2009-07-28

Uma lição














O termómetro da carrinha marcava cerca de 35 graus quando nos aproximámos da minúscula localidade de São Lourenço, não muito longe do litoral algarvio, mas o suficiente para se distinguir.
O resto é uma lição de civismo, aos pés da lindíssima igreja de São Lourenço (se quiserem saber o que é uma igreja Algarvia, não procurem mais), que por sua vez fica em frente a uma escolinha primária que deixa qualquer criança com água na boca.
Querem ficar esmagados com o carinho de um espaço que, gratuitamente e por obra da iniciativa privada de um casal de alemães (ele morreu há poucos anos. Cá. Mas Maria permanece. E faz.), promove concertos e exposições e ainda se tem a si próprio para mostrar, lindíssimos jardins repletos de magníficas obra de arte de grandes artistas. Na altura que lá fui, estava patente a exposição "bichos", da também grande Joana Vasconcelos.

Só o Centro Cultural de São Lourenço, uma conjunto de casas velhas recuperados como equipamento cultural por este casal de empreendedores, e do seu bolso, vale uma viagem de muitas centenas de quilómetros. É o mínimo para se testemunhar a excelência e a lição aos poderes mesquinhos deste país.
E não há forma de lidar com esta excelência, que se pega aos poros, senão com um sonoro Obrigado.

Obrigado Maria. Tu fazes.
Danke Maria. Du Machst.

2009-07-14

Uma longa Sexta-feira de Arrebatamento

A vida não é um filme, mas às vezes parece. Supera. Dizem que imita a ficção.
Em que lugar depositamos os sentimentos?
Se na vida falamos deles ou os exacerbamos, somos olhados de lado.
No Cinema ou em frente à televisão, pode ser.
Se metermos tudo em caixas bem rematadinhas, e tivermos o cuidado de as arrumar, ninguém se agita, está tudo bem.

Pois eu vou dessarumá-los todos sobre a mesa.

No dia 10 de Julho tudo começou poucos minutos depois da meia-noite com uma mensagem decifrada do Anjo a Norte, cuja essência se solveu na minha tantos anos depois.
Prosseguiu com sinais entre mim e o ecran do computador, em busca do equilíbrio do dia seguinte.
Deitei-o.
Deitei-me.
Deitada.
Acariciei-lhe os cabelos, como sempre.
Fiquei-lhe junto da pele, desliguei a televisão e adormeci.

Como sempre.

Acordaram-me antes da hora e deram-se-me.
Rumei a Miramar, deixei-o, depois fui sozinho para Francelos, deixei-me.
Chegaram mensagens em catadupa, chamadas em catadupa, quase tudo ao mesmo tempo, à porta da minha rua. Debaixo da minha árvore.
Depois fui voar.
A praia estava perfeita, o ar no peso certo, o sol sobre as pestanas, eu voando sobre a areia.

Como sempre.

A professora ao meio-dia, com palavras no olhar, trinta e um anos depois.
Falei-lhe de tudo, agradeci, bebi o café de saco e comi os bolos de pão de ló de Ovar, agradeci, vi-a chorar a morte do seu menino, agradeci, e depois quis falar-lhe dela. Da tal que me andava no peito ia para o mesmo tempo.

É assim, professora, de nada me lembro senão da Garça e do seu traço de luminosidade, um sorriso é um gesto?, seria um movimento de lábios que só não me cegava porque havia demasiada sombra nos outonos e invernos, ela era o astro, o único astro,

É assim professora: tenho saudades dela, muitas saudades dela.
Veio-me pelo braço até à carrinha, disse até sempre, fiz dois telefonemas e a meio da tarde fiquei com um pé no presente e outro no passado, os mesmos trinta e um anos de abismo no meio de mim, mas a amiga de volta, a mesma que dançava todas as rodas de todos os dias de todos os círculos do meu pensamento, voltei à metáfora do filme, estava em câmara lenta com o sorriso suspenso e a batinha branca planando no meu pudor, está aí. Estás aqui.
Que bom que tenhas vindo, finalmente.
E logo hoje.

Antes, tinha almoçado com o rapaz que me ouve.
Que me ouve tudo e ainda pergunta mais.
Como pode? Não existem dele hoje.
Tenho tanta sorte.

A noite ia começar a fechar-se, mas saí com o filho pelo asfalto e tinha de ser cedo o pavilhão de voleibol, porque o foi cedo também na vida, havia lanternas na alameda, é o mesmo que dizer que me alumiaram elas todas, principalmente três, e eu precisava de uma inundação prévia, algo primordial, de surpresa, antes que fosse dobrado o meu cabo.

Voltei pelas primas (primeiras) que podiam não estar, e estiveram afinal, estive também, estive por dentro e por fora, e quando cheguei ao meu pátio já estava em suspenso, e não consta que tenha voltado ao chão.

Começou cedo a noite com os amigos da manhã da vida, o manto seráfico a cair sobre o cimento, eu sempre a um metro do chão, e depois sufoquei, sufoquei de tudo o que a vida me quis dar nestas décadas, sufoquei dos sorrisos que vieram claros, sufoquei da amizade que sentia nas peles, de algum amor que transbordou sem querer, a saudade, raio de saudade que nos atropela o olhar e torna trémulos os lábios, não chorei.

Não chorei a noite toda, e quando chorei ninguém viu, foi uma lágrima por dentro do fim do vídeo que entretecera dias antes, parabéns a todos vocês, a história de mim feita pelas imagens deles, como tinha de ser.

Estive distante, quase de fora a ver a minha sorte, os amigos, as amigas, a mulher e as mulheres da minha vida, o filho e os filhos das minhas palavras, fluía a música de ontem, a música deles, na rua havia quem ouvisse o mar, o mar de hoje que subia pela rua dos bombeiros até nós, molhou-nos os pés de espuma salgada, quase todos se deixaram ficar na praia, ninguém partiu.

