2010-06-25

A essência do São João do Porto

Este ano vou poupar nas palavras sobre o São João, porque pelo menos duas fotografias que de lá trouxe (sem estarem especialmente focadas ou tecnicamente perfeitas) captam a essência do meu Porto e do meu São João.
Dinamismo e sentimento é provavelmente tudo o que têm. Sei apenas que olho para elas e me reconheço.


Este ano o mar de gente banhou os lados das "galerias", esses lados que têm ressuscitado a noite do Porto de forma notável, por obra e graça das pessoas (e não das instituições públicas). Cedofeita, Carlos Alberto, Leões, Clérigos, Carmelitas, voltaram a ter gente. E depois das marteladas e dos sorrisos, da Ribeira para os Aliados e dos Aliados para a Ribeira, fomos ver o fogo ao sítio do costume, que é quase só nosso e de onde se vê assim, para as sombras menos claras das luzes desmaiadas da Sé, onde repousa o conforto do nosso olhar. Até para o ano.


2010-06-23

7 anos de Ignorância

Depois dos 7-0 de Portugal à Coreia do Norte no Mundial de Futebol de África do Sul e do próprio número nas costas daquele que muitos insistem em considerar o melhor do mundo, um tal de Ronaldo (eu acho é que aproveitamos no ar todas as oportunidades e mais algumas de nos iludirmos sobre o nosso papel no mundo), o 7 virou moda.

É por isso que este é o ano ideal para celebrar o sétimo aniversário da minha mascote: este pindérico blogue.
Tem obviamente crescido com o dono.
Comecei-o com trinta e poucos, idade em que começamos a ter a ilusão de que somos uns senhores (somos lá uns senhores!), e cruzei com ele a barreira dos quarenta, momento em que muito banana começa a praticar o desporto do "downhill" psicológico, sintoma que se agrava quando eu sou amigo desses energúmenos, porque é garantidinho que brinco com a decrepitude, fazendo-os ver como falta pouco para morrerem de velhice (é tudo uma questão de perspectiva; exemplo: ele faz 44 anos, agarrando-se com tudo o que pode ao comboio dos 40, e eu digo-lhe que só faltam 5 para a carruagem dos 50, o que é uma verdade matemática, mais do que lapaliciana, mas é certo e sabido que tal espécimen esperneará até lhe faltarem as forças, o que acontecerá logo que eu lhe comece a explicar como se perfaz um milénio, e, em não resultando, falo, claro, do Y2K - lembram-se do Y2K?).

E esse temor, esse medo que tende a transcender todos os limites, sempre teve a sua origem em problemas freudianos dentro do saco escrotal (é normal que haja sempre um maior do que o outro, mas é muito mau quando isso constitui um problema para alguém ou, pior do que isso, quando há saco mas não moradores. Deus nos livre de aturar gente dessa, que a há, de uma ponta à outra da nossa rua, da nossa aldeia, do nosso mundo - mais ou menos parafraseando a TSF).

Mas o que tem isto a ver com o blogue que abriu as hostilidades no dia 23 de Junho de 2003, véspera de São João, e que faz hoje 7 anos?

Nada.

Só a importância que não damos a nós próprios.
Para o provar, veja-se como estamos a usar o plural majestático, quando somos só um.
Com estes artifícios tecnológicos todos e um novo design (gostais?), o nosso limite é o céu.
Seremos, certamente ( e dentro de pouco tempo), o blogue mais lido da nossa casa.
Para já, a coluna do miúdo no "speaker's corner" cá do pátio é claramente mais concorrida.

Até lá, um grande São João!
E parabéns a nós, ora pois:).

PS: quem ainda não leu os "Skrotinhos" está condenado; mai nada!


2010-06-21

Um Porto bucólico pelas galerias




Saímos do centro da cidade no final da tarde de Sexta desalijando essa pressão que nos traz tensos.

Quando chega a hora de escolher a esplanada de Sábado onde vamos aproveitar o sol e os vinte graus, a maioria de nós escolhe lugares perto do mar, do rio ou do lago.

