

Os despojos da tempestade

Entre vagas de temporal (que anda não partiu de vez), hoje foi possível retomar a corrida na praia e testemunhar sinais de que a natureza e nós não temos, decididamente, o mesmo tamanho. Ontem, os ventos ciclónicos sopraram do mar, em ciclos violentos de cerca de hora e meia em que, verdadeiramente, não houve bonança. Hoje vi dunas novas que ontem se formaram, rochas nunca aparecidas que ontem se descobriram, estradas forradas a areia, passadiços de madeira partidos ou afundados, placas de trânsito no chão e as gaivotas, que no verão, à minha passagem, voam sobre mim em círculos secantes ao mar, de forma meticulosa e pousando no lugar onde estavam antes, pareciam hoje pequenos e negros balões. Primeiro, mais agrupadas (quando pousadas na praia) e depois perdidas (depois de levantar voo), vogavam, umas tentando fazê-lo para o mar (sem o conseguir), outras deixando-se levar pelo noroeste para sudeste. Já ontem as pombas, que são da paz, estavam tão descontroladas que metia dó, empurradas dos ramos pelas rajadas de vento. É a guerra dos elementos, a que nos faz pequeninos. Mas a tempestade ainda volta. O mar está inclemente, em fúria, e não nos poupa esta noite. Como os guarda-chuvas não funcionam, mais vale usar humildade para sobreviver a isto. Tenham uma boa noite.

2011-02-16

O logro de Proust

Não é por fazermos anos no mesmo dia.
(Ele é precisamente 98 anos mais velho do que eu)
É por não haver nada se absoluto ou insofismável em Proust.
 Apesar de ter sido um rapaz doente, escreveu que se fartou, como só pode escrever que se farta quem parte da obsessão pelo enfoque de Bergson sobre os dados imediatos da consciência e da memória. Pudera. Henri Bergson era amigo, e safou-o do embaraço das primeiras traduções de Ruskin, as tais que levaram Proust a dizer: "Eu não sei inglês, sei Ruskin". E foi o próprio quem chamou à sua "Recherche" uma "catedral gótica". Se chamassem esse nome feio a algo meu, eu baixava os olhos com desconsolo. Mas, provavelmente, a sua era uma belíssima catedral gótica. Se não me engano (corrijam-me por favor), Proust foi profusamente "editado", inicialmente, por Charles Colin para a Grasset. Ele próprio diz, ao que li, ter corrigido as primeiras provas de tal forma que teve de colar papéis por cima das ditas. Portanto, houve trabalho de edição em 1912/1913. Houvera sido recusado em três editoras antes de Grasset o aceitar. Certamente emendou, cortou, depurou antes da aceitação de Grasset. E se Proust se apresentasse hoje a um editor qualificado? Careceriam os seus livros de um trabalho de edição? Estou em crer que sim. A verdade é que o editor dos últimos volumes da "Recherche" acabou por ser o próprio Proust, mas não Marcel. Foi o irmão e médico Robert, uma vez morto o escritor, e de quem Marcel, aparentemente, gostava muito (nas cartas, tratou-de "ó irmão mais querido que a claridade do dia" para cima). Não sei se fez um bom trabalho, nem se era menos psicótico, frágil, mimalho, ou igualmente brilhante.

O logro de Proust prende-se com a dimensão e profundidade da sua obra.
Como é, realmente, a "catedral gótica" que o autor anunciou, é preciso um esforço substancial para avançar na "Recherche". Ora, como é pouco frequente que os intelectuais não sejam mentirosos (todos somos), e a impaciência de estar qualificado para debater Proust é grande, a maioria lê, se tanto, cem páginas do primeiro volume, "Do lado de Swann", e todos falam dos dois episódios que se destacam nessa parte: o beijo da mãe e as madalenas. Mas era bom dizer, por uma vez, a verdade. E ir um bocado mais longe.
Os tempos superficiais que vivemos fazem-me temer que nunca mais seja feito um trabalho que eu reputaria de estimulante: que um bom editor profissional, necessariamente especializado em Proust, pegasse na "Recherche " e a editasse como se tivesse Marcel perante si, com um olhar inquisidor. Não é sequer uma sugestão. É uma ideia, um devaneio, um "what if" que nunca poderá estar a salvo, como é óbvio, dos que sacralizam o romancista francês, que eu sempre vi como um desafio, como um ginásio da memória e do intelecto, porque sempre desconfiei das sentenças erga omnes. Sobre Proust, digo quase sempre o mesmo -  não me dá prazer: dá-me rasgo.

