2004-08-31

SINTO MUITO, JOÃO LUÍS

(muitas vezes respiro com a ponta dos dedos. Teclo lágrimas. A notícia da morte do João Luís Lopes dos Reis ofereceu-me uma noite em branco. Também me apeteceu o silêncio, mas o respeito é o mesmo com estas palavras, que não consegui evitar.)

Muitos amigos, mas principalmente inimigos, me desaconselhariam a escrever sobre -muito menos para- o João Luís Lopes dos Reis, meu colega advogado.

Mas mesmo que a minha pena seja infame, mais infame é a madrugada longa que a sua súbita e inesperada morte me trouxe.

Há pessoas que, até por pudor, prefeririam calar-se, pura e simplesmente calar-se.

Eu, e por isso peço desculpa, nunca.

Nao sei ser hipócrita.

Respeito que valha a muitos, mas o silêncio de nada me vale a mim, neste momento.

Acredito bem que uma morte destas não pode servir para nada, mas serviu-me a mim para, mais do que nunca, perceber ainda melhor como podem ser fúteis os motivos que levam as pessoas a virar costas umas às outras.

Acima de tudo, serviu-me para confirmar que nem sempre é o amigo do peito que nos forma, e informa, um modo de ser.

Hoje só me lembro de um dia ter estado parado à porta do seu escritório, hesitando subir para o convidar para um café.
Até era provável que o João Luís não me recebesse.
Mas eu também não sentiria o arrependimento que sinto agora.
E teria tomado esse café, nem que fosse sozinho, a vociferar contra ele, como tantas vezes fiz.

E quantas vezes o fiz, quantos passos dei à frente.

Colando diversos pedaços a reluzir o seu sorriso, compondo com as palavras que os seus amigos sempre lhe guardaram, estou hoje certo de que me receberia com um sorriso, e, entre uma ou outra piada certeira, desdramatizaria de imediato episódios menos felizes que protagonizei.

Cada vez mais estou mais convencido de que devemos ceder (sempre, ou quase sempre) aos nossos impulsos positivos.

Mesmo que isso signifique, aparentemente (sempre aparentemente), que na altura estamos a conceder na nossa dignidade.

O Joao Luis era brutal.
Brutal no seu brilhantismo intelectual, e também brutal nas palavras que muitas vezes escolhia para o expressar.

Estranhamente, contudo, o efeito produzido pelo que dizia, mesmo quando se enganava, era sempre positivo no longo prazo.

Aconteceu comigo.

Afinal, ele foi o único de quem guardei praticamente todas as mensagens da Ciber.

O que a seguir vou dizer é uma sobre-exposição da minha intimidade.
Hesitei fazê-lo, mas a memória deste Homem nao se compadece com estas dúvidas menores, nem com o fútil receio de ser mal interpretado pelos meus amigos.

O João Luís Lopes dos Reis é o principal responsável pelo que posso ter crescido no último ano.

Como ponto ou contraponto, o João Luis estacionou na minha alma como uma referência, algo que não me acontecia desde a adolescência, em que esse papel era desempenhado pelo meu pai.

Pode parecer desproporcionado dizê-lo hoje, e até estranhamente adequado à ocasião.
Mas asseguro-vos que vem das entranhas, não da oportunidade, e sabe-o quem me conhece bem.

Sempre tentei ser exigente comigo próprio, mas desde que me cruzei com o João Luis, essa bitola foi elevada em muitos pontos.

Nao sei se algum dia conseguiria ser seu amigo (desconfio bem que sim), mas devo-lhe este agradecimento, que, sendo agora público, não é póstumo.

Ao menos aí, tive a sorte de trocar com ele, há poucas semanas, algumas palavras pacificadoras, e de saber, por uma amiga comum, que afinal ele não duvidava da minha essência, por mais que sentisse uma natural antipatia pela aparência.

Nós, os homens, somos um pouco assim.
Nem só no estádio insultamos o árbitro.

Penso que eu e o João Luís teremos sido, numa determinada altura, saco de boxe um do outro.

O que hoje, sinceramente, só me honra, porque sei como ele não era muito dado a perder tempo.
E em nada me perturba.