Esquecemo-nos muitas vezes de que a cidade de Sábado e Domingo não é a mesma. Não é útil nem barulhenta, está parada e deixa que os pequenos ruídos se distingam uns dos outros e façam eco nas praças.
Sábado junto ao Piolho um café lento, um pecado gourmet, revistas e jornais, dai a pouco também livros e antiguidades no mercado de Portobello, na Praça Carlos Alberto, onde andamos encantados com o passado e com o presente.

- Alguma vez imaginaste que os sacos Adidas de trolha iam virar moda?

Na Rua de Miguel Bombarda as galerias todas e as lojas alternativas, Há até um centro comercial alternativo.
"Galerias". É isso mesmo.
Esta é a palavra que resume a revolução cutural e comercial no Porto nos últimos cinco anos.
Tinha começado pelas galerias de arte da Rua de Miguel Bombarda, e depois foi injectada em jeito de sangue novo a partir da Rua das Galerias de Paris.
No presente, ir à noite "in" do Porto é ir às "galerias".
Sem um único dedo público (nacional ou local), a iniciativa privada tem ressuscitado um Porto que andava moribundo e que qualquer tripeiro sabia estar a desmaiar, para não dizer morrer, assim que 99% das empresas acharam que já não valia a pena fazer um esforço pela cidade invicta e popular, a que tem ar de ser perigosamente in, a que nos idos não deixava a nobreza dormir dentro de muros.
No mercado de Portobello reconfortam-nos as sebentas antigas e as cadernetas de cromos do Vickie, os lápis Viarco e os alfarrabistas, os vinis e o artesanato mesmo artesanal (há um massificado de fotocópia que roda aí nas feiras de artesanato massificadas de fotocópia).
Desce-se à Feira do Livro, que voltou aos Aliados (está melhor do que no Palácio, sim, mas pior do que na Rotunda:), o sol também pode perturbar, mas não nos queixemos, há uma droga boa que inebria e sai das páginas, quaisquer páginas, livros esquecidos com quem marcamos encontros milagrosos, como se estivessem à nossa espera desde sempre, e depois sai-se dali.

Domigo a pressão urbana está na linha de mar, não no coração da baixa. Não há estacionamento nem espaço  na areia, e se se encontra um lugarzinho numa espalanda, o tempo que se leva a ser servido é sempre desesperante.

Fuga para a cidade.
Há gaivotas na rua, trapézios de sol no empedrado, lojas e cafés abertos, ouvimos os nossos passos, sorrimos no prazer do vagar.
ali na freguesia da Sé, à Rua do Cimo de Vila,
há a emoção de passar à porta do lugar onde nascemos (e de a ele voltar, espécie de fado entretecido), e uma mulher encostada à porta de um bar duvidoso nos dizer, num sotaque tão largo quanto nosso,
- Bais c'um lanço!!!
Pois vou, vou.
O lanço de ir ao meu encontro, longe de tudo, no coração da cidade.

Esta minha cidade.


2010-06-19

A Shoe Case

Embora não faça sentido haver escribas oficiais para a grande capitã de sua alma, até porque não se anda na nau (alguns de outrora também não; escreviam só de ouvir dizer) que aproveita as monções para zarpar por todos os oceanos, se me sento a escrever é porque Miss Redshoes não tem assim tantas fotografias obturadas por pena.
E é precisamente o que isto é: humilde verbo fotográfico.
Hoje tive o privilégio de levar o meu olhar pelos "showcases" de Gaia e Matosinhos, e, por mais que me vá habituando a que Miss R seja uma surpresa a cada actuação, nunca tive muita fé nestas versões menores de espectáculo.
O "sound test" de Gaia começou logo por desarrumar estes pessimismos.
Porque soava bem, o que não é assim tão comum.
E tinha a Rita vestida como uma pessoa de carne e osso, o que ela decididamente não é.
Não a Miss R, com quem a própria Barbie tem ainda muito que sofrer nos treinos, até porque se vê nos olhos cheios de detalhe de Miss R que nenhum Ken lhe levará agum dia a palma.
Depois Rita atravessou a alcatifa, desapareceu na porta e voltou Miss.
Trouxe novos trejeitos e meneares sem dourados (mas com luzes e sombras - são sombras suaves e luzes candentes).
Está mais segura na voz, não aparenta timidez. Não porque a não tenha, mas porque as camadas em que se desdobra no palco a não permitem.
Diz menos "muito obrigado" e tem menos "senhores" na sua vida (partes da sua linguagem e do seu mimo).
É mais dona deste disco do que da era dourada.

