2009-12-31

O final de ano no temporal solar do meteorolgista corredor...

(Nota Prévia: este post tem um longuíssimo título e um curtíssimo conteúdo. Não assumimos a responsabilidade por quaisquer efeitos secundários:)

Título do Post:

"Final de Ano no temporal solar do meteorolgista corredor que hoje saiu para a areia pelas quatro da tarde debaixo de sol e debaixo de chuva e não pressentia que acabaria a pontapear tangerinas na crista das ondas de Myazaki ao tempo em que estas estendiam os seus braços de espuma na preia mar para lhe apanhar os pés ou até parte do corpo e assim dar cabo do ano por entrar de dois mil e dez, que o meteorolgista corredor prenuncia como o ano das urgências depois das longas paciências, e sabe que serão os trezentos e sessenta e cinco dias em que vingará ou morrerá, porque acontece que ele saiu para areia e não sabia que ia confundir um saco do lixo preto com um labrador a agonizar, mas isso é por não levar óculos, não sabia também que ia conhecer as tempestades de sal que são suaves e amistosas, e apesar de ele se chamar meteorologista corredor, o que lhe dá estatuto para discutir o tempo com os velhos sábios e quem raramente erra é ele, apesar de ele se chamar isto hoje quase errava o sentido do vento e da chuva, disse primeiro sudoeste, depois sudeste, mas mudou a tempo para noroeste por causa dos aguaceiros rápidos, tudo o que traz sol súbito vem de norte, afinal como ele próprio, o meteorologista corredor que passou o final de ano no temporal solar das tempestades de sal sobre a areia e até viu uma coisa espantosa, aquelas pedrinhas que no Verão nos magoam os pés junto à suave rebentação, sabem?, essas pedrinhas estavam hoje estendidas pela área espantosa de uma praia inteira até às dunas, e como ele corre de sapatilhas e estava a precisamente no fim da corrida, parecia uma espécie de céu chão, e foi um momento belo de anúncio de grandes entradas e saídas, e é por isso que ele resolveu escrever as seguintes palavras sob este título."

Texto do Post:

Um grande ano de 2010 para todos!

Foto: a minha oficina de escrita, hoje (agora) às cinco da tarde, do lado de cá das dunas, que o lado de lá é precisamente onde correu e corre previamente o singatário, sobre as ondas de Myazaki:))). Hoje fecha às 18h, e reabre às 23:30h.

2009-12-27

Levantamento de heterossexuais contra a (ou a favor da?) SportTV

Está bem, eu digo-o com todas as letras:
Ser "gay", sexualmente falando, não tem mal nenhum.
Mais complexo é explicar a pessoal que supostamente se acha de barba rija, feios, porcos e maus, que o seu canal favorito, que provavelmente estão a ver sempre que estão acordados, canal esse que sacrifica milhares de orçamentos familiares (e famílias) por esse país fora (só à conta dele, tenho fibra e tudo!), e torna os seus espectadores animais obtusos e desinteressantes, tanto como o pedreiro que só fala de pedra ou o carpinteiro que só fala de plainas, esse dito canal é, sem margem para dúvidas, um canal gay.

Tal ideia iluminou-se-me hoje mesmo, quando suportava por breves minutos um centro comercial, onde tive de ir fazer coisas que lá estão concentradas e saíram totalmente da rua, tomando café a assistir deleitado no ecrã gigante aos movimentos da Beyoncé no "Single Ladies" (que junto abaixo, para vocês perceberem do que eu estou a falar), quando o meu deleite é bruscamente interrompido pelo Chelsea-Cascos de Rolha FC (como habitualmente, sem peguntar, seja centro comercial ou cafezinho de bairro, é "óbvio" que o povo todo quer ver Sport TV, e que a parte feminina do povo agradece por ter os obtusos entretidos e calados, até porque alguns lhes acertam e bem quando não têm nada que fazer, e isto já não tem piada nenhuma).

