2003-09-29

SILVA PEREIRA NO MEU BARBEIRO

Para memória futura, como diz o outro naquelas pungentes reportagens da TVI (essa expressão tem o meu vómito automático, nos dias que correm), aqui ficam uma pergunta e uma aposta do meu Barbeiro. A voz do povo é normalmente sábia, embora às vezes (muitas), também prodigamente demagógica. Fica à vossa apreciação o que decorre da seguinte...

...pergunta: "Como é que eu hei-de estar sossegado, sabendo que um recurso meu pode ir parar às mãos de uma pessoas que perde a calma desta maneira? e ainda por cima é Presidente da Relação, não é?"

...e aposta: "Aposto que o homem não vai ser punido por ninguém! Nem pelos tribunais, nem pelos "chefes" dele! Se fosse um zé-ninguém....Por mim, era já demitido!"

Conclusão:

Foi muito difícil, perante tais dúvidas ou tormentos, defender o colega do foro.

E dizia eu que este "merda affaire" não prejudicava a imagem da justiça...

Pedro Guilherme-Moreira, 2003-09-29

ADAPTATION

O (bom) cinema é assim: suavemente, pode podar a nossa percepção do cerne das coisas. Que renasce mutante.

Não é meu costume oferecer flores por causa do que quer que seja.
Ofereço flores porque sim.
Gosto, aliás, de dar porque sim.
O "porque sim" é a minha filosofia contra o mercantilismo das emoções.

Não gosto de comprar flores.
Mas gosto de ver o sorriso na transparência da pétala.

A minha indiferença em relação às flores mudou, contudo, desde que vi o "Adaptation", do Spike Jonze.
A forma como ele filma, num primeiro olhar (não num último, em que se pretende banalizar a flor aos olhos de Sursan/Meryl Streep), a orquídea-fantasma, conjuntamente com a explicação científica da capacidade de adaptação das flores e dos insectos uns aos outros (as orquídeas assumem normalmente a forma do insecto que as poloniza), é de nos atirar por terra.

Tenho, pois, de agradecer ao Spike o nascimento das flores no meu regaço.

Nicholas Cage, o desalinhado do clã Coppola, é para lá de soberbo (anda aí a Sofia a ser soberba atrás da câmara, também:).

Mas isso levar-me-ia a uma dissertação sobre os óscares que não pretendo agora.

Fica o sorriso amarelo pelo título em português ("Inadaptado"), redutor , como de costume, e até "muito mentiroso".

Pedro Guilherme-Moreira

2003-09-16

Historias de Sá Mucondo- o leão, o sol e a chuva

Sá-Mucondo vinha caminhando pelo mato. Seguia um estreito carreiro calcado no capim. A época das chuvas já lá ia e o mato estava agora seco. Fazia tempo que não chovia.

Ao longe viu um leão. Se calhar não se devia aproximar dos leões. Mas aquele leão era diferente. Tinha uma juba ruiva. E um sorriso tranquilo. O leão estava sentado à beira do rio.

Sá-Mucondo aproximou-se.
- Olá amigo leão - disse.
O leão ficou admirado com a presença de Sá-Mucondo. Mas respondeu, com um sorriso:
- Olá ! Quem és tu ?
- Sou o Sá-Mucondo. Um contador de histórias.
- E o que fazes por aqui ? - perguntou o leão ao Sá-Mucondo.
- Vinha a passar. Vi-te à beira rio. Vim dizer-te olá.
O leão sorriu para o Sá-Mucondo. Não era normal os leões sorrirem. Muito menos a contadores de histórias. Os leões eram caçadores. Vigorosos. Cheios de vida. Mas aquele leão parecia diferente. Tinha um sorriso.

Ficaram, depois, os dois um bocado à conversa. Falaram do sol. E da chuva. O Sá-Mucondo contava histórias. E o leão ouvia. Quando a noite começou a cair Sá-Mucondo despediu-se do leão.

- Adeus amigo leão.
- Adeus Sá-Mucondo.
Sá-Mucondo voltou ao carreiro calcado no capim. E seguiu o seu caminho.
No dia seguinte Sá-Mucondo voltou à beira do rio. E lá encontrou o leão.
- Olá amigo leão - disse.
E o leão respondeu-lhe com um sorriso: - Olá Sá-Mucondo.
E ficaram ali à conversa. Falaram do sol. E da chuva. O Sá-Mucondo contava histórias. E o leão ouvia.
Nos dias seguintes Sá-Mucondo voltou a passar por ali. Não lhe ficava em caminho. Mas foi-se habituando. Seguia o estreito carreiro, calcado no capim. E, quando chegava à beira do rio encontrava o leão. E ficavam a conversar. Sobre o sol. E a chuva. O Sá-Mucondo contava histórias. E o leão ouvia.

Sá-Mucondo foi sentindo uma estranha necessidade de estar com o leão. De com ele conversar. Sobre o sol. E a chuva. De contar histórias. E de sentir que o leão ouvia. Por isso todos os dias seguia o estreito carreiro, calcado no capim. Até à beira rio. Esperando encontrar o leão. Para lhe contar histórias. E ele ouvir.

Até que um dia, quando chegou à beira rio, Sá-Mucondo não viu o amigo leão. Ficou triste. O que havia agora de fazer ? Gostava de estar com o leão. De com ele conversar. Sobre o sol. E a chuva. De contar histórias. E sentir que o leão ouvia.

Mas o leão fora caçar. Sá-Mucondo esquecera-se que os leões têm de caçar. Que gostam de ficar sentados à beira rio. De ouvir histórias. Mas têm de caçar. E por isso não podem estar sempre à espera. Para conversar. Sobre o sol. E a chuva. E ouvir histórias.

Sá-Mucondo olhou para o rio. E ficou ali a vê-lo correr. Foi então que reparou na imagem que se reflectia nas águas límpidas. Era a sua imagem. E percebeu como era diferente. Não era um leão. Vigoroso. Cheio de vida. Era um Sá-Mucondo. Um contador de histórias... Das suas histórias. Que só ele entendia. E que só ele imaginava. Por isso também imaginara que o leão sentia a mesma necessidade. De conversar sobre o sol. E a chuva. E de ouvir as suas histórias. Era isso. Tinha criado uma história. A história do leão que gostava de ouvir o Sá-Mucondo. Só podia ser uma história que ele tinha imaginado... O leão era um caçador. Vigoroso. Cheio de vida. E ele, um contador de histórias...



Nuno Albuquerque

2003-09-04

O QUE O FOGO FAZ - Relato de uma Viagem

(...) Esta semana fui convidado a ir a Malpica do Tejo. Para
quem não sabe onde fica, pensem em Castelo Branco. Agora tornem cerca de 20
Km para o lado de Espanha. No mapa é bem capaz de ficar em cima do risco que
divide os dois países. Aí está Malpica do Tejo!


Em Malpica do Tejo, apesar de ser Distrito de Castelo Branco, não existia
nenhum incêndio! Aquela é uma terra calma, de um casario imaculadamente
branco, estradas empedradas e de paralelo, onde os "velhotes" ainda andam na
carroça para ir à sua horta que fica a uma hora de caminho com o burro a
puxar... Ali conhece-se o sossego. Temos tempo para contar as estrelas do
céu. Enfim... um local de sonho para quem gosta de sossego. Não há nada para
ali fazer que não seja... fazer nada.

Fogo, já o disse não existia ali. No caminho que fiz (fui de Alverca pela A1
até Abrantes e depois pelo IP2 tentei ir até Castelo Branco) fiquei a
conhecer pelos meus olhos a desgraça que assolou o País. Não precisei de
mais de 20/25Km pelo IP2 dentro para ver que o "barbeiro" ali tinha passado.
Tudo negro. Aquilo que há um mês (quando lá havia passado pela última vez)
era uma paisagem que se começava a amarelecer com o calor do sol... Enfim...
já estava ardido nada a fazer! Desejei que o resto do caminho assim não
estivesse. Errei! O caminho estava todo assim!!!! Golegã, Constância, Gavião
e por aí diante estava tudo em chamas, tudo ardido! O fumo no ar não deixava
que eu visse para além de 1Km na linha do horizonte. Depois... bem depois
era um nevoeiro denso, um fumo negro como nunca havia visto!

Chego ao Fratel e... IP2 cortado ao trânsito. Andavam por lá os soldados da
paz atrás do "barbeiro malvado". Nem valerá a pena dizer-vos que a nuvem de
fumo que me dava, há uns quilómetros, alguma visibilidade era ali de uma
densidade que não me deixava mais de 500 metros para a frente com
visibilidade aceitável! Na estrada funcionários da SCUTVIAS e elementos da
BT indicavam os caminhos alternativos. Pareciam ET´s com aquelas máscaras
brancas...

Segui o caminho alternativo que me indicaram. Já com algum ardor nos olhos e
secura na garganta, confesso.

O meu carrito não é novo e eu não troquei o ar condicionado pelos piscas.
Preferi os piscas. Por isso, com calor tenho de andar com janelas abertas. O
que, bem estão a ver, me dificultou a viagem. Era escolher entre calor e um
fumo dissimulado dentro do carro ou uma janela aberta e um ar queimado a
circular. Viesse o diabo que eu já estava por tudo. Abria a janela, fechava,
abria... e só me lembrava da àgua que a minha mãe me ofereceu para levar e
eu havia recusado. Que jeito ela dava naquela hora.

Lá sigo eu, por estradas de curva e contra curva a caminho de Nisa!!! O fumo
no ar continuava e densificava-se a cada quilómetro. Chego a Nisa e, com
muita tristeza, vejo as pessoas da terra do bom queijo ( e não só...) como
tinha visto a BT há muitos quilómetros atrás: de máscara. Compreendi,
aceitei e ficava furioso! Mas continuei caminho em direcção a Vila Velha de
Ródão! Tudo igual. Muitas curvas, muito fumo, muito trânsito, muita revolta
pelo que via. O fogo esteve ali!

Passei em cima do Rio Tejo. No meio umas ilhotas tinham daquela vegetação
espigada. Até aí, no meio do Rio estava a arder!!!!!!!!! Triste, muito
triste.

Entretanto chega Vila Velha de Ródão passo e mais adiante... seta a indicar
Perais. Estava na minha hora de fugir do meio daquela desgraça. Andei,
andei, andei. Talvez 20 Km. Um pouco mais não será exagero. Não vislumbrava
fogo para onde quer que olhasse. Mas o fumo perseguia-me. Muito fumo!
Passo Perais, Alfrívida e Lentiscais (quando quiserem comer umas migas de
peixe do rio inigualáveis lembrem-se dos Lentiscais, num restaurante
familiar onde só se come disto e tem de se marcar primeiro!!!). Talvez
30/35Km depois de ter saído de perto do fogo. O fumo continua a
perseguir-me. Malpica não estava longe! mais 5 Km e era meu aquele cantinho
de sossego!

Cheguei!!!!!!!! Infelizmente trouxe o fumo comigo. Posso arriscar que num
raio de 30 a 40 Km não havia fogo (nem tão pouco teria existido fogo nos
últimos dias ali nas redondezas). Mas o fumo fazia pensar o contrário. Era
tanto e tão denso que não haviam estrelas no céu. Ou melhor elas estavam
lá... nós é que não as víamos! Os velhotes da terra aflitos. Uns com
dificuldade para respirar, outros com máscara e indecisos entre continuar a
cumprir o velho hábito de se sentarem junto à porta de sua casa a trocar
palavras que o vento nunca há-de levar com o vizinho da frente ou
fecharem-se dentro de uma casa fustigada pelo calor que se fazia sentir.

O fogo... o fogo mexeu com Malpica meus senhores! O fogo mexeu com uma terra
longe de tudo mas tão perto do sossego. O fogo mexeu com os hábitos daquela
gente. O fogo desassossegou uma terra que nunca havia conhecido a exaltação.
O fogo... o maldito fogo!
Para que vejam o quanto Malpica mudou nestes dias posso dizer que lá estive
três dias. Três dias em que deu para que o meu carro, junto às escovas do
pára-brisas, acumulasse cinza!!! Cinza de um fogo que não era dali, mas que
ameaçava aquela gente pelo cheiro do seu fumo! A festa da terra não teve
fogo de artifício. Não teve muita gente. Que desolação. Quem é chegado a
Malpica sabe a devoção que as pessoas têm ao Santo da Terra. O "A Santa
(N.S. das Neves) não foi honrada" dizia um velhote olhando para a nudez de
uma festa que prometia.

O fogo trouxe tristeza a Malpica.Tirou-lhe as estrelas, o céu!

Estou triste porque vi o fogo, vi Malpica triste e desassossegada!
Solidário com quem sofre com ele.
Admiro e respeito quem o combate.

LUÍS MIGUEL JESUS, 2003-08-08