2004-02-26

À GLÓRIA - Matar e Morrer - Parte II (Epílogo)

A dor recata o olhar, a dor comprime a couraça que usamos sobre o peito, e o luto é vivido por cada um
dentro de cada um
fora do mundo
dentro da vila
fora de nós
dentro dos outros.

A Glória, contudo, vai perdoar o despudor de lhe prestar a homenagem perante um público segredado de amigos.

Já tentei fazer o desenho do meu luto, peguei nas lágrimas e usei-as um bocadinho, peguei num esgar e abusei um bocadinho, e a cada telefonema pesaroso só consigo responder a cru com o meu sorriso.
E os outros desmancham-se, fazem de mim um vaso de cristal.

E eu a convocar as memórias e a rir-me. E depois de me rir muito, só aí, em êxtase, dou sentido a um par de lágrimas.

Escrevi em Novembro:
"Os olhos da minha avó contêm a sua imagem de há cinquenta anos, agarrada a uma corda com vigor, enquanto o corpo se desmorona em volta. As palavras demoram a chegar-lhe ao lábios, tudo se processa com mais lentidão. Está velhinha, tem quase 90 anos, mas, como todos, sem excepção, naquela sala, liberta uma luz fina do olhar onde se pode ler "Eu ainda estou aqui. Eu ainda sou eu." Há apenas que ter paciência, uma paciência terna, há que saber esperar pelos nossos velhinhos."

Pois. Anteontem, no dia de Carnaval, feliz entre os meus esteios, recebo um telefonema sombreado de um irmão.

Queria dizer-me que a avó já não conhecia.
Que lhe caíra o entendimento nos ladrilhos, e que vivia só por dentro dela.

E a minha mulher, na sua grandeza que não é por estar atrás de ninguém igual, diz que vamos já.

Vamos já reconhecê-la viva.

Cheguei lá e o corpo afinal já jazia.
Vivia, é verdade, vivia serena sob drogas, mas o corpo não comunicava.
As mãos estavam amarradas com uma fita de pano a cada lado da cama.
"Que ela esteve muito inquieta, que assim se atravessava na cama e se magoava."

Este país amarra as pessoas para as proteger.
Não disse uma palavra, mas o meu olhar moveu a criatura que explicava desde a porta a teoria da amarração.
O meu olhar libertou a minha avó.

Cheguei-me.
Ela abiru os olhos azuis, mas a luz fina que falava estava muda.
Ao olhar-me, olhava-se a si, não me podia ver.

Quando me despedi, foi um Adeus.

As máquinas deste mundo bem podem enganar-nos, mas não a luz fina quando emudece.

Passou o filme da jovem Glória, belíssima, de olhos azuis que mudavam a cor ao fogo, mais de um metro e setenta e enlouquecer os homens dos anos trinta, e quem a levou foi o moço distinto, o Afonso, de quem herdei o aparente, que virou o nome e criou a Osnofa das cozinhas.
E o Afonso foi escolher um destino improvável na década de cinquenta. Ter um desastre de automóvel que de si fez um vegetal sob lençois brancos e um grande H à porta.
Com dois filhos menores, a minha avó viveu nove anos a esperança mais cruel. Afonso cedeu depois de os viver algures que não nele.
Dizem que, antes e depois, anos a fio, os filhos a ouviam chorar baixinho, todas as noites à mesma hora, que é a hora em que os corpos dos esposos se encontram para comunicarem o amor. Não interessa se feito ou não, mas dito com a pele junto ao tecido.
Prolongou esse amor louco sobre os filhos, sobre os netos e os bisnetos. Até sobre as noras e as mulheres dos netos.
Viveu 25 anos sob o mesmo tecto e sobre o mesmo chão que eu.

Só, levou uma empresa e os jovens filhos no regaço.

Até hoje. Quase 87 anos depois de ter nascido.

Não é só mais uma, é a minha avó Glória.

Perdoa-me, Glória, o despudor de o dizer ao mundo, mas tu mereces.
Perdoa-me, mundo, o desconforto da partilha da dor, mas acredito que algo se soma a cada um, quando nos deixamos cair em partilha.

