2004-04-05

O GRANDE EX-FUMADOR

Apercebi-me, na esplanada ribeirinha de Gaia, não fumando o cigarro que outrora me fazia uma nuvem ao olhar, e me transportava para trás, para mim, para dentro...apercebi-me do tamanho dos ex-fumadores.

Sou um confesso. Confesso que nunca pensei sê-lo.

mas deixar de fumar não são só duas merdas, afinal...

Deixar de fumar é obra.
Pode ser um quadro a ser pintado, pode ser um prato a ser cozinhado, pode ser um livro a ser descrito, ou deslido, que eu sempre escrevi fumando, que eu sempre vos li fumando. Sempre fumei as letras todas.

E agora?
Pego no jornal, semi-cerro o olhar, estendo-o para lá dos rabelos, estendo-o para lá da torre, retorno ao jornal.
Por esta altura, devia estar a brincar com o maço de tabaco, arranhando-lhe a côdea, apalpando-lhe a massa.
Por esta altura, se tivesse isqueiro (se não tivesse, aqui d'el rey, que me apalpo da cabeça aos pés!), estava a estalar a pedra e a fazer fogo, uma vez, duas vezes.
Pegava no tubinho, naquele malvado cilindro branco, sentia-lhe o filtro, olhava o primeiro título, estendia-me para os rabelos, ajeitava o cabelo, ficava-me no companheiro de mesa, sorria, usava a concha das mãos para o abafar do vento e TRÁS (!) ....fogo...incandescência....fumo, fumo, pequena cortina, um bufar para longe...e o corpo a abandonar-se de si, "isto é tão bonito!", dizia à companhia, que já lia, e

caía no texto, começava a história, alçava o cigarro fumegando para o céu, e só lá voltava dois minutos depois.

Talvez fechasse os olhos, entre os rabelos, o jornal e a torre.
Às vezes, fechava os olhos, quando sol era de inverno, quase frio, às vezes não, mas nunca os abria totalmente, ficava naquela modorra, a ler

a fumar
a viver

Fosse ali, fosse na obscuridade de qualquer café com que me cobri nos útlimos dezoito anos, fumava vivendo.

Bem me sabiam, o raio dos cigarros!

Hoje, porque é difícil lixar um prazer assim (caramba, daqueles eram meia-dúzia por dia!), mas é fantástico perceber o ganho em cada centímetro da vida, tenho necessariamente de me guindar a um grande ex-fumador, pedindo a todos os fumadores, não o desprezo, não a inveja, mas uma rotunda salva de palmas a todos os que fazem assim.

O mais engraçado é que é nos fumadores que eu ainda vejo a minha raça (falando de uma forma idiota e generalizando o impossível), calma, prazenteira, ponderada, muito pouco radical, sempre pronta a aplaudir quem larga o clube. Os Homens e Deus lhes dêem espaço para mais uns dias, para mais uns bons cigarros.

No próximo capítulo, falar-vos-ei no outro acordar, na lenta transição, no que não é nada difícil, no novo hálito, na nova frescura física, no ganho de tempo e na independência de nós próprios, no ar a entrar e a ficar.

Que é melhor não fumar, é.
Mas fumar também era bom.

Ó pra cima, a ver se não!:)))

Pedro Guilherme-Moreira
PS: Para registo, foi no dia 25 de Março de 2004, e era Lucky Strike...ficaram 15 no maço. Ainda lá estão.

CARTA AOS TERRORISTAS

Cá no Ocidente costumamos começar as cartas que escrevemos com um vocativo em sinal de educação e cortesia.Não vai esta carta com o dito porque aquele que eu acho que mereciam não se escreve nos jornais.

Escrevo-vos esta carta por raiva , daquela raiva feita de indignação , de espanto e de horror. E também para vencer o medo que se instala nas nossas vidas depois de mais um atentado . O medo que planeais com requintes de maldade e com precisão quase científica. O medo de que vos ris , que vos incita e vos encoraja , numa espiral sem fim , a mais um massacre, metódica e friamente estudado.

Imagino-vos a ler nos jornais , ou a ver nas televisões , os efeitos dos vossos crimes : Bilbao, S. Sebastian, Jerusalém, Gaza, Nova York, Bali, Casablanca , Bagdad , e agora, Madrid - que isto de terrorismo não é como o colesterol , que o há bom e mau. Imagino-vos a todos - sejam Eta, Ira, Hamas, Al- Qaeda ou Brigadas seja do que for - sem uma réstea de compaixão, sem um sinal de racionalidade.

Imagino-vos a planear mais um massacre e a antegozar
a insegurança que , humana e justificadamente toma conta dos nossos dias, tolhendo-nos a liberdade e fazendo-nos recear o futuro. Imagino-vos – não imagino - tenho a certeza de que sois loucos à solta , que não sabemos onde estão, mas que parecem estar em toda a parte , financiados não se sabe por quem, assinalando em mapas de horror o tempo e o modo como dar cabo da humanidade.

Não há ciências humanas que expliquem e justifiquem o genocídio , seja qual for a autoria. Como não há Israéis , Palestinas , Sharons , Bushs , petróleo ou independências que expliquem a cobardia e a infâmia do massacre de gente que teve o azar de, numas certas manhãs , se encontrar nas torres de Nova York , num autocarro em Jerusalém , numa rua de Belém ou apanhar o combóio na estação de Henares de Alcalá ...

Julgais, por certo, que foi o medo de “Atocha” que mudou o Governo da Espanha . E que , por medo , também, Zapatero anunciou “ nem mais um soldado para o Iraque”. Desenganai-vos. O governo mudou de cor em Espanha porque os espanhóis se sentiram aldrabados e porque são um povo livre. Zapatero não vai cometer o erro de vos dar a ilusão de que o povo espanhol cedeu à vossa chantagem.

E se pensais que , quando nas praças da Europa , milhões de pessoas se insurgiram contra a invasão do Iraque, o fizeram por simpatia por Sadam ou por medo de vós, ficai sabendo que foi por causa de Bush se julgar dono do mundo e do seu petróleo. E se hoje , em Espanha, e em outros países , há muitas vozes que se levantam contra a permanência dos americanos , ingleses, italianos , uns tantos polacos e uns pouquíssimos e simpáticos portugueses no Iraque , ficai sabendo que não é por medo de vós – mal de nós se fosse- mas por saberem que o que está e como está no Iraque não leva a democracia nem a paz nenhuma.

E, já agora , se tendes notícia de que em Portugal também há gente – e muita- que se manifesta na rua contra a presença de forças portuguesas no Iraque e contra o seguidismo dos nossos governantes, ficai sabendo que não é por medo de vós , mas porque quer deitar abaixo o Governo...

E , se chegou ao vosso conhecimento que por cá há quem defenda que se deve dialogar com terroristas , ficai sabendo - embora isso não vos importe -que eu acho que , em matéria de terrorismo, não há amnistia nem perdão, não há , como dizemos no mundo do direito, transacção.

Luisa Novo Vaz- Viana do Castelo, 21 de Março de 2004