Por isso, adoraria que um dia fosse feita uma edição da "Recherche" em que as digressões psicológicas mais exageradas - e ele tem algumas que roçam o ridículo (ridículo que ele, aliás, assumia e, em parte, representava) passassem a notas de rodapé, apêndices ou remissões, e nos fosse oferecido um "Em busca do tempo perdido" (é a este romance em sete volumes que me refiro quando escrevo "Recherche") depurado, como ele não era. Isso permitiria que muito mais gente entrasse por Proust adentro, e isso ele merecia, inclusive buscando e comparando essa "edição especial" (depurada) com as edições originais. Mas de edições de Proust, afinal, o que fomos tendo ao longo dos tempos foram "trabalhos" acríticos traduzidos de traduções e com cada vez menos qualidade, o que o superlativo trabalho de Pedro Tamen, em Portugal resolveu - na parte da qualidade, não da abordagem crítica.

Proust é, pois, um logro porque poucos lhe dedicam uma verdadeira atenção, poucos o questionam, poucos dialogam com ele. Talvez o homem frágil, sensível e inseguro que ele foi desejasse esta imortalidade, este unanimismo, mas os tempos não estão para que isso se mantenha. Se não temos novas abordagens já, Proust morrerá de vez, na cadência frívola dos nossos dias.

E, agora que encontrei novos motivos para o ler e reler (encontro sempre) - precisamente ele ter sido contemporâneo do meu bisavô escultor em Paris -  perderei um dos meus maiores divertimentos a cada dia 10 de Julho, o dia do nosso aniversário comum - o presente de aniversário que eu dou ao Marcel, e ele a mim: vinte páginas de "Recherche" em que nos rimos e discutimos (e eu normalmente o insulto de forma velada, e ele fica com aquela cara de mimalho a quem o mundo sempre há-de agredir com o seu desprezo: porque um coro de loas sempre foi sinal de um incomensurável desprezo).

2011-02-12

As tuas vísceras, cisne

It's all about you. O cisne negro. O cisne branco. És tu. Sejas escritor, bailarino, pintor, músico. O que for. És tu.
Quando se é artista, entende-se o conceito de "visceral" quase aprioristicamente. Trata-se da pulsão para a produção artística, aquilo que está cá dentro e tem de ter uma forma de expressão, e que, se transpirar pelos instrumentos de cada um no momento certo, é executado quase em transe. Ou mesmo em transe. Na escrita são palavras, frases, há quem se levante de noite para escrever sem notar que o faz, há quem esteja a escrever e adormeça e leia de manhã coisas que não se lembra de ter escrito. Há quem pense nas palavras e nas frases e não as escreva e as guarde apenas na memória, o que também é escrever. Um músico também. Um pintor também, mas as palavras são cores e traços e conjuntos. Na dança são movimentos, abordagens, atitudes, inspirações.
Em todas as formas de arte, contudo, há dois elementos que reputo de fundamentais: 

Um é a contenção, o mais importante de todos.
Mesmo quando o artista é bom, raramente o superlativo funciona. O superlativo é, quase sempre, má arte. Os maiores, ou seja, os que conseguem produzir obras superlativas, contêm-se e contêm-nas. Depuram-nas. O escritor corta os seus textos e reduz a frase ao necessário. O músico também. Ambos têm momentos extáticos, mas são passagens, momentos que eles deixam ficar ou libertam, não permanências.
Talvez aqui esteja o único erro de Darren Aronofsky. Já devem ter percebido que o mote desta crónica é o "Cisne Negro", o filme deste realizador protagonizado por Natalie Portman.
A partir de um certo momento, Aronofsky deixa-se tentar pelas suas referências máximas, Brian de Palma e Hitchcok. E faz um filme de terror, não estejamos com rodeios. Creio que nunca cai no mau gosto, e também fiquei convencido com Natalie. Como disse na altura sobre Marion Coltillard (como Edith Piaf, o papel que deu o primeiro - justíssimo - óscar de melhor actriz a uma francesa), actuações arrebatadoras e transcendentes (que estão ao alcance de poucos) têm de ser devidamente premiadas. Por mais que Annette Bening merecesse o prémio (pel'"Os miúdos estão bem") e o reconhecimento pela sua carreira, teve azar, porque Natalie está, no meu entender, perfeita. Não tinha de o estar tecnicamente, em termos de dança, e isso eu não saberia avaliar, tampouco é preciso, mas está perfeita no cadinho artístico que é um desempenho cinematográfico. Contida, sem nunca exagerar nem cair no simplismo de caracterizar uma boa muito boa ou uma má muito má. Mesmo a belíssima Mila Kunis apoia-a bem, está bem dirigida, e nunca funciona como o contraponto total. Há pontos de contacto entre ambas, desejo, aspiração, competição. Não é o diabo a assinar contrato com um anjo.