Ora, nada tenho contra quem adora futebol.
Acontece que eu adoro cinema. Eis as razões pelas quais não estou todas as horas disponíveis de todos os dias, e dez horas por dia ao fim-de-semana, a ver cinema:
a) tenho mais que fazer;
b) vivo numa sociedade que exige um pedaço de mim em várias frentes, porque sou pai e marido, pelo menos, mas também amigo e advogado e escritor, leitor e voleibolista veterano, etc;
c) mesmo que estivesse na absoluta solidão, há coisas chamadas moderação e bom-senso.
d) há bilbiotecas e museus e mercearias e aldeias e serras e planícies e campo e cidade e outros deportos (pasme-se!!!);

By the way, também gosto de sexo, de comer bem, de beber bom vinho, ouvir boa música e de mais algumas coisas, if you know what i mean.

Acontece que também gosto de mulheres.

Ora, garanto-vos que, meus caros consumidores compulsivos de Sport Tv e quejandos, que se vocês gostassem um bocadinho de mulheres não passavam a vida espetados nesse canal gay eivado de homens.

Mas, e isto é importante que se diga, nada contra.
Sendo muito prosaico, como tem de se ser com qualquer obtuso, mais sobra, e melhor, e curiosamente num especial grau de assanhamento que muitos de nós, os realmente heterossexuais com a mobília devidamente arrumada, não desdenham.

Mas, por favor, não se queixem nem me tornem a trocar a Beyoncé pelo Drogba!

PS: não, eu não me esqueço que o resto do tempo vocês estão nos cafés mergulhados nos jornais deportivos, e que a vida não vos deixa tempo para muito mais, coitados.


2009-12-25

Retroversão Azeitonas


Era antevéspera de Natal e chovia copiosamente nas ruas do Porto.
A chuva parou e levantou-se o vendaval, dentro e fora do Passos Manuel.

O que, mais do que surpreender, perturba neste três rapazes que estiveram em cima do palco para o espectáculo intitulado "Ambos os três", é a capacidade de não se deixarem obnubilar pela fama.
Está bem, vão utilizando subrepticiamente todos os mecanismos de marketing existentes no mundo em que nasceram e cresceram.

Mas, neste mundo digital, viraram espantosamente analógicos.
Senão, vejamos:

O Marlon, que podia simplesmente exponenciar uma massa informe de chavalas a endeusá-lo, insiste, no seu ar dread de dandy desconchavado que se esqueceu de botar polainas, e por isso pegou na velha calça com camisa e meia de vidro até ao joelho (que jura ter descoberto recentemente, mas que obviamente faz parte da sua fatitota interior - a de dandy - ), aprendeu a tocar baixo. E tocou. E não tocou mal. E afinal é moço percursionista, e percute bem, ó se percute.

O Miguel, no seu ar dread (sim, eles são todos dreads, cada um na sua frequência:) de levantei-me agora mesmo e tive de vir para aqui porque estava a compor e a dedilhar as minhas guitarras dentro da alma e já nem sei como consigo sair da pele, estou magro e visto as roupas que tenho de vestir, porque eu sou dolorosamente artista e afinal nada me dói) é, todos sabem, um exímio guitarrista que envergonha qualquer virtuoso de letra, mas, acima de tudo, compõe este grupo ímpar, compõe sozinho ou em cima da carne do maior músico dos três, o Salsa.

O Salsa, ó o Salsa, bom o Salsa é sublime nas teclas, ele que não se põe a fazer recitais na Casa da Música, mas podia e sabia, infernal na harmónica (que tem depurado e depurado e depurado, como só os génios), mas não deixa de ser um dread da terra média entre o atinadinho das avenidas e o mozárte de Passos Manuel.

Ambos os três são - e é isso que ressalta da sessão de encerramento de 2009 no Passos Manuel - grandes músicos. E quem tem o atrevimento de se intitular fã deles saiu de lá com esse orgulho.

