2010-02-26

Ao Domingo















Ao Domingo,
amo-te do outro lado da casa,
fico à escuta de joelhos
sob a manta escocesa


Ao Domingo,
amo-te por seres uma certeza 






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Correntes d'Escritas - dia 2 (2010, 11ª edição)

10 menos dez: Depois da corrida, tomando café sobre a areia na minha oficina de escrita e prestes a arrancar para a Póvoa, para o 2o dia de correntes, ocorreu-me a ideia de que sou tipo de frases e não de palavras:). Para exemplificar, surgiu-me um poema, o 1o que não titularei, e cuja 1a frase é o exemplo disso:)



 Ao Domingo,/ amo-te do outro lado/ da casa,/ fico à escuta/ de joelhos sob a manta/ escocesa/ Ao Domingo,/ amo-te por seres uma certeza 

10 e um quarto: boas notícias: em Matosinhos saí de chuva torrencial e o céu ficou azul:). A caminho. Curioso. Tenho a ilusão de ir ter com uma família há muito perdida.

10 e meia: na Póvoa, para já, está sol. vamos ver se é de pouca dura;

11 menos pouco e a mesa ainda não começou; falta apenas o Zé Carlos Vasconcelos. Hoje o tema é "Pedra a pedra constrói-se a poesia". O pequeno-almoço no hotel dos escritores deve estar a saber bem:).

11 e pouco: Manuel Rui fala, curiosamente, da dinâmica das palavras, dizendo um belo poema em que as palavras se assumem como pedra

11 e vinte: Pedro Teixeira Neves:"o poeta é um pedreiro cujas pedras traz no peito"



11 e trinta: Maria Teresa Horta começa com um poema e uma coincidência, porque arranca onde Manuel Rui susteve: "pedra a pedra", "Musa a musa constrói-se a poesia/ Silhueta e silhueta"; os poetas não começaram a falar directamente connosco; deixam-se mediar pelos poemas.

Meio-dia menos vinte: Rosa Alice Branco fala de Vítor Hugo e de como ele considera as pedras como o primeiro alfabeto do homem, e diz-nos "a ditadura poluía as poucas palavras que nos deixava"

Meio-dia menos dez: Tiago Gomes pensava que o mote da mesa era de um livro da Agustina, e ninguém lhe diz de onde vem; Tiago tem um estilo lúdico e desprendido de quem não percebe nada do que se está a passar à sua volta :). Gosto disso. Nem sempre, mas hoje gosto, porque é contraponto. Não que o "ponto" esteja mau, bem pelo contrário.:).

Meio-dia: Eu próprio perguntei à mesa o que é feito da palavra "poetisa", já que todas as escritoras aqui presentes foram designadas por "poetas"; parece que terá começado a morrer com a identificação com escritoras menores, de "versinhos", e porque Sophia queria ser chamada poeta, mas Maria Teresa Horta diz que temos que recuperar as poetisas. Claro que temos.

Meio-dia e dez: Uma senhora da assistência denunciou a queima de livros de Eugénio de Andrade por certa editora, e Maria Teresa Horta que a Bertrand guilhotinou sem aviso 500 exemplares de "A paixão segundo Constança".

Meio-dia e meia: Pedro Guilherme-Moreira sente-se em casa, na Póvoa e nas Correntes, no meio de de tantas frases bonitas e, principalmente, de tanta gente sábia;

Três menos cinco da tarde: Tentei pela 3a vez um Risotto num restaurante italiano, e foi desta:). Com rúcula e mozarela ralado, e uma festa de sabores. Maravilhosas as mãos do Maurizio, um italiano genuíno da Catânia. Grande literatura nestas Correntes:). Quando encontro algo bom, não tenho vergonha de partilhar. Pizzeria Castelo,frente à fortaleza da Póvoa, 252626554,933372314,fecha 3a noite e Domingo almoço:).
Quinze e quinze: Começa 3a mesa sob o mote do verso de Alberto Caeiro "Passo e fico, como o universo", moderado por Carlos Vaz Marques;

Quinze e vinte e cinco: Fala Tânia Ganho sobre a forma como o livro faz parte do escritor, da forma como as críticas amadoras superam muitas vezes as profissionais, e de como uma leitora lhe confidenciou que deixou de se suicidar por ter lido o seu 1o livro, tendo transformado esse num dos momentos mais importantes da vida da própria Tânia.