O segundo elemento é o comprometimento (ou a necessária imperfeição).
O comprometimento pode não ser, mas é muito, resultado da sábia gestão do instinto e dos instintos. Qualquer obra deve estar comprometida com o seu autor, e o autor com ela. Não ser anódina. Ser apaixonante, como ambos os cisnes o são, no final. Pode ser cerebral, mas nunca pode ser frígida.

Ora, a título muito pessoal, o filme não é propriamente sobre o lado bom e o lado mal, mas sobre, como foi dito no começo deste texto, o "visceral" da arte. Funcionou para mim como um refeição, há muito aguardada, de compreensão artística. Devorei o naco de entendimento da arte que Aronofsky trouxe para o público. É, por isso, também sobre mim. Vibrei ao ver no ecrã a mesma dor e o mesmo sofrimento que muitas vezes giro sozinho, ao escrever. Já muitas vezes ouvi comentadores dizer que abominam os artistas que se dizem sofredores ou falam de um dor intrínseca à produção artística. Ora, um tipo bem disposto e feliz não tem de dramatizar a questão, mas a verdade é que ela existe. Não, não é a solidão do criador, que com essa pode-se bem.
E o filme, nesse aspecto, sangra feridas, expõe as vísceras, faz vibrar, incomoda, é total.
E a melhor notícia é que consegue ser isso e vender e ser popular:
Em quase 70.000 (setenta mil) votos no IMDB.COM consegue uma estonteante média de 8.5 em 10. Média! Eu, claro, se tivesse de o classificar assim, daria um 9 bem dado, mas eu não gosto de notas ou estrelas. Sei apenas que Aronofsky e Portman, entre muitos outros, fizeram pela vida (Portman já se preparava há um ano sem receber um tostão, e a verdade é que se esteve perto de não haver dinheiro para fazer o filme: gastaram "apenas" 13 milhões de dólares, o que é notável para um filme americano) e vão ter todo o reconhecimento que é merecido.
E óscar para Portman, claro.



Trailer:

2011-02-11

O avô, as novelas e as moscas

O jantar de fim de ano da família alargada foi em casa do meu avô materno, um comerciante de tabaco de hábitos fleumáticos e tomado da doença das telenovelas brasileiras, muito comum nos anos oitenta, e cujos sintomas eram comuns a grande parte dos portugueses, parlamentares incluídos. Qualquer mosca que atravessasse o campo de visão de um desses tele-espectadores era comprovadamente suicida, mas, como o avô, dono e senhor de uma das maiores mansões e fortunas da cidade, não executava tarefas basilares como matar moscas, ordenava às sopeiras de serviço a sua eliminação, e depois gritava-lhes para estarem quietas e caladas, e era vê-las a desenvolver apuradas técnicas para matar moscas em absoluto silêncio, até ao dia em que um dos insectos caiu em cima da careca do meu avô, ressaltando para o colo e conspurcando a manta escocesa que lhe aquecia as pernas. Ele levantou-se rosnando explicadinho o nome da relapsa, soergueu as narinas (o verbo soerguer aplica-se, sim, dada a dimensão da protuberância), e ordenou
- Vai-te embora!!!,
tendo a minha avó acudido imediatamente ao concílio formado na cozinha à volta das lágrimas da rapariga, que já se estava a ver com a trouxa a embarcar no Vouguinha, e esclarecer
- Não é para ires embora desta maldita casa. Só não podes entrar naquela maldita sala. Pelo menos durante uma maldita semana.
Mas a coisa piorou. Nessa mesma noite, pedindo papel e lápis, decidiu o meu avô que à hora da telenovela a seguinte lista de indivíduos estava impedida de entrar na sala, a saber
      1. Moscas
      2. Empregadas Domésticas;
      3. Crianças com menos de treze anos;
        e qual não foi o meu espanto quando deixaram de se ver moscas na sala, não sei se por mor de um poderoso insecticida, cujo método de aplicação fora urdido às escondidas pelas empregadas e pela avó, se por puro medo, e só as crianças menores de treze anos violaram a regra, excitando as sobrancelhas do patriarca e ensinando-o a ser mais avô.

