2008-01-30

21 ANOS

Antes lá estava o cabelo e a estação e os comboios eram onze da noite, a camisola vermelha e a tua cara de seda, o teu desprezo e o teu beijo,
depois listas telefones, a corte, o dia e um paredão com um farol fechado
e um farol sem barcos e barcos sem ondas e saliva sem mar
E depois ainda a praia os corpos o pudor a roupa e a aprendizagem
do amor
Os anos passavam e eu vogava sem forma

permanecias

Fui a Coimbra e à solidão e à lonjura, nunca subi à cabra perdido nos olivais, depois no quarto, um quarto andar da baixa, um parolo americano a devorar o mandarim, eu jurei no Internacional, tracei a capa que tu rasgaste de alto a baixo, o Torga comigo no trólei
um dia o Torga morreu e eu
fiz um poema a descer Corpo de Deus, a mesma rua em que acabei
tudo

permanecias ainda

Comprei a toga, provei o fel soube do escravo, fiz de David e nem gigantes
Chorei a toga e veio o dia do casamento, estavas de luz incandescente ou sol ou lume
fomos perdidos fomos sorrisos fomos Veneza
depois voltamos, estive por casa,

permanecias mais.

Fiz o caminho sempre por dentro, escolhi clareiras nunca veredas, tu estavas lá engravidámos e fomos ventre comum e nem que o milagre se replique na eternidade
É o começo do outro conto, estás do avesso estou do avesso lido com verso cresci
Cheguei ao filho e à casa e aos vapores das oito da noite e ao jantar e à roupa que me passas a ferro e tenho sonhos de velhice

permaneces maior.


Pedro Guilherme-Moreira
2008-01-30

2008-01-22

Um Almoço Iluminado (pelo senhor Yokozuna)


Tenho de começar por dizer que me penitencio, à cabeça, por ter deixado a bateria do meu Nokia 6630 ter acabado em pleno dia. Embora tenha consciência de que tal não tem perdão, ainda assim espero remir esse pecado com a sua denúncia pública. É que é inocente, nos dias que correm, esperar que as pessoas cumpram os seus compromissos “à la longue”, ou seja, que combinem as coisas com a estúpida antecedência de uma semana, sem passar o resto da dita a

confirmar a coisa por email e telemóvel.

Efectivamente, eu tinha combinado a semana passada, numa certa pizzaria junto ao mar, onde se comem umas belas pizzas que começam nos 33cm, e embora toda a gente saiba que essa medida é de respeito em qualquer ambiente e função, apoucam as ditas por serem as mais baratas, e acabam por se surpreender com o tamanho, que nestes casos conta. Ora, como dizia, tinha combinado nessa pizzaria e nessa terça-feira tempestuosa repetir o almoço na terça-feira seguinte, com as mesmas três pessoas, que ainda por cima eram todas da mesma família, tendo tal sido proposto pelo patriarca e confirmado aos filiados (os outros dois eram filhos dele).

Hoje cheguei às 13:20h e não havia sinal dos três. Ou eu os tinha perdido, ou o patriarca tinha dito que se estiver um sol radioso não há almoço (e estava um sol radioso) ou estavam simplesmente atrasados. Peguei no telemóvel, tentei ligar a um deles, mas o telemóvel morreu-me nas mãos. Tentei reanimá-lo desesperadamente, esfregando vigorosamente na bateria, mas nada. Sabia-me desde logo o grande culpado, não só por ter ido a um almoço que fora combinado de boca uma só vez, mas por não poder atender todas as chamadas que me estavam destinadas pelo resto do mundo. Nessa tarde, como esperava, aturei a justa ira de muitos amigos que me queriam do outro lado do telemóvel, mas, curiosamente, nenhum dos três me havia tentado ligar.

Mas voltemos ao almoço iluminado.
Às 13:30h entrei para a pizzaria e comecei a imaginar coisas. Pensei que os três, que negoceiam intensamente com o Oriente, poderiam estar encravados numa absorvente reunião com um japonês qualquer chamado, por exemplo, Yokozuna, e esse pensamento, talvez por causa do fervor religioso do Senhor Yokozuna, certamente partidário de umas das duas religiões oficiais do Japão, o xintoísmo ou o budismo, promoveu o senhor Yokozuna a consciência omnipresente no resto do almoço.

Com a mediação do senhor Yokozuna, resolvi pedir o mesmo Tortelini alla panna, e dar início à reunião, porque a ausência física dos três era um mero argumento demonstrativo da minha má vontade quanto a reuniões, como me segredou o senhor Yokozuna, eu que tenho a mania de ostentar a estúpida máxima de que “só reúne quem não quer fazer”.
- Meu caro – disse ele - se a reunião fosse comigo, certamente era física, e tinha começado no aeroporto, onde estou acostumado a ter, pelo menos, uma passadeira vermelha psicológica. Mas quem é que o meu caro pensa que é? Alguém?

O senhor Yokozuna tinha toda a razão. Não era legítimo da minha parte, que não sou ninguém como o Romeiro, esperar que as reuniões ou os almoços combinados aconteçam com a presença dos convivas.