Quinze e Trinta e cinco: João Tordo fala do sentido comercial ou erudito dos livros, do reflexo que tem nos leitores."A literatura é quase um resgate dos personagens à morte". Diz também: "Da minha própria literatura parte uma raiz, que é a raiz do mal"

Quatro menos um quarto da tarde: Isaac Rosa, madrileno, diz que o mote o leva ao poeta espanhol Antonio Machado. Um amigo disse-lhe que era claro que o tema era a internet (risos na sala). Quem sabe quem lerá os livros? "É uma pergunta de poetas, não de romancistas". Isente que certos autores não sabem que existimos como leitores.Isaac acha que a maioria dos romancistas não pensa nos seus leitores, e que quando lê sente que certos autores não sabem que existimos como leitores.

Quatro da tarde: Bernardo Carvalho, brasileiro, diz que não sabia do tema, e que o verso o irritou. Associar o poeta à natureza é terrível. Insiste que o tema tem a ver com internet, sim (mais risos). Bernardo acha que a atividade de escrita não é natural ou espontânea. literatura é resistência, singularidade, combate.

Quatro e cinco: "A família da minha mãe é do Rio de Janeiro, e eu tenho muita dificuldade em lidar com isso, principalmente com a minha mãe." Bernardo Carvalho vive em São Paulo, de que também não gosta particularmente, mas lá sente-se estrangeiro e gosta disso. Não sente conforto na volta ao lar.

Quatro e um quarto: Germano Almeida lê maravilhosamente, como quem fala. Pediu à Tânia para escrever um texto a meias, mas ela recusou, dizendo que já tinha o dela. Então pediu-lho, e ela voltou a recusar "com aquele sorriso que tem tanto de bonito como de egoísta" (risos). Para Germano, o fundamental é que os leitores se riam do que escreve.

Quatro e vinte: Germano também diz que toda a humanidade tem medo de passar, e nada marcar o universo. Diz que não acredita na vida depois da morte, mas marca encontro com todos, just in case:)

Quatro e meia: Tânia e Tordo dizem que é preciso convicção, independentemente do sucesso literário. Bernardo Carvalho e Germano Almeida dizem não ter conviccção nenhuma. E Bernardo parece mesmo naquele abatimento curioso de um brasileiro que chora rindo:). Ele diz que não tem sentido de humor, mas está farto de fazer rir. Agora uma sábia senhora fala de Caeiro. Bernardo diz que a ficção tem alma.

Cinco menos vinte e cinco: Um senhor da assistência alonga-se e defende a intervenção em vez da pergunta, com uma certa razão, porque uma das pechas das Correntes tem sido a efectiva hierarquização entre participantes e público, em contradição com o discurso oficial.

Cinco menos um quarto: A Tânia diz que cai mal dizer que se é escritor ao segundo ou terceiro livro, e isso quer dizer que eu me estatelo, porque depois de décadas a omiti-lo, percebi que tinha de o dizer, porque não contende com a vaidade, mas com a substância.

Cinco Menos dez: O Bernardo de Carvalho diz que tem dificuldade em encontrar-se com os leitores, porque os que gostam mais dos seus livros são loucos (gargalhadas).:)

Cinco menos cinco: Vou fechar as minhas intervenções por hoje, já que não vou estar na mesa seguinte. Esta foi claramente a melhor mesa, como eu já esperava. Não só graças ao Carlos Vaz Marques como à empatia previamente criada entre todos os participantes. Até mais logo:).

2010-02-25

Correntes d'Escritas - dia 1 (2010, 11ª edição)

Deixo aqui o resumo do primeiro dia, que passou em directo no facebook, devidamente revisto:

Onze menos tal: Pedro decidiu contar-vos hoje a aventura na correnteza literária da Póvoa, para onde ruma agora

Onze e pouco: Pedro chega junto ao mar das Caxinas, para seguir pela marginal, e pede à chuva que páre, ou terá de entrar no Casino com o "equipamento" todo:)

Onze e meia: Pedro está já sentado na terceira fila do Salão d'Ouro e sente uma leve harmonia literária no ar:). Carlos Vaz Marques anuncia que o vencedor do 7º Prémio literário Casino da Póvoa é "Myra", de Maria Velho da Costa (que é fantástico)

Meio-dia menos tal: valter hugo mãe discursa com humildade em representação de todos os escritores e fala da maravilha humana dos escritores, de Agustina, de como a Praia da Póvoa ficava em França, ou França na Póvoa:)

Meio-dia:  Inês Pedrosa sobe ao "púlpito para falar de Agustina. Disse que o parecer de um advogado é uma coisa importantíssima e o texto de um escritor nem por isso, no sentido de um ser pago e outro não, e está aqui um advogado e escritor que sabe que não é bem assim:). mas percebe-a bem:)

Meio-dia  e tal:  Inês fala agora da definição do ofício da escrita por Agustina: o "desiludir com mérito" que será o tema da 1a mesa de hoje.