        Pedro Guilherme-Moreira 2009

O fim da infância

"(...) Foi numa dessas noites de Agosto que o meu habitual passeio pelos quarteirões próximos a fumar um cigarro partilhado com o nosso inseparável amigo me começou a decompor os encantos de menino.
As casas, as belas casas da alameda, apareceram pela primeira vez aos meus olhos como uma mera fachada cénica de realidades monstruosas a germinar por trás de um notável trabalho de carpintaria. Foi precisamente quando ia contar ao nosso inseparável amigo a minha inesperada paixão de Verão que a infância desabou.
Pedindo-lhe uma passa do Ducados que fazíamos render como se fosse produto proibido traficado por nós às oito da noite sob os candeeiros da alameda, quando os verdadeiros traficantes se dissimulavam nas dunas noite após noite,
- O maço já vai a meio.
- Por isso é que te peço passas.
- Mas não exageres.
- Tenho aqui uma merda para te contar, mas fica entre nós, tens de prometer.
- Ooh, foda-se...o que é agora?
- Tens de me prometer que não contas a ninguém.
E o amigo inseparável, com uma expressão estranhamente desconfiada que era mais um apelo desesperado do que uma defesa, um complexo sentimento de esperança entalado num trauma profundo que ela vivera algures numa rua esconsa da vizinhança, largou sobre mim:
- Não me vais dizer que és paneleiro, pois não?
Eu rugi uma gargalhada, que ele não reatou, e isso não era normal. Fiquei preocupado.
- Agora és tu que me vais dizer o que se passa. - exigi.
- Mas o que é que me ias contar, afinal?
- Não interessa. Uma paixão por uma gaja aí na praia. Não interessa! O que se passa, caralho? Que ideias são essas?

O inseparável amigo inclinou a cabeça, depois os olhos, para o chão, a sua consciência pairou sobre mim como uma nuvem cinzenta, e depois aquilo, uma coisa, não sei o quê, pareceu-me um rumor a descer a alameda pelos quintais das casas, era certamente a cortina a cair sobre o meu tempo de absoluta inocência.
- Sabes o carro que perseguia o teu irmão nas vindas da escola?
(o que eu marquei como uma presa e vigiei como um lobo dias a fio, até apanhar o gajo a tentar falar com um miúdo e ir atrás dele até desaparecer para sempre destes lados? )
- Sim, esse. Muito antes disso, tinha eu doze anos, ele parou junto ao cruzamento lá de cima para perguntar onde era a mercearia, eu tentei explicar mas ele pediu-me para entrar e mostrar, não se pode ir por esta rua?, perguntou, lembrei-me da viela que liga à alameda, sabes?, e disse que sim, mais ou menos, e ele desceu a rua larga, mas parou no ermo que lá há e começou a fazer-me festas nas pernas, a subir, e o resto imagina, se quiseres, a minha cabeça ficou confusa, pensei que ele me estava a fazer mimos como o pai de vez em quando fazia nas viagens longas, cheguei a pensar que ia dizer que era da família, depois ele mexeu-me ali e perguntou se podia ir mais longe, eu fiquei quieto, congelado...
Estávamos de pé, mas tivemos de nos sentar numa soleira. Eu embasbacado a praguejar baixinho, ele sem me conseguir enfrentar, dali via-se a saída da viela, a maldita viela, a cortina já tinha caído e as fachadas já eram cenários de madeira, a vila onde eu crescera, que era um todo etéreo, arrumado, belo, recanto pequeno-burguês à beira-mar, ruía perante os meus olhos naquele princípio de noite de Agosto, um que eu esperara igual a todos os outros. As regras ficaram suspensas e acabámos com o maço de Ducados noite dentro, eram cinco da manhã e a conversa ainda fluía, e ele perguntou, finalmente, para esquecer:
- Achas que sou paneleiro por ter gostado?
Dei-lhe uma resposta banal, sempre praguejando, como se faz para dar leveza às coisas, dei-lhe uma resposta banal e salguei-a com algum conhecimento que me viera dos livros onde buscara as manifestações homossexuais dos heterossexuais, para o inseparável amigo era obrigatório que tudo o que eu dissesse tivesse a aparência de alguma erudição, dei-lhe a resposta banal salgada por ideias dos livros e a consciência dele deixou de pairar sobre mim, e embora o caminho estivesse aberto para eu lhe falar da minha inesperada paixão de Verão, a ameaça da manhã alarmou-o e ele partiu para a casa em frente, onde morava.  (...)"
Pedro Guilherme-Moreira 2009