E se a um primeiro olhar a reconhecemos, reconfortados por ter o nosso ídolo de volta, aos seguintes sabemos que quase tudo mudou.
"It's a shoe case", somebod says from the audience.
Os concertos da Miss R dão-nos memórias que tornam as canções irresistíveis, quando a elas regressamos.

Sabem das palavras, aquelas palavras que ouvimos nas canções dos outros, os ausentes, os distantes, os grandes, as palavras que parecem descrever a nossa vida, as nossas dores, as nossas promessas?
O que hoje caiu na minha máquina foram afinal espectros delas.
A fabricação da Rita Pereira está a crescer, a agigantar-se, mesmo que ela própria, no espelho dos camarins ausentes ou diminutos desta volta densa e intensa a Portugal para a apresentação de "Lights & Darks", não o veja.
A Rita Pereira é doce e acessível, toca e deixa-se tocar, risca e deixa riscar.
Mas a Miss Redshoes é de tal forma perfeita, etérea, radicalmente cromática (mesmo num preto e branco de Resnais ou num unívoco lilás de Sándor Márai), está de tal forma crescida, que hoje a minha fotografia escreve-se com a expressão que outros capitães da alma em navios negreiros desejavam ouvir:

carta de alforria

Miss R destacou-se sem matéria e já não pode ser tocada

Veja-se a geografia do corpo em concerto, o olhar, o sorriso e até a interpelação vaga de cada um de nós.
Está trabalhada em photoshop.
Tem de haver lágrimas ao separar a carne desta personagem magnífica.

In the end, it's only a Shoe Case.


2010-06-16

Três filmes, três mulheres

Deixei propositadamente passar o efeito de arrebatamento (no caso do cinema, será mais apropriado chamar-lhe "encantamento") com que saímos dos bons filmes, para vos poder dizer qual das três protagonistas dos três últimos filmes que vi vence o combate do tempo breve.
Passo a apresentá-las:


No canto vermelho está Tilda Swinton, 1,79m, ruivíssima, natural de Londres, Inglaterra (5 de Novembro de 1960), e vem a combate pelo papel de uma russa casada com um riquíssimo italiano (de quem obtém o "rebaptismo" de Emma Rechi) no filme "Io sono l'amore" (de Luca Guadagnino).


No canto azul está Rachel McAdams, também escorpião (17 de Novembro de 1978), a mais nova, a mais bonita e a mais baixa das três, natural de uma outra Londres (Ontário, Canadá), e vem a combate pelo seu papel de mulher que se casa com um homem que não controla a sua capacidade de viajar no tempo (um filme menos óbvio do que o próprio resumo da trama pode deixar crer).



No canto cor-de-rosa está Soledad Villamil, uma argentina de Buenos Aires (19 de Junho de 1969), pelo seu papel em "El secreto de sus Ojos" (óscar 2010 para o melhor filme estrangeiro, de Juan José Campanella, Argentina).

Io sono l'amore é, além de um grande filme, uma espécie de Ópera fílmica em que Tilda, que não tem uma beleza óbvia, está sublime. Tenho alguma dificuldade em simpatizar com Tilda Swinton, pelo que podem acreditar no que vos digo. A cena em que ela chega à casa de campo num vestido laranja é o verdadeiro exemplo da arte de um realizador e da arte da sua actriz. O vestido ouve-se a cada movimento, as costas descobertas entregam-nos o corpo. O trailer chega a mostrar um segundo, um breve segundo, dessa cena, mas o que mostra claramente é a majestade e elegância de Tilda. É quase injusto que tenha perdido o primeiro lugar.