- Meio-dia e meia:  falou com serena sabedoria Mónica Baldaque, filha de Agustina, que infelizmente está doente há três anos, mas hoje veio como luz para lá da "Ronda da Noite".

- Uma da tarde: Os escritores convidados (ou participantes) andam todos juntos de autocarro para cá e para lá (eu bem estranhei que o parque junto ao Casino estivesse vazio), e a verdade é que eu tinha lá dois ou três amigos que participam nisto pela primeira vez, e antecipávamos todos grandes tertúlias entre mesas, e a verdade é que público e escritores não participantes andam espalhados por cafés e restaurantes da Póvoa:).


 - Uma e tal: Dizia eu que acabou por ser útil raptarem-me os amigos escritores, porque assim pude dar entrada de dois requerimentos judiciais urgentes, entre a sopinha e o panado em pão, e estar mais descansadinho. E as funcionárias aqui do "take away" "Smile", junto ao Auditório Municipal, são uma simpatia. Já me sinto em casa:);

- Três menos cinco: A sra ministra chegou a horas, assim como o Zé Carlos Vasconcelos

- Três: "Caras PG-M": Isabel Alçada é muito mais bonita, muito mais jovem, muito mais afável, do que nos outros lados onde não a vi. Isto está à pinha. Preferi subir ao balcão, para não sufocar:)

- Três e tal:  são muito curiosos os olhares pendurados de quem sabe que se conhece por dentro, mas não por fora; a maioria destes escritores é doce e disponível, e busca, tal como diziam o Valter e a Inês hoje de manhã, irmanar aqui, por uma vez, a solidão da escrita:). Fala a Isabel Alçada.

- Quatro e tal:  Isabel Alçada conta a interessante história do desvio da rainha Dª Maria (com 10 anos) de Gibraltar para Inglaterra, onde Almeida Garrett era adido e escreveu escrito "Da educação", onde aconselha livros de História para crianças, e não fábulas, porque não se deve mentir às crianças:)

- Cinco mentos tal: Isabel Coutinho, do Público, equilibra o seu portátil num cantinho ao fundo da plateia;


- Cinco e tal:  fala Eduardo Pitta, "a frase (de Agustina, "escrevo para desiludir com mérito") não é tão disparatada como parece", numa mesa moderada por Catherine Dumas;

- Seis menos tal: fala agora Fernando J.B. Martinho, com sabedoria que não posso igualar e uma humildade que invejo (como gostava de parecê-lo, e não apenas sê-lo:), no melhor dos sentidos:).


- Seis: fala agora Moita Flores, na sua voz quente, contando que o pai comprava perservativos na farmácia piscando o olho ao farmacêutico, e que os guardava junto aos livros proibidos, que foram os primeiros que o jovem Francisco leu:). E soube-lhe mal.


- Seis e tal: estou a ver ali na mesa umas carinhas de superioridade intelectual perante as palavras doces de Moita Flores, e estou a lembrar-me de como há pessoas que sabem comunicar tão bem, que apetece ficar a ouvi-las, mesmo que não digam muito de novo. Mas às vezes precisamos disto, e a mim soube-me muito bem.


- Seis e Meia: bonitas palavras da poeta (a palavra "poetisa" morreu mesmo, é?) Gilda Nunes Barata. Mas ouvir discursos desde manhã faz-me ter uma certeza: Mais vale palavras mais pobres ditas, do que um texto brilhante lido. O de Gilda está excelente, mas para ler.


- Sete menos tal:  Zuenir Ventura. Como é fantástico o português com sotaque brasileiro:). Não há tédio possível:). Diz que não gosta de escrever, mas de ter escrito, e que o faz para desiludir com demérito. Também conta que foi arquivista de um jornal, ou seja, que era uma espécie de Google lento. Também diz que começou porque a mulher (aqui presente) mandou. Uma delícia!