Summer 80

(...) Foi também por causa delas que esses Verões foram os mais felizes das nossas vidas, ainda longe das preocupações universitárias, com praias ocupáveis, semanas de trinta graus sem alertas amarelos e avisos de calor sufocante a abrir os telejornais, jogos de futebol na rua e pedófilos dissimulados, ciganos em barracas e pessoas por encaixotar, sem plantações de centros comerciais mas com três meses e meio de férias, a Discoteca às 14h na Rádio Comercial, a Sexy Girl do Glenn Frey, sapatilhas Sanjo a duas notas de mil, garrafas gordas de Laranjina C, manhãs de desenhos animados na RTP1, só dois canais e a TVE apanhada à sucapa e com péssima recepção, a maioria dos televisores a preto e branco e a corrida às Grundig Super Color sem comando, a bola de vólei debaixo do braço e a toalha ao ombro nas idas à praia sem voleibol de praia, massificação de redes e modas surfistas, os amigos queques de roupa branca e em bata branca as batatas fritas caseiras correndo as praias, o reino das bolas gigantes e dos cremes Nívea (sem bronzeadores para várias sensibilidades de pele a preços proibitivos), os jogos de vai-vem, os discos de plástico, o Bar-Sol e as queijadas, o Rei dos Frangos e o Silvinu's, o Iôdo e o Areal, os miúdos saindo de casa e descobrindo a rua e a vizinhança, as competições de bicicleta nos montículos dos desaterros, as aventuras nas casas em construção, as viagens de carro sem cinto de segurança, as horas vesperais sem ninguém nas dunas, o mar só para nós, os recados à loja, isso tudo e elas as três e dor nenhuma. (...)"
Pedro Guilherme-Moreira 2009

todas as simones do mundo



por trás daquela cara ainda surges toda tu
como és menina, como a pele
está por dizer, e tu sabes
que nada nos teus olhos
se nublou;
quando ao espelho p'la manhã te
relembras
e te juntas à máscara
e vês plano,
puro, liso, e afirmas o poder de cada
ruga, e enches
os lábios, e espalhas
o rouge, e soltas
a luz, sabes
que mesmo lá no alto,
quando o corpo acessório se curvar,
ou tu morreres,

ainda és menina e a pele está por dizer, e tu sabes
que nada nos teus olhos
se nublou

e em todos os lugares ficarás sempre
toda tu

Pedro Guilherme-Moreira 2011

2011-02-09

faceless book

Pedro Guilherme-Moreira é agora amigo de Vasco e de 5 outras pessoas. 200 pessoas gostam disto. 150 não querem saber. 100 abominam. 15 sentem-se ofendidas porque ele se arma em bom quando escreve no seu mural e em engraçadinho quando escreve no delas. 10 querem saber mesmo dele. Ganho incomensurável. 500 pessoas importantes para si próprias vigiam-lhe a sombra. Pedro Guilherme-Moreira é irrelevante. Tem seis amigos.


fonte da foto

O dia amargo de Pedro G mais ou menos a meio da vida

Há coisa de dois dias houve uma epidemia de sorrisos, e nessa manhã Pedro G pensou, como sempre inocentemente, que o mundo viera ao seu encontro e estava mais parecido com o que sonhara desde sempre.
As palavras que a seguir vão ler não versam apenas sobre Pedro G, mas sobre todas as pessoas que, como Pedro G, acreditam nas outras ao ponto de não as enganarem, mesmo que sejam enganados por elas.
Tem um ponto prévio, contudo:
não se defenderá aqui a verdade a qualquer custo. Não se diz ao gordo que é gordo, nem ao feio que é feio. Pessoas como Pedro G tentam perceber porque é que o gordo é gordo e tentam ver o que de belo o feio tem. Mas nunca lhes dizem essas primeiras aparentes verdades.