Deram-nos o o baladeiro galego Roger de Flor de adianto, e, se é certo que a música dos Azeitonas a que ele deu perfume e letra galega é de estouro, perto da excelência, Roger não é Azeitona. É um bom baladeiro, dedilha bem, mas falta-lhe aquele bocadinho assim. O momento em palco com o Marqués da Villa e ambos os três foi muito bom, isso foi, mas só foi.

A Nena, a diva, a voz feminina e doce por excelência, faz falta, sim, mas a intensidade da sua presença em palco poderia ter-nos feito perder a noção do quanto valem, em bruto, estes três rapazes. Queremos Azeitonas eléctricos, sim, mas este era o momento certo para vê-los a nu.

Versões acústicas que se desejam de volta de "Corre", "Salão América", "Café Hollywood" (gostei do novo teledisco no estilo anúncio Super-Bock caseiro, muito caseiro, muito íntimo, e gostei mais ainda da versão acústica) e, grandessíssimos atrevidos, do "Miúda" como nunca a viram, repleto de referências intemporais nas teclas do Salsa.

Eu gostava que o "Anda Comigo Ver os Aviões" com o Zambujo saísse mais coerente em disco. O mal, provavelmente, será meu, que sublimei a música nas gotículas do meu próprio suor tripeiro desde o primeiro segundo, mas sempre disse que esta belíssima balada kitsch era intensamente nortenha. Zambujo tem uma voz belíssima, e talvez valorize a música se cantar à velocidade do Porto, e for capaz de dizer totobola.

A que valorizou, e muito, foi a "Cantigas de Amor", que subiu dez degraus com o toque de Midas do António Zambujo. Uma grande voz.

E numa noite memorável fica também uma surpresa que raramente se tem:
não sei exactamente porquê, mas "Os Azeitonas" têm um público "íntimo" que sabe cantar. Foi quase desarmante ouvir o público cantar, em fundo ou em primeiro plano, com uma estonteante afinação e algumas vezes a duas vozes, como se tivessem ensaiado como coro em classe de conjunto, sem gritar, sem disparatar, sem espingardar.

Levo uns concertos na conta, e nunca tinha visto isto.
Estava lá no arrepiante "Porto Sentido" do "live" do Rui Veloso em 1987, e, se a projecção de um coro de milhares de vozes a sentirem o que cantavam se tornou inesquecível, não me lembro de nada tão subtil como o público desta noite dos AZ's.

Em resumo: se andam distraídos, convinha deixar a lua aqui.

"Os Azeitonas" devem ser vigiados de perto.
Miúdos simples para quem está sempre tudo bem, demasiado bem até (impressiona a descontracção, e eu não lhes posso pedir mais profissionalismo, porque gosto deles assim), perfeitamente desligados até à hora última, mas absolutamente empenhados e concentrados em dar excelência ao que fazem, que não tem igual neste país.

A Retroversão Azeitona de "Ambos os três" é um sinal de coragem e humildade.
Um passo atrás (não em termos de qualidade, mas de registo e sofisticação) para dar dois à frente só pode ser sinal de excelência.

E são amigos do seu amigo, estendem a mão, misturam-se, são pessoas, não estrelas vagas do vácuo.

Caso não saibam, ainda dão toda a música que fazem. Sem pedir nada em troca.

Eu vou ter de dar. Sempre.

2009-12-17

Clubite no divã

(Nota prévia: a expressão da semana, em termos futebolísticos, para que fique registado, é "dar minutos", certamente das mais belas de sempre, e que significa "pôr a jogar jogadores irrelevantes, porque o jogo é a feijões")