- Sete da tarde: Despeço-me com amizade (quem dizia isto, quem era?) deste primeiro dia de Correntes d'Escritas (estou farto de matraquear no telemóvel:), que foi fantástico (é sempre:). Quem quiser, pode seguir as impressões do dia no meu perfil:). Até amanhã.

Balanço do 1º dia: a fragilidade no olhar de cada um de nós. Afinal, nada sabemos, e os escritores são tanto melhores quanto mais rapidamente o assumem. De resto, contemos em nós todos os sonhos do mundo:).

2010-02-23

ou primavera


amanhã de manhã abro a janela
e tudo

é de pólens e de risos
ocres
é de cocos e  toalhas
mornas
é de corpos e gelados
breves

e é de mim ou primavera
sempre



dá-me um VERÃO torrencial








havemos de estiar as lãs que arderam

à chuva
vestir os corpos como se
fôssemos verão
morder invernos no cerco
das mãos
e longe da cama na boca
um do outro
suar os arcos das costas
e rir até de manhã
sob o atrito solar
sobre a praia terminal

beija-me a pele pelo leste
dá-me um verão torrencial



pedro guilherme-moreira
2010-02-23

2010-02-20

Singular

Cada vez me aborrece mais que a verdadeira arte seja dividida em straight e gay, e não acho lá grande piada que Tom Ford, o realizador da obra de arte que é "A Single Man" ("Um Homem Singular"), tenha ganho apenas um Queer Lion em Veneza.
Eu, que tenho o meu quê de homofóbico mas nada de primário nesse campo, saí deste filme arrebatado.

Até com os portentos femininos abafados (Julianne Moore está propositadamente abjecta, e Ginnifer Goodwin uma roliça mãe de família), e com a beleza masculina exaltada, eu, que gosto acima de tudo do grande cinema, fui capaz de saborear cada pedacinho de imagem, e é isso mesmo que Tom Ford nos atira:
meticulosos e suculentos planos superiormente fotografados por Eduard Grau para derreter na boca (do olhar).
Não posso deixar de destacar, não a cena final (que me parece a única pecha do filme, que devia findar na penúltima cena), mas a anterior, em que Tom Ford nos consegue dar a exacta medida da alma da personagem de Colin Firth.
É de uma beleza estonteante! Bendito Tom Ford, que foi convenientemente esquecido nas nomeações para os Óscares, e eu duvido que haja filme melhor realizado (em 2009) do que este "Um Homem Singular".

E Colin Firth, que durante alguns anos foi uma grande ameaça à minha sociedade conjugal, dados os suspiros da princesa cá de casa, e que se afastou dessa imagem de galã depois de muitos quilos aditados, perdeu-os agora todos e, embora interprete, e seja, um homem maduro (afinal, já tem 50 anos), está, mais do que elegante, harmonioso, e tem o desempenho da sua carreira, daqueles supremos contidos, subtis, que são efectivamente os mais difíceis de reconhecer pela turba como os mais complexos papéis da sétima arte.
Este merece o Óscar.

Se "Brokeback Moutain" veio romper com a tradição de tratar a temática homossexual em pequenos filmes ("Brokeback Mountain" é ousado, grandioso), "Um Homem Singular" é o primeiro filme da mesma família que, em toda a minha vida, vejo com genuíno prazer e sem o natural constrangimento heterosexual e/ ou primário.

Arte em tom encantatório de um novo realizador que queremos no centro do Circo a trabalhar muito e a fazer mais, muito mais.
A não perder, claro, com a banda sonora de Abel Korzeniowski.

Créditos Fotográficos aqui.

2010-02-11

A VOZ (obrigado, Cristina Neves)

Tinha um primo que na pré-adolescência gravava o aúdio do Cosmos em cassestes de crómio BASF e adormecia a ouvir a paixão de Carl Sagan nos confins do Universo, num estilo literalmente etéreo, não por ser moda nesses virtuosos anos oitenta, mas porque vinha realmente do céu, para onde voltou (o próprio Carl) em formato de poeira cósmica na véspera do dia mais pequeno do ano, antecipando assim o Inverno de Seattle (faz quinze anos em 2011).