"A mulher do viajante do tempo" é um filme cujas pontas, todas as pontas, são seguras pela belíssima e talentosa Rachel McAdams. Eric Bana é uma espécie de Liam Neeson com metade do talento. Rachel é e será sempre a girl next door que sempre namorámos à distância. Sabe ser de tal forma bela que desconcerta sempre. Emociona mesmo. O filme é bom e induz-nos  numa curiosa e inesperada reflexão sobre o tempo que vai para lá do título e do best seller que lhe serviu de base. É cinema. Somos postos em perspectiva. É importante ter referências espaciais e temporais, mas caso elas faltem temo-nos uns aos outros. Literalmente. Lamentavelmente, Rachel ganha apenas o bronze. Por causa de Soledad:).

Surpresa absoluta é o oscarizado "El secreto de sus Ojos", que trouxe (merecidamente) a glória da Academia de Hollywood à Argentina. O título lamechas e adocicado deve afugentar muito boa gente. Ia-me afugentando a mim. Puro engano. O argumento nunca cai no óbvio, a câmara de Campanella priva connosco e faz-nos pensar que não é por falta de meios que Portugal não consegue fazer cinema assim. Mas dá-nos, acima de tudo, essa superlativa Soledad Villamil, num papel que lhe valeu, aos 40 anos (e ela representa uma Procuradora que vai dos trinta e poucos aos cinquenta - excelente caracterização dos protagonistas) o Goya da actriz revelação. Campanella não tem pudor em levar-nos para cima de Soledad, e faz muito bem. Belíssima cantora de tango e grande actriz, Soledad foi a que se agigantou e venceu o combate do tempo.

Perder o espectáculo de Soledad no cinema é quase criminoso. Vão por mim. (Ei-lo:)

2010-06-09

O Lost não acabou (declaração fanática)


É assim: adiei, adiei, adiei, gravei os dois últimos episódios em HD, escolhi o momento para poder sorver cada minuto dos ditos. E para me despedir das personagens que conheço há seis anos. Na brincadeira, disse a todos que era para me despedir da Kate, mas é verdade que houve na série muitas mulheres deslumbrantes. Sim, porque, como se vê no último episódio, a Kate não fica lá muito bem de vestidinho justo e saltos altos. É a menos feminina de todas. Mas adiante, porque o que aqui me traz é coisa diversa. Pretendo apenas que fique registado, nestes primeiros dias de Junho de 2010, que ninguém me convence que o Lost acabou. Podem escrever. Não só porque o argumento ficou aberto, como é óbvio, não só porque o final pode ser só mais um delírio, mas porque os americanos, pura e simplesmente, não acabam nada assim. Acabam por exaustão, muitas vezes de repente e sem concluir a tarefa, mas, por mais que os não-fãs repitam sempre aqueles argumentos estafados do "não percebo nada" (querem perceber sem ver, os bacocos!), onde é que o Lost está exaurido?
Não está.
E se não o quiserem escrever, escrevo eu: A série vai continuar, provavelmente com duas a três temporadas de permeio (nunca antes de 2012, o tal ano do apocalipse:) ou então a equipa vai oferecer-nos "Lost - the movie" no cinema (era boooom!).
Não, não tenho informadores dentro de lado nenhum.
É pura dedução lógica sobre uma indústria que nos tem oferecido poucas surpresas.
Sim, "apesar" de Lost.
E apesar desta útlima temporada. Pouca imaginativa, às vezes mesmo de gosto duvidoso,  mesmo "cheesy" no final.
Mas, temei leitores que procuram nesta palavras conforto espiritual ou vingança dos fãs que  vos ignoraram sempre olimpicamente (e muito bem): eu também vos ignoro.