- Doutor, sou do Benfica.
- Parabéns.
- Dá-me uma raiva enorme quando o Porto ou o Sporting ganham.
- Interna ou externamente?
- Ambas.
- O que lhe dói mais?
- Penso que internamente.
- Aqui?
- Mais ou menos.
- Não é grave.
- É normal?
- É uma ligeira frustração, passageira, do género "não é desta que ganhamos pontos aos gajos?"
- Não. É forte. Fico deprimido, discuto com a mulher e com o filho, ou bato-lhes, se conseguir. É mais "Grandes bestas. Que sorte marcarem aos 50 minutos!"
- Mas aos 50 minutos nem sequer estavam perto de empatar ou perder...
- ...por isso mesmo. Só me vem à cabeça "no fim da primeira parte o Benfica estava mais longe...era tão bom, tão bom..."
- O Natal era melhor assim?
- Era.
- E no estrangeiro, presumo que queira sempre que percam.
- Sempre.
- Já viu de que tamanho fica sua pilinha nessas alturas?
- Vi. Ou melhor, deixo de a ver.
- Hum...
- É grave?
- Bom, grave não é. Quer dizer, não é se mudar de residência por uns dias, e aceitar um internamento temporário.
- É assim tão grave?
- Moderadamente. Posso ver se há vagas?
- Por favor, doutor.
- Estou? Jardim Zoológico de Lisboa?

Claro que esta breve palhaçada, e o respectivo diagnóstico, se aplica a qualquer adepto de qualquer clube, e tem menos piada do que o que parece à primeira vista.

Espero que quem assim sente e pensa se sinta suficientemente mal, depois de ler estas palavras.

PS:

Eu, portista, nascido na Sé, crescido nas Antas e em Gaia, com pai, irmão e próprio jogadores de voleibol no FCP, com filho sócio do FCP há dez anos, declaro:

- Faço questão que o Benfica ganhe hoje ao AEK, como faço sempre em qualquer circunstância ou embate com clubes estrangeiros.
- No Domingo, no Benfica - Porto, a minha única frustração é se meu FCP jogar melhor e perder ou empatar injustamente, porque essa do "não há justiça no futebol" é treta. Se perder justamente, é-me fácil a aceitação, e até a homenagem aos vencedores.
Que seja um grande espectáculo, e isto não é treta.

Espero que o desportivismo se pegue a alguns cobardolas de hoje, os que baseiam a sua coragem na agressão e no ódio aos outros, se esquecem da banalidade de um jogo, e ainda por cima vivem felizes com isso.

Red Bull? Erase! Insuportável bairrismo ou deslealdade?


(morte às crónicas longas!)
(hoje vai à moda do Porto!)

Eu sempre disse que no domínio dos princípios não tenho nenhuma dificuldade em responder.

Deslealdade, claro.

Ainda que se possa admitir, no limite da ingenuidade, que foi a própria organização da Red Bull Air Race a pedir a troca do Porto por Lisboa, e que António Costa está a ser rigoroso quando diz que "Lisboa nada teve a ver com isto", nem Governo, nem edilidade, nem Institutos, nem nada, se um amigo me viesse dizer

- Pá, desculpa lá, pá, mas os gajos querem deixar-te na mão e vir para cá, pá, o que é que dizes, pá?

Eu respondia-lhe:

- Vai-te f..., PÁÁÁÁÁÁ!

E virando-me para o lado, dizia: "E pensava eu que este gajo era meu amigo."

Ora, o problema é que isto se passa dentro de casa.
Somos o mesmo país, temos os mesmos interesses, mas Lisboa está rica e o Porto nem por isso.
Lisboa tem tudo, e o Porto nem por isso.
Esta invicta cidade inscrevera já no seu código genético as imagens deste raro espectáculo e teve três organizações irrepreensíveis.
Já tenho dito que um país moderno se vê pela forma como promove e trata as suas segundas e terceiras cidades.
Portugal, para mim, está visto.
O Porto é muito mal tratadinho.

Red Bull? Erase!

Créditos Fotográficos: Red Bull Air Race

PS: Abaixo, imagens para recordar:

2009-12-14

The moon in Tenesse in the moon

Tinha de escrever sobre duas peças de arte porque elas se complementaram, devidamente digeridas, dentro de mim.