Mas a voz que o embalava não era a do astrónomo, mas a de um senhor português chamado Eládio Clímaco, para a qual (voz) todos os adjectivos são curtos e todas os substantivos longos.
Está dentro da memória de todos os portugueses com existência autónoma, que se distingue, inclusive, da própria pessoa, que poucos conhecem. Mas que ninguém nos tire o direito a ouvi-lo.

Nessa substância, Cristina Neves é muito parecida.
É jornalista, e ainda menos vista, provavelmente porque não quer, e está muito bem.
Não precisa de ter corpo, não para nós, porque o que dela nos chega é tão palpável como o vento, espécie de sopro como ele, mas supera a imaterialidade dos sentimentos e tem mais textura do que as palavras.

Então, dizer o quê, como e porquê?

É a melhor voz portuguesa de sempre, e isso já convém desbravar.
Ou não?
E se ficássemos só com isto, com aquele ar superior de uma verdade incontestável, e repetíssemos apenas:
É a melhor voz portuguesa de sempre.
Sim, eu sei, querem discutir, querem atirar-me com muitos nomes do passado, mas se recuarmos demasiado vamos encontrar outro estilo, outra postura, outra colocação, outro tom. Sem comparação.
E eu aí sossego.
Deixem-me lá ser arrebatado e ter memória curta para esta voz de hoje, a voz que todos os dias nos entra em casa (no "Jornal da Noite" destoa, porque é boa demais para todos os dias) e que nunca teve o reconhecimento devido:
A Cristina Neves é a melhor voz portuguesa de sempre.

Não, não é só musselina, nem só tafetá, nem só seda, nem só flanela, é tudo isso e mais.

Vou telefonar ao meu primo e perguntar-lhe se ele agora grava os "60 Minutos", se adormece a ouvir a Cristina a contar as histórias que conta, vou telefonar à CBS News e perguntar-lhes se o pessoal por lá acha mesmo seguro ter uma voz portuguesa que hipnotiza as pessoas.
Provavelmente sim, dir-me-ão, e antes que concluam, atalharei
Sim, têm razão, são as vozes frívolas, secas, cruas que alienam, não as dos anjos.
Hitler não tinha nada de anjo, alienou, Cristina tem, e então faz o quê?

Leva-nos em viagens intermináveis, todas belíssimas, e cada uma tem o seu curso, e depois da foz de cada curso, quando a Cristina se cala, detemo-nos encantados como se olhássemos um fiorde nórdico com o fecho do casaco puxado para cima e as mãos enluvadas nos bolsos pensando
Ela trouxe-me até ao fim do mundo.

É aqui.

Chama-se Cristina Neves e quer que o corpo seja só A VOZ (deixem-na estar).
A voz em que todos reparam, mas de que poucos falam em público.
A voz que, sem festas ou cores-de-rosa ou mundos vazio de imagem,
ninguém diz.

Digo eu:
É a melhor de sempre.

PS: vejam aqui um vídeo com A VOZ, para o caso de nunca terem reparado:)))