Porque, apesar de tudo, vi estes dois últimos episódios no velho estado de transe, desfrutei de cada segundo. Despedi-me de todos eles (caso não saibam, o meu favorito era o James, não só porque usa o meu perfume, mas porque tem o aspecto que eu achava que um dia podia ter tido:) quase em oração (private joke), e, sim senhor, gostei.

 Mas não acabou. (Am I in denial?)
No f... way! :)

2010-06-08

A epifania do pescador

Isto passou-se hoje de manhã, a meio da corrida, e debaixo de uma deliciosa chuva quente.
No percurso de regresso, em passando a capela do Senhor da Pedra, que repousa sobre o mar, e correndo eu à cota alta da praia, sobre a areia mas junto às dunas, vejo o vulto a esbracejar. Era um dos muitos pescadores que, todos os dias e todo o ano, enterram as suas canas na areia e passam os dias junto à rebentação.
Nos meus ouvidos tinha acabado de passar o "Creep", dos Radiohead, e tocava agora o "I must be saved", da Madeleine Peyroux. Percebi que era para mim, e desci até ao mar. O diálogo que se segue está fielmente reproduzido (vão perdoar-me, pois, o conteúdo mais gráfico, que contudo não lhe tira, antes lhe confere, beleza, autenticidade). E pensamos nós que só nos livros:).

Diz o pescador, tocando-me no ombro:

"- Era para lhe dizer que me dá uma força do c...!
 - Eu?
 - Você já corre aqui na areia há muito tempo?
 - Na areia, há cerca de um ano. Por aqui, há muitos. Porquê?
 - Ainda me lembro de o ver a mancar.
 - Sim, foi por isso que comecei na areia. Ligamentos fracos. Conselho médico.
 - E não me vê aqui, sempre?
 - Vejo os pescadores, mas não distingo ninguém. 
 - Ah...vê mal?
 - Sim, uso óculos, mas venho sem eles.
 - Isto é f..., não é?
 - O quê?
 - Correr na areia. E o menino vem devagarinho, mas nunca o vi parar.
 - É f..., mas faço-o por egoísmo.
 - Porquê, f...-se?
 - Porque depois disto, do sacrifício, das dores, do frio, sinto-me tão bem que poucas coisa me tocam    durante o dia. Não é fácil queixar-me de qualquer m...
 - Pois. Ficamos cheios de força, como o outro, não é...? Aquele grande e forte...
 - Golias? (ainda estou a lamentar o quão estúpido  fui ao sugerir este:)
 - Não, c...! Esse perdeu, f...-se! O outro....C...tenho lá o filme do meu miúdo...já sei aquilo de cor...
 - Hércules?
 - Esse, f...-se. Um gajo sente-se um "Herques".
  (não vou comentar o que fazem os desenhos animados pela cultura popular)
 - É.
 - Olhe, e porque é que só passa por aqui quando está de chuva?
 - Ah...venho de norte. Quando está mau tempo venho para sul, quando está bom vou para norte.
 - Faz primeiro a pior parte, não é?
 - É isso.
 Estende-me a mão granítica.
 - Olhe, obrigado, pá. Nos dias maus é duro estar aqui, e quando você me aparece parece um anjo que me dá força, c...!
 - Oh, obrigado.
 - Obrigado eu, f...-se. Ando para lhe dizer isto há um tempo do c..., mas um amigo que às vezes está aqui comigo diz-me sempre "estás doido...ele está-se a c... para ti".
 - Ah, não estou, não.
 - Sabe, f... a minha vida, f...o meu casamento...mas com esta m... (a pesca) não bebo.
 (os olhos humedecem, mas a expressão continua dura; o lábio não treme:)
 - Já não bebe?
 - Com esta m.... não.
 Instalou-se um silêncio, outro cumprimento, eu parti.

 Vou continuar a não distinguir os vultos, vou continuar a proceder como sempre.
 Quando me levantam um braço, aceno de volta.
 Às vezes, só muitos meses mais tarde sei quem foi.