Uma é sobre a memória e a sua essencialidade.
Outra é sobre a falta de memória e a sua essencialidade.
A primeira é o filme "MOON", de Duncan Jones , com a notável multi-actuação de Sam Rockwell, por quem poucos davam ate hoje cinco tostões que fosse.
A segunda é "Jardim Zoológico de Cristal", uma peça de Tenessee Williams, que o grupo "Ao Cabo Teatro" traz até nós, e como!


A primeira são noventa e tal minutos de fita densa, dura, que nos perfura.
Não o aconselho a todos. Só a quem quiser reflectir mesmo.
Se alguém vos disser que não importam as experiências de vida, o palpável, o empírico, mas que a memória é tudo aquilo de que somos feitos, ou seja, se um trauma, um filme, um processo psicológico, uma doença, a publicidade subliminar, as lavagens escolares ao cérebro, nos colocarem memórias, por falsas que sejam, no cérebro, isso é tudo o que importa...
...se alguém vos desse a escolher entre vinte anos em coma, vindo a ser felizes com memórias induzidas, e vinte anos acordados, mas vindo a ser infelizes por perder todas as memórias numa doença degenerativa, o que prefeririam?
A verdade é que "MOON" responde por nós, actua sobre nós como esses processos subliminares: saímos do filme cientes de que tudo o que somos são memórias, nada mais. Se fecharmos os olhos enquanto fazemos amor e um outro braço se intrometer sem que saibamos, se beijarmos esse braço, a mulher com quem estávamos ficará para sempre com esse sabor e essa textura. E, afinal, nenhuma das duas existirá.
Não importa o que se é, mas o que se lembra que se é.


A segunda são cerca de duas horas de excelência teatral, com a actriz Maria do Céu Ribeiro a destacar-se de um curto elenco, que lhe fica a dever pouco. A encenação do Nuno Cardoso, que me é tão familiar, o sublime cenário, tudo é adequado a uma experiência intensa, certamente inesquecível.
Mas aqui já me intrometo nessa mesma questão, a memória, porque aqui pressinto que se pede, se clama, pela ausência dela, estas pessoas banais com uma vida banal seriam mais felizes se se esquecessem, se não valorizassem tanto as linhas condutoras das suas vidas, se não marcassem de forma indelével cada momento doloroso.

Se a mãe, se o filho, se a filha, se o candidato, se esquecessem, seriam mais felizes.
É, pois, uma abordagem que vai para lá da denúncia da solidão na aparente comunhão social.

Ensina-nos a não viver manietando quem acorda connosco todos os dias, a não valorizar certos detalhes das nossas vidinhas sem uma visão do globo, e, em contraponto, a realçar o detalhe do belo, cada detalhe do belo, como valor universal.
E a peça aconselho a todos.
No calor da Churrasqueira do Heroísmo, ali a dois passos do Estúdio Zero, no Porto, onde consegui jantar como se estivesse em casa, no calor da antecâmara do palco, onde esperei deliciado com as pessoas que tinham vindo ao mesmo que eu...como se estivesse em casa, e sentado nas confortáveis cadeiras azuis do Estúdio Zero, estive sempre como se estivesse em casa, e Tenessee trespassou-me com as frases limpas que nos dão forma ao ser.
Na continuidade da arte, aqui de um filme e de uma peça de Teatro, não há rupturas, clivagens, mas a sabedoria do olhar interior, sabemos que não morremos estúpidos, parecemos mais nós e saímos mais de nós, parecemos mais de todos e saímos mais de todos,
somos afinal de tudo.
PS: o filme ainda anda nas salas, a peça ainda tem exibições para Sul:
Teatro Aveirense, 19/12;
Teatro Taborda (Lisboa), 6 a 16/01;
Teatro Municipal de Portimão (Portimão), 23/01;
Teatro das Figuras (Faro), 30/01

PS2: no cinema (televisão) nota, hoje, para o 38º aniversário de Natascha McElhone, a diva de Californication;

2009-12-11

Augusta Carrilho é o primeiro ser humano da Zon(a)

...em doze anos e meio.
Não conheço, não sei de onde veio nem para onde vai a Augusta Carrilho. Sei apenas que me conseguiu prestar um serviço de atendimento de excelência, como nunca me tinha acontecido.