2010-02-04

Testamento

Quando eu morrer, quero coisas simples.
Quero que o meu epitáfio seja publicado na secção cultural de alguns jornais e diga simplesmente "Morreu o escritor mais pequeno do mundo. Tinha quase dois metros de altura e mais de cem quilos de peso, e morreu como outra árvore qualquer: erguido. Quer que se esqueçam do seu corpo e nunca sejam obrigados a ler os seus livros, mas que os releiam à luz da sua ausência."
Quero que me americanizem o velório e o funeral, deixando as pessoas expressar-se, usar cores como o vermelho e escrever-me bilhetinhos que podem deixar nos meus bolsos ou forrando o meu caixão. E que me vistam uma roupa confortável que me tivesse posto bonito em vida, e nunca fato e gravata. Imprimam este Testamento e o posfácio ("E agora morri") e coloquem-nos visíveis, num suporte, junto ao morto, para que as pessoas saibam que rir durante o velório é altamente recomendável, e as beatas de serviço o registem no seu diário de bordo.
Aos pés do caixão, quero a toga de advogado e a capa de Coimbra, e que tragam para o enterro mais capas e togas negras de todos os lados e credos.
Como único momento solene, que passem uma boa gravação da "Lacrymosa" quando o caixão estiver a entrar na igreja, tal como fazem com as marchas nupciais à luz do vestido branco das noivas.
Quero funeral sem missa, com os Azeitonas a cantar o "Anda comigo ver os aviões"(lamento, mas tem a pureza da minha terra e das minhas aspirações mais simples) ou só a harmónica do Salsa - já que o Brel não pode estar -, e que por favor levem a minha miúda à América se eu não o conseguir fazer até lá.
E chamem os miúdos da Xico d' Holanda para dar comprimento ao tempo - e que se cumpra, podendo (se for dia de Pinheiro, deixá-los, mas que se avise a escola e se tire partido do silêncio: vão dizendo em toda a parte, enquanto os bombos ressoam,
o escritor morreu
o escritor morreu
o escritor morreu).
Quero ser enterrado numa campa de cimento onde as pessoas possam escrever livremente, e não quero flores ou decoração alguma, apenas uma fotografia anual aos escritos da campa e à Magnólia que eu gostava que fosse plantada no centro dela, e que crescerá comigo, porque dá flores no Inverno e eu também. E no acto do enterro quero que uma galega toque na sua gaita de foles uma breve melodia lenta e triste para que a vida que acabou de cessar ganhe profundidade. Quero que seja o Canto da Pena, do Milo Romero. Quero que se esqueçam de mim no Verão e se lembrem e riam de mim no Inverno por eu gostar da chuva de sul, que afasta o frio e purifica a alma.
Quero que as pessoas se reúnam para comer e beber à minha custa logo a seguir ao funeral, e que passe o "Creep" dos Radiohead em fundo, que é uma música que me dá sempre a perspectiva correcta da vida.
Não quero culto de fotografias minhas, mas que usem e abusem de todos os meus textos, onde disse basicamente tudo o que queria dizer a todas as pessoas do mundo que alcancei. Quero sim que espalhem pelo aparador fotografias de todas as divas de que falei no meu blogue, e que lhes escrevam com uma cópia não traduzida deste Testamento, mas, e isto é importante, no centro do aparador, entre as divas, tem de ficar a mais bela fotografia da minha mulher. Pode ser aquela de Veneza, em que ela, no quarto do Rialto, ofusca o pôr-do-sol.
E, sem culto, deixem a Babo fotografar a essência, a alma, as sombras, a luz, talvez a clareza, até que ascenda, talvez a clareza, sim, antes e depois, se ela ligar as imagens desse dia às palavras de sempre. E chamem o Paulo Lima para ele explicar o que são dois verdadeiros amigos feitos de coisas tão diferentes, unidos numa essência qualquer que com gargalhadas e palavras terminadas em "ão" será decifrada. E chamem a Clara, chamem depressa a Clara e peçam-lhe que seja na morte o arauto que foi em vida e que faça tremer o mundo dando ao pobre poeta maior tamanho do que a sua real pequenez. E irrompam numa aula da Cláudia Monteiro e digam-lhe que faça o corpo do morto apenas pelas palavras e pela memória que lhe deixou, e que depois o leve pelas salas de todos os colégios e escolas que puder e enquanto a voz lhe der. E digam à Alexandra Gonçalves que morreu o companheiro de recreio - que ela há muito sabe que não são só palavras, é a carne da rádio no silêncio dos microfones abertos.
Quero que todos se riam do gigante que caminhava e corria de forma pendular e com os pés para o lado e passava a vida a querer arrancar aos outros, a toda a força, o mesmo riso que queria para si vida e morte.
Quero que no dia dos meus anos se reúnam os meus amigos (chamem-lhe o dia do escafandro-mor) para se celebrarem a si próprios e ao que de bom me deixaram, e que propaguem isto pelas gerações, nessa ou na data do último a morrer, sem nunca esquecer o nome de cada um. Não se esqueçam de me guardar sempre um lugar no almoço dos escafandros coimbrãos na véspera de Natal, mesmo que o gerente de sala desconfie de que não vou aparecer.
Quero que os meus editores e herdeiros se aproveitem da minha morte para fazer dinheiro e ficar mais confortáveis, quero que os jornalistas meus amigos - em particular a Ana - ultrapassem os conflitos de interesse e sejam capazes de citar o meu nome na morte, porque não o permiti em vida, e essa citação final sirva a quem leve a minha luz nos olhos, seja do meu sangue ou não, sirva a que quem leve a minha luz nos olhos possa pôr os pés nas minhas pegadas.
E nunca se esqueçam de permitir à Catarina o acesso a todos os meus inéditos, que saberá tratar e seleccionar com a curiosidade infinita do olhar, o cós subido, a postura luminosa e o amor.
E enviem o tal epitáfio com este Testamento em anexo a todos os meus contactos pessoais e profissionais e a redes sociais, para lhes dar a oportunidade de se materializarem, contrariando os maus augúrios dos que nos desmancham o prazer de ter junto a nós, todos os dias, as palavras de centenas de pessoas que se dizem, e podem ser, nossos amigos, mesmo depois do fim. Que se registe que nenhuma amizade é virtual. E que reja o que cada um sente, apenas.