Pessoas como Pedro G, quando agredidos, e ainda que possam reagir de forma parecida com o mal que lhes foi feito, vão sempre compreender o agressor.
Não, Pedro G não é Jesus Cristo nem se quer fazer passar por profeta. Nem ele, nem as pessoas como ele. Pedro G é apenas um homem que acredita que a discussão desassombrada e franca com o seu igual faz avançar o mundo. Quando as pessoas como Pedro G se encontram umas com as outras têm sempre um momento de espanto, após alguns minutos, ou horas, de conversa: ninguém se agitou, ninguém apontou o dedo ou julgou liminarmente. Há uma discórdia concordante.

Pedro G nasceu e teve do seu pai uma urgência: ser um menino, não acima da média, mas melhor do que todos os outros.
Pedro G, à custa de muitas horas de massacre, sabia ler aos 4.
Curiosamente, na primeira classe, Pedro G ia tão acelerado que nunca se encontrou. Mandavam-no fazer contas de dividir e ele só queria ler as frases dos livros. Esteve para reprovar, mas com o favor do professor passou para a segunda classe e mudou de escola.
Aos sete, Pedro G encontrou uma das professoras da sua vida. Aprendeu a fazer contas de dividir no primeiro dia, e pagou à professora com uma fábula em que a transformava em formiga. Ela agradeceu acusando-o de ser escritor. Ele não gostou.
Pedro G passou a ser o melhor aluno da turma, alternando com o Rui A.
No ensino secundário, esteve sempre lá por cima, alternando com o José T e outros. Ganhou os primeiros jogos florais aos 11, empatado com Paulo R, entre rapazes de 16 e 17 anos. O Paulo R ganhou os segundos jogos florais, mas o Pedro G levou o segundo e o terceiro prémios. Depois o Paulo R foi para a universidade e o Pedro G ganhou os terceiros jogos florais, finalmente só. Sempre com poesia, que nunca abandonaria.

Aos 22, já na universidade de Coimbra e com um curso de que não gostava (queria ser advogado, mas não estudando daquela forma), decidiu que, embora andasse a escrever desde os 7, não tinha prosa valorosa. Ouviu de um escritor famoso uma sentença: ninguém deve publicar antes dos 40. E acatou.
Então, no fim do curso, ganhou ganas e viu a advocacia aparecer no horizonte. No último ano, subiu a média miserável em dois valores, entrou no estágio com tudo, terminou com nota máxima e um prémio monetário pela sua intervenção na área de novas tecnologias associadas ao Direito. Foi publicado nas revistas jurídicas de referência e foi co-autor de um livro jurídico, e isso orgulhou-o muito, porque sempre soube valer muito menos do que todos os nomes que apareciam nessas revistas e livros.
Pedro G resolveu então dar tudo de si para que nenhum colega ficasse diminuído por info-exclusão. Percorreu o país a expensas próprias, apoiando colegas gratuitamente, ajudou todos os que pode, construiu, abriu e manteve um dos primeiros sítios na internet com informação jurídica gratuita, portolegal.com, que manteve sozinho e sem qualquer lucro até ao momento em que decidiu escrever e publicar romances. À margem, dedicou-se sempre a causas: a protecção dos estagiários, o direito preventivo, o poder paternal e alienação parental.
Depois dedicou-se intensivamente à escrita e à intervenção cívica em vários sectores, dedicando um olhar especial à profissão de jornalista, que considera a mais importante (e complexa) do século XXI.

Durante toda a sua vida, os movimentos de Pedro G foram sempre os mesmos: aproximar-se das pessoas com o tal sorriso que inocentemente se tentou anteontem (quando muitos os que o promoveram são o contrário na sua própria vida, a não ser que o egoísmo extremo e o convencimento vazio da própria "importância" também faça sorrir) ou estendendo uma mão para ser apertada, sem amigos, cunhas ou influências, sempre procurando ajudar, comunicar, debater, identificar os sectores em que era preciso avançar, evoluir, melhorar. E, importante, sem nunca procurar protagonismo pessoal ou reconhecimento de mérito, o que se veio a revelar, sempre, um erro. Porque o "quem é este" é hoje uma pergunta poderosa. É-se alguém depois de se ser relativamente conhecido. A partir daí, ninguém questiona a hombridade. Mas, quando não se é padre católico apostólico romano (que só por si garante alguma credibilidade), fazem-no sempre a quem teve um percurso de vida que, embora exemplar e até parcialmente sindicável, não é público. Não se verifica nem se perde tempo. Julga-se depressinha.