Surpreendentemente, a reunião e o almoço foram perfeitamente esclarecedores. Tive a oportunidade de expor todos os meus pontos de vista e argumentos sem quaisquer interrupções ou comentários de qualquer um dos três. Ora, embora os comentários deles sejam sempre informados e sabedores, porque todos os três sabem da poda, e eu não, e apesar de me estarem sempre a lembrar disso, a verdade é que nunca como naquele momento as minhas ideias ecoaram pela sala de refeições e interessaram a tanta gente, porque, verdade seja dita, todos me olhavam de viés, mas olhavam.
- Não se preocupe, disse o senhor Yokozuna, é inveja!

Ora, graças a este iluminado japonês eu tive a oportunidade de perceber como era egoísta e centrado no meu umbigo, sem me habituar a levantar a cabeça e a olhar o mundo e a considerar os outros.
Pensava demais, reflectia demais, e a verdade é que as coisas devem ser mais empíricas, devemos viver a nossa vida olhando-nos bem de perto e desviar menos a cabeça para os outros. O nosso umbigo está acima de tudo, e mais ainda o convencimento de que somos capazes de ter um distanciamento objectivo de todas as questões.

Por isso, eu fui imprudente quando compareci ao almoço, pensando que, porventura, era mais do que o senhor Yokozuna na esfera dos três. É por isso que fiquei sozinho, como o louco, e que a maioria tem razão. Não há coincidências nem incumprimentos colectivos.

Hão-de dizer-me que só fui porque não tenho nada para fazer, e a verdade é que o que eu tenho para fazer não é assim tão importante como o que eles têm para fazer. Hão-de dizer-me que sou muito complicado e me vitimizo, e é verdade. Que sou egoísta e maniqueísta, e é verdade. Afinal, não tenho nada para fazer, mas sou muita coisa junta. Falta-me o sentido de humor cáustico, aquele que ataca os outros nos seus aparentes ponto fracos, mas tenho poder de encaixe. Sou muita coisa junta, e tenho poder de encaixe!

Deus ou Buda me dêem agora suficiente humildade para saber pedir perdão pelas minhas faltas. Perdão!

Um momento.

O senhor Yokozuna está aqui a dizer-me que ainda sou capaz de ser perdoado por ter comparecido a um almoço combinado à moda antiga, mas que não há perdão em nenhuma religião moderna ou milenar para o facto de eu ter deixado a bateria de um Nokia ter acabado. Diz-me ainda que Buda vai contemplar na penitência por ter sido um telemóvel finlandês a pifar.

Houvera sido um japonês e ia a trabalhos forçados na outra vida.

Pedro Guilherme-Moreira
2008-01-22
PS: Junta-se factura do almoço :)!

2008-01-01

2007 PORTO 2008


Nascido há quase quatro décadas num pequeno quarto com vista para a Rua de Cimo de Vila, o Porto sou eu desde sempre. Senti, pois, na minha carne a presença do ponto de intersecção com o destino quando, depois deste tempo todo, cumpri um sonho que afinal estava tão difícil de cumprir ao pé da porta: passar o ano nas ruas da cidade que me viu nascer.
Ontem tudo se compôs para um momento perfeito.
Já presenciei muitas festas nos Aliados, e nunca vi tanta e tão boa gente como ontem. Os dois lados da Avenida estavam cheios como um ovo, um mar de gente como eu ia dizendo ao meu pequenito, que, fascinado com tal cenário, insistiu durante toda a noite: “Vamos para o meio do mar!”. Preferi navegar ao largo, por ruas e vielas, Sampaio Bruno, Almada, Fábrica, Ramalho Ortigão, cruzar a respiração com gente de todos os tipos e feitios, ricos e pobres, tímidos e desassombrados, grandes e pequenos, eram tantas e tão calorosas as pessoas na noite fria, que os minutos se davam a pequenos equívocos, como aquele em que dois homens, olhando-me do fundo da rampa de Magalhães Bastos, ali ao lado do Banco de Portugal, eu que dizia por gestos aos meus que não, que não se metessem no coração dos Aliados, ou do mar, se intimidaram com o meu casaco tipo-GNR e a pose em consonância, e me perguntaram:
- Não se pode, sô guarda?
Pode, pode, respondi eu, sem sequer os tirar da ilusão, e cuidei de descer até aos pés da Praça para o dez, novo, oito, a maior árvore de Natal da Europa é que decresceu a contagem, dez círculos em volta desde a base até ao topo, belíssimo!, sete, seis, cinco, e eu que nunca tinha visto uma garrafa de champanhe na mão de cada um, milhares de garrafas e copos de champanhe que se haviam de beber, umas, quebrar, outras, molhar, outras, quatro, três, dois, um, agarra bem as doze passas na mão, que vais engoli-las, e estamos em dois mil e oito, explode a turba de alegria, começa o fogo de artifício, e durante aquele quarto de hora encantado nota-se uma leveza resoluta em cada alma, o povo ainda está demasiado optimista, é hora de aproveitar o embalo para um grande ano. Sinto nas costas a Ordem do Terço onde nasci, lá no topo de São Bento, nas faldas da Batalha, olho o calor sinto a beleza que radiodifundo, desde a “Porto Liberty Square”, o desejo do melhor ano para todos em todo o mundo! Voltei, claro, do que sou ao que serei, invicto, verdadeiro, mui nobre e leal.
Pedro Guilherme-Moreira
1-1-8