Antes de ser deitado a terra o tempo é curto, e, se nada ou pouco disto se cumprir, deixem estar: agora temos a eternidade.

Digam pelo menos ao Fernando Alves que está obrigado a sobreviver-me, por razões de ordem prática: uma elegia dele levanta qualquer morto, devolve-lhe a vida: e era a elegia dele que queria, precisamente por não me conhecer por fora, mas chegar mais depressa por dentro. Uns sonham com férias nas caraíbas, Ferraris, diamantes, eu com uma elegia do Fernando Alves.

Quero que saibam que este Testamento é apenas para que o sonho se cumpra, por não ser ninguém e conhecer o pó.

E quando estiver lá por cima, aí sim, farei papel de estrela.

Pedro

PS: Este é um texto em aberto, enquanto eu puder escrever nele.

PS2: Vou afixar este Testamento na Junta de Freguesia de Valadares, para se irem habituando à ideia da minha Magnólia no centro da campa;):):

A Teoria da Bondade (Conan dixit)


Estes breves quatro minutos de despedida do comediante Conan O'Brien do seu Tonight Show e da NBC são o verdadeiro símbolo da coragem e uma bandeira para a teoria da bondade.
E são-no em oposição a um estilo de confrontação (até à guerra total), que ele adoptou no célebre episódio do carro mais caro do mundo (Bugatti) disfarçado de rato. Quem viu esse programa sabe que isso foi o menos. Houve azedume espalhado pela hora toda. E eu ainda não sabia o que me tinha soado e sabido mal nos momentos que deixaram o mundo ululante.
Ora, perante executivos engravatados que fazem isto a uma pessoa como o Conan, o que apetece mesmo é deixar correr o ódio até que essa gente tenha vergonha na cara e se aperceba do tiro que deu no pé. E, como eu disse na altura, Conan foi nesse programa, pelo menos, uma referência de coragem para os milhões de pessoas que todos os dias rumam aos seus empregos de cabeça baixa para serem manietados, desrespeitados e tratados como meros números (ou seja, como lixo) por superiores hierárquicos que há muito perderam a noção de decência.
No entanto, quando Conan teve carta branca da própria NBC para dizer o que lhe apetecesse, no último programa, agradeceu aos seus carrascos e recordou que a NBC fora a sua casa nos últimos 20 anos, terminando a declaração de despedida dirigindo-se aos fãs, e pedindo-lhes para não serem cínicos, característica que disse menos admirar em qualquer pessoa, e, passo a citar (tradução minha):
"Ninguém na vida obtém exactamente aquilo que pretende. Mas se trabalhar com afinco e for bondoso, coisas maravilhosas podem acontecer."
A mensagem é simples, prosaica até, mas difundida desta forma, naquele momento, com um Conan quase a chorar nos seus últimos minutos de NBC, pode ser inscrita numa bandeira, pode ser lapidar.
É que, muitas vezes, são coisas simples assim que precisamos de ouvir, não discursos rebuscados em busca de uma pretensa luz ou embriaguez espiritual.
E também acredito, há uns anos a esta parte, que é a batalha da bondade que se deve travar.
Ser bom, gentil, e não permitir que a maldade e todas os defeitos que atrás dela desfilam levem a melhor.
Nnunca ser passivo ou conformado.
Ser bondoso e interessado pelos outros custa muito, implica desprezo, sobranceria, e nem todos os que destratam quem quer ser bom são necessariamente maus. Muitos deles não sabem mais, dão demasiada importância a si próprios e tentam viver uma vida que julgam superior a tudo e todos, e isso combate-se todos os dias, até porque se manifesta com especial intensidade nesse novo lugar onde há uma aparente igualdade e todos se parecem equiparar:
as redes sociais.
Há uma aprendizagem que é de todos - não apenas vossa, nossa, não apenas deles.

"..but if you work really hard, and you're kind, amazing things will happen!"