Há muito, muito tempo, quando comecei a negociar com as operadoras de comunicações, televisão e internet, uma parte de mim morreu.

E aquilo que é um prazer a nível profissional, como advogado, que é dar-lhes cabo da canastra, um jogo, confesso, em que a competitividade é reduzida, dado o chorrilho de asneiradas e abusos que são praticados todos os dias, mas que se torna impossível para qualquer leigo, enredado desde cedo na teia da aranha que o armazena para posterior deglutição (as pessoas até podem ser lúcidas, mas não têm armas, as mais das vezes, para se libertar da teia burocrática e hierárquica que é armada, mesmo dentro das empresas), dizia, aquilo que é um prazer a nível profissional, o combate, é um inferno a nível pessoal, quando o que se quer é um produto com a máxima qualidade e rapidez, e o mínimo preço (coisa que não existe, mas é nossa obrigação persegui-lo).

Claro que os poderes públicos, parcialmente comprometidos, coitados, porque a maioria deles tem famílias alargadas e acaba sempre por ter uma pessoa amiga num lugar qualquer (não têm culpa, o que hão-de fazer, uma pessoa tem de se desenrascar!), pouco fazem para sanear a vergonha do cenário contratual e técnico do sector. A família Com, a da Ana(Com), se não come, e acredito que não coma, do bolo que há escondido para o festim de alguns, limita-se a certas acções, que, por causa das infinitas omissões, mais não são do que areia nos olhos.

E então ontem, quase treze anos depois, falei com o primeiro ser humano não automatizado de todas as operadoras.
E eu, que não sou propriamente um gestor mas também não sou parvo, diria que o que se pretende de uma funcionária que está num Call Center é o máximo de eficiência no menor espaço de tempo.
Pois ontem a Augusta, num dos telefonemas mais breves que tive para uma operadora destas, respondeu-me de forma perfeitamente límpida e profissional a questões comerciais e técnicas que andava há meses para esclarecer, e muito mais tempo me fizeram perder, nunca usou expressões como "Obrigado pelo seu contacto", "Obrigado por ter aguardado", "A Zon agradece o seu interesse" e coisa abjectas do género, daqueles que o Zé da esquina apelidaria como a "fraseologia do estão-me a f... e eu a ver".
Mais, interessou-se pelo local onde eu residia ou trabalhava, mostrou conhecimento geográficos, enfim, foi uma pessoa inteira, coisa que nunca antes eu tinha encontrado numa empresa destas.

Por ela, e não fosse o azar de não haver o produto que eu pretendia na minha zona, eu tinha ficado numa empresa sobre a qual tenho sérias reservas (mas cuja hipótese admiti, por, numa breve investigação, verificar que todas as empresas desta área têm um nível de queixas gigantesco). Graças a ela, a Zon tinha ganho um cliente.

Eu imagino os chefes de muitas destas operadoras de call center, como os chefes de tanta gente que trabalha numa linha hierárquica neste país, a pressionar para um eficiência de números, de chamadas em bruto, ignorando que têm ao seu serviço seres humanos com necessidades, fragilidades, mas também força e competência, que pode sobrevir caso haja sensibilidade a cada caso, e não seja tudo tratado como uma grande manada.

Não sei se o chefe da Augusta Carrilho é decente, ou se, pelo contrário, ela é a única responsável por atingir este nível de excelência. E não vou dizer que ela tem valor para estar bem cima do posto que ocupa, porque são precisas pessoas assim naquele trabalho.

Sei é que, graças a ela, uma marca fica reabilitada:
doravante terei a esperança de a encontrar de novo, a ela, a alguém como ela ou quem ela venha a formar ou chefear.