E todos os movimentos da vida de Pedro G terminaram da mesma forma: como quem tenta fazer o melhor - e sempre com a máxima bondade (que não é incompatível com a paixão e a frontalidade) - não suporta que o magoem, que o tentem descredibilizar ou mesmo prejudicar, seja de que forma for, a decisão é sempre o afastamento sem mais ondas. Ainda recentemente Pedro G ouviu o mesmo numa conferência TED, de um ilustre orador, como são todos os oradores TED: "o nosso mundo é medíocre porque são os medíocres que ficam para o vilipêndio. Os bons viram costas mal são acossados, porque não estão para isso. Claro que devia haver uma certa resistência, mas quem no seu devido juízo fica a ser massacrado, quando pode ir fazer o bem noutro lado?"
Talvez não haja resistência, mas há resiliência, pensa Pedro G.
A resiliência não é contemporizar com a maldade. É outra coisa.

Os que se empenham genuinamente, seja em que campo for, fazem sombra aos que realmente querem o protagonismo (mesmo que estejam, inicialmente, bem-intencionados) e são sempre acusados de egos inchados, excesso de auto-confiança, paternalismo e vitimização. Estão sempre fora do seu lugar, da coutada que os agressores vedaram para si e para os seus.

Pedro G nunca se sentiu vítima de nada, precisamente porque o último movimento de cada etapa é sempre igual: compreender o agressor. E pugnar para que, no futuro, a comunicação seja feita de outra forma, para que o agressor não convoque os seus piores instintos.

No fim, há uma coisa chamada liberdade e uma mordaça.
Muitas vezes, não há outra solução para a paz:

Pedro G amordaça-se a si próprio e vive em paz e feliz no seu mais íntimo e ínfimo reduto.
Claro que não é isso que ele ou as pessoas como ele querem para o mundo, mas no topo de cada montanha o cansaço é extremo e é preciso ganhar fôlego para a gente boa que há-de aparecer nas outras encostas.

Pedro G

2011-02-07

Tenho finalmente 90 anos

(...) Tenho finalmente 90 anos e quero olhar para a mulher que passa, o que de algum modo me vedaram há coisa de vinte, quando fui despojado de todos os meus direitos cívicos, não pelo governo, mas pelo olhar dos meus iguais; tenho finalmente noventa anos e doravante serei visitado pelos que querem fumar um bocado de mim. Eu, que estava morto por eles. Acendo a cigarrilha e já não me batem. Filhos de uma puta. Agora é mais ou menos entre os setenta e cinco e os noventa: penduram-te na secção do refugo, desejam que morras, que vá depressa, coitadinho, que não sofra. Mas quando passas os noventa é uma festa. Passas a referência humana de uma aldeia de merda, e em breve do mundo, assim passes os 100. Mas eu ainda só tenho 90 e queria curtir este estado de liberdade absoluta. Filhos de uma puta. Já fui o galã na estação de comboios, e agora dói-me a cabeça só de olhar para os carris e os ouvidos só de ouvir os megafones da instalação sonora. Já fui o galã da estação de comboios, quando deixava a miúda suspensa no ar até tudo se desvanecer, as pessoas e as marcas de mais uma passagem, mais uma viagem. Agora olho azedo do alto dos meus noventa e estou cheio de cicuta. Filhos de uma puta. (...)"

Pedro Guilherme-Moreira

Fora de estrada

"(...) Primeiro estava serena sobre uma maca, com dois médicos esbracejando junto a ela, depois estava serena sob um lençol. De onde vêm este lençóis que cobrem os mortos?, perguntei eu ao Roger, e repeti a pergunta até casa, e ele nunca me respondeu. Soube-se que o carro se tinha despistado numa curva perigosa, que ela tinha falecido no local e o pai tinha saído apenas com ferimentos ligeiros que o deixaram alerta para sentir em carne viva (no funeral ele disse em sangue) a culpa e o maior sofrimento a que um homem pode estar exposto.
E eu?
Foram meses e milhares de porquês e mares de lágrimas.
Esta mulher da minha vida reencontro noutro plano da existência, mas neste livro acabou. (...)"

Pedro Guilherme-Moreira 2009