 Nem sempre a vida é tão f... assim:).
 Tem destes momentos que devemos guardar, destas pessoas que devemos estimar.

2010-06-07

Sou um canalha

Estou cansado de fazer guerra santa pelos princípios, de combater a indiferença, de levar na cara dos filhos da puta que mordem e chateiam.

A armadura pesa, o Rocinante precisa de descanso, os olhos do Sancho andam marejados de desencanto, não há vento nos moinhos, afinal já escrevi livros e tive filhos, vou disfarçar-me de humilde plantador de árvores e descansar, porque já não consigo ser melhor do que os melhores,

e ser só isto pesa-me. Como armadura.

Sou um canalha para me distinguir dos que são mesmo bons, porque não amargam, porque estão sempre prontos a ajudar e a acolher a indelicadeza e a falta de reconhecimento com um sorriso de compreensão.

E começo a ter uma vontade enorme de ser egoísta.

De me preocupar comigo.

De dar comida ao ego que pensam que tenho e não tenho, porque se pareço almoçar presunção é porque ela me serve ao músculo que desenvolvi para proteger os fracos.

E fraco não sou.

Eles precisam, eu sei, hei-de voltar em silêncio.

Mas já me apresentei a mais de quinhentas pessoas na vida.

Agora quero calar-me um bocadinho e dormir a sesta à sombra da árvore

que vou plantar.

Estou cansado, a armadura pesa, o Rocinante precisa de descanso, os olhos do Sancho andam marejados de desencanto, não há vento nos moinhos, afinal já escrevi livros e tive filhos, vou disfarçar-me de humilde plantador de árvores e descansar, porque já não consigo ser melhor do que os melhores.

Sou um canalha.

I'm a Creep

(...) You're just like an angel
Your skin makes me cry
You float like a feather
In a beautiful world
I wish I was special
So very special
But I'm a creep (...)

I don't care if it hurts,
I wanna have control,
I wanna a perfect body,
I wanna a perfect soul (...)

--
PG-M - Pedro Guilherme-Moreira

2010-06-06

O maior concerto do mundo


Eu de "cool" não tenho nada.
Com efeito, só há pouco tempo me comecei a preocupar se estou bem ou mal. Um tipo de 1,93m que já foi atleta e chegou a ter 130kg defende-se sorrindo. O gordo ri, despreocupando e despreocupando-se. Assumindo-se como o bom monstro. Mas quando emagreci e comecei a caber em roupas engraçadas, comecei a perceber que nem só os fatos e gravatas de advogado tinham a prerrogativa de me dar gosto e personalidade. Nunca tive muita vontade de parecer bem, agora tenho mais, e como não tenho a mínima noção, pergunto, quero saber. Isso dificilmente pode ser considerado vaidade, mas, a sê-lo, é a que tenho. O que preservo - e quem me conhece, sabe que digo a verdade - é a minha forma de ser sensitiva, em ambiente real ou virtual. Preocupo-me. Olho. Vejo olhares. Toco. Vou deixando que me toquem. Quero saber. Não desligo.

Isto tudo para dizer que o que vale, para mim, são as pessoas. A sua felicidade, que tento partilhar, e o seu sofrimento, que tento aplacar. Por isso me atrevi a cantar, e por isso me atrevo a chamar-lhe concerto, em respeito aos companheiros de aventura e a quem assistiu ao vivo. Eram em número superior a alguns "concertos mais pequenos do mundo" promovidos por rádios. Por isso, sim. Concerto.