Era bom que ela tivesse o prémio merecido, porque eu já tive.

2009-12-06

Mister 3D Zemeckis

Não sei ainda o que nos vai trazer "Avatar", do James "King of the World" Cameron, a estrear no próximo dia 17 de Dezembro deste ano da graça de 2009, e que dizem atirar a nova geração 3D para uma outra dimensão. Veremos se são promessas vãs. A verdade é que eu e o meu filho (sim, eu e o meu filho de dez anos; sim, estou a viciá-lo em cinema desde os 3 anos, algum problema? Sim, cinema mesmo; Sim, o rapaz dá-me uma abada na saga Star Wars, e depois?), presentes no pré-visionamento do Avatar, e tirando um ou outro problema de fluidez de imagem (característico de todo o novo digital, televisões incluídas) ficámos impressionados. Resta saber se os quinze minutos de trailer eram só para inglês ver.

Pois não sei o que nos trará o futuro, mas sei o que nos traz o senhor que a ele regressou: Robert Zemeckis.
Quem viu Beowolf caiu na asneira de dizer aos amigos que o novo 3D era aquilo, emocionante, experiência ímpar, mas a verdade é que nenhum outro filme desde Beowolf se tinha sequer aproximado da excelência de Zemeckis, que domina, mais do que a animação, o 3D. É produtivo, esplendoroso, sem ser exagerado.

Ora, "UM CONTO DE NATAL"(clicar para ver o trailer) eleva a fasquia, e muito.
Quem pensa que é filme para crianças, está bem enganado, e pode deixar em casa os miúdos mais impressionáveis. Aquilo assusta a sério, cola-nos à cadeira, mas o que faz mesmo é encantar, encantar profundamente.

Não percam a entrada do filme, o voo sobre a cidade. Brutal.
Este é daqueles em que não vale entrar quinze minutos atrasado. Não compensa o desperdício.

Para já, Zemeckis, os seus animadores e sonoplastas, são os únicos a saber verdadeiramente o que fazem. Uma experiência de muitas estrelas, certamente mais do que cinco, e, vão por mim, se algum crítico lhe dá menos, pura e simplesmente ignorem-no.

Encontrei há pouco um amigo a sair do cinema, e por ele me lembrei que tinha de escrever isto.
Ele, que é muito contido e expressa as emoções com dificuldade, vinha pálido.
Agarrou-me os colarinhos e ordenou: "Tens de ir ver este filme."

Já tinha visto, mas sei bem o que ele estava a sentir.

Imperdível mesmo (e, por favor, meninos e meninas crescidos que dizem não gostar muito de animação, por uma vez, ponham esse preconceito de lado e depois contem-me se este filme não vale, em termos de espectáculo, emoção e argumento, mil 2012's!) !

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Ah! Grande, grande, grande trabalho do Jim Carey em várias personagens, emboram me tenham dito que a versão dobrada em português está muito boa (temos excelentes equipas a trabalhar em dobragem);

Cinema é Lisboa, o resto é paisagem

Acho curioso que chamem província ao país menos Lisboa, quando afinal o que é provinciano e sinal de pequenez é o centralismo bacoco de quem pensa que fora da área metropolitana da capital é tudo um bando de crentes. A saúde de um país também se vê pela forma como ele trata as cidades e os cidadãos periféricos. Eu até aceito que a chuva e os sotaques fiquem todos a Norte, e seria redundante estar aqui com paninhos quentes a dizer que Lisboa é uma linda cidade e blá blá blá, porque afinal qualquer pessoa com um palmo de testa se está cagando para essa coisas. Somos todos, certamente, orgulhosos portugueses, e, cada um para seu lado e sem que nunca as paixões possam ser inibidas, alfacinhas ou tripeiros, lampiões ou portistas, provavelmente até com as cidades trocadas, não importa.