Abri o bolo, e passado um bocado expus-me. Despi a camisa.
Dei-me a todos e, sei-o profundamente, a tudo.
Quem és tu, miúda?
Anda comigo ver os aviões, deixa que a brisa os leve de volta.
Debaixo da ramada da videira cantei a Lenda das Rosas porque me desafiaram, eu sem saber a letra, eu sabendo o poema,

disse o poema todo

Na mesma campa nasceram duas roseiras a par
e enquanto o vento as movia, iam-se as rosas beijar

O sol reapareceu, como eu pedira, mas nada ficara de pé.
Começou a despenhar-se na morrinha
que havia de ser eu

(chorando, horas antes).

Jamais me levantarei desta longa sexta-feira de arrebatamento.
Jamais me quererei levantar.

Morrerei feliz só com a película da morrinha que me sustentou o peito

e me suspendeu sobre a noite

até eu próprio cair sobre mim

com o húmus de todos os que me fizeram assim.

2009-07-10

40 (um beijo meu e mais vida)

Hoje quero ser frugal. Pouco mais de um beijo.

Tem sido uma aventura quimérica até aqui.

Doce, brutal, bonita.

Ser marido e pai são as maiores realizações altruistas vida.

Ser escritor é finalmente a implementação prática de toda a minha essência.

Gosto das rugas e dos cabelos brancos, não gosto tanto das dores no corpo, mas desacelerar também nos faz ver coisas novas. O tempo que pensávamos não ter, por exemplo.
As pessoas que pensávamos perdidas para sempre.

Estou com vontade de ir até ao fim da linha feita média. O dobro, pelo menos:)

E neste dia tenho que agradecer a dois tipos de pessoas:

Aos que gostam de mim e aos que me respeitam.

Um enorme bem-haja a todos.

Pedro Guilherme-Moreira

2009-07-07

Um chá tomado por fora do corpo (Algarve)

Em que estás a pensar?, pergunta por defeito o Facebook.
Às vezes essa tipificação provoca! E quero responder:

Sempre ouvindo "Os Azeitonas", penso na película azul que nos envolve de calor, como um chá tomado por fora do corpo, que é o Algarve, e que eu aprendi a cultivar como o zerar de corpo e alma. Para lá chegar, tenho a secretária cheia de processos para limpar, e durante uma semana pararei de ler, de escrever, de investigar, quase de viver. Só uma semana!.Mas tenho sempre as corridas diárias na praia...e Sexta, o 10 de Julho, data em que sempre me senti especial, mas a que só dei uma importância íntima. Esta ano está-me a extravasar. Às vezes vou-me abaixo das canetas, não sei se aguento estar tanto tempo cá fora, exposto, mas está a ser delicioso.

Venha Sexta, e depois, algures na semana que vem, venha vagarosamente o chá tomado por fora do corpo!

Créditos fotográficos: a foto consta do post The Sky Is The Limit, Posted on February 10th, 2009 by Shawn Kung

2009-07-05

Jorro de luz à entrada da magnífica semana - 10 e 40 anos

Hoje, às 17:35h, faz dez anos certos que sou pai.
Nunca escrevi publicamente prosa alguma sobre isto (escrevi poesia, vá lá), mas esta não é uma data qualquer. Estou profusamente feliz.

Ontem andava pelo shopping quase deslumbrado com cada pessoa que se cruzava comigo, pensando que algo de estranho se passava comigo. Não é normal achar toda a gente bonita. É mesmo perigoso. Mas era isso que sentia. Estou convencido de que me assaltava a felicidade pura, que afinal só existe nestas embalagens de momentos, não pode ser permanente. E por saber disso deixei-me estar no jorro de luz.

Em cinco dias perfaço quarenta anos, e antes que seja tarde, deixem-me que vos diga o ano magnífico que tem sido.
Costumo dizer que sou pobre de bolso, mas opulento de espírito.
Sou caso provado de que o dinheiro não traz felicidade, e se a falta dele não a concede automaticamente, a noção do seu carácter perfeitamente acessório ajuda bastante.
Viver economizando ódios e canalizando essas energias negativas para enfrentar a incompetência e a desonestidade, porque não há dúvida de que é duríssimo ser decente.
É preciso uma atenção constante, uma aposta na busca da lucidez, mesmo contra os que temos como modelos.

Finalmente, sendo contidos e respeitosos, deixemo-nos de merdas.
Pelo menos a partir dos quarenta.
Basta a vida anterior para as incertezas de estatuto.
Os quarenta, não dando garantias de respeitabilidade, dão ao menos aquele apriorísitico estauto do maduro. É a idade zero para a reclamção da maturidade, com a consciência plena de que se reclama um posicionamento social, e que isso não nos livra do perigos de infantilidade até à morte: chifres em parlamentos, por exemplo.

Deixemo-nos de merdas, porque está na hora de dizer a todos as coisas boas que lhes pertencem sem resguardo.
Sem receio do que possam pensar, ou do sentido da sua aceitação.
Se essa entrega criar anti-corpos no interlocutor, paciência.
Um dia ele vai querer a palavra branca e não a vai ter.

O mais certo é contagiarmos os outros dessa coragem e dessa bondade.

Hoje, às 17:35h, faz dez anos certos que sou pai.
O meu filho é talvez do outro mundo, agridoce como são os melhores, e as corridas pelo pátio à meia-noite e trinta dizem-me que é feliz, o braço sobre o meu pescoço mostra-me a bússola que me guia, e eu já não preciso que me digam como sair.

Estou cá bem. Fico para sempre, se me deixarem:).