Hoje dei o meu primeiro, e provavelmente último, concerto.
E fi-lo como perfeito amador (o que sempre serei) e por amor a uma grande amiga, tão grande que a vida, tendo-nos unido profissionalmente, não houvera deixado nunca que eu estivesse presente nos momentos mais especiais da vida dela.
Hoje foi a primeira vez.
Correm por aí os vídeos de uma brincadeira gira que fiz com "Os Azeitonas", músicos profissionais e amigos a quem devo a memória que ficou de um certo 10 de Julho de 2009, nos Estúdios de Aldoar.
Na altura, deixaram que eu cantasse o "Anda Comigo Ver os Aviões" e o "Quem és tu, miúda?" (o grande sucesso da banda) com o Miguel AJ à guitarra (é um exímio executante e um grande compositor) e o Salsa na harmónica (é um músico completo e enorme). Ficou por gravar um dueto dos "Desenhos Animados", ao vivo com a Nena (a Azeitonette que canta divinamente:) - prometido para os próximos dez anos:).

Fui, pois, ao Golfe de Amarante cantar essas três músicas.
Cheguei uma hora mais cedo, para ensaiar as ditas com o meu companheiro de aventura, o João, que me acompanhou à guitarra.
Ajudámos o pessoal a montar a aparelhagem.
Colunas gigantes, ligações, mesa, pilhas para os microfones, fios e mais fios.

Quando arrancava a primeira música, os "(...) Aviões", o som falhou. Seguimos em frente, e tocámos sem amplificação. A voz e a guitarra não chegaram aos sítios mais remotos da sala. Não passou cor nem emoção, de cá para lá, ou de lá para cá.

Um milagre ressuscitou a maquinaria, o "Miúda" tentou animar as hostes, e duas amigas (uma delas a homenageada) subiram ao palco para cantar comigo os "Desenhos Animados" . 

Dois (ou ouvi três?) pedidos de "bis" permitiram o óbvio "encore" dos "(...) Aviões"), que da primeira vez cantara com mais nervos do que sentimento, e nisto, em que sou um perfeito amador, ou lhe dou com alma ou valho zero.

Estes "(...) Aviões" são, cada vez mais, a minha música, a de que sou feito, a que me permite, não ser "cool", mas ser sensitivo, tocar. Tentar tocar. Não me demitir do que me rodeia pela aparência. Importar-me com todos e com cada um dos que estão em volta.

Fica a cara dos que estiveram e dos que não estiveram, fica o esforço e empenhamento dos que executam a sua arte por esse país fora e a que muitas vezes não se dá o devido valor.

Hoje, em Amarante, esteve na assistência aquela que considero ser a segunda melhor pivot portuguesa, e que apresenta um dos principais jornais televisivos diários. Não importa quem era, mas importa o que não é notícia.

Nada nem ninguém neste concerto é ou será alguma dia notícia, apesar de alguns "eventos" cheios de nada o serem.

Mas quem actuou hoje em Amarante não vai esquecer o momento, e dele dará notícia aos que se seguem.

Na nossa pequenez, na humildade a que nos agarrámos com unhas e dentes, conscientes do pouco que podíamos fazer, o concerto foi grande. Mesmo que a aparência dele tenha sido a de um pequeno nada, a de uma vaidade de amadores cheios de orgulho despropositado.

Mas quando desmontávamos o material, obnubilados pelo tal orgulho de ter cumprido a função, sentíamos  dentro do peito ter sido o maior.

O maior concerto do mundo.

:))))

PS: para não repetir, claro, porque a consciência da pequenez sempre esteve presente:)

2010-06-01

Garrano

Que lábios são
que esmorecem?

Que boca morre?

Pareceu-me ver na sombra
da magnólia, depois no chão
o teu sorriso
fechado

dizes que não

e vens na luz
da manhã no vento sul
na chuva pelo teu pé

vens montada num garrano
tens um plano
um rumo de fim do mundo
um momento,
um segundo
um lamento
o choro que ocultarás
pelos campos de um olhar
mudo

como à sombra da magnólia
um sorriso
antes de tudo


PS: fonte da imagem

Ante-poema

Já perdi por duas vezes um poema
sobre um sorriso que esmoreceu.
Deixo aqui afixada
a ideia o convocar.
Lá onde estão os versos
tudo é vago.
Não sei se é no hipotálamo
se no hipoblasto. 
Não sei se é fora ou dentro.
Sei que o espero.


PS: fonte da imagem