Agora o que me irrita profundamente é quando certos senhores pensam que só em Lisboa é que se podem ver certos filmes, e se esqueçam de os distribuir no resto do país. Ao menos no Porto! Ao menos no Porto. E nem sequer falo de filmes "alternativos". Não.

Isto acontece amiúde e envergonha-me.
50% das estreias desta semana, nomeadamente "Coco Chanel e Igor Stravinsky" e "A nova vida do senhor O'Horten", aconteceram só em Lisboa (clicar sobre os nomes dos filmes para os trailers).

Como frequentador habitual das salas de cinemas, esta semana, pura e simplesmente, não havia filme decente para se ver, e, se noutros tempos, sob desespero, eu entrava na primeira porcaria que me parecesse suportável, nem morto me apanhavam esta semana no telefilme com argumento baseado nos livros da senhora ministra da educação, aquela que "alça" sorrisos repentinos para conquista da nossa simpatia.

Chegar ao jornal e não encontrar qualquer dos citados filmes em cinemas do Grande Porto revolve, verdadeiramente, o estômago.
Um, ao que dizem, é um excelente e saboroso filme norueguês, raridade por estas paragens, e o outro francês (realizado por um holandês), cujo tema me interessa particularmente (a primeira parte do século XX) e em que debuta uma, também ao que dizem (porque eu não sei; como poderia?), promissora e belíssima francesa chamada Anna Mouglalis (na foto).
Foram-me miseravelmente usurpados porque as 78 (!) salas do Grande Porto não chegaram para que os Lords of the Portuguese Cinema se decidissem a estrear cá uma copiazinha que fosse.
Posso mandar-vos ir ter vergonha na cara?

Então ide.


Créditos Fotográficos aqui

2009-12-05

Vinho Lilás

A árvore lilás que dá vinho lilás e me vem acompanhando a embriaguez desde que deixou de ser etílica - nos loucos tempos de estudante -  e passou a ser mental e sentimental, esse arrebatamento de que vos falo sempre. Entreguemo-nos a tudo o que nos arrebata agora mesmo, perante a inspiração de Jeff Buckley e Lilac Wine e o dashing men and women deste clássico, e já falamos:



"Lilac Wine" é uma canção escrita por James Shelton (letra e música) em 1950. Teve "covers" de Eartha Kitt (1953),  Judy Henske (1963), Nina Simone (1966), Elkie Brooks (1978) e esta mesma, de Jeff Buckley, no seu álbum "Grace" (1994) - e ninguém me convence, nem mesmo os puristas, que não foi na versão da Elkie, e não da Nina (como dizem) que o Jeff se inspirou. É que Elike seria sempre "out", e Nina sempre "in". Depois disso ainda foi cantada ao vivo por Sarah Slean em 1997 e no álbum de estreia de Katie Melua "Call Off the Search" (2003). Em 2006 foi usada como banda sonora do filme francês "Ne le dis à personne", e mais recentemente é trauteada por mim em plena corrida, por não conter em mim ou no meu mp3 a sublime expressão de embriaguez de Jeff Buckely (que, como sabem, morreu afogado com 30 anos no Rio Wolf, afluente do Mississipi).

É, necessariamente, uma grande música.

Créditos Fotográficos: Dave Nietsche

PS: Quem quiser ouvir outras versões, clique pf nos nomes: Nina Simone, Eartha Kitt, Elkie Brooks,  Katie Melua

PS2:

I lost myself on a cool damp night
I gave myself in that misty light (small g)
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree
I made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipe
It makes me see what I want to see (may be better to say "What I wanted to see"
and be what I want to be
When I think more than I want to think
I do things I never should do
I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back you...

Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, I feel unsteady, like my love
Listen to me... I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here? (is coming)
Lilac wine is sweet and heady, where's my love?
Lilac wine, I feel unsteady, where's my love?
Listen to me, why is everything so hazy?
Isn't that she, or am I just going crazy, dear?
Lilac Wine, I feel unready for my love,
feel unready for my love.