2009-11-20

Les petites "merdas" (salvo seja) et la frivolité - gajismo, ciclismo e golfe

Não estás bem a ver a cena!

Sabes aquele rotunda na praia? Uns metros antes, estava uma gaja estacionada numa Mercedes, ou a Mercedes estacionada nela, eu estava pr'aí a trinta metros, a tipa arranca de rompante e corta-me  a trajectória.

Dasse, pá! Disse-lhe tantas! Mas ainda não acabou, queres ver? A tipa segue como se nada fosse, a trinta à hora, e eu eu cheio de pressa. Dois quilómetros à frente, eu ainda atrás dela, acelera para a estonteante velocidade de SASSENTA (60) quilómetros, mesmo ao pé dos semáforos de controlo de velocidade, e aquela merda fecha.

Ó pá, não aguentei. Saí do carro, cheguei-me ao vidro dela, a gaja olha-me d'alt'a baixo, pá, e.. arranca!

(Estava verde?)

Estava, pá, mas a questão não é essa...dasse...

(continuei a tomar o meu café e a observar uma japonesa grunge a ver-ser ao espelho na montra do restaurante)

Depois fui para o trabalho pela marginal, e rai's parta o trabalho ao Domingo, rai's parta o povo, aquela m... é o hipermercado do relax. Agora tudo tem as suas sapatilhinhas de marca, os seus calçõezinhos de marca. E ainda dizem que há crise. Tudo a fazer o seu joggingzinho. Que irritação, pá. Nâo se encontra um lugar, e vais em filas de quilómetros, com os azelhas como a gaja da manhã a desfilar.

(Se sabes disso, porque é que não vais por cima?)

C...! Não tenho direito, como os outros? Vai-te f..., pá!

Mas ouve, o problema não é esse.

O pior de tudo são os ciclistas, aqueles cilclistazinhos irritantes, todos equipadinhos, com mochilinha junto ao corpinho, o capacetezito afiveladinho, e depois andam lado a lado, três a três, quatro a quatro. É uma praga.Dia e noite!

(Uma verdadeira praga.)

Gente sem escrúpulos, que só se quer exibir.

(Ora bem!)

Pá, hoje não aguentei, Pedro!

(O quê?)

Pá, fartei-me de buzinar a um grupo de três e os gajos nem se mexeram.

(e depois?)

Pá, dei um encosto a um com o carro.

(E...?)

O gajo caiu sobre os outros. Fartei-me de rir, pá. Mas depois vi um deles com um papel e uma caneta, aqueles coninhas até levam papel e caneta para fazer exercício...

(isso e lanternas, e água, e telemóveis e tudo!)

Pois...pá...virei logo na primeira rua, mas o gajo apanhou-me a matrícula e tenho aqui isto.

(Mostrou-me uma notificação do Tribunal, pôs as mãos na cabeça, encolheu a virilidade )

O que faço, pá?

(Diz-me uma coisa. Esqueceste-te de opiniar sobre os coninhas que jogam golfe,  e dizem que não há dinheiro, que até é um vício barato, três contos de rei e dão uma voltinha ali no Fojo, são três bilhetes de cinema, mas está bem, não te irritam estes?)

Nem me fales!!!! Não imaginas o que tenho de aturar. Alguns até levam os filhos. Apetecia-me pô-los a todos contra uma parede e rá-tá-tá-tá-tá!!! "Xauzêscu"!

(O palerma nem sequer tinha reparado no meu Sand-wedge com um loft de sessenta graus no banco de trás do carro, perfeito para lhe aquecer aquele rabo. O meu filho de doze anos chegou com o putter e nós despedimo-nos dele. So long, sucker.)

Ó! Ó! Queres ver? Fuôd..................O qu'é qu'eu disse???????

(C'est mon petite "merdas" privé, que je torture tous les matins.)

(PS: Vendo bem as coisas, não sei quem serão os maiores palermas:)