A vida é mesmo assim.

Se, na altura, houve sofrimento de parte a parte, tudo acabou naturalmente sanado.
Como deve ser.

O tempo deve fluir para reduzir ou engrandecer o que nos pousa no corpo.
E ao ser violenta assim, a vida só nos ensina a não perder esse tempo com insustentáveis levezas.

Uma coisa é certa:

Depois de tantas pegas, externas e internas, com ele e comigo, carimbos dos nossos dias e das nossas noites, sei que vou ter saudades, muitas saudades, do João Luís Lopes dos Reis.

A última certeza é a de que ele nos está a ler a todos, sem conseguir evitar a lagrimazita que sempre transformou em riso.

Depois da surpresa de confirmar a sua existência, em que dizia não crer, tem agendados alguns debates com Deus e com os santos, debates duros e densos.

Próprios de uma justiça superior, que sempre almejou em terra, e com que agora convive algures.

Antes era só um Homem, hoje mistura-se com os astros.

Pedro Guilherme-Moreira
2004-08-30




2004-08-27

O comodismo do Trabalho

Dizer que se trabalha, ou tem de se trabalhar, também é cómodo, para muitos;
Deixar-se ficar preso ao trabalho, também pode ser comodismo;

Ganhar espaço para o que é essencial na nossa vida, exige sacrifício.

Para mim, era mais cómodo ficar a trabalhar de sol a sol.
Não é o que faço.
Todos os dias faço um tremendo sacrifício para ganhar espaço para os meus, mais até do que para mim.

Tudo somado, é um prazer viver assim.

Claro que este raciocínio só se pode aplicar a quem tem a independência para gerir o seu tempo.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-08-27

2004-08-24

O SACRIFÍCIO DA FELICIDADE

Hoje apetece-me apenas sangrar a alma por décimas de segundo.

Para dizer que o que ela me diz é que está errada a novíssima ideia feita de que é impossível ser-se feliz, já depois de há séculos ter caído a convicção de que a felicidade era perfeita.

Para dizer que ser totalmente feliz não envolve a permanência perene do estado de candura e plenitude.
Para dizer que é essencial lutar pela felicidade, e que não é incoerente com ela essa necessidade de sacrifício.

Para dizer que a felicidade é uma realização, uma vitória, e não uma graça.

Para dizer que a tristeza é essencial ao feliz. Ao ser feliz. Ao estar feliz.

E se, afinal, a felicidade já não é cantada pelos poetas, não é apenas porque ela deixou de ser um conceito redondo.

É também porque, no início do século XXI, há alguns doidos que dizem que para se ser feliz, basta não estar triste de vez em quando, basta ser modesto na aceitação da vida.

Foi sempre mais fácil cantar a falsa dor hiperbolizada, do que o amor seco, feio, banal e real, que é o mais perto do divino que podemos ter.

E esse amor simples, seco, feio, banal é ela mesmo: a felicidade.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-08-24

2004-08-02

AFONSO por carreiros e ladeiras

(Pelo nascimento do filho de um amigo, muito esperado, e anunciado com grande pompa à comunidade Forlegis)

AFONSO por carreiros e ladeiras

No espaço vago da amizade
Que levamos em circuitos
E nos sulcos dos ecrãs

Houve uma espécie de amigo
que são muitos e nenhum
que adivinhou em silêncio
uma curva na barriga

como se fosse
um carreiro interminável
para esta carta
sem papel

Sem papel
revelámos-te a emoção
que em cada espaço cresceu

e, nesta sala comum,
demarcada em cada olhar,
foi detonada a brilhar

mesmo nas lágrimas tácitas,
pai Nuno
mãe Coragem

Afonso em ti, apesar
da beleza te deixar
uma forma mais divina,

vai descendo esta ladeira
vem a nós a vida inteira

ser amado
e lambuzado:)

foi o teu herói que quis
ao esquecer-te no colo

da essência do Forlegis.

Pedro Guilherme-Moreira

(...com a licença de todos os forlegistas,
no primeiro poema comunitário...)

2 de Agosto de 2004