Sempre desejei que ela nunca se apercebesse da proximidade deste momento, porque era ideia que temia.
Desejo satifeito.

Antes do desaperto do laço, foi-se a luz, suavemente.

E eu, depois da confusão do ser e do parecer, já só rio de saudade.

E quero aquilo que já não sabia que queria.

Levá-la, como levei, ao cabeleireiro às 6:30h da manhã, na 4L da empresa, e surripiar-lhe a carrinha para os meus primeiros passeios.
Ela, que foi o único público digno do meu Fado de Coimbra. Só ela me obrigava a cantá-lo, enquanto a 4L saltava violentamente nos buracos da estrada, e me ouvia embevecida. E é dela a minha capa de estudante e a minha toga, supremo orgulho.

É assim que me imagino a levá-la onde ela quiser ir hoje.
Naquela mesma 4L branquinha, a cantar-lhe a samaritana.

Adeus aí, plebeia de sical:) (leia-se "sicá")

Adeus, avó.

Pedro Guilherme-Moreira
2004-02-26

2004-02-13

O ÚLTIMO DIA DE PORTO

Está tudo em caixas.
Menos a alma.
Hoje, pela manhã, agasalhado no sol frio de Fevereiro, a viagem quase dois mil entre Valadares e o Porto não foi bem uma viagem, foi antes o rumo do meu útlimo pequeno-almoço de trabalhador da invicta, com a lentidão necessária de uma despedida, mastigando cada esquina e pormenor. Nove anos depois.
A descida de General Torres e a beleza da Ribeira a inundar os olhos.
O ferro da ponte.
A arcada do túnel.
O cinzento luminoso do infante. O palácio da Bolsa a brilhar, sob o sorriso vermelho do Ferreira Borges.
As mercearias sobreviventes da Mouzinho.
O vislumbre das Flores e os Lóios, onde me recolhi ainda estudante.
A rua proibida, as traseiras do Banco de Portugal, a Fábrica e o acesso ao Estrela e ao Aviz, onde também me licenciei.

A descida à praça, os Aliados, a fuga para Sá da Bandeira, que bonita está a minha rua.
A chegada ao escritório e a vontade incoerente de não estacionar, e de hoje andar em círculos entre o meu quarteirão, a Guedes de Azevedo, os semáforos do Silo-Auto e o quiosque do senhor que não tem quiosque e que agora trocou o velho 127 por um Smart, a descida da Rua do Bolhão e os juízos criminais ao fundo, onde ia todos os dias nos primeiros três anos. O troço largo da Firmeza, as lojas de acessórios de automóveis, e de novo Sá da Bandeira, os lanches na Deu-la-Deu, os almoços na Cunha, o escritório do 651 do Eneda, e depois este do 594, prédio altivo, porta de ferro, elevador de pérola, caixinhas do correio de rebuçado.

O meu recanto de 9,5 m2, os quadros das minhas fotos de Veneza,a Rua Guilherme Moreira, o diploma do Lopes Cardoso, o canudo ainda no chão, por pendurar, há anos, os processos amontoados com paixão e carinho, o sofá bordeaux dos acompanhantes, a cadeira dos clientes, o pó de um arrendamento acabado.

Mudo de escritório pela terceira vez, mas é a primeira vez que parto do Porto. Aqui nasci, aqui vivi, aqui estudei para não me licenciar aqui, mas em Coimbra, aqui cresci advogando nove anos.

Hoje não tenho corpo, só emoção.
Convosco, que sois um grande talhão do meu mundo e da minha vida de hoje, a partilho.

Agora, com vossa licença e um grande sorriso pelo amanhã, vou voltar às caixas e caixotes.

Certo de que virei à minha cidade mais alguns milhares de vezes, não será ao meu recanto, onde sempre repousei nas noites de S.João. Agora, bem feita, fico apeado, como o povo todo.

Quis apenas fotografar este momento, o útlimo momento em que este pequeno rectângulo ainda é um escritório.

Pronto. Agora já não é. Olá Valadares.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-02-13
certo da melhor sorte, nesta Sexta-Feira 13:)))