Esta cena é ficcionada, não vá a porca torcer o rabo

Créditos fotográficos aqui

2009-11-17

Alienados - os pais, os filhos e os filhos da puta

Quero dizer algumas coisas de forma muito rápida e quero dizê-lo com as letras todas.
Tratar de filhos de pais em crise não é para qualquer um.
E já nem sequer creio que seja questão de formação.
É, sim, de sensibilidade, ou, mais do que isso, de vocação.
A notável reportagem de Miriam Alves, Pais e Filhos afastados na Guerra do divórcio, com vídeo embebido ao centro deste post, sobre a Alienação parental, é um trabalho superior, não porque a repórter tenha cumprido o cânone do melhor jornalismo, mas porque actuou com sageza com todas as partes, soube perguntar, mas, principalmente, soube calar-se e ouvir, coisa tão rara, tão rara, mas tão rara na selva mediática, que praticamente já não existe.
É, afinal, tão simples perceber onde está o problema, e quem é o problema. Não são as crianças, isso é certo. Mas há sempre um filho da puta. Um elemento filho da puta, a bem dizer. Seja uma pessoa ou uma coisa. Seja um dos pais, ambos, ou a lei, que os obriga a tanta coisa mas não os obriga a ser mediados em paz.
A Miriam actuou com o que tem no coração. Eu, como advogado, actuo precisamente assim neste campo, e não há outra forma de trabalhar. A lei, aqui, deve ser relegada para os fundilhos. Quem a ostentar à cabeça, perde todas as partes. Perde tudo. Dá cabo de vidas, muitas vidas.
E, por mais que se faça, por mais que se trabalhe em prol da felicidade dos meninos e meninas (não me compete trabalhar pela felicidade dos pais, nem que sejam eles os meus clientes; eles que se tratem, como adultos que são; o meu cliente é sempre, apenas e só, a criança, e é ela que devo proteger, e enquanto ela estiver feliz e protegida, os pais, mesmo em crise, estão felizes e protegidos; não existe isso de proteger os interesses dos pais, "apesar" das crianças!!!), se um só dos elementos forenses do processo, seja o colega da outra parte, sejam os magistrados, não tiver essa capacidade e esse coração, o processo torna-se rapidamente uma papelada exasperante e insolúvel.
A Miriam fez-me chorar. Penso que é inevitável chorar quando se vê perante os nossos olhos aquilo que dizemos e por que lutamos há tantos anos. Foi também por isso que fiquei esmagado aqui ("O Troféu"). Não por ser um incorrigível lamechas, mas por causa da merda de certos princípios inabaláveis que não me deixam enriquecer como (quase) todos enriquecem neste país quando deitam a mão a profissões que lidam com o poder ou com a fragilidade do ser humano. Será a despropósito dizer que a máquina nazi se alimentou da mesma comida? Não é.
Pensam mesmo que o que se passa na regulação do poder paternal em Portugal é só mais um azar de um país remendado, pensam?
Não é. É das doenças graves que devora as fundações deste país.
Que ninguém seja capaz de a ver com a importância que tem, é assustador.
(continua abaixo do vídeo)

Reportagem de Miram Alves, Pais e Filhos Afastados na Guerra do Divórcio (43 minutos)
(continuação)
Direito Preventivo é qualquer coisa de nova em Portugal. Os profissionais do foro pensam que sabem o que é, mas nunca houve verdadeiros contributos para os fundamentos teóricos desta "ciência" (chamar-lhe "advocacia preventiva" é, não só redutor, como é não saber o que se está a dizer), e esses contributos são tão miseráveis que este pobre "paper" ("Sucesso na Horizontal") que escrevi passa por ser do pouco, quase nada, que se encontra em português.
Mas se Direito preventivo é uma coisa nova, Direito Preventivo da Família, então, é alienígena.
As pessoas sabem que, como advogado, a única área em que nunca quis intervir foi o divórcio litigioso, precisamente por considerar que o comportamento de todas as partes processuais excedia, em regra, o razoável, e arrastava-nos a todos para um lama kafkiana que a anestesia da rotina obnubilava.
Ora, recentemente, chocado como estava com o facilitismo das leis do divórcio (falo do "mútuo consentimento"), em prol de uma liberdade irresponsável tão em voga na nossa sociedade, deixei de os fazer assim, em dois dias (sem filhos), ou num mês (com).
Passei a implementar os ensinamentos de uma vida a compor e a mediar, a ensinar estagiários que o advogado se deve afastar do Tribunal, porque não é o seu meio natural, e porque no tribunal tem de lidar com tantos factores externos e imprevisíveis que garantir o que quer que seja ao seu cliente é um exercício desaconselhável de adivinhação.
Passei a ganhar muito menos dinheiro, mas a taxa de sucesso é brutal, e quando falo de sucesso falo, numa primeira fase, dos divórcios que não avançam, e, numa segunda fase, dos que avançam em paz.
A cultura e o poder em Portugal estão cheios de gente gorda (de vaidade e egocentrismo) e obtusa (definição de obtuso: o iluminado sem humildade), e, como vejo por conhecidos meus que agora andam na linha da frente, engole ou afasta os melhores, porque esses, os melhores, acabam por concordar que, para implementar o seu brilhantismo nos meios políticos, têm de jogar pelas regras vigentes.
O problema é que depois se esquecem, e desabafam que é tarde demais, e afinal até estão tão bem.
O índice do sucesso em Portugal ainda é a luz artficial, não a decência.
Estamos cheios de alienados.
(que fazem tudo para que sejamos nós, os que os apontamos a dedo, os doidos varridos;)
Créditos Fotograficos aqui

Novas da Praia outonal (repórter Bachelard)

Dois dias de chuva e o regresso à filosofia de Bachelard.

Seria possível uma vida coerente se a estação onde apanhamos o comboio mudasse de lugar todos os dias?

Nas praias de Gaia as ribeiras que desaguam no mar mudaram de curso, a fúria da água rasgou novos afluentes, deitou pontes e passadiços de madeira abaixo, descobriu centenas de rochas, muitas guardas de bambu de protecção às dunas estão por terra, o lixo acumula-se na segunda linha de praia, basta olhá-lo um minuto para perceber histórias inconfessáveis, sapatos, comida, bacias, cigarros, e não há engenheiro ou arquitecto que resista a uma chuvinha mais viva.

Está sol de novo, e as aves voam sobre as ondas.

Bachelard e a física quântica foram hoje correr sobre a areia.

Créditos fotográficos aqui

2009-11-15

Lobomago Sarantunes na intimidade

Não. Não conheço nehhuma Sara Antunes.
Para os mais estúpidos, Lobomago Sarantunes é um fusão não apostrofada do nome de dois escritores lusos (como gostam de dizer os brasileiros) residentes em Lanzaboa (não é preciso explicar esta, pois não?).


Confesso:

a minha pena tem galgado ondas melodramáticas de fazer chorar os paralelos das velhas ruas portuguesas, e eu estava convicto de que viria aqui escrever uma crónica épica que me exaltaria o ego e passaria simultaneamente a servir de apelo à paz interior de Lobomago Sarantunes.

Mas este nome fundido não me deixa espaço para tal.

Porque me faz rir.


Como eu não sou o Ricardo Araújo Pereira, embora tenha 1,93m (e eu aposto que ele não passa o metro e noventa e dois), como ele diz que tem, sei que não esperam que vos faça rir.

Seria de mau gosto.


Reflictamos:

costumamos ver Lobomago Sarantunes rir?

A sua parte esquerda sorri, a sua parte direita mostra os dentes ao Mário e à Judite em momentos de comunhão. Mas não ri.

O problema é que, antes de escrever este pobre contributo para a essência como a vejo, fiz um busca de textos recentes sobre o mesmo tema, e, excepto um que não é excepção (porque utiliza o calão para tentar parecer boçal e suave, mas acaba por tirar conclusões tristes), todos são iluminados, omniscientes e sentenciam.


Ora, a minha única hipótese de ser ouvido é assumir a minha burrice.

Não tenho qualquer cultura literária. Li Proust, Saramago, Tolstöi, Conrad, Lobo Antunes, Sándor Márai, Primo Levi, Dag Solstad, mas não tenho a mínima noção do que sejam, porque o que eu próprio sou não é suficiente para os arrumar em caixas lacradas.

A minha mulher diz que tenho sonhado alto e em fluxo alegórico de consciência, e que está preocupada comigo, incentivando-me a ler coisas mais leves, sobre vampiros, por exemplo.


Por isso, o meu único estímulo para escrever estas palavras é este:


Falar da intimidade de Lobomago Sarantunes.


Sou o primeiro escritor a falar de dois outros escritores lusos sem ser em conferências, encontros literários ou workshops, sem dever nada a político algum (sequer favores) e sem ter agenda.


Confesso, já que falamos disso, que gostava de organizar uma tertuliazita de escritores, mas estou a descobrir a forma de o fazer de forma autêntica e descomprometida numa aldeia de que nunca ninguém tenha ouvido falar.

Mas há uma condição primordial (minha):

que percebam que, na intimidade, nem Saramago nem Lobo Antunes estão particularmente preocupados com esta lenda urbana criada em torno deles pela baba mediática.


São suficientemente maduros e sábios - e falo dos homens e não dos escritores -, particularmente cientes da mortalidade e das coisas efectivamente importantes da vida para se não estimarem como seres humanos, ainda que não se respeitem como artistas.

Eu costumo olhar para os homens pelos olhos quem os ama.

Se não se acossa os solitários, muito menos se deve afrontar os amados.

Lobo Antunes por filhas e mulheres de sua vida, Saramago por Pilar.

Assim sendo, nenhuma frivolidade pode abalar rochas impermeabilizadas pela erosão do tempo e pela carícia das ondas que foram e vêm.


Ambos, obviamente, desprezam os palermas que tentam opiniar sobre o inopinável.


Consta que estes homens se desprezam e que nem vale a pena tocar-lhes na lapela com o carinho vigoroso dos velhos amigos (não por sê-lo, mas por sabê-lo), e dizer-lhes que há um país que os gerou e eles próprios vão gerando e os tem como as suas pernas direita e esquerda,
ou um insignificante escritor subterrâneo, moi même, os teve como mão direita e esquerda, e como já não usa pena mas teclas, e escreve com as duas mãos, sabe que Saramago está do lado esquerdo do teclado (só tem de ir buscar o eme com o dedo médio da mão direita), e Lobo Antunes do lado direito (só tem de ir buscar o á com o anelar, o tê com o indicador, o é e o esse com o dedo médio da mão esquerda),


sabe mas é irrelevante, o que importa é que começou a escrever com o fluxo de consciência de Lobo Antunes e as alegorias e frases limpas de Saramago, e se hoje parte temerário e temeroso para outras paragens, deve-lhes a unidade e a coerência que não se exibe sob holofotes nem se vende em lado nehum.


Lado nenhum, livro nenhum.

Já me disseram que eles de mim não querem saber, mas eu não acredito.

A sabedoria dos homens, não dos escritores, não o permite.


Como bandeiras de uma certa modernidade da nação, e como me parecia ridículo convidar o Cristiano Ronaldo para vir falar de literatura e da forma de voltar a olhar para quem escreve bem, e não só para quem vende bem, vou tentar:

Zé, António, de que forma poderemos dizer ao simplismo impresso que os homens não cabem nas folhas dos jornais nem nos ecrãs de televisão, e que os escritores não são barras de sabonete?


Subterrâneo,

2009-11-09

Tretas! (Ebook reader, um mês depois: tão bom como os outros)


Um mês depois, dou conta da minha experiência de integração de um leitor de ebooks nos meus hábitos diários.
Com eu esperava, a maior parte do que se tem dito e escrito por aí é um chorrilho de disparates e muita treta.
O que acontece à maquineta, que por acaso é leve, prática e anda no bolso dos casacões?
Para quem gosta de ler, é muito simples: é só mais um tipo de papel.
Agora, em vez de ler SÓ revistas e livros, passei a ler ebooks.
Ou seja, é só mais um.
Deixei de imprimir a maioria dos textos (os mais longos, os que exigem mais atenção), grande parte da internet, e tenho a vantagem de não gastar papel e tinta e de, ao mesmo tempo, ir lendo essa papelada toda sem parecer papelada, mas sim um suave e gentil livro.
Muitas vezes não nos apercebemos da quantidade de páginas que temos de ler na net, e do tempo e cansaço que isso representa.
Aconteceu-me recentemente: tinha de ler cerca de dez testemunhos em vários "sites", e adormecia todas as noites em cima do computador. Quando me lembrei de os passar para pdf, e para dentro do ebook reader, passei a ler os textos com todo o vagar (e prazer) e nos tempos mortos. E, espantem-se, aquilo equivale a mais de 80 páginas que, no computador, pareciam meia-dúzia. Fixo melhor o que estou a ler, tiro notas, etc.
E, last but not the least, fechar um livro demora tanto tempo como desligar a maquineta, mas abir demorará menos, embora a dita dispense marcadores, porque abre precisamente onde deixámos a leitura. A tendência é concentrar as leituras em menos "sessões",  embora mais prolongadas.
A dispersão de atenção por causa das redes 3G não é problema, porque este não tem, nem precisa.
Insisto:
chamar a isto "futuro" é um erro crasso.
É o presente. Vocês passam a vida a falar do tipo de papel deste ou daquele jornal, do lettering, da tinta, da grossura das páginas, do tamanho das letas?
Não me parece.
Então não sejam tão esquisitinhos, e deixem aquele discurso maneirista do "em vez de".
Isto não vem em vez de nada. Adiciona-se ao existente. É mais um.
Aliás, graças à maquineta, cada vez leio mais, porque dos textos que estão lá dentro tiro notas e referências, e passo muito mais tempo em bilbiotecas e livrarias em torno de livros tradicionais que me são sugeridos pelas eLeituras:).
E esta, hein?