2010-05-27

Rita Visceral


"O meu corpo é uma cela que me impede de dançar com aquele que amo. Mas ainda guardo a chave no pensamento. Permaneço num palco de medo e dúvida, lugar vazio, mas sei que aplaudirão sempre. O meu corpo é uma cela que me impede de dançar com aquele que amo, mas ele permanece junto a mim. Por agora. Vivo numa era em que se chama luz às trevas, e assim todas as palavras e assim todas as línguas, que vão mortas e moribundas, embora as suas formas e conceitos ainda me tenham enclausurada. Vivo numa era sem nome, e embora o medo me mantenha imóvel, quase transparente, o meu coração ainda se ouve.
Tomamos para nós tudo o que é dado a outros. E esquecemo-nos. Mas nenhum esquecimento é perdão.

Os meus gritos desfazem-se no vento quando corro noite dentro,
E quando chego já não está ninguém.
Ao longe, eles riem e dançam com aquele que amo, mas ainda sou eu que tenho a chave.
Do meu pensamento. Do meu espírito.
Liberta-o agora.
Liberta-me o espírito de vez."


A música, como qualquer arte, também pode (e deve) admitir um olhar às camadas mais profundas, talvez ao impulso fundador (quase impulso criador, no sentido em que quem ouve e/ou volta a cantar recria toda a mensagem, todas as frases, sejam palavras, notas musicais, silêncios).

Algures neste texto tentaremos perceber a essência do nosso aplauso através da Rita Redshoes.

Quem se habituou a ouvir a Rita naquele que é  seu registo habitual, e principalmente quem se dá ao trabalho de a ouvir atentamente, sabe que o que verdadeiramente nos prende a ela não é o regular (que só por si é suficiente para alimentar as massas e esses movimentos unânimes que por vezes se tornam um bocado assustadores para o próprio intérprete), mas o extraordinário.
Aparece a espaços nos concertos, e está contido nas versões de estúdio em pequenos traços. É muito difícil falar do inefável, e a própria Rita vai dando pistas que se transmutam em símbolos, pelo que prefiro cingir-me a momentos simbólicos em que tudo se despenha sobre nós.

Em texto anterior (Cinderella Redshoes), abordei esse momento único que foi a interpretação do "Blue bird on a sunny day" no concerto de Vila do Conde (música que não aparece em todos os concertos), perfeitamente irreproduzível, mesmo que tentem espreitá-lo em imagens ou sons. Ou estiveram lá, ou perderam a forma como a Rita se trouxe para o palco de uma forma absoluta, separando aqueles minutos do resto do concerto, como se estivesse no seu próprio espaço no momento da criação (musical), o sol a entrar pela janela e o pássaro azul. Foi quase assustador.

Hoje trago-vos outro desses momentos.
A entoação da Rita quando interpreta o "My body is a cage" (dos Arcade Fire) é também singular, porque o que ali sentimos é a Rita visceral, tentando unir significado e significante em cima do palco, num processo conceptual paralelo (a contrario sensu) ao que Sinatra usava para a dicção, para a aparência das palavras, e que a Rita usa para a inerência delas, para o sentimento, para o que está dentro.

A interpretação de "My body is a cage" é particularmente marcante, distinta de todas as outras (e nem todas o são; como sabem, e é isso que gera seguidores, há uma certa unidade na abordagem de um intérprete à música, que aliás lhe dá uma singularidade apriorística; o complexo é manter-se singular dentro da própria arte). A forma como a Rita ataca as palavras é contundente, não doce, e há finais de frases dolorosos (para ela e para nós, que a ouvimos), em uivo, como se fosse o toque a reunir da alcateia em que cada lobo é um ser diferente que coexiste no próprio corpo. Embora em registo muito diferente, este ideia foi recentemente abordada pela miúda Joss Stone, quando disse ter-se apercebido de que o seu "4 and 20" era uma auto-reflexão e não uma mensagem a alguém fora de si.

Ora, é muitas vezes esta forma visceral (de fazer nossa uma mensagem) que transforma algumas "covers", ainda que tecnicamente inferiores, em momentos superiores aos originais. E como esta Rita visceral parece querer dizer tudo o que canta nesse corpo que é uma cela, o que se ouve é isto:

"O meu corpo é uma cela que me impede de dançar com aquele que amo. Mas ainda guardo a chave no pensamento. Permaneço num palco de medo e dúvida, lugar vazio, mas sei que aplaudirão sempre. O meu corpo é uma cela que me impede de dançar com aquele que amo, mas ele permanece junto a mim. Por agora. Vivo numa era em que se chama luz às trevas, e assim todas as palavras e assim todas as línguas, que vão mortas e moribundas, embora as suas formas e conceitos ainda me tenham enclausurada. Vivo numa era sem nome, e embora o medo me mantenha imóvel, quase transparente, o meu coração ainda se ouve.
Tomamos para nós tudo o que é dado a outros. E esquecemo-nos. Mas nenhum esquecimento é perdão.

Os meus gritos desfazem-se no vento quando corro noite dentro,
E quando chego já não está ninguém.
Ao longe, eles riem e dançam com aquele que amo, mas ainda sou eu que tenho a chave.
Do meu pensamento. Do meu espírito.
Liberta-o agora.
Liberta-me o espírito de vez."

2010-05-18

Pessoa no Facebook

Fernando foi baptizado na Igreja dos Mártires, no Chiado, e há em mim uma certeza de que ela se martirizaria nas redes sociais, podendo, por ser este o mundo das ideias como ele as viveu, e há em mim uma dúvida de que ele tivesse tido o bom-senso de equilibrar o corpo nas mesas dos cafés, como sempre fez, e bem feito.
Se estivermos abertos a todas as mudanças e deixarmos que tudo o que é novo nos bombardeie, é nossa obrigação manter uma postura crítica sobre todos os impulsos.
Nas redes sociais ganhamos novos gostos e desgostos que soam ridículos e infantis àqueles que ainda habitam (em exclusivo) o mundo analógico.

Mas eu assumo esses gostos e desgostos virtuais com a mesma naturalidade dos gostos e desgostos reais, até porque, muitas vezes, os virtuais são mais reais e os reais mais virtuais.

Afinal, fala-se da mentira e da máscara desde tempos imemorais.
Que, diga-se de passagem, são essenciais à vida, logo abaixo do ar.

Nas redes sociais não gosto do "avatar" que está só para assistir, calado, sem se comprometer (seja a multidão ululante que o aplaude, seja a multidão calada que o ignora), nem do sentencioso que nunca olha para os lados ou para cima:).


O arrebatamento é bom, mas é fundamental que a paixão aconteça em perspectiva.


Nas redes sociais somos todos personas em encontros mediatos, apaixonados pela ideia que damos uns dos outros, mas isso não pode implicar que evitemos a rua e os relógios de corda e as dores que andar a pé e tocar na pedra das paredes dá nos músculos, 

e devemos calar-nos de vez em quando para, em vez de cedermos à soberba de parecer sempre melhor do que o próximo, pugnemos para que o próximo seja melhor do que nós.

Convém sempre o atonal Outono.

2010-05-15

The Andy Garcia (and Raymond) Show

A história é de uma simplicidade desarmante e simultaneamente envolvente e sensual, dá para rir e chorar e Andy, Andy Garcia aparece perfeito em cada fotograma. Um actor que, um pouco na linha de Robert De Niro, fez sempre bem, mas andava fazendo de forma estafada e cheia de maneirismos, aparece-nos aqui com aquele que considero o papel da sua vida.
Uma composição quase perfeita de um pai de família pouca ambicioso, que, parecendo um palerma, é afinal o elemento genial e espontâneo.
A estupidificação da distribuição cinematográfica - antes fosse da crítica, que bem precisados estamos de críticos menos eminentes, pessoas de carne e osso, que comam e andem e durmam como nós - e a forma como (não) se promovem as obras-primas não deixa que vos sejas explicado, fora dos circuitos dos blogues, como este filme é absolutamente imperdível.
Vai-se à espera de mais um filmezito do cinema independente, e leva-se com uma das melhores comédias das nossas vidas, um objecto que tem tudo lá dentro e ao qual parece não faltar nada. Luz, ambiente, actores, argumentista e realizador.

"City Island" (vencedor do Tribeca Audience Award), além de ser o nome deste filme sobre uma Nova Iorque luminosa dos subúrbios (nada há de disfuncional neste conjunto de "regular fucked-ups"), é também, e supreendentemente, o nome de uma aldeia piscatória tradicional do condado nova-iorquino do Bronx. Sim, esse mesmo Bronx.

Eu podia falar de um tal de Andrés Arturo García Menéndez, nascido em Havana, Cuba, no dia 12 de Abril de 1956, fugido do regime de Fidel para Miami, desconhecido no seu primeiro trampolim, o primeiro episódio da Balada de Hill Street, em que aparece como membro de um gangue, mas certamente adorado no que constituiu a ascenção definitiva à fama e à glória, "Os Intocáveis", de Brian de Palma, podia certamente falar-vos desse que vocês conhecem como Andy Garcia.
Mas não disse eu já que o homem estava perfeito neste fime? Não dei eu já conta do quanto fico ressentido com os críticos que não sabem dizer "Este é um filme a não perder." Que desde "O Feitiço do Tempo" ("Groundhog day", de Harold Ramis, com Bill MUrray e Andie McDowell) não via uma comédia tão sublime quanto esta?

Podia falar de tudo isso, mas vou falar apenas na figura do rapaz de 45 anos que é pianista profissional de jazz e compositor - como poderia ela ter mau gosto? - e também o argumentista e realizador deste filme, Raymond De Felitta. Precisarão as massas de o conhecer para que ele sejam bom, muito bom? Para que a delícia de "City Island" vingue? Não. Raymond foi nomeado para o Óscar da melhor curta metragem (por ) em 1990 (!). Não nasceu hoje. Se é difícil para o grande público considerar uma comédia uma obra-prima, então que experimente começar por aqui:

Sabem o filme perfeito para o final de uma semana de trabalho, onde se vai buscar tudo aquilo de que precisamos sem deixar o cérebro